terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

É tramado



Suponho que muitos e bons se debruçaram sobre o assunto: o que leva alguém, adulto ou criança, a escolher esta ou aquela figura ou estereotipo para se mascarar no Carnaval.
Que quando vejo alguém mascarado fico sem saber muito bem se se trata de uma crítica mais ou menos acutilante à figura exibida, se um franco elogio ou ainda um desejo de que as qualidades se transfiram para o mascarado.


O alter ego é tramado!

By me

D'arquivo



Do meu arquivo recuperei esta troca de correspondência, tida em 2008.
Não sei se terá ajudado o facto de anteriormente eu ter estado na origem de uma queixa contra a referida empresa por divulgação indevida de dados privados a meu respeito e de ter sido objecto de coima aplicada pelo Instituto Nacional de protecção de Dados.

De: PT Comunicações para mim –
Assunto: Plano total PT
Estimado(a) cliente:
É com grande satisfação que confirmamos a sua adesão ao Plano Total PT, no telefone 21XXXXXX.
Informamos que durante 90 dias lhe disponibilizamos o mesmo de forma totalmente gratuita.
Com efeito, a partir do dia 2008-01-28, pode efectuar, sem pagar nada, todas as chamadas na rede fixa para qualquer ponto do país, 24 horas por dia, todos os dias da semana.
As chamadas para as redes móveis, têm o preço único de 30 cêntimos por minuto, a qualquer dia e a qualquer hora.
Após o período de oferta, continuará a usufruir do Plano Total PT, por apenas 7,5 € por mês (IVA incluído).
Para obter mais informações, ligue 16200 (chamada gratuita na rede PT, disponível todos os dias, 24h por dia).
Aproveite e fale com quem mais gosta!

De: Mim para PT Comunicações –
Assunto: Plano Total PT
Recebi a vossa carta datada de 29 de Janeiro de 2008 com o mesmo assunto, cuja cópia anexo.
Na sua sequência, e não tendo sido eu solicitado ou subscrito qualquer plano ou alteração contratual, solicito que me desvincule de imediato desse plano aqui referido.
Solicito igualmente que me informe por escrito e em tempo útil, da forma como entenderam que eu poderia ter aderido a ele, não tendo sido eu contactado pelos vossos serviços nem tendo eu feito qualquer diligência nesse sentido.

De: PT Comunicações para mim –
Estimado cliente:
No seguimento da comunicação acima referida, que nos mereceu a melhor atenção, informamos que:
Conforme o solicitado procedemos à desmontagem do plano Noites Grátis + Total PT associado à sua linha de rede.
Efectuámos o crédito correspondente às assinaturas mensais debitadas indevidamente, o qual será reflectido numa próxima factura.
Pelos transtornos involuntariamente causados, apresentamos as nossas desculpas.
Continuamos à sua disposição para qualquer esclarecimento adicional que entenda necessário.

Apêndice:
Da ANACOM, DECO e Instituto do Consumidor (ministério da economia) nunca obtive resposta.


A imagem é igualmente de arquivo.

By me

domingo, 26 de fevereiro de 2017

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Continuo a achar divertidíssimo a variação de reacções ou comentários por género.
Por outras palavras, que tipo de conteúdo (texto ou imagem) leva a que se faça um “like” ou escreva uma linha que seja.

O bicho-homem é muito divertido!

By me

Sendo Carnaval…



By me

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Eu sou palerma.

Mas entre isso e o meu mau-feitio, não sei o que será pior.

By me

sábado, 25 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Disfarce



Este Carnaval farei como os demais e andarei fantasiado.

No caso, disfarçado de político.

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A catita



A Catita era uma pacata jumenta que residia com meus avós, no Algarve. De bom feitio, prestava-se sem grandes protestos aos pouco carregos que lhe eram pedidos ou às raras vezes que tinha que puxar a charrete amarela e vermelha em que os meus avós se deslocavam às aldeias vizinhas em visitas familiares.
Encontrava-a todos os anos quando por lá ia passar as férias de verão.

Rotina diária era ir pôr a Catita ao pasto no final do dia e ir buscá-la de manhãzinha. Ficava ao relento, com umas peias e uma espia numa estaca, dando-lhe um raio de acção de uns 25 metros.
Acompanhava eu o meu avô nessa rotina, orgulhosamente montado na manta de riscas que a cobria. Já conhecia os truques e técnicas, de tanta vez o fazer.

Um dia quis ser grande. Quis ir buscar a Catita sozinho. Não me queriam deixar, mas tanto insisti que acabei por levar a minha avante.
Em lá chegando, cometi um erro fatal: retirei-lhe as peias e a espia antes de lhe colocar o cabresto.
Ora a bela da Catita, que até era pachola, apanhou-se livre como nunca e pirou-se. Correu pelo restolho fora, atravessou o pomar vizinho e quase me fugiu de vista.
E digo quase porque não fiquei inerte. Assim que ela desembestou, percebi o que tinha feito, peguei no cabresto e vá de correr atrás dela.

Agora tentem lá correr por cima do restolho e torrões rijos, com um cabresto na mão e a respectiva arreata rojando no chão. Isto tentando igualar a jumenta na corrida.
Dei vários trambolhões em cima daquele restolho aguçado e cortante, mas nunca esmoreci.
Acabei por a apanhar numa vinha próxima, onde a Catita se deliciava com as uvas ainda frescas da madrugada.
Já encabrestada, regressei pelo mesmo caminho a fim de recolher as peias, espia, estaca e manta e voltar para casa.

À chegada, e perante o meu atraso, já meu avô se preparava para me ir buscar, junto ao portão que separava o quintal calcetado da estrada asfaltada.
Em face do meu estado, pouco me foi dito. Os meus calções e camisa rasgados, o peito, braços e pernas escorrendo dos arranhões profundos e o meu olhar cabisbaixo foram castigo mais que suficiente. Isso e a desinfecção que o meu avô, ex-enfermeiro do exercito, tratou de me fazer.
E nunca mais se falou em eu ir buscar a Catita sozinho.


Mas aprendi a lição: Procedimentos de segurança em primeiro lugar.

By me

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Grafia



Há cinco anos contava eu esta história.
Foram uns tempos que, felizmente, consegui transformar em divertidos, com diversos episódios que, bem mais que divertidos, me mostraram que a espécie humana não está tão à beira do precipício quanto podemos pensar.
E faz bem, em certas ocasiões, lembramo-nos disso.


“Isto é uma fotografia.
Melhor dizendo, isto é a grafia feita por algo com comprimentos de onda muito inferiores ao da luz.
Por outras palavras, isto é uma radiografia.
Faz o registo daquilo que não vemos porque, por exemplo, coberto de carne. Humana, neste caso.
Em boa verdade, é daquelas grafias, ou imagens, que estamos sempre desejando nunca ver ou, melhor ainda, nunca sermos o objecto registado.
Trata-se, para ser rigoroso, da minha mão esquerda, com um belo de um ossinho fracturado, e antes ainda de ter sido engessada.
Há sempre uma primeira vez para tudo na vida, hoje, tocou-me esta.
Isto e mais a história, realmente mirabolante, que contarei assim que me habituar (e terei bastante tempo para isso) a usar somente a mão direita no teclado.

Bem como somente a mão direita para um montão de outras coisas.”

By me

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Só para que conste




Subir na vida não significa isto.

By me

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

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É assustador a quantidade de gente que se insurgiu a propósito do post sobre o carro na passadeira de peões, achando que aquilo, afinal, até que nem é grave.
Até ao dia em que a cadeira do bebé ou a sua própria cadeira não consiga passar porque alguém ali decidiu deixar o seu popó.

Um carro estacionado numa passadeira de peões, numa paragem de autocarro ou em cima do passeio não é um acidente, não é uma distracção, não é justificável com um “é só um minuto”.
Porque é necessário menos de um minuto para atropelar um peão.

Legalmente quase que se pode chamar de tentativa de assassínio por negligência.
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93-RX-79



Claro que o dono deste carro, marca BMW e matricula 93-RX-79, de 2016, poderá sempre alegar que estava correcta e legalmente estacionado e que foram os mal-formados funcionários municipais que pintaram o chão e colocaram os semáforos. Ontem mesmo e junto a um dos portões do Jardim Gulbenkian.
Mas não acredito que algum juiz aceite tal desculpa. Nem eu.

Assim, e se virem o responsável pela viatura, dêem-lhe os meus cumprimentos. Directamente no trombil com um pé-de-cabra, de preferência.

By me

Livros



A situação é recorrente.
E por recorrente entenda-se ter sucedido umas quatro vezes nos últimos seis meses. Dadas as condicionantes, posso chamar-lhe recorrente.
Em procurando eu um livro que não encontro porque esgotado ou semelhante nas livrarias habituais, clássicas mesmo, ou da moda nos centros comerciais, vou a esta.
Perguntando por aquilo que procuro e ficando a saber que não possuem, pergunto se mo arranjam por encomenda. A resposta é, as mais das vezes, sim. E deixo o contacto, o que com um ou dois dos que lá trabalham não preciso porque já me conhecem.
Passados dias, poucos, recebo uma mensagem dizendo-me que já lá está à minha espera.
E recordo um caso concreto em que o editor deixou de ter representante em Portugal e que mo foram encontrar lá fora. Tendo o cuidado de me informar disso antes de encomendarem, para saberem se eu estaria pelos ajustes pelo óbvio pequeno aumento de preço.
Desta feita perguntei por um livro que possuo e de que quero oferecer uma cópia. E sobre ele já ouvi mais de meia dúzia de negativas, que incluem o estar esgotado no editor.
Fiz a pergunta e mais uns dedos de conversa ontem, domingo, a meio da tarde. Hoje, segunda-feira, por volta da hora de almoço, recebo a informação de já lá o terem reservado para mim.
É por esta e por outras, que incluem a simpatia de quem lá trabalha, o saberem e gostarem daquilo que vendem, o cartaz na montra e o haver bancos de jardim em frente da loja, na rua, que faz com que tanto goste desta livraria.
O seu nome? “Pó dos Livros”. E fica na av. Duque de Ávila, em Lisboa.
Recomenda-se a visita.

Nota adicional:

Disse-me alguém uma ocasião que muitas vezes compramos livros na expectativa de um dia virmos a ter oportunidade de os ler. Tão verdade.

By me

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Uma história divertida



Uma das características do meu projecto “Old Fashion” era a possibilidade de as fotografias feitas poderem ser publicadas na net.
Se essa possibilidade hoje nada tem de extraordinário, na altura era quase que uma inovação. Quase.
Claro está que os fotografados eram inquiridos sobre se o autorizavam ou não e a resposta registada e cumprida sacramentalmente.
Quando acontecia dizerem-me que não, e para além de anotar a resposta, perguntava se se importavam de me dizer o motivo da recusa. E sempre o soube.
E uma das respostas foi divertida.
Um casal, em que ela era extrovertida e faladora, ele reservado e calado, recusou a publicação. Disse ela que eram amantes, que ela já tinha assumido a relação mas que ele não, pelo que não poderia haver publicidade.
A resposta primou pela originalidade, bem como o que ele disse de seguida: “E agora quem fica com a fotografia?”, já que eu tinha entregue apenas um exemplar, tal como combinado.
Claro que ela já estava a resolver a questão, ajustando com uma pequena tesoira o tamanho da fotografia à janela disponível no plástico da sua carteira de documentos.
Olhei eu para um e para outro, ela satisfeita, ele triste, a tratei de fazer segunda impressão, tão à borla quanto a primeira, que lha entreguei. Não creio que eu pudesse receber melhor pagamento que o sorriso com que ele me brindou.

E espero que hoje ainda mantenham o afecto de então, agora bem mais às claras.

By me

O universo numa chávena de café



Aquilo que mais me agrada no universo é o seu desequilíbrio, a sua evolução e mudança constante, que fazem com que o conceito de estabilidade ou de eterno sejam uma anedota cósmica.

By me 

Corando



Há duas formas de pôr a roupa a corar.
Uma é esta, clássica, recorrendo ao sol natural.
Outra é contar-lhe uma anedota porca.

Mas camisa velha e batida já dificilmente cora com uma piada.

By me

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Equivalente



By me

Um artigo



Leio um artigo num jornal diário on-line onde se fala de um eventual indigitado para um cargo no governo de Trump, nos EUA, e que terá recusado.
No artigo, quem o redigiu usa por duas vezes a expressão “antigo vice-admiral” para se referir a essa pessoa.
Saiba-se que “admiral” não existe em português. Se se queria traduzir ou adaptar um artigo de um qualquer outro jornal, haveria que o fazer como deve ser e utilizar o termo “almirante”. Ou, para ser exacto, “vice-almirante”.
Por outro lado, e ao que julgo saber, nesse país tal como no nosso os oficiais superiores nas forças armadas não passam à categoria de “antigo” quando se reformam ou retiram do activo.
A menos que tenham sido expulsos com desonra e retirada de patente, continuam a ser portadores do categoria na hierarquia militar. Sempre. Não há ex ou antigos generais ou almirantes. Ou bem que se usa a patente que possuem ou bem que não é referida.

Identificando quem de direito, o artigo vem publicado no Jornal I com data de 17/2/2016 e assinado por Félix Ribeiro.
E se conheço o jornal, não conheço o jornalista. Nem idade nem experiência. Quem sabe se ainda bem?



By me

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

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“Apeteces-me!”

Não! Não estava escrito em nenhuma parede, por isso não tenho a respectiva fotografia.

Mas bem que podia estar, caramba.
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Iconógrafo



Há vários motivos pelos quais não me intitulo fotógrafo no sentido geral do termo.
Um deles será a minha atitude para com a busca da fotografia. Não a procuro lá longe, onde as luzes, as cores, as pessoas, as pedras são diferentes.
Procuro fazer fotografia – se é que procuro – aqui mesmo, onde vivo ou resido, sabendo que assuntos e luzes é o que não faltam para merecerem um registo. Mesmo a vista da minha janela é diferente todos os dias.
Por outro lado não tenho e não uso fotografias inocentemente. Todas as imagens que produzo e divulgo têm sempre um ou mais significados para além do explícito na cromogenia da imagem.
Mesmo quando digo que “foi a luz bonita que me fez fotografar” não estou a falar completamente verdade. Aquela luz, naquele local, naquelas circunstâncias, fez-me ter um determinado sentimento que justificou o fotografar. Muito provavelmente uma semana antes ou depois, nas mesmas condições de luz e assuntos, não fotografaria ou, se o fizesse, seria porque outras memórias e/ou sentimentos a tal me levavam.
Mesmo hoje, quando a preguiça me impede de ir fotografar e procuro nos meus arquivos um equivalente fotográfico, sei que estou a usar uma imagem com significado diferente do original. Até porque me lembro dele.

Talvez que por tudo isto (e mais uns trocos aqui não explícitos) não gosto de me intitular fotógrafo.
Com sorte, serei um iconógrafo, o que produz e usa ícones em suporte e técnica fotográfica.

Quanto ao resto, e se me quiserem chamar de “batata frita” também serve.

By me

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O livro



O livro que tenho entre mãos é um nico complexo de ler. Volta e meia, quase que a cada página, deparo-me com termos ou expressões que, pese embora entenda o significado dado o contexto, não conheço com rigor. O recurso a um dicionário, mesmo que on-line, é a solução de alicerçar o conhecimento.
O livro? “Reflexões sobre fotografia eu, a fotografia, os outros” de Gérard Castello-Lopes.
O texto abaixo, menos de meia página, para além de bonito, é um bom exemplo linguístico. E de atitudes.


“O José Cardoso Pires contou-me, um dia, a bela história de uma polícia da Almirante Reis que era um autêntico ferrabrás. Um faia da mesma área administrou-lhe um dia uma sova vingadora e retributiva que logo entrou na lenda e no mito locais. Anos depois, o faia acompanhado de um amigo, encontra de novo o agente, agora velho, alquebrado e muito enfermo. Sentam-se à mesa de um café e o ex-ferrabrás encomenda um copo de leite no que é seguido pelo faia justiceiro. O amigo deste manda vir um bagaço. Conversa acabada, o guarda retira-se e o faia increpa violentamente o amigo pela indelicadeza do seu gesto de beber um bagaço na presença de um inválido. A compaixão que transparece neste banal ritual de café, aparece-me como um belo exemplo de consciência do que é o lugar do outro.”

By me

O espelho



A discussão é velha. Muito velha. Mostra a fotografia a realidade?
Obviamente que não!
Começando desde logo por a realidade conter três dimensões mais tempo e a fotografia conter apenas uma dimensão.
Segue-se o termos nós a percepção da realidade através de cinco sentidos acrescidos da sua relação com a nossa memória e a fotografia nos permitir aceder apenas a um sentido, condicionando a percepção e o estímulo da memória.

Para além disto, como se não fosse importante, a fotografia é sempre – e repita-se o sempre – a interpretação do fotógrafo.
Imaginemos um acidente em cadeia envolvendo três viaturas. A segunda embate na primeira e a terceira embate na segunda. O que é uma fotografia que mostre a realidade?
O primeiro embate? O segundo embate? Feito do lado de frente para o primeiro carro? Do lado do passageiro? Do lado do motorista? Com uma grande angular e próxima, colocando o espectador em cima dos destroços? De longe, mostrando o conjunto e colocando o espectador na tranquilidade do ”sofá lá de casa”?
Há sempre uma enormidade de perspectivas ou pontos de vista possíveis e todos eles serão “verdadeiros” enquanto a respectiva fotografia não for subvertida posteriormente.

Por outro lado, a veracidade da fotografia depende também da forma como é apresentada e vista. Uma fotografia colocada na capa de um jornal diário é interpretada como verdadeira. E é lá colocada com esse mesmo intuito.
Mas a mesma fotografia exposta numa galeria já é passível de ser discutida, de ser colocada em causa a veracidade do que nos é mostrado.
Há uns anos estive numa exposição sobre um cosmonauta russo, com objectos e fotografias do seu percurso académico, militar e no espaço. No final (e o percurso pelo exposto era condicionado a um trajecto pré definido) éramos confrontados com um cartaz onde nos diziam termos visto um embuste: nem o homem era russo (era catalão) nem cosmonauta (fotografia feitas em estúdio) nem sequer militar (objectos forjados para dar consistência à mentira).
Mas nós, público, queríamos ver aquela “estória” como real. Por isso, e até chegarmos a esse cartaz, tudo aquilo era verdadeiro na nossa mente.

A questão da realidade ou veracidade da fotografia é de tal modo importante que há zona do globo que não aceitam fotografias como forma de prova em tribunal. A menos que feitas e controladas em todo o seu percurso por agentes da lei.
Por outro lado, e ainda não há muito tempo, os agentes da polícia de estrangeiros e fronteiras procuravam provas de casamentos de conveniência, entre cidadãos nacionais e estrangeiros, com a existência ou não de fotografias do casal enquanto namorados: festas, férias, praia, amigos… Não as havendo aumentavam as suspeitas de um ilícito.

A fotografia não é nem prova factual nem cópia da realidade!
O mais que se pode afirmar é que aquela imagem existe.
Sobre o que ela representa, do maior cepticismo à mais cândida ingenuidade, tudo é válido.

Na imagem outro embuste.
Estes espelhos baratos são particularmente robustos e não conseguimos parti-lo com o pé para a fotografia que eu queria fazer.

Foi necessário recorrer a uma pedra, por várias vezes, até ficar assim como se vê.

By me

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Corporativismo



O jornal começa a notícia com o seguinte título:
“Rendimentos dos licenciados baixaram 20% desde 1998”
Segue-se o corpo do texto, que começa com estes dois parágrafos:

“O saber não ocupa lugar. Todos conhecemos este ditado popular e ninguém contesta a ideia que está na base. No entanto, a recompensa para quem estuda em Portugal já foi maior tendo em conta os rendimentos.
De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o rendimento salarial médio mensal líquido dos trabalhadores por conta de outrem com ensino superior baixou 19,5% em duas décadas.”

O que é interessante de observar aqui e no que se lhe segue (leia-se o artigo no jornal I, 13/2/2017) é que não refere em quanto variou negativamente o salário médio de quem trabalha por conta de outrem e não tem uma licenciatura.
É que gostaria eu, e muitos portugueses, de saber se o fosso entre classes aumentou ou diminuiu.
Claro que ao dizer-se “a recompensa para quem estuda” está-se a definir logo à partida que os restantes, os que não estudaram, não merecem recompensa ou uma recompensa menor. Independentemente dos motivos de não terem estudado.
E é-me obvio que quem escreve isto gosta imenso de ter quem, sem licenciatura, lhe limpe o escritório de madrugada, quando ainda nem sequer pensou em acordar.


Gosto à brava do corporativismo dos escribas de serviço!

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domingo, 12 de fevereiro de 2017

A minha amiga



Eu sei que há mais de um ano que parei de fumar.
E se digo parei no lugar de deixei não é uma figura de estilo: o mais que posso dizer é que parei, não que deixei.
A demonstração acabada do facto foi a vontadinha danada por um cigarro quando hoje saí da cama. Danada mesmo. Mais ainda porque ainda tenho guardados os cigarros que possuía quando naquela manhã decidi que não mais. Era uma questão de ir por eles e por um isqueiro. Fósforos, mesmo.
No entanto, no caminho, lembrei-me da minha velha amiga. Esta.
Procurei-a e lá estava ela, impávida e serena como se nada fosse, na disposição de me ouvir e de me responder, se fosse caso disso. Foi uma longa conversa.

A cigarreira? Continuo a não ter a certeza de onde a guardei.

By me

Não sou




Eu não sou fotógrafo!
Não no sentido que por cá se usa.
Desde logo porque não vendo o que faço, não estou no mercado. Faço o que faço porque me apetece, porque tenho prazer nisso e não para satisfazer um qualquer cliente cujos conceitos estéticos podem ser uma “ofensa” aos meus, mas que me obrigariam a cumprir.
Depois porque faço muita questão de não alardear se sou ou não bom. Sou o que sou, fazendo o que faço à medida daquilo que sou capaz. Não preciso – melhor: não quero – entrar em competição com outros, afirmando-me “melhor que” ou definindo este ou aquele “pior que”. A única competição que aceito (e vou a todas!) é comigo mesmo, tentando a cada coisa ou fotografia que faço ser melhor que na anterior. Não melhor que o trabalho de outros.
Se tenho referencias ou ídolos na fotografia? Tenho sim senhor! Alguns fotógrafos há que me inspiram, cujo trabalho me faz inveja. Tanto pela criatividade demonstrada como pela perícia com que o fazem. Nesses vou beber como na fonte, tentando que com eles aprenda ir eu mesmo mais longe no meu próprio caminho.
Mas recuso liminarmente a competição técnica, estética ou comercial. E faço muita questão de não andar a alardear as minhas eventuais qualidades. Sou o que sou e ponto final, sem comparações ou competições.
E, neste país de aparências e ilusões, onde certificados, diplomas e egos gigantescos contam mais que trabalho feito e investimento pessoal, eu não sou fotógrafo!
Talvez photógrapho, mas certamente que não fotógrafo!


Portanto se me virem na rua, a bater uma chapa ou simplesmente carregando a minha tralha nas costas, por favor não me venham perguntar se sou fotógrafo. Com um pouco de sorte, e se estiver bem-disposto, ouvir-me-ão responder que, com uma câmara na mão dificilmente estarei a vender pneus!

By me

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Mudanças



As pessoas não mudam!
O que muda são as coisas e os factos através dos quais nos relacionamos e vemos o mundo que nos cerca. O que nos provoca evolução. Nalguns casos, revolução.
Mas não mudamos!
Continuamos os mesmos, com a mesma história atrás de nós, as mesmas limitações e capacidades. Com a vantagem de, de tudo isso, termos mais ainda.
Não mudamos! Avançamos pela estrada que nós mesmos vamos pavimentando, num trajecto que vamos inventando a cada instante, a cada passo.


By me

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Informação resumida



Informação sobre o estado do tempo:
De um modo resumido, isto.

Informação sobre o estado anímico:

De um modo resumido: podemos não estar de acordo, até podemos estar em oposição frontal. E continuamos, tirando partido daquilo que une e separa. Mas em havendo mentira, desculpem lá, não adianta continuar seja o que for.

By me

Uma opinião



“Avec le noir et blanc, on suggère; avec la couleur, on affirme. Par la suggestion, on peut laisser une grande part à la imagination, tandis qu’une affirmation reclame de la certitude, una certitude absolute. Le faux rendu des couleurs en noir et blanc produit souvent d’efficaces contrastes de tons et dês photos dynamiques, ce qui n’advient pás avec la couleur, où le moindre défaut de ton apparaît de façon absolument évidence, et totalement inaceptable.”

Paul Outerbridge, “Photographing in color”, New York, 1940, citado em “Paul Outerbridge Nus”, de Granm Howe, Paris, 1998

Imagem: by me

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Perfeito como nos livros



Existem aquelas figuras, femininas ou masculinas, que são perfeitas.
As feições, as formas corporais, as cores da pele e da pelagem, a voz, a forma de moverem… Tudo nessas pessoas é perfeito.
Depois existem aquelas pessoas que são de excepção: ele é o olhar, o formato do queixo, o comprimento dos dedos, o volume de alguma parte do corpo, a voz em tom mais baixo ou mais agudo… alguma ou algumas dessas particularidades transformam aquela pessoa em alguém que não pode deixar de ser visto e apreciado.
Há ainda aquelas pessoas que, não tendo nada em si que seja realmente bonito, têm algum aspecto que é mesmo invulgar. Alguma discrepância na proporção das formas, um formato invulgar de rosto ou o que quer que seja, a cor dos olhos ou do pelo… Ou tão só um conjunto de características que, naquele lugar e tempo são incomuns mas que na sua região de origem são banais.
Apesar de tudo isto, não são estas pessoas, extremamente bonitas ou invulgares, que nos fazem ficar perdidamente apaixonados ou com quem queremos ficar para todo o sempre. São bonitas, vistosas, fazem-nos virar a cabeça ao passar, queremos conhecer melhor, mas… não passa disso: atracção física e visual.
Depois existem todas as outras pessoas, que não possuem nenhum atributo especial, que são completamente banais ou mesmo “feias”, que, quando com elas nos cruzamos na vida, nos prendem irresistivelmente, em quem não podemos deixar de pensar, com quem acabamos por viver momentos de paixão desmesurada ou amor eterno. Claro que isto também pode acontecer com as tais primeiras pessoas, as de excepção, mas sendo que são em percentagem reduzida, é bem mais comum que seja com alguém deste último grupo, o maior de todos.

O mesmo sucede com a fotografia.
Há fotografias esplêndidas, perfeitas nos aspectos técnicos e estéticos. Paisagens campestres ou urbanas, de pessoas, arquitectura, naturezas mortas, técnicas, publicidade… Existe um bom número de fotografias, e de autores, por esses mundo fora e ao longo da história da fotografia.
No entanto, com muitas delas, dessas perfeitas, não nos daríamos ao trabalho de as comprar ou recortar de uma revista para as emoldurar e pendurar numa parede. Ou ir folhear amiúde o livro onde constam para com ela deliciar os olhos e a alma.
Mas existem muitas outras, muitas mesmo, que não sendo perfeitas do ponto de vista académico, que não respeitando algumas das regras da proporção, do equilíbrio de massas e de tons, tendo linhas de fuga estranhas, se algumas, contendo assuntos banais ou mesmo desagradáveis, nos fazem ficar horas a mirá-las, degustando cada centímetro do papel ou do ecrã, falando connosco a cada instante e contando-nos sempre algo de novo.

Tenho para mim que uma boa fotografia não tem que ser perfeita! Tem que falar comigo!
Claro que há os academismos, os conceitos de técnica e de estética que são dominantes num dado momento e lugar, que pertencem à linguagem de comunicação e que a todos é comum. São essas ideias, estilos e métodos que ensinamos nas escolas de fotografia, que levamos os aprendizes a usar de modo inconsciente. Como quem conhece as métricas e sabe fazer uma quadra.
Mas também um manual de instruções de uma batedeira ou berbequim está tecnicamente perfeito, as manchas de texto e ilustrações estão equilibradas e de acordo com as modas em uso, o texto está gramaticalmente correcto e de acordo com a ortografia do momento… mas nada disso faz dele algo que queira ver e ver e ver e ver…
Uma fotografia de que realmente goste tem que me falar, tem que me contar algo, tem que me levar a imaginar mais que não apenas o que ali está expresso, tem que provocar a excitação da minha memória ou desafiar-me a memórias novas. Mesmo que as regras de ouro, os equilíbrios, as definições ou nitidez, os tons e as cores, mesmo as luzes, não estejam “perfeitos”.


Uma fotografia que não fale comigo, mesmo sendo “perfeita como nos livros” mais não me faz que pensar naquelas pessoas que são extremamente bonitas, mas pelas quais me não apaixono nem pensaria em casar.

By me

Espirais



Entro num café em busca de uma dose de cafeína que me garanta a espertina que necessito para a noitada que se antevejo.
Alto, pendurado de uma parede, um televisor, felizmente com o som desligado.
Reconheço as imagens, até porque o deveria reconhecer, de um programa de debate num canal generalista.
Para além de quem conduz o debate, reconheço apenas uma cara, o que me leva a tentar perceber pelas legendas que vão aparecendo, qual o tema. E leio esta, supostamente uma frase de um dos intervenientes:
“Espantosa, a incapacidade das gerações anteriores em prever o futuro!”
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Espantoso, direi eu, a presunção de quem o diz, já que deve ter por absolutamente certas as suas próprias previsões sobre o futuro que nos espera!
Será que ele pensa que os bytes e as auto-estradas da informação são melhores que as velhas espirais dos vinis no que toca a fazer de bola de cristal?
Ou terá ele uma ligação privilegiada com o livro do destino?
Por mim, estou como aquele outro:

“Prognósticos só no final do jogo!”

By me

Paredes de vidro



By me

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Zippo



Onde eu trabalho cada um de nós tem um cacifo. Pelo menos na área técnica.
Suponho que será um estudo interessante ver o que cada um guarda no seu cacifo que, e por aquilo que já me foi dado constatar, é tão variado e inesperado quanto o desktop do pc de cada um. E, creio, muito dirá de quem o utiliza.
O meu está quase vazio. Possui um saco de pano vazio de reserva, um caderno, uma caneta, alguns papeis que um dia considerei importantes guardar, um pacote de bolachas para os horários mais difíceis e, até dois dias, aquilo que se vê na imagem: uma lata de gasolina e pedras para recarregar o isqueiro.
Confesso que já nem me recordava lá ter isto guardado.
Por um lado, raramente recorria a esta reserva. A manutenção dos isqueiros era geralmente feita em casa, incluindo a troca de torcida que, como alguns saberão, é complicada.
Por outro, porque tendo parado de fumar há mais de um ano, a necessidade de recorrer a esta reserva passou a zero. Até porque, que eu saiba, na minha zona de trabalho já não há quem use um Zippo, o que significa também que os meus préstimos a desenrascar um fumador sem gasolina não fazem falta.
Vieram ambas as embalagens aqui para casa. As pedras para a gaveta onde guardo os isqueiros, a lata à vista numa prateleira. Não apenas ícone de um tempo que foi (e rico, muito rico que foi), como nunca se sabe se voltarão a fazer falta. Para uma fotografia ou para um pobre coitado que tenha fica sem combustível no isqueiro.

E sempre servirão, também, para mostrar como o design, a ergonomia e a eficácia de algumas peças as tornam únicas.

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domingo, 5 de fevereiro de 2017

Hiper



By me

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Numa livraria o empregado faz-me a pergunta sacramental:
"Quer número de contribuinte na factura?"
Olho-o nos olhos e atiro-lhe com a minha resposta número dois:
"Tenho cara de bufo?"
Fica ele a olhar para mim e prossegue com o registo da venda.
A seu lado, um homem cujo cabelo indica já ter passado dos 50, sorri.
Quando o primeiro me entrega o livro e se prepara para me dar um saco, eu digo-lhe
"Obrigado, mas tenho o meu." e mostro a minha mochila.
A seu lado, o outro volta a sorrir. E questiono-o:
"Está a rir-se de quê?"
"Nada. Hoje estou bem disposto."
Não insisti. Eu sabia que ele sabe que eu sei que o seu pai vendia ali mesmo livros às escondidas dos bufos e que os assim vendidos saíam da loja disfarçados nos sacos de compras, no meio de couves e cenouras.

Outros tempos, felizmente.

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Flor



Uma das coisas que podemos aprender com o universo é que a estabilidade não existe, a simetria é uma miragem e que a evolução só acontece porque o desequilíbrio é uma constante.
Aprendemos isto olhando para as estrelas, para a luz através de uma flor, para o olhar de alguém.

E quando temos isto por certo há uma paz que chega de mansinho e que nos envolve sem percebermos como ou porquê.

By me 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Livros



Uma fotografia na web despertou-me a curiosidade e fui confirmar.
Era verdade e encontrei este pedacinho delicioso na Bíblia.

“…
Mas se a acusação for verdadeira e não se provar a virgindade da donzela, esta será conduzida à entrada da casa de seu pai e os habitantes da sua cidade apedrejá-la-ão até que a morte sobrevenha, porque cometeu uma infâmia em Israel, prostituindo-se na casa paterna. Assim estriparás o mal do meio de ti.
Deuteronômio 22-13:21”

É este o livro sagrado e são estes os ensinamentos que tantos milhões no mundo usam como referência no mundo?
A “Bíblia” é um dos livros que tenho aqui por casa. De permeio com alguns outros que foram ou são referências e inspiração para a humanidade. Como o “Corão”, a “Tora”, o “Livro de Jonas”, “A minha luta”, entre outros. Claro que me faltam uns quantos, mas com o tempo e sem pressas irei completando a caderneta de cromos.

É sempre bom saber o que tem levado os meus iguais à loucura total, justificando tantos assassínios e crueldade.

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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Cartas e notas



Entro numa loja para comprar uma peça incomum: um baralho de cartas de tamanho gigante.
Faz tempo, muito tempo, que tenho uma imagem em mente para com isto fazer e chegou a hora porque chegaram as cartas.
Em chegando ao balcão para pagamento, constato que não tenho trocado e entrego uma nota de 20 euros.
Pois o rapaz, do outro lado do balcão, a primeira coisa que faz depois de ter a nota na mão é verificar da sua legitimidade com uma caneta apropriada.
Passei-me!
E perguntei-lhe se estava a duvidar de mim e do que lhe entregara.
Respondeu-me, com a maior das naturalidades, que não, mas que todas as notas de valor igual ou superior a 20€ tinham que ser verificadas.
“Pouco me importa as vossas normas!” respondi-lhe. “Ao estar a verificar uma nota que lhe entrego está a presumir que lhe posso entregar uma nota falsa e está a verificar se sim se não. Está a por em causa a minha honestidade. E isso não admito! Saiba que nesta loja não volto a entrar!”
“A sério?” ainda questionou ele, de olhos bem abertos.
“Claro que sim. Passe bem!” E saí, pior que urso acordado a meio da hibernação com um ataque de bílis.

À descrição deste episódio, que aconteceu numa loja da cadeia de lojas “Tiger”, acrescento eu que já passei por isso em duas outras lojas. E não voltei a entrar nelas.
E que é também por não aceitar que suspeitem de mim sem razões sólidas para o fazerem à minha pessoa que me recuso a andar de avião, considerando todo o sistema de revistas pessoais e de bagagem a que se é sujeito.

Na minha cartilha todo o ser humano é inocente e boa pessoa até prova em contrário. Pratico-o e faço questão de assim ser tratado.
Se me insultam com suspeitas infundadas, não contam comigo. Nem para lhes dar os bons dias!


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Todos iguais



Um destes dias estive a ver uma exposição de fotografia. Uma colectiva.
Resultava ela dos trabalhos finais de um curso de introdução à fotografia.
Não tenho grande coisa a apontar aos trabalhos ali apresentados: bem expostos, bem impressos, com as saturações de cor da moda, com o recurso ao mesmo tipo de perspectivas, ao mesmo tipo de luz, ao mesmo tipo de enquadramentos, ao mesmo tipo de jogo de profundidade de campo… Cada uma delas não estava má.
Mas o conjunto, benza-os deus… o conjunto quase que parecia ter sido feito por um só fotógrafo, de tão quase iguais que eram na formalidade e estética.
Não sei quem foi o formador ou professor. Mas uma coisa posso assegurar:
Conseguiu que um número indeterminado de pessoas, com vontade de aprender, ficasse formatada ao seu próprio gosto e abordagem. Ou, pelo menos, a uma só abordagem estética.
Não senti, naquela exposição, que os formandos tivessem sido incentivados a procurarem o seu próprio caminho, longe ou não das modas fotográficas das revistas baratinhas ou das redes sociais pseudo vocacionadas para a fotografia.

Eu sei que muita gente procura na fotografia (e noutras actividades) a inserção num mundo definido, sem querem ser diferente (ou com medo de serem diferentes) e procurando a aceitação e agrado dos seus pares.
No caso da fotografia, o melhor método para isso é fazer igual aos outros, nas formas e conteúdos, não arriscando fazer diferente para não ser criticado.
E se a prática da fotografia, como tantas outras formas de expressão, implica e necessita a satisfação do autor, se isso acontecer é bom.


Mas todos iguais, caramba! É triste!

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Plink



Com o passar dos anos e a manutenção de interesses e actividades, acaba-se por coleccionar situações menos comuns. Dirão alguns que únicas, pela sua raridade. E esta foi uma delas que, apesar de já dela ter falado, aqui fica de novo. A limpeza de equipamento recordou-ma.

Naquele dia saíra de casa para tomar a bica matinal. O costume.
Como de costume também, levava comigo uma câmara fotográfica.
As mais das vezes levo uma de bolso. O trajecto é pequeno, a rua é sempre a mesma e nem sempre cruzo a porta de casa com uma ideia definida. Mas como elas surgem vindas quase do nada, vou sempre prevenido.
Outras vezes levo uma DSLR pendurada no ombro. Ou porque a luz está apetitosa, ou porque tenho qualquer coisa a fazer-me comichão nos neurónios, ou apenas por palpite.
Nesse dia foi por palpite, sem nenhum outro motivo específico.
E foi também por palpite que, em saindo do prédio, no lugar de virar para o café, virei para o lado oposto. Alguma coisa me dizia que indo até à ponta da rua seria fotograficamente compensador.
Foi, mas não da forma que pensava.
A meio caminho, seguindo pelo passeio e olhando para coisa nenhuma ou para tudo em profundidade como sucede nessas alturas, ouvi um “Plink”. Demasiadamente forte e perto para ignorar.
Olhei e vi: tinha o filtro “UV” da câmara estalado.
E estalara porque, de sob a roda de um carro que acabara de passar, saltara uma pedrinha, minúscula, que embateu em cheio no bendito filtro, partindo-o. Deixando-o no estado em que se vê.

Desde que me conheço ligado à produção de imagem que vou cuidando do equipamento. Não o trato como se de peças raras de um qualquer cristal afamado fossem. O que tenho é para ser usado. Mas cuido do que tenho ou uso com o cuidado necessário à sua preservação e bom estado de funcionamento.
E uma das coisas que aprendi desde cedo foi a usar um filtro protector nas objectivas. Em todas as que possuo e em que é passível de colocar um, está lá.
É discutível este hábito. Alguns argumentam, e com motivos para tal, que um filtro óptico é isso mesmo: filtra a luz. Por muito neutro que seja, retira sempre algo à qualidade da imagem, quer seja por reter algumas das radiações luminosas, quer seja por alterar o percurso da luz, deteriorando a nitidez da imagem resultante.
De algum modo têm estes razão.
Mas pertenço eu ao grupo que argumenta a favor. Estes filtros são da melhor qualidade possível, reduzindo em percentagens ínfimas a nitidez, sendo o tipo de radiação que é retida, na casa dos ultravioletas, negligenciável e, por vezes, prejudicial. Mas, mais importante que tudo o mais, é o filtro a área de vidro da objectiva que está exposta aos elementos – poeiras, água, gorduras – e que tem que ser limpa. E, por muito cuidado que se tenha, algum risco mínimo sobrevém dessa limpeza. E esses sim, são prejudiciais à qualidade da imagem resultante. Além do mais, e por muito cuidado que se tenha, um toque ou pequena pancada acaba sempre por acontecer e, havendo filtro, é nele que sucede.
E convenhamos que é bem mais fácil e económico, ao fim de alguns anos, substituir um filtro que já não se encontra em bom estado que toda a objectiva.
Abençoado filtro que trazia naquele dia. Que me poupou à despesa de uma objectiva nova.

Esta fotografia já tem uns anitos e é irrepetível. Guardei o filtro, assim partido, para servir de testemunha de um acontecimento raro. Mas, passados tempos e com o manuseio, acabou por se desmanchar, sobrando pequenos pedaços de vidro e um aro. Os primeiros foram fora, o segundo está ali guardado, na gaveta das coisas velhas e disfuncionais, que nunca se sabe para que poderá vir a servir.


Já a memória e a estória, essas, ficarão para sempre naquele cantinho das coisas raras que qualquer fotógrafo tem.

By me