sexta-feira, 1 de abril de 2016

Arquivos



O meu projecto “Oldfashion” decorreu entre 2006 e 2009.
Com uma câmara construída por mim, imitando vagamente as à-lá-minuta, fui estando no Jardim da Estrela durante esse tempo e sempre que os meus horários de trabalho e as condições atmosféricas permitiam.
Do ponto de vista prático, fotografava quem me pedia para tal. Sem nunca propor o acto de fotografar a ninguém. E as fotografias eram entregues gratuitamente.
Durante esses três anos, muitas coisas quebraram a rotina daquele jardim: feiras, festas, festivais, casamentos, rituais iniciáticos estudantis… aconteceu de tudo um pouco com quase todo o tipo de gente.
Mas a maioria do tempo o Jardim da Estrela foi um jardim pacato, onde se ía passear ou estar, frequentar uma das esplanadas, andar de bicicleta ou de patins, levar as crianças de colo a apanhar sol e aprender a andar, queimar o tempo entre aulas e conviver, namorar, atalhar caminho… Um jardim igual a todos os outros, não fora a enorme diversidade de gente que o frequentava.
Ainda hoje é assim.
Durante esses três anos fiz mais de um milhar de fotografias enquadradas nesse projecto e muitas mais fora dele. Conversei com todos os fotografados (isso fazia parte do projecto) e com muitos mais que apenas se abeiravam ou passavam. E vi muitas, muitas mais pessoas e situações que em nada interagiram comigo ou com a minha câmara: pessoas que passavam ou que apenas estavam, pessoas de todos os estratos sociais, idades, origens…

Nas últimas três semanas aconteceu algo de curioso: por três vezes e em locais diferentes reconheci gente, ainda que sem saber de onde. Entabulando conversa, chegámos à conclusão que essas três pessoas eram então frequentadoras do Jardim da Estrela, ainda que nunca tivessem sido fotografadas por mim. Gente que, estudando por perto, usava o jardim como ponto de encontro social ou trajecto de ou para a escola ou universidade. É interessante ver como não se me apagaram da memória, mesmo que fossem gente de passagem e sem contacto directo.
Pergunto-me quantos mais retratos equivalentes terei no meu arquivo neural.


Na imagem – A minha câmara, num dos dias de feira do Jardim.

By me

Sem comentários: