domingo, 30 de abril de 2017

WPP



Parece que voltou a Lisboa o World Press Photo.
É daquelas coisas que acontece todos anos, assim como o Carnaval ou as constipações outonais: temos que viver com isso.
Claro que o “temos” é muito relativo. Não apenas ano após ano eu não ponho lá os pés como todos os anos faço isto: uma publicação contra o evento.
Não contam comigo num concurso anual sobre fotografia de imprensa ou jornalística em que a esmagadora maioria das imagens mostram sofrimento, tragédia, drama, guerra, violência…
O fotojornalismo é mais que isso, muito mais, e os periódicos impressos mostram muitas mais fotografias que apenas esse tipo de imagens trágicas.
Não contam comigo para divulgar ou incentivar com a minha presença num evento que, dizendo-se de fotojornalismo, apenas mostra o lado mau da vida.
A fotografia – e a vida – é muito mais que isso!
Quando o WPP decidir alargar os seus critérios e prémios a todo o tipo de fotojornalismo, contam comigo.
Entretanto, saiba-se que não ponho em causa a qualidade das imagens premiadas, bem pelo contrário.


By me

Códigos



Servem a língua e as palavras para bem nos entendermos. E gosto de usar as certas para que não aconteçam mal-entendidos.
Filmar ou gravar, câmara ou máquina, tirar ou fazer… há vários termos ou palavras que há que usar correctamente sob pena de não nos entendermos em pleno.
Mas também poderemos usar outros termos em substituição: batata frita, sandes de atum, maionaise de gambas... desde que quem fala e quem escuta entendam o mesmo, o som ou a grafia podem ser o que quisermos.
Autores há que se sentem suficientemente livres para inventarem palavras. Termos que correspondem a situações ou sentimentos para os quais não existiam definições simples, se alguma.
Não sou autor de renome nem fotógrafo conceituado. Mas também gosto de fazer corruptelas ou inventar termos ou imagens que, de um modo ou de outro, exprimem o que sinto e que penso serem interpretados com rigor ou muito perto do que quero ou desejo por aqueles a quem me dirijo.
A questão está, muito frequentemente, se o que digo ou faço corresponde ao que quero ou sinto querer ou se fica aquém disso por incapacidade minha.
Mas, em qualquer dos casos, códigos privados para destinatários restritos.

O que os demais entenderem será mera especulação.

By me

sábado, 29 de abril de 2017

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Juro que quando vejo trabalhos de algumas pessoas que se intitulam “fotógrafos” fico a perguntar-me se terão sido atiradores especiais na tropa.
E se confundem o visor da câmara com a mira telescópica da carabina.
É que só sabem enquadrar com o centro de interesse bem no centro da imagem, seja qual for o centro de interesse, seja qual for a sua orientação, seja qual for a sua relação com os demais elementos, seja qual for o fundo.

Nem sei como o exército está a perder tantos especialistas no tiro ao alvo.
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Fotografia



O Homem é gregário! Sobre isto não sobram dúvidas. É-o para procurar a força que o grupo dá e é-o para encontrar a segurança que o grupo oferece. E, acessoriamente, é-o porque o Homem é uma animal que comunica e necessita de um igual para comunicar.
Mas o Homem necessita também de se afirmar no grupo em que se insere. Afirmar-se como pertencendo ao grupo e afirmar-se como alguém especial no grupo.
Pouco importa que este grupo seja no campo da política, do desporto, da religião ou filosofia ou das artes. Ele diz que é adepto de, praticante de, crente em e, ao dizê-lo, procura os adeptos de, os praticantes de, os crentes em com os quais se identifica e com quem pode partilhar interesses.
Mas também diz que é o maior adepto de, o melhor praticante de, o mais fervoroso crente em. E fazem-se competições, avaliações, demonstrações para provar que não só se pertence ao grupo como, dentro dele, se é especial.
Há ainda uma outra forma de grupo com a respectiva identificação e consequente tentativa de afirmação no seu seio: a posse! A posse de bens móveis ou imóveis define grupos de possuidores. E o gosto pela posse do possuído ou pela sua utilização. A evidência do indivíduo no meio do grupo de possuidores é aferida pelas qualidades do que se possui: a maior biblioteca, o melhor carro, o luxo da dómus, a tecnologia.

No caso da fotografia sucede o mesmo.
Podem-se considerar dois, talvez três tipos de grupos: os que gostam de ver fotografia e os que gostam de fazer fotografia.
A afirmação individual dentro do primeiro grupo passa pelo conhecimento que se tem sobre autores, técnicas, estéticas e história e pela posse de documentação sobre isso. Quantidade e qualidade: muitos livros, muitas fotografias, trabalhos de mestres, obras de mestres.
Já a identificação e afirmação no grupo dos que fazem fotografia se pode dividir em dois sub-grupos: os que possuem os meios técnicos de a fazer e os que possuem qualidade no que fazem.


Nota intercalar:
A fotografia de Daguérre tal como a imprensa de Gutemberg podem ser – e são – considerados marcos na história da comunicação e do desenvolvimento da humanidade. E se a imprensa veio substituir o trabalho elaborado e elitista dos copistas, fazendo com que a mensagem por códigos-padrão (escrita) fosse acessível a todos e em todos os lugares, a fotografia veio “paralelizar-se” com a pintura no acesso à mensagem gráfica sem códigos-padrão (imagem).
Simplificou os processos de produção da imagem, passando a ser possível a qualquer um a sua produção e globalizou o seu consumo, passando a ser possível um sem-número de exemplares, fiéis entre si, todos originais (ao invés da pintura), e fora dos museus e galerias privadas.
Indo mais longe, e com a simplificação das técnicas fotográficas, deixou de ser necessário ser-se um especialista para produzir fotografias. A indústria evoluiu no sentido de deixar ao consumidor apenas o trabalho de apontar e premir o botão, deixando o trabalho monótono e elaborado da revelação e impressão para os laboratórios e técnicos especializados.
Actualmente, com os suportes digitais, mesmo aqueles estão quase que condenados à extinção, já que câmara e computador pessoal se completam.
Acontece que a simplificação dos processos elaborados (hardware) não veio alterar profundamente os processos intelectuais (software) da criação da imagem.
Continua a ser necessário “Pensar” na imagem, imaginar o resultado final, saber-se o que se quer mostrar ou contar, conhecer como transformar a tridimensionalidade e os cinco sentidos na bidimensionalidade e na exclusividade da visão. E, neste campo, não há tecnologia que simplifique. Há que pensar e sentir, mesmo que não se pense ou sinta que se está a pensar ou sentir.
E não nos enganemos: Isto dá trabalho! Muito trabalho! É a tentativa e erro, é o estudo, são as inúmeras frustrações por cada satisfação, é a paciência, é a pré-disposição diária para o fazer…
Mas, se pensarmos um pouquinho no comportamento humano, chegamos à conclusão que o bicho-homem não gosta de trabalhar. Toda a evolução das civilizações e das técnicas foi e é no sentido de facilitar as tarefas, de minimizar o esforço, de aumentar a satisfação. Fotografia incluída!
Donde a lei, quase universal, do menor esforço, não se coaduna com o trabalho físico e intelectual. Aquilo que se procura – uma forma fácil e sem esforço de fazer fotografia – é quase uma impossibilidade!

Temos assim que, no grupo humano dos fotógrafos, a evidencia do individuo se torna difícil porque trabalhosa.
Mais ainda, esta evidência não depende apenas do esforço do próprio mas também (e muito) do reconhecimento que o grupo lhe dá. Não basta fazer fotografias que agradem ao próprio: Têm que agradar ao grupo dos fotógrafos.
Mas o conceito “Agradar” é particularmente variável. Depende das correntes estéticas em voga, depende da opinião dos lentes académicos e daquilo que o mercado e negócio impõe.
Desta forma, aqueles que fotografam para “agradar”, que procuram o destaque no grupo, estão dependentes das variações culturais e das opiniões de quem influi. O ser-se bom não depende do esforço próprio.
Resta assim, àqueles que se querem evidenciar na fotografia e que não conseguem ser reconhecidos pela sua actividade, gritarem bem alto “Eu posso fazer porque tenho a melhor ferramenta!”
Deixou de ser uma afirmação no grupo pelo desempenho para passar a ser pela posse. E esta, porque material e mensurável, é comparável. E o que tiver a câmara mais sofisticada, a objectiva mais potente ou luminosa ou o laboratório ou PC mais completo é um “mais” no grupo. Afirma-se como elemento de destaque!

Claro que, no meio desta análise bastante cínica e materialista, quiçá minimalista, falta incluir alguns elementos da espécie humana: aqueles que, pertencendo a um grupo, não se preocupam em o ser ou em serem especiais no seu seio.
São aqueles que fotografam apenas e só porque lhes dá prazer fazê-lo e não para reconhecimento no grupo dos que fotografam. E para quem o reconhecimento é um factor acessório e não vital. Usam a fotografia como forma de expressão pessoal como outros fazem com a escrita, a pintura e outras “artes” E se os outros gostam ou não, problema deles. E, muito naturalmente, não se preocupam em se afirmarem pela ferramenta que possuem!
Alguns desta categoria obtêm do grupo – e da humanidade – o reconhecimento de qualidades. Alguns mesmo acabam por tirar proveito disso, já que conseguem juntar a actividade que lhes agrada com a actividade que lhes dá o sustento.
Alguns outros só tarde na vida, senão mesmo depois de mortos, são objecto desse reconhecimento de qualidade.
A uns e outros, é dada a categoria de mestria!

E, em chegando a este ponto e porque mais não me apetece escrever por agora sobre o tema (e muito haveria para dizer), resta-me deixar uma afirmação:
Nenhum daqueles que são considerados “Bons fotógrafos”, façam ou não disso o seu objectivo ou ofício, o conseguiram sem muito trabalho. E sem conhecerem, em profundidade, o mundo e o Homem!


Imagem: “Um homem de caridade”, by Eugene Smith
By me

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Kodachrome



Olhei para este céu e uma palavra jorrou na minha mente: Kodachrome.
Mas não só já não se fabrica como poucos já são os que ainda dele se lembram.

Quanto ao meu telemóvel… coitado, é incapaz de sequer se aproximar da excelência.

By me

Moto continuo



O Moto Continuo, ou Movimento Perpétuo, é algo que o Homem procura há muito.
Um movimento ininterrupto, sem necessidade de usar energia externa ou combustível, e que esse movimento seja passível de ser usado como forma de energia para uso em prol do Homem.
Claro está que a Ciência tem demonstrado através daquilo que sabe, e de que faz lei, que o Moto Continuo é impossível. Atritos, perdas térmicas e outras minudências técnicas impedem que a energia produzida seja maior que a energia aplicada.
Aquilo que conhecemos de mais próximo ao Movimento Perpétuo será o movimento dos astros e as forças de atracção e repulsão entre eles.
No entanto, julgamos saber que mesmo isso é finito, já que presumimos que toda as estrelas (ou corpos celestes emissores de luz ou outras formas de energia) cedo ou tarde se esgotam e se apagam ou explodem.
Portanto, perpétuo coisa nenhuma. Não há movimentos, e consequentes energias, perpétuos!
Claro que podemos sempre tentar definir o conceito de”perpétuo”: À escala da vida de um ser humano? À escala da existência da humanidade? À escala, calculada, da idade da Via Láctea e do que dela podemos prever que ainda existirá?
Donde, o Moto Continuo ou Movimento Perpétuo não pode existir porque o próprio conceito de “Perpétuo” não passa de um sonho teorizado, derrubado pela especulação científica.
Mas devo confessar que me agrada a impossibilidade da existência do Movimento Perpétuo. Porque se assim é quando aplicado a dois ou mais pedaços de matéria, quiçá energia também, nos referentes espaço/tempo, então o Movimento Perpétuo também não é aplicável ao Homem, porque parte integrante, e não excepção, do universo que conhecemos e especulamos.
E haver movimentos criados pelo Homem que sejam perpétuos é algo que me assusta para além do terror.
Que um movimento que seja perpétuo, seja ele científico, esotérico ou estético, acaba por se tornar numa sensaboria, num conservadorismo atroz, numa situação que, pareça embora uma contradição, não o é: um movimento intelectual perpétuo acaba por se tornar imóvel e imutável, deixando de ser movimento, ainda que perpétuo.
Agrada-me assim, de sobremaneira, que o Movimento Perpétuo não exista. Que o Homem se sinta tentado em quebrar os rumos e impulsos do passado e procurar novas fronteiras, dentro e fora de si, que procure inovar contra todos os que se acomodaram aos pseudo Moto Contínuos criados no pensamento.

Abaixo o Movimento Perpétuo! Acima o fim das coisas e o nascimento de novas ideias. Eu mesmo e o universo incluídos!

By me

quinta-feira, 27 de abril de 2017

I - Ching



A primeira vez que tive conhecimento do I-Ching tinha eu uns 19 ou 20 anos. Constava de um romance de ficção científica e achei graça ao que dele descrevia – conteúdo e teoria. Mas tinha eu um mundo inteiro para aprender e descobrir, e guardei o I-Ching naquela gaveta do cérebro onde arquivamos os assuntos pendentes mas não urgentes.
Talvez dez anos depois encontrei um pequeno opúsculo sobre o tema.
Continha ele uma descrição mais que abreviada de um resumo sobre o I-Ching, com os textos dos Hexagramas compactados a uma ou duas frases. E eu, que pouco ou nada sabia do assunto, recordei a minha juventude e o que havia guardado e fiquei ainda mais curioso. Só que, desta vez, fui investigar.
E fui encontrar o Livro das Mutações, traduzido do Chinês para Alemão por Richard Wihelm, traduzido para Português por Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto, com prefácio de C. G. Jung. Este último nome dava alguma credibilidade ao que via, pelo que o li por inteiro.
Por “inteiro” entenda-se toda a parte introdutória e explicativa referente à primeira parte – métodos e teorias – e, da segunda parte, as explicações sobre o desenvolvimento dos textos originais. E pu-lo em prática por muitas vezes.

O que me leva, a mim agnóstico, materialista e com tendências algures entre Marx e Bakunine, a dar crédito ao I-Ching?
Para já, o facto de o ser e de o I-Ching não se basear num determinismo divino ou estrelar. Baseia-se, antes sim, num conceito que eu mesmo defendo: “Tu podes assim tu queiras!” ou, por outras palavras, “O futuro depende de ti e dos teus actos!” E o Livro das Mutações não nos fala senão daquilo que estamos preparados para ou somos capazes de fazer num dado momento, considerando os prós e os contras. É uma consulta ao “Eu” realmente íntimo, presumindo que é usado seriamente.
Por outro lado, a teoria que justifica o seu funcionamento: a criação de energia na mente, a concentração prolongada sobre um dado assunto, a capacidade de canalizar essa energia assim gerada para a matéria. Tudo isto é perfeitamente consentâneo com as minhas próprias teorias, algumas baseadas no que aprendia aqui e ali, outras realmente originais. Não que outros não possam já ter pensado o mesmo e até dissertado sobre o tema, mas ainda não o encontrei.

Do que li, nas diversas publicações que consultei também, duas abordagens são possíveis: o uso de moedas como interface com o Livro das Mutações, ou varetas.
Depois de ter usado as moedas durante algum tempo, acabei por adoptar as varetas, que têm como vantagem a lentidão do processo, permitindo uma maior concentração na questão e um maior fluxo energético. As moedas permitem uma maior rapidez, com uma menor transmissão energética no momento da consulta e obrigando a que seja o seu proprietário a usa-las em exclusivo.

O elo mais fraco em toda a teoria do I-Ching são os textos dos Hexagramas. Porque estão eles certos e porque, perante uma dada circunstância, são uns e não quaisquer outros os aplicáveis?
Por um lado porque acredito que os antigos e os antigos dos antigos, bem como os antepassados dos antigos dos antigos, foram pensando com base em observações e teorizando. E que os seus descendentes foram, aos poucos, confirmando e afinando o que deles recebiam até constatarem que mais não havia a mudar. Há quem chame a isto de “sabedoria popular”, só que, neste caso, escrita.
Por outro, se os textos dos Hexagramas foram concebidos numa época e local em que a estrutura social se baseava num regime feudal e bem hierarquizado, em que a guerra era parte integrante do quotidiano das gerações, em que a natureza e as suas manifestações eram exemplos a seguir, não vejo em que medida isso seja diferente dos dias de hoje. Excepto que sabemos mais sobre as moléculas, sobre a gestão das energias e de como as canalizar para as armas, e que os senhores feudais mudaram de nome para banqueiros, presidentes e empresários.
Quanto ao derradeiro aspecto que diferencia as duas sociedades – o papel da Mulher – só muito recentemente na escala da história do género humano, ela passou a assumir um papel público e notório.

Com base em tudo isto tenho feito as minhas próprias consultas ao Livro das Mutações. Espaçadamente, talvez nem uma meia centena de vezes ao longo dos últimos vinte anos.
Como em muitas outras questões de fé – e o I-Ching também o é – consulto-o em momentos de decisão difícil: quando confrontado com encruzilhadas na vida, sérias, e em que tenho dificuldade em escolher um caminho. Não em busca de algo ou alguém que me indique por onde seguir, mas antes perceber as minhas próprias motivações e tendências.
Uma época houve, logo de início, em que anotei as questões colocadas e os Hexagramas correspondentes, as linhas fortes e as linhas fracas. Tempos passados, revi as anotações, as circunstâncias e as decisões que então tomei. E respectivas consequências. Nunca achei que me tivesse enganado.
Claro está que o simples facto (muito cientifica e psicologicamente falando) de ter estado, a cada consulta, perto de uma hora concentrado e meditando sobre a questão em causa, origens e consequências, pode estar na raiz de uma decisão acertada sobre o caminho a seguir. Provavelmente estará, mas o I-Ching ajudou-me, acho eu, a encontrá-lo.
Não é assunto – o Livro das Mutações – de que eu fale muito. Se, por um lado, dá um bocado de trabalho explicar o seu funcionamento e, nos tempos que correm, qualquer coisa que necessite de mais de cinco minutos de explicação é um enfado para quem ouve, por outro não me apetece ser olhado ainda mais como um espécime raro e merecedor de tratamento de excepção por parte dos que me rodeiam.
Mas lá acontece o tema vir à baila. E, entre os presentes, lá vem um ou outro que quer experimentar. O que eu aceito, ainda que não incentive.
É que, não só não é como ir à feira popular como, não sabendo eles as rotinas de manipulação das varetas, tenho que ser eu mesmo a fazer as divisões secundárias. E para isso, e para que a minha própria mente e energia não interfira no processo, obrigo-me a esvaziar-me por completo, concentrando-me em algo de branco, imenso e vazio, deixando como único elo de ligação com o que me rodeia o acto de dividir as varetas. Posso assegurar que é algo de esgotante e que recuso terminantemente fazer mais que uma ou duas vezes por semana.
No entanto, e bem curioso, a esmagadora maioria dos que quiseram consultar o Livro das Mutações confidenciaram-me, mais tarde, que a experiência os tinha assustado e que não gostariam de repetir. Quer seja porque o facto de pensarem seriamente num assunto importante os assustou, quer seja porque a interpretação dos textos que leram os incomodou, certo é que se tentasse fazer negócio com o I-Ching não teria clientes repetidos.
Em qualquer dos casos, quer seja uma viagem solitária, quer seja com alguém a servir de suporte, sugiro que pelo menos uma vez na vida se mergulhe a sério no I-Ching.

Do que daí advirá… bem, é uma viagem ao interior de cada um.

By me

Carta a um ex-aluno



Ontem, ao comprar um livro, acabei por estar de conversa com a mocinha da loja. E porque a ideias convergiam, sugeri-lhe que fosse procurar este texto.
Escrito por José Valente e publicado no jornal Público em 1994, afixei-o na altura num painel na escola onde trabalhei. De permeio com os demais anúncios e avisos de carácter que alunos e professores ali colocavam. Quando me vim embora ainda lá estava.
Volta e meia repito-o aqui. Que haverá sempre quem por aqui passe e não o conheça. Ou quem por aqui passa e que dele já se tenha esquecido.

“Carta a um ex-aluno
Sem que verdadeiramente o tivesses notado, entre a boémia e as lutas estudantis, voaram os cinco anos que te separavam do primeiro emprego. Prolongaste habilmente a adolescência até onde te foi possível. Até hoje. Subitamente descobres que se tornou inconveniente o protesto, arriscada a crítica, imperdoável a irreverência. Há quem ache que crescer é isso.

Fica desde já decretado que usarás gravata. É natural: são cada vez mais as situações em que somos obrigados a exibi-la. Felizmente não são as mais agradáveis. Claro que terás licença de porte de jeans ao fim de semana, mas a gravata é o ritual iniciático com que marcarás a entrada na idade adulta.

Pensarás agora em fazer carreira. E a carreira é uma coisa que se faz subindo. Alguns sobem por ser do partido; outros apesar de não o terem. Distingue-os o facto de os primeiros serem muito mais numerosos e de a sua ascensão ser substancialmente mais fácil. Poderás manter as tuas convicções, mas deverás optar por um prudente lusco-fusco: a afirmação da diferença exigirá que sejas profissionalmente muito melhor para que te tolerem. Mais vale não arriscares: entre a fidelidade e a competência, o poder que temos opta sempre pela primeira.

Deverás, portanto, ser cauteloso. Antigamente em cada organização havia um pide e toda a gente sabia quem era. Agora é tudo mais leve, mais solto, mais terra-a-terra: o tipo que nos trama sorri-os da secretária ao lado. Ou então foi a outra, aquela que, ainda na faculdade, passou, de repente, a cumprimentar só com um beijinho, como, de imediato, passaram a fazer a cabeleireira dela, a manicure dela e a costureira dela. De qualquer modo, a denuncia foi feita na reunião do partido e já ninguém vai preso por subversão. Apenas nos comunicam que não fomos promovidos ou que o nosso contrato não foi renovado. Por razões estritamente técnicas.

Entre um slogan e um argumento, escolherás o primeiro: a argumentação, como se sabe, é sinal da mais confrangedora tibieza. Se te couberem em sorte alguns subordinados, assumirás o protagonismo nos bons momentos e deixar-lhe-ás o ónus dos momentos maus. Os subordinados foram feitos exactamente para isso. E se, mesmo assim, te vires em dificuldades, escolherás alguns deles, elogiá-los-ás publicamente de modo excessivo e demiti-los-ás logo que possas. Se os teus erros exigirem a exposição pública de um culpado, que, pelo menos, não sejas tu. Terás, clarão, que por de lado esse apego à solidariedade: vives sob um poder que tem o autoritarismo como gramática, o pragmatismo como prontuário, a hipocrisia como respiração.

Claro que a indignação nos prega partidas. Se um dia a náusea começar a estrebuchar, talvez seja prudente resistires. A coerência é um luxo que, muitas vezes, se paga caro. Umas boas férias ajudarão. Retemperado, poderás derramar sobre essa revolta a condescendência de um sorriso.

Mas, se mesmo assim, não te resignares à surdina do ressentimento, invocarás, como justificação, um excesso de juventude. Deverás ostentar nessa invocação o mais genuíno arrependimento. O poder adora arrependidos e concede-lhes sempre um perdão compadecido e o correspondente subsídio de instalação.

Mas se nada disto te bastar, se o cansaço te encalhar num monte de urtigas e a repulsa meter uma bala na câmara, talvez possas improvisar conselhos a um qualquer ex-aluno. Deverás destinar esta carta à mais secreta das tuas gavetas. Ou então resta-te assumir que és um caso perdido. Com a vertiginosa alegria de saberes que, apesar de tudo, a adolescência continua a cascatear-te baixinho por dentro.”


Texto: by José Valente, in Público, 1994

Imagem: by me

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Luz nos livros



Recomenda-se.
E, dada a natureza do assunto, da estética e da técnica, que seja degustado sem pressas, tentando mais que apenas ver ou ouvir cada fotografia, darmos o nosso próprio tempo ao tempo destas imagens.

E que se seja capaz de largar os estereótipos da modernidade tecnológica.

By me

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Parece que o governo dará tolerância de ponto no dia 12 de Maio, justificando-a com a visita do papa.
Sou contra!
A religião é uma questão pessoal e não de estado, pelo que este nada tem que mandar todos para casa, fieis e outros.
Por outro lado, porque só a função pública tem direito a tal benesse?
Por fim, porque diabo é que eu, agnostico, vou ter os serviços publicos que pago fechados num dia de semana que não é feriado nacional?
Sou contra!

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43 anos



Há um montão de gente – eu diria mesmo um enorme montão de gente – que se queixa que a Liberdade conquistada com a Revolução acabou em quase nada.
Dizem que o dinheiro continua a ser pouco, dizem que os políticos continuam a não prestar, dizem que a gestão da coisa pública continua a ser suspeita, dizem!
Dizem mas pouco fazem! Os cafés e os tascos, agora substituídos parcialmente pelas redes sociais, continuam a ser os únicos locais onde esses que dizem fazem alguma coisa: dizer.
Que chegarem-se à frente, intervir, mudar o que entendem que está errado, substituírem os que entendem por maus, fazerem aquilo que acusam os outros de não fazerem… isso dá muito trabalho, tira horas de sono e impede o ver a bola ou a série pirateada da net.
A Liberdade, a Revolução, a Democracia, não são coisas que apenas se discutam em fóruns ou tertúlias, que se exibam na avenida, que se pratique com uma caneta uma vez a cada quatro anos.
São coisas que se fazem a cada momento que passa, ao volante, ao almoço, na junta de freguesia, no trabalho, com os filhos ou inter pares. Pratica-se, ensina-se, demonstra-se.
O deixar para os outros fazerem, com dois ou três incentivos ou manifestações anuais e praticar o resto do tempo o “salve-se quem puder” é, para além de pouco cívico, o permitir que aquilo que se contesta se perpetue, autorizado pela inércia da contestação virtual.


Não peças que aconteça! Faz!

By me

terça-feira, 25 de abril de 2017

Demasiadas



Foi demasiadamente grande a quantidade de gente com quem falei nos últimos dias e para quem a data de hoje ou nem dela se lembravam ou era apenas mais um feriado.
Para além dos negócios de ocasião (bandeirinhas, cravos vermelhos, etc) a celebração de hoje já pouco significado tem.
Que aqueles que nasceram com a Liberdade como algo natural e congénito pouco valor lhe dão ou aos que deram a cara por ela.

E eu continuo a achar que a Liberdade não se celebra: pratica-se a cada instante.

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segunda-feira, 24 de abril de 2017

Like



Aprendi na escola que o que permitiu a alguns macacos evoluírem para humanos foi o possuírem o dedo polegar oponível aos restantes dedos, permitindo o segurar e manusear objectos.
Levei meio século a perceber que o que de facto aconteceu com o dedo polegar para a nossa evolução foi o poder formar o gesto “like”.


By me

Amanhã



Não te preocupes em celebrar a liberdade. Pratica-a!
Em casa, no trabalho, na escola, na rua.

Dentro da tua cabeça!

By me

domingo, 23 de abril de 2017

sábado, 22 de abril de 2017

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Eu hoje quero que os malucos da bola vivam as suas vidas felizes mas que não mas imponham.
Por outras palavras, não me obriguem a ouvir os vossos gritos histéricos, não atrapalhem o trânsito, não me imponham as transmissões do jogo…

Por outras palavras:
Não me chateiem!

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É interessante pensar em como entendemos como bárbaras algumas tradições pascais no oriente, como o uso de coroa de espinhos ou a factual crucificação, mas achamos como um digno acto de fé a destruição das articulações dos joelhos no cumprimento de promessas em Fátima.
Talvez por ser em “nossa casa”, envolver gente conhecida ou quase e Fátima continuar a ser um sorvedouro de valores em doações e cumprimentos de promessas materiais.

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Cravo seco e morto



Já acontecem, de um modo ou de outro, as comemorações do 25 de Abril.
Algumas muito discretas antes da data real, outras preparando as manifestações e desfiles de rua no dia propriamente dito, mas já se festeja.
Infelizmente!
Digo eu, correndo o risco de ser excomungado, apedrejado, desamigado e etc.
Mas eu explico:
A revolução e o que se lhe seguiu, nos dias e meses consequentes, foi algo de único, irrepetível. Nas práticas e nas teorias, no que deixou de ser e no que veio a ser, nos discursos e nos sonhos.
Mas mais importante que o que mudou, mais importante que o que deixou de ser, foi a certeza de que o futuro é nosso, mais assim ou mais assado mas é nosso. E que somos nós que o fazemos. Com mais sacrifício ou displicência, com certezas ou às apalpadelas, o futuro estava nas nossas mãos e fizemo-lo.
Bem ou mal, poderemos sempre discutir. Mas era nosso e não o deixávamos em mãos alheias, indo lá e fazendo algo.

Não é o que sucede hoje!
A maior parte acha que alguém tem que decidir por si o seu próprio futuro e que basta uma cruzinha de quando em vez para garantir isso. E que os protestos, de rua ou de rede social, são suficientes quando as coisas correm menos bem.
Não são!
E enquanto tantos acharem que os outros é que têm que endireitar o mundo, vamos continuar submissos, venerandos e obrigados aos que acham que somos matéria-prima para o seus negócios. Nos contratos, nas segregações, nas inseguranças de futuro. Nas perseguições e nas mordaças, cada vez mais apertadas.


Enquanto as celebrações do 25 de Abril forem apenas desfiles, discursos e exibição de cravos, nunca passarão disso: celebração do passado que não se repete e não construção do futuro que queremos para nós e para os nossos.

By me 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Pensa



Recordo um dia, ainda não há muito tempo, em que ironizaram ou gozaram comigo por estar a fotografar com uma objectiva de focal fixa, manual, de vidro e sem autofocus.
Não levei a mal, claro, que quem assim se pronunciou não tinha maldade. Nem sabia o que esta objectiva pode fazer se se souber usar.
Mais ainda, se se acrescentar um anel de extensão ajustável em elicoide (peça rara, admito) tem-se uma multiplicidade de usos quase que sem limites. Eu disse “quase”, note-se.

Com a modernidade da tecnologia, que muito ajuda em situações normais, perde-se a capacidade de pensar em soluções alternativas quando as coisas se nos apresentam mais complicadas.

By me 

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O título do jornal diário on-line diz que:
“Parlamento – Esquerda unida evita chumbo do Programa de Estabilidade”
Tratava-se de uma proposta do CDS nesse sentido que não conseguiu mais votos que os do próprio e do PSD.
Claro que se o título fosse “Parlamento – Direita unida não consegue chumbar Programa de Estabilidade”, estaria a contar a mesma coisa mas com outra interpretação. Talvez mais próxima da factualidade.

Raisparta os jornaleiros de serviço e ao serviço!


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Solução



Por vezes é a única solução

By me

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Filhos



A respeito dos que acham que não devem vacinar os seus filhos, só me recordo dos que acham que não devem usar cinto de segurança nos automóveis.
Argumentam estes que, em caso de embate violento seguido de incêndio, poderão não sair se o trinco do cinto avariar.

Esquecem-se, todos, que os filhos são algo que nos passam pelas mãos para que deles cuidemos. Temporariamente.

Não são propriedade nossa nem barro para moldar à nossa imagem e semelhança.

By me

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Li, por aí algures, uma frase pitoresca:
“A morte esqueceu-se de mim!”
Não posso dizer o mesmo.
Volta e meia encontramo-nos, olhamo-nos nos olhos e adiamos para data a anunciar a boda indissolúvel.


Fica, desses encontros fugazes, uma questão por responder: Quem a marcará?
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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Press



Consultando o dicionário on-line Priberam, encontro o seguinte sobre a palavra “incidente”:

Incidente
Adjectivo de dois géneros
1- Que incide.
2- Que sobrevém;
3- Acessório
4- (Gramática) Diz-se da oração que junta à principal para explicar ou restringir
Substantivo masculino
5- Facto acessório que ocorre no desenvolvimento do facto principal;
6- Episódio;
7- Circunstância acidental.

Pergunto-me porque raio os jornas de serviço usam indiscriminadamente a palavra “incidente” quando querem falar do despiste do automóvel, do bombardeamento aéreo de uma cidade, da troca de palavras mais acesa entre dois políticos ou de um tiroteio numa cidade lá longe.
Será que nas redacções não dicionários ou ligações à net?

Ou há alguma obrigatoriedade de os jornaleiros malbaratarem a língua mãe?

By me

Relatividades



Acredita-se que o povo Romani ou Shintos, por cá conhecido como Ciganos, tenha origem no norte da Índia.
Esta teoria baseia-se, entre outros factores, na questão da língua que se encontra entre as diversas comunidades ciganas espalhadas pelo mundo.
Sobre estes factos não há certezas, já que este povo, nómada e sem história escrita ou monumentos erguidos, baseia o conhecimento do seu passado na tradição oral.
Há ainda quem defenda que esta migração terá acontecido há pouco mais de mil anos, na sequência de um “rapto” de uma comunidade para a oferecer a um monarca algures na zona da Pérsia, devido às suas tradições de dançarinos e cantores. Morto o rei, terão sido expulsos e, não podendo regressar à sua terra de origem, migraram para norte, para as zonas do mediterrâneo e Europa, tendo daqui expandindo-se pelo resto do mundo. Uma das zonas onde terão feito uma paragem mais prolongada, e onde terá ficado uma maior comunidade terá sido a zona dos Balcãs.
Daqui também a confusão que se instalou entre o povo Romani e o povo Romeno.

O comportamento deste povo nunca foi o de integração total com as populações dos territórios que atravessavam ou onde se fixavam.
Mantendo hábitos nómadas, com leis próprias no seio da sua comunidade, com regras fechadas a estranhos, as suas actividades económicas não passavam pela indústria, agricultura ou pastorícia. O comércio ambulante, aliado à actividade de saltimbancos terá sido a actividade dominante.
A sua itenerancia e os seus hábitos não coincidentes com as populações autóctones eram frequentemente associados a crimes ou delitos de propriedade ou de sangue. É bem mais fácil culpar um estranho que não se integra ou que não tem residência fixa que um vizinho ou conhecido.
Assim, os rumores passaram a suspeitas e estas a acusações frequentes e generalizadas. E o fosso entre povos e culturas foi aumentando, criando o mito de gente perigosa a evitar. E do mito à legislação. Alguns países europeus chegaram mesmo a proibir a existência no seu território de gente cigana a menos que renunciassem à vida nómada e adquirissem terra para se fixarem. E isto não há tanto tempo quanto isso. Em qualquer dos casos, foram sempre sendo marginalizados ou expulsos.
E vice-versa! Numa tentativa de manter a sua cultura e identidade enquanto povo, os ciganos foram-se mantendo à margem dos usos e costumes locais, reservando para si usos e costumes próprios e fechando-se às influências externas. Língua, vestuário, crenças e religião, hábitos sociais, solidariedade ou rivalidade entre famílias, justiça, foram mantidos e resolvidas entre si, sem o recurso às comunidades circundantes ou atravessadas.

Esta exclusão recíproca ainda hoje se mantém arreigada nas mentes comuns. Encontrar um grupo de ciganos na rua ou nas estradas é motivo de algum receio, mantendo-se os contactos ao comércio e pouco mais.

Esta marginalização e perseguição tiveram o seu auge, na história recente, na “Shoah”.
Este é o termo dado pela comunidade hebraica ao holocausto judeu feito pelos nazis. Fala-se de seis milhões de judeus barbaramente mortos nos campos de extermínio. Mas raramente se cita o que se supõe terem sido 800.000 ciganos igualmente chacinados nos mesmos locais e da mesma forma.

O que faz então com que a história diferencie um de outro povo?
Para além dos números, qualquer um deles aterrador, é talvez a forma como cada um deles interage com a sociedade circundante. Que os seus passados são semelhantes, nas diásporas e perseguições, marginalizações e execuções. Sociais e legais.
Suponho que o poder económico de um em comparação com o outro, que é francamente superior. Não apenas nas actividades a que se dedicam como no poder de influenciar a sociedade de acolhimento (hoje a isto chama-se lobby).
Veja-se, por exemplo, que duas das principais exportações de Israel são o software e diamantes. No entanto, naquela zona do globo não existem diamantes, sendo estes uma das suas principais importações.
Este poder económico, que não é restrito ao médio oriente mas antes que se espalha por toda a sociedade ocidental, é poderoso o suficiente para moldar opiniões através dos media.
Com eles e com os comportamentos do poder político, criou-se uma sensação generalizada de culpa ocidental a propósito do passado judeu, que não existe sobre o passado cigano.

Pergunto-me se, por um qualquer acaso, a sociedade ocidental (europeia e norte americana) repetisse o disparate histórico da criação artificial de um país no médio oriente, mas desta vez na Índia e com o povo Romani, se existiria a mesma condescendência ou tolerância para com actos bélicos ou de exclusão por eles efectuada sobre os povos ali existentes ou vizinhos. Como acontece hoje com Israel.

A história do Homem está repleta de vergonhosas acções de domínio violento de um povo sobre outro. Foi o caso das Africas e dos escravos, da Austrália e dos aborígenes, dos EUA e dos Índios, das Américas central e sul e dos pré-colombianos.
Acrescente-se que a guerra mais longa de que tenho conhecimento travou-se naquilo a que hoje chamamos Chile, entre os conquistadores espanhóis e o povo Machupe, durante mais de 300 anos. E que este povo, hoje, vive numa quase reserva nas zonas inóspitas e frias da Patagónia.

O bicho-homem não aprendeu com a história.
E se lamenta e pede desculpa pelos erros do passado, continua a praticá-los no presente, neste ou naquele ponto do globo, com o beneplácito de grandes potências mundiais.
Mas as atrocidades de então não justificam as de hoje. Quer se trate da Servia, do Vietnam, de Timor, do Darfur, do Iraque, de Israel, da Síria.

Se eu tivesse ou pudesse escolher entre ser judeu ou romani, certamente que escolheria este último.
Porque, e como alguns deles afirmam: “O Céu é meu tecto; a Terra é minha pátria e a Liberdade é minha religião”.

Que a liberdade não tem casa, bandeira ou templo!



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Rua!



E depois há aqueles tipos e tipas a quem só me apetece mostrar este dedo, com o significado claro de “rua!”. Ou, de um modo bem mais educado, “Ponha-se na pupila da via pública!”

Que se lhes mostrar o dedo seguinte até que podem gostar e não quero que lhes aconteça nada de bom ou de que gostem.

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terça-feira, 18 de abril de 2017

FB



O Facebook da aldeia do Astérix

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Palavras



Não são as palavras que te escrevo, que te sussurro, que te digo do outro lado da cidade, que asseguram o que sinto.
É o que está aqui dentro, é o que está aí dentro, é o estar dentro do abraço, que conta.

O mais deixo para quem bem saiba glosar ou prosar.

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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Laicos?

Quem hoje ler as páginas dos jornais portugueses poderá ficar confuso e terá que ir verificar a data.
É que a escassez de conteúdos sobre a política nacional e os seus protagonistas mais parece ser de Agosto que de Abril.

No fim de contas, governos e parlamentos laicos também celebram a Páscoa.
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O Céu é meu tecto, a Terra é minha pátria e a Liberdade é minha religião.

E, para quem não gostar, boa viagem.
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Ventos



Há toda uma multidão que, levianamente, confunde solidariedade com outras coisas.
Gente boa, inteligente, normal.
Mas, quem sabe, faz sentido:
Prática humana, suponho que desde sempre, é aquilatar e julgar a partir do que somos e conhecemos, no lugar de abrir o espírito a ventos que não os interiores.


Creio que só alguns conhecem os cheiros de outros ventos. E esses não são gente normal!

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domingo, 16 de abril de 2017

Votos



É agradável ver a quantidade de gente que hoje deseja “boa Páscoa” a conhecidos e desconhecidos nas redes sociais. É simpático e denota o desejo de paz e tranquilidade.
Mas vai ser triste verificar que talvez nem a décima parte dessas mesmas pessoas irá desejar, daqui por uma semana e pouco, bom “25 de Abril” da mesma forma e às mesmas pessoas.
Esquecem todos os outros que se ainda estivesse em vigor o regime derrubado em ’74, talvez nem às redes sociais tivéssemos acesso hoje, Domingo de Páscoa de 2017.


Bom domingo para todos.

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sábado, 15 de abril de 2017

Em quadrado



Virá o dia, estou certo, em que poderei publicar palavras e imagens que estejam em perfeita consonância com o meu pensamento e estado de alma.

Enquanto o não posso fazer, fico-me por estas coisas.

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Apeteceu



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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Sentados



Só para lembrar que falta exactamente um dia para ser amanhã.

E que, se esperarmos sentados, ele será exactamente igual ao dia de ontem.

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quinta-feira, 13 de abril de 2017

Um clássico



Ontem publiquei dois distintos “posts” motivados na celebração da Revolução que se assinala este mês.
Num, uma fotografia de um molho de cravos vermelhos com um branco quase que perdido no meio deles. No outro, um texto sobre os oportunistas das revoluções, ilustrado com um dedo do meio em riste.
É triste constatar a diferença da quantidade de reacções que os “amigos” tiveram em relação a um e a outro.

Obrigado por me recordarem estes detalhes sobre o género humano e as suas preferências entre o fofinho quase inútil e o acusatório da realidade.

By me 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Bandeiras



Não tem muito que saber: cada um pendura na janela o que lhe apetece.
Uns há que penduram a bandeira do partido. Outros a do clube de futebol. Outros ainda o pai natal ou o jesus, quando é época disso. Quando dá a loucura, muitos colocam a nacional, mesmo que contendo pagodes.
Há uns anos pendurei duas bandeiras, cada qual em seu mastro, na minha janela: uma bandeira nacional e uma bandeira negra. Ainda lá estão, porque continua a ser tristemente verdade, ainda que já estejam em fiapos.
Mas quando me dá na bolha e a encontro, penduro esta. Não no mastro mas na corda da roupa, mais protegida e só durante algum tempo para que me dure o possível. Pelo menos até comprar outra, que esta já leva 20 e tal anos por cá.
Para quem não saiba, e acredito que a maioria não saiba, trata-se da bandeira da Catalunha.
E se cada um hasteia na sua janela a bandeira que entende, esta é a que mais prazer dá exibir.
Não apenas pelas memórias que de lá tenho, como por ser o único lugar onde, realmente, gostaria de viver.

Encontrei-a agora, remexendo em coisas que ali tenho. Por tudo isso, e por motivos adicionais que ao caso não interessam, aqui fica:

A bandeira da Catalunha na minha janela.

By me

Fica o recado



As revoluções não são apenas actos de mudança de regime – positivo ou negativo.
São, e principalmente, mudanças nas atitudes, nos comportamentos, nas relações entre pessoas e entre pessoas e instituições.
Aqueles que se intitulam de “revolucionários”, que usam bandeiras, símbolos, agrupamentos partidários, mas que não respeitam o seu semelhante, que ignoram compromissos assumidos – com outros ou com todos os outros – e que baseiam o seu comportamento na “lei do funil”, não são revolucionários.
São os oportunistas que, em regra, desvirtuam e corrompem as práticas revolucionárias de terceiros. Sejam quais forem os gestos que façam, as cores que usem ou que tragam na lapela.

A história (distante, não muito distante e bem próxima) demonstra-o, infelizmente.

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Abril



Só para lembrar alguns, que andam muito esquecidos, que estamos em Abril.

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terça-feira, 11 de abril de 2017

Um delito



Podemos debruçar-nos sobre o que é um crime, um pecado, um delito. Cada um deles terá todo um rol de possibilidades, algumas a partilharem mais que um grupo.
Pois eu, hoje, cometi um delito.
É delito porque é quebra de regra, não é pecado porque não ofende divindades, não é crime porque não consta em nenhum código civil ou penal.
Foi um delito.
Um pouco mais grave, talvez, por saber que é um delito. Sabendo-o, o grau de culpa é maior, como se a ignorância fosse desculpa.
O que torna a coisa interessante é que o cometi quase que em jeito de teste: Serei eu capaz de o fazer? O que se lhe sucederá? Vai pesar-me na consciência?
A questão da consciência fica resolvida. Usando da técnica dos cristãos seguidores de Roma, a confissão alivia e perdoa. É o que estou a fazer.
O que se lhe sucederá? Coisa nenhuma, já que foi acto único, consciente de tal. E sou homem para o cumprir.
Se fui capaz? Claro que sim, que os limites do ser humano são enormes.

Terminada que está a confissão pública, escusam de cá vir perguntar que delito cometi.

Guardarei ciosamente esse segredo até que a terra me engula, que tenho assim a modos que vergonha do que fiz.

By me