domingo, 15 de outubro de 2017

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

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Ao contrário do que muitos pensam, a sorte nada tem de fortuito ou aleatório.
A sorte acontece quando a preparação encontra a ocasião.

É que de pouco adianta caminhar na rua, pisando notas sem dono, que sem se olhar para o chão nunca as encontramos.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Factos e opiniões



Depois de quase sete horas de espera numa coisa que se chama “Serviço de urgências básicas”, consegui ser visto por um profissional de medicina.
Após ser examinado, diagnosticado, prescrição escrita e a posologia explicada, perguntei-lhe se seria habitual todo este tempo de espera.
Respondeu-me que o Estado tinha dinheiro para ajudar os bancos mas não para investir na saúde. E que sem dinheiro não há técnicos disponíveis. Até porque muitos, enfermeiros e médicos, migraram para onde pudessem ganhar a vida. E que só com dois médicos de serviço era complicado atender tanta gente, principalmente quando a questão das prioridades em função da gravidade do caso são uma verdade. As famosas cores de pulseira. Tinha eu tido a sorte ou falta de sorte de a minha só ser verde e não laranja ou amarela.
E rematou dizendo que em frente ao centro existe um cartaz desta última campanha eleitoral prometendo mais profissionais de saúde.
Quando saí, e antes ainda de ir aviar a receita na farmácia, vi o cartaz. Não poderia deixar de o ver, pelo tamanho e localização.
E percebi o amargo da sua observação quando vi que os candidatos representavam a anterior governação nacional, exactamente aquela que levou tantos a procurarem vida melhor lá fora.
A conversa com o profissional terminou com um “A conversa está boa, mas tenho um caso amarelo à espera. Se não se importa…”

Saí rapidamente.

By me 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Felicidade



O ser humano precisa de se afirmar no grupo a que pertence. Pelo que é e pelo que faz.
E um retrato, um registo para a posteridade, feito formalmente ou em tom de brincadeira, é uma forma de afirmação, objecto de observação e critica cerrada por parte do retratado.
Curioso é de observar que se manifesta ou critica sobre o que é ou o que faz expresso em retrato. E são dois grupos, manifestamente distintos. A fronteira fica algures na casa dos quarentas, nuns casos mais acima, noutros mais abaixo.
No grupo dos mais novos, o que é observado e/ou criticado é aquilo que faz.
As poses, as expressões, as posições corporais, os relacionamentos com outros retratados.
O eventual – ou frequente – desagrado não se manifesta sob a forma de “não gosto” ou “fiquei mal”, mas antes pela ironia, pelos comentários jocosos, pela auto-critica. Frequentemente, com o menosprezo da sua própria aparência e uma crítica acutilante sobre os demais no grupo retratado.
Para estes, o que é importante num retrato não é o que são mas antes o que fazem e como o fazem.
Por seu lado, os pertencentes ao grupo mais velho preocupam-se francamente mais com o que são ou aparentam ser.
As manifestações de idade constatáveis pelo peso ou volume, pela posição do esqueleto, pela cor da pelagem ou pelas rugas são os factores que mais procuram ver num retrato, numa tentativa inútil de constatar que não parecem ser o que são. Que os olhos dos outros não vejam aquilo que sabem ser.
Estou em crer que a felicidade passa por uma são convivência com o “Eu” físico, tentando melhora-lo se se o entender, mas não o negando ou repudiando.
E, acima de tudo, não ligando a mínima à opinião que os outros possam ter sobre si mesmo. Ao vivo ou no papel.

By me

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Os cinzentos



Tenho uma certa tendência para não aceitar como sinceros e/ou honestos aqueles que se escondem atrás de um fato e de uma gravata todos os dias do ano, excepto quando de folga ou de férias.
A sensação que tenho é a que não me estão a dizer aquilo que pensam ou sentem mas tão somente  aquilo que foram industrializados a pensar ou sentir. Ou, ainda pior, aquilo que foram forçados a dizer.
Infelizmente tenho (temos?) inúmeros casos que consubstanciam esta sensação. Desde muito atrás no tempo até tão recentemente que parece que o estou a viver neste mesmo momento.
E, sobre estas pessoas, não me apetece fazer uma imagem.

By me

domingo, 8 de outubro de 2017

Veja-se esta fotografia ao som de Piazola



By me

Acordem!



Um dia, estava eu entretido com umas fotografias em casa, quando me tocam à campainha.
Fui ver quem era naturalmente, e não muito bem disposto, que não gosto lá muito que me interrompam quando estou nestas coisas.
O casal que me aguardava no patamar da escada patenteou bem o seu espanto. Que se não bastassem as barbas e o cabelo solto, de dentro de casa vinha o clarão de talvez 2.000 watt de potencia de luz.
Queriam eles convencer-me a comprar-lhes um seguro de saúde. Tiveram azar! Que não tenho eu nenhum seguro de saúde, que não quero ter nenhum seguro de saúde e que não recomendo ninguém a ter nenhum seguro de saúde.
Tenho por certo que o Serviço Nacional de Saúde deve ser eficaz, rápido e para todos, seja qual for a sua condição económica. E todos contribuírem para ele, na proporção dos seus rendimentos e através dos impostos que pagam.
A existência de seguros privados de saúde é mais um factor de clivagem social, em que os que não têm possibilidade de a eles acederem ficam com as sobras da saúde em Portugal. Isto porque quantos mais forem os que a isso aderirem, menos são os que fazem com que o sistema público funcione, quer através da sua influência na sociedade, exigindo-o, quer fazendo “sangrias” nos profissionais e demais recursos.
Em sendo banal haver seguros privados de saúde, privam-se os que os não os têm de aceder aos correctos cuidados de saúde.
E eu, que até poderia com algum esforço ser utente de um desses seguros, faço questão de o não ser, recorrendo ao público e exigindo que este seja tão bom como os melhores.
Não há cidadãos de primeira e de segunda e todos, sem excepção, têm direito à saúde. Tal como ao pão, à habitação, à educação… Recuso-me a colaborar em sistemas diferenciadores de classe!
Disse-lho. Ouviram, com o nível de espanto a aumentar nas suas caras e com algumas tentativas, falhadas, de me convencerem do contrário.
O golpe de misericórdia que receberam aconteceu quando lhes disse que o que eles faziam para ganhar a vida (vender seguros de saúde) não lhes dava rendimentos suficientes para a eles acederem. E que quantos mais vendessem menos possibilidades teriam de ter um bom sistema público de saúde.
Não sei se a minha porta, neste prédio de muitos apartamentos, terá sido a última em que tocaram no meu andar. Mas o certo é que se afastaram para o elevador, deixando de parte as restantes visíveis.

Aconteceu isto há uns anitos. E continuo a acreditar no mesmo. Com a frustração de ver, a cada dia que passa, as privatizações e delapidações do que é público a acontecerem. Cada vez mais rápido e cada vez mais fundo.
Por este ritmo, em breve terá acesso a coisas básicas apenas quem tiver recursos para as pagar. Aqueles que já têm dificuldade em manterem-se vivos ficarão excluídos, classificados de “resíduos humanos” e estando apenas à espera que passe o camião do lixo ou a carreta, para os levar.

Não sei se é isto que os estas linhas lêem querem.


Mas p’la certa que não é o que eu quero!

By me

sábado, 7 de outubro de 2017

Promessas



Tenho uma promessa feita para os próximos trinta anos.
São daquelas coisa que se fazem e que se prometem, mais que a outrem, a nós próprios. Solenemente, mesmo que sem documentos ou testemunhas.

Conto cumpri-la todos os dias, pelo menos durante esse período.

By me 

Mil palavras



Já lá vão uns anos valentes (quase trinta) e a irmã de um colega e amigo andava então no 8º ano (seria 9º?).
Levada pelo entusiasmo que via nele e nalguns amigos, quis frequentar as então chamadas “actividades extra-curriculares”, no caso fotografia.
Mas vinha de lá bem frustrada, que os professores que tinha, apesar da boa vontade, pouco sabiam da coisa.
Conversa vai, conversa vem e dei comigo a combinar com eles um conjunto de sessões com a turma.
Seis sessões de duas horas, das quais uma prática, onde, e para além do domínio do equipamento, se falaria de estética e de semiótica.

Para uma primeira experiência lectiva da minha parte, a coisa até que nem correu muito mal. As idades variavam dos 13 aos 17 anos, a câmaras de cada um eram do mais díspar possível, trazidas de casa com especiais recomendações paternas, mas o entusiasmo e a vontade de aprender superava tudo.
A penúltima sessão foi a prática. Engendrei exercícios vários sobre perspectiva, gestão do espaço, exposição e assunto, a executar nas imediações da escola (Reboleira) numa espécie de “raly-papper fotográfico”, e dividimos a turma em dois grupos. Evitava-se assim a “molhada”, permitindo um maior rendimento e concentração. Eu acompanhei um, os outros dois professores o outro. Na sessão seguinte, depois de revelados e impressos, seriam comentados. A avaliação, devido à escassez de tempo e aos objectivos do trabalho, seria em grupo, feita por eles.
A coisa correu como o previsto, mais ou menos.
O que eu não previa, de forma alguma, era a surpresa final.
Já por alturas das despedidas, foi-me entregue solenemente um embrulho.
No seu interior, esta fotografia nesta moldura.
Era uma fotografia feita pelo grupo que eu não tinha acompanhado, oferecida como recompensa da minha presença (a minha ida lá tinha sido “de borla”).
O vigor, a alegria e o grito à liberdade desta imagem e o facto de a terem feito, escolhido e tratado para ma darem tornou-a imensamente mais valiosa que qualquer pagamento em dinheiro que pudesse ter recebido.

O vidro original já sofreu uns desaires e a luz já reduziu um pouco o contraste original. Mas das raras fotografias que tenho expostas aqui em casa, esta estará sempre em lugar de destaque!


Uma imagem vale mais que mil palavras!

By me

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Ilustração



Esta é a imagem que é hoje publicada no jornal “Diário de Notícias” para ilustrar um artigo sobre os artigos estranhos que são recolhidos na Estação de Tratamento de Águas Residuais de Lisboa.
Digamos que não será um tema fácil de ilustrar sem recorrer a fotografias de detritos. O que não é algo bonito de registar e menos ainda de ver num jornal. Papel ou net.
Mas é também difícil de encontrar uma correspondência directa entre o tema da reportagem e o que nos mostram. Presumimos que seja um dos locais da instalação técnica, mas é apenas uma presunção. A nossa imaginação fará o resto do trabalho.
Mas o que me fez parar para ver a fotografia e ler o texto foi a invulgaridade cromática.
Fico na dúvida se será natural ou se terá tido uma “ajudinha” de um editor de imagem. Mas, e ao contrário do que se possa pensar, não é assim tão incomum quanto isso o encontrar situações em que tudo ou quase é monocromático. As mais das vezes não damos é por isso.
Está a fotografia assinada por Jorge Firmino/Global Imagens.

E fica o elogio a uma boa fotografia sobre um assunto difícil.

By me

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

República



Surge o conceito de República, tal como o de Democracia, na Grécia antiga.
No entanto convém não esquecer que a Grécia era um país com escravos, que só alguns cidadãos podiam eleger ou ser eleitos e que, garantidamente, as mulheres não podiam nem uma coisa nem outra.


Em qualquer dos casos, acho que ainda precisamos de uns bons outros três milénios para chegarmos a uma sociedade realmente justa e equilibrada.

By me 

Detalhes



Porque um amigo sugeriu, fui experimentar.
Abri o tradutor automático do Google, escrevi a palavra “catalão” e fui vendo como esta palavra é referida em diversas línguas.
Catalan para Francês, Catalan para Inglês, Katalan para Maltês, Katalonsky para Croata, Catálan para Gaélico…
Agora imaginem qual o resultado para “Catalão” em língua Espanhola.
“Español”.


Talvez que isto sirva para entender muita coisa.

By me 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Pentax



Por causa de um artigo meio fútil de um jornal, dou comigo a procurar na net imagens de Brigitte Bardot.
A ideia era aperceber-me do como uma pessoa que foi um ícone pode envelhecer de aspecto.
E eis que dou com esta fotografia.
Nada de especial teria ela, não fora… Não fora a câmara.
Disseram-me os olhos, disse-me o coração e confirmou-me o que fui depois encontrar ao pesquisar: trata-se de um dos primeiros modelos da Pentax, um daqueles em que ainda não tive o privilégio de por os olhos.
Para além desta, encontrei diversas outras da mesma actriz com a mesma câmara nas mãos. O que me leva a concluir que seria dela ou, em alternativa, que estaria a fazer campanha pela marca. Mas não sendo ela fotógrafa de nomeada…
Não adianta virem-me com conversas disto e daquilo!

A Pentax foi e é uma boa câmara, profundamente inovadora quando surgiu e agora só é suplantada porque o marketing mega agressivo das suas rivais a tem deixado ofuscada.

By me 

Estou a tratar disso




By me

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A vida é um improviso constante até o manual de instruções estar concluído.
Nessa altura é tarde demais para o ler.
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terça-feira, 3 de outubro de 2017

Verduras



Foi um destes dias.
Apareceu por lá uma novata, uma no feudo dos uns, a cometer algumas gafes.
Percebi que não era desleixo ou incompetência, como com alguns outros que vão aparecendo, mas tão só o natural da sua tenra inexperiência.
Comecei por mandar recados por interposta pessoa, que aquela situação não era comigo (já não era comigo), mas percebi que de pouco teria servido. Ou que as bases faltavam ali em demasia. E perdi a vergonha.
Meti conversa, apresentámo-nos, puxei de galões e estivemos um pedaço de paleio, com umas dicas e soluções a questões concretas, com explicações e exemplos práticos.
A dado passo, entre justificações sérias entremeadas com outras de brincadeira, oiço algo como “Mas isso é uma justificação psicológica para a composição de imagem!”
Parei um nico e respondi: “Claro que é! Aquilo que fazemos, mesmo que banal e simples como neste estúdio, é levar o público a ter as reacções que queremos com as imagens que fazemos. E há que saber como o público lê o que lhes apresentamos para conseguirmos o que queremos. Fazer imagem, profissionalmente, é manipular opiniões e condicionar reacções.”
E continuámos com a gestão do “ar”, com o equilíbrio das importâncias e com o mandar ás urtigas a regra dos terços.

Gostei de ver o resultado prático pouco depois.

By me 

domingo, 1 de outubro de 2017

Liberdade



Entre a livre expressão da vontade popular e o seu impedimento pelas forças policiais, exibem-se cravos.

Gosto de ver.
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Sóc català



Catalunya
Não, não votarás.
Não, não poderás formalizar a expressão dos teus desejos.
Não, não poderás exprimires-te em liberdade.
Sim, a história repete-se.

Sóc català


sábado, 30 de setembro de 2017

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Barcelona: uma cidade ocupada.

Estrelada



Esta Estrelada veio para a minha posse desde a festa da cidade (senhora da Mercè) de 1994.
Comprada numa banca de rua na Rambla de Barcelona, pertinho da Plaça de Calalunya, tem ornado a minha janela em mastro improvisado ou apenas na corda da roupa sempre que a ocasião o justifica. E várias foram as ocasiões.
Se a vida não tivesse dado as voltas que deu, estaria eu agora como cidadão catalão por lá, festejando e batendo-me pela liberdade de expressão e autodeterminação. Ou estaria há muito lá sepultado num canto anónimo.
Essas mesmas voltas levaram-me ao que sou hoje, de bom e de mau, e ao ponto de viragem que atravesso. Bendito ponto de viragem, que não o trocaria por nada.
Mas o meu coração terá sempre um canto especial pela Catalunha e pela sua luta desde há muito pela independência.


Demà seré Català!

By me 

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Esbulho



Leio no jornal que o Cartão de Cidadão vai passar a ter um prazo de validade de 10 anos para os maiores de 25 anos de idade.
E, acrescentam, o custo da renovação neste caso muda dos actuais 15€ para 18€.
Fazem ainda as contas e dizem-nos que isto resulta numa poupança de 90 euros ao longo da vida.
ERRO!
Isto resulta é em sermos esbulhados em menos 90€ ao longo da vida.

Porque outro nome não tem o sermos obrigados a possuir um documento de identidade, actualizado, e sermos obrigados a pagar por isso.

By me

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Outros olhares



Repare-se como nas artes convencionais (pintura, escultura, arquitectura) as coisas feias não são objecto de abordagem.
Procura-se o belo, o transcendente, o divino, o sonho… mas o mau, o feio, o lixo, o incómodo… ficam de parte no trabalho dos artistas. Mesmo noutras artes tradicionais (escrita, dança música…) raramente as abordam.
Talvez que a escrita (prosa ou poesia) nos relatem o menos bom, como a tristeza ou a infelicidade. Num misto entre a arte e o desabafo.
Mas o certo é que os artistas (e quem lhes consome o que produzem) não dão ao mal, ao feio, ao lixo, relevo ou atenção.
Creio que é o advento da fotografia, mais a contemporânea que a inicial, que faz daquilo de que não gostamos um “objecto de arte”, mostrando com maior ou menor crueza os males do mundo e do Homem. O mal que faz aos seus iguais e o mal que deixa no mundo.
A fotografia veio, creio, transformar aquilo de que não gostamos em algo que observamos amiúde. Por vezes com deleite misturado com horror.
Veio a fotografia fazer-nos gostar daquilo de que não gostamos, apreciar o que nos incomoda, transfigurando o errado em banal.
Visto de outro modo, mais que qualquer outra forma de arte, a fotografia está a mudar os nossos conceitos, pessoais ou colectivos, sobre o que é certo ou errado, o que é o bem e o que é o mal.



By me

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Admito que me dá um certo prazer constatar o como algumas pessoas não gostam mesmo nada de mim.

É que a reciprocidade é uma coisa muito bonita.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Castanhas



Agora começa bem mais cedo, a época das castanhas.
Recordo que surgiam os vendedores ambulantes com os primeiros frescos ou as primeiras chuvas, mais aguaceiros que outra coisa.
Agora aparecem quando os gelados deixam de ter saída, mesmo antes da formalidade do início do Outono. E não apetecem.
Para mim, castanhas assadas só com frio, nevoeiro mesmo, de modo a que o seu quente de “quentes e boas” nos confortem das agressões outonais.
Deixaram eles de as vender em cartuchos feitos com jornal. Ou listas telefónicas.
Dizem os entendidos que a tinta impressa é prejudicial à saúde. E obrigam usar papel branco ou cartuchos pré feitos com publicidade no seu exterior. Vai perdendo a graça.
Mas aquilo que as castanhas assadas mantêm da tradição é que se vendem às dúzias (ou meias) tal e qual os ovos. Não sei de mais nada que ainda use esta unidade no negócio.
E aquilo que não se mantém é a uniformidade de preços.
Hoje vi-as à venda aqui, mesmo em frente a um centro comercial cosmopolita de Lisboa. O preço afixado era de 2,50€ a dúzia. O ano passado a mesma quantidade era de 2,00€. 25% de aumento é obra, convenhamos.
Mas o que nos estranha é que na semana passada as vi à venda na Rua Augusta, bem no meio dos turistas, pela módica quantia de 3,00€ a dúzia.
Nada como aproveitar a curiosidade ingénua dos forasteiros para lhes extorquir uns trocos, mesmo que a destempo e com um sol radioso e quente.

Por mim, vou esperar pelo São Martinho e a água pé.

By me 

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Enquanto que por cá, no próximo domingo, uns milhões de portugueses vão mandar as eleições às urtigas, indo fazer qualquer outra coisa, na Catalunha uns milhões de cidadãos quererão ir votar e serão impedidos pelo governo de Madrid.
E as televisões irão mostrar, em directo ou quase, como se destrói o conceito de democracia e liberdade de expressão.

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Alvalade


Prédios cinzentos
Cor-de-rosa
E brancos.
Altos,
Baixos,
Grandes,
Pequenos,
Largos
E curtos.

Ruas pequenas,
Sinuosas
E silenciosas.

Grandes avenidas
Barulhentas,
Cheias de gente.

Tudo anda de cá para lá
E de lá para cá.
Gente que sai
E que entra
Nas lojas,
Nos autocarros,
Nas casas.

Gente que compra.
Gente que vende.
Gente que corre.
Gente que passeia.
Gente que come,
Tranquilamente,
Nos restaurantes.
Gente que bebe uma bica
E toca a andar.
Gente que fuma
Calmamente.
Gente que mastiga
Pastilhas elásticas
Desesperadamente.

Tudo isto com um nome: Alvalade.


1970

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

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Para que conste:
Só o cães têm trela.
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Alguém deveria ler e explicar isto a esta senhora.

Constituição da República Portuguesa
Artigo 13º
Princípio da igualdade
1. …
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.



De acordo com o que li num jornal, Joana Amaral Dias, candidata à Câmara Municipal de Lisboa, propõe espaços reservados a mulheres nos transportes públicos como forma de acabar com os assédios de que são alvo.
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Palmanços



Em parte a culpa foi minha: tinha o bolso lateral do colete aberto e a caixa preta das pastilhas estava bem à vista, parecendo uma carteira ou porta-moedas.
Seja como for, ao entrar no eléctrico, no meio daquela confusão desordenada em que todos querem embarcar com encontrões e ultrapassagens selvagens, senti um puxão no colete.
O instinto avisou-me do que se passava e levei a mão ao bolso: faltava a caixa.
O tipo que me tinha passado pela direita era o único suspeito: cinquetão, talvez mais, seco de carnes, brilhantina, rosto enrugado e marcado pelo sol, óculos meio escuros clássicos de massa, pequena bolsa a tiracolo com um casaco nela pendurado…
“Passa para cá isso!”
“Mas o que se passa?”, disse com ar de ingénuo.
“Passa para cá isso, então?! Passa para cá ou é pior!”
Esticou-me a mão esquerda, a que tinha usado, e desculpou-se:
“Você tinha deixado cair…”
“Deixei cair, é? E você apanhou-a com quê? Com os pés na confusão?”
Ficou em silêncio uns segundos, comigo a fitá-lo firmemente.
“Não querem lá ver que temos carteiristas a bordo?”, acrescentei em tom médio.
Manteve-se mais uns segundos, poucos, a olhar para mim, empurrou quem lhe estava no caminho e saiu, seguindo lesto para longe da lombriga de várias portas que é a carreira 15.
“Mas isso não é a caixa das pastilhas?”, perguntou-me quem estava comigo.
“É, e ele ia ter uma surpresa quando visse a falta de valor do palmanço.”

Que eu saiba, foi a segunda vez que fui vítima. Desta feita com final feliz, ao contrário da primeira no metro de Barcelona há mais de um quartel. E, ao contrário dessa cujo relato na esquadra deixou surpreendidos os polícias pela novidade do método, desta vez parte da culpa foi minha, que facilitei a coisa.

Se a frequência for esta, não me deve voltar a acontecer.

By me

domingo, 24 de setembro de 2017

Liberdades



Estava escrito num muro que fica a meio caminho de minha casa para o liceu.
Passado algum tempo, esse caminho passou a ser o de casa para o trabalho, que tanto fiz a pé.
Por isso o vi muitas vezes, até ficar indelevelmente gravado na minha memória:
“Liberdade para todos, menos para os fascistas”
Foi escrito naquele tempo que se seguiu à revolução de Abril, prolífero em mensagens com sentido nas paredes, umas mais simples, outras bem coloridas, algumas verdadeiras obras de arte.
Esta, a preto sobre o já não branco do muro, sempre me incomodou. Muito! Muito mesmo!
Qualquer um que me conheça, por pouco que seja, saberá que não defendo a ideologia fascista. Ou qualquer outra ideologia totalitária, seja qual for o quadrante.
A liberdade é algo de sagrado na minha cartilha e limitá-la é pecado nela também. A liberdade dos pensamentos e a liberdade de o dizer.
O simples facto de alguém pensar diferente de mim, por muito oposto que seja, não é motivo para lhe impor castigo ou impedir de o pensar. Mais ainda: o facto de alguém defender em público teorias que se opõem ás minhas, por mais opostas ou que me incomodem, não me dá o direito de o fazer calar.
Liberdade é liberdade, sem peias ou limites.
Não posso aceitar é que teorias que me prejudiquem ou que prejudiquem outros sejam postas em prática.
Assim, quem tentar por em prática teorias totalitárias terá a minha oposição, demonstrando publicamente o seu erro e perigo e impedindo, mesmo que fisicamente, que as liberdades de pensamento ou expressão sejam limitadas. Ou a segregação racial, ou religiosa, ou sexual, ou económica, ou o que quer que seja.
Agora que o possam pensar, que possam dizer o que pensam…
Se eu exijo para mim a liberdade de pensar e de dizer o que penso, bater-me-ei para que os demais o possam fazer. Mesmo que não concorde com o que dizem.


Será pantanoso este terreno. Mas não poderei aceitar uma “polícia do pensamento”. Ou o regresso dos lápis azuis. Ou a recuperação de um qualquer Tarrafal. Ou de goulags. Ou de piras de livros. Ou de índex. Ou…

By me

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Flores



Quem me conhece sabe que não colho flores. Nem as ofereço.
Não me apetece exprimir-me com um ser vivo a morrer ou já morto.
Tal como não as colho para fotografar. Que o meu prazer visual não é mais importante que um ser vivo.
Mas há ocasiões em que apetece dar uma coisa bonita, de que gostamos e a quem gostamos. É um impulso quase irresistível.
A minha solução, nestes casos, é rapar da câmara, mesmo que um telemóvel, e fazer o ícone do que quero dar. Assim, de impulso.

Foi o caso.

By me 

Hoje



Pergunta:
A barba cresce mais nos dias de verão ou nos dias de Inverno?
Claro que é nos dias de verão, que têm mais horas de sol que os dias de Inverno.
Uma das duas excepções é o dia de hoje, em que o dia tem a mesma duração que a noite.
Chamam-lhe equinócio e é conhecido e celebrado desde muito antes de termos inventado a escrita ou as redes sociais.
Caso tenham tempo, tirem um pouco dele para pensarem como este dia acontece muito para além das outras datas, arbitrárias, que o bicho-homem inventa. Muito para além da curta existência da raça humana.

A nossa fragilidade na linha do tempo é tremenda, mesmo que não o queiramos aceitar.

By me

CC



Não adianta virem com argumentações desta ou daquela natureza: a posse de um documento de identificação nacional actualizado é uma obrigação.
Não o ter é punível por lei e impedimento para alguns actos formais. Por exemplo, o levantar de correspondência registada e nominal, a abertura ou movimento de conta bancária, a celebração de um contrato…
Esse documento de identificação (Cartão de Cidadão) tem uma validade de cinco anos. E se estiver expirada essa validade é como se o não possuísse.
Acontece que a renovação desse documento, feita em instituição estatais, é paga.
Pouco importa que nada tenha mudado desde o anterior: morada, características físicas, estado civil… mesmo que tudo seja igual, há que pagar pelo documento novo.
“Ah e tal… mas se não tiver condições económicas (e o provar) não tem que pagar.”, disseram-me numa dessas instituições.
A questão não é o quanto pagar. Feitas as contas, renovar o documento de identificação custa 25 cêntimos por mês. Menos que uma bica.
A questão está em que somos obrigados a fazer algo – todos os cidadãos – e a pagar por isso. E isto é um imposto!
Eu diria mais: é um imposto de existência. Sermos obrigados a pagar para provarmos que existimos.
A própria existência do documento incomoda-me. Ser reduzido a números, mais a mais com informações no documento às quais não sei se tenho acesso integral. E não sabendo se o simples introduzir desse documento numa maquineta permite a quem o faz aceder a dados pessoais que em nada se relacionam com o acto no momento. É por isso que o meu CC não entra em nenhum leitor, privado ou público, impondo eu a sua leitura visual e nada mais.
Ter que pagar para possuir um documento que sou obrigado a ter e actualizado… isso faz-me ficar furioso.

Mas pagar obrigatoriamente para provar que existo… Internem-me, por favor.

By me

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Já não explico porquê.
Mas não se esqueçam de celebrar, à vossa maneira, o dia de amanhã.

22 de Setembro, celebrado desde os tempos mais antigos da humanidade.
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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Negócios

O Campo Pequeno está à venda.
De acordo com o que li, uma empresa Suiça está interessada em o comprar, considerando que quem a possui actualmente entrou em falência em 2014.
Fontes geralmente mal informadas confidenciaram-me que o Mosteiro da Batalha está em situação semelhante, havendo um grupo saudita interessado na aquisição e que o Forte de Sagres também, sendo o Reino do Butão o candidato.

Já a Torre dos Clérigo, no Porto, recebeu uma proposta de um empresário de Pisa, mas nada mais me adiantaram.
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E pode?



Pergunto-me como é possível que, em plena campanha eleitoral autárquica, com tudo o que isso significa e que conhecemos, este arruamento ainda exista em Lisboa.

By me

Aqui ao lado



Aqui ao lado preparam-se para o pior.
O governo de Madrid fretou três navios, entre paquetes e ferrys, com uma capacidade total de 6000 pessoas, para atracarem em portos da Catalunha. Dois em Barcelona, um em Tarragona.
O objectivo é poder alojar os reforços policiais da Guardia Civil e Polícia Nacional, enviados de todo o país, para abafar e neutralizar o referendo que os Catalães querem fazer no próximo dia um de Outubro sobre uma eventual independência de Espanha. Por aquilo que é possível saber pelos jornais do país vizinho, a maioria deste reforço policial é composto por polícia anti-distúrbios, aquilo que por cá chamamos de “polícia de choque” ou “corpo de intervenção”.
Será interessante recordar que a lei espanhola impede o uso de paquetes ou ferrys como hotéis ou alojamento temporário. O que nos pode levar a concluir que a lei que vigora aqui ao lado é a do funil: só funciona para um lado, o que convier aos governantes centrais.
No mesmo dia em que por cá poderemos exercer a democracia, com eleições autárquicas, em Espanha a democracia e a liberdade de expressão ficarão na gaveta, impedindo que um povo possa exprimir o que quer para o seu próprio destino.


Na imagem, um dos navios fretados

By me

O livro



“L‘image dês objets extérieurs qu’on aperçoit dans une chambre obscure percée d’une petite ouverture a dù certainement étre observée dans l’antiquité. Cedependant Aristote, qui a résumé toutes les connaissances acquises à son époque, s’étonne que les rayons du soleil passant à travers des trous carrés forment dês cercles et non pas des figures rectiligne. Le philosophe de Stagire essaye, sans y reussir,d’expliquer cette apparente anomalie, et ce n’est quid ix-huit siècles plus tard, dans les manuscripts d’un artiste célèbre, que l’on trouve pour la première fois l’analyse exacte du phénomène et son explication racionelle fondée sur la propagation en ligne de la lumière.”

É com estas palavras que começa o livro da imagem e que se intitula “Traité gèneral de photographie”, escrito por Ernest Coistet e publicado em Paris em 1912.
São 522 páginas, quase papel bíblia, onde nos são descritos desde os processos de sensibilização de superfícies, aos métodos e fórmulas de revelação, passando por cinema, fotografia técnica, fotografia em cor, equipamentos raros, etc.
Quem o conhecesse, então, de fio a pavio, saberia certamente muito mais e com mais rigor que os fazedores de fotografia dos tempos correntes.
Já não sei como me veio para ás mãos tal preciosidade. Sei, apenas porque tem a anotação a lápis, que o preço que me cobraram foi de 20€, pese embora a encadernação já não ser a original.
Não ocupa lugar de destaque aqui por casa, que todos os livros, independentemente da sua idade, têm igual valor.

Mas possui-lo dá-me algum prazer e já nele encontrei algumas preciosidades insuspeitas.

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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Liberdade



Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Tratamentos



O tempo é dividido em diversas unidades: anos, luas, horas, segundos, milénios…
Profissionalmente, o meu divide-se em 1/25 do segundo. É quanto dura cada imagem que transmito.
25 imagens por segundo! 1500 imagens por minuto! 90.000 imagens por hora!
Este é o meu ritmo de trabalho.
Com esta quantidade de opções por unidade de tempo, não tenho grande oportunidade de me preocupar com formalidades e graus de tratamentos inter-pessoais.
Divido os meus relacionamentos em dois grupos: os companheiros de trabalho, seja qual for a sua função ou idades e os convidados, externos à empresa, que temos em frente das câmaras.
Para com os primeiros, tenho um tratamento por “tu”. Igualitário! Fraternal! Indiferenciado! Seja qual for a sua posição na pirâmide hierárquica.
Para com os convidados tenho um tratamento na terceira pessoa, por “você”. Entram como convidados, saem como conhecidos, mas fomos nós que os convidámos para a “nossa casa”, e que há que tratar com a deferência que alguma cerimónia ou deferência impõem.
Há ainda uma terceira abordagem: o tratamento por “você” para com as pessoas com quero assumidamente ter uma tratamento à distância, com quem não quero ter intimidades. Se levar as coisas ao limite e quiser ser mesmo insultuoso, tratarei por “Vossa Excelência”.

Goste-se ou não, nascemos da mesma forma e acabaremos do mesmo jeito. E não tenho nem tempo nem paciência para discriminações de idade, posto laboral, categoria social ou classificação honorífica.

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