terça-feira, 27 de junho de 2017

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By me

Disparates

Dúvidas linguísticas que me atrapalham. Por exemplo:
Há verbos que não podem se conjugados na primeira pessoa. “Chover” é um deles. É um verbo intransitivo que só se usa na terceira pessoa. Ninguém dirá “eu chovo”, por exemplo.
Outro equivalente é “suicidar”. Pese embora tenha encontrado gramáticas que o conjugam nas três pessoas do singular e do plural, é um disparate ser usado na forma reflexa.
O acto em si é algo que, por definição, é executado por alguém sobre si mesmo. Ninguém suicida outro. Isso seria um assassínio.
Donde dizer “suicidou-se” é um absurdo, já que só poderia ser executado pelo próprio sobre o próprio.

Claro que este assunto não me tira o sono nem a vida. Veio à baila depois de ouvir tantos políticos e gente importante tão mal usarem o verbo.
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segunda-feira, 26 de junho de 2017

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Podemos fazer um interessante itinerário da nossa vida e relacionamentos quando limpamos a carteira e nos livramos de velhos cartões de visita pessoais ou comerciais.

Surpresas?



Está meio mundo indignado com a notícia sobre o Facebook.
Ao que parece, há uns anos andaram a manipular o que aparecia no “feed de notícias” de alguns utilizadores, com o fito de perceberem até que ponto notícias positivas ou negativas influenciavam os posts dos mesmos. Foram uns milhares assim afectados, sem o saberem.

Estão espantados ou incomodados com o quê?????
Estão à espera que não existam jogos de manipulação nas redes sociais?
Santa ingenuidade!
Isso acontece há dezenas de anos, desde a invenção da comunicação social: impressa, ouvida, vista. As notícias são escolhidas, filtradas, ajustadas e difundidas de acordo com os interesses do meio ou suporte. Interesses económicos, interesses políticos, interesses corporativos, interesses desportivos… interesses.
Mesmo os próprios utilizadores manipulam as opiniões dos que acedem aos conteúdos, publicando o que querem para obter os resultados que querem: aceitação social, influências políticas ou laborais, interacção com terceiros…
As redes sociais são a versão moderníssima das conversas de café ou do largo da igreja. E essas conversas acontecem – sempre – com dois objectivos: porque queremos que a nossa opinião seja ouvida e aceite, porque queremos saber a opinião ou notícias de terceiros.
Por isso se escolhe (ou escolhia) este ou aquele café, este ou aquele banco do largo público: em função de quem o frequenta, onde a nossa opinião pode ser ouvida ou onde o que por lá se diz nos interessa.
Fazem isso os media, todos os dias, a cada instante. Fazemos nós isso nas redes sociais, a cada publicação que fazemos ou acedemos.
Esperar que a gestão das redes sociais seja inócua, isenta, sem interferir em nada nos conteúdos é ingenuidade da mais pura.
Em último caso, vejam-se os banidos, as páginas apagadas, as denúncias por parte de utilizadores…

Acordem!
Manipulação é a palavra-chave desde o invento do púlpito, desde o invento da rotativa, desde o invento da emissão de um para todos.
Tudo o mais são roupagens para um mesmo conceito.
Ou acham que as cores escolhidas para uma capa, ou os sons e imagens escolhidos para um genérico ou as manchas gráficas ou a sequência de conteúdos é inocente e inconsequente?
Da próxima vez que virem algo que vos atraia, positiva ou negativamente, num computador, num jornal, num quiosque ou ouvirem numa rádio, pensem nos motivos que levaram quem vos informa a fazer tal coisa. No escolher o conteúdo, no escolher a forma, no escolher o momento. E porque vos conta aquilo em particular e não tantas outras coisas e assuntos que poderia ter abordado. Boas e más.


Espantem-se com a vossa surpresa, não com o que a motivou!  

By me

domingo, 25 de junho de 2017

O recanto



Porque surgiu, já nem sei como, em várias conversas e porque o momento o justifica, uma velharia, uma novidade e uma imagem:


Entra Todo o Mundo, rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que perdeu; e logo após, um homem, vestido como pobre. Este chama Ninguém e diz:

Ninguém : Que andas tua aí buscando?

Todo o mundo: Mil cousas ando a buscar :
delas não posso achar,
porém ando porfiano
por quão bom é porfiar.

Ninguém : Como hás nome, cavalheiro?

Todo o Mundo: Eu hei nome Todo Mundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo

Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência

Belzebu : Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.

Dinato : Que escreverei , companheiro ?

Belzebu : Que ninguém busca consciência,
e todo mundo dinheiro.

Ninguém : E agora que buscas lá?

Todo o mundo : Busco honra muito grande.

Ninguém : E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.

Belzebu : Outra adição nos acude:
escreve logo aí, a fundo
que busca honra todo mundo
e ninguém busca virtude.

Ninguém : Buscas outro mor bem qu'esse?

Todo o mundo: Busco mais que me louvasse
tudo quanto eu fizesse.

Ninguém : E eu quem me repreendesse
em cada cousa que errasse.

Belzebu : Escreve mais.

Dinato : Que tens sabido?

Belzebu: Que quer em extremo grado
todo o mundo ser louvado,
e ninguém ser repreendido.

Ninguém: Buscas mais, amigo meu ?

Todo o mundo: busco a vida a quem ma dê.

Ninguém : A vida não sei o que é,
a morte conheço eu.

Belzebu : Escreve lá outra sorte.

Dinato : Que sorte?

Belzebu: Muito garrida:
Todo o Mundo busca a vida
e ninguém conhece a morte.

Todo o Mundo: E maisqueria o paraíso,
sem mo ninguém estorvar.

Ninguém : E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.

Belzebu : Escreve com muito aviso.

Dinato : Que escreverei ?

Belzebu: Escreve
que todo o mundo quer o paraiso
e ninguém paga o que deve.

Todo o Mundo: Folgo muito d'enganar,
e mentir nasceu comigo.

Ninguém: Eu sempre verdade digo
sem nunca me desviar

Bellzebu: Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.

Dinato: Quê?

Belzebu: Que todo o mundo é mentiroso,
E ninguém diz a verdade.

Ninguém: Que mais buscas?

Todo Mundo: Lisonjear.

Ninguém: Eu sou todo desengano.

Belzebu: Escreve, ande lá mano.

Dinato : Que me mandas assentar?

Belzebu: Põe aì mui declarado,
Não te fique no tinteiro:
Todo o mundo é lisonjeiro,
e ninguém desenganado.



Excerto de “Auto da Lusitânia”, por Mestre Gil Vicente  
By me

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“Born in the 90’s”, trazia aquela mocinha orgulhosamente estampadas na T-Shirt bem justa e curva.
Creio que vou mandar imprimir uma outra, igualmente preta e com letras também brancas, com os dizeres “Born in the 50’s”.


Mais abaixo, na curvilínea barriga, constará “And couting”. 

sábado, 24 de junho de 2017

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Incrível!
Há uma estação de TV por cabo que está a emitir uma longa-metragem que acontece enquanto chove.
E isso nada tem de relevante para o enredo. Aparentemente.

Há muito que não via disso.  
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Exemplos



Há uns dias li uma notícia – não sei se verdadeira se não – onde se contava que um cidadão britânico teria apresentado queixa com a rainha Isabel II de Inglaterra por esta viajar sem o cinto de segurança. À revelia de todas as regras e normas.
Hoje encontro esta fotografia no jornal “Diário de Notícias”, assinada por Orlando Almeida/Global Imagens, onde nos é mostrado que os nossos governantes também não o fazem.
Pelos presentes na imagem, suponho que tenha sido aquando da tragédia dos incêndios de há uma semana. E acredito que, naquele momento e naquele lugar, muitas coisas terão sido esquecidas. Cintos de segurança incluídos.

Mas convenhamos: como exemplo aos demais cidadãos não é grande coisa.

By me 

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Já não se fala dela. Dele agora todos falam.
Ela é a cara de um jornal televisivo. Ele é o pseudónimo de um jornal escrito.
Ela é tuga. Ele é não se sabe o quê.
Mas têm algo em comum: foram a notícia que se sobrepôs à notícia.
E quando o jornalista se torna mais importante que o relatado, algo de muito podre acontece nos media.

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Assimetrias



A rica tem nome fino
A pobre tem nome grosso
A rica teve um menino
A pobre teve um moço


António Aleixo

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Óculos de sol



Não gosto de óculos de sol.
Eu próprio não os uso. Os pô-los e tirá-los a cada fotografia ou espreitadela na câmara faz-me variar a sensibilidade dos olhos, não me permitindo uma correcta análise do que estou a fazer.
Por outro lado, e sendo que a grande maioria são coloridos, muito ou pouco, também distorcem a forma de ver o mundo e as suas cores.
Prefiro encarar o que me cerca sem filtros ou artifícios, reservando tal coisa para a forma de captar que me apeteça usar.
Mas também não gosto de óculos de sol nas caras dos outros.
Entendo que possam precisar, por via da intensidade da luz.
Também entendo que os queiram usar como forma de ajeitarem as proporções do rosto, alongando-as ou alargando-as com o formato da armação e lentes.
Mas o certo é que os óculos de sol privam-me de algo de que gosto aos montinhos: ver os olhos das pessoas.
Espreitar os olhos é entrever a alma e gosto de ver isso. E de avaliar se valem, ou não, um registo. Por aquilo que me transmitem enquanto não dão por mim e com o que me dizem quando os nossos três olhares se cruzam: o do modelo, o meu e o da objectiva.

Não gosto de óculos de sol. Tenho que coexistir com eles, mas não gosto.

By me

O sistema



É típico em Portugal culpar-se o sistema.
Quando algo não funciona ou funciona mal, a primeira justificação (quantas vezes a única) é “falha no sistema”.
Hospitais, tribunais, farmácias, finanças, segurança social, parlamento, correios, transportes… A falha do sistema é sempre invocada.
O único sistema que nunca falha é a sistematização da falha do sistema. Já me aconteceu mesmo, num balcão de atendimento hospitalar, perguntar à funcionária se não conseguia porque o sistema estava em baixo. E o seu ânimo estava tão em baixo quanto o sistema.
O sistema tem costas largas. Bem mais largas que a costa portuguesa, e sabemos que esta é grande. Tanto que a última piada que conheço no caso da tragédia dos incêndios, macabra por sinal, é que o sistema “ardeu”.
E sistematicamente a culpa morre solteira.

É que, e é público e notório, o sistema não tem cara. E consequentemente não tem vergonha na cara.

By me 

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Não é difícil perceber que há muito mais prevenção e segurança nas bombas de gasolina que nas florestas.

Talvez por isso não se oiça falar em incêndios em bombas de gasolina.

Surpresas



Vinho e vinagre vendem-se em embalagens bem distintas. Na forma e no tamanho.
Vantagem para quem, no corre-corre dos supermercados, não quer enganar-se.
Tal como na mesa. As galhetas não se confundem com o jarro ou garrafa. E a própria forma de usar não se equivale. Nem no local onde são vertidos nem na quantidade.
São os nossos sentidos que imperam na diferenciação, tanto o olhar quanto o olfacto, impedindo que o paladar sofra.
Mas imaginemos que nos é servido num copo opaco e que estamos mesmo constipados.

Consigo facilmente imaginar a confusão que seria no altar se tal partida fizessem ao sacerdote.

By me 

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Liberdade?



By me

Caos organizado

As horas gastas à procura de objectos importantes não são perdidas.
Considera-as como parte do teu sistema de segurança.

Afinal, se não os consegues encontrar, um ladrão também não conseguirá.
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Há os que fazem as coisas acontecerem;
Há os que vêem as coisas acontecerem;

E há os que perguntam: “O que se passa?”  

By me

Ser ou não ser



Já me aconteceu algumas vezes: encontrar objectos perdidos ou esquecidos. Carteiras, chaves, documentos de identificação, sacos com objectos diversos.
De todas elas fiz aquilo que acredito ser o normal: procurar que o legítimo dono recupere o que é seu.
Já o fiz deixando o objecto num café nas proximidades. Os cafés são, sabemos, a praça pública de antanho, junto com mercearias ou farmácias. As pessoas conhecem-se, trocam ideias e novidades, e há sempre quem saiba da vida dos vizinhos.
Já o fiz entregando nas autoridades policiais. No fim de contas, é um lugar seguro para se deixar o que se encontra e, presume-se, farão bem mais e melhor que eu para encontrar o proprietário. Nem sempre fui bem recebido neste acto.
De uma das vezes, recordo-o como se fosse ontem, a agente que me atendeu na esquadra de Sintra, virou e revirou o que lhe entreguei e, olhando para mim, perguntou-me pelo resto. Fiquei de tal forma que só fui capaz de responder “Vamos fazer de conta que a senhora não disse isso e recomeçar a conversa. Encontrei isso em tal local e gostava que o devolvessem a quem aí está identificado.” Ficou pálida e lá tratou de registar a ocorrência sem mais insinuações.
De outra fui recebido com a maior das cordialidades, a carteira foi revistada e tudo anotado, incluindo o dinheiro que continha, a minha identificação registada e saí da esquadra com a convicção que o seu dono a recuperaria através do bilhete de identidade que lá estava.
De uma outra, e após alguns telefonemas para as escolas cujos cartões referiam, fiz chegar em mão no dia seguinte a carteira, o dinheiro e o passe, ao jovem que a havia perdido na estação de comboios, tarde na noite.
Nem estas nem outras histórias equivalentes fazem de mim alguém especial. Fiz o que tinha que fazer, exactamente como gostaria que alguém o fizesse se fosse ao contrário. Enquanto cidadão outra coisa não poderia fazer para tranquilidade da minha consciência.

É por isso que fico “incomodado” quando leio uma notícia que relata ter sido devolvido um saco com bastante dinheiro. É uma história que não deveria ter direito a espaço de jornal. Independentemente da condição social dos intervenientes.
O devolver a seu dono o que não nos pertence é um acto que deveria ser natural, tão natural quanto o quer ser aquele a quem é devolvido. E o ser muito dinheiro e quem o achou ser muito pobre não deveria ser condicionante para que o não seja.

A honestidade não tem fronteira traçada algures entre cinco e cinquenta euros. Ou se é ou se não é.

By me 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Solidariedades



Faz todo o sentido acontecerem as ondas de solidariedade em momentos de catástrofe.
Cada um contribui com o que pode, do que sobra ou não, para ajudar aqueles que precisam em momentos de aperto.
É a sensação de contribuir para quem sofre, é o fazer o luto através de actos, mesmo que por pessoas desconhecidas, é o saber-se ser-se útil quando necessário e não apenas ser mais um.
Mas o que faz sentido é isto não estar à discrição de cada um, uns contribuindo outros não. Este esforço da sociedade não deve depender das vontades individuais – das boas vontades – ficando o futuro dependente nem se sabe de quê.
Não faz sentido que os que sobreviveram tenham que estar aflitos porque não sabem como pagar funerais. Não faz sentido que os que tudo perderam não saibam onde vão passar a noite de natal. Não faz sentido que os que perderam o sustento numa catástrofe fiquem em risco de não terem sustento a médio prazo, que as solidariedades funcionam a curto prazo.
Faz sentido, antes sim, que o colectivo a que chamamos país intervenha num todo, usando os recursos que recebe de todos através dos impostos e contribuições.
Faz sentido que as casas ardidas sejam reconstruídas ou substituídas, que as fontes de rendimento queimadas tenham alternativas estáveis e duradoiras, que o futuro de quem isto viveu não seja tão negro quanto a fuligem que os cobriu.
Aos os que dizem que os orçamentos não dão para mais, que ainda estamos em crise, que temos as instituições à perna para cumprirmos compromissos económicos, pergunto eu quantas casas agora ardidas seriam recuperadas com o gasto em frotas automóveis? Quantos hectares poderiam ser replantados e colmeias repostas, com o custo dos submarinos? Quantos conjuntos de roupa de vestir, cama e mesa poderiam ser entregues com o não fazer faustosas celebrações disto e daquilo?
O luto nacional tem inegáveis vantagens para que os cidadãos possam ultrapassar a dor nacional.
Mas, em passando os dias de bandeira a meia haste, tudo volta ao normal.
Excepto para os que, daqui por uns anos, ainda terão a vida destroçada e pobre porque tudo ardeu e a solidariedade se esgotou.

A individual e a colectiva.

By me

À fé de quem sou



A história aconteceu num já distante solstício de verão. Num dia como o de hoje.
De pouco adiantará falar na importância ancestral, ou bem mais que isso, do dia mais longo do ano. Afinal, é celebrado há muitos milhares de anos, desde os tempos em que, não havendo escrita nem astronomia, se transmitia oralmente o que é importante. Como os solstícios e os equinócios, no que ao contar o tempo e o movimento dos astros importa.
Fica o que vivi.

Negra! Daquele tom africano que quase nos faz pensar em algo levemente azulado. E que, pela minha falta de hábito em registar este tipo de tez, me deixa quase à-toa em o reproduzir com exactidão.
Bonita! Francamente bonita. Pelo menos naquilo que lhe podia ver, ou seja, as mãos, metade dos pés e o rosto. Que todo o resto estava integralmente coberto. Num sinal inequívoco da sua fé ou crença.
Quando passou para cima, acompanhada pela pequenada, olhou mas sem muito interesse, que a canalha miúda absorvia-lhe a atenção. Mas no regresso, com mais calma, ficou a olhar à distância para o meu artefacto. Sentindo-lhe interesse, sorri-lhe e gesticulei-lhe que se aproximasse, o que fez.
A comunicação começou por ser difícil e a medo, que pouco sabia de português. Mas em sabendo-me a falar, ainda que mal, o francês, tudo se tornou mais fácil e quis fazer uma fotografia.
Enquanto a impressão acontecia, fui inquirindo a anotando as respostas, como de costume. E foi aí que a coisa aconteceu!
Não tinha a senhora entendido que não apenas iria haver uma eventual publicação na web como, menos ainda, que eu ficaria com uma cópia do que lhe entregasse. E isso quase que a ofendeu. Acredito que entrasse violentamente em confronto com a sua religião que, ao que sei no seu país de origem – Senegal – é seguida com muito rigor.
Desfiz-me em desculpas pelo meu erro ou engano na informação e prometi-lhe solenemente que, em chegando a casa destruiria a cópia que possuía. Que ficasse tranquila que tal sucederia pela certa.
E tantas vezes o assegurei que ela acabou por se descontrair um pouco e passamos a uma pequena mas amena conversa. Estava há cerca de um ano em Portugal, a língua escrita entendia-a mas a falada era uma dificuldade. E que um dos objectivos em aqui estar era o continuar os estudos iniciados na terra natal, nomeadamente em filosofia.
Em chegando a casa e em tratando as imagens e dados recolhidos, confesso que me passou pela cabeça ficar com a imagem. Afinal, ninguém saberia da coisa, ninguém a veria, nem mesmo a retratada e a sua prole, pelo que nenhum mal daí adviria. Excepto…
Excepto a minha própria consciência! Que palavra dada é palavra a cumprir, mesmo que mais ninguém saiba que o fiz. Que o meu pior juiz sou eu mesmo! E foi destruída!
E se a retratada, cujo nome eu tenho mas que aqui não referirei como é óbvio, por aqui passar, que esteja descansada:
Daquela fotografia, feita numa destas tardes de 2008 no Jardim da Estrela, não existe nenhum outro registo que não seja aquele pedaço de papel com que ficou.

Porque afinal, seja qual for a fé que nos move (monoteísta, animista ou ateísmo), a honra é comum a todas!

By me

Sombras



Aquilo que o Homem tem feito ao longo dos milénios é tanto e tão variado que seria fútil tentar saber tudo. No campo das artes, das ciências, do pensamento, nas evoluções e regressões sociais.
Perante a quase inutilidade de tudo tentar saber, resta a cada um de nós optar por saber aquilo que entende por importante para a sua vida. Profissional ou pessoal. E, igualmente importante, saber onde está o saber caso venha a disso necessitar.
Acessoriamente, as escolas orientam estes saberes e aprendizagens nos diversos campos, fornecendo ao estudante as bases daquilo que passarão toda uma vida a aprender.
Será papel do pedagogo escolher estes saberes básicos e disponibiliza-los ao estudante por uma ordem lógica, bem como incentivar e ajudar a satisfazer as curiosidades que possam advir dos saberes adquiridos. Tal como deve permitir que o estudante saiba onde e como ir buscar mais saber ou conhecimento: bibliotecas, pessoas, web, museus, locais de investigação… Dizia alguém que, nos tempos que correm, o importante não é saber mas antes saber onde o saber está e querer ir buscá-lo.
Claro está que o que será básico num dado campo de actividade será não-básico, talvez mesmo supérfluo, noutros campos. E este é, também, o papel do pedagogo: definir prioridades na aprendizagem do estudante.
No entanto, saberes existem que são comuns a todas as vertentes do conhecimento básico. A tabuada, o primeiro rei da nacionalidade, o teorema de Pitágoras, o oceano que banha o seu país, a sua língua e uma língua generalizada… Talvez que não básicos para a actividade profissional, mas para viver integrado na organização social que o envolve.

Um destes dias constatei que um jovem com curso na área da comunicação audiovisual ignorava por completo o que fosse a “Alegoria da Caverna”. Sabia que Platão fora um filósofo antigo, ainda que não de que época ou civilização, mas não sabia nem o nome nem a história ou conceitos nela descritos.
Fiquei boquiaberto! Como é possível alguém ter uma formação profissional sólida neste campo sem conhecer os primórdios da sua criação, do seu pensamento, do conceito de realidade e representação?
Tratei de, em duas penadas, colmatar aquela falha, mas tive pena de quem me estava a ouvir. Não são coisas que se expliquem (ou se aprendam) em duas penadas. Até porque o saber necessita de ser digerido.
Mas fiquei a pensar que andamos a formar gente que saberá utilizar a ferramenta com que trabalha, mas que ignora os conceitos que lhe estão inerentes para além daquilo que vêem no ecrã do computador.
Pergunto-me o que irá acontecer a esta geração, quando já tiver a categoria de avós, bem como aquilo que será disponibilizado aos seus netos pelos pedagogos.

Talvez que só saibam reconhecer uma sombra e que desconheçam por completo a tridimensionalidade ou as cores.  

By me

terça-feira, 20 de junho de 2017

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No dia em que as estações de televisão e os jornais forem obrigados a pagar pelas fotografias que usam no seu negócio roubadas da net… Ou forem obrigadas a citar os autores das fotografias que usam, assumindo que o trabalho é de terceiros… Ou forem obrigados a respeitar a integridade do trabalho original, não o podendo truncar ou adulterar sem conhecimento ou autorização do fotógrafo…

Nesse dia passaremos a ter outra forma de fazer jornalismo. Mais honesta e integra. Em todas as suas vertentes.
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Anonimatos

O sol está como se sabe, o calor o que se sente e o céu como se vê.
Apesar disso, o velhote do costume faz a sua ronda habitual nos caixotes de sempre, em busca da refeição que talvez encontre.
Destes cadáveres adiados, destes corpos não estendidos, destas mortes não anunciadas, ninguém faz alarde. Nem reportagens. Nem sequer uma nota obituária.
Não vende!


Nota da redacção: Neste espaço virtual não se exibem imagens obscenas.

Ética e responsabilidades



Não me apetece bater mais na velhinha! Ainda que o não seja mas para lá caminhe.
Mas o certo é que não posso deixar passar em claro a questão.
Falo da mais que infeliz reportagem, feita na tragédia do incêndio deste fim de semana, por Judite de Sousa.
Não irei falar de personalidade nem das situações a que assisti do seu desempenho. Seria personalizar o discurso e não quero envolver-me pessoalmente na questão.
Mas há aspectos que não podem deixar de ser pensados.
Desde logo a sensibilidade perante o que ali se passava. Naquela reportagem, com aquelas imagens e discurso, foram completamente ignorados os sentimentos dos familiares que, quiçá, ainda nem tinham tido oportunidade de saber como estavam aqueles com quem ainda não tinham conseguido contactar.
De seguida a quebra ou ignorância do código deontológico da profissão, fazendo afirmações sobre a eficácia ou rapidez das autoridades e meios envolvidos sem ouvir, ou demonstrar que tinha ouvido, essas mesmas entidades. Exactamente o que faz a turba enfurecida ou em choque. Não o que deverá fazer um jornalista.
Por fim, a responsabilidade do cargo. Esta profissional foi para o terreno com o peso de ser experiente e de ocupar um dos mais altos cargos na redacção onde trabalha. Terá sido escolhida, suponho, por isso mesmo. E para garantir a qualidade do trabalho efectuado. E quem quer que esteja em cargo directivo num jornal ou televisão tem a responsabilidade acrescida de garantir que o que é relatado respeita os códigos, escritos ou implícitos, do ofício e do jornal ou televisão para quem trabalha. Ser director, adjunto ou chefe não pode ser apenas um título pomposo, gabinete privado e salário mais elevado que os demais.

O jornalismo, também conhecido por ser o quarto poder, tem o terrível defeito de não ser democrático. Não foi eleito, respeita as necessidades económicas de quem investe no negócio, depende apenas das tiragens ou audiências. E das opiniões, quantas vezes muito pessoais, de quem escreve ou relata.
Apesar de terem códigos deontológicos e reguladores oficiais, as normas e recomendações serão ou não cumpridas de modo inconsequente.
O público, esse, na sua sede de sangue para exorcizar os seus próprios problemas ou medos, deixa-se levar na ânsia de saber mais detalhes mórbidos, sem grande respeito pelos envolvidos ou preocupações sobre o rigor ou isenção do que lê ou ouve.
E o negócio da comunicação social vai florescendo, aproveitando-se disso.

Não vou bater mais na velhinha. Mesmo que, não o sendo ainda, para lá caminhe.

Agora que tenho a vontade, lá isso tenho. Factualmente. Que se desculparia em parte a reportagem se ela fosse feita por um inexperiente jornalista, não consigo fazer neste caso.

By me 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

sábado, 17 de junho de 2017

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Se vocês acham que isto é calor, haviam de estar com uma câmara de quinze quilos no ombro, no cimo de um escadote com um projector de 2kw a dois metros das costas.

Num estúdio sem ar condicionado e por mais de duas horas.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Não basta



Não basta estar calor! A sombra de um prédio não é igual à de uma árvore frondosa.
Não basta ter apetite! Encher a barriga não é o mesmo que apreciar o que se come.
Não basta gostar! Uma cambalhota não é o mesmo que amar.


Os que se ficam pelo que basta limitam-se a existir. Os outros vivem.

By me

A rosa



As coisas já não são o que eram.
Esta bonita rosa encontra-se a escassos 250 metros de uma escola secundária. Em tempos chamávamos-lhe liceu e eu frequentei-o anos a fio.
Pois esta rosa está pacatamente do outro lado de um muro baixo, junto com irmãs e primas, umas assim, outras brancas, outras ainda cor-de-rosa. Incólumes!
No meu tempo, de estudante, é seguro que nenhum jardim nas imediações do meu liceu teria tantas e tão bonitas rosas!
Garantidamente que já teriam sido colhidas, por mim ou por outros, para as oferecer às namoradas. Sei-o porque o fiz e sei-o porque não poucas vezes me piquei, gloriosamente, nos seus espinhos.
Dir-me-ão que roubar rosas de um jardim é crime. Pois será! Mas é romântico!
E algum apaixonado olha a tais minudências quando se trata de agradar à sua amada?
Pergunto-me o que darão os garotos e rapazes de hoje ás suas namoradas, de longo ou curto prazo, se não se atrevem a palmar uma rosa de um jardim.

De um jardim de rua ou do jardim da vida.

By me

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Retratos



Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, uma fotografia não é uma representação do que foi fotografado!
Claro que, ao olharmos para ela, vemos as pessoas, os locais, os objectos. Aquilo que o fotógrafo viu com os olhos e com a objectiva. Vemos o pedaço de espaço-tempo que ele imortalizou com a sua perspectiva.
Mas também vemos, e isso é o principal numa fotografia, o seu estado de alma, a sua perspectiva interior. O facto de ele ter escolhido aquele instante e não um pouco antes ou depois, de ter optado por aquele ponto de vista e não um pouco mais ao lado, o ter sido com aquele ângulo de visão e não mais aberto ou fechado, mostra-nos como ele se sentiu naquele momento, ao olhar, ver e captar.
Indo ainda mais longe, mostra-nos, caso ele – o fotógrafo – nos mostre a fotografia que realizou, que ela é de facto um reflexo dos seus sentimentos e estados de alma. Porque senão o fosse, e ainda que tivesse obturado a câmara, teria ficado esquecida num qualquer arquivo ou caixa.
O corolário desta afirmação (A fotografia é um retrato do fotógrafo e não do fotografado) é fácil de encontrar.
Aqueles que, por um qualquer motivo, transportam consigo em permanência uma câmara fotográfica, acabam por fotografar inúmeras vezes o mesmo assunto. Com variações de luz, de hora, de circunstância. E de elementos variáveis como pessoas, animais, sombras…
O que faz, então, o fotógrafo fotografar o que já fotografou? Registar o que já está registado? A forma como viu o que já está visto! Como sentiu aquilo que conhece de perto. E os sentimentos, tal como a luz, mudam ao sabor dos acontecimentos. Umas vezes abordagens positivas, outras negativas, um pôr-do-sol pode ser um fim de dia ou um inicio de noite. A mesma porta será uma entrada ou uma saída. O mesmo sorriso um convite ou um sarcasmo.
A fotografia não retrata o que está à frente da objectiva mas antes o que está atrás do visor!

A fotografia é uma impressão digital da alma, em que a luz mais não é que a tinta!

By me

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Não gosto



Não, não gosto de dinheiro!
Começando pelo simples facto de, ele mesmo, ser coisa alguma. Não é mais que um símbolo, representando os valores que atribuímos ao que temos ou produzimos. O dinheiro é uma ilusão! Uma mera equivalência!
Segue-se que cada um de nós não possui o dinheiro que tem na carteira ou bolso. É propriedade do banco emissor e qualquer tentativa de danificar ou destruir notas ou moedas é punível por lei. O dinheiro que supostamente ganhamos não nos pertence!
Claro que também há que considerar que o dinheiro que não possuímos e que é uma ilusão está mal distribuído. Pessoas há que, por o terem em abundância, comem para além da saciedade, deitando fora os restos e sobras, enquanto que outros, à míngua de o terem, comem aquém do básico, e dos detritos dos outros. Não se dispor de dinheiro implica fome e sofrimento.
Acrescente-se que tudo, ou quase, se faz por dinheiro ou com o fito de o obter. Actos gratuitos, sem terem por objectivo a obtenção de dinheiro, aquilo que não nos pertence, que é uma ilusão e que provoca sofrimento, é olhado com desconfiança, por vezes mesmo com medo. O bastante para ser, frequentemente recusado, por insólito, porque fora da normalidade, vá-se lá saber o que é “normalidade”! O dinheiro, origem de sofrimento, ilusão e fugidio, é também um atestado de credibilidade.
Curiosamente, veja-se a crise mundial recente e constate-se como tudo o que acima dito corresponde a ela!

Pois tenho para mim que o dinheiro, não sendo “O” mal da sociedade, é certamente um deles e que estaríamos bem melhor se ele não existisse ou mesmo se nunca tivesse sido inventado.
Cada um deveria exercer a sua actividade, na medida dos seus saberes e capacidades, e ter, sem ser em troca mas naturalmente, o resultado das actividades dos restantes elementos da sociedade. Sem dinheiro pelo caminho, que significasse coisa alguma, sem provocar sofrimento e sem testemunhos de credibilidade. Cada um vale o que vale por si mesmo e não devido a uma qualquer certificado volátil.
É assim que penso e que procuro agir, na medida em que a sociedade em que estou inserido o permite. E se tenho que ter um trabalho que me permita comer, vestir, abrigar e alimentar, em parte, o espírito, procuro que parte dos meus actos sejam coerentes com os meus ideais. É o caso da fotografia!
Faço questão de com ela não fazer negócio, de dela não obter dinheiro em troca. Fotografo se e quando quero e, no caso de mo pedirem, não cobro nem apresento contas. Na melhor das hipóteses, espero e sugiro que quem fica com as imagens que produzo tenha comportamentos equivalentes, usando dos seus saberes e competências em beneficio da comunidade e sem esperar obter nada em troca.
Conseguir que tal suceda será o meu lucro, real e palpável, verdadeiro certificado das qualidades de quem o faz, provocando prazer no lugar de sofrimento. Com a “vantagem” de não ser colectável em impostos!
Recentemente pediram-me para fotografar uma família que, indo a um evento de circunstância, gostaria de ficar com recordações do momento e dos trajes usados. Claro que o fiz, para prazer mútuo. O problema virá, em breve, na aceitação por parte deles que não há dinheiro envolvido e que das fotografias já entregues gostaria apenas de vir a saber que algo de equivalente da parte deles foi feito a terceiros.

É que, sabem, eu não gosto mesmo de dinheiro!

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terça-feira, 13 de junho de 2017

Facilitador



Acordei hoje com esta expressão gravada fundo na cabeça:
“Facilitador de aprendizagem”!
Acho que será algo que passarei a usar amiúde.

Não sou professor. Para além de não saber muito de fotografia, também não sei muito de pedagogia. E não tenho nenhum título académico, dos que enchem o olho e tanto estão na moda.
Também não sou formador. O próprio termo me incomoda, que provém de forma, deriva em formatação e redunda em falta de criatividade de quem aprende.
Mestre também não se me aplica. Teria que saber fazer muito mais e melhor do que sei. Tive uns três mestres de ofício na vida e bem sei do que falo.
Acrescento que sempre entendi que nunca ensinei nada mas tão só ajudei a aprender, já que o importante sempre foi a aprendizagem e não o ensino

Sobra-me, assim, esta expressão: “facilitador de aprendizagem”.
Dispor perante os que querem aprender os conhecimentos de molde a que a aprendizagem se faça. Completa, simples e com facilidade.


O que, juro, não tenho por tarefa fácil. Mas imensamente divertida e compensadora.

By me

Um olhar - A história



Uma ocasião entro eu numa loja de artigos de belas artes, em Lisboa, em busca de um bloco de notas com o formato de que gosto e que sei já só se encontrar neste tipo de comércio.
Conversa vai, conversa vem, e consigo convencer a empregada que ali trabalha a deixar que lhe fotografe os olhos. Não foi fácil o convencê-la, tanto mais que tivemos que vir para a ponta do balcão, que a luz no interior não me chegava.
Aquilo que não veio junto com o bloco de notas e a fotografia foi o seu nome, que não mo quis dar. Inventei um na hora, um que os arquivos de identificação não aceitam para registo mas que ela aceitou, e foi o que ficou no meu próprio registo fotográfico.
Um ano depois entrei de novo na mesma loja, desta feita em busca de um outro artigo bem mais difícil de encontrar. Não o tinham, como eu já suspeitava, mas tinha ela, a “menina”, uma boa memória que me surpreendeu.
Perguntou-me se não teria sido eu que, em tempos, lhe havia “tirado” uma fotografia ali mesmo, na loja. E queria saber o que havia eu feito com ela.
E se eu, sem pensar no assunto, não me recordava do episódio, assim que a “menina” o referiu recordei-me de imediato. E foi questão de, enquanto dávamos dois dedos de conversa extra, ligar o portátil e procurar no arquivo on-line a referida imagem. Mostrei-lha, fiz cópia e enviei-lha, muito naturalmente. E fiquei a saber aquilo que há um ano me tinha sido sonegado: o seu nome.

Tem esta história todos os ingredientes para ser uma história feliz, com prólogo, desenvolvimento e epílogo. Excepto na sua moral.
Se para nós, que lidamos com a fotografia como um padeiro lida com pãezinhos, cada fotografia é única mas é mais uma no meio de centenas ou milhares, para os fotografados assim não é.
De cada vez que escolhemos alguém para fotografar e interagimos com essa pessoa, passa ela de “Uma” pessoa a “Aquela” pessoa. É-lhe dada uma importância bem fora do habitual e, durante aqueles breves minutos de conversa e click, passou a ser o centro do universo. Para benefício mútuo de quem regista e é registado.
E se nós, fotógrafos, estamos habituados a recortar o universo em pequenos rectângulos de luz, para quem assim é recortado é um daqueles momentos “para mais tarde recordar”.
A situação, no seu todo, não me foi original. Já muitos foram os que me abordaram, recordando-me que os havia fotografado nesta ou naquela situação. Mas veio a “menina” (mantenhamos um véu pudico sobre o seu nome) recordar-me da responsabilidade que temos, nós os fotógrafos, para com quem fotografamos, na forma como o fazemos, nos destinos que damos a cada registo e no respeito que devemos ter para com a pessoa que, sabendo-o ou não, nos permite ter mais um nico do universo guardado na câmara.
E se sobre a Ética muitos foram já os que pensaram e escreveram, muitos mais são os que esquecem ou nunca souberam o que é a Ética Fotográfica.


Que o uso e porte de câmara bem como o recortarmos e guardarmos o universo em pequenos pedaços, não nos dá o direito de omnipotência sobre ele ou sobre os registos.

By me

segunda-feira, 12 de junho de 2017

A escada



Há uns dias desembarquei numa estação de caminho de ferro e deparei-me com o que já sabia:
A saída das plataformas para o exterior faz-se, exclusivamente, por escadas mecânicas ou por elevador. As bilheteiras encontram-se num piso superior e transversal à linha, evitando assim os atravessamentos no trajecto dos comboios. Segurança e rapidez.
Mas que o que eu esperava também aconteceu: o elevador e a escada desligados.
A única solução é trepar pelos degraus metálicos, que outros não existem nem rampas, vencendo a sua altura que, e é sabido, é muito maior que os de alvenaria.
Fiquei a olhar para aquilo e a ver duas senhoras idosas que se deixaram ficar para últimas para poderem fazer aquele caminho de calvário com a lentidão que o seu peso e maleitas implicavam. De doer a alma.
Quando eu mesmo terminei a escalada, esperava-me o pior:
Um jovem mãe, com um enorme carrinho de bebé com uma minúscula criança a dormir no seu interior, perguntava-se como haveria de descer. Aos saltos naqueles degraus infames não seria e agarrado em braços também não.
Acabei por lhe propor uma solução de compromisso: ela levaria o bebé ao colo e eu desceria com o carrinho.
Desceu ela e esperei eu ao cimo das escadas, que entretanto chegara outro comboio e quem subia não dava espaço para eu descer com aquele volume.
O seu olhar desconfiado lá em baixo bem mostrava o invulgar da nossa situação, mas não encontrei alternativa. Compensou o agradecimento efusivo que exprimiu quando lá cheguei.
Fica a pergunta: E amanhã? E depois? E quem usar muletas ou cadeira de rodas? Ou quem já não tiver forças ao fim do dia para aquele Evereste metálico?

A frieza dos números nas secretárias dos gestores distantes é terrível! E bem que os gostaria de ver confrontados diariamente com aquele suplício.

By me