terça-feira, 31 de janeiro de 2017

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By me

Jornalar



O futebol não faz parte da minha área de interesses. Já a sua mediatização e o impacto que tem na sociedade é outra coisa.
Ontem decorreu um jogo entre o Vitória de Setúbal e o Benfica, com o resultado de 1-0 para os setubalenses.
Por aquilo que soube aqui e ali, esta vitória não acontecia há 18 anos.
Pois aquilo que foi evidenciado em tudo quanto é lado foi a derrota de um deles.
Parece não ser de todo importante que o Setúbal tenha ganho ao Benfica ao fim de 18 anos. O importante é o Benfica ter perdido.
Por outro lado, se o resultado fosse o oposto, só se falaria da vitória, e não da derrota.
Por outras palavras, num jogo de futebol não é importante o resultado das duas equipas mas apenas o que acontece a uma delas em função da sua popularidade. O bom e raro resultado da equipa menor não conta para os jornalistas.

Entenda-se que quando se fala em futebol bem se poderia estar a falar de politica, de partidos, de sociedade, de indivíduos.
Indo mais longe: Para os órgãos de comunicação social, importa o que acontece com os grandes. Mesmo que isso dependa dos pequenos, estes são de somenos importância, algo para esquecer ou mesmo nem referir.

E se estes jornalistas fossem jornalar lá para casa e deixassem de querer impor a sua opinião e preferências aos demais cidadãos?

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Comentário



Comentário de Fantasio, colega de Gaston Lagafe, depois de ver a sua folha de vencimento e sem saber que o intercomunicador estava directamente ligado ao gabinete do patrão.
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A caneta



Falávamos de semiótica e composição de imagem.
E eu quis demonstrar que mesmo uma caneta, uma simples caneta, pode ter modo mais eficaz de ser mostrado.
Pese embora na altura não ter usado o caderno, afirmei que quando pousamos uma caneta numa mesa o fazemos, regra geral, como na imagem de baixo: com o bico ou aparo virado para a frente.
Fui contestado e disseram-me que não, que a caneta costuma ser pousada com o bico ou aparo virado para nós.
Apesar de termos tentado reproduzir os gestos que nos são familiares, ficou cada um na sua. E eu fiquei abalado na certeza que tinha.
Deixo-vos a questão: quando pousam a caneta, deixam-na como na imagem de cima ou como na imagem de baixo?


Obrigado pela colaboração.

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Medo



É o medo, é sempre o medo.
O medo do frio, o medo da chuva, o medo da fome, o medo dos lobos, o medo dos ladrões, o medo dos impostos, o medo da prisão, o medo do inferno… é sempre o medo.
E o poder, instalado em parlamentos ou basílicas, aplaude esse medo, prometendo entretanto, acabar com ele. Sem nunca o cumprir.
Que quando acabar o medo, incluindo o “medo de não ter medo”, o poder deixa de ter coisas para prometer. Principalmente o acabar com o medo.

Agora imaginem o que seria isto sem gente a prometer, a impor, a proibir, a decidir sobre o que devemos ter ou não medo.

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Princípios



Eu não viajo de avião. Definitivamente.
Não que tenha medo, nem pouco mais ou menos. Aliás, falta-me apenas andar num ultra-ligeiro, num caça militar e num helicóptero para ter a colecção completa. E é divertido constatar como o homem é capaz de vencer as leis da natureza, usando-as em seu proveito, e andar lá pelos ares.
Eu não viajo de avião porque não quero ser insultado.
Na minha cartilha todas as pessoas são consideradas inocentes até prova em contrário. Na sociedade securitária e vigilante, todos as pessoas são consideradas possíveis terroristas com vontade de derrubar aviões e terão que mostrar, através das identificações e revistas de bagagem e corporais que não tencionam fazê-lo. As autoridades consideram todos culpados até prova em contrário.
Não é a minha forma de me relacionar com o mundo e não aceito ser assim tratado!
E se esta minha posição me impede de ir a alguns locais (muitos) no mundo, paciência. Há muitos outros, belos e interessantes, que não implicam aviões.

De igual modo não fotografo desconhecidos sem seu consentimento. Não vou impor a terceiros as minhas atitudes e desejos de troféus fotográficos, obrigando-os a terem que se pronunciar contra esse meu acto. A minha vontade não se sobrepõe aos demais.
Ao invés, trato de saber se o posso fazer e apenas nessas circunstâncias dou ao gatilho. Parto do princípio que a vontade do outro sobre si mesmo é mais importante que a minha vontade sobre ele. Tal como o contrário é verdade.
Não quero ter que contestar os actos de terceiros sobre mim. A minha vontade e decisão é mais importante.
Donde: ou há consentimento prévio ou não há fotografia.
E se isso me impede de fazer algumas imagens bonitas ou mesmo originais, não me preocupo. O mundo está cheio de locais, luzes e pessoas que poderei fotografar sem agredir o menosprezar as suas vontades.



É que, na vida, temos que ter princípios e regermo-nos por eles. Que quando abdicamos dos princípios estamos no fim. No fim da nossa própria liberdade de acção e decisão.

By me

domingo, 29 de janeiro de 2017

Nada de novo



Antes que o sol se esconda de vez atrás de um horizonte apenas sabido porque tapado por nuvens baixas e molhadas, vou buscar pão.
Na sala do fundo, três homens sentados e um de pé concentram-se num ecrã onde um jogo de futebol se vai desenrolando, felizmente que em silêncio. Na mesa, junto a eles, três chávenas de café, vazias, três cálices ainda em uso e duas garrafas de mini. Vazias.
Na sala da frente, cinco mesas ocupadas.
Em três delas a actividade dominante é a consulta do telemóvel. Incluindo duas amigas balzaquianas, sentadas frente a frente.
Numa outra, um já idoso jogador debate-se com o cálculo de probabilidades das apostas mútuas da Santa Casa. A mesa está coberta de papeis e boletins, que disputam lugar com uma chávena, um cálice. Vazios. E duas canetas.
Na quinta mesa um casal que faz questão de se manter informado. Ele num jornal desportivo, ela num jornal generalista de má fama. Não há espaço na mesa para que possa lá estar loiça de qualquer género.
Cá fora os contentores de lixo transbordam. Hoje é domingo e ontem foi sábado. Mas parece que há quem não tenha agenda.
No chão entre eles o lixo que escorrega, onde se evidencia um sapato solitário. Mais um, no meio de tantos que se vão encontrando, ainda que nem todos em evidência.
Ao entrar no prédio, seguro a porta para que uma família de vizinhos entre, fugindo da chuva. Nem agradecem o gesto nem respondem à saudação, limitando-se a, sempre em silêncio, abarbatarem-se com o único elevador que está no piso zero e seguirem da direcção oposta à minha. No outro, que entretanto chegou, imperava um odor de mistura entre humidade e fumo de tabaco. No chão, duas folhas de publicidade comercial, uma delas de pequeno tamanho e oferendo os préstimos de um canalizador/pedreiro/reparador de electrodomésticos. Na minha caixa de correio estarão dois iguais, mas hoje não a abri.


Nada de novo, nesta tarde de domingo numa rua de um bairro suburbano. Classe media/baixa, baixa.

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Arames farpados



Muito se vai falando e protestando contra o tal muro a construir ou completar entre os EUA e o México.

Pouca atenção mereceram, no entanto, os muros, as vedações e as patrulhas de milícias que bloquearam e bloqueiam a entrada na Europa dos que fogem da guerra. Sabemo-los agora à fome e ao frio, dependentes de boas-vontades que são sempre insuficientes, mas pouco disso se fala ou pouco sobre isso se protesta.

Já nem queria referir – mas não posso deixar de o fazer – os muros, vedações e patrulhas militares bem armadas que impedem a livre circulação nos territórios ocupados por Israel na Palestina.

 

Não sejamos hipócritas e façamos os nossos protestos coerentes e não dependentes de modas ou interesses mediáticos controlados por vontades políticas não confessas.



By me

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Vejamos as coisas da seguinte forma: Eu não posso mudar o mundo.

Mas posso e devo mudar um pouco do que está ao alcance da minha mão, da minha voz, do meu olhar.



Bt me

sábado, 28 de janeiro de 2017

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No espaço de uma semana, pouco mais ou menos, tropeço em diversas publicações on-line onde se usa o termo “distopia”.
O interessante é a palavra ter sido usada tanto em espaços mediáticos (jornais) como em espaços privados ainda que públicos (blogs).
Vou acreditar que o uso intensivo deste termo e respectivo significado em nada se prende com a recente política internacional.


Nota adicional: procurem vocês, que não vos posso fazer a papinha toda.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Incómodos



Há um montão de gente revoltada com o discurso do dono de uma cadeia de cafés e “padarias”. Faz sentido.
O que ele disse é fétido!
O que torna a coisa realmente grave é haver tantos empresários a pensar e a agir como ele pelo país fora. Gente a quem não deram a notoriedade de uma entrevista e que só os seus trabalhadores sabem o quão mal são tratados e pagos.

E nós deixamos!

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The show must go on



Não é por ser uma velharia com mais de trinta anos de fotografado e mais de dez de escrito que deixa de ser verdade. Aqui fica:

O meu primeiro trabalho profissional em fotografia foi no teatro. Ou, de outra forma, o meu primeiro trabalho pago em fotografia.
Tratava-se de uma companhia que já existia antes da revolução e cujas peças e trabalhos tinham andado a fintar a censura e a polícia política. Em acabando ambos, manteve o conceito de “Teatro de intervenção”, desta feita sem as peias censórias de então.
Os anos que para eles trabalhei, já em democracia entenda-se, foram para mim um manancial de aprendizagens, que não apenas em fotografia: o género humano, o audiovisual, o teatro, a arte, o que é ser criativo usando mensagens à sociedade e viver disso.
Acontece que, passados quase dez anos sobre o 25 de Abril, o público já não tinha grande apetência para assistir a teatro em que para além da função lúdica também o levasse a pensar. Tendência esta que se manteve e tem vindo a aumentar, diga-se em abono da verdade.
Assim, havia dias de representações em que havia mais gente em palco a representar que sentados na plateia a ver fazer. Por vezes, era confrangedor estar ali, pensando que era da receita da bilheteira, ou pouco mais, que eles viviam.
Apesar disto, nunca se suspendeu uma representação em que houve um só que fosse espectador. E o empenho de quem dava corpo e cara às personagens nunca esmoreceu, pese embora haver dias de menos ânimo.
Deixei de trabalhar para eles ao fim de três anos, levado pelo desejo de enfrentar novos desafios fotográficos. A companhia encerrou passados bastantes anos, por morte da directora e encenadora.
Do edifício resta uma ruína que em breve o camartelo e as políticas urbanísticas do município reduzirão a coisa nenhuma. Mas o que nunca se apagará ou enterrará são as memórias de quem frequentou aquela plateia e de quem representou naquele palco. Tal como aquilo que com eles aprendi.
E, neste momento em particular, recordo um aspecto fundamental:
A comunicação e a expressão criativa têm que se manter a todo o custo. E enquanto houver uma só pessoa que queira receber o que há para contar o espectáculo continua. Mesmo para além desse ponto!
E se esta não fosse a centelha motivadora, ou uma delas, quantos pintores, escritores, compositores, teriam desistido da sua actividade, por o seu trabalho não ser reconhecido na sua época?

Hoje, temos a herança cultural que temos!

E isso é das coisas boas que recebemos e que podemos e devemos conservar e aumentar para os vindouros!  

By me

Tempo



Sei que haverá quem olhe para esta imagem e se questione se eu terei algum problema sério com ampulhetas.
Não tenho! Mas tenho várias ampulhetas.
E é certo é que é uma boa forma de ver passar o tempo, o escorrer da areia.
Quer seja o tempo bom, que seja o tempo mau.

Destes dois, decidir sobre qual é qual fica ao vosso critério.

By me

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Estatísticas



Um estudo que seria interessante realizar (se é que não é feito mas sem divulgação) seria a variação em percentual e grau de gravidade nas admissões das urgências do país esta noite a amanhã de manhã, com vítimas de violência doméstica.

Que, por aquilo que conheço de algumas pessoas, hoje “vai haver festa” lá em casa com este resultado de futebol.

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Matando o tempo



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Aromas



Alguém será capaz de me explicar, porque não encontro eu explicação, o motivo de só agora, passado um ano de ter parado de fumar, me incomodar o aroma dos escapes dos automóveis?

By me

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

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Quando, num futuro distante, os historiadores estudarem os nossos tempos, acharão que somos uns idiotas chapados.
Muitas e variadas guerras, fome por todo o lado, destruindo o planeta a todo o vapor…
E, no entanto, em todas as fotografias individuais ou de grupo as pessoas fazem questão de estarem a rir ou sorrir.

A questão é: riem-se de quê? Se é do mundo em que vivem, são perfeitos idiotas.   
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Eu diria que esta será a questão mais pertinente a ser discutida nesta legislatura.
Muito para além das questões orçamentais, salariais, códigos de trabalho e de impostos e demais legislação avulsa.
Tão importante quanto a IVG ou o casamento ou adopção por casais do mesmo sexo.

Falamos de questões éticas da maior importância, que passa pela total liberdade de cada um poder decidir sobre si mesmo.

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“A máquina fotográfica” de José Carlos Ary dos Santos


É na câmara escura dos teus olhos
que se revela a água
água imagem
água nítida e fixa
água paisagem
boca nariz cabelos e cintura
terra sem nome
rosto sem figura
água móvel nos rios
parada nos retratos
água escorrida e pura
água viagem trânsito hiato.

Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
o tempo de onze meses de ordenado;
por isso, meu amor, viajo a nado
não por ser português mal empregado
mas por sofrer dos pés
e estar desidratado.

Chego. Mudo de fato. Calço a idade
que melhor quadra à minha solidão
e saio a procurar-te na cidade
contratada violenta negativa
tu única sombra murmurada
única rua mal iluminada
única imagem desfocada e viva.

Moras aonde eu sei. É na distância
onde chego de táxi.
Sou turista
com trinta e seis hipóteses no rolo;
venho ao teu miradoiro ver a pista
trago a minha tristeza a tiracolo.

Enquadro-te regulo-te disparo-te
revelo-te retoco-te repito-te
compro um frasco de tédio e um aparo
nas tuas costas ponho uma estampilha
e escrevo aos meus amigos que estão longe
charmant pays
the sun is shinning
love.

Emendo-te rasuro-te preencho-te
assino-te destino-te comando-te
és o lugar concreto onde procuro
a noite de passagem o abrigo seguro
a hora de acordar que se diz ao porteiro
o tempo que não segue o tempo em que não duro
senão um dia inteiro.

Invento-te desbravo-te desvendo-te
surges letra por letra, película sonora,
do sentido à vogal do tema à consoante
sem presença no espaço sem diferença na hora.
És a rota da Índia o sarcasmo do vento
a cãibra do gajeiro o erro do sextante
o acaso a maré o mapa a descoberta
num novo continente itinerante.


Imagem: by me

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Sinto-me estúpido mas tranquilo



Por vezes sinto-me estranho.
Em querendo atravessar uma rua, numa passadeira com semáforos, faço questão de esperar pelo “meu” verde.
Não se trata de querer cumprir qualquer código escrito, ou de querer evitar uma eventual multa de trânsito (elas estão previstas para peões, mas não sei de ninguém que dela tenha sido objecto).
Mas é certo que a estrada pode ser perigosa, pelo que haver um tempo para uns e um tempo para outros faz todo o sentido.
Tal como faz sentido que, em embirrando eu que os automóveis ocupem os passeios ou que não respeitem os sinais vermelhos, terei eu que ser cumpridor dos códigos existentes. Querendo para mim toda a prioridade com o sinal verde, recusando atravessar com o sinal vermelho.
Ora, por vezes, sinto-me como que um alienígena, parado no passeio, não vendo nenhum carro a menos de 100 ou 150 metros, o sinal vermelho para mim e todos os peões a passarem, com a maior das naturalidades. Os olhares estranhos que os demais peões me lançam são, no mínimo, credenciais para admissão imediata num qualquer asilo.
Mas, do meu ponto de vista, se exijo que me respeitem, tenho que ser o primeiro a respeitar os demais. Mesmo que às 11 da noite, sem carros à vista.

Quanto ao resto, a tranquilidade da minha consciência é bem mais importante que os olhares que recebo e, sabe-se lá, os mimos que a meu respeito são ditos. 

By me 

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Para os que gostam de usar letras para formar palavras, usar palavras para formar frases, usar frases para formar texto mais eleborado que publicam nas redes sociais, uma informação:
A segunda pessoa do singular do presente do indicativo do verbo ver – viste – não requer hífen (tracinho para os amigos).
O mesmo se aplica no verbo ouvir, vir, cair, ler, comer, fazer…

Da mesma forma que usais as publicações de terceiros para o vosso mural, tal como ligações a jornais e outras fontes de rigor duvidoso, não seria mau que tivésseis nos vossos “favoritos” um dicionário, daqueles simples em que basta introduzir a palavra e logo vos é mostrado se está correcta ou não e que significado tem.

Obrigado e desculpem qualquer coisinha.

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Outras escritas



By me

domingo, 22 de janeiro de 2017

Poluições



Muito se fala, nos tempos que correm, de poluição. Dos rios e mares, da atmosfera, das florestas…
Mesmo em termos fotográficos falamos de poluição, mas luminosa.
Mas há uma outra forma de poluição de que raramente se fala mas que a todos afecta: a sonora.
São os ruídos das cidades, com as suas maquinarias fixas ou móveis, é o “gralhar” constante dos aparelhos de comunicação, mesmo que quando de imagem, é o “palrar” ininterrupto de alguns humanos que parecem animados do “moto continuo”… é um sem fim de barulhos e ruídos, alguns dos quais bem difíceis de evitar.
Mas não todos. Há barulhos, ruídos, poluição sonora que podemos neutralizar ou minimizar, se a isso nos dermos ao trabalho.
Um dos exemplos é a chamada “música” que temos que ouvir em alguns transportes públicos. Ou noticiários. Ou relatos de futebol. Não suporto estes últimos e tudo faço para deles fugir. Que já bem basta o que tenho que suportar por motivos profissionais.
Em regra, ao entrar num táxi e se estiver o rádio sintonizado num relato de futebol, peço ao motorista para desligar o aparelho. Não tenho que ouvir aquilo e creio ser meu direito recusar ouvir aquilo.
Mas nem todos acatam de bom grado o pedido. Alguns protestam o meu protesto, outros transformam a viagem tranquila numa montanha russa de feira popular. Alguns, poucos, recusam.
E hoje foi o caso.
Não tive muito que saber.
Na primeira ocasião em que o táxi parou num semáforo saí. E, pela janela da frente do lado direito fiz o pagamento do que o taxímetro marcava.
Tratei de esperar a passagem de outro, que o local era bom para isso, enquanto aquele ficou parado dentro do carro no meio da rua com cara de parvo a olhar para mim.


Se todos nós agíssemos em conformidade quando nos sentimos incomodados ou mesmo agredidos, no lugar de apenas encolhermos os ombros, a vida por estas bandas seria muito mais fácil e agradável. 

By me

Ferramenta



A história li-a já não sei onde nem quando, e era mais ou menos assim:

Um fotógrafo de um jornal queixava-se ao director da qualidade do material que lhe forneciam para fazer as reportagens.
“Ainda se, ao menos, tivesse uma daquelas da última geração, com aqueles pixels todos e aquelas objectivas…”
A resposta foi lapidar:

“Acha que é a ferramenta que faz o génio? Então tome!” e entregou-lhe uma caneta Mont Blanc, em ouro, que tirou do bolso do casaco. “Vá escrever um best seller.”  

By me

sábado, 21 de janeiro de 2017

Camisas e ética



Foi há uns trinta anos, pouco mais. Não posso precisar.
Fui contratado por uma agência para fazer as fotografias de uma campanha publicitária de uma fábrica de camisas. Um trabalho de envergadura, com produção complexa, que envolvia fotografar modelos em locais alugados, o produto acabado em lojas e a fábrica em laboração.
Fotografado em formato 9x12, com uma câmara Linhof que havia comprado pouco tempo antes.
Quando o trabalho me chegou às mãos já quase tudo estava combinado entre o produtor e o cliente, ficando a meu cargo as questões técnicas e estéticas, e pouco de publicidade ou comunicação.
O trabalho correu mais ou menos bem, com alguns episódios caricatos e algumas falhas da minha parte, mas que fui resolvendo como podia.
O último dia de produção era na fábrica. A mais complicada em termos de luz, considerando a enormidade do espaço: uma nave grande, cheia de gente a costurar, com uma mistura de luz natural entrada pelas janelas e telhado e luz fluorescente vinda do tecto. Um pesadelo, se considerarmos que o trabalho era a cores e não havia photoshop para correcções posteriores.
Enquanto o produtor e o cliente ficavam à conversa, eu passeei-me pelo espaço, tentado senti-lo: máquinas, pessoas, luz, acções…
E apercebi-me de sorrisos constrangidos das senhoras que iam costurando ou cortando as peças de tecido. Fui metendo conversa com elas.
Fiquei sabendo que tinham sido avisadas da nossa vinda, que haveriam de vir com uma bata lavada e penteadas para as fotografias. Mas bastantes, algumas com idade para serem minhas avós, não queriam ser fotografadas. Ou por timidez, ou porque não gostavam da forma como ali eram tratadas, ou tão simplesmente porque não gostavam de fotografias. Sempre em tom baixo de conversa, não fosse serem ouvidas.
Eu era ainda puto, a experiência reduzida e o trabalho poderia lançar-me para outros voos. Mas aquilo foi-me batendo forte. Muito forte! Eu iria fotografar gente que não queria ser fotografada mas que era obrigada a isso pelo patrão. Não gostei. Nem um nico!
Regressei para junto do grupo que me aguardava: O dono da fábrica, a sua secretária, o produtor e o Jorge F., o meu assistente, inigualável no seu desempenho, que me entendia e me completava nas tarefas como nenhum outro com quem trabalhei. E disse-lhes que o trabalho não podia ser feito como combinado.
Ficaram a olhar para mim com ar espantado. E expliquei com argumentos técnicos e estéticos não iriam ser possível fazer boas imagens com a presença humana, já que ficariam tremidas ou com cores estranhas e que a solução seria fotografar a fábrica e a maquinaria por pedaços em vez de por inteiro e sem a presença das operárias.
A discussão foi renhida, entre mim, o dono da fábrica e o produtor. De parte, o Jorge, junto da tralha entretanto já descarregada, olhava para mim e sorria discretamente. Disse-me, mais tarde, que havia percebido o que eu queria com aquilo.
Acabei por ganhar a batalha. Afinal, mesmo sendo puto, eu era o “expert” na coisa e aquilo que propunha não iria alterar em muito o conjunto do projecto inicial. E, depois do almoço, a produção parou por algumas, não muitas, horas.
As imagens foram feitas, com as máquinas bonitas, brilhantes e eficientes, com peças a meio do tratamento tanto de corte como de costura ou dobragem e embalamento. Mas sem ninguém contrariado nelas. Nem com sorrisos contristados nem com mãos calejadas ou com cicatrizes.
Quando, no final dos trabalhos, estávamos a arrumar a tralha e as operárias regressaram às suas máquinas, os sorrisos de algumas pagaram muito bem pago o só ter feito mais um trabalho, já agendado, para este produtor.
Ainda hoje as recordo.


Nota extra: A fotografia não é da época. Os originais, em diapositivo 4x5, foram entregues ao cliente na altura. Esta foi feita ali, a correr, para acompanhar o texto.

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Garfos e bolos



É uma certeza com validade de 99%:
As pastelarias que apresentam aos clientes garfos destes, quase em desuso, têm uma qualidade superior nos bolos e pasteis que vendem e/ou fabricam.
Não faço uma verificação prévia desta observação, mas sempre que vejo surgir um garfo assim começo a salivar, mesmo antes de ver o bolo.
Creio que o motivo passa pelo facto de que quem se preocupa em ter para apresentar este tipo de talheres preocupou-se antes, e muito, com a qualidade dos produtos que tem.


Deixo ao vosso cuidado o confirmar ou contestar tal regra.

By me

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Um livro



É daquelas coisas que faz descrer no actual sistema de comércio.

Preciso de um livro. Sei o título, sei o autor, sei a editora.
Vou a uma livraria, daquelas antigas, onde quem lá trabalha gosta e sabe de livros.
Perante o pedido e consultado o computador, sou informado que não têm mas que podem tentar encomendar. Será coisa de dez a quinze dias.
Em alternativa, dizem-me, posso tentar a outra livraria ali da rua.
Conheço a outra livraria. Também antiga, aliás muito antiga, tem lojas espalhadas pelo país e venda on-line. Vou lá.
Quem me atendeu também consultou o seu computador, uma consulta um pouco mais demorada, e diz-me que não, que possuem. Nem em loja física nem na on-line.
Só não a informei da atitude dos seus vizinhos livreiros porque não quis estragar, com o meu discurso, a satisfação de ter ali ao lado comprado um outro com que não estava a contar.
Mas tenho dúvidas sobre o voltar a ter vontade de cruzar aquela porta.


O livro-surpresa? Este.

By me 

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Fui à varanda ver como estava o tempo e fiquei boquiaberto!
Então não é que estava um pinguim a subir a rua!?
Esfreguei os olhos, só para ter a certeza, e não hesitei um instante:
Voltei para dentro para ir buscar a câmara fotográfica com uma objectiva de jeito. Isto tinha que ficar bem registado.
Quando regressei já tinha passado.
Encostei-me à ombreira da janela frustrado, a pensar na coisa, e percebi tudo:

Eu estava com alucinações provenientes das baixas temperaturas. O que subia a rua era uma vizinha, que é freira.

O meu tio



Os tios são aquela figura de que toda a gente fala. E eu não serei excepção.

O meu tio Artur era uma figura impar. E em boa verdade era meu tio-avô e faleceu era eu catraio pequeno.
Dele guardo algumas recordações. Não muitas, porque o nosso convívio foi diminuto, mas intensas. E histórias, que se contam ou contavam na família.
Uma delas refere a sua vida amorosa.
Namorava ele uma moça na sua juventude quando cometeu o erro de “dar uma facadinha no namoro”. E foi obrigado a casar com ela, que os tempos eram outros.
Mas afectos são afectos E mandam mais que regras sociais ou voltas de relógio.
E quando ele enviuvou, casou com a namorada da sua juventude distante.
O que recordo dele e dessa minha segunda tia é serem um casal de velhinhos muito velhinhos mas sempre felizes e sorridentes.

Se fosse vivo esse meu tio teria uma idade que o faria constar de um qualquer livro de records. E sendo certo que não sei a sua data de aniversário, daqui lhe acendo e apago umas velinhas.

Parabéns a você, nesta data………

By me

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Canecas



Parece ser uma obrigatoriedade que os apresentadores de “talk shows” que o fazem sentados em frente a uma mesa com os convidados num sofá tenham, para si, uma caneca na mesa. Suponho que para irem molhando a boca e garganta, que muito secará do muito que falam.
O que é interessante é que as canecas são invariavelmente opacas. De loiça. Impedindo-nos de saber, com rigor, aquilo que usam para se “hidratarem”.

Se calhar até é melhor assim.

By me

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Um dos requintes da chicana jornalística é vir a terreiro divulgar quais os bens que os filhos de Mário Soares irão herdar.

Mais ainda: a própria notícia diz que o testamento não é público.

Política à margem de partidos



Esta senhora que conheço tem quase trinta anos e conta que é originária de uma família humilde, que o pai saiu do país cedo e que tem mais de onze tios, todos criados com muita dificuldade.
Apesar de tudo isso, e do mais que não contou nem conto eu, conseguiu concluir um curso superior. E que o trabalho que agora tem, apesar de ser na linha do seu curso, ainda não é o que ambiciona. Diz ela que não desiste de o conseguir.
Até aqui tudo bem. Só posso aplaudir o seu esforço e empenho, bem como o sucesso. E o não baixar os braços e continuar a lutar pelo seu sonho. É de gente desta que precisamos, aparentemente. É que…
É que me dói a alma, bem lá no fundo, o ela assumir-se de direita!
Não isso em particular, que muitos são os que afirmam e que parece que o praticam, mas que no fundo o fazem como forma de afirmação social ou de identificação grupal.
O que me dói é ela defender, convicta, a fractura social e a separação de classes. Bem como a indiferença para com os que não conseguem, por motivos endógenos ou exógenos, triunfar como ela.
Pior ainda, o afirmar sem pejo que aqueles que não têm capacidades que se cuidem. Que a sociedade não tem que os apoiar e que “Se não conseguem, temos pena!”
O que me assusta nesta senhora, quase que ainda mocinha, é que o mais natural é ela vir a ser “engolida” pela máquina trituradora que é a sociedade em que vivemos. E que mesmo que sobreviva (e desejo bem que sim e que concretize os seus sonhos) será sempre uma frustrada, que haverá sempre alguém que lhe provocará “inveja”, pois conseguiu ir ainda mais longe que ela.
É que, nesse seu anseio e frustração, aumentará o desprezo e indiferença para com aqueles que não têm a sua força e capacidade.
Tenho pena por ela, que irá sofrer, pois irá encontrar no seu caminho gente tão ou mais ambiciosa que ela pela vitória e poder. E que a tratará exactamente como ela trata os que lhe estão “abaixo”.
E tenho pena de todos nós, pois que ela não é caso isolado. É que não são tão poucos quanto isso os que ombreiam na sua forma de pensar e agir. Do mesmo grupo etário. E muitos com o mesmo tipo de origens humildes mas honrosas.

O Homem é o único que mata o seu igual por “dá cá aquela palha”. E esta mulher e os seus semelhantes, são bons representantes do género humano como o conhecemos hoje.
Mas, apesar disso, ainda somos bastantes os que por cá andamos a fazer o possível para que, se ela falhar ou se ela necessitar, tenha o apoio de que irá precisar por parte de quem a cerca: todos nós. Esse mesmo apoio que ela agora nega aos outros.
Tal como farei – faremos – os possíveis por inverter este processo social e transformar o mundo num local onde gostaria que os meus filhos vivessem.

Que não o é hoje por causa de pessoas como ela.  

By me

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Quebrando a rotina



By me

Contestação



Num fórum a que pertenço, li que:

“A arte é uma impossibilidade, uma coisa inútil. Que alguém me diga como através de alguma obra de arte conseguiu-se algum objectivo social ou massivo. Que através do "Guernica" de Picasso (uma das obras mais belas do autor) conseguiu-se parar alguma guerra. Ou através de alguma foto se obteve algum tipo de consciencialização de alguma coisa. Fotos são premiadas, obras (pinturas, músicas, obras literárias o que for) são aclamadas, distribuídas e visitadas, porém, nossas sociedades se atem a outro tipo de influências onde a arte está tão longe quanto a bela lua.”

Vou deixar de parte a enorme dificuldade que eu tenho em saber o que é uma “obra de arte”, quanto mais uma “fotografia artística”!
Entendo que a arte, nas suas manifestações efémeras como o canto ou o bailado, nas suas manifestações portáteis, como a literatura, a pintura e, porque não, a fotografia, ou nas suas manifestações inamovíveis, como a arquitectura, será o alimento que nos distingue dos demais seres vivos.
Não será um quadro, uma balada ou um palácio que matará a fome de quem está a morrer dela. Muito provavelmente, todo o investimento pessoal e material na sua criação evitariam essa mesma morte.
Mas quantos são aqueles que, para se expressarem, para criarem, para conceberem e materializarem uma obra de arte, roçam o limiar da morte? Quer seja a “fome física” (veja-se Miró e as suas abstinências quase limite), quer seja a “fome intelectual”, quase raiando ou mesmo ultrapassando o chamado “limiar da sanidade”.
Efectivamente, não será por se ouvir uma sinfonia, ver uma fotografia ou mergulhar num poema que enchemos a barriga, ou curamos uma doença. Mas, garantidamente, ao confrontarmo-nos com uma “obra de arte”, aquele outro aspecto de nós, aquele que não quer saber de comida, de saúde ou de abrigo, se aquece, cresce, alegra e fica feliz.
Mal comparado (ou talvez não tanto), e que me perdoem se ofenderei alguma sensibilidade, a arte poderá comparar-se ao conceito de religião, em que o ir ao templo, o orar, o possuir um ícone, conforta os crentes, aliviando-lhes a alma das maleitas terrenas.
O criar ou admirar uma “obra de arte” tem ou pode ter o mesmo efeito. A paz, o confronto de ideias, a surpresa de quem vê ou o esforço de quem a cria, com as tentativas e erros, os esboços, o tempo de meditação em torno da forma ou do conteúdo, tudo isto de alguma forma conforta a alma, seja qual for o nível de sofrimento físico que se possua.

Dizer que “A arte é uma impossibilidade, uma coisa inútil” será remetermo-nos a um estado meramente animalesco, em que nascemos, crescemos, reproduzimo-nos e morremos. E nada mais!
Na sociedade em que vivemos, com o imediatismo dos media e das velocidades de comunicação e de consumo, a produção e o usufruto da “arte” estão em risco.
Ainda mal acabámos de ver um quadro, ouvir uma voz ou apreciar um filme, já aí está outro que o substitui, que tenta ir mais além e vender mais. E aquele que acabámos de ver já se diluiu confrontado com o novo.
Porque o problema, se o houver, nos tempos que correm no que à criação de “arte” diz respeito, prende-se com o seu valor comercial. Produzir e vender!
Tal como a “fast food”. Comer e defecar. O prazer e a satisfação do palato pouco ou nada contam. Assim é com as “criações artísticas”. Aos consumidores não é dado tempo de as apreciarem, de as deglutirem, de as mastigarem e encherem a “boca da alma” com os seus paladares. Considera-se uma “obra de arte” a que mais zeros tiver no seu preço e mais guardas à sua volta.

Dir-me-ão alguns que os escravos que ergueram o que nos resta da arquitectura ou escultura Grega ou Romana, que os mortos que inspiraram a “Guernica”, que as crianças de dez anos e que pesam 6 quilos nos terceiros mundos deste mundo e os que desfalecem a 50 metros de um hospital por não terem como pagar a conta, nada se importam com a “arte”. Com a “arte” como a conhecemos e aqui a descrevemos. Verdade! Ou talvez não!
Porque esses mesmos, nesse sofrimento que só conhecemos por ouvir falar ou pouco mais, trauteiam uma música, moldam um pedaço de barro ou misturam algumas cores. Procuram, de alguma forma, materializar o seu estado de alma sem saber o que é “arte”, “correntes estéticas” ou “galerias e galeristas”. Procuram, desta forma humilde e nada académica, um escapismo, um exorcismo ao que pensam, sentem e sofrem. É uma forma de fugir ao mero animal que não somos, é o ultrapassar o físico em busca de uma outra satisfação de necessidades.

A isto, poderia eu chamar “uma manifestação artística”, se soubesse o que é arte.


Texto: by me

Imagem: “Cabbage Leaf”, by Edward Weston, 1931

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

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Com a sua "Alegoria da caverna", Platão foi o primeiro a debater a importância da imagem na sociedade.
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Está a fazer-me falta ver o trabalho de outros.
Não apenas dos meus patrícios, por muito bons que sejam e são, mas os trabalhos feitos noutros lugares, onde outras vivências conduzem a outras concretizações.
Na fotografia também.
Em tempos ia-se a algumas casas em Lisboa e encontravam-se revistas Francesas, Inglesas, Norte Americanas, Italianas, Espanholas, até Alemãs.
Tinham artigos técnicos, divulgavam fotógrafos internacionais mas também nacionais, permitindo que ficássemos com uma ideia do que se ia fazendo naquele país.
Hoje o que encontramos por cá são revistas portuguesas e francesas.
Para mim é curto!
É que, e não nos enganemos, ver fotografias numa revista ou livro ou vê-las no ecrã de um computador é tão semelhante quanto comer um cozido à portuguesa num restaurante ou um hambúrguer num fast-food.


Faz-me falta ver o trabalho de outros!

By me

Conflitos



Esta é uma teoria minha, velha de quase uma dezena de anos.
Claro está que sempre foi olhada de lado, classificada de “conspiração” e eu encarado com olhares condescendentes.
Mas aqui fica, uma vez mais:

Atravessamos nós, seres humanos, aquilo a que se pode chamar de “terceira guerra mundial”.
Será mundial porque cobre todo o planeta; Será terceira porque já aconteceram duas; Já o ser “guerra” é-o, ainda que não o pareça.
São três as potências que se batem pelo controlo total: Europa (ou EU), China e USA. Poderia incluir-se a Rússia, mas a forma de “combater” ainda não foi assumida por eles.
Porque o combate não acontece com armas e explosões. As munições são económicas e o objectivo será cumprido quando o adversário estiver economicamente dependente do vencedor. O resto, as leis e as ordens, surgirão como que naturalmente, ditadas por quem estiver a decidir o que vestir, o que comer, quantas horas e dias e anos de trabalho, o que pensar ou não pensar…
Acontece que é difícil, para não dizer impossível, que três adversários se combatam entre si em permanência e sem alianças. O esforço de guerra é particularmente elevado e as probabilidades de vitória de qualquer um deles muito diminuta.
A alternativa é o que sucede agora e desde há uns anos: dois deles, em conluio ou não, atiram-se ao mais fraco até o aniquilarem ou deixarem em estado de não provocar estragos. Só depois tentam resolver as coisas entre si.
Repare-se como a Europa tem sido agredida, enfraquecida, minada, tanto do ponto de vista político como económico, pelos outros dois gigantes.
E agora, que por cá se entrou num curso descendente quase sem paragem possível, começam os outros dois a digladiarem-se. Com questões políticas, com questões económicas, envolvendo mesmo alguns aspectos militares.


É triste constatar que se tem razão em situações como esta.

By me 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Carne p'ra canhão



Os grandes confrontos entre exércitos faziam-se com linhas de homens que avançavam sobre o oponente, disparando as suas armas.
Acontece que estas eram de pólvora negra, de carregar pela boca, de um único tiro. Depois de disparadas, haveria que deitar pólvora pela abertura frontal do cano, acrescentar o projéctil, calcar tudo com uma vareta e garantir a existência do sistema de ignição na câmara: inicialmente por pederneira, mais tarde por fulminante.
Disparava a primeira linha, avançava a segunda para disparar enquanto a primeira iniciava o remuniciamento, avançava e dispara a terceira enquanto a primeira terminava o carregar da arma, avançava a primeira…
Quando a distância entre as linhas adversárias era muito pequena, passava-se à luta corpo a corpo, de espada ou baioneta, esta colocada na ponta do cano da espingarda ou mosquete.
Mas se este avanço era táctico, para tomar uma posição inimiga, estes estariam equipados com canhões. Que eram municiados também pela boca da arma. Mas que disparavam sobre as linhas inimigas que avançavam, dizimando-as as mais das vezes.
Neste tipo de confronto bélico, a primeira vaga de assalto tinha uma taxa de sobrevivência diminuta, menos de dez a vinte por cento, ao que sei.
E era a esta vaga, conjunto de três linhas, que se dava o nome de “carne para canhão”. Que se sabia ser dizimada pelos canhões inimigos e que era o preço para que as linhas seguintes chegassem ao corpo a corpo.

Hoje a pólvora negra é usada apenas em espectáculos pirotécnicos. As armas de carregar pela boca (mosquetes, revolveres de acção simples ou canhões) já não são mais que peças de museu. E a carne para canhão já não se espalha pelos campos de batalha da mesma forma.
Mas continua a existir, a carne para canhão.
Às ordens dos generais dos mercados e dos marechais da política, a carne para canhão somos nós, que vamos tombando nos campos de batalha económicos, vítimas das ofensivas bancárias e geopolíticas.
E com a ilusão da “doce morte do herói” continuamos a marchar armados de notas, moedas, contratos e consumos.
Os generais de hoje já não têm estrelas nos ombros, não vestem de caqui nem possuem cavalos brancos.
Mas nós continuamos a alimentas essas guerras, caindo na frente de combate às ordens desses que não saem dos gabinetes estratégicos.
Continuamos a ser a sua “carne para canhão”.
Até que um dia espetemos no chão as baionetas, deitemos fora as munições e enterremos as carteiras com notas e cartões.




Imagem: “Harvest of death”, de Timothy H. O’Sullivan, 1863, Gettysburg, USA
By me