quarta-feira, 31 de agosto de 2016

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Uma ocasião, faz tempo já, vieram ter comigo lá no meu trabalho.
Um colega queria saber se eu aceitaria o convite para integrar as listas do seu partido nas autárquicas que se aproximavam.
Por um lado fiquei espantado. Pensava que me conheciam melhor.
Por outro fiquei sensibilizado pela confiança, mesmo quando ele me disse que não me preocupasse, que era só para fazer número e que eu não ficaria em lugar elegível.
Claro que recusei o convite, com a afabilidade mas firmeza que a questão impunha.
Mesmo que os conceitos gerais dessa formação partidária pudessem estar perto dos meus, não gosto eu de estar preso por questões éticas, sentindo-me impossibilitado de contestar as decisões dessa formação, pelo menos enquanto durasse o mandato. Mesmo que eu não fosse eleito. Seria uma questão de lealdade para com quem me havia convidado.

Custa-me ver gente que tenho por inteligente a apoiar medidas ou conceitos com os quais eu sei que discordam, apenas porque o partido com que se identificam (ou pertencem) assim o diz ou concebe.
A lealdade partidária ou grupal é bonita e recomenda-se. Mas não para além daquilo que a nossa consciência e intelecto nos diz. Ou corremos o risco de nos trairmos nos nossos próprios princípios.


E sim: isto aplica-se no geral e num caso muito particular politico-partidário agora na ordem do dia.
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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

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“Vive cada dia como se fosse o último. Um dia acertas!”
Esta é uma piada velha, que gosto de complementar com:

“A alguns eu gostava de garantir que era o último.”
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domingo, 28 de agosto de 2016

A explicitude e o seu oposto



O trabalho que tive em explicar a um profissional da imagem que a comunicação visual não tem que ser clara, explícita, inequívoca!
Esse é um dogma que se transmite em quase todas as escolas, manuais e workshops.
Mas não é verdade! Pelo menos não é uma verdade absoluta, universal.

Se falamos de consumo rápido de imagens – fotográficas, videográficas, cinematográficas – esse dogma aplica-se. Simplicidade na forma para facilitar o acesso ao conteúdo.
Mas posso querer eu, enquanto fotógrafo, não ser assim tão explícito. Querer obrigar quem vê o que faço a não entender de imediato, a parar para perceber, a questionar e questionar-se naquilo para onde olha e a, mais que olhar, ver.
O desconcerto na leitura, a dúvida, a procura de significado… também isto é comunicação, visual no caso da fotografia.
Dir-me-ão, talvez, que esta forma de comunicação reduz a muito poucos os que a lêem, na medida em que a dificuldade de acesso ou de interpretação, nos tempos que correm e com a rapidez de consumo de conteúdos, afasta os mais apressados ou menos curiosos.
Mas talvez nem sempre eu queira comunicar com esses, pouco me importando se entendem ou não. Ou melhor: ficando satisfeito se o entendem mas nada preocupado com o seu oposto.
Fazer diferente, mesmo que fora dos códigos habituais de comunicação, é uma necessidade que a todos assola de quando em vez.
A diferença entre a grande maioria dos que usam a fotografia e de alguns que também a usam, é que estes, nestes casos, pouco se importam com a reacção ou interpretação do público. “Likes” e “Coments” são “Cenas que não os assistem”.
Fazem-no e exibem-no porque lhes apeteceu, porque foi assim que alinharam a cabeça, o olho e o cérebro. E não para que outros gostem, ou mesmo que interpretem, entre dois clicks ou o passar rápido das páginas de um site ou revista.

Se o objectivo de um fotógrafo for a comunicação de massas, o chegar a todos, o fazer passar uma mensagem, o ganhar apreço ou dinheiro, mesmo que seja com uma pasta de dentes ou com um pôr-do-sol, esqueça-se tudo o que disse acima. Sigam-se as regras da academia, as fórmulas e os algoritmos, as modas e as convenções.


Mas se o objectivo for colocar a sua alma no que faz e mostra, pouco preocupado com as interpretações ou opiniões de terceiros…

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O mal de se ter o cabelo e a barba branca reside apenas em os não ver quando caiem no lavatório ou banheira.

sábado, 27 de agosto de 2016

Tristezas



Triste é ver como há gente que se sente "grande" por ter feito uma fotografia junto de alguém famoso, sendo certo que esse alguém não "dá a mínima" p'ro fotografado. 
Na imagem: "Workers, México" 1924, por Tina Modotti, (1896 - 1942), in "A history of woman photographers".


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Hoje



Numa manhã de sábado, solarenga e ameaçar de quente, faria sentido publicar uma fotografia ou estórinha fofinha.

Mas depois de ver e ouvir as notícias, não consigo melhor que isto, desculpem.

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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Sem nome



A primeira atitude de qualquer um, ainda antes de sentir se gosta ou não de uma fotografia, é identificar o que nela consta.
Só depois disso se pondera ou afirma "gosto (ou não gosto) da representação fotográfica deste (nome do assunto fotografado)."
O não ser possível identificar o conteúdo de uma fotografia conduz, na esmagadora maioria dos casos, a uma reacção negativa.

Como se a fotografia tivesse que ser, por ordem divina, a representação concreta de algo específico.

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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Interpretação



Interpretação subjectiva de um concerto de jazz em Lisboa com um livro de Walker Evans na mão, usando um telemóvel com um gadjet.

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“Se eu souber o porquê, saberei o como!”
E se eu não souber o porquê, não farei fotografias, farei fotocópias do que me cerca.
……
……
……
Mas, e para concluir um texto que seria longo e muito fulanizado:
Não me interessa ajudar a preparar grandes fotógrafos que façam grandes fotografias que saiam nas capas das grandes revistas.
Interessa-me, antes sim, ajudar a que encontrem satisfação ou felicidade no uso da câmara fotográfica.
O mais são trocos e pedantices quem se acha grande no meio de uma elite.


E eu sou povo!

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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Desgosto fotográfico



A história tem perto de quarenta anos.
Vi no peitoril da janela um insecto. Pequenito e não voador, recordo que tinha cores bonitas e diferentes. E achei que era um bom assunto para fotografar.
Mas vários problemas se levantavam.
Desde logo o seu tamanho. Os menos de dez milímetros que possuía implicavam recorrer a técnicas de macro fotografia, pelo que decidi usar a objectiva de 50 mm invertida no corpo da Pentax LX. Esta técnica, que permite uma escala de reprodução bem grande, implica uma igualmente grande proximidade ao assunto, uns 20 mm, mais coisa, menos coisa.
Para a iluminação, haveria que recorrer à luz natural e reflectores, já que a proximidade inviabiliza o uso de flash, anelar ou clássico.
Assim, e decididas estas questões de cariz técnico, usei de um copo de vidro para evitar que o bichinho se fosse embora. Não me passaria pela cabeça fazer-lhe mal e iria liberta-lo assim que o fotografasse.
Mas o coitado não estava lá muito pelos ajustes, e não havia forma de estar parado. Fora do copo fugiria, dentro dele, e visto da abertura, ficava fora de foco e através do vidro com distorções de imagem. Que fazer?
Usando dos recursos existentes em casa e de um pouco de imaginação, concebi um dispositivo:
Sacrifiquei uma caixa de filtros, com uns 60 mm de diâmetro e, numa das metades, cortei-lhe o fundo. No seu lugar, colei-lhe uma placa de vidro, do tamanho dos filtros Cokin, que tinha mandado fazer para uma experiências com filtros neutros feitos com negro de fumo. (São fáceis de fazer mas um cuidado se impõe: a chama muito próxima pode partir o vidro com o calor)
Fiquei assim com o que necessitava: um recinto para conter o bicharoco e com altura e luz suficiente.
Montei todo o dispositivo (câmara em tripé, caixa, luz), assegurei-me da quantidade e qualidade de luz e foco e tratei de transferir o animal do copo para a caixa.
Quando coloquei esta sob a objectiva e espreitei pelo visor, ainda fui a tempo de ver os últimos estertores do pequenote. Esperneava e contorcia-se, enchendo com a sua agonia todo o enquadramento. E morreu!
Doeu-me! Juro que me doeu fundo na alma! Pela sua morte não desejada e que procurara evitar e por não perceber o que se passara. Só após uma análise aprofundada da situação dei com a coisa: os vapores da cola que tinha usado tinham intoxicado o insecto.

Até àquela data nunca tinha pensado seriamente no assunto. Mas os conceitos estavam cá, não teorizados ou definidos. Mas ficou perfeitamente claro para mim na altura.
O meu prazer fotográfico – egoísta, pela certa – não justifica em nenhuma circunstância a morte de animal ou planta.
Ou bem que consigo a imagem pretendida respeitando a vida e a integridade do ser vivo a fotografar, ou vou à procura de qualquer outra coisa onde assentar a minha objectiva.

Que a ética e o respeito pela vida não passa apenas pelos humanos!

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terça-feira, 23 de agosto de 2016

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Não confundir um tipo medroso com um gajo merdoso.

Ainda que o segundo possa ser também o primeiro, o inverso não é forçosamente verdade.
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Na linha



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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A borboleta



Enquanto fotografo o que resta desta borboleta e comparo o seu tempo de vida com o nosso, pergunto aos deuses se no universo das borboletas também há aviões anónimos a bombardear cidades e a matar crianças. Ou a fazer com que se afoguem num qualquer mar interior.


Se puder escolher, quero reencarnar como borboleta, por favor.

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O essencial é invisível aos olhos.”
Ouvi há uns dias numa reportagem televisiva, já nem sei a propósito de quê.

Acrescento apenas que, e para além de concordar em pleno, também é invisível à objectiva.
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Quando eu morrer, com a minha guitarra, enterrai-me sob a areia
Quando eu morrer, enterrai-me num catavento,
Quando eu morrer!


Garcia Llorca

O rei sábio



Contaram-me (ou li, já não sei) que algures na antiguidade um rei (seria imperador?), tentando melhorar o nível qualitativo da cultura e ciência do seu país, mandou chamar sábios de todos os cantos do mundo conhecido de então.
Não se conheciam, não partilhavam a mesma história, cultura, conhecimentos ou mesmo língua.
Mas seria nessa diversidade total que o tal imperador (seria rei?) apostava. Que, em nada havendo em comum, o que desta junção resultasse seria algo de completamente novo, algo que levaria o mundo a abrir a boca de espanto com tanto saber e modernidade.
Não sei o resultado de tal reunião. Pois se nem sei onde era, quando foi ou mesmo o nome do rei (seria imperador?).
O que sei, isso sem sombra de dúvidas, é que hoje, quando se juntam pessoas para conversar, a atitude generalizada é de exibição e afirmação das suas próprias certezas, fechando as mais das vezes o espírito ao que os outros terão para contar.
Mas sendo que partilham do mesmo contexto (cultural, ideológico, linguístico) também não têm, as mais das vezes, algo de verdadeiramente novo ou diferente para contar. Que as premissas são as mesmas e as conclusões são, por exclusão de partes, as mesmas. Enfeitadas, claro está, com o ego de quem discursa.
Evidentemente que há excepções. Tantas quantas, talvez, os tais sábios que o tal imperador (seria rei?) juntou. São aqueles que, mais que querer contar o que sabem, querem aprender o que os outros podem saber e, com isso, criar a novidade. São aqueles que, mais que querem exibir-se, querem partilhar e aprender o saber e o pensar. Falando ou não a mesma língua.
Faz falta que surja um rei, imperador, descamisado, endinheirado ou qualquer outra coisa que trate de os juntar e criar algo de realmente novo.

Hoje!

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domingo, 21 de agosto de 2016

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“Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, disse o mestre.
Esta é uma verdade quase universal.

Porque a raiva, essa, uma vez surgida, dificilmente se transforma noutra coisa.
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Justiça



“Queremos que seja feita justiça”, é o que ouvimos muitas vezes da boca de advogados e cidadãos em geral.
Aquilo que a maior parte deles não define com rigor é o que é “fazer justiça”.
As mais das vezes, significa o aplicar de sanções aos acusados. Sanções pecuniárias ou sanções de prisão.
E isto porque, não nos enganemos, o acusado terá cometido um crime ou uma maldade: algo de mau.
No entanto todos sabemos que a perda de liberdade é uma maldade. Tanto o é que prender alguém contra sua vontade e não por ordem dos poderes públicos é considerado crime. Tal como bater ou matar.
Temos assim que a uma maldade cometida por um indivíduo a sociedade faz corresponder outra maldade. Pena de prisão, agressão, morte.
Quando vejo uma sociedade a entender com válido o fazer maldades a alguém, sejam quais forem e seja porque motivo for, pergunto se é nessa sociedade que quero viver.

Em regra a minha resposta é Não!

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sábado, 20 de agosto de 2016

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Tendo acabado a hipocrisia do "dia mundial de" podemos voltar àquilo de que realmente gostamos?
Ou só se gosta de fotografia em 19 de Agosto?
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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Self portrait



Como os photógraphos  (ou este photógrapho) vêem o mundo:
Em pequenos pedaços, recortando-o em tempo e espaço, tentando construir com eles um puzzle coerente e que dele possa surgir algo de melhor.
Mas nem sempre conseguindo.



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Ouvido e recordado



Tenho para mim que a fotografia, tal como a literatura, a música, a dança e as demais artes, têm a capacidade de, e para além do explícito, nos levarem a outros mundos. Aqueles mundos que resultam do somatório da vivência no momento com as experiências que cada um possui, criando um universo muito próprio.
Hoje, 19 de Agosto, deixo-vos um misto da palavra falada, escrita e fotografada. Falado, escrito e fotografado há já uns anitos. E a possibilidade de imaginarem tudo o que aqui não consta.


O exemplo típico da “sopeira”, passe-se a expressão: trabalhou toda a vida como empregada doméstica, casou com um soldado que conheceu no Jardim da Estrela, enquanto passeava os filhos do patrão.
Toda a conversa surgiu por ter sido mais ou menos ali que conheceu o futuro marido, por ter sido mais ou menos ali que fizeram a primeira fotografia juntos… Mas tinha algum receio em fazer uma agora já que, e nas suas palavras:

“Sou feia! Agora sou feia! Mas quando era nova, valha-me Deus, não podia dar um passo fora de casa que não estivesse guardada! Olhe, até doutores de lei e de medicina namorei. Houve um – eu até gostava de ir à televisão contar a história ao Artur Agostinho – que era juiz de direito e não me largava.
Trabalhava eu na casa de uma patroa, ali em Campo de Ourique. Era ela e a filha, já mulher feita.
Uma vez, já ao fim do dia, diz-me a patroa para ir ali, à taberna, buscar vinho que já não havia para o jantar. Eu pus a garrafa num saco de pano e vim à rua. A taberna era como que daqui ali, umas quatro portas de distancia.
Mas do outro lado do passeio estava o juiz. Queria falar comigo, que eu fosse com ele e eu que não, que as patroas estavam à espera do vinho para o jantar. Mas tanto insistiu, tanto teimou, que acabámos por ir de eléctrico até à estrela. Está a ver: o eléctrico a andar devagar, as patroas à espera e nós à conversa. Foi o ir e o vir. Uma demora!
Quando voltei a casa, já com o vinho, ia cheia de medo da patroa. Mas lá inventei, fazendo-me de zangada, que na taberna não havia meio de me atenderem, que só estavam a ouvir o relato. E eu a querer o vinho e eles a ouvir o relato do Artur Agostinho. E eu sem saber se havia ou não jogo ou relato! Mas a filha lá me safou, dizendo em voz baixa para a mãe que sim, que estava a dar um relato na telefonia e que até tinha ouvido quando marcaram um golo.
Depois de lhes servir o jantar, vim espreitar devagarinho atrás das cortinas para a rua. O juiz ainda lá estava, ora olhando para as janelas, ora olhando para a porta, andando de um lado para o outro.
Sabe, depois fiquei a pensar e é que percebi. O que ele queria era que eu fosse despedida logo naquela noite para me por conta num quarto que já tinha alugado, ali à Graça. É que, naqueles tempos, nem um beijinho podíamos dar na rua. E ele sempre era um juiz, mais velho, casado e tudo!
Depois, já a trabalhar noutra patroa, acabei por encontrar o meu homem. Já morreu, coitado!
Agora estou feia. Mas naquele tempo, benza-me Deus, nem podia vir à rua!”

Este relato é fiel ao que ouvi. Tão fiel quanto o é possível, escrito umas duas horas depois de ouvido.
Mas enquanto vai escorrendo a tinta no papel, vou-me perguntando como o irei ilustrar. Tenho dela duas fotografias, uma à-lá-minuta, outra um retrato à minha maneira, com a reflex. Que, olhando para ela, ainda que com idade avançada, se lhe reconhecem nas feições e no corpo a beleza que tinha e tem, testemunho ainda iluminado do brilhante que foi na juventude. Acredito que de fazer parar o trânsito.
Mas sinto pudor em aqui e assim a exibir. Estas estórias de antanho, assim contadas a um estranho, fazem parte do seu tesoiro de vida. Que ela almeja contar no ecrã. Espero que o possa fazer, na primeira pessoa, que não serei eu que ligarei relato com rosto.

Fiquem apenas a saber que foi aqui que mo contou. Não importa quando!

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Velharia



“Estou com o meu amigo Yorick, o ajuizadíssimo bobo de el-rei de Dinamarca, o que alguns anos depois ressuscitou em Sterne com tão elegante pena, estou sim. “Toda a minha vida”, diz ele, “tenho andado apaixonado já por esta já por aquela princesa, e assim hei-de ir, espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma acção baixa, mesquinha, nunca há-de ser senão no intervalo de uma paixão à outra; nesses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o sentimento, não acho dez reis que dar a um pobre… por isso fujo às carreiras de semelhante estado; e mal me sinto aceso de novo, sou todo generosidade e benevolência outra vez.”


Almeida Garret, “Viagens na minha terra”

Lua Cheia



A lua cheia hoje está espetacular e, tivesse eu a oportunidade e o equipamento, e talvez fosse fotografar.
Mas mais não tenho comigo que um telemóvel e o dia foi comprido e complicado. Demasiado dos dois.
Fico-me, assim, com o que vejo da porta do comboio, pedindo-vos que imaginem que acima disto está uma lua cheia bonita.
Ou, ainda melhor, vão para a rua e vejam o que lá está e que é de borla.

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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Diálogos de faz-de-conta



“E, nos tempos que correm, para que é que quer açúcar em cubos?”
“Porque colocando dois no fundo de um copo largo, deixando cair em cada um deles três gotas de Angostura, que se deixam a macerar durante uns dois minutos, e em se completando o copo com uns três dedos de Whiskey de centeio, agitando depois na mão gentilmente, se obtém uma das bebidas de que mais gosto.“
“Ah, bom! O açúcar em cubos está ali ao fundo, naquela prateleira.”

Não! Este diálogo nunca aconteceu no supermercado. Teria dificuldade em explicar o que é Angostura ou Rye Whiskey, coisas que deixaram de aparecer nos supermercados que frequento e que me obrigam a ir a lojas de especialidade.
Mesmo açúcar em cubos não é fácil.


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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

E quanto ao direito...

Como se pode esperar que o cidadão comum respeite os direitos de autor quando são os órgãos de comunicação social os primeiros a o não fazer, recorrendo a imagens da net para ilustrar as notícias que difundem sem pagarem, pedirem ou mesmo informarem o fotógrafo ou fotografado.
E isto tanto é válido para a imprensa como para a TV, tanto nas suas vertentes convencionais como integradas na web.


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Estúpidos



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Sonhos



Que porra de sociedade esta que insiste em alimentar sonhos de fama fúteis, efémeros e inglórios?
Nem os meus dedos somados com os seus chegam para contar a quantidade de jovens que, com os olhos a brilhar, já me perguntaram se lá onde trabalho não fazem castings de quando em vez e a data do próximo.
Ou, em alternativa, se eu com a minha câmara, não farei books para agências.
Tal como com os catraios pequenos não desfaço o mito do Pai Natal quando me vêem e me abordam, também nestes casos tento ser simpático, não alimentando o que não tem futuro mas também não dando pontapé em castelo d'areia.
A fotografia?
Um sapato que terá sido o sonho de alguém e que, muito provavelmente, o terá cumprido.

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Frase lida algures e que me marcará o dia, pelo menos:

“Se existes, prova que existes.”
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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Fábulas



É um restaurante onde vou amiúde: não é caro, o que se come é agradável e o pessoal é simpático. Tudo de bom!
Há uns tempos pedi, de sobremesa, um crepe flambée. Quem mo fez comentou que não é das coisas que mais goste de preparar: o cheiro é muito intenso e, quando calha, fica com uns pelos a menos na mão.
O que teve mesmo graça foi a reacção de uma empregada: nova de idade e nova na casa, estava de boca aberta com a preparação do crepe, exclamando um elucidativo “Que é isso?”
No fim do jantar, lá meti conversa com ela e lhe expliquei o que era e recomendei-lhe que provasse. Pelo menos ficaria a saber o que é e a que sabe.
Uns tempos depois tocou-me em sorte a mesma mocinha. Enquanto ela tomava nota do meu pedido, meti-me com ela e perguntei-lhe se já sabia o que é um “flambée” e se já tinha provado. Saber, sabia, provado é que não. Entende-se!
Mas, quando me veio trazer a minha cerveja, não perdeu a oportunidade de se meter comigo. Melhor dizendo, com a minha câmara, pousada que estava em cima da mesa: “É bonita, a sua máquina!”
“É!”, respondi, “Mas mais importante que isso é se faz boas fotografias”, acrescentei.
“Pois, mas tem muitos botões.”
Calei-me! Não adiantava esclarecer que os botões, muitos ou poucos, importa que estejam no sítio certo e que saibamos deles tirar partido.

Agora que a minha câmara é bonita, lá isso é. Mas também há a fábula do La Fontaine, sobre a coruja e a raposa.

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domingo, 14 de agosto de 2016

Libelo



As actuais estruturas de ensino são, na sua essência, desonestas!
Violenta a afirmação? Eu explico:

Diz-se que o aluno (estudante, aprendiz) deverá sair da escola com um conjunto de saberes e competências bem definidos. Durante todo o percurso escolar, é o aluno (estudante, aprendiz) submetido a avaliações sobre essas aquisições, onde lhe vai ser dito se se ficou pelos mínimos, se aquém ou além deles. Se passou, se ficou num dos lugares cimeiros ou se chumbou.
Mas o papel do professor não é ensinar. Não é, do alto da sua cátedra, despejar o conhecimento, usando para isso técnicas standard, e esperar que tudo isso tenha ficado na cabeça dos alunos (estudantes, aprendizes).
O standard, o padrão, as medidas e técnicas universais são funcionais quando falamos de parafusos ou barris de petróleo. Ao entrarmos no campo do ser humano, existem tantas medidas e padrões quantos os indivíduos considerados. E a capacidade de aprender de cada um é tão diversa quanto uma estrela de outra.
Daí que, e para que os alunos (estudantes, aprendizes) obtenham os saberes e competências previstos, há que trabalhar com cada um deles enquanto individuo e não com cada um deles enquanto elemento de uma turma ou sistema de ensino padrão.
É assim que o professor não deve ensinar mas antes ajudar a aprender. Usar do tempo e esforço necessários e suficientes para que cada aluno (estudante, aprendiz) não se fique pelos mínimos mas antes atinja o pleno. Porque é para tal que lá estão e é isso que esperam. Aprendiz (aluno, estudante) e professor.

A avaliação, enquanto elemento do processo de aprendizagem, é importante, mas perigosa.
Nos moldes actuais, mede as competências adquiridas pelos estudantes (alunos, aprendizes) dentro dos valores padrão, colocando-os nos pelotões da frente, do meio ou de trás. E fica o assunto resolvido.
Nos aprendizes (alunos, estudantes) em que os resultados são medianos ou abaixo deles, fica a sensação de frustração, a quebra da auto-estima, a rebeldia contra o sistema que não reconhece o seu esforço em aprender, por comparação com outros. Que com facilidade atingem a excelência.
E, com isto, estamos a preparar cidadãos plenos, ex-alunos (ex-estudantes, ex-aprendizes) que se auto-nivelam pela mediania ou por baixo, orientados e classificados que foram assim durante 15 ou 20 anos da sua vida.

A avaliação (testes, trabalhos, orais) avalia de igual forma o trabalho de quem aprende e de quem ajuda a aprender. Porque um professor não deve ensinar mas antes ajudar a prender.
Se os objectivos deste trabalho de conjunto falham ou ficam-se pela mediocridade, se o mais novo dos dois se fica pelos mínimos ou aquém deles, pelo menos metade do trabalho, o do mais velho, foi deficiente.
Não usou do tempo e trabalho suficientes para que a equipe terminasse com satisfação.

Uma avaliação escolar bem concebida deverá ser construída não em função da mediania dos alunos (estudantes, aprendizes) mas antes em função do binómio aluno/professor. E se, num teste ou prova de avaliação escolar, cada aluno é avaliado uma vez por um professor, cada professor é avaliado por cada um dos alunos (estudantes, aprendizes). E se o resultado de uma turma se fica pelos mínimos ou lá perto, o professor é apenas sofrível no seu trabalho de ajudar a aprender.

No actual sistema de educação (e como este termo educação é odioso!), tenta-se combater o insucesso escolar. Não através do incremento dos métodos de aprendizagem e do investimento do sistema em cada aluno enquanto individuo, mas através da descida dos níveis mínimos e da satisfação da sociedade quando eles são atingidos. A diminuição dos chumbos ou reprovações.

Acrescente-se que avaliações mal concebidas, analisadas ou baseadas num mau trabalho de um professor podem condicionar negativamente o futuro daqueles que estão a ser avaliados. É demasiadamente importante para ser feito de ânimo leve!

É por isso que afirmo que o actual sistema de educação ou ensino é desonesto!
Os estudantes (alunos, aprendizes) não passam por ele aprendendo a fazer perguntas e a ter dúvidas mas antes a serem formatados por métodos e programas padrão, moldados pela sociedade e não adaptados a cada um deles. Os alunos são considerados como matéria-prima como farinha numa padaria.
Não são consideradas as características individuais e o percurso de cada um. Nem são satisfeitas as expectativas de sucesso que cada um tem!

Durante o tempo que estive ligado a escolas profissionais, a minha maior satisfação foi ver o brilho nos olhos daqueles com quem estava a trabalhar provocado por um “já percebi” e logo seguido de dúvidas e perguntas sobre a continuidade do trabalho que vínhamos fazendo.
E um orgulho tremendo de, querendo ir sempre mais e mais longe com eles, nunca ter reprovado um só que fosse.

By me

Heróis acidentais

Há um filme, cujo enredo não afianço já que na minha memória se confundem três distintos, cujo nome é bem apelativo: “herói acidental”.
O que tem graça neste título é que todos nós conhecemos inúmeros “heróis acidentais”. Cada um de deles, às mãos-cheias pela rua, é um herói à sua medida: aquilo que dá ou que faz é na exacta proporção da sua capacidade. E, na sua escala, aquilo que dá ou faz é um acto de abnegação ou heroísmo.
Tomamos como grandes, como dignos de nota, os que fazem grande actos, mediatizados, envolvendo risco físico ou não. E gostamos de saber que há quem o faça, usando-os por exemplo.
Mas aqueles pequenos actos de heroísmo anónimo, como o ceder o último lugar sentado no autocarro, já depois de um dia de trabalho, porque o saco dele parece ser mais pesado que o nosso, ou o catraio que desata a correr assim que chegamos à porta, porque a mãe vai lá ao fundo mas ele ficou a segurar a porta para que pudéssemos passar, ou aquela empregada de café que, sem que o patrão o saiba, todos os dias oferece a sopa àquele viúvo reformado que lá vai buscar o jantar, ou…

São tantos os heróis, acidentais ou não, anónimos, destemidos e tímidos, que os media ignoram, que ainda não percebi porque não lhes ergueram uma estátua algures, num local bem visível e a servir de exemplo aos demais.
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Pérolas



Entretido que vinha a ler, nem me apercebi da chegada à estação do meu bairro. Quando levantei os olhos do livro, já as portas do comboio se fechavam, deixando-me com a solução única de descer na seguinte e apanhar um táxi de volta, que a noite já não era jovem, o trajecto longo e o cansaço bastante.
Quando, já desembarcado, cheguei à praça de táxis, uma mulher, na casa dos trintas, com uma criança pequenita, encostavam-se à parede, tentando em vão proteger-se da aragem promovida a vento que arrefecia os corpos, em contraste com o valente calor do dia. E se a maior tiritava, a pequena optava pela estratégia comum naquelas idades: saltava, abanava-se, saracoteava-se, tentando que o sangue, em correndo, a aquecesse.
Dei a saudação e perguntei se esperavam um táxi, que primavam pela ausência. O que também não estranhava, já que a noite era o que era e Agosto estava em plena maturação. Anuíram, que certamente não estavam à espera do horário de abertura da farmácia uns vinte metros mais além. E deixei-me ficar, ignorando a aragem, que a camada adiposa me protegia. Sem mais palavras trocadas.
Estaria quase a chegar o comboio seguinte e eis que surge um táxi. Um apenas, que me iria deixar solitário na escuridão da noite e na esperança que houvesse mais motoristas a trabalhar àquela hora e em mês de férias.
Abrindo a porta e empurrando a pequenita para o interior, diz-me a mulher: “Vai para São Carlos?”
Pois eu não ia, seguindo mesmo a direcção oposta.
Mas a invulgaridade da oferta alumiou a minha noite. Em mais de vinte anos de uso habitual daquela praça em circunstâncias semelhantes, não me recordo de ter ouvido tal pergunta com a implícita proposta de boleia.

E porque a noite estava escura, que os candeeiros por ali não abundam, não consegui fixar as suas feições de igual tom. Mas ficou a alvura daquele coração, qual pérola rara, a brilhar bem mais que os faróis do carro que se afastava.

By me

sábado, 13 de agosto de 2016

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No jornal “Diário de Notícias” leio o que se segue:

“Quando acabar o ensino obrigatório um jovem deve ter aprendido que a formação se faz ao longo da vida e deve ter aprendido "a ser um cidadão activo, ter uma vida empenhada, socialmente consciente, cosmopolita, aberta, respeitadora, centrada nos direitos fundamentais da dignidade humana". Os traços gerais são dados por Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da Fundação Gulbenkian e ex-ministro da Educação (entre outras pastas), que vai agora liderar um grupo de trabalho criado pelo governo para traçar o perfil de saída dos alunos no final do 12.º ano.
…”

Não sei se estarei por cá daqui por dez anos para verificar se o ideal foi alcançado.
Espero, lá mesmo do fundo, que sim.

Que essa tem sido a minha luta também. Não apenas isto, mas será o mínimo.
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Hoje é sábado, dia treze.

Por pouco era sexta, 13.
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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Odores



São odores que me remetem para mochilas, tendas, comboios-correio, o chegar ainda de quase madrugada depois de ter visto o sol nascer no mar... 
Ferro, fuligem, ferrugem, madeira, oleo, combustível... São odores que o calor me faz recuar dezenas de anos. 
Não há poltrona e ar condicionado que rivalize com o sentar no cais com a mochila por encosto!

By me

Tempo



“O tempo perguntou p’ro tempo,
quanto tempo o tempo tem.
O tempo respondeu p’ro tempo,
que o tempo tem o tempo
que o tempo tem”.


Trava-línguas popular

Balneário



A ti, que tomas banho diariamente, por vezes dois dependendo dos dias, que reclamas da temperatura da água, do se ter acabado o shampô, da toalha não ser a tua favorita, do estar frio cá fora, do …

Lembra-te que ainda há muitos a usarem estes locais. E nem todas as semanas.

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As caras da cidade



Não creio que a EGEAC, com o seu "As caras da cidade", se tivesse lembrado desta.

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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

As gravatas



Estou certo que ninguém gosta. Ora como eu não sou ninguém, não gosto mesmo.
Não gosto que fiquem a olhar para mim, como se tivesse acabado de receber a medalha de ouro nuns olímpicos de aldrabices e mentiras.
Até porque convenhamos: não tendo nenhum motivo para mentir, porque raio iria eu fazer aquilo que procuro nunca fazer?
Assim, e para que aquela mocinha daquele café não fique a pensar que sou um aldrabão ou fanfarrão de meia tigela, aqui fica uma fotografia de algumas das minhas gravatas de colecção.
E o que distingue esta colecção de gravatas das demais é o facto de terem todas elas o mesmo motivo desenhado: Camelos ou dromedários.
Comecei-a em tempos pela admiração que tenho pelos camelos e afins: não apenas aguentam muito tempo sem beber como, e ao que parece, aguentam aquilo que muitos de nós não aguentam.
Hoje já não se vendem gravatas na rua, expostas em cima de uma lona, como acontecia há uns anitos valentes. E os caixeiros das lojas de gravatas ficam a olhar para mim de lado, quando lhes peço por gravatas com este tema. Não sei se estranhando o tema se o ser eu a pedir por gravatas. É, assim, difícil hoje aumentar a minha colecção, infelizmente.

Em qualquer dos casos, aqui fica a confirmação: pelo menos no caso das gravatas com camelos e dromedários não minto.

By me 

Fogo



Quantos de vocês que agora manifestam gratidão e solidariedade para com os bombeiros, elogiando-lhes a coragem e dádiva, se lembram deles no resto do ano?
Nem que fosse como pequeno sócio nos Voluntários da vossa freguesia?
Ou contribuindo nos peditórios habituais, ajudando para mais um carro, para mais um equipamento individual de protecção, ou mesmo para cobertores para que, de Inverno, aqueles que esperam nunca serem chamados, tenham uma noite mais cómoda?
Ou nem que seja incluir os bombeiros da vossa zona nos sonhos e projectos dependentes de um eventual Euromilhões?

A solidariedade de sofá e sazonal é bonita. Mas manifestamente insuficiente!

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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

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Tenho vindo a afirmar, ao longo dos anos, que o acto de fotografar ou possuir uma fotografia é, para uma boa parte dos utilizadores, um acto de cobiça e materialização de um desejo, confesso ou não.

Para os que se sentirem incomodados com isto, prometo voltar em breve ao assunto, em tendo tempo e melhor teclado.
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Automatismos? Não, obrigado!



Tive um Tio.
Era eu pequenote quando morreu.
Mas recordo de ele possuir uma agenda de secretária, grande, muito grande para os meus olhos de então, onde ele tinha anotado tudo quanto considerava de importante. E todos os anos lá copiava ele da velha para a nova.
Pois todos os dias, antes de sair de casa pela manhã, consultava ele a sua agenda e dirigia-se à estação de correios ao fundo da rua. Daí, enviava um telegrama de parabéns a quem quer que nesse dia fizesse anos. Mesmo que o ou a não visse há muito.
Um acto deliberado, consciente, trabalhoso e oneroso.
Hoje temos os “Outlooks”, os “E-Mails”, os “FaceBooks” que nos recordam, queiramos ou não, dos aniversários de quem lá conste. E usando da mesma tecnologia de informação e a custo zero, lá gastamos uns 10 a 15 segundos a mandar os tais “parabéns” descaracterizados, frios, impessoais, electrónicos.
Sendo que acho que não deverá ser uma máquina ou um calendário que deva dizer quando me devo divertir ou cumprimentar quem quer que seja, ignoro esses avisos automáticos.
Quanto ao resto, nada melhor que uma festa de desaniversário, para citar Lewis Caroll. Que, por sinal, até foi também um dos grandes fotógrafos do seu tempo.

By me


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Não, não vos vou falar da tragédia dos incêndios. Já muitos disseram o que lhes vai na alma, já muitos acusaram, e já muitos alvitraram.
Mas vou-vos falar de um episódio a dois tempos, esta mesma noite, tendo como protagonista um colega, madeirense.
Assim que tive oportunidade abordei-o, tentando saber se estaria tudo bem com a sua família, directa ou indirecta.
Disse-me que sim, que todos eles residem numa zona não afectada pelos fogos.
Passado um bom pedaço cruzamo-nos (eu e ele) com uma jornaleira. Conversa vai, conversa vem, e vem a lume o ele ser madeirense.
“Eh pah, pois é! Não me lembrei disso!”, disse logo ela. “E não tens uns contactos, pessoas a quem possamos telefonar, da política, residentes, sei lá, alguém que esteja no meio daquilo?”
Nem um só neurónio daquela mulher se preocupou com a sorte dos familiares ou amigos que ele por lá tivesse.

Fiquei esclarecido quanto a esta jornaleira!
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terça-feira, 9 de agosto de 2016

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Quando a senhora e a filha sairam do café, o empregado voltou-se para o único cliente, eu, e observou:
"Depois admiram-se de serem violadas! Andarem assim na rua, quase que nem vestidas, com tudo de fora a provocarem um homem... Sim, porque um homem não é de ferro e quando o provocam desta maneira, a bambolearem-se e com quase tudo de fora... O senhor não acha?"
O senhor, que era eu, não achava e tentou explicar-lhe que o problema não está em quem veste ou não veste mas antes na cabeça de quem vê. Ainda tentei acrescentar o caso dos mulçumanos que obrigam as mulheres a taparem-se em público, rosto incluido, para não provocarem os homens...
Inútil o esforço. Ficou na dele, sólido como uma rocha nos "conceitos morais.
Tal como ficou sem saber o preço de uma operação ao estômago, para lá ir buscar os dentes, que eu mesmo o fazia engoli-los.

Agora digam lá se não sou boa pessoa!
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M.



Se eu me sentisse eticamente liberto para contar todos as histórias ou estórias que me vão acontecendo, sem acrescentar ou inventar o que quer que seja, o que eu teria para aqui contar.
Mas não posso a menos que romanceie, invente, mude nomes e locais, ajeite de tal forma que acabaria mais por ser ficção que realidade. E isso eu não quero.
Mas não me posso esquecer de M., com a vida que leva, os disparates que fez e faz, os pontapés da vida que levou e leva.
E dos encontros nunca previstos e mais que espaçados. Inconsequentes que não sejam em sorrisos e trocas de palavras, por vezes rápidas que outras prioridades existem.
Um dia, quem sabe, e se a ordem natural das coisas se inverter, eu estarei por cá e poderei falar do que sei, do que vi e ouvi, do que suspeito e deduzo.

Até lá, M. e eu continuaremos a encontrarmo-nos quando a sorte o ditar e em trânsito. Ou talvez não.

By me 

domingo, 7 de agosto de 2016

Disciplinas



É sabido que a gente jovem é tanto mais indisciplinada quanto mais criativa for. Suponho que seja a vontade de querer fazer diferente que os leva a não respeitarem ordem ou organização.
É papel do pedagogo saber gerir isso, dando folga ou apertando consoante as ocasiões, e aproveitando essa criatividade em prol da aprendizagem.
Uma ocasião trabalhava eu com uma dessas turmas. Particularmente “criativa”. Os epítetos com que era mimoseada na sala de professores começavam em “terrorista” e subiam de tom numa escala geométrica.
Por mim, a coisa ia andando, umas vezes com maior facilidade, outras nem tanto, mas sempre sem conflitos disciplinares, que a cumplicidade entretanto criada entre nós assim o permitia.
Um dia…
Bem, um dia estava a turma bem mais irrequieta que o habitual. Falamos de gente entre os 15 e os 17 anos e, suponho, as hormonas deveriam estar ao rubro.
Eu bem que chamava por eles, no geral ou nominalmente, levantava o tom de voz ou era mais incisivo no vocabulário. De nada servia. Dois, três minutos depois aqueles e aquelas lá de trás voltavam ao mesmo, perturbando mesmo o trabalho dos restantes. E o meu.
Já quase sem soluções, fiz um gesto que me é habitual: apalpei os bolsos, como se a alternativa ali pudesse estar esquecida. E dei com um objecto meio perdido num dos bolsos do colete.
Comprado havia dias para umas fotografias ainda não efectuadas, um apito como este.
Olhei para ele, guloso e receoso ao mesmo tempo, e pousei-o na secretária a meu lado, enquanto continuava o trabalho com a turma. Volta e meia olhava para ele, o meu lado bom a refrear-me, o meu lado mau a instigar-me. Acabou por ganhar este.
Pegando nele, e enchendo em pleno os pulmões, soprei-lhe bem forte. Muito forte mesmo. Tão forte que me ficaram a doer os ouvidos.
O silêncio que se fez na sala foi apenas comparável ao que talvez exista num sepulcro, com todos a olharem para mim como que não acreditando no que acabara de acontecer.
Num tom de voz um pouco mais baixo que o habitual, perguntei para a geral se poderíamos continuar ou se haveria algum motivo para terminarmos por ali.
Continuámos, naturalmente.
Mais tarde, na sala de professores, todos se perguntavam sobre o que acontecera, já que o bendito apito fora ouvido e bem em tudo quanto é lado. E, apesar das conversas, perguntas e suspeitas, nunca me dei por achado, abrindo a mão e exibindo a arma do crime. 
Naquela turma a coisa funcionou durante uns tempos.
Quando os do costume “se esticavam”, sem mais maldade que a sua juventude, os restantes refreavam-nos com um “Eh pah, olha o apito do stor JC”, meio sérios, meio a rir. E a coisa acalmava, percebendo todos que as loucuras e indisciplinas são saudáveis mas só até certo ponto.
E somos nós que definimos em conjunto qual o ponto que nos convém, no respeito e tolerância recíproca que o vivermos em grupo implica.

By me

O absurdo da formação actual



Por aquilo que leio nos jornais, a quantidade de estudantes no ensino superior está a diminuir devido à crise.
Não poderia estar mais incomodado com isto. Tenho para mim que a formação dos jovens, nos seus diversos graus, deveria ser gratuita para todos. Que haver gente capaz, integrada, profissionalmente sabedora e feliz na vida é uma mais valia para a sociedade. Muito mais que para cada um deles. E investir nas competências profissionais dos jovens (secundário, profissional, superior) é investir no futuro da sociedade.
Haver quem não possa seguir um percurso profissional apenas porque a sua família não tem meios económicos é um tiro no pé que todos fazemos, é um retrocesso civilizacional.

Por outro lado, esta poderá ser uma oportunidade doirada para corrigirmos alguns erros formativos!
Tem-se vindo a alegar, nos últimos quarenta anos, que só se será alguém na vida se se tiver uma formação superior. Disparate absoluto, já que nem todos têm capacidade intelectual para tal. Não se trata de menosprezo por ninguém, mas tão só a constatação de factos. Tal como nem todos têm capacidade para elevar grandes pesos, ou para desenhar, ou para escrever, ou para… Cada um deve procurar o seu futuro profissional à medida das suas próprias capacidades e não em consequência de chavões impostos socialmente.
Acontece, porém, que na sequência destes chavões e na mira de lucros fáceis, têm surgido instituições de ensino (profissional ou superior) quase que em cada vão de escada. Satisfazendo a procura no mercado, mas sem qualidade suficiente para fazer a formação que publicitam.
Justificar tal afirmação? Fácil! A quantidade de jovens que, saídos destas escolas profissionais ou superiores, surgem no mercado de trabalho sem os conhecimentos que deveriam ter depois disso. Teóricos e práticos.
Possuem um diploma, pago e bem pago, mas que pouco mais vale que o papel em que está impresso.
Sair de um curso superior ou profissional na área dos audiovisuais para exercer a captação de imagem (vídeo, cinema, fotografia) entendendo a “regra dos terços” como um dogma inquestionável e sem saber a sua origem histórica ou como isto não é universal, é formação no seu pior aspecto! É colocar os jovens dentro de uma forma, justa e opaca, impedindo-os de verem para além dela, transformando-os em seres meramente executantes de funções pré-programadas e incapazes de evoluir.


Formar jovens para serem exactamente iguais aos seus formadores é, mais que um tiro no pé social, um acto autofágico e demonstrador da incapacidade desses mesmos “formadores” de vão de escada.

By me

sábado, 6 de agosto de 2016

Já dei



Eu sei que é politicamente correcto dizer o quão bonita foi a cerimónia de abertura do Jogos Olímpicos. De como foram magnificentes, de quantos e quão belos eram os participantes, de quão bem organizada estava toda aquela coreografia cheia de significado…
 Não vi!
Sabem: eu estive lá, em Barcelona, em ’92. Estive lá então, apaixonei-me pela cidade e voltei lá amiúde, ainda que não tanto quanto gostaria.
E sei o que vi e ouvi então. E o que vi e me foi contado depois, pelos Barceloneses.
Que as putas e os chulos foram presos; que os ciganos, nómadas ou não, foram liminarmente expulsos da Catalunha; que a mendicidade foi rigorosamente proibida e fortemente reprimida… Vi quatro ou cinco mendigos então e naquele mês e não sei o que era maior: se a fome se o medo, naqueles rostos esqueléticos e sujos.
O luxo e a exuberância dos Jogos, o mais mediático evento “desportivo”, transformaram um evento que era um apelo à paz e à união entre os povos numa competição feroz de poder e ostentação, deixando de fora, bem escondidas (ou nem sempre) as misérias nacionais. Ou as vergonhas nacionais, que ainda não esqueci a operação de cosmética política em Sidney, no que toca às relações da comunidade branca com os Aborígenes.
Faço a justiça de acreditar que os jornalistas presentes terão aproveitado as longas horas do evento para ir denunciando com maior ou menor clareza o que se passa em redor dos jogos em termos políticos, económicos e sociais. As misérias que se vivem e as imposições policiais existentes. Não os ouvi.
Que, pese embora as diferenças culturais e geográficas, não serão por certo muito diferentes das dos nossos vizinhos há quase um quarto de século.


A bem organizada mediatização e globalização dos jogos faz com que todos os vejam e façam deles um exorcismo às nossas próprias misérias. Mas para essa religiosidade do politicamente correcto já dei!

By me