quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O roubo na esquadra



Quem me contou a estória afiançou-me como sendo verdade e tendo acontecido aqui, algures nos finais dos anos 40, princípios dos anos 50. E como quem ma contou morava nas imediações, até acredito nela.
Um dia o chefe da esquadra da zona terá dito para um seu subordinado que passasse na relojoaria ali da rua para que eles fossem buscar o relógio de parede da esquadra. Andava ele a atrasar-se (ou seria adiantar-se?).
Certo é que, mais tarde nesse mesmo dia alguém se apresentou na esquadra de polícia, dizendo que vinha buscar o dito relógio. E levou-o. Para onde ninguém sabe, que o tipo não vinha a mando do relojoeiro. Seria um larápio que estaria na loja quando o recado foi dado, a preparar talvez um trabalhinho, e ouvindo o recado aproveitou a ocasião.
Falsa ou verdadeira, a estória, serve ela para mostrar que as coisas mais audazes se fazem quando menos se espera e com a maior das naturalidades, ou tudo falha.
Mas, a ser verdadeira a estória, 50 anos depois alguém roubou este prédio mesmo ao lado da esquadra onde se teria passado o insólito acontecimento. A pressão urbanística e imobiliária, aliada à idade provecta do edifício, fez com que fosse derrubado – só ele – para criar este simulacro de rua, que nem sei se terá ao menos nome, para acesso ao bairro das Olaias, por trás.
Ficou assim, com este aspecto, como se alguém tivesse tirado uma fatia do bolo mesmo antes de o colocar na mesa.

O relógio terá ido, até porque efémero o tempo; o imóvel também, até porque já não fazem prédios como antigamente. Ficou a memória de uma estória rocambolesca que, sendo verdade, é divertida; não o sendo, ficamos todos com pena que não o seja.

By me

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Automatismos? Não, obrigado.



Tive um Tio.
Era eu pequenote quando morreu.
Mas recordo ele possuir uma agenda de secretária, grande, muito grande para os meus olhos de então, onde ele tinha anotado tudo quanto considerava de importante. E todos os anos lá copiava ele da velha para a nova.
Pois todos os dias, antes de sair de casa pela manhã, consultava ele a sua agenda e dirigia-se à estação de correios ao fundo da rua. Daí, enviava um telegrama de parabéns a quem quer que nesse dia fizesse anos. Mesmo que o ou a não visse há muito.
Um acto deliberado, consciente, trabalhoso e oneroso.
Hoje temos os “Outlooks”, os “E-Mails”, os “FaceBooks” que nos recordam, queiramos ou não, dos aniversários de quem lá conste. E usando da mesma tecnologia de informação e a custo zero, lá gastamos uns 10 a 15 segundos a mandar os tais “parabéns” descaracterizados, frios, impessoais, electrónicos.
Sendo que acho que não deverá ser uma máquina ou um calendário que deva dizer quando me devo divertir ou cumprimentar quem quer que seja, ignoro esses avisos automáticos.

Quanto ao resto, nada melhor que uma festa de desaniversário, para citar Lewis Caroll. Que, por sinal, até foi também um dos grandes fotógrafos do seu tempo.

By me

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Passagem



O que é idade?
É bem mais que aquilo que medeia entre este momento e aquele em que nascemos.
É aquilo como nos sentimos, bem para além daquilo que o corpo sente.
É aquilo que nos apetece fazer, apesar do que aprendemos, do que nos ensinaram, do que impõem.
É o que leva a que os nos olhos brilhem de desejo, mesmo que proibido.


Que idade tenho, eu que passei para o outro lado, que conduzia a local algum e sem que coisa alguma lá fosse fazer, nem mesmo fotografar?

By me

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

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Parece que Pedro Passos Coelho terá dito que:
“O que é que vai acontecer ao país seguro que temos se se mantiver essa possibilidade de qualquer um viver em Portugal?”
Concordo com ele em pleno!

Só não sei que outro país o acolheria.

"Penso eu de que"



O estado é a maior empresa do país. São centenas de milhar os assalariados que prestam serviços nas diversas áreas, da saúde à justiça, da educação à segurança, da higiene à cultura.
O objectivo desta empresa é a prestação destes serviços aos seus sócios – os cidadãos – e os meios de o fazer provêem das contribuições dos mesmos.
É um sistema em circuito fechado em que, quanto mais ricos forem os sócios e maiores as contribuições, mais e melhores são os serviços prestados! E o contrário é igual e lamentavelmente verdade.
Em princípio mas não inalteravelmente! Mas isto já é outra conversa.

As contribuições dos “sócios” desta empresa fazem-se sob a forma de dinheiro, numa pequena, ou não tanto, percentagem dos seus proventos.
Este dinheiro mais não é que o símbolo do poder ou riqueza de quem o possui, representando os bens detidos ou produzidos pelo seu detentor. É uma forma de fazer equivaler uma vaca a um saco de trigo ou uma dúzia de ovos a um aconselhamento médico ou um par de sapatos a um jogo de copos.
Mas cada vez menos se produzem bens e se aumentam os serviços. Há cada vez menos pessoas a criar vacas ou fazer sapatos ou cultivar trigo. Em compensação, há cada vez mais gente a prescrever medicamentos, a fazer aconselhamento jurídico ou a gerir firmas. A quantidade de serviços prestados aumenta na mesma proporção em que diminuem as produções de bens.
Por outro lado, e para aumentar este desequilíbrio, a população está a envelhecer, o que aumenta o número de consumidores em relação aos produtores.
Consequentemente, sendo o dinheiro uma representação dos bens produzidos e possuídos, este vale cada vez menos, visto que há mais gente a usar que a fazer. E o valor dos bens aumenta em relação ao do dinheiro.

O estado, enquanto maior e principal empresário, regulador da actividade colectiva e grande exemplo para os indivíduos, é, proporcionalmente, o maior prestador de serviços e menor produtor de bens. De riqueza.
Na sua actual filosofia de uma sociedade aberta à iniciativa privada vai, regular e continuadamente, alienando os seus próprios meios de produção de bens, afastando assim a possibilidade de ele mesmo criar riqueza ou, pelo menos, ser auto-suficiente nas suas despesas obrigatórias.
Está dependente da riqueza dos cidadãos, que estão cada vez mais pobres!
O aumento da eficácia na cobrança de impostos e contribuições dos cidadãos é uma medida recomendável mas ineficaz a longo prazo (para não dizer a curto prazo!). É a manutenção de um sistema autofágico que, gradual e inevitavelmente, se deteriorará até à falência total.

A solução passa, parece-me, por o estado, enquanto maior empresário e representante da sociedade, passar a produzir bens, introduzindo-os no mercado e, com isto, não apenas aumentar a riqueza existente em circulação, como dela retirar as mais valias para a sua própria manutenção.
Os grandes empresários, nesta sociedade virada para a iniciativa privada e o lucro, diversificam os seus investimentos, da produção aos serviços. E o resultado é que se vê: sucesso! Porque não fazer o mesmo por parte do colectivo, aprendendo com quem obtém bons resultados?
E com isso manter o principal objectivo do estado enquanto organização que é, em última análise, manter em boas condições e melhorar a vida dos seus “sócios”!

Se, para tal, tiver que ser mudada a lei, tanto a avulsa como a fundamental, faça-se!
Urgentemente!


E contratem-se (ou elejam-se) bons gestores desta mega empresa!

By me

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Porquê fotografar



Nem sempre o tempo ou a inspiração do momento é suficiente para explanarmos tudo o que queremos ou como queremos.
Mas porque mo perguntaram, aqui fica o resumo de um sumário minimalista de tópicos das razões de fotografarmos.
Entenda-se que cada um dos temas abordados daria para muitos livros de grossa lombada: alguns que já li, outros que ainda não li e outros que eu mesmo ainda não acabei de escrever.

O fazer de fotografia pode ter vários motivos, uns mais bonitos que outros.
Em primeiro lugar, e para alguns, é um modo de vida, de garantir o pão de cada dia.
Mas pode querer apenas criar algo que não existe: um jogo de luz, cor e formas que, de algum modo, satisfaça a necessidade criativa de quem fotografa.
Pode ser apenas uma moda. Há uns anos, quando comecei, a fotografia era particularmente cara, o suficiente para ser chamada de “hobby”: algo que se faz por gosto mas que esgota os recursos materiais e intelectuais. Agora, qualquer um a pode fazer, que o equipamento de captura e processamento está ao alcance de qualquer um (ou quase). “E se um fotógrafo de renome pode fazer, porque não eu, que basta apontar e disparar?”, será o que muitos pensam ou sentem.
Pode ainda ser uma necessidade de comunicar, que outras formas não satisfaçam. Mostrar o que de belo ou de horrendo vemos é comunicar sentimentos.
Pode ainda ser um acto de exibicionismo, que ao mostrar o que fizemos podemos estar a dizer “vejam como penso e sinto isto!” E, com isto, afirmar a nossa forma de pensar.
Por outro lado ainda, a febre das tecnologias de comunicação fazem com que a imagem faça parte do nosso quotidiano. E comunicar sem se usar imagens é ser-se “out” nas modas modernas. Boas ou más, há que fazer fotografia, de preferência com câmaras ou caras ou vistosas. Será, no entanto, fácil de ver que os bons fotógrafos raramente se exibem falando do que têm mas tão só do que fazem.
Há também um outro motivo possível: cobiça! Não podemos possuir tudo o que gostamos: o pôr-do-sol, o carro, a pessoa. Vai daí, fotografa-se e fica-se com o seu ícone. Não será bem o mesmo, mas é o mais próximo possível.
Ainda se pode acrescentar outra razão: a vida actual é vivida em frenesim, rapidamente e esquecendo com facilidade os momentos que vamos vivendo. A fotografia permite, mesmo que inconscientemente, abrandar o tempo e “guardar para mais tarde recordar”. Claro que, com os Gb dos cartões, câmaras e sistemas de arquivo, não se recorda coisa nenhuma, que tantas se fazem que cada uma deixa de ter importância.
Por fim (ou talvez não) faz-se fotografia porque sim. Pelo mesmo motivo pelo qual se trauteia uma musiquinha, ou se fica parado a olhar uma borboleta no verão, ou porque se dá um beijo: porque nos apetece, nos dá prazer, nos satisfaz naquele pedaço de nós que não tem razão ou, como diria o poeta, “tem razões que a razão desconhece.”
Criar, para alguns, é uma necessidade afectiva; para outros, uma necessidade cultural; para outros ainda, uma necessidade social; e para outros, uma necessidade intelectual. O que diferencia uns de outros é que alguns fazem-no para serem mais que outros. Outros para serem mais que si mesmos.
Em qualquer dos casos, o mais importante será, creio eu, que encontremos satisfação no que fazemos. Porque o fazemos e não porque outros o fazem.

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Umas horas valentes depois de ter escrito o acima exposto, recordei-me de um aspecto, tão ou mais importante que todos os demais por junto: o vício.
Como qualquer outra coisa na vida que se faça amiúde, a dado passo passamos a fazê-la sem que disso os apercebamos. Excepto quando o não fazemos e sentimos que algo nos falta. Entramos, nessa altura, num estado de carência, como se de droga se tratasse.
A partir de certa altura, o fazer fotografia torna-se parte integrante da vida, como pele ou ar e fazê-lo é tão natural como usá-los. Mas é também nessa altura que não o fazer é como ter comichão e não coçar ou querer respirar de boca e nariz fechados.
Digo isto com o saber da experiência feita, mas também com o conhecimento de saber que outros sentem e agem como eu.
A partir de certa altura na vida, fazer um registo de imagem, por mais absurdo que possa ser, é como um corrimão a que nos apoiamos quando estamos em desequilíbrio: vital.
Como que a consubstanciar esta teoria, recordo um velho fotógrafo de imprensa, que conheci no jardim da Estrela. Passeava ele quase todos os dias o seu cão, sempre com uma velha Nikon F, a 50mm e um párasol metálico pendurados no ombro. Ombro esse cuja posição francamente subida bem denunciava o quanto estava habituado a usar aquilo ali pendurado.
Pois este velho fotógrafo, com quem conversei umas duas ou três vezes apenas, já não conseguiria fotografar grande coisa, que bem lhe vi os sintomas da doença de Parkinson. Mas não creio que alguma vez lhe passasse pela cabeça sequer o vir para a rua sem a sua velha companheira. Mais fiel que o canito, p’la certa.

Ser fotógrafo, ou fazer da fotografia a base da existência, é também isto.

By me

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

As mamas e a fotografia

Imaginemos que estou numa esplanada. Numa praça ou à beira-mar.
Duas mesas ao lado está uma mulher com uma T-shirt justa e bonita.
Imaginemos que me levanto, com a minha câmara na mão, que me dirijo a ela e, com toda a frontalidade, lhe digo:
“Posso fotografar-lhe as mamas? São bonitas e apelativas e gostaria de as mostrar ao mundo.”
O mais provável seria eu ouvir uma recusa, quiçá pouco simpática. Talvez mesmo com um copo ou chávena voando na minha direcção.
E quem estivesse nas mesas circundantes haveria de me apupar, com apodos pouco reprodutíveis junto da minha avozinha.
Mas se conseguisse eu fazer essa fotografia sem dizer coisa alguma a essa mulher e teria mais tarde um coro de aplausos pela beleza da imagem e seu conteúdo.
Agora imagine que essa mulher é você mesma. Ou a sua esposa. Ou filha, ou irmã.


Termino aqui, com este exercício de imaginação, o expor as minhas opiniões sobre o caso da supertaça.

By me

Superlux



Mão amiga fez chegar à minha este aparelho.
Trata-se de um fotómetro que, em boa verdade, é um exposímetro, já que não indica candelas por pé quadrado mas tão só permite calcular a exposição em função da luz existente.
A sua marca é “Superlux”, tendo atrás a referencia adicional “Edla”.
Nunca tinha eu visto ou lido sobre este aparelho, que se encontra num estado quase perfeito. Uma análise mais atenta informa-nos que foi objecto uma tentativa de abertura, já que lhe falta um parafuso minúsculo. Talvez que procurando colocá-lo em funcionamento, o que seria impossível. O seu sistema de reacção à luz é antigo e a célula tem uma capacidade limite, naturalmente já extinta.
E este “naturalmente” advém deter sido fabricado nos anos trinta do séc. XX. Por aquilo que consegui apurar, foi fabricado na Hungria, tendo a Kodak usado a patente e o mesmo modelo sob o nome de “Kodalux”.
Acrescente-se que este aparelho possui uma característica invulgar para a época: permite medir a luz reflectida (ou calcular a exposição) num ângulo muito restrito (oito graus, pelas minhas contas) usando um sistema muito simples de favo-de-abelha no seu interior. Com o adicional de possuir um sistema de mira, permitindo-nos saber que zona em frente de nós estaria a ser medida. Engenhoso e funcional.
Claro está que ter nasmãos este aparelho arcaico e bonito (muito bonito) me levou a partilhar a sua existência com diversas pessoas, em particular com quem está ligado ao uso da luz no seu ofício.
Que desencanto!
A maioria dessas pessoas pouca importância lhe atribuiu. Nem à sua beleza, nem à sua antiguidade e menos ainda à forma original de funcionamento. Para essas pessoas, o mais importante no que toca a equipamentos é a modernidade, a novidade, o último grito. O que passado, mesmo que já tenha sido o último grito, é passado e pouco importa. Mesmo que de ontem.
Quem deu mais valor ao aparelho, enquanto ferramenta e enquanto objecto, foram pessoas que pouco se relacionam com o ver, analisar e captar luz. Entenderam estas pessoas o “valor” histórico, a raridade do seu funcionamento e ficaram solidariamente satisfeitas comigo por ele ter sobrevivido à voragem do tempo.

Fica um aviso a todos aqueles para quem o último grito da tecnologia é o mais importante:

Todos esses “últimos” em breve, muito breve, serão passado e arcaicos. E quem não souber dar valor ao que fomos, às raízes do que somos, dificilmente será um bom utilizador da modernidade. Mais não será que um consumidor compulsivo daquilo que os fabricantes colocarem no mercado, correndo ao ritmo das vendas e dos lucros.

E essas mesmas pessoas mais não virão a ser que passado e arcaicas.

By me

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Papa-açorda



Todos os ofícios têm o seu quê de rotineiro. Mesmo os mais criativos, no quotidiano têm rotinas, actos ou métodos que são iguais em cada dia, em cada truque.
Mesmo um actor, dos que trabalham na rua interagindo com o público e dele dependendo para a sua perfomance, tem rotinas, deixas, gestos, reacções que são previsíveis porque iguais e repetidas. Já tive oportunidade de ver alguns a representar e, passado algum tempo e por muito bons e divertidos que sejam, acabamos por saber o que irá fazer com este ou aquele transeunte, o que lhe irá dizer, de que forma o irá mimar ou provocar. E trata-se de uma actividade bem criativa, onde o improviso é, em boa parte, a chave do sucesso.
O invés também é verdade. Por muito rotineira que possa ser uma profissão, há sempre oportunidade de se ser criativo, inovador, marcar pela diferença no que é feito. Quantidade, qualidade, perfeição. Querer e conseguir ir mais longe e melhor, nem que seja pelo simples, se simples é, de fazer de cada dia um diferente, competindo consigo mesmo e conseguir surpreender-se com os resultados.

Um destes dias tive uma dúvida de trabalho. Aquilo que venho fazendo faz algum tempo é ligeiramente diferente do que os meus companheiros fazem. É só um niquinho, mas é diferente.
Nestas circunstâncias sou assaltado por dúvidas: sei justificar o que faço mas, sendo diferente dos demais, estarei a fazê-lo bem feito? Ou estarei a cometer sistematicamente um erro?
Para tirar estas dúvidas (e criar novas, em regra) o melhor mesmo é trocar opiniões com companheiros de ofício. Ventilar ideias, criar conclusões, nem que sejam que estamos todos certos, ou todos errados, e que a diferença não é nem boa nem má.
Pois de um dos que consultei recebi como resposta que preferia a outra solução. E, questionado sobre o porquê da preferência, deixou-me esclarecido a seu respeito:
“Foi assim que me ensinaram!”
Emitir uma opinião com base no “sempre assim se fez” é mau! Denota incapacidade de ponderar, evoluir, mudar, procurar algo de melhor que, quanto mais não seja, possa não ser rotineiro.
Mas dizer “foi assim que me ensinaram” em vez de “foi assim que aprendi” é um transpor de responsabilidades, é um assumir não ter opinião própria, é um aceitar que faz o que faz apenas como imitador dos restantes, pouco lhe importando a validade do que está a ser feito.

Este exemplo, lamentavelmente real, é apenas mais um no meio de tantos outros que podemos encontrar a cada passo: o alijar de responsabilidades, o dar continuidade apenas porque é tradição, o não aceitar nem nada fazer em prol da inovação, da evolução. E o conformar-se com uma rotina cinzenta e entediante. Ser-se estático na vida!
Um pouco como uma refeição tomada num restaurante franshisado: tanto o conteúdo da ementa como paladar do que engolimos, não nos surpreende, nem pela negativa nem pela positiva.

Uma papa-açorda sempre igual, até ao tédio final!

By me

terça-feira, 8 de agosto de 2017

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

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“Ver uma bancada de trabalho muito arrumadinha não me dá grande confiança em quem nem trabalha!”, dizem os que têm a sua própria mesa de trabalho desarrumada.

Um livro



Na era da globalização escapam a quem não estiver atento as subtis ou nem tanto as diferenças culturais.
Claro que a língua, a indumentária, a gastronomia, a religião, as convenções sociais, nos saltam à vista.
Mas aquilo que se entende por “universal” – a fotografia – não é realmente universal.
A abordagem fotográfica ao que nos cerca não é igual pelo planeta. E isto mesmo excluindo aquilo que se fotografa: edifícios, gentes, comportamentos…
O clima, os hábitos, a vegetação, a exuberância ou a falta dela nas cores da paisagem, a forma como os sentimento são expressos… tudo isto acaba por moldar a forma de ver fotográfica.
Por muito científica que seja a perspectiva óptica, por muito idênticos que sejam os rendimentos cromáticos dos suportes, a escolha do local e do momento, do assunto, da relação do fotógrafo com o que fotografa não é universal. Mesmo que semelhante.
Isto é divertido de constatar e não perco uma oportunidade de me deliciar quando me apercebo de tal.
Aos poucos tenho tido oportunidade de ir conhecendo o que se faz ou fez por esse mundo fora. Quer através de exposições, quer através de livros. Claro que a net também o permitiria, mas não o sinto ou não gosto de igual forma quando vistas num ecrã.
É evidente que esta “visão” desta visão fotográfica depende dos editores e curadores de livros e exposições. Das suas selecções e das suas próprias visões da fotografia. Mas, mesmo levando isso em linha de conta, é um “estudo” divertido e que nos abre a mente para outras formas de fotografar. Para a nossa própria forma de fotografar.
Agora chegou-me às mãos um pequeno livro, da colecção “photo poche”, com um belo conjunto de fotografias de Martín Chambi. Imagens feitas no seu país natal, o Peru, nos anos 20 a 40 do séc. XX.
A quem se interessar sobre fotografia e na forma como os fotógrafos nos mostram o mundo, afeitos que estão às suas culturas e origens, recomendo. Este e tantos outros equivalentes.
Como cultura fotográfica e como ferramenta para o que fazemos.


By me

domingo, 6 de agosto de 2017

ÚLTIMA HORA

Não há últimas hora nos nossos jornais.
É Domingo, é Agosto, é a Silly Season, com jornalistas e políticos de férias.

Claro que os caixotes do lixo continuam a ser revolvidos diariamente pelos mesmo andrajosos, mas isso não importa.
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Arrumações



Odeio arrumações!
Não apenas pelo trabalho que dão. O braçal e as decisões que se tomam.
O problema mesmo é que depois das arrumações há coisas a que perdemos o rasto, que colocamos noutro local fruto de outro critério.
Levei quase duas horas a dar com isto. Um caderno de receitas de cocktails, apontamentos que fui fazendo ao longo dos tempos e que, por pouco uso nestes últimos, não sabia onde estava.
Acabei por dar com ele, e o mais que com ele se relaciona, no local onde sempre esteve, com o critério de arrumação inalterado, mas escondido por pilhas de livros à sua frente.
Não vou voltar às “artes”. Mas queria refrescar a memória. Do conteúdo e da localização.

Odeio arrumações!

By me

Imagem



"Se atendermos a que a imagem não é “o duplo de uma coisa, mas sim um jogo complexo de relações entre o visível e o invisível, entre o visível e a palavra, entre o dito e o não dito", entendemos melhor como as imagens têm que ser repensadas na sua relação moralizante com o mundo."

In “Mandei-o matar porque não havia razão”, by Emília Tavares

Me by me

sábado, 5 de agosto de 2017

Obscenidades

Continua a ser emitido por uma estação de televisão um programa sobre fotografia.
Agrada-me que isso aconteça, muito naturalmente.
Já não me agrada mesmo nada que o seu autor-apresentador-realizador entenda que, ao mostrar fotografias de outros fotógrafos, as pode re-enquadrar para caberem em ecrã inteiro no formato 16/9, cortando com isso um pedaço da imagem original.
Alguém deveria dizer a este senhor que está autorizado a fazer o que entender no seu próprio trabalho, mas não dos outros, devendo respeitar a criatividade ou arte de quem a pratica.
Em alternativa, alguém deveria explicar aos responsáveis dessa estação de televisão que estão a ser cúmplices ao permitirem o abastardamento do trabalho intelectual e criativo desses fotógrafos.


Indo mais longe, este desvirtuar da arte de terceiros redunda em lucro material para quem o faz ou difunde, o que torna o acto ainda mais obsceno.

By me

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

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“Coiote raivoso com o carácter de uma tarântula hepática”.
É o que uma personagem do Luky Luke diz sobre um bandido.

E é o que penso de alguns que conheço.
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A moral pública



Está meio mundo escandalizado com o que vai acontecendo na Venezuela.
Mas não vejo nem um décimo desse mesmo meio mundo a comentar sobre países onde as mulheres não podem conduzir automóveis.
Ou sobre países onde a homossexualidade é punida com pena de morte.
Ou sobre países onde não venerar o deus oficial é crime capital.
Ou sobre países onde o dinheiro compra o poder e a justiça.
Ou sobre países onde diariamente há gente a morrer de desnutrição.

Já agora:
Sabiam que por cá também se pratica a excisão genital feminina? É proibida, claro, mas pratica-se.
Já agora também:
Tentem lá encontrar pessoas que não caucasianas a trabalhar nos centros comerciais atrás dos balcões.


By me

Rabiscos



O título do jornal “Diário de Notícias” diz-nos que “Inspectores do SEF avançam para greve geral”.
Será que quem escreveu a notícia saberá que uma greve geral abrange todos os cidadãos, todos os sindicatos, todas as actividades, a nível nacional? Saberá que uma greve geral não é sectorial nem restrita ao ou aos sindicatos de um sector específico?
Será que quem escreveu esta notícia saberá alguma coisa de sindicalismo, direitos e deveres de organizações sindicais e entidades patronais?
Ou será que sabe e a escolha do seu rabisco não foi nem inocente nem acidental?

Quando jornalistas e jornais ditos “independentes” tomam posições politico-partidárias sub-reptícias “salta-me a tampa”.

By me

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Jornaleiros



A fechar um noticiário televisivo, informam-nos que existiu um concurso de fotografia mundial, com mais de 590.000 imagens candidatas, produzidas por mais de 88.000 fotógrafos de 150 países.
Dizem-nos ainda que a vencedora será anunciada em Setembro, em Berlim.
Curiosamente, não nos contam qual o nome do concurso ou quem o promoveu, o que significa que tanto pode ser algo de enorme qualidade como um mero concurso publicitário de um qualquer produto lácteo.
Mas o que me fez “saltar a tampa” foi que decidiram mostrar-nos “algumas das melhores” de entre as cem apuradas para a fase final.
E fiquei a saber que quem fez o vídeo com elas, sonoramente ilustrado, se entendeu mais artista que os artistas a concurso, fazendo reenquadramentos às fotografias originais, definindo com isso novos centros de interesse, insuspeitas linhas de fuga, equilíbrios não imaginados pelos autores. Tudo isto bem patente nos movimentos de “zoom out” com que as imagens nos foram apresentadas.

A classe de jornaleiros de serviço entende-se acima de qualquer crítica e dona da verdade. E já não lhe basta relatar com adjectivos e juízos de valor os acontecimentos políticos e sociais: Agora também se imiscui nos valores estéticos, subvertendo-os e adaptando-os aos seus interesses e gostos pessoais.
Imagine-se que “dançavam” dentro de um Adams, ou de um Weegee, ou de um Weston ou de um Hockney, ou de um Kappa, ou de um…


Na imagem: “Joiners”, por David Hockney

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Alto está



Alto está, alto mora,
Todos o vêem, ninguém o adora!

Esta era uma daquelas adivinhas de criança, principalmente do campo ou aldeia, em que a resposta era: O relógio da torre da igreja.
Claro que outros havia que igualmente estavam (estão) altos, mas o relógio da torre da igreja marcava o tempo, ao desafio com o sol e a barriga.
Pergunto-me quem, nos tempos que correm, olhará para este, rigorosamente certo, que encima uma estação de caminhos-de-ferro?
Que já ninguém para ela caminha, que se chega de táxi, de autocarro, de metro. Que todo o mundo e mais um par de botas usa pelo menos um relógio, quando não dois: no telemóvel e, acessoriamente, no pulso.
Na sua época, terá ele pedido meças no rigor a outros, de igreja, nas imediações, mais a poente ou mais a nascente, mesmo mais acima nas colinas.
Hoje alguém terá a incumbência de manter a sua rotação síncrona com a da Terra, mais por hábito que por utilidade.

Excepto para a memória e para alma!

By me

domingo, 30 de julho de 2017

O clássico



Estava de férias em Lagos.
A família regularmente alugava a mesma casinha nos limites rurais da cidade e íamo-nos espraiar de manhã e à tarde para a meia praia.
Uma ocasião vi um glorioso carro dos anos 50 estacionado na avenida marginal. Impecável, parecia acabadinho de sair da fábrica. A seu lado, uma pequena palmeira no passeio. Mais ao fundo, a muralha de pedra do porto e o céu azul.
Este conjunto sugeriu-me uma imagem a fazer, desde que com a luz no ângulo certo. Feitas as contas e olhada a bússola, seria pelo meio-dia.
Uns dias depois, tendo o céu a limpidez adequada, parti descendo a colina, carregado com a câmara, as ópticas, os filtros, o tripé… toda a parafernália. Havia que chegar ao local a tempo de apanhar o sol na posição certa.
A meio caminho sou interpelado por um casal de velhotes que caminhava em sentido inverso:
“- Olá, como está?
- Desculpem mas… conheço-vos?
- Não se lembra de nós?
- Confesso que não. Querem ajudar-me?
- Em Coimbra, junto à Sé velha, há uns anos… Aquela fotografia que nos tirou…”
Recordei-me então e ficámos um niquinho à conversa.
Reformados que estavam, aproveitavam quando estava bom tempo para passear e conhecer o país como não tinham podido quando jovens.
E, à medida que iam viajando, iam fotografando o que viam, enquadrando-se ora um ora outro na imagem. Tinham uma única fotografia de ambos desses passeios: Aquela em que eu me tinha oferecido para fazer com a câmara deles, em Coimbra, aquando de uma das minhas peregrinações ao Encontros de Fotografia.
Apenas uma, de milhares que tinham. Apenas uma que os mostrava aos dois. Partilhando os Outonos amenos da vida e de Coimbra.
A minha oferta, tão natural quanto um copo de água, marcou-os indelevelmente. Aquela fotografia não é uma fotografia para eles:
É A fotografia.
Confesso que na altura já nem me recordava do facto. E, não fora eles, nem nunca mais o recordaria, de entre muitas situações semelhantes vividas.
E esta fotografia, que nunca vi, é uma daquelas que consta do meu álbum de recordações. Não como um ponto de viragem, mas mais como um parágrafo no livro que vamos escrevendo e a que chamamos vida.
Quanto à foto do carro? Bem, a hora de verão está atrasada em relação à solar, pelo que cheguei demasiadamente tarde nesse dia. Voltei lá mais tarde, mas não consegui dar-lhe aquele ar retro-californiano que queria.

Não adianta imitar. Há que ser espontâneo e generoso na fotografia, tal como na vida.

By me

sábado, 29 de julho de 2017

Lomo, uma das primeiras



“Então hoje não trazes a máquina? Logo tu!?”

“Não, hoje não trago. Deixei uma em casa a lavar uma roupinha, outra usei ontem para escrever uma carta à moda antiga e a de barbear há muito que a não ligo. Agora a câmara está aqui, no bolso.”

By me

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sonho



Para que conste:
O direito a sonhar começa quando acordamos de manhã e termina quando saímos da cama no dia seguinte.


By me

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Tempo e qualidade



Todo o processo, no meu artefacto, desde o “Olho passarinho!” até retirar a fotografia do seu interior pronta a entregar, demorava uns três minutos.
Um e meio para o papel adquirir formas, cores e tons, o resto para o manuseio de tudo o que dentro da caixa se encontrava. Isto presumindo que nada corria mal, o que acontecia de quando em vez e podia duplicar o tempo.
Uma boa parte dos potenciais “clientes” perguntava-me, a par com o preço, o quanto tempo demorava a coisa, ao que respondia uns três a quatro minutos. Mas, na prática, entre o tempo que antecedia o acto de fotografar e as conversas posteriores, podia levar a uns bons quinze minutos, para diversão de todos os evolvidos.
Pois havia sempre uns quantos que, enquanto estava com as mãos lá dentro, cobertas pelo clássico pano preto, me iam perguntando se demorava muito. Suspeito bem que, para estes jovens, um minuto pouco mais tivesse que uns meros dez a quinze segundos, no máximo.
E quando o protesto sobre a “demora” se verbalizava, tinha uma resposta que lhes ia dando, com variações de oratória em função das idades, do tom que empregavam e da minha própria inspiração:
“Calma! É que as coisas boas da vidas fazem-se devagarinho!”
Os mais jovens, porque ainda não o tinham aprendido ou não o entendiam, olhavam para mim de cenho cerrado, tentando perceber onde queria eu chegar.
Já os mais velhos sorriam ou mesmo riam, confirmando e assumindo um ar maroto ou sonhador.
Mas esta é uma certeza que tenho, faz muito tempo:

A despeito das bandas largas, dos velocímetros ou das competições contemporâneas, as coisas boas da vida fazem-se devagarinho!

By me

terça-feira, 25 de julho de 2017

Modas



“Já ninguém fala de peidos.”
“Pois não! A moda agora é falar de Siresp.”
“Nah! Isso também já não está na moda.”
“Tens razão! Agora fala-se de ciganos.”
“Nem isso, que é requentado.”
“É verdade! A moda agora é dizer: Tens 24 horas para…”
“Já quase nem me lembrava disso. E são duas voltas do ponteiro ou três dias, a oito horas de trabalho diário?”


A duração da moda hoje depende da veemência e verborreia dos jornalistas. E como estamos em época de férias…

By me

segunda-feira, 24 de julho de 2017

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É uma piada clássica dizer que “o cúmulo da força é dobrar uma esquina”.
Mas não é!
O que é mesmo difícil é dobrar uma personalidade.
Podemos limar arestas, arredondar os seus gumes, amaciar a sua rudeza… Podemos até moldar os efeitos acção/reacção.

Mas dobrar uma personalidade é tarefa para além da força humana.

Informação



“Como Serge Daney gosta de dizer, “ficamos cegos diante da hipervisibilidade do mundo.” De tanto ver já não vemos nada: o excesso de visão conduz à cegueira por saturação. Essa mecânica contagia outras esferas da nossa experiência: se antigamente a censura era aplicada privando-nos de informação, hoje, ao contrário, consegue-se a desinformação imergindo em uma superabundância indiscriminada e indigerível de informação. Hoje, a informação cega o conhecimento.”
By Joan Fontcuberta, in “A Câmara de Pandora”

“Ainda um dia alguém vai ter que me dizer, como se eu fosse muito estúpido, porque raio uma fotografia tem que estar bem nítida, exposta e organizada, de acordo com as normas técnicas e estéticas em vigor”

By JC Duarte, in “um caderno de apontamentos qualquer”

By me

sábado, 22 de julho de 2017

Boa ou má



Tenho para mim que não há boas ou más fotografias.
O conceito de bom e de mau é um conceito social que, muitas vezes, entra em conflito com as opções de quem fotografa.
Pior: Limita quem fotografa a fazer o seu trabalho pela opinião da sociedade, deixando para trás, tantas vezes, a sua própria capacidade de inovar e criar.
Entendo que uma fotografia é boa quando consegue satisfazer o seu autor. Quando ele olha para ela e se revê no que nela “lê” e sente. Isto é uma boa fotografia!
A partir daqui entra em campo a questão do gosto dos demais e da eficácia da comunicação.
Se a fotografia agrada à maioria leva o carimbo de boa. Se também agrada aos especialistas será excelente.
Mas, e antes de mais, a fotografia, o trabalho realizado que transformou aquilo que foi visto e sentido naquilo que o fotógrafo entende por um equivalente fotográfico, tem que agradar ao seu autor.
Claro que a fotografia também é uma forma de comunicação. Por isso existem os livros, as galerias, os álbuns, os grupos. As mais das vezes fotografa-se para que outros vejam e sintam o que o fotógrafo viu e sentiu.
E quando tal acontece, a fotografia é eficaz na sua função de comunicar.

Mas também sabemos que comunicar, mesmo que com fotografia, implica o partilhar de códigos comuns. Tal como a escrita. Ou a música. Ou a escultura. Se quem o vê não entender os códigos usados por quem o fez, a ponte da comunicação não existe.
Daí que exista uma tendência generalizada em fotografar usando de códigos (técnicas e estéticas) que sejam do entendimento generalizado dos destinatários. Algum tipo de formalidade no fazer de fotografia.
Esta formalidade, este usar de códigos generalizados na fotografia, acaba por fechar portas à capacidade que cada um possa ter de se satisfazer com o que faz sem pensar nos outros. Acaba por limitar a criatividade absoluta, obrigando a criar de acordo com os códigos instituídos.
Mais do mesmo, portanto!

Claro que os chamados “profissionais” a isso são obrigados. Têm que agradar aos clientes!
A sua principal preocupação, ao fotografar, é que os sentimentos expressos nas fotografias que fazem, se alguns, sejam entendidos por quem lhes paga o trabalho. Que é isso que deles se espera.
Se a gestão do espaço e dos elementos nele (composição), se a nitidez ou as relações entre o claro e o escuro não estiverem de acordo com a técnica e estética em vigor (os códigos de comunicação) dificilmente será vendida. Quer seja uma fotografia de um acontecimento social, uma reportagem de guerra, paisagem ou vida animal. Não aparecerá numa revista ou jornal, ninguém a verá num cartaz publicitário nem constará no álbum de casamento.

Será uma necessidade do fotógrafo definir aquilo que lhe agrada e aquilo que agrada ao consumidor. E ter a coragem de o assumir.

Nunca disse a um aluno ou formando “Essa fotografia é má!”
O mais que fiz foi dizer-lhe “Não gosto” ou “Não entendo”. E, acto continuo, pedir que ma explicasse, que sobre ela discorresse em voz alta. E que me dissesse se ela correspondia ao objectivo a que se tinha proposto. E se esse objectivo era pessoal ou comunicação de massas.
A classificação de boa ou má seria a dele, de acordo com isso e com a conversa.


Que o mais importante é a satisfação do próprio. O resto é socialização.

By me

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Leituras

Já tinha começado a ler quando o comprei, o ano passado mas, por qualeur motivo, deixei-o de parte.
Retomei-o agora, numa tentativa de reduzir as pilhas dos “por ler”.
“Fotografia e activismo”, de Jorge Luís Marzo, Editorial Gustavo Gili, 2006, Barcelona

“…
El activismo nace – más do que habitualmente se piensa – de la necesidad de articular mecanismos de autogestión y redes de socialización política que respondan a las verdaderas necesidades de una comunidad, de una sociedad determinada, com lo que de flexibilidad y adaptación conlleva eso, pues auqune a muchos les peses, las sociedades son contingentes y se negocian constantemente.
… ”


Cinzeiros



Foi um destes dias.
Estávamos para entrar numa exposição, incomum e num local emblemático de Lisboa, e constato que no chão havia pontas de cigarro.
Uma meia centena, talvez mais, à esquerda, à direita, em frente da porta. Algumas, poucas, com aspecto de terem sido propositadamente pisadas para as apagar, a maioria apenas ali caídas, ardidas até se apagarem.
Estranhei e procurei com os olhos aquilo que ali deveria estar para obstar a tal espectáculo. Não havia.
Nem amovível nem solidamente colocado no solo, não se via nenhum cinzeiro. Nem ali, junto à porta daquela exposição bem publicitada, nem em qualquer outro lugar. Coisa nenhuma até onde a vista alcançava.
Pergunto-me se os promotores da exposição, que bem cobraram por cada visitante, ou os gestores do espaço, que bem receberam pela sua cedência a quem organizou o evento, não poderiam ter por ali algum receptáculo, mesmo que corriqueiro e pouco atraente, que evitasse aquele lixo público.
Que certo é haver fumadores, que certo é não ser permitido fumar no interior de exposições, que certo é que há que deixar as pontas de cigarro nalgum local.

Infelizmente, as nossas pontas de cigarro ficaram ali, no chão, a fazer companhia a todas as outras que lá jaziam.

By me

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Notas



Eu não gosto de ser maltratado. Talvez haja quem goste, mas eu não gosto.
E uma das formas de ser maltratado de que não gosto é ser colocada em causa a minha honestidade ou bondade nas acções. Sem que me conheçam de lado algum ou tenham motivos pessoais para de mim desconfiarem.
Não gosto! Incomoda-me! Faz vir ao cimo o pior de mim!
É por não gostar que suspeitem de mim que não ando de avião. Ou no TGV francês. Ou no AVE espanhol. Qualquer um que embarque é objecto, sistematicamente e sem excepções, de revista aos seus bens e ao seu corpo. Como se todos os passageiros fossem potenciais criminosos e tenha que haver um despiste. De todos se suspeita, indiferenciadamente.
Como não gosto que suspeitem de mim, mais para mais sem me conhecerem, não gosto do tratamento a que me querem sujeitar. Pelo que não uso estes meios de transporte.
Mas há outra circunstância de que não gosto. Que me faz sair do sério. Que me faz ficar furibundo e recusar posteriores relações. Comerciais ou outras.
Refiro-me às lojas que fazem questão de verificar a validade do dinheiro que lhes é entregue para pagamentos. Passando as notas por máquinas ou tintas capazes de diferenciar as verdadeiras das falsas.
Isso é colocar em causa a minha honestidade, é supor que poderia eu entregar-lhes dinheiro falso. É suspeitar de mim, apesar de não me conhecerem de parte alguma.
Não gosto. E faço questão de lhes dizer que não gosto. E de lhes dizer que não tenciono regressar a um estabelecimento comercial onde todos os clientes são considerados falsários até prova em contrário. Eu incluído.

Dirão que tenho mau feitio. Pois que digam!
Mas tenho para mim que se não devo fazer aos outros o que não gosto que façam comigo, o contrário também é verdade: não gosto que façam comigo aquilo que não faço aos outros.
E eu não ando por aí a suspeitar de tudo e todos, entendendo que o mundo existe para me enganar, vigarizar, burlar ou fazer de mim vítima de um qualquer outro crime ou dano.

Mas o certo é que não quero relacionar-me com gente que suspeita de mim só porque sim e que me trata como um potencial criminoso.

By me

Dinheiro



Foi aprovada a lei que proíbe transacções em dinheiro vivo acima de três mil euros.
Para além desse valor terá que ser usado qualquer outro meio de pagamento como cheque ou transferência bancária.
Esta lei, cheia de bondade, é agora criada para promover a transparência económica, fugas ao fisco e obstar a corrupções e lavagens de dinheiro ilícitas.
No entanto…
No entanto esta lei obriga a que os cidadãos tenham uma conta bancária. Por outras palavras, esta lei obriga a que os cidadãos tenham um contrato com terceiros para fazerem a sua vida. Terceiros esses que têm lucro com esses contratos.
Imaginemos, por exemplo, que eu vou poupando do meu salário (como se isso fosse possível nos tempos que correm!) e que ao fim de três ou quatro anos consigo o suficiente para comprar uma câmara fotográfica boa. Ou um carro usado em condições. Ou umas férias. Ou uma remodelação da casa.
Porque raio tenho eu que comunicar a uma entidade terceira que o faço? Porque raio tem uma entidade privada que ficar com os registos de tal transacção? Porque raio tem uma empresa que lucrar com as minhas poupanças se nada faz nesse sentido? Porque raio tenho que dizer ao mundo e a privados que comi salsicha no lugar de costeleta durante três anos para ir de férias?
O mundo em que vivemos está gradual mas firmemente a acabar com a privacidade dos cidadãos e a transformar os bancos em, mais que fiscais, chulos do trabalho e esforço de cada um.

E o totalitarismo securitário tanto acontece à direita como à esquerda ou ao centro. O desejo de dominar, controlar, mandar nos cidadãos é terrível, venha de onde vier.

By me 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

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Tenho que agradecer a um médico, a um psicólogo e a um político pelas suas declarações públicas.
Com elas ajudaram a fracturar a sociedade portuguesa, fazendo estalar o verniz e mostrando o pior que ela tem.
Confesso que fico surpreendido pela quantidade de homofóbicos e xenófobos que existem neste país.

Faltam os misóginos e os marialvas, mas não deve demorar muito.
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O pau do gelado



É um dos males da idade adulta: pomos carimbos em tudo quanto é coisa, limitando as nossas reacções a essas classificações e seguindo em frente.
Alguns, olhando para esta imagem, talvez digam “Minimalismo”.
Outros dirão, sem demoras, “Lixo no chão”.
Uns poucos talvez acrescentem que “Este é o problema da sociedade moderna: superabundância.”
Os que sejam mais sensitivos pensarão que “Estava calor e alguém comeu um gelado apetitoso.”

Mas os putos, como eu fui e tantos milhares de outros comigo, olhariam para este pau de gelado e imaginariam o sólido castelo a construir. Ou a complexa ponte a erguer. Ou ainda a elegante casa de bonecas. Ou…
Não sei que faziam vocês, que lêem estas linhas e vêem esta imagem. Mas eu, e outros, em indo à praia, percorriamo-la de lés a lés, devagar e de olhos postos na areia, em busca de matéria-prima.
Isto, claro, se não acontecesse o cúmulo da sorte e este ser um pau premiado.

Nesse caso, fazíamos um procissão em direcção à loja, imaginando qual o prémio e fantasiando o que fazer com ele, junto com o sortudo ganhador.

By me