domingo, 29 de novembro de 2015

Um olhar - talvez Maria, a estudante



Atravessou a rua, deixando para trás os seus amiguinhos, direita a mim.
- Olhe, dava-me um cigarro?
Olhei para a sua juventude e, segurando a câmara na mão esquerda e o cigarro acesso na direita, perguntei-lhe:
- E já tens idade para fumar?
- Faço dezassete anos para o mês que vem! – respondeu-me, não sei se mentindo se não.
Olhei-a de alto a baixo, dei-lhe o benefício da dúvida e atirei-lhe:
- Troco! Um cigarro por uma fotografia dos teus olhos!
Riu-se. Um riso que ficava algures entre a surpresa e o nervosismo.
- Uma fotografia dos meus olhos? Uhhhhh…. Pode ser!
Dei-lhe o cigarro, posicionei-a na melhor luz, olhei para câmara, afinei-a e, quando levantei os olhos, quase que tive que lutar para fazer o que aqui se vê. Os seus amigos tinham atravessado a rua e, p’la fé de quem eram, haveriam de ficar na fotografia também.
Mas não! O negócio tinha sido com ela e apenas dela haveria de guardar o olhar.

O que não guardei foi o seu nome, que no meio da confusão que se gerou nem tive oportunidade de o inquirir. Talvez seja Maria, a Estudante.

By me

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De súbito apercebo-me que a palavra hipocrisia começa exactamente pela mesma letra que humanidade.

sábado, 28 de novembro de 2015

Pôr-do-sol (mais um)



Aqueles que vão vendo as imagens que vou fazendo e, quiçá, lendo as palavras que vou escrevendo, sabem que tenho uma especial predilecção pela luz que vem do lado de lá. Do lado de lá da linha de ombros, do lado de lá da boca de cena, do lado de lá do assunto.
É este o tipo de luz de que gosto e que concebo, concretizo e uso inúmeras vezes. Nem sempre, porque nem sempre se aplica, mas uma muito grande parte das vezes.
Mesmo quando a luz não é controlável por mim, porque estou num local público ou porque provem do sol, procuro inconscientemente essa solução, pondo-me de frente para ela.
Mas sendo certo que procuro esta luz porque gosto de ver e mostrar os contornos acentuadamente, por gosto de sentir a opacidade e a translucidez do que fotografo, porque gosto de “ver através de”, indo para além da superfície reflectora dos assuntos, mesmo num pôr-do-sol é isso que procuro.
A situação convencional de o sol no horizonte, com ou sem nuvens, com ou sem silhuetas marítimas, campestres ou citadinas, não me satisfaz.
Um pôr-do-sol, para mim, para além do que acontece lá terá que ter algo cá. Um primeiro plano forte ou nem tanto, opaco ou translúcido se possível.
Não apenas reforça essa minha preferência como ajuda a colocar o espectador naquele ponto exacto onde estive, vendo exactamente como vi.

E é importante fotografar um pôr-do-sol? Nada importante!
Até porque, convenhamos, será o fenómeno natural mais fotografado desde que a fotografia é fotografia.
Mas eu não fotografo para que seja importante. Ou diferente.

Limito-me a fazer o registo visual daquilo que me aqueceu a alma. Deixo a originalidade e a competição para os que entendem que ter um lugar no pódio da vida é vital para a sua sobrevivência.

By me 

A linha do tempo



Temos a largura, a altura e o comprimento. E inventamos maneiras e processos de subir mais alto, de viajar mais longe, de controlar a nossa largura.
Mas sobre a quarta dimensão pouco mais podemos fazer que constatá-la. Sobre o tempo, podemos medi-lo, podemos saber o que existe numa das semi-rectas cuja origem é o instante em que nos encontramos e cujo prolongamento é o passado. Sobre a outra, sobre o futuro, mais não podemos fazer que especular, supor, desejar.
Mas talvez porque sobre o futuro não temos certezas, procuramos ter todas as possíveis sobre o passado. É uma espécie de monomania da humanidade, o saber o que aconteceu. E a isto chama-se História. Que tanto existe enquanto ciência e investigação quanto por curiosidade individual.
Esta preocupação sobre a Historia prende-se, creio eu, com a necessidade de sabermos o que somos ou porque somos. E vamos buscar no passado e às raízes da humanidade ou às árvores genealógicas os argumentos que nos definem ou caracterizam. Como povos, civilizações, pessoas ou famílias.
Claro que também é ao passado que vamos buscar as bases das regras sociais, as que definem relações e comportamentos. Porque, se no passado eram regras e métodos que deram certo, mantenhamo-las. Que inventar ou inovar dá trabalho!
E se nas civilizações mais antigas, solidamente instaladas na linha do tempo e do espaço, esta procura do saber não tem foros de preocupação, naquelas outras que resultam da fusão de povos por migração ou colonização, pode ser uma obsessão.
Saber quem foram os pais, avós, bisavós, qual a linhagem, se ainda há parentes vivos por lá, de onde se descende, é uma afirmação ou resposta comum, como que uma identificação social. E não o saber acaba por ser, em muitos casos, uma pesquisa a efectuar.

Em tempos conheci uma senhora via web que tinha como objectivo na vida o encontrar os vestígios da sua origem. Nascida no Brasil, havia que procurar por cá, Portugal, de onde tinham ido os antepassados.
De alguma forma colaborei nessa investigação, sem mesmo sair daqui do computador, e vim a encontrar referencias que remontavam ao reinado de D. Sebastião e a sua expedição africana.
Por outro lado, conheço alguém cuja relação com a história e raízes é exactamente a oposta.
Tendo também nascido no Brasil, possui um antepassado oriundo de terras lusas. Questionado sobre de onde, soube dizer, depois de evitar a pergunta, que nem desconfiava, já que ele tinha rumado para lá na condição de degredado.

O orgulho ou o seu oposto – a vergonha – nos que os antepassados foram ou fizeram repercute-se na pele de cada um. Uma espécie de continuo do tempo, como se fossemos a perpetuação da glória ou delito do passado. A mácula do pecado original ou o orgulho do povo eleito.
Mas se o espaço não é modificável, que uma distancia é uma distância, também o tempo é imutável. E o importante no caminho que fizemos – nós mesmos ou os antepassados – é com ele aprendermos e, na nossa própria viagem ou da dos vindouros, evitarmos repetir os erros e melhor contornarmos os escolhos.

Até porque a luz alumia-nos o caminho à frente, não importando muito as sombras atrás de nós.

By me

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

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A vida é uma aula, da qual não há toque de saída!

By me

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Pergunto-me se o novel governo terá a coragem política de acabar com essa vergonha chamada “factura da sorte”.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O medo



Vivemos com o medo, do medo e para o medo.
Temos medo da carência económica, da falta de saúde, da criminalidade, do desconhecido, das catástrofes naturais, do pecado, dos acidentes de viação.
E, porque temos medo, entaipamo-nos, vigiamo-nos, protegemo-nos. E construímos altos muros farpados, refugiando-nos atrás deles e afirmando estarmos livres e seguros. Dentro de muros!
Claro está que há quem tire lucro dos nossos medos. As polícias, os farmacêuticos, as igrejas, os exércitos, os políticos. Vêm ter connosco e dizem-nos: “Temei, oh gente, que o perigo espreita! Mas regozijai-vos, oh crentes, que nós aqui estamos para vos proteger!”
E nós vamos comprando as mezinhas, permitindo as devassas, engrossando as fileiras, pagando os dízimos e votando em quem afirma que fará ou que faria se.
Àqueles que não o fazem, que dizem não ter medo e que não alimentam os negócios do terror, chamamos nós (eles) de inconscientes, de loucos, de ingénuos, de perigosos agitadores. E marginalizamo-los, prendemo-los, drogamo-los, eliminamo-los da temerosa convivência social.
Claro está que, em tendo medo e em havendo como o minimizar, o medo desaparece e, com ele, o negócio de quem vive e lucra com o nosso medo.
Assim, há que manter, alimentar, reforçar o medo individual e colectivo. Mantendo-o naquele ponto exacto em que não desesperamos mas vamos entregando o que nos pedem para não o ter. E pagamos, permitimos, engrossamos, acreditamos, votamos.
Para manter este nível de medo, temor ou terror, esta ponte entre quem o tem e quem o apazigua, existe uma outra actividade que se alimenta das duas partes: a comunicação social. Procuram as razões para ter medo, divulgam-nas, incentivam-nas. Os vendedores de tranquilidade agradecem e retribuem, fornecendo-lhes as notícias que divulgam, e os temedores, que vão alimentando os seus medos e sossegos com as notícias que lêem, vêem ou escutam, vão consumindo os media. O único medo que os media têm é não haver motivos para ter medo!
O medo é tão velho quanto a outra profissão! E, mesmo que não saibamos em concreto o que está atrás da porta do bordel, vamo-nos prostituindo todos os dias, alimentando os fazedores de medo, cedendo na nossa liberdade e convicções em troca de uma aparente segurança.
Aparente porque não a queremos, aparente porque não a permitimos, aparente porque inconveniente.
E, cada vez mais, os oficialmente chamados terroristas têm o trabalho facilitado. Que as indústrias, os exércitos, as igrejas e os políticos fazem, e bem melhor, o trabalho por eles.
Que os reais atentados, à bomba, a tiro ou de colarinho branco, são cada vez mais inúteis. Basta, no seu lugar, que se diga, que se sussurre, que se sugira que podem acontecer. E o terror virtual instala-se, para gáudio e proveito de quem dele se alimenta.

Entretanto, nós continuamos a viver com o medo, do medo e para o medo!

By me

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Amanhã



Vejamos as coisas como elas são: todos os anos são especiais, com acontecimentos de relevo que tornam o conjunto dos doze meses algo a recordar. Uns mais, outros menos.
No entanto, este ano de 2015 tornou-se realmente especial, apesar de ainda não ter acabado. Pelo menos no que concerne às coisas do colectivo, da sociedade, do país.
Quando não, vejamos:
- Pela primeira vez temos um deputado eleito que necessita de uma cadeira de rodas para se deslocar. Uma vitória de toda a sociedade.
- Pela primeira vez desde a revolução caiu um governo de acordo com a vontade da grande maioria dos portugueses.
- Pela primeira vez as renovações geracionais no campo político-partidário funcionaram, pondo de parte velhérrimas e quase fúteis divergências em prol dos interesses do país.
- Pela primeira vez aconteceram duas manifestações opostas, uma a favor do governo, outra a favor da oposição, ao mesmo tempo e quase no mesmo espaço. Pacificamente como compete à democracia.
- Pela primeira vez teremos no governo alguém de pele preta. Algo impensável ainda não há muito tempo e uma vitória de toda a sociedade.

Os anos que virão serão – esperemos – bem melhores que este.

Mas 2015 ficará na história do país como um ano de viragem. Pela positiva.

By me 

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Fontes geralmente mal informadas indicam uma notável encomenda de sais de frutos para uma moradia de grande porte com vista para o rio Tejo.

Já a ordem dos batraquios decretou três dias de luto nos sapais nacionais.
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- Acorda!
- Não quero!
- Vá lá! Tens que te levantar.
- Não quero. Só mais um bocadinho.
- Vamos embora! Tens que sair da cama!
- Dá-me três boas razões para me levantar agora.

- São seis e meia! Tens que ir para a escola! És o director da escola!
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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A máscara



É o medo, caramba!
É o medo, alimentado pelos grandes, que vai mantendo os pequenos calmos e mansos.


No entanto, saiba-se que os grandes só o são porque estamos de joelhos!

By me

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Esta foi uma noite bem difícil.

O raio do barulho da queda de temperatura…!
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Pudor



É uma palavra que todos conhecem mas da qual raramente nos lembramos. Um destes dias ouvi-a num contexto curioso e fiquei com ela na cabeça.
Era a palavra que me faltava e que melhor descreve alguns dos meus sentimentos.
Tenho pudor em fazer certas fotografias.
Há 37 anos que faço televisão. Comecei ainda no tempo do preto e branco e da aventura do início da cor. Cem por cento, menos umas milésimas de unidade, das imagens por mim captadas, registadas e transmitidas foram de ou com seres humanos.
No estúdio e no exterior, dentro e fora do país, anónimos ilustres e ignóbeis figuras públicas, ou qualquer outra combinação. Como entenderem.

Em todas elas, de uma forma mais ou menos explícita, existiu uma cumplicidade no fazer dessas imagens. A câmara estava lá, bem visível, e o cidadão sabe que eu estou lá, o que estou a fazer e para quê. Uns exibem-se e quase que pagam para constar no registo ou transmissão, outros são apanhados ao correr da objectiva, mas nada há de sub-reptício.
Além do mais, mercenário que sou da imagem televisiva, não me sinto eu, enquanto indivíduo, a fazer aquelas imagens. Faço parte de uma equipa, de uma organização. A minha co-responsabilidade na captação e utilização das imagens que faço é limitada. Ainda assim, alguns escrúpulos que tenho tido ao longo dos tempos, têm-me trazido alguns amargos de boca.
Já enquanto fotógrafo a minha atitude tem sido diferente.
Raramente fotografo pessoas desconhecidas ou anónimas. Pelo menos ao ponto de estarem em evidencia no enquadramento ou de serem reconhecíveis.
Os trabalhos que tenho feito a pedido (não gosto do termo profissional) têm sido na área do teatro, da publicidade e da arquitectura, passando ao de leve pela reportagem.
Nestas circunstâncias, as figuras fotografadas fazem parte do evento e querem “ficar no boneco”.
Mas, sendo o Homem aquilo que quero retratar nas minhas imagens pessoais - aquelas que faço para minha satisfação exclusiva -, procuro fazê-lo sem que conste explicitamente delas.
Aquelas imagens de instantâneo – uma expressão, um gesto, um evento – que poderia fazer para meu prazer e deleite, não as faço. Tenho pudor!
Com conhecidos, próximos ou não tanto, sou mais atrevido. A cumplicidade existe, as pessoas em causa sabem o que sou e o que faço e, se bem que possam não “se fazerem à fotografia”, sabem que ela pode acontecer e comportam-se mais ou menos em conformidade.
Agora os estranhos, aqueles que apenas me conhecem de vista ou nem isso, vivem a sua vida ignorantes da possibilidade de eu os poder fotografar. São o que são, sem reservas, acanhamentos ou exibicionismos, alegres, tímidos, carinhosos ou bem pelo contrário, inconscientes que um gesto, uma expressão, pode ficar registada para todo o sempre.
Da mesma forma que não espreito ou fotografo para dentro de janelas alheias, também tenho pudor em o fazer quando estão da parte de fora delas.
Esta minha atitude e sentimentos é tanto mais forte quanto mais “frágil” é a pessoa ou situação em causa. As misérias, materiais ou outras, tantas vezes vistas em espaços públicos, estão ali porque não podem estar em qualquer outro local privado.
Os pedintes, vagabundos, sem abrigo, catadores de lixo, para não citar todos, são-no, estão-no e fazem-no não por vontade própria mas como último recurso, muitas vezes já sem pudor algum porque não se podem dar a esse luxo. A seguir a este degrau…
Se eu soubesse, com certezas ou alto grau de probabilidade, que o eu fazer estas imagens iria de alguma forma melhorar-lhes a vida – na auto-estima, na fome, na saúde ou no conforto – esta minha invasão das suas intimidades públicas poderia fazer algum sentido.
Mas eu sei que do meu acto de fotografar nada de diferente lhes acontecerá. Apenas ficarei com mais um troféu de caça na minha galeria que, eventualmente, exibirei dizendo: “Vejam o que eu vi, sintam o que eu senti!”
Poderão dizer os fotojornalistas: “Mas uma das missões nobres do nosso ofício é denunciar as misérias do mundo e tentar com isso melhorá-lo!”
É verdade que sim! Tal como eu o faço com a minha câmara de vídeo, que é o meu ofício.
Mas as minhas fotografias não se destinam a nenhuma publicação, de pequena ou grande tiragem. Faço-as porque me dá prazer fazê-las e, raramente, exibi-las, se as entendo como capazes e se me apetecer.
Se, de alguma forma, as imagens que faço e exibo podem melhorar o mundo, não sei, ainda que o tente. Mas prefiro fazê-lo mostrando os objectos, a luz, as atmosferas, as consequências e as causas e não as pessoas em si mesmas, não violando a sua privacidade pública.
Há uma palavra que define o que sinto e que me inibe de fotografar amiúde desconhecidos:

Pudor!

By me

domingo, 22 de novembro de 2015

D'arquivo



Eu sei que é d’arquivo, mas há coisas bonitas que se recomenda contar de novo.


O exemplo típico da “sopeira”, passe-se a expressão: trabalhou toda a vida como empregada doméstica, casou com um soldado que conheceu no Jardim da Estrela, enquanto passeava os filhos do patrão.
Toda a conversa surgiu por ter sido mais ou menos ali que conheceu o futuro marido, por ter sido mais ou menos ali que fizeram a primeira fotografia juntos… Mas tinha algum receio em fazer uma agora já que, e nas suas palavras:

“Sou feia! Agora sou feia! Mas quando era nova, valha-me Deus, não podia dar um passo fora de casa que não estivesse guardada! Olhe, até doutores de lei e de medicina namorei. Houve um – eu até gostava de ir à televisão contar a história ao Artur Agostinho – que era juiz de direito e não me largava.
Trabalhava eu na casa de uma patroa, ali em Campo de Ourique. Era ela e a filha, já mulher feita.
Uma vez, já ao fim do dia, diz-me a patroa para ir ali, à taberna, buscar vinho que já não havia para o jantar. Eu pus a garrafa num saco de pano e vim à rua. A taberna era como que daqui ali, umas quatro portas de distancia.
Mas do outro lado do passeio estava o juiz. Queria falar comigo, que eu fosse com ele e eu que não, que as patroas estavam à espera do vinho para o jantar. Mas tanto insistiu, tanto teimou, que acabámos por ir de eléctrico até à estrela. Está a ver: o eléctrico a andar devagar, as patroas à espera e nós à conversa. Foi o ir e o vir. Uma demora!
Quando voltei a casa, já com o vinho, ia cheia de medo da patroa. Mas lá inventei, fazendo-me de zangada, que na taberna não havia meio de me atenderem, que só estavam a ouvir o relato. E eu a querer o vinho e eles a ouvir o relato do Artur Agostinho. E eu sem saber se havia ou não jogo ou relato! Mas a filha lá me safou, dizendo em voz baixa para a mãe que sim, que estava a dar um relato na telefonia e que até tinha ouvido quando marcaram um golo.
Depois de lhes servir o jantar, vim espreitar devagarinho atrás das cortinas para a rua. O juiz ainda lá estava, ora olhando para as janelas, ora olhando para a porta, andando de um lado para o outro.
Sabe, depois fiquei a pensar e é que percebi. O que ele queria era que eu fosse despedida logo naquela noite para me por conta num quarto que já tinha alugado, ali à Graça. É que, naqueles tempos, nem um beijinho podíamos dar na rua. E ele sempre era um juiz, mais velho, casado e tudo!
Depois, já a trabalhar noutra patroa, acabei por encontrar o meu homem. Já morreu, coitado!
Agora estou feia. Mas naquele tempo, benza-me Deus, nem podia vir à rua!”

Este relato é fiel ao que ouvi. Tão fiel quanto o é possível, escrito umas duas horas depois de ouvido.
Mas enquanto vai escorrendo a tinta no papel, vou-me perguntando como o irei ilustrar. Tenho dela duas fotografias, uma à-lá-minuta, outra um retrato à minha maneira, com a reflex. Que, olhando para ela, ainda que com idade avançada, se lhe reconhecem nas feições e no corpo a beleza que tinha e tem, testemunho ainda iluminado do brilhante que foi na juventude. Acredito que de fazer parar o trânsito.
Mas sinto pudor em aqui e assim a exibir. Estas estórias de antanho, assim contadas a um estranho, fazem parte do seu tesoiro de vida. Que ela almeja contar no ecrã. Espero que o possa fazer, na primeira pessoa, que não serei eu que ligarei relato com rosto.

Fiquem apenas a saber que foi aqui que mo contou. Não importa quando!

By me

Pequenas delicadezas



By me

sábado, 21 de novembro de 2015

UMA PEÇA EM TELEVISÃO À PORTUGUESA




O tempo apaga as memórias. As dos neurónios e as da matéria.
Felizmente, há quem vá fazendo alguns arquivos do que lhe vai passando pela frente.
Com um especial agradecimento a um ex-companheiro de equipa, de trabalho e de outras lides, que a guardou e agora ma lembrou, aqui fica uma diatribe minha, datada de 1980, publicada então num não periódico semi-clandestino, de seu nome “Clise”.

UMA PEÇA EM TELEVISÃO À PORTUGUESA

Personagens:
- Uma equipa técnica
- Uma equipa de realização
- Uma companhia de teatro
- Figurantes vários

Cenário:
- Um estúdio de televisão

I acto

Realizador – Veja se já podemos tirar testes para ensaiarmos.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Já podemos tirar testes? Não? Só mais dez minutos? Tá bem! Nós esperamos.

(20 minutos mais tarde)

Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Já podemos tirar os testes? Já? Óptimo (Desliga o telefone) A VT está pronta.
Realizador – Meus senhores, vamos ensaiar. Mete a 1! 2! 3! Mixing à 2! 1! Pára! Câmara 2: nesta altura o plano tem que ficar mais aberto para acompanhares o actor. Certo? Bom! Recomecemos. Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! 2! Não! Esperem! Aqui não pode ser a 2. Câmara 3: Neste plano vais um pouco mais à esquerda e enquadras os actores. Isso! Recomecemos. Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! … 3! 2! Fade out! Está pronto! Vamos gravar! Manda arrancar a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Arranca!... Já está! Atenção à claquete! Take 1, 1ª vez! Atenção às ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! 3!... 2! 1! 2! Então! A campainha não toca? O que se passa?
(Voz do assistente vinda do estúdio) – Deve estar avariada...
Era um fio solto! Já está pronta.
Realizador – Bom! Manda arrancar a VT! Ela que apague!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! … Já está? Atenção claquete: take 1, 1ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! 3!

(Triim! Triim! Triim!)

Anotadora – Sim? Como? Os níveis de áudio estão a chegar muito baixos? Só um momento? (Para o operador de som) A VT queixa-se que os níveis chegam muito baixos! Propõem que mudes de via para lá.
Operador de som – Bom! Vou ver o que posso fazer.

(10 minutos mais tarde)

Operador de som – Pergunte à VT se os mil ciclos já estão a chegar em boas condições, por favor.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Perguntam se os mil ciclos já estão a chegar em condições... Estão? Bom, então arranca. Atenção claquete: take 1, 1ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1!
Actor A – BLÁ! BLÁ! BLÁ! BLÁ!
Actor B – BLÁ BLÁ BLÉ... Pára! Pára! Enganei-me no texto. Podemos recomeçar?
Realizador – Sim! Sim! Manda apagar e arrancar a VT.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! … Já está? Atenção claquete: take 1, 1ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! 3! 1! 2!... Então? … O que é lá isso? Manda parar a VT! Câmara 3: cuidado com esse avanço que entraste no campo da 2! Atenção a isso, heim! Apaga e arranca a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) Apaga e arranca!... Já está? Atenção claquete: take 1, 1ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 1! 2! 3! Mas … Que é isto? Quem foi o idiota que abriu a porta do fundo? Não sabem que não podem abrir aquela porta? Façam favor de fechar a porta atrás do ciclorama. (Para a Anotadora) – Manda apagar e recomeçar.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! Já está? … Atenção claquete: take 1, 1ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! 3! … 3! 2! Fade out! Manda parar, que vamos ver!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Pára e passa para vermos!

(Decorre o visionamento)

Realizador — Meus senhores: vamos gravar outra vez! Manda arrancar a VT!
Anotadora— (Triim! Triim!) VT? Arranca! Já está?... Atenção claquete: take 1, 2ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador — Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Pára! Pára! Áudio: Entrou a girafa! Não se pode evitar isto? Caramba! Já estamos mais que atrasados!
Operador de som — Bom, eles estão a falar realmente baixo, mas vamos ver o que podemos fazer.
Realizador — Manda apagar e arrancar!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! Já está? … Atenção claquete: Take 1, 2ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! …

(Triim! Triim!)

Anotadora –Sim! Como? A máquina avariou? Tá bem! Nós esperamos. (Para o Realizador) – A VT entupiu, temos que esperar!
Realizador – Meus senhores: A Videotape avariou! Vamos aproveitar esta pausa para um intervalo de meia hora. Recomeçamos às 4 e meia em ponto.

(Às 16.45)

Realizador – Veja se a VT já está pronta.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Podemos começar? Podemos? Óptimo! Só um momento! Podemos arrancar!
Realizador – Então que arranque!
Anotadora – Apaga e arranca. Já está? Atenção claquete: take 1…
Voz do assistente — Só um momento que um dos câmaras foi levantar senhas e ainda não voltou! Parece que há uma grande fila.
Anotadora – VT? Temos que esperar mais um pouco.

(Quinze minutos mais tarde)

Voz do Assistente – O estúdio está pronto.
Realizador (Para o microfone de ordens) – Então isto é que são horas de se voltar de um intervalo? Sabe que temos estado à sua espera?
Voz do Operador – Pois sim, desculpe, mas sabe que hoje é o último dia para se levantar as senhas e estava lá uma fila enorme. Sabe como estas coisas são....
Realizador – Pois sim. Manda arrancar a VT.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Podes arrancar! Já está? … Atenção claquete: take 1! 2ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! 3! 1! 2! Abre um pouco! Abre 2! 1! Câmara 2, abre o plano! 3! Câmara 2, está a ouvir? Abre! 3! Não! PÁRA!... O que é que se passa? Como? Tem os auscultadores avariados? Chefe de equipa! Providencie para que a câmara 2 tenha uns auscultadores a funcionar! Que raio de casa esta, heim! Manda parar a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Pára!

(Quinze minutos mais tarde)

Realizador – Já tem os auscultadores? Óptimo! Meus senhores: vamos recomeçar. Manda arrancar a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! Já está? Atenção claquete: take 1, 2ª vez. Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Mete a 1! 2! 1! 3! Mixing à 2! 1! ...3! 2! Fade out ! Manda parar a VT! Vamos ver.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Pára! Vamos ver. Sim?

(Decorre o visionamento)

Realizador – Vamos ensaiar o take 2! (desce ao estúdio)

(20 minutos mais tarde)

Realizador – Meus senhores: Vamos gravar!
Iluminador – Ainda não! Como é um novo cenário, ainda não tenho a luz pronta. É só mais um pouco.
Realizador – Então vamos depressa, que já estamos atrasados.

(Quinze minutos mais tarde)

Iluminador – Estamos prontos!
Realizador – Até que enfim! Manda arrancar a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Arranca! Já está?... Atenção claquete: take 2, 1ª vez Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Fade in à 2! 1! 3! Mixing à 1! Mixing à 2! 3! 2! 1!
Som – Está alguém a martelar no estúdio. Temos que parar!
Realizador – Assistente, vê que barulho é esse. Estamos a gravar, bolas!

(Cinco minutos depois)

Assistente – Era lá fora. Prometeram não martelar mais.
Realizador – Bom. Manda arrancar a VT.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca!
Som – Esperem um momento que está a passar um avião.
Anotadora – Está VT? Não arranques!
Realizador – Pronto, já passou. A VT que arranque.
Anotadora – VT? Arranca! Atenção claquete! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Fade in à 2! 1! 3! Mixing à 1!

(Neste instante entra um senhor, extraordinariamente bem vestido, com um sorriso primoroso, acompanhado de uma trupe de crianças, em visita de estudo aos estúdios)

Realizador – 2! 1! Mas... Mas... Que é isto? PÁRA! PÁRA! Manda parar a VT! Então isto é que são horas de se visitar um estúdio?
Senhor bem vestido – Como lá em baixo me disseram que estavam em ensaio, eu pensei...
Realizador – Claro! Que não incomoda, não é assim? Pois agora que já incomodou, vejam à vontade! Nós esperamos!

(Dez minutos mais tarde)

Realizador – Bom! Já não era sem tempo que se fossem! Arranca a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! Já está?... Atenção ventoinhas! Atenção claquete: take 2, 1ª vez!
Chefe de equipa – Desculpa, mas olha que estamos no fim do horário. Há pessoal que tem que se ir embora.
Realizador – Mas… Não me façam uma coisa dessas! São só mais cinco minutos! Olha que este take é pequeno!
Chefe de equipa – Eu não tenho problemas. O pior é que há uma pessoa lá em baixo, que tem que se ir embora. Só se o fores convencer.
Realizador – Realmente, falta tão pouco... Eu vou lá abaixo! Manda parar a VT.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Pára!

(15 minutos de discussão mais tarde)

Realizador – Bom! Ele acedeu. Vamos ver se nos despachamos. Manda arrancar a VT!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca…
Controlo – Atenção à cara do actor! Está a transpirar. Tem a cara a brilhar muito!
Realizador – Manda parar a VT! CHAMEM A CARACTERIZAÇAO! JÁ DEVIAM TER VISTO ISTO! É SEMPRE À ÚLTIMA HORA QUE ESTAS COISAS ACONTECEM!
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Pára!

Voz do Assistente, dez minutos mais tarde — Já estamos prontos.
Realizador – Manda arrancar a VT.
Anotadora – (Triim! Triim!) VT? Apaga e arranca! Já está?... Atenção claquete: take 2, 1ª vez! Atenção ventoinhas!
Realizador – Tira claquete! Fade in à 2! 1! 3! Mixing à 1! Mixing à 2! 1! 3! 1!
Controlo – Atenção: A câmara 2 avariou! Está muito calor no estúdio!
Realizador – Está bem! 1, chega-te à esquerda! Mete a 3! 1! 3! Abre! 3! 1! 3! Fade out! Vamos ver.
Anotadora – (Triim! Triim) VT? Pára! Vamos ver.

(Decorre o visionamento)

Realizador – Meus senhores: acabaram os trabalhos! Muito obrigado pela colaboração!

(Neste momento, entram na régie cinco pessoas, todas de bata branca e de esplêndido físico. Uma delas, que tem um estetoscópio ao pescoço, diz) – Meus amigos: Acabou o tratamento! Vamos todos voltar à enfermaria para dormirmos um rico soninho! Vamos?

Fim do I acto

II acto (Leia-se o I acto)



Se o texto tem 35 anos, a fotografia uns três ou quatro. Mas bem que poderiam ser contemporâneas, então ou agora.


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Códigos



Vivemos num mundo de imagens. Algumas bem claras e inequívocas, como a fotografia, o cinema e o vídeo. Outras, meros códigos ou convenções, como os sinais de trânsito ou os ícones informáticos. Outras ainda de interpretação nem sempre imediata, como é o caso dos logótipos comerciais.
De uma forma ou de outra, este produzir e consumir imagem tem por objectivo a simplificação da comunicação. Dentro da linha de “uma imagem vale mil palavras!”
E a evolução e a complexidade da tecnologia também assim o impele e obriga. Quem se recorda  dos computadores e das linhas de comando complexas, com palavras, letras e sintaxe rigorosas? Hoje o consumidor banal desconhece-as, usando tão só imagens e códigos visuais coloridos. Tal como noutras máquinas, os painéis de controlo são essencialmente compostos de símbolos e ícones, no lugar de palavras ou letras. Gradual mas firmemente, a imagem vai substituindo a palavra escrita.
E se isto sucede nos comunicadores formais de grande volume (industriais, media, audiovisual), sucede também com os comunicadores de pequeno porte mas a quem se destinam os primeiros: os consumidores individuais.
A tecnologia da imagem (fotografia, vídeo, infografismo) está ao alcance de quase qualquer um nas sociedades ocidentais, sendo que a sua posse e uso se torna quase que um símbolo de posição social, tal como o automóvel ou a marca de roupa que se veste.
A própria comunicação escrita convencional – a palavra – está a sofrer mutações. A técnica vai permitindo substituir as palavras e letras por símbolos gráficos – ícones de emoção, animados ou estáticos. Ou, mais simples ainda e menos tecnológico, a quantidade de letras usada na escrita vai diminuindo, com siglas, contracções e aglutinações.
De uma forma ou outra, a sociedade tecnológica e de consumo em que vivemos nos chamados “países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento”, a palavra escrita vai definhando em favor da imagem ou do grafismo visual.
Indo ainda mais longe e fazendo futurologia radical, estou em crer que dentro de algumas gerações (quatro, cinco, seis?) a escrita como a conhecemos hoje será um atavismo, usada apenas por lentes e estudiosos. Talvez também em documentos formais ou oficiais.
Esta hipotética evolução que antevejo não é nem boa nem má: é evolução. Mudanças nos hábitos e culturas, levadas a cabo pela tecnologia e globalização, tal como os copistas monásticos e os iluministas o foram com o advento da imprensa.
Mas, no meio de tudo isto, nesta sociedade em mutação baseada na imagem e comunicação, falha um aspecto vital: a preparação dos cidadãos.
A formação académica de base, de crianças e jovens, baseia-se nas letras e palavras, que ainda é a base actual da comunicação.
Mas não os prepara para saberem produzir ou consumir imagens. Prepara-os para saberem interpretar um texto escrito (por um romancista, jornalista ou um formulário) mas não para saberem ler uma fotografia, interpretarem um filme ou vídeo, descodificarem publicidade. E se não o souberem ler, interpretar, descodificar, serão estes agora jovens futuros adultos analfabetos. E serão alvos fáceis para os que, em sabendo-o, usem desse conhecimento em favor dos seus interesses económicos, políticos, ideológicos de qualquer género.
A cultura dos códigos iconográficos e da imagem está já aí! Sem que a maioria de nós de tal se aperceba. E um povo ignorante, inculto, desatento, é o sonho de qualquer governante, magnata ou líder religioso:

Dócil e obediente!

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Antevisão meteorológica minimalista



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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Fedon



Processo de representação gráfica efémero, pelo menos efémero enquanto popular, foi o da miniatura.
Em medalhões, broches, tampas de relógios e mesmo em anéis, os abastados ou não tanto traziam consigo a imagem de quem gostavam ou diziam gostar.
Em desenho de traço ou silhueta, pintada ou gravada em laca, esmalte ou prata, foi o antecessor da fotografia no que toca ao retrato portátil.
A sua divulgação surge nos finais do séc. XVIII e foi rapidamente ofuscada pelo novo processo - a fotografia – supostamente fiel e muito iconográfico. E mais barato.
Depois das primeiras experiências e invenções, bastava ser rigoroso quanto à aplicação das técnicas e fórmulas que satisfizesse e surpreendesse o cliente. E orgulhoso possuidor. E exibidor! E admirador!

Nos tempos que correm as miniaturas voltaram a ser populares.
Mas, ao invés de estarem gravadas num medalhão ou escondidas na tampa traseira de um relógio de bolso, estão gravadas electricamente nos bites e bytes das mini câmaras fotográficas, nos discos rígidos ou nas memórias dos telemóveis.
O ritual antigo de puxar por um fio de ouro e extrair pudicamente de dentro do colo feminino a imagem, ou o abrir a carteira de dentro da bolsa ou bolso e desdobrar o porta-fotografias de plástico ou, mais remotamente, de mica, morreu!
Hoje, saca-se do telele, liga-se o ecran e aí estão elas, as fotografias da namorada/o, rebentos ou netos. E se aceitar as fotografias à distância, aceder a uma qualquer rede social ou nuvem.
Claro está que os telemóveis são roubáveis, os cartões de memória perdíveis entre o prato de carne e a sobremesa e os servidores de dados podem avariar-se. Mas são cópias as imagens – pelo menos espero que o sejam. Não é grave! Haverá sempre a possibilidade de as copiar de novo, de criar novos ícones em tudo idênticos aos primeiros pelo simples processo de copy/past ou send.

Mas, no meio de toda esta tecnologia, nestas transferências energéticas de um integrado para outro, onde ficam os afectos?
A um óleo, pastel, miniatura esmaltada ou papel fotográfico, é possível atribuir valores afectivos simbólicos. Esta folha de papel representa aquela pessoa. São únicos: a pessoa e o seu significante!
A matéria de suporte da imagem assume e fica impregnada de carinhos e dedadas. As tonalidades, os tamanhos e as texturas tornam-se tão íntimas quanto o corpo da pessoa amada.
E quando o suporte não existe de facto?
Quando a sua existência depende de um click e a energia se transforma noutra coisa qualquer?
Quando é repetível até ao infinito, sem que se perca um só detalhe ou electrão?
Serão os afectos também repetíveis?
Ou deletáveis?
É possível fazer copy/past de um sentimento? De um amor ou de um ódio? De um carinho ou afago?


Nesta sociedade de informação onde a imagem é rainha, não será que a sua super-abundância e facilidade de processamento e repetição um extinguir da sua importância?

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Militâncias



É um assunto que, volta e meia, surge em conversa: activismo, militância, cidadania… coisas destas.
Alguns avançam, e bem, com questões de fundo, com teorias políticas, com ideais de sociedade. Com opções de futuro cuja construção, hoje, é penosa e difícil. E, sendo-o, acabam por ir adiando.
Mas eu tenho para mim que, e para além das questões de fundo, das grandes opções ideológicas, mesmo das revoluções, tudo isso se constrói, também, nos pequenos nadas do quotidiano, nas mudanças de mentalidade. Com conversas e discursos de café ou de trabalho, com exemplos, com práticas diárias.
E porque surgiu em conversa com um casal desconhecido, no regresso a casa de comboio, aqui fica uma dessas práticas, velha de muitos anos na minha rotina.

Em havendo falha na energia eléctrica no meu prédio, a primeira coisa que faço é ir verificar se alguém ficou preso no elevador. Não que tenha a chave para a abrir, mas antes porque uma conversa sempre pode acalmar alguma histeria.
Verificando que não, regresso a casa e desligo o que posso desligar. Sempre evito, com isto, o pico de corrente do regresso. E sempre são alguns watts a menos na rede logo no início. Facilita a vida a todos e à rede de distribuição.
Por fim, e se for de noite, vou buscar um saco que tenho na cozinha, enfio o casaco e o chapéu, pego no tabaco e numa lanterna e desço para a porta do prédio. Onde me deixo ficar até volte a electricidade ou me parecer que mais ninguém está de regresso: meia noite e tal, uma hora.
O que faço ali? Por um lado a presença de alguém na rua, na escuridão de um bairro dormitório sem energia, e com uma lanterna na mão, é dissuasor do roubo de automóveis. Mesmo sendo um facto conhecido que eu não possuo nem carro nem carta de condução.
Por outro lado, vou oferecendo cotos de vela aos vizinhos que chegam. A maioria não tem como alumiar as negras escadas até casa e, alguns, nem luz alternativa dentro dela. Oferta mesmo, sem nada pedir de volta.
Bem, alguns perguntam-me como me podem devolver o que sobrar, ao que lhes digo que na caixa do correio será bom, desde que apagada, claro.
Um dia, alguns dias depois de um desses apagões, tinha na caixa do correio um pacote de velas novas, que algum vizinho comprou e ali deixou. Vitória minha. Não p’las velas mas p’lo seu gesto e lembrança.
Creio que são estes pequenos gestos que se opõem frontalmente a esta sociedade competitiva até à demência em que vivemos. E que, de algum modo, demonstram que é possível outras formas de estar e de interagir com os demais.
Acredito que estas pequenas atitudes sirvam de exemplo para que outros as repliquem ou reinventem com vantagem, humanizando aquilo que se tem vindo a transformar em relações frias e calculistas.


As revoluções ou mudanças, mais que decretos ou confrontos, necessitam que sejam interiorizadas por quem as praticam, bem para além dos discursos inflamados e da prática da democracia.

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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

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Recordam-se dos Cruzados?
Aqueles como aquele rei que, tendo ido, voltou e perdoou tudo ao Robin Hood?
Ou como aqueles que iam de cruzeiro para o Mediterrâneo e fizeram escala aqui para dar uma mãozinha ao Afonso Henriques a correr com os mouros do castelo onde viviam?
Ou ainda aqueles desgraçados que partiam com a convicção de que se morressem por deus e pela terra santa teriam a salvação eterna?


Europa 2015, verdade?

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Consta que o velho Sócrates, o tal da velha Grécia, gostaria de se passear pelo mercado. Sem comprar coisa alguma.
Questionado, terá afirmado que gostava de admirar a quantidade de coisas de que não necessitava.


Eu por vezes vou aos centros comerciais, mas não me comparo.
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Mudar o mundo



Aconteceu há quase vinte anos.
Foi necessário acompanhar uma criança ao serviço de urgência aqui do meu bairro. Não seria nada de muito grave, mas haveria que ser vista por um médico.
Aquando do registo, constatei aquilo que já se sabe: a cor da pele pode ser bem o oposto da cor da alma. Uma funcionária estava a recusar a admissão de um doente com alegações fúteis. E rematou a sua argumentação com um portentoso “Se nós temos que andar com esses papeis, vocês também!”
Por “vocês” entenda-se pessoas de origem africana, que era o caso.
O doente foi-se embora, com o sofrimento estampado no rosto, mas eu não gostei da coisa. Tentei intervir, mas a raiva e falta de educação daquela mulher virou-se para mim. E, com receio que protelasse em demasia o atendimento urgente que necessitava, acabei por ficar calado. Não em paz, mas calado.
Feita a consulta e o diagnóstico, passada a receita e aviada na farmácia, fui à sede do centro de saúde e pedi o livro de reclamações. Aquilo a que assistira era demasiado grave para ser ignorado.
O funcionário que me atendeu, pese embora não me ter recusado o livro, propôs-me em alternativa eu regressar na segunda-feira seguinte (estávamos num sábado) para então escrever o que entendesse e conversar com o director do centro. Anuí.
Da conversa que tive com ele, na data aprazada, recordo três coisas:
A sua afabilidade e incómodo com o caso. Ele já sabia da história e estava já identificada a pessoa em causa. E duas frases, marcantes: “Sabe, eu não a posso colocar na retaguarda, que me estraga todo o serviço.” e “O meu problema não é falta de pessoal; é falta de pessoal competente.”
No final, escrevi o que tinha a escrever no livro de reclamações sobre aquela senhora arrogante e racista e o episódio que havia presenciado.

Passado algum tempo (talvez que duas semanas) recebo duas cartas.
Uma oriunda do ministério da saúde. Nela faziam-me saber que tinham recebido a minha reclamação, que iriam dar-lhe a melhor atenção, etc, etc, etc. Assinada pela então ministra da saúde, Maria de Belém.
A segunda vinha do centro de saúde e enviada pelo director com quem eu tinha estado de conversa. Informava-me ele que a funcionária em causa tinha sido retirada do atendimento ao público e, uma vez mais, pedia-me desculpas em seu nome, em nome do centro e nome de quem lá trabalhava.


Tenho por certo que cada um de nós não pode mudar o mundo em profundidade. Ele vai continuar a ser redondo e a girar em torno do sol.

Mas também tenho por certo que no centro de saúde do meu bairro não mais será recusado a alguém o atendimento de urgência tendo por base atitudes racistas.

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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Lucidez



Prefiro bem mais os alinhados com o sistema assumidos, os medrosos confessos e os lambe-botas descarados do que os fala-barato que apregoam por tudo quanto é lado que fazem e que acontecem e que, em chegando à hora da verdade, dão o dito por não dito e, “de rabinho entre as pernas”, se subjugam à vontade de quem, supostamente, tem poder.

Por outras palavras: prefiro um filho de uma nota de vinte bem identificado que um cobarde camuflado.

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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Et maintenan, que vai-je faire...



Caminhava calmamente pelo corredor, saindo da luz do sol e entrando na obscuridade das lâmpadas do centro comercial.
Entre o seu cabelo alvo, já um pouco rarefeito, e o casaco de cabedal um pouco coçado, um bigode farfalhudo e bem aparado compunha-lhe a cara.
A sua mão esquerda apoiava-se numa bengala, que manuseava com destreza, bem a compasso do seu caminhar e parar.
Porque ele parava! A cada meia dúzia de passos olhava para quem lhe estivesse mais próximo e cantava-lhe. Desafinado e já com falta de voz, repetia sempre os mesmos acordes e o mesmo verso antigo de nem sei quantos anos:
Et maintenant, que vais-je faire…
Eu, bem como os demais que ali estavam a almoçar, olhámos uns para os outros, meio espantados como insólito da situação. Mas nem a empregada que ali atendia, nem o segurança a uns metros de distância, lhe prestaram atenção. Deduzi que se trataria de um frequentador habitual do espaço, como tantos outros reformados que usam os centros comerciais como forma de matar o tempo que lhes sobra.
Este… bem, este ainda verbaliza o seu problema, de quem se viu sem ocupação e, talvez, sem com quem partilhar a sua amargura.

É tão difícil – e absurdo – definir normalidade!

By me

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Foi um despertar pútrido e fétido, hoje.

Constatei que Cavaco ainda é presidente e Coelho ainda governa.
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