segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Era uma vez...



Era uma vez uma segunda-feira que, condenada por um tribunal religioso, ficou entalada entre um Domingo e um feriado.

Nunca mais foi a mesma.

By me

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Só para que conste:

A boa sorte acontece quando a preparação encontra a ocasião.

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By Bill Stott, in “O mundo louco da fotografia”, 1987

Ódio de estimação



Eu sei que este é um repetir de um lamento ou desabafo.
Mas tratando-se de um incómodo antigo e repetitivo, acabo por voltar a ele.

Das tarefas domésticas que mais detesto, a que fica no topo da lista é o emparelhar meias. 

By me

domingo, 30 de outubro de 2016

A mudança



De um modo ou do outro, todos sofremos um pouco com a mudança da hora.
Para além dos protestos habituais quanto às horas de sono, o que mais nos afecta é a relação muito pessoal que temos entre o relógio que usamos e a posição do sol.
A diferença no comprimento e posição das sombras, a maior ou menor claridade, quanto de uma coisa e de outra somos confrontados no primeiro embate com o exterior, ou mesmo no decurso do primeiro ou segunda dia, não está de acordo com a informação horária que possuímos nos diversos sistemas de marcação de tempo feitos pelo Homem.
Este desajuste, que aparenta ser pontual e que se desvanece ao fim de um ou dois dias, é bem mais importante do que possa parecer.
Qualquer navegador de alto mar deverá saber calcular a sua posição em função da diferença temporal entre o meio-dia solar e o meio-dia de relógio. E, em regra, usa-se como referência a hora legal de Greenwich.
A posse de um relógio certo com essa hora e indiferente aos acertos sazonais é vital. E qualquer navio, antes da invenção dos GPS’s e afins, tinha mais que um relógio, em caixas protegidas, para garantir esse rigor.
Mas o desconforto que sentimos com a mudança da hora é mais violento se formos fotógrafos.
Temos luz solar mais cedo, de manhã. É verdade. Mas sair da cama mais cedo é quase pecado.
E mais cedo temos falta de luz mais cedo ao final do dia. O que pode colidir (e frequentemente colide) com outros afazeres controlados pelo relógio.
Confesso que, apesar de a “hora de Inverno” se aproximar da hora solar, com o meio-dia legal a estar atrasado cerca de meia hora do meio-dia solar, a hora de verão é-me mais propícia em termos fotográficos.

Quanto ao resto, a poesia dos fotões acontece diga o que disser o relógio.

By me

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O conceito de liberdade é tão relativo que fiquei sem palavras quando, em ’82 e em Málaga, perguntei a um jovem licenciado em medicina se o seu país, Argentina, era um país livre e ele me disse:
“Sim, claro. Podemos sair à rua à noite e tudo.”


Nunca mais encarei a liberdade da mesma forma.

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Old selfie



Um velho compincha escreveu um destes dias uma pérola que eu, infelizmente, terei que citar de memória:
“… e as selfies que são feitas porque ninguém os fotografa.”
Ele que me perdoe se não sou rigoroso nas palavras.

Mas a verdade é que neste mundo da imagem e da aparência, quem não tem imagem “não existe”. Quem não consta das listas das fotografias, do aparecer com, quem não repete e bombardeia tudo e todos com essa imagens de si mesmo, é como se pouca importância tivesse.
Bem o sabem os publicitários!
E a tecnologia actual, que permite fotografar e exibir para o mundo em menos de minutos, é o perfeito feitiço para transformar alguém que nunca entraria num concurso de beleza ou de popularidade, para quem raramente se apontaria uma objectiva, em alguém que todo o seu círculo de “amigos” e conhecidos conhece e observa.
As selfies!

O onanismo da imagem fotográfica!

By me

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Faz sentido que se proteste contra a privatização do forte de Peniche, onde tantos presos políticos do regime de Salazar passaram tantos anos de má memória.
Infelizmente, fizeram já o mesmo com a sede da PIDE em Lisboa, transformando-a num condomínio de luxo. Como se o passado nunca tivesse acontecido e não estivessem ainda vivos alguns dos que ali foram interrogados e torturados para que denunciassem os seus camaradas.

Já que falamos em privatizações e entrega ao turismo de bons e lucrativos locais, que tal passar a hostal o Teatro Nacional D. Maria, ali ao Rossio, em Lisboa? Mais central que isso não imagino.
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sábado, 29 de outubro de 2016

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Continuo a não ter paciência para os que, em chegando a uma sala, entendem que todos devem interromper o que estão a fazer para uma beijoca ou aperto de mão protocolar.

Um dia serei menos urbano na resposta. E perderei alguns “amigos”, estou certo.
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Conceitos



Ouvi-a há muitos anos de um professor e ainda não me saiu da mente:
“A teoria sem a prática é cega, a prática sem a teoria é estúpida”.

Reformulei-a eu algum tempo depois:

“A técnica sem a estética é insípida, a estética sem a técnica é trapalhona. Qualquer uma delas sem a ética é cruel”.

By me

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Lisboas



Ande por onde andar
Ao Jardim da Estrela

Vou parar.

By me

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Ver jovens a usar o verbo “amar”, com a expressão “amei” como sinónimo de gostei bastante ainda aceito. No fim de contas, e considerando as idades e as experiências, gostar e amar são coisas que se confundem.
Mas ver adultos, já depois dos quarentas, a fazer o mesmo…

Pobres coitados, que não sabem nem aprenderam ainda o significado de “amar”!
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Eu, fotógrafo



Não importa se o outro sabe: Eu quero e eu fotografo!
Não importa se o outro quer: Eu quero e eu fotografo!
Não importa se o outro autoriza: Eu quero e eu fotografo!
Não importa as consequências para o outro: Eu quero e eu fotografo!
Não importa a privacidade do outro: Eu quero e eu fotografo!
Não importa quem é o outro: Eu quero e eu fotografo!

Eu tenho uma câmara fotográfica!
Eu tenho o mundo à minha frente!
Eu tenho fome de imagens!
Eu cobiço o mundo!
Eu cobiço o rosto!
Eu cobiço o gesto!
Eu cobiço o acontecimento!
Eu cobiço!

Eu quero a luz!
Eu quero a pose!
Eu quero a estética!
Eu quero a arte!
Eu quero a celebridade!

Privacidade?
Ética?
Respeito?
Quero lá saber disso!
Se não gostam, paciência!
Sou fotógrafo e tudo me é permitido.


É por tudo isto que eu que uso a fotografia para alimentar a alma, e muito ocasionalmente a mesa, recuso que me chamem de fotógrafo.
Serei um apontador de câmara, um escrevinhador de luz, um iconógrafo, qualquer coisa, mesmo que batata frita.

Agora fotógrafo como o acima descrito e que tantos reclamam para si… Não sou!

By me

Único



E a pergunta pertinente é:
O que faz com que este próximo Domingo seja um dia tão estranho e original?

É o único dia do ano em que um relógio parado pode estar certo três vezes.

By me

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Celebrando



Volta e meia acontece: encherem-se os jornais (e as redes sociais) da celebração da morte.
Não no dia para tal definido por religiões e hábitos seculares, mas porque morreu este ou aquele, ilustres nas artes, nas letras, nas ciências…
E todos têm uma palavra de apreço, um elogio para com o defunto, um episódio comum para relatar e, de algum modo, transferir para quem conta o mérito de quem parte.
Confesso que não tenho jeito para elogios fúnebres. Para mais quando se trata de gente célebre, com quem tantos e tão ilustres privaram, leram, ouviram ou conversaram.
Confesso que prefiro celebrar os vivos, aqueles que tenho o prazer e privilégio de conhecer. E alguns que me fazem o especial favor de me conhecer pelo nome, mesmo que passados anos.
Hoje foi um desses momentos: de celebrar a vida.
O tropeçar num ser humano especial, para com quem o país tem uma dívida de todo o tamanho e que ele faz questão de não a cobrar ou explicitar.
Um homem que possuiu uma livraria e a quem eu chamava de “o meu livreiro”. Onde eu entrava e dizia: “Oh sr. A.: ponha-me a ler!” E ele olhava para mim, perguntava-me pelos dois últimos que tinha lido, e escolhia um das prateleiras. Nunca se enganou, caramba.
Encontramo-nos agora, quando calha. Que a livraria (e tertúlia) cá da freguesia fechou há uns anos, deixando-nos a todos bem mais pobres. E é uma festa, celebrando o que foi e fomos, o que é e somos, o que seremos e nos propomos ser e fazer. Que a idade e as maleitas ainda não nos apagaram o sonho de ser e fazer. Nem hoje nem os dos últimos 42 anos.
É sempre simpático celebrarmos os mortos. Uma espécie de exorcismo do que nos espera inexoravelmente.
Mas é muito mais agradável celebrarmos o presente, os vivos e o futuro que faremos!

A imagem? Uma celebração de vida, naturalmente.


(2007, Pentax K100D, 400mm, ISO 800, f/13, 1/750, jpeg)

By me

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

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E que tal um conjunto de camarins com uma iluminação de 5300Kelvin para se actuar com 2800Kelvin?

Também acho!
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Integridades



A grande vantagem das crianças sobre os adultos é que o seu mundo funciona em preto e branco.
As coisas são boas ou más, ou se gosta ou se não gosta de algo ou alguém, ou se faz ou se não faz.

Os jogos de cintura, as negociações, os mais-ou-menos, os cinzentos, são coisas que os adultos aprendem e que destroem a pureza das relações e dos sentimentos.

By me 

Ide!



Alguém terá que explicar aos nossos governantes, de um modo muito claro e inequívoco, que o acesso às comunicações electrónicas, bem como a posse de uma conta bancária, não são factores obrigatórios em Portugal.
O relacionamento dos cidadãos, nas suas diversas vertentes (judicial, fiscal, social) não pode depender da obrigatoriedade de os cidadãos possuírem um contrato de fornecimento de serviços com entidades privadas. Ninguém pode ser obrigado a pagar a terceiros para se relacionar com o Estado.
Assim, não é legítimo fazer discriminação entre quem possui contratos privados com entidades de serviços e quem não tem.
Não faz sentido – nem é legítimo – pagar o acesso à Internet para ser atendido mais rápido ou eficazmente.
Não faz sentido – nem é legítimo – ter que possuir conta bancária para pagar ou receber impostos. Não faz sentido - nem é legítimo – que quem possui telefone seja atendido no prazo de horas e quem não possui no prazo de semanas ou meses, no Serviço nacional de Saúde.
Não faz sentido – nem é legítimo – ter que possuir acesso a conta de Ineternete para aceder à justiça em casos de demandas que não crime.
E seguramente não faz sentido que os cidadãos que não possuem estes serviços sejam preteridos na qualidade, celeridade ou custos ao relacionarem-se com o Estado.
A menos que, naturalmente, o Estado Português tenha alterado a Constituição da República Portuguesa e que tenham passado a existir cidadãos de pleno direito e cidadãos de segunda categoria, pelo simples facto de possuírem ou não contractos de prestação de serviços com entidades privadas.



Para os tecnocratas de fancaria, com cumplicidades esconsas nos mercados privados, o meu muito grande “Vão morrer longe”. Que nem do vosso funeral quero tomar conhecimento.

By me

terça-feira, 25 de outubro de 2016

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Nem sei porquê, lembrei-me de um lugar em Lisboa, que nem sequer é rua, praça ou beco, e com um nome único:

“Triste Feia”
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É sempre interessante reparar como algumas senhoras ficam escandalizadas quando lhes explico que certas perspectivas, em particular as resultantes de fotografias feitas com telemóveis, as fazem ficar mamalhudas.
Coram, fazem um “oh” de incómodo e um olhar desviado por recato.
E no entanto, e para além de verdade, é o termo certo a usar, considerando que falamos de mamas, aquilo que é usado para amamentar e onde se aloja tanto cancro.

E eu fico sempre sem saber se ficam incomodadas por se falar de mamas, se por alguém perceber e expor o porquê de fazerem tantas fotografias assim.

A rosinha



Confesso que não entendo!
Num bairro residencial em Lisboa, nas imediações de duas escolas, num jardim não vedado, numa roseira, uma rosa como esta tão ao alcance da mão quanto do meu telemóvel.
A malta hoje já não tem romantismo ou é tudo virtual?


By me

Ninguém e alguém



Talvez que o ter-me visto de amena cavaqueira com um antigo chefe daquela loja. Ou talvez o eu ter usado de uma piada bem mais velha que ela e de que já nem me lembrava há anos (- E precisa de mais alguma coisa? – Para já, só mesmo da caixa registadora!). Ou da invulgaridade do tamanho e cor da minha pelagem. Ou fosse lá pelo que fosse.
O certo é que acabámos por trocar umas palavras muito para além das normais entre empregada de mesa e cliente.
E, já não sei como nem porquê, perguntei-lhe que formação tinha: se o 12º, se o 9º, se mais que isso…
O seu sorriso amarelo era estranho, à medida que eu ia colocando as possibilidades de resposta, até que esclareceu:
“Tenho o 6º ano. Faltam-me três disciplinas para acabar o 9º. Mas sabe como é: com estes horários não é fácil acompanhar os estudos…”
Abanei todo, de alto a baixo. E se estivesse de pé bem se daria por isso! Aquela fulana, nos seus talvez vinte anos, a dizer aquilo com aquela tranquilidade… E arrisquei:
“Mas sabe que será bom que acabe isso, mesmo que com algum sacrifício. E a sorte que tem em estar aqui, neste trabalho e com essa farda. Que só o sexto ano, nos tempos que correm…”
Não me deixou terminar:
“Eu sei! Só com o sexto ano não se é ninguém neste país. Mas eu quero fazer o 12º, dê por onde der!”
Foi aqui que saltei e perdi toda a eventual formalidade de circunstância imposta por uma conversa com uma desconhecida:
“Você merecia era um par de palmadas no sítio onde acabam as costas e começam as pernas!”
Ela abanou e abriu muito os olhos. E eu continuei sem lhe dar tempo a que se escandalizasse muito mais:
“Ninguém é ninguém, tenha lá os estudos que tiver! Todos somos alguém, importantes e únicos, sejam quais forem os estudos e/ou oportunidades! Temos é que fazer por isso e nunca – nunca, oiça bem – deixar que alguém nos trate como se fossemos ninguém!”
Fiz uma pausa, até porque na mesa do lado já olhavam para nós e ela tinha a farda da casa envergada, e concluí bem mais baixo:
“Vá lá ver o que aqueles querem que eu vou procurar aqui uma coisa para lhe mostrar.” E apontei para o computador que tinha aberto na mesa. “Já a chamo!”
E fui procurar algumas quadras de Aleixo, que lhe mostrei depois, explicando que ele era analfabeto e que isso não o tinha impedido de ter sido quem foi. E recomendei-lhe que procurasse numa livraria ou biblioteca o seu livro de poemas.
“Mas você é professor? De português?”
Tive que lhe dizer que não, que esse não é o meu ofício. E qual o que tenho. E acrescentar que os “estudos” tem duas importâncias: Uma social, que é o canudo ou diploma que apresentamos numa candidatura a um emprego mais simpático e bem pago; a outra o abrir-nos as portas a um mundo de conhecimento alargado e bonito, caso queiramos alimentar a alma junto com o corpo.

Não sei quando voltarei àquele restaurante. Nem se, em voltando, a encontrarei de turno ou mesmo se ainda ali a trabalhar.

Mas se sim a tudo, e com a curiosidade que lhe vi nos olhos, acredito que nessa altura já tenha lido o “Este livro que vos deixo” e mais qualquer coisa. Incluindo os do 9º ano.

By me

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

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“E não quer levar antes estas pastilhas que estão em promoção?”, pergunta-me a mocinha da loja de conveniência quando lhe apresentei as que queria comprar.
“Mas… Não são da mesma marca nem com o mesmo sabor.”, respondi.
“Sim, mas pastilhas são pastilhas.”
“Certo! Também melancia e romãs são fruta e não se comem da mesma forma!”
Olhou para mim com os olhos esbugalhados, aceitou o meu dinheiro, deu-me o troco e não emitiu nem mais um som.

Nem eu, para além de um cordial “obrigado e boa tarde.”
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Actualização sobre o estado do tempo



By me

Ser livre



Uma vez tive um pássaro.
Enfim, ninguém é perfeito, portanto porque não eu também?
A estória foi assim:

Estávamos em reuniões de avaliações de Natal. Enfiados todos os professores numa sala, íamos discutindo cada um dos alunos e “cantando” as notas para um de nós, que as ia lançando no computador.
A meio da tarde, na pausa que nos oferecemos para um cafezinho e um cigarrito, uma das funcionárias da secretaria veio falar com cada um, propondo-nos a compra de um periquito. Estranha a proposta, não fora o facto de ser uma espécie rara, um “periquito da Guiné”, trazido não sei como à revelia das autoridades.
Achei a coisa interessante para oferecer a uma garota novita, filha de um casal amigo, pelo natal. A pose e a responsabilidade por um ser vivo pode ser, para além de lúdico, pedagógico. Portanto, porque não?
Mas, quando já noite feita, fui buscar o bicho apalavrado, até me assustei. Com um tamanho intermédio entre um periquito convencional e um papagaio, ainda que novito, tinha umas patas que denotavam vir a ser bem grande no futuro. E nem sequer era particularmente bonito, de um tom verde pardacento.
Lá o levei para casa, comprei-lhe uma gaiola bem grande para o acomodar no futuro e tratei de saber e comprar o que comia o bicharoco. Decidi ficar com ele uns dias em minha casa, para perceber o que ele necessitava, antes do entregar à futura dona.
Ainda bem que o fiz!
Além de feioso, o seu grasnar era pouco menos que horripilante. A chiqueirada que fazia, com as asas e as cascas da comida, espalhava-se bem um metro em redor. E limpar ou dar de comer dentro da gaiola, só mesmo de luva, que o bicho deveria ser carnívoro ao tentar arrancar-me uns bons “bifes” dos dedos. Não sei quem estaria mais incomodado: Se eu com a trabalheira se ele com medo de mim.
Constatando todos estes inconvenientes, acabei por não o dar à garota. Seria uma “prenda de grego” para os pais, que ela não trataria dele e sobraria trabalho e aborrecimentos para eles. Se eu o tinha comprado, eu ficaria com ele.
Fui tratando dele conforme podia, tentando não o assustar em demasia e que se fosse habituando à minha presença, mantendo a higiene e alimentação nos padrões normais, dentro e fora da gaiola.

Um dia, quando me levantei, estava morto dentro dela.
Juro que me doeu!
Não que me tivesse afeiçoado ao bicho. Mas não lhe queria nada de mal e não me tinha apercebido que alguma coisa não estaria a correr bem.
Mas, pensando bem, a culpa terá sido minha. Por muito grande que seja a gaiola, é sempre uma prisão. E eu era o carcereiro.


Texto e imagem: by me


“ - O que é para si a Liberdade?”

“ - É ser livre numa prisão!
Todos nós vivemos numa prisão que nós mesmos construímos.
Porque nos impomos limites. Porque temos receio de os ultrapassar.
Acho que o próprio do Homem não é viver livre em liberdade de facto. É viver livre numa prisão!
Todos nós temos uma polícia política interna, cheia de proibições e de regras em relação as nós mesmos.”


António Lobo Antunes, in Grande Entrevista, RTP, 2006

domingo, 23 de outubro de 2016

Um episódio



A história é velha. E, se bem a recordo, eu frequentaria então o que hoje chamam de sexto ano.

Quando entrei para o segundo piso do autocarro já a barraca estava armada: o cobrador, com a sua mala de trocos e alicate em riste, exigia o pagamento do bilhete e a senhora, revirando a sua mala, argumentava que teria deixado o porta-moedas em casa.
O argumento não convencia o façanhudo funcionário da Carris, que ameaçava com uma ida à esquadra para resolver a questão. E as lágrimas já corriam na cara da senhora.
Achei eu que esquecer o porta-moedas é legitimo e nada meritório de tal tratamento. E, enchendo-me de uma coragem que desconhecia, tanto mais tendo a idade que tinha, ofereci-me para pagar o maldito bilhete, usando para tal a minha parca semanada ou os trocos do lanche, já nem sei.
O bilhete foi pago, o cobrador foi ameaçar outros com o tirânico alicate e a senhora veio falar comigo. Não sei já o que conversámos, mas recordo o onde ela saiu (no Pote d’Água) e o onde eu saí (no Júlio de Matos).
Este episódio ficaria esquecido algures na minha memória, que o não contei em casa, não fora o que se lhe seguiu, uma semana ou mais depois.
Vinda pelo correio, uma carta para mim, com remetente de uma pessoa desconhecida, o que provocou um natural sururu lá em casa.
Com um sobrescrito do tamanho de um cartão de visita, continha um desses cartões em que no verso estavam escritas umas palavras de agradecimento. E soltos no interior alguns selos de correio, cujo somatório correspondia ao preço do bilhete que eu havia pago.
No meio de tudo isto, o que é realmente estranho e que me marcou até hoje foi a atitude da senhora, cujo nome nunca memorizei. Que o jogar a mão no quente do evento e obedecendo ao instinto acontece com qualquer um. Basta estar por perto e poder.
Agora reagir desta forma, deliberadamente, num agradecimento que lhe deu trabalho… Isso é que é raro de ver. E de saber, acrescente-se.
Passado que vai todo este tempo, este é daqueles episódios que não esqueço e que ajudaram a moldar o que sou ou fui.

Nem esqueço o alicate.

By me

sábado, 22 de outubro de 2016

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Em tempos, quando eu fazia aquilo a que pomposamente chamava de formação em fotografia, à borla e em jardins e parques públicos, havia quem me chamasse simpaticamente de “mestre”.
Eu entendia a brincadeira, respondia no mesmo tom, mas lá no fundo nunca gostei.
O título de “mestre”, hoje tão banalizado, é algo que só deve ser atribuído a quem muito sabe e o sabe passar a terceiros, sempre com uma dose de reverência que não pode ser vulgarizada. E esse não é o meu caso, com toda a certeza.
Ao longo dos anos, tive oportunidade de trabalhar com alguns excelsos profissionais, que muito sabiam e bem sabiam transmitir o que sabiam.
No entanto, de entre esses, apenas posso atribuir a categoria de “mestre” a dois deles, quiçá três, e sentir-me muito honrado por ter tido a oportunidade de com eles ter privado e alguma coisa aprendido.
Figuras impares cujos nomes sempre farei questão de honrar.
Hoje tive oportunidade de não conhecer um tal Qualquer-coisa Qualquer-coisa, que faz questão de ser chamado por “mestre” e que o seu nome e fotografia surjam em tamanhos maiores que os demais.

Tive sorte em ter escapado a tal encontro. Ou teria estragado todo o resto do dia.
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Valores



Há dias que são particularmente ricos e em nada se relacionam com dinheiro.
Foi o caso de ontem.
Antes de um debate televisivo, mostram uma reportagem de um homem em fase terminal com uma doença.
Quando começa o debate, um dos intervenientes deixa o seu protesto bem claro, ao afirmar que àquele que ali estava quase a morrer não tinha sido preservada a privacidade do momento.
“Ah, e tal, mas a família autorizou…”, foi a resposta da impiedosa jornalista.
“Certo, mas não foi ele, e ele é que está naquela situação!”

Eu não faria melhor!
E agrada-me saber que não sou o único, neste país vendido à comunicação social sem escrúpulos, a defender que a vida privada é isso mesmo: privada.
Mesmo perante uma carteira profissional.


 By me

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Aparentemente a sonda enviada a Marte “faleceu” ao pousar.
É natural!

Nós, por cá, também temos uma atitude de disparar primeiro e fazer perguntas depois, no que diz respeito a ovnis.
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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Info meteo



By me

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A minha tolerância para com os intolerantes no que respeita às opções sexuais de cada um está cada vez menor.
Neste momento aproxima-se a passos largos do tamanho dos tintins de uma formiga.

E dou graças aos deuses de já não andar armado que não seja em parvo.
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Fala comigo



Hoje fui ver uma exposição de fotografia. E perdi uma excelente oportunidade de fazer qualquer outra coisa. Ou talvez não.
A exposição, num espaço publico, é o resultado final de um concurso fotográfico. Ali podemos encontrar talvez quarenta fotografias.
Bem expostas, com um bom trabalho de pós-produção ou edição e bem impressas.
Com negros profundos, cores saturadas, bons contrastes… imagens “de moda” ou “da moda”, com paisagens bonitas em momentos especiais, tirando partido do que a natureza tem de agradável e atraente para nos mostrar.
Mas não falaram comigo! Caramba, passei por elas por três vezes e, com duas excepções, não me apeteceu deter-me em frente de nenhuma. Para além dessas duas (uma premiada, a outra não) nenhuma das outras me prendeu a atenção, me fez inveja, me contou algo, me provocou algum tipo de sensação ou sentimento. Apenas eram fotografias razoavelmente bem feitas do ponto de vista técnico, mas incapazes de falar comigo.
Ou eu fui incapaz de as escutar, de sentir aquilo que, eventualmente, me quereriam dizer.
Tenho para mim que uma fotografia tem que falar comigo, tem que me provocar a vontade de ficar a olhar para ela, tem que me ficar na memória, tem que me enriquecer a alma. Não consigo chamar de “boa fotografia” àquelas que não o conseguem fazer.

Felizmente que, uma hora depois, tropeço em algo que me fez esquecer a frustração de uma exposição.
Um livro de Sabine Weiss, intitulado “Des enfants”. Das que lá constam, destaco esta, mas muitas outras poderia destacar: “Petite fille, petite arbre”, 1981.
Sem pretensões de grandes trabalhos de edição, com uma simplicidade de conteúdo enorme, é uma daquelas que fala comigo, que me dá emoções, que me faz sentir algo horas depois de a ter visto.


Mas talvez eu seja esquisito naquilo de que gosto.

By me
Imagem - by Sabine Weiss

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Universal



Admitamos:
Universal, mas universal mesmo, só o martelo e o canivete suíço.
E, queiramos ou não, nenhum deles tira bicas.
Por isso, quando me perguntam qual a objectiva ou a câmara ou o que quer que seja que seja o melhor, são várias as perguntas que tenho que fazer para contextualizar o seu uso.
E quando me dizem que é genérico, qualquer telemóvel serve.

Como se vê pela imagem.
By e

FVM ( diy)



Porque surgiu em conversa e porque gosto do conceito de FVM (Faça Você Mesmo), aqui fica o aspecto do comando remoto por cabo para a minha DSLR feito por mim há uns anitos.
Botão de pressão para disparo, botão de pressão para foco, botão de posição fixa on/off para poses longas.

Se é bonito? Talvez não seja. Se funciona? Garanto que sim. Mas, e acima de tudo, é o prazer de ter algo concebido e executado por mim.

By me 

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Sobre a próxima eleição presidencial nos EUA, talvez que não fosse mau pensarmos que têm um presidente negro e que estão a caminho de terem uma mulher como presidente.

Depois disso faltará apenas terem um presidente honesto.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

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A história é antiga. Um bocado antiga.
Quando comecei a trabalhar abri conta num banco para receber o salário. Era mais expedito e eu, chavalito que era, senti-me importante por ter conta num banco.
Acontece que essa conta rapidamente chegava a zero, que o salário era curto, o mundo era grande e eu era puto. (Hoje acontece-me o mesmo, pese embora ser bastante mais velho).
A certa altura aborreceu-me para além dos limites o ser menos bem tratado nesse banco. Eu e outros, que se não tínhamos conta choruda ficávamos um bom pedaço à espera para sermos atendidos. À época não havia net e a rapidez com que os cheques eram confirmados telefonicamente era directamente proporcional ao montante em depósito.
E mudei de banco.
A escolha de qual banco recaiu sobre um então recém aberto, cheio de novidades e modernidades. E eu fui na conversa durante uns tempos.
Até que os rumores passaram a declarações públicas e demonstração de factos: esse banco não contratava mulheres para os seus balcões porque tinham um índice de absentismo elevado.
Incomodou-me. Chateou-me. Deixou-me possesso.
E um dia entrei no balcão onde tinha conta e pedi para acabar com ela. Qual o procedimento para cancelar todo o nosso relacionamento.
Foi-me dito que bastaria retirar o dinheiro que lá tivesse e preencher um impresso com essa vontade. E, se possível, escrever o motivo de tal decisão.
Claro que não tive vergonha em o fazer. Custou-me foi ver a cara do funcionário quando leu o que escrevi. Educado, quase formal, mas contundente quanto bastasse, explicava eu que não dava dinheiro a ganhar a quem fazia segregação laboral baseado no género.

Tenho mantido essa atitude ao longo da vida: recusar manter contactos para além dos impossíveis de evitar com aqueles que de algum modo me ofendem nos meus princípios mais básicos. Instituições ou pessoas.
E a cada dia que passa estou menos tolerante e mais selectivo. Mas não menos incisivo!

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O título da notícia é “saiba donde passa a ser proibido fumar”.

Daqui por uns tempos o título será: “Saiba onde ainda é permitido fumar”.
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Uma ocasião, há uns anos, soube da existência de um livro escrito em português sobre o meu ofício.
Fiquei satisfeito, já que andava farto de ler noutras línguas ou de traduções assim-assim.
Consegui um exemplar e dei-lhe uma olhada. Pois!
Os erros técnicos, estéticos e éticos eram tantos, numa leitura na diagonal,
que não consegui fazer mais que isso: ler na diagonal.
Ainda pensei em contestar o seu conteúdo, até porque publicado por uma instituição de ensino superior. Mas iria dar-me tanto trabalho o fundamentar a contestação com opiniões e trabalhos de outros autores que não apenas a minha opinião, que achei que não valia a pena. E deixei-me ficar.
Mais tarde, uns anos mais tarde, alguém que foi aluno do autor do livro disse-me que, de facto, ele era tecnicamente fraquinho. Mas que essa falha era compensada pelo entusiasmo que transmitia aos seus alunos. Simpática referência, mas insuficiente do ponto de vista técnico para que eu mudasse de opinião.
Sei-o agora como envolvido num evento da área profissional comum. E vejo-o referido com o seu título académico. O único que naquela lista de intervenientes assim está identificado.
Faz sentido e não me espanta.
Mas lamento os que forem ao engano.

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Do uso da ferramenta



Se pararmos para pensar um pouco naquilo que vamos observando em redor, talvez cheguemos à conclusão que uma boa parte das fotografias que hoje são feitas, talvez metade, resultam do uso de equipamentos que só complementarmente são câmaras fotográficas: os telemóveis e os smartfones.
Isto nada tem de errado. Mais que a ferramenta, importa sempre o resultado. E se estes equipamentos satisfazem os seus utilizadores, então são a ferramenta certa.
Ou não!
O desenho ou ergonomia destes aparelhos, tentando satisfazer a multiplicidade de usos que lhes estão inerentes, condiciona a forma como são usados. No caso concreto, na vertical e não na horizontal.
E seria inconsequente o uso vertical ou horizontal destes dispositivos se resultassem de uma opção do seu utilizador: escolher uma ou outra posição em função do assunto ou estética pretendida. Não é o caso!
A esmagadora maioria dos utilizadores fotografa na vertical porque os botões assim o sugerem.
Mais ainda: Uma boa parte das fotografias feitas com telemóvel são feitas na vertical porque fotografam pessoas. E os corpos humanos são verticais. E quer-se eliminar tudo o mais da imagem que não o fotografado. E, porque pouco se sabe (na maioria dos casos) de perspectiva ou linhas de fuga ou ângulos de visão, a fotografia é feita ao nível do olhar, resultando num corpo humano que enche o enquadramento, cabeçudo e pouco mostrando do ambiente circundante.
E nesta dicotomia entre o horizontal e o vertical, natural ou imposto pela tecnologia, deveríamos considerar o como nos relacionamos com o mundo que queremos representar: na horizontal.
Os nossos olhos estão ao lado um do outro e não um acima do outro; quase nenhuma atenção prestamos ao que está acima de nós, excepto se chove ou se há pássaros; a nossa preocupação com o que está abaixo de nós é apenas para sabermos se há buraco ou dejecto. Mas preocupamo-nos com o que está em frente e ao lado. As mais das vezes ao nosso nível.
E se dúvidas houvesse a este respeito, repare-se como os especialistas em condicionar o comportamento humano – os publicitários – dispõem os artigos nos expositores das lojas: aqueles que querem que tenham mais impacto junto dos consumidores – nós, os incautos – estão ao nível dos nossos olhos e não lá em cima ou lá em baixo, para onde raramente olhamos.
Ao fotografarmos e queremos mostrar o mundo em que vivemos e as nossas emoções nele, será útil fazermos aproximar a fotografia disso mesmo.
Não há nenhuma imposição estética ou semiótica para a verticalidade ou horizontalidade. Devemos usar uma ou outra na exacta medida em que uma ou outra se adapte ao que sentimos ou queremos mostrar. Ou que melhor se adapte ao suporte final, ecrã ou papel.
Agora ficarmos mentalmente limitados a uma posição porque a ferramenta assim nos sugere (ou impõe), é deixarmos que sejam os fabricantes de equipamentos a gerir as nossas emoções e formas de expressão.

E a fotografia é uma forma de sentir e exprimir emoções!

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terça-feira, 18 de outubro de 2016

No supersticion



Olhamos o que é feito e divulgado e, com raras e honrosas excepções, são todas “iguais”, com as mesmas abordagens temáticas ou técnicas, seguindo modas impostas e sem se notar algum tipo de procura de caminho pessoal.
Quase que parece que frequentaram todos a mesma escola, com os mesmos professores e estudando pelos mesmos livros, respondendo a questionários de escolha múltipla.
É legítimo, claro, querer ser amorfo, não querer fazer diferente, procurar passar despercebido, ser mais um no meio da multidão, procurando agradar antes de mais.
A satisfação que cada um encontra naquilo que faz é o mais importante!
Mas gostava de ver gente a procurar e encontrar o seu próprio caminho, tentando as suas próprias abordagens e o como mostrar os seus próprios sentimentos.
Conseguimos encontrar essa originalidade, tentada ou conseguida, em alguns raros sites pessoais. E em alguns raros certames fotográficos. Daqueles de onde, em conseguimos lá ir, regressamos de alma cheia. Mesmo que não gostemos do que vemos.
Porque, caramba: nunca me chateei com quem falhou; mas faz-me saltar a tampa quem não tenta.


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Privacidade



Com argumentos como “É mais barato”, “Tens desconto”, “Não pagas inscrição”, “Oferecem-te um brinde”, “Tens que estar registado para…”, etc., vamos alimentando bases de dados imensas, espalhadas por mãos inúmeras, sem códigos de ética ou legais.
Parece ser difícil para muita gente entender que a privacidade não pode nem deve estar à venda, nem mesmo a troco de pontos de supermercado.
Não é fácil resistir a esta devassa da vida privada. Principalmente quando somos olhados de lado e mesmo insultados por vizinhos e colegas de trabalho. Quiçá familiares.
Mas uma coisa eu garanto: enquanto me for possível opor-me-ei ao abastardamento do conceito de “privacidade”.


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Alarme



Foi há uns anos valentes, mas nunca o esqueci.
A escola onde trabalhava organizou uma visita de estudo a Santarém, no âmbito da disciplina de Português.
Tentei “fazer render o peixe” e combinei com a respectiva professora que, no regresso, poderíamos parar em Vila Franca de Xira, já que por lá havia uma interessante exposição de fotografia. E assim fizemos.
Havíamos combinado entre nós, professores, que nesse dia eu seria o “carro vassoura”. Por outras palavras, seria sempre eu o último a sair dos locais que visitássemos, garantindo que nenhum aluno ficava, esquecido ou não, para trás. O mesmo aconteceu na biblioteca de Vila Franca de Xira.
Quando eu cruzei a porta, para nos dirigirmos para o local onde a camioneta aguardava, ouviu-se o alarme na porta.
Recuei e ele calou-se, avancei e ele tocou.
Caramba! Era eu! Mas eu não tinha comigo nada surripiado, nem mesmo algo com alarme.
A funcionária da recepção saiu de trás do balcão e pediu-me o meu saco, convidando-me a cruzar a porta. E o alarme disparou de novo.
Entreguei-lhe o casaco e o colete, depois de despejar neles o que tinha nos bolsos das calças e pendurado no cinto e cruzo a porta. De novo o alarme.
Nos entretantos, toda a rapaziada e raparigada, bem como os demais professores, assistiam ao espectáculo da parte de fora, uns divertidos, outros espantados.
Já só faltava mesmo eu despir-me por inteiro para provar a minha inocência quando as gargalhadas na rua aumentaram de tom e uns dois ou três aproximaram-se e fizeram disparar o alarme afastados da porta com um qualquer dispositivo que tinham com eles.

Ainda hoje, quase vinte anos passados, de cada vez que penso em “Fotografia”, “Exposição” e “Vila Franca de Xira” me recordo do meu embaraço com o raio do alarme e as valentes risadas que tivemos depois de explicado o mistério.



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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

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Uma ocasião, numa pausa entre trabalhos, disse-me um colega:
- Olha lá: então estás a usar uma pen de banda larga no teu portátil em vez de usares o wi-fi da casa?
- Claro! Estou a usar isto para questões particulares e o wi-fi é para serviço. Não misturo as águas.
- Mas assim és tu que pagas isso?!

- Mas também fui eu que paguei o espelho que lá tenho em casa, e não tenho vergonha de me ver nele.

Fome



Em 2012 fiz esta fotografia. Uma dolorosa realidade!

Poderia tê-la feito hoje, no mesmo local, pois que continua a ser uma dolorosa realidade.

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domingo, 16 de outubro de 2016

Equi



É interessante (ou triste) pensar o quanto se esforçam nas escolas de artes e comunicação para impor os números de ouro, as linhas de fuga, as perspectivas geométricas, as proporções de acordo com os cânones, deixando gloriosamente de fora aquilo que é realmente universal na representação pictórica: o equilíbrio.
É o equilíbrio formal e o equilíbrio semiótico (ou as suas ausências) que dão sentido e leitura ao representado, que fazem com quem haja quem interprete o pintado (ou gravado, ou esculpido, ou filmado, ou fotografado).
Ao longo da história, das culturas e das geografias encontramos diversas formas de representar bidimensionalmente. O conceito de perspectiva, de linhas de fuga, de numero divino é algo que resulta apenas das evoluções estéticas oriundas no mediterrâneo.
A noção de espaço, de profundidade, de volume não é uma obrigatoriedade no planeta e no tempo.
Nalgumas culturas o tamanho depende da importância, não do lugar. Noutras nem sequer se altera escalas. Noutras ainda, na mesma imagem (ou pintura ou escultura) existem diversas linhas de fuga, dependendo dos pontos de observação dos representados ou do ponto no tempo da história representada. Noutras ainda a profundidade é expressa com perda de detalhe no pintado, a chamada perspectiva aérea.
Mas aquilo que sempre foi considerado como vital, inalienável, obrigatório para que fosse considerado agradável à vista e eficaz na comunicação é o equilíbrio.
Equilíbrio de volumes, equilíbrio de cores e luzes, equilíbrio de importâncias… equilíbrio.

Equilíbrio – ou desequilíbrio – é a chave para a composição. Tudo o mais são as linguetas para a abrir.

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Conversas



“(…)
Fizeram-lhe uma proposta de trabalho no norte. Ele que vá para o norte, que vá para o sul, que vá para o caralho, desde que saia da minha vida!
(…)”

As conversas telefónicas alheias que ouvimos a bordo de uma carruagem…

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