quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Boas festas



Lisboa, Jardim Constantino, Dezembro do ano da graça de 2017.
Em passeio sem pressas, apercebo-me de alguns agentes da PSP interpelando motoristas parados mesmo em frente a uma paragem de autocarro.
Finalmente, pensei. Alguns abusadores do espaço público vão ser autuados.
Aproximei-me para ver de perto aquele raro agir dos cívicos na grande cidade.
Quão errado eu estava!
Tratava-se de uma equipa do SIR que efectuava uma operação STOP. Mandando parar os automóveis na zona marcada a amarelo em frente à paragem e antecedida de um sinal vertical de “estacionamento e paragem proibida” com o acréscimo “excepto ccfl”.
Seis carros inspeccionados, quatro autocarros que deixaram e receberam passageiros, sete cidadãos que embarcaram e muitos olhares façanhudos dos agentes para mim depois, começou a choviscar. Aquela chuva que nem molha nem deixa secar.
Os agentes, que não são militares mas também não são civis, recolheram à carrinha, também ela estacionada na zona reservada e encostadinha a uma curva.
Por mim, que tinha tirado a câmara do bolso mas que rapidamente a devolvi depois de ter sido “admoestado” pelos olhares daqueles polícias de longo cassetete, braçadeira ameaçadora e olhar igualmente nada tranquilizador, deixei-me ficar mais uns minutos e zarpei.
Claro que não pude fazer o respectivo registo, pelo que vos deixo um dos enfeites de Natal da praça do Saldanha, fotografado minutos depois.


Boas festas para todos, incluindo os bons agentes da PSP.

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O tempo é meu



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Acordando



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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Just for the fun



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Arrumações



E quando começas a arrumar peças fotográficas no armário de gavetas, o que colocas na primeira?
Fácil! Um fotómetro clássico, um fotómetro, spotmeter e flashmeter e um termocolorímetro.



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Frases feitas



Num mundo de frases feitas, séries televisonadas, gatos fofinhos e fotografias gastronómicas, qualquer pensamento original com mais de cinquenta palavras está condenado ao olvido instantâneo.

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Fora da caixa



O fora da caixa é politicamente incorrecto, socialmente reprovável e academicamente ignorado.
Pensar, falar, agir.
Nas artes, nas letras, no quotidiano.
Coitado do que se atreve!

Ou feliz do que tem a coragem, apesar de tudo, de o ser.

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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Não há Anas que atrapalhem os Pai Natal



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AVISO À NAVEGAÇÃO



Não é de todo importante. Mas sempre fica o alerta.
Apercebi-me, num blog que vou mantendo, de um número redondo e grande de publicações feitas. Não costumo olhar para essas estatísticas, mas desta feita saltou-me à vista.
Sendo certo que que não mantenho os espaços virtuais com os mesmos conteúdos, quis saber quantas fotografias já teria publicado no Facebook. Só pela graça.
Ainda que tenha que ser mais ou menos manual, a contagem, baseei-me na indicação de quantas fotografias constam em cada álbum.
Qual não é o meu espanto quando constato o desaparecimento de muitas. Várias centenas mesmo. E apercebi-me disso pela quantidade de álbuns temáticos, referentes a situações específicas, que continham apenas uma fotografia. Nalguns casos, como manifestações de rua ou reportagens de teatro, sei sem sombra de dúvida que eram dezenas em cada.
Noutros casos, a maioria, um número inferior a 200, quantidade limite por álbum que me faz abrir um novo. Por vezes o número apresentado é inferior a 180.
Como disse no início, isto não é particularmente importante. Não publico uma fotografia da qual não tenha arquivo (mais que um por questões de segurança) pelo que estarem ou não on-line as mais antigas é pouco importante.
Mais ainda: este espaço virtual é gratuito e nas “condições de utilização”, aquelas letrinhas que ninguém lê, somos avisados que coisas destas podem acontecer sem que possam ser atribuídas responsabilidades.
Indo mais longe, e pensando nas que se “perderam”, não creio que tenham sido objecto de censura. Os conteúdos dos álbuns afectados é por demais variado para se poder dizer isso.
No entanto, e para aqueles que usam os espaços virtuais como arquivo único e que contam com ele para utilizações várias, fica o alerta: não há arquivos garantidos nem eternos quando enviamos conteúdos para a “nuvem”, seja ela assim chamada ou espaços virtuais de acesso público.
Manter as imagens, quer as originais quer as tratadas, em discos rígidos autónomos (mais que um e, de preferência, de marcas diferentes e comprados com mais de um ano de intervalo) é bem mais seguro. Ainda que nada garanta contra avarias ou acidentes.
Bom senso e precaução recomendam-se.


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E depois da tempestade...



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domingo, 10 de dezembro de 2017

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Pequeno exercício



Façamos um pequeno exercício que, pela sua impossibilidade, não passa disso mesmo - um exercício de imaginação:

Supúnhamos que, por um qualquer motivo, durante cinquenta anos apenas uma meia centena de pessoas frequentava por ano o ensino superior ou profissional em Portugal. E imaginemos também, para reforçar o exercício, que todos tinham excelente aproveitamento.
Passado este meio século, teríamos uma sociedade de “incultos”, de gente que não saberia trabalhar com os equipamentos que hoje existem que não fosse pelo hábito, teríamos médicos, engenheiros de diversas áreas, especialistas de tudo em final de vida.
Teríamos também umas duzentos cinquenta pessoas altamente qualificadas que, por serem tão poucas e considerando o sistema de procura e oferta, se fariam pagar a peso de ouro, aplicando os seus saberes às elites endinheiradas, ficando todos os restantes sem canos, medicamentos, diagnósticos, motores, sistemas eléctricos, casas, trigo, bifes e tudo o mais que hoje usamos e de que queremos mais e melhor.

Deste exercício de imaginação se pode concluir com facilidade que o sistema ensino-aprendizagem é vital para a sociedade. E que, como tal, deveria ser realmente gratuito, fosse qual fosse o grau de qualificação que se considerasse. E não o mero “tendencial” que a lei prescreve! Dando oportunidade a que quem tenha capacidades para ir longe no saber e no fazer o possa sem que isso seja um exercício de economia familiar. Trata-se de um investimento que a sociedade faz hoje para colher no futuro. Não tão distante quanto isso!

E, já agora também, considere-se que o que a imagem ilustra não pode ser a realidade. Nem o seu inverso! Nem os alunos são burros e os professores déspotas, nem os jovens os reis e senhores e os mestres os elos mais fracos.
Neste jogo de “aprender e ajudar a aprender”, cada qual tem o seu lugar e igual importância. E se ambas as partes de tal estiverem cientes e não se tratarem como adversários numa arena de mesas e cadeiras, todo o trabalho acontece com muito mais facilidade e resultados positivos.
Que é o que ambos querem e a sociedade deseja!


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sábado, 9 de dezembro de 2017

Rosas



É o que se arranja para aqui publicar.
Que a Rosa mais bela guardo-a para mim.

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Para todos aqueles que se preocupam em exclusivo com os grandes projectos e acções, gostaria de recordar que todos eles se baseiam em pequenos projectos e acções.

Talvez



Dezembro é a época de tradições. Pelo menos por cá.
Usemo-las e contemos histórias ou estórias apropriadas para a época.
Eis uma:

Talvez porque estava sol! Talvez por ser feriado! Talvez por faltar ainda uma mão cheia de dias para o final do mês! Talvez…!
O autocarro levava apenas meia dúzia de gatos-pingados. Uma senhora idosa, gorda e de ar modesto, num dos bancos da frente; eu mesmo, de pé e com o saco nas costas e o tripé ao peito, no patamar junto à porta; um casal de meia-idade, num banco logo a seguir; lá para o fundo, em bancos separados, dois homens de idades indefinidas. E nada nos unia naquela viagem, não fora o partilharmos o autocarro e, por ser o dia que era e a hora que era, parecermos uma multidão.
Mas, metido que estava nos meus próprios pensamentos e observando que ia a avenida deserta como nunca, não teria dado por nada, ou quase.
O que me fez despertar para o que acontecia ali dentro foi uma voz, vinda da porta da frente. Um rapaz, de vinte e poucos, nem bem nem mal vestido, exclamava para o motorista: “Oh chefe! Não me faça isso! Logo hoje!”
Olhei, como os demais devem ter olhado também. A nota de vinte euros que tinha na mão contava a história sem falar. Ele queria pagar o bilhete, um euro e oitenta cêntimos, mas o motorista/cobrador não tinha troco. Deve ter-lhe proposto entregar-lhe um vale da quantia a devolver, para ser recebida numa das estações centrais da Carris. Lá na outra ponta da cidade e não naquele dia, que se tratava de um feriado.
Acredito que o rapaz não tivesse ali mais dinheiro que aquele e ficar sem nenhum, naquele dia, seria catastrófico. Depois de trocar mais uma palavras, em voz baixa, com quem lhe devia vender o bilhete, veio de passageiro em passageiro, perguntando se, por mero acaso, não teríamos troco de vinte euros. E a nossa resposta, cada um à vez, foi negativa. Por mim, tinha uns cinco ou seis euros em moedas e a nota mais pequena era de dez. Não chegava!
Regressou lá à frente, sempre com a nota na mão, suponho que para tentar convencer o funcionário da sua vontade de pagar mas também da sua impossibilidade de encontrar trocos para tal.
Entre mim e ele, a velhota sentada chamou-o. Tinha decidido fazer aquilo que eu mesmo estava a hesitar em fazer. Abrindo e rebuscando no seu porta-moedas, foi contando moedas até perfazer os malfadados euro e oitenta do bilhete. E entregou-lhos, dizendo:
“Tome! Vá lá pagar!”
“Mas…” titubeou ele, “Mas…!”
“Vá lá”, interrompeu ela, “Vá lá antes que ele lhe passe a multa!”
E ele foi. Pagou o bilhete e deixou-se ficar por ali, junto à porta da frente.
Duas paragens depois a velhota saiu, transportando com dificuldade o seu próprio peso e o de um saco, volumoso também, que segurava. Não trocaram mais palavra e, creio, não mais se encontrarão.
Um euro e oitenta cêntimos. O preço da satisfação de ambos. O conceito de barato e de caro dependerá das posses de cada um deles. Que não me pareceram abastados, bem pelo contrário.
Mas…. Qual o preço de um sorriso? Talvez porque estava sol! Talvez por ser feriado! Talvez por faltar ainda uma mão cheia de dias para o final do mês! Talvez…!


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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Rodilex



Rodilex

Procuro informações sobre este relógio ou sobre esta marca.

Alguém pode ajudar?

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Tradições



Dezembro é a época de tradições. Pelo menos por cá.
Usemo-las e contemos histórias ou estórias apropriadas para a época.
Eis uma:

Juntámo-nos os três no autocarro: o seu motorista, eu mesmo, com a sacola às costas e a câmara no ombro e a freira de cinzento, que comigo subiu. O resto… o resto era uma imensidão de bancos vazios, que p’las duas e pouco da tarde de natal poucos são o que andam de autocarro.
Ao subirmos, avisou-nos o motorista com bonomia que tivéssemos atenção, pois que o fazer sinal de paragem ao autocarro, com ele tão perto, não é garantia que seja visto a tempo e que pare.
Pedi desculpa e agradeci, pois tinha sido o caso, e segui para o fundo. Mas a boa da freira, que se sentou no banco junto à porta, é que não esteve pelos ajustes e protestou, afirmando com veemência que tinha-o feito com antecedência.
“Temos discussão”, pensei. “O melhor é ir pôr água na fervura!” E regressei para junto da porta da frente, ficando a meia distância entre quem conduzia e quem era conduzido, o primeiro com bom-humor, a segunda deixando escapar entre-dentes um conjunto de protestos contra tudo e todos, pouco consentâneo com as vestes e o terço que trazia na mão.
E fomos palrando, eu e o motorista da Carris, que me parecia que, mais que sinais visíveis, queria ele era quebrar a solidão de uma autocarro vazio.
Da visibilidade dos sinais dos passageiros à visibilidade das bandeiras dos autocarros, passando por carreiras mais ou menos movimentadas nestes dias, houve de tudo um pouco.
Mas a maior preocupação dele era, sendo novato nesta linha, nesta tarde de natal onde poderia almoçar no local de terminus da carreira, ali ao Calvário.
Dei-lhe uma ou duas sugestões, sem garantias de estarem abertos neste dia, e terminei alvitrando que na esquadra de polícia, mesmo pertinho da paragem, haveriam de saber.
Desci ao cimo da Alvares Cabral, com a esperança de poder tomar um café na esplanada do Jardim da Estrela. Dos votos de “Boas Festas” com que me despedi, ouvi dele um “Igualmente”. Da freira, cinzentona por fora e por dentro, nada ouvi que não o seu resmungo que não sei se oração. Espero que tenha ido encontrar conforto e bom-humor onde quer que tenha ido. E que não tenha azedado por antecipação o almoço daquele simpático e bonacheirão motorista da Carris.

Um daqueles que, nestes dias, estão a trabalhar e de quem nem notamos a presença.

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Andorinhas e pardais. Pombos e melros. Gaivotas e falcões.
Há de tudo por aqui, para gaudio de quem os gosta de ver.
Só ainda não vi patos, mas creio não haver lagos ou charcos por estas bandas.


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O biqueiro



Ele olhou pelo espelho retrovisor e viu-as: a uns 60 metros, corriam tanto quanto o meio século de cada uma, mais os sacos que carregavam, permitiam.
O meu braço, esticado e de mão aberta e levantada, irrompia pelo espaço da porta, ainda aberta.
Cinquenta metros. Ele olhou para mim e fez um esgar. Estranho esgar.
Movimentou o seu braço e premiu um botão.
Quarenta e cinco metros.
O silvo do ar comprimido do fechar das portas fez-se ouvir. E ele a olhar para mim.
Quarenta metros.
Retirei apressadamente o braço, antes que ficasse entalado.
Trinta metros.
Ouviu-se o destravar do autocarro e a marcha iniciou-se. Com calma.
Vinte metros.
O biqueiro que dei na chapa da viatura ecoou por toda ela como um sino rachado.
Dez metros.
A viatura imobilizou-se ao mesmo tempo que a porta se abria.
Afastei-me no meu caminho para o trabalho, mas ainda ouvi qualquer coisa que disse, acabada em ão e em alho.
Elas embarcaram, ofegantes mas sorridentes.

Uma delas ainda teve ânimo para proferir, por entre o arfar, um obrigado.

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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Tradições



Dezembro é a época de tradições. Pelo menos por cá.
Usemo-las e contemos histórias ou estórias apropriadas para a época.
Eis uma:

Era a véspera de Natal e ele estava de regresso a casa.
O dia tinha estado francamente tempestuoso e a noite, ainda que aparentasse estar calma, apenas anunciava que a qualquer momento iria igualar o dia.
O caminho entre a estação habitual e casa era longo e a subir. E boa parte dele desabrigado. O risco de ser apanhado a meio caminho pela tempestade era grande e desconfortável.
E decidiu optar pela solução alternativa: desembarcar mais à frente, na estação seguinte, onde havia uma praça de táxis. Sentado e protegido da chuva e do vento, chegaria a casa.
Mas era véspera de Natal.
Os motoristas de táxi estariam na missa do galo ou no aconchego familiar e nem um aparecia para serviço. Nem mesmo a central telefónica atendia, que a telefonista deveria também ter tido a noite livre.
A solução última seria enfrentar a noite e a tempestade, se desabasse.
Na esquina surgiu um. Um táxi. Um carro de praça. Uma viatura que o haveria de levar a casa. Ocupado. E vinha de um outro concelho, não podendo ali recolher passageiros.
“Sorte a daquele!”, pensou ele. “Safou-se!”
Minutos depois, já com decisão da caminhada tomada mas não concretizada, eis que o táxi regressa. Encosta da praça, abre a janela e pergunta ao solitário que ali aguardava por um táxi que não havia:
“Vai para onde?”
Ele lá lhe respondeu, sabendo que de pouco serviria. Aquele carro não podia, ali, recolher passageiros. Manda a lei e a classe profissional é muito ciosa dos seus territórios.
“Venha, que o levo. Hoje, a esta hora, não consegue aqui apanhar um. Tem é que me dizer o caminho, que não conheço esta zona.” E, já em trânsito, acrescentou: “E sempre escuso de fazer todo o caminho para Lisboa vazio.”

Este ano, sem barbas e disfarçado de motorista de táxi, o Pai Natal apareceu-me uma hora mais cedo.


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O avião



O tipo de ofício que tenho proporciona estas situações, que os horários são demasiado malucos e instáveis:
Ontem um colega viu-se na contingência de ter que levar a filha para o trabalho.
Coitada da pequena, que frequenta o 4º ano, lá se ía entretendo como podia, sem atrapalhar o que ali se faz. E a dado passo, talvez que as minhas barbas tenham sido um incentivo, veio perguntar-me se haveria papel disponível para escrever ou desenhar.
Claro que havia e indiquei-lhe onde. E ficámos um nico de conversa na qual acabei por lhe contar a história do Joãozinho e do seu barco. Contá-la-ei aqui noutra ocasião.
Mas, na sequência disto, acabámos por falar de aviões de papel, de como fazer e quais os modelos.
Enquanto eu lhe mostrava um deles, dobrando e vincando a folha com afinco e rigor, qual engenheiro aeronáutico, lembrei-me de tantos produtores de imagem, estática ou animada, que tanta questão fazem em “dobrar” a imagem a meio com o horizonte, ou de lhes aplicar regras matemáticas exactas, como o número de ouro, ou ainda algoritmos digitais aplicados às cores e luzes, deixando de parte o equilíbrio, a harmonia subjectiva, a criatividade, o expressar da alma.


Se a estética se resumisse a fórmulas e regras, há muito que os computadores teriam produzido obras-primas igualáveis apenas por outros computadores.

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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Ao calhas



Ainda não tenho a minha “biblioteca” disponível por inteiro.
Por isso, e ao invés de recorrer a um livro, recorri a um post antigo. Também ao calhas.

“Por vezes faço isto: Mais ou menos ao calhas pego num livro, abro-o igualmente ao calhas e deixo que os meus olhos se prendam num qualquer parágrafo.
Isto foi o resultado do exercício de hoje, pouco depois de acordar. A imagem foi feita, também mais ou menos ao calhas, para acompanhar a citação.

“Outro critério de fracasso é o do desenquadramento e da descentragem: herdados das regras da composição pictórica em perspectiva, a expectativa que se tem de uma “boa fotografia” é que o motivo principal esteja centrado, situado no eixo do olhar, ao mesmo tempo que respeita o equilíbrio da divisão da superfície em três terços horizontais e verticais. Mesmo vazio, o centro propõe-se como ponto de referência, comandando a organização geral da fotografia. A expectativa do centro como ponto forte das imagens que se julga representarem a própria vida mostra até que ponto a convenção representativa corrompe esta imagem privilegiada, porque vestígio, da ideologia (*). A vida, o real, terão eles centro?

(*)A centragem não é apanágio da fotografia: encontra-se também de forma sistemática no cinema, em particular no cinema clássico hollywoodiano. Foi a pintura que, após ter instituído o Quattrocento, pôs em causa, pelo menos desde o séc. XIX, a centragem na representação visual.”

in: “A imagem e a sua representação”, by Martine Joly, Edições 70, pag 95”


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Crimes



São pelo menos dois os jornais que noticiam o julgamento de duas pessoas pelo homicídio de uma terceira.
A vítima foi estrangulada e agredida com um tijolo e um pau. Por uma dívida de 250 euros.
Foi feito um vídeo do acto por um dos agressores.
Com pequenas diferenças de texto, este é o resumo de ambas as notícias.
Isso e o facto de a família da vítima pedir uma indemnização de 800.000 euros aos acusados.
Um crime contado com detalhes escabrosos e o valor da vida assim expresso e pedido.

Não me sinto tranquilo numa sociedade assim.

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Hábitos



Pouco importa quantos anos separam uma de outra imagem. Ou qual será a actual e a antiga.
Há hábitos que ficam e que são particularmente difíceis de erradicar.

Principalmente numa mesa de trabalho.

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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O segredo



Caminhava decidido mas com calma. Havia tempo até chegar ao meu destino e ia observando o conteúdo daquele bairro suburbano, bem populoso e popular, daqueles que, apesar dos fluxos migratórios diários, consegue ter vida própria rica e activa. E eu ia alerta para essa vida até que…
Até que num passeio não muito largo, quase a chegar a uma esquina, aquela mulher me aborda.
Faz-me parar, com ambas as mãos afaga-me as barbas, e lança-me a pergunta:
“Com estas barbas, como fazes para beijar as mulheres? Como o fazes?”
Há coisas na vida para as quais não estamos preparados. Esta foi uma delas.
Olhei-a por uns segundos, tentando encontrar uma resposta. O sotaque, a tez e o cabelo indicavam que talvez fosse originária de Cabo Verde. Pela idade, nascida lá. E foi isso mesmo que me inspirou.
Sorrindo, disse-lhe baixinho:
“Sabe, é como os segredos das ilhas: só quem lá vive os conhece. Só quem lá vive!”
Olhou-me nos olhos e sorriu. Um sorriso doce, profundo, bonito. E privado, que creio que mais ninguém o viu.
Fez mais um afago e afastou-se-me do caminho. E eu segui, continuando a olhar em redor, mas quase que sem ver.
Na esquina, logo ali, parei e olhei para trás. Lá estava ela, com o peso da idade mas o sorriso no rosto, um sorriso que creio que só eu vi. Acenou-me, quase que como que continuando a acariciar as barbas, voltou-se e seguiu.

Talvez um dia ela descubra como nós, os barbudos, o fazemos. Ou talvez já saiba o segredo e seja só um recordar.


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sábado, 2 de dezembro de 2017

Confissões



Admito que a falha seja minha.
Admito que aquilo onde vou “beber” não sejam as melhores fontes.
Admito que a informalidade de algumas das minhas referências não sejam as mais comuns.
Admito que mais me sinto influenciado por Miró que por Leonardo, por Adams que por Feininger, por Sanders que por Levitt, por Haas que por Giacomelli, por Smith que por Penn, por Bau que por Mozart, por Berger que por Cervantes…
Mas o certo é que me sinto incomodado, frustrado, desagradado quando vejo imagens com a linha do horizonte tortas ou bem centradas.
Mas admito que a falha seja minha. Tal como admito que não me perdoo se, em indo para os lados de Barcelona, não cumpra a peregrinação à Fundació Juan Miró.
Bebo de lá sedento e sacio-me com a desformatação da ausência de canos, de normas, de academismos.

Mas admito que a falha seja minha.

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Privacidades



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Luas



Muito se vai falando das “Super Luas”. E fala-se disso como se fosse um daqueles acontecimentos extraordinários a nunca perder.
Saiba-se que a Lua, tal como o Sol, parecem maiores logo que aparecem no horizonte, porque a atmosfera, redonda como o planeta, faz de lupa. E aumenta visualmente aquilo que pouco tempo depois, retoma o seu tamanho aparente normal.
É certo que a orbita da Lua em torno da Terra não é circular, havendo ocasiões em que está mais próxima. E que, se a atmosfera estiver límpida no local de observação, parecerá maior.
Mas uma variação de 5% ou em redor disso será pouco perceptível e, a menos que se esteja atento, em nada parecerá diferente.
Para quem quiser desfrutar de tal fenómeno este fim de semana, sugiro que o faça logo ao nascer da Lua, de preferência hoje, véspera de Lua cheia, ou amanhã.
O motivo é simples: Sobe a Lua no horizonte antes ou no momento em que o Sol desaparece do lado oposto. Fica assim ela visível enquanto que o planeta tem, no local de observação, ainda luz natural. Com sorte, ela assumirá cores bonitas, dependendo da poluição atmosférica.

Divirtam-se!

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Grades



Não serão as grades que me prenderão o pensamento.

Dito, escrito ou fotografado.

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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Traveling 28



Já tem uns anitos (sete, para ser rigoroso) esta estória.
Mas, por um qualquer motivo, recordei-me dela há pouco.
E recordei-me que difícilmente um episódio destes se poderá repetir. Não por uma questão geográfica ou de calendário, mas antes pela desconfiança que cada vez mais grassa pelo mundo fora.

Estava eu pacatamente encostado ao balcão do café da minha rua, à espera da “banheira e hambúrguer”, (código privado para café cheio e pão-de-deus com queijo e manteiga), quando chega o carteiro.
Aqui na rua são habitualmente três que fazem a distribuição de correspondência, sendo que os conheço de vista e de dois dedos de conversa, para verificar se tenho correio, para falar do tempo ou de fotografia com um deles. Confesso que não sei o nome de nenhum deles, que nunca o perguntei, mas primam todos pela simpatia e afabilidade.
Pois este, assim que entrou e depositou as cartas para o café, exclamou para mim:
Ainda bem que o vejo, que andava a pensar em si. Tenho aqui uma coisa que acho que lhe é destinada.”
E, metendo a mão no pesado saco que carregava, retirou uma caixa, cúbica, aí com uns 20cm de lado.
“Vem do estrangeiro, parece-me.”
Fixe! Ganda pinta! Baril! Afinal também o tipo das barbas brancas recebe encomendas do Pólo Norte.
Bem… Não veio exactamente do Pólo Norte, mas tão só do norte, da Grã-Bretanha, para ser mais exacto. Mas é lá de cima, do norte e do frio, prontos!
E explicou-me ele que tudo na morada estava correcto e legível, excepto a letra correspondente ao meu apartamento, que poderia ter várias interpretações. Tinha ele comentado a coisa com colega de giro e ele alvitrara que seria eu, o das barbas e da fotografia.
Já uma pessoa não pode andar por aí, conversando e fotografando, que até os carteiros nos conhecem pelo nome, num bairro dormitório suburbano e num megatério de 96 apartamentos.
Pois dentro da tal caixa estava, muito bem acondicionada contra choques e humidades, o que aqui se vê na imagem: uma objectiva fotográfica.
A sua alcunha é ”traveling 28”, e trata-se de uma objectiva Pentax, de 28mm, já com alguns anitos valentes e pertencente a um companheiro norte-americano que conheço de um fórum em que participo.
A ideia é esta óptica andar de membro em membro, através do mundo, e cada um de nós mostrar o que é capaz ou quer fotografar com ela.
Tenho um projecto específico para ela e, apesar de ter um igual ou quase, tenho-a esperado para tal. No fim de contas não teria graça subverter o projecto colectivo.
Resta-me, para além de a usar, saber quem é o seguinte na lista. Por qualquer motivo, tenho na ideia que será um Australiano, mas também não descarto a ideia de ser um Islandês, o único desta nacionalidade neste fórum.
Seja como for, este ano o Pai Natal, disfarçado de carteiro, chegou uns dias antes do prazo. Mas sendo verdade que “é Natal quando um Homem quiser”, já abri esta minha prenda.



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Exames



Uma ocasião necessitei de ir ao médico. É daquelas coisas que acontecem a qualquer um.
Depois de apresentar as queixas que lá me levaram e de responder a meia dúzia de perguntas, foram-me mandados fazer meia dúzia de exames antes de haver diagnóstico. Normal, também.
Um deles foi um raio-x.
Fiquei curioso sobre tal exame. Que teve como resultado exactamente aquilo que eu esperava e sabia. E questionei a médica sobre a necessidade de tal despesa. Se não bastaria perguntar-me o que tinha dentro da cabeça.

É que teria respondido aquilo que o exame demonstrou: coisa nenhuma!

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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Feriados



Sobre os feriados, e o trabalhar-se ou não nesses dias, uma coisa houve que nunca ouvi:
“Amanhã é feriado e vou festejar.”
Tal como não oiço:
“Hoje vou festejar, seja ou não feriado!”
Aquilo que é normal dizer-se sobre um feriado é relativo a trabalhar-se ou não, sobre se se paga ou se se recebe mais ou menos, se se aproveita esse dia para fazer algo menos normal (ir para fora, trabalhos domésticos, desporto).
Agora sobre o facto de o feriado ser um dia para ser festejado, relembrando uma data ou facto relevante (político ou religioso), isso nunca se comenta.
E eu, que sou um cidadão não filiado em nenhum partido político e que sou agnóstico (com tendências animistas) pergunto-me porque terei que cumprir os feriados dos outros e não poder celebrar em festa as datas que entendo por realmente importantes, quer da história, da filosofia, da teologia ou da natureza.

Quero os solstícios e os equinócios por feriado, que são datas comuns a todo o planeta e que nos mostram o quão pequenos somos perante a natureza. E, nesses dias, quero poder celebrar usufruindo da luz solar do nascer ao pôr-do-sol, em particular esses momentos.
Sobre a história, quero poder celebrar a invenção do fogo, da roda e da escrita. Três momentos fulcrais na civilização, completamente à margem de conflitos e mortandades.

Quanto ao resto, mais século, menos milénio, acabam por perder importância, que mais não são que meros momentos na curta vida de um ser humano e respectiva espécie. Ficam os resquícios consumistas e os códigos laborais a imperar.

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terça-feira, 28 de novembro de 2017

Magias



É sempre uma sensação estranha circular na cidade naquele período em que a luz do dia se desvanece mas ainda a luz da rua ainda não acendeu.
Um misto de nostalgia (não sei a quê) com tristeza, somada a algum conforto que se aspira.

Mesmo com um telemóvel e de improviso através do vidro sujo de um autocarro, é um momento de luz mágica, um limbo entre o que foi e o que será.

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Perguntas e respostas



Foi uma das perguntas que mais fiz a aprendizes do ofício de produzir e comunicar com a imagem:
“Que história ou estória me queres contar com isto?”
Dependendo da idade, do estádio de conhecimento e do âmbito da formação, por vezes acrescentava:
“Não me respondas agora. Encosta-te sem olhar para ela e escreve a resposta. Depois volta cá com o conjunto.”

Tenho para mim que é importante, muito importante, saber o que se quer contar. Ou, pelo menos, sermos capazes de encontrar uma explicação posterior, mesmo que ao fazermos a imagem não tenhamos pensado nisso.
Uma das respostas à minha pergunta pode ser: “Não quero contar nada, fiz isso porque me apeteceu.” E é legítima a resposta. Mas há que a dar. Conscientemente.
Em seguida conversamos sobre a imagem e sobre o como os demais a podem interpretar. Que elações pode o público tirar daquela imagem, pensando na cultura ancestral, na cultura do momento, nas influências próximas, no contexto é que é acedida…

Depois disto, quero que o autor me diga, com a autoridade de quem criou algo, se quer usar aquela ou qualquer outra.


A sua reposta tem valor de lei.

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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Excêntrico



Isto é um excêntrico! Uma peça mecânica em que o seu limite exterior, ainda que seja uma linha curva, não se encontra equidistante do seu centro ou eixo.
Aplicado que lhe seja um movimento de rotação, a irregularidade do seu limite exterior entrará em conflito com o que o circunde, provocando uma acção nos elementos que o rodeiam.
É usado para provocar acontecimentos cíclicos, controlados, em mecânica.
No caso específico da imagem, faz parte do mecanismo de um projector de cinema de 8mm e super 8mm que tenho temporariamente em casa.
Recorri ao empréstimo deste vetusto aparelho para passar para suporte digital velhas películas cinematográficas a pedido de uma colega. De caminho, e a título de pagamento do empréstimo, procedi a idêntico tratamento aos filmes do dono do projector, passando-os para DVD.
Este trabalho levou-me a conhecer bem duas coisas:
- O mecanismo em causa, já que o tive que reparar por diversas vezes face à sua idade avançada;
- Os filmes passados para a tela, recuperados pela câmara de vídeo e reencaminhados para o disco rígido.
Foram várias horas de um tempo que não se repete, em que figuras que não conheço passaram da fase de bebé de colo à de adolescência vistos pelo olhar técnico de seu pai e pela complacência de sua mãe.
Os trajes e os lugares, os penteados e os automóveis, a participação dos adultos nas brincadeiras e as próprias brincadeiras variam enormemente em 30 ou mais anos.
No entanto, ainda me pergunto se terei feito bem em fazer este trabalho.
O prazer da manipulação deste equipamento antigo, o ruído do projector, o ritual das luzes apagadas e dos olhares fixos na tela reflectora perder-se-á. As bobines de metros e metros de milhares de fotogramas serão arrumadas numa qualquer caixa, ganhando bolor e esquecimento.
O ver destas novas imagens na tela emissora que não reflectora ganhará a banalidade de abrir uma gaveta, e fazer click. Tão fácil quanto o ver mais um qualquer filme alugado no clube de vídeo.
A carga mágica do suporte desaparecerá, vulgarizado que for o seu uso.
Será que as gerações vindouras darão ao suporte banal dos bites e dos bytes o mesmo valor que aos fotogramas?

PS – Eu não possuo uma peça destas! A minha excentricidade não se manifesta em peças de teflon, engrenagens e rotações.
Antes em matéria viva, textos e fotografias, pensamentos e intervenções na sociedade.

Como aqui e agora!

By me

domingo, 26 de novembro de 2017

Pedagogias



Li por aí algures que há alguém, no Reino Unido, que quer que a “Bela Adormecida” seja retirada dos programas escolares.
Argumenta a senhora que o beijo que o príncipe dá não é consentido, visto ela estar a dormir e que é anti-pedagógico.
Faz sentido!
Já tinham retirado o eterno cigarro ao Luky Luke. Pelos mesmos motivos.
Já agora:
O Tintim tem que ser revisto, face às atitudes racistas contra africanos e orientais.
O Asterix deve ser censurado igualmente, visto que vai a Roma roubar a coroa de louros a César.
O Super Homem pode ser redesenhado, considerando o mau exemplo de vestir as cuecas por cima das calças.
Não esquecer o Zé Carioca, que vive sem trabalhar e de expedientes pouco claros.
De considerar o retirar de circulação quase todos os livros e filmes do “far west”, face a impunidade com que os bons matam os maus.
Por fim, e não menos polémico, a questão da bíblia, onde Ló oferece as filhas virgens à turba enfurecida para proteger hóspedes em sua casa. Ou a chacina dos primogénitos egípcios, inocentes, para proteger o povo eleito.


Em modo de post scripum: Quando se começa a usar o termo correcto sobre o que aconteceu no continente norte americano aquando da sua conquista pelos europeus – genocídio?

By me

sábado, 25 de novembro de 2017

Cântico negro



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "Vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "Vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "Vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio