domingo, 31 de maio de 2015

Em trânsito para algures



Num profundo desagrado com o actual estado e rumo da sociedade portuguesa, deixei de parte a minha posição política de activista autónomo, que vai intervindo quando, onde e se o entende, para procurar um grupo de gente realmente interessada em fazer mudanças.
Mudanças na organização e modelo de sociedade, em que a solidariedade e a igualdade não sejam palavras vãs.
Não tenho encontrado.
Os grupos e organizações já existentes, com capacidade de fazer algo, são o que conhecemos, com os resultados que temos sentido.
Os grupos e organizações emergentes, onde tenho vindo a espreitar e tentar contribuir, não procuram mudança ou inversão de rumo mas tão só o conservar uma sociedade burguesa, eivada de classes bem diferenciadas, em que o melhor comentário que se ouve perante alguém que busca alimento nos caixotes do lixo é “Coitado! Teve azar na vida.”
Sobram os chamados “grupos solidários”, cujo objectivo primário, não confesso, é fazer da solidariedade o seu próprio ganha-pão.

Não consigo perceber se sou eu que levo o passo trocado, se são todos os outros. Mas que não acertamos o passo, lá isso não!

Resta-me regressar à minha posição de atirador furtivo, intervindo se, quando, como e onde entendo, esquecendo que a maioria dos que me cerca se preocupa bem mais com o seu umbigo proeminente que com qualquer outra coisa.

By me 

Photographia





Porque hoje é domingo, recorro a citações.
E porque de melhor não me recordo de momento, recuo uns bons trinta anos e cito-me.

“Photographia – Aquela coisa morosa, complexa, pesada e por vezes dolorosa, que medeia entre aquilo que vimos e aquilo que conseguimos mostrar aos outros.”

By me

sábado, 30 de maio de 2015

Metropolis em Lisboa



By me

Corrupção 2



Fala-se hoje, em tudo quanto é lado, em corrupção.
É este que autorizou isto a troco de luvas, é aquele que contratou aquilo em troca que um imóvel, é aqueloutro que… Corrupção em tudo quanto é lado, conversas de café e noticiários.
Mas não se fala que a própria lei é corrupta, por paradoxal que possa parecer.
Vejamos um exemplo.

São os regulamentos nacionais e municipais que definem o como, onde e em que condições se pode construir ou alterar uma construção. Podem estar certos ou errados, mas existem e serão para cumprir. No entanto…
No entanto quem infringir essas normas construtivas é objecto de multa. Que reverte para o Estado (local ou nacional). E cujos orçamentos já contam com essas receitas.
A alteração da fachada de um prédio não é permitida à priori. Para que aconteça haverá que o respectivo projecto ser objecto de aprovação pelos serviços públicos – Estado.
No entanto já são incontáveis as varandas fechadas ou marquises que pululam pelas urbes. Construídas sem projecto, sem aprovação de alteração as fachadas dos edifícios. Tal como os acrescentos de anexos ou mesmo de pisos extra. Não autorizados.
O que acontece, nestas circunstâncias, é a aplicação de uma multa ou coima. Não poderia ser feito, mas se se pagar como penalização fica legalizado. E, muito frequentemente, essa multa ou essa coima é muito menor que o requerer as respectivas aprovações de projecto, incluindo as assinaturas de arquitectos ou engenheiros.
Fica assim a pergunta: se algo não é permitido, porque basta pagar ao estado sem aprovação? É que, se não é permitido é porque existem motivos poderosos para tal. Ou não faria sentido a lei que o regulamenta.
O que levaria a que, e para além da multa ou coima, quem empreende tais obras deveria ser obrigado a repor o que estava: retirar a marquise, o piso extra, derrubar o anexo. Mas não acontece.
A esmagadora maioria opta por fazer sem projecto, sabendo que a corrupção legal existe. E que é bem mais barato pagar a multa e ficar com a obra que apresentar um projecto para aprovação pública.
E o Estado lucra com isso.

Isto é corrupção institucional. Corrente. Fazendo parte do quotidiano.

E falam-me do tipo que recebe uns extras para aprovar um concurso público????

By me

Luvas





O termo “corrupção” está na ordem do dia. Hoje atira-se o insulto “és um corrupto” quase como há quarenta anos se atirava “és um fascista” para alguém de quem se não gostava e no decurso de uma discussão acesa. Quem sabe, até se na sequência de toque entre automóveis em hora de ponta.
Mas a corrupção é coisa antiga. Muito antiga. E discreta, muito discreta. Aliás, estou em crer que muitos que usam o termo nem sabem, ao certo, o que significa corrupção. E ela está instalada entre nós com alicerces sólidos, fazendo parte do quotidiano.
Será o caso dos agentes de segurança que almoçam regularmente naquele restaurante a preços bem baixos e que não autuam os carros dos demais clientes que estacionam em frente da porta.
Será o caso daquele fiscal de obras que vai de férias para um bom hotel depois de ter ignorado uma irregularidade numa urbanização em construção.
Será o caso daquele político eleito que, depois de ter tomado decisões sobre concursos públicos e de ter deixado o cargo, vai trabalhar numa das empresas que concorreu.
Há inúmeros casos de corrupção.
Mas há formas de corrupção, bem mais profundas e enraizadas, que estão à vista de todos e que são bem mais graves. E que abrangem toda a sociedade.
Aquelas em que não há pessoas que individualmente corrompam ou se deixem corromper, mas que em é o próprio Estado que é corrompido pelo sistema privado. Com foros de benefícios para a sociedade, mas que são ilusórios.
Vejamos um exemplo.

Na última década assistimos a um transformar radical da forma como os cidadãos se relacionam com o Estado. As finanças, a justiça, a saúde, a educação, tudo quanto é serviços do Estado alterou os seus canais de comunicação do papel para o digital.
Dirão muitos que é evolução da tecnologia, que é a simplificação dos processos, que é a transparência do que acontece. Será verdade.
Mas também é verdade que isso implica que cada cidadão tenha, para além dos conhecimentos na utilização da TIS, o respectivo equipamento. E alinha de comunicação.
Por outras palavras, passou a ser quase que obrigatório que cada cidadão possua um computador e um contrato com uma empresa de comunicação.
O que levanta, de imediato, uma pergunta: Porque é que para comunicar com o Estado, o gestor da coisa pública, se tem que pagar a privados? Ou, mais abstracto, porque é que se depende de intermediários privados para lidar com o Estado?
Dirão alguns, mais conhecedores destas coisas, que não será bem assim, já que os sistemas que não os electrónicos continuam a funcionar para quem não os tenha ou os queira usar. Não é bem verdade!
Começa, desde logo, por ser bem mais moroso e complicado o acesso à coisa pública. A diminuição de funcionários, horários de atendimentos, locais de atendimento. E, mesmo presencialmente, somos remetidos para formulários on-line ou esclarecimentos on-line.
E mesmo alguns serviços transformaram-se na exclusividade das tecnologias de informação. Os empresários, comércio ou serviços, passaram a ter a obrigatoriedade de emitir facturas electrónicas. E a fazer declarações de impostos por via electrónica. O que significa que para exercerem o seu mister e estarem de acordo com as regras do fisco, têm que possuir equipamento, comprado por si, e têm que possuir um contrato com uma empresa de comunicações, através do qual cumprem a lei. Ou seja: a lei obriga a contratos com privados.
Mesmo dentro do próprio Estado a corrupção institucional instalou-se.
Todo o sistema electrónico de comunicações dentro do Estado depende de um sistema operativo. Privado. Para o qual há que pagar licenças de utilização, naturalmente. A uma só empresa, que fabrica e distribui. E isto apesar de existirem sistemas operativos gratuitos e igualmente seguros e eficazes.
O Estado ficou contratualmente refém de uma só empresa de software que, com isso, arrecada milhões. Muitos milhões.
Mas, indo ainda mais longe, o Estado está a transferir a gestão e localização dos seus arquivos electrónicos para a chamada “nuvem”. Numa corrida à modernização dos sistemas e redução de custos. Acontece que essa nuvem está a cargo de uma empresa, uma só empresa. Privada, naturalmente. Uma vez mais, a própria gestão da coisa pública fica dependente de privados, com contratos chorudos e em exclusividade.

Tudo isto é corrupção institucional.
Não há caras ou nomes a quem se possam chamar de corrompidos ou corruptores, mas são instituições que ficam a dominar o Estado, em situação de exclusividade e com lucros absurdos.
Para fazer aquilo que é função estatal e que pode e deve ser feito pelo Estado.

Claro que a estes exemplos se podem acrescentar a recém aprovada lei que permite a privatização da natureza vital – a água. Tal como a progressiva privatização da educação e da saúde, ao arrepio óbvio e transparente da lei fundamental.

É por isto, e outros “trocos” de milhões de euros e vidas, que fico a olhar com ar de pena quando me falam em casos de luvas pagas a este e àquele, no subornos e nos jeitinhos feitos desta ou daquela forma, e deixam de parte a grande, a enorme corrupção que grassa no Estado, que de tão grande que é quase ninguém se apercebe. 

By me

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Estava calor



Muito.

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Argumentos





Continuo a achar que o país é gerido por entidades privadas!
Poderão não ter como objectivo o “lucro” económico, mas são entidades privadas.
O acesso à Assembleia da República, onde são feitas as leis e fiscalizada a acção governativa, é limitado a partidos políticos.
Os cidadãos votam em partidos e nas respectivas listas de candidatos aos cargos.
As listas de candidatos ao cargo são definidas pelos partidos políticos e respectivas direcções, quer nacionais quer locais.
E as listas dos partidos dos partidos são compostas por membros dos partidos ou por quem a eles se submeta.
Mas só tem acessos a integrar as listas ou mesmo o partido quem por ele for aceite. Só se é membro de um partido se o partido aceitar. Acesso reservado, como aquela placa que dantes existia em alguns estabelecimentos comerciais.
Por outras palavras, só tem possibilidade de redigir e fazer aprovar leis ou fiscalizar a acção governativa quem for aceite numa organização cujo acesso é condicionado.
O cidadão comum, que não for aceite num partido, não pode decidir do que acontece no país e das suas normas e leis, excepto aceitar o que for decidido por grupos cujo acesso é condicionado. Entidades privadas.
E as entidades privadas, porque o são, relacionam-se com o que lhe é externo como entendem, justificando ou não e sua actividade se e quando decidirem.

O conceito de democracia representativa partidária é a antítese da liberdade individual, uma forma suave e ilusória de governação corporativa e de interesses privados.

Infelizmente, não vejo no sistema vigente (tanto nas instituições implantadas como nas emergentes) vontade de alterar o rumo. Bem pelo contrário.
Pese embora o que vai sendo alardeado pelas novas organizações, o corporativismo político está bem e recomenda-se, com minúsculas lutas intestinas que têm por objectivo muito pouco mais que a mudança de protagonistas, não de argumento.
E enquanto não for mudado o argumento…

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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Sniper



Havia uma senhora, noutros tempos e noutras vivências, com uma muito forte conotação politico-partidária, que quando me via na sua secretaria com alguma das minhas reclamações, sugestões ou discursos mais inflamados, tinha uma frase sacro-santa:
“Lá está o professor JC com o seu feitiozinho soviético”.
Nunca lho levei a mal. Era difícil levar a mal alguma coisa daquela senhora, até porque raramente fazia algo por mal.
E, se outro motivo não houvesse, ela tinha razão. Eu tenho um feitiozinho soviético.
Soviético, Malaio, Hondurenho, Zairense, Tuga, o que lhe quiserem chamar.
Agora uma coisa eu garanto:
Quando me chamam para engrossar fileiras e eu vou e acabo por ouvir e sentir um “nós e vocês”, é garantido que surge um terceiro grupo: os que estão fora.
E se não tiver mais ninguém, eu serei o presidente, o secretário geral, o presidente da assembleia-geral e farei quórum sozinho nas reuniões plenárias.
A dona Alice tinha razão: tenho um feitiozinho soviético!


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Um olhar - Soraia



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O autocarro



Um grande “OLÁ” a todos aqueles que podem e puderam embarcar neste autocarro.

E que não sabem o quão privilegiados são por não terem que andar a depender de boas vontades para serem informados de quais a carreiras que possuem rampas por onde a sua cadeira de rodas possa subir.

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Estava calor



Muito calor!

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Boas notícias





Por vezes temos boas notícias nos jornais. E que nos obrigam a fazer uma pequena pesquisa para nos certificarmos da geografia e genuinidade da informação.
A geografia é esta: é o que está a vermelho que corresponde ao estado do Nebrasca, nos EUA.
E a notícia, lida num jornal português, corresponde ao que li noutros, americanos.

O Estado norte-americano do Nebrasca aboliu definitivamente a pena de morte, substituindo-a por prisão perpétua, depois de uma nova votação que anulou o veto do governador.
O Senado do Nebrasca voltou a votar a favor da abolição da pena de morte com 30 votos a favor e 19 contra, anulando o veto do governador Peter Ricketts.
No passado dia 20, o Senado daquele estado já tinha votado a favor do fim da pena de morte com o número suficiente de votos para neutralizar o veto esperado de Peter Ricketts.
O Nebrasca é o 19.º estado, entre os 50 dos Estados Unidos, a abolir a pena de morte.
Aquele estado norte-americano não executa qualquer condenado desde 1997 e tem 11 pessoas no corredor da morte.
Os condenados à morte passam assim a ver a sua pena passar a prisão perpétua.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

O alicate, o porta-moedas e os selos





Teria eu 11 anos? Talvez, pelo que recordo do trajecto desta história.

No autocarro onde viajava naquele dia, a caminho da escola, levantou-se reboliço.
A altercação punha em campos opostos um façanhudo cobrador da Carris, que exigia o pagamento do bilhete, e uma senhora que afirmava ter deixado o porta-moedas em casa e não poder pagar.
De alicate em riste, o zeloso funcionário ameaçava com multa, ameaçava com polícia, ameaçava com os quintos do inferno. Com os olhos já húmidos, a senhora bem que rebuscava a carteira em busca do porta-moedas, mas este não parava por lá. A coisa estava a ficar feia e nenhum de nós, passageiros, estava a gostar de ver.
Pegando no meu próprio porta-moedas, com uma coragem que não me conhecia, propus-me pagar eu o bilhete.
Quinze tostões (seriam?) depois, o bilhete regulamentarmente arrancado do bloco e obliterado pelo tenebroso alicate, e as coisas acalmaram.
Não me recordo de que mais coisas terei falado com aquela passageira, mas alguma coisa foi, certamente.
Passado algum tempo (dias, semanas?), foi um alvoroço em minha casa. Fora encontrada na caixa do correio uma carta que me era dirigida. Devidamente estampilhada e carimbada pelos correios. Nunca eu tinha recebido uma carta pelo correio e o espanto foi natural.
Do tamanho de um cartão de visita (correio normalizado era coisa desconhecida) continha um cartão e selos.
No verso do cartão de visita, a referida senhora escrevera umas palavras amáveis de agradecimento (não me recordo de quais) e os selos correspondiam ao valor do bilhete que lhe havia pago.

Não me recordo em que mês se passou este episódio.
Mas, fosse qual fosse, chamar-se-ia Dezembro certamente.
Afinal, é Natal quando um homem, mulher ou criança quiser.

By me

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Uma boa forma de se aquilatar da personalidade de cada um é ver como reagem perante o infortúnio de gente conhecida de perto.

Nalguns casos, nem o vomito chega para aligeirar o nojo que provocam.
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Um olhar seguro - Diana



By me

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Deveria, por dever de cidadão e dever de ofício, ligar o televisor e dar uma olhada.
Mas acabei de tomar banho e não me apetece sujar-me de novo já. 
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Emoções





Uma sombra não tem emoções.
Existe apenas e na exacta medida da superfície onde se projecta, do objecto que se interpõe no caminho da luz e do tamanho da fonte que a provoca.
Uma sombra não tem emoções.
Será mais dura ou mais suave, mais incómoda ou mais simpática, mais longa ou mais curta. Até cobrir o mundo.
Mas uma sombra não tem emoções.
Uma sombra relata, com rigor geométrico, as posições relativas do plano de projecção, do objecto e da luz. Evidencia texturas e volumes, contrasta superfícies, simula tamanhos. Até opacidades.
Mas uma sombra não tem emoções.
Movimenta-se com o movimento do sol, do chão, do vento. Refresca ou atrapalha. Pode, até, criar sonhos.
Mas uma sombra não tem emoções.

E se eu, que trabalho com luzes e sombras, que trabalho as luzes e as sombras, as matizes, as nuances, não tiver emoções, mesmo perante uma sombra, serei eu mesmo uma sombra e não um ser vivo, que gosta e desgosta, que é a favor ou contra, que ama ou odeia, e que usa a sombra (que não tem emoções) para provocar emoções.
Fotografar é reagir emocionalmente a sombras (que não têm emoções).
Fotografar é usar as sombras (que não têm emoções) para provocar emoções.
Uma sombra não tem emoções! Um fotógrafo tem!

Se um fotógrafo não tiver emoções perante uma sombra (que não tem emoções), será ele mesmo uma sombra de um fotógrafo!

By me

terça-feira, 26 de maio de 2015

Sacrifícios o caralho



Então e não podias falar de outra coisa ou de outra maneira?

Podia! Podia falar daquela menina do shopping que conheci. Que é tão menina do shopping, mas tão menina do shopping, que até a outra, a da canção, se envergonharia de o ser.
Podia falar da greve do Metro, de como o trânsito está caótico e os autocarros a abarrotar.
Podia falar do calor que está, dos corpos suados e do consumo de cerveja.
Tudo com imagens adequadas.

Mas não quero!
Prefiro falar daqueles bons companheiros que vão para a rua porque uns filhos da mãe, confortáveis na vida, pariram leis absurdas.
Prefiro falar dos sorrisos mais que tristes que lhes vi nos rostos e de como, apesar de tudo, cumpriram a sua função.
Prefiro falar da raiva surda mas não muda que sentimos aos sabê-los nestas condições, um dos quais com criança pequena a quem dar de comer.


E para os que se sintam incomodados com o vocabulário, saiba-se que tenho bem mais e bem melhor para aqui colocar. E vontade de o fazer!

By me

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Se demagogia fosse dinheiro, os media nacionais estavam a emprestar dinheiro ao FMI!
Em compensação, se vergonha fosse comida já tinham morrido de fome. 
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Fotografia - Cá e lá





A abordagem generalizada à fotografia passa por ir longe, a terras distantes, registar o que por lá acontece. Actos humanos, actos da natureza, paisagens. E usar esses registos para exibir as belezas ou denunciar os horrores que por lá aconteçam.
Este é o sonho da maioria dos que começam a fotografar, é o desejo escondido dos que já fotografam.
Essa não é a minha abordagem. Nem o meu sonho ou desejo.

Entendo que a fotografia – o registo lúmico do que existe – pode ser feito mesmo à porta de casa, no jardim ao fundo da rua, no baldio a seguir ao bairro, na avenida principal ou rua secundária da minha cidade.
Entendo que o mundo – o universo – é composto de grandes – enormes, infinitos – eventos. As galáxias, as guerras, as sobrevivências das espécies. Mas também pelas muito pequenas coisas, triviais, que sucedem em qualquer lado. Ao meu lado. O desabrochar da flor do cardo, a luz que rasa e evidencia a textura de uma fachada, o horror do maltratar entre seres humanos, sem sangue ou tragédias evidentes.
Entendo que as belezas e horrores acontecem em todo o lado.
Mas também entendo – sei – que nos é bem mais fácil, enquanto seres humanos acomodados ao nosso próprio quotidiano, sentirmo-nos emocionados para o bem e para o mal com o que acontece lá. O belo, se for lá, alimenta os nossos sonhos; o lá, se for horrendo, alimenta os nossos pesadelos mas também serve de exorcismo ao pensarmos que lá é pior que cá.
E a fotografia feita lá longe alimenta os sonhos e pesadelos.
Já a fotografia feita ao pé da porta é incómoda! No belo ou no horrendo. Que nos mostra aquilo a que nós mesmos não damos valor, que nos mostra a nossa incapacidade de mudar o que de mau nos cerca. Que nos coloca e destaca o quão acomodados estamos.

Claro que fotografar ao pé da porta dá mais trabalho. Muito mais trabalho. Há que, mais que olhar, ver o que nos cerca, aquilo que já nos é tão habitual que nem disso damos conta. Há que “fazer excursões ao próprio quarto”, há que fazermos turismo na nossa própria rua, há que ter um espírito crítico em relação ao nosso próprio mundo. Há que descobrir o que de belo ou horrendo existe debaixo dos nossos próprios pés ou em frente ao nosso próprio nariz.
É mau ver a fome lá longe. Emociona-nos. Mas é pior voltar a cara aos que todos os dias vêem comer do nosso caixote do lixo.
É lindo ver as águas límpidas de uma ilha paradisíaca. Mas é tão belo quanto a delicadeza com que a abelha se alimenta da madressilva que a vizinha mantém regada e viçosa.

A linha do horizonte – aquele lugar aparentemente inatingível e com que sonhamos ou que tememos – não tem que estar lá longe. Pode estar – e está – à distância de um braço mais meio centímetro. Por vezes, do outro lado do espelho.

Mesmo em fotografia.

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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Era coquete



Era coquete, ela. Não particularmente bonita, mas coquete.
Andou à minha volta uma vez, outra, ainda outra. Uma delas tão perto que se lhe tivesse soprado teria volteado. Não soprei, tentando perceber até que ponto estava ela interessada no que na estação ferroviária se passava em geral e na minha pessoa em particular.
Acabou por parar ali, depois de umas tentativas de passar pelo vidro. Frustradas, naturalmente.
Aproximei-me, quase que como quem não quer a coisa. E ela ali, parada, fazendo de conta que não me via.
Baixei-me e estiquei a mão, aberta e de palma para cima, em sinal de paz. Talvez que quisesse vir. Não quis.
Com cautela, retirei a câmara de bolso do dito e preparei-a. Assim como quem não quer a coisa.
E ela, ali parada, fazia de conta que estava interessada no que se passava lá em baixo, na rua.
Fiz uma fotografia. E duas. E outra ainda. A minha câmara de bolso é versátil mas não tanto, e isto foi o melhor que consegui.
E ela ali, como se nada se passasse.
Levantei-me e dei um passo atrás. Afinal, já tinha as fotos, melhores ou piores, e nada de mal lhe queria.
Levantou-se ela e aproximou-se de mim. Quase roçando a minha cara. E deu-me uma volta. E outra. E outra ainda. E eu a rodar sobre mim mesmo, como pião no empedrado, ou borboleta em torno de lâmpada acesa, olhando para ela e sorrindo.
Assim como veio, assim como se foi, leve e despreocupada, ora subindo, ora descendo, dando ainda duas voltas sobre si mesma, como que a olhar para trás.

Separámo-nos como bons amigos.

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Fui enganado



Fui enganado. Não adianta argumentar em contrário.
Fui enganado e em parte a culpa foi minha, que fui na conversa de uma mais que simpática menina de um balcão de atendimento de uma grande empresa neste país.
Eu sabia o que queria há pouco mais de um mês, não foi o que me foi entregue e a resposta que recebi redundou, hoje, numa ida a uma outra loja dessa empresa (não importa qual) reclamar e obter aquilo que queria logo de início.
Haveria várias abordagens à questão: entrar a matar, refilando com tudo e todos; exigir o que queria ameaçando com os quintos dos infernos e mudança de fornecer; ou entrar como se fosse muito burro, quase pedindo desculpa pela minha ignorância e existência, e pedindo que me resolvessem o problema. Que, em boa verdade, fora provocado por uma funcionária deles.
Optei pela última hipótese.
Fiz-me de tolo, de completo ignorante na matéria, contei a história toda desde pequenino, atirei com o meu charme e umas piadas feitas na hora a propósito do que estivéssemos a falar, dei bom uso à cor das minhas barbas e ao que delas se poderá interpretar, et voilá:
As coisas resolvidas, por me atendeu com o auxílio por ela reclamado de mais duas outras pessoas, pediram-me desculpa pelo incómodo e quase só faltou saírem do seu lugar para me abrirem a porta à saída.

E nem queiram saber o que eu me estava a divertir fazendo-me de totó!

É por estas e outras que prefiro o atendimento presencial, cara-a-cara, que os Call Center, onde estes truques não funcionam.

By me

domingo, 24 de maio de 2015

Os cus e os outros





No princípio do ano na Grécia mostrou-se que as alternativas são possíveis.
Claro que a Europa aperta a tarracha, com medo que algo ou alguém altere o status quo do conservadorismo económico.
Esta semana, a conservadora Irlanda mostrou que as alternativas são possíveis, mesmo contra um governo e uma Roma enraizados em conceitos de antanho.
Em Espanha, hoje, ficou provado que os partidos do arco da governação abanam perante a possibilidade de o povo escolher opções alternativas, bem à margem de quem se preocupa mais com as instituições que com as pessoas.

E em Portugal, agora e no futuro próximo?
Vamos continuar a ser o cu da Europa? 

By me

Ainda sobre a exposição de Sebastião Salgado







Quem quer que tenha ido ver a exposição de Sebastião Salgado, patente em Lisboa, terá ficado extasiado com o que por lá viu.

As imagens são fortes na luz e nas sombras, as perspectivas grandiosas, a força da natureza esmaga-nos.

Mas olhar para elas para além do que nos mostra e tentar perceber o que foi feito também é interessante.

Desde logo, a abordagem ao preto e branco. Transporta-nos para um mundo real, sem dúvida, mas não o mundo do media, televisões, revistas e net, com os seus documentários bem feitos mas multi-coloridos. Salgado reduz o que viu e nos mostra à força das formas e sombras, da luz, dando ênfase ao título da exposição: Génesis, o início.

De seguida, a opção de perspectiva. Prestando atenção, constatamos que a maior parte do que nos é mostrado é captado à distância. Não tudo, mas uma grande parte. E quer tenha usado de uma grande angular para tudo abarcar, quer tenha usado de uma tele objectiva para ir buscar pormenores, a distância entre assunto e fotógrafo é patente. Indo mais longe, é rara a existência de um primeiro plano, de algo que evidencie a proximidade ao fotografado.

Na mesma linha de pensamento ou abordagem, é também raro ver inter-acção entre fotografados e fotógrafos. Mesmo quando existem pessoas na imagem, na esmagadora maioria das situações estas parecem ignorar a presença do autor e da sua câmara. Mesmo quando as imagens são feitas de proximidade.

Claro que há retratos, assumidamente frontais para a objectiva. Mas as excepções que confirmam a regra.

Acrescente-se, e para os puristas da forma, que é difícil encontrar imagens que “respeitem” a regra de ouro. Os centros de interesse, tanto nas imagens de paisagem como nas imagens de acção, não estão colocados nem nas linhas nem nos pontos fortes. No entanto (e para os puristas da forma) isto não retira nem um pingo à qualidade do que vemos nem distrai a nossa atenção do que é importante. Talvez mesmo que o fugir a isso nos leve para o que é importante que não o formal.

Aquilo que é respeitado, sem sombra de dúvida, é o espaço. Tanto o espaço de paisagem, onde se respira e sentem as dimensões do captado, como o espaço de acção ou o espaço próprio dos objectos ou seres vivos.

Nalguns casos, em que o “ar” parece em falta, em que humanos ou animais parecem não ter espaço de movimento, apercebemo-nos que o que é significativo naquele rectângulo não é isso mas antes o que o cerca. Como se o ser vivo estivesse ali quase que por acaso.

A isto some-se (tanto para os puristas como para os aprendizes), onde está a linha do horizonte. Presumindo que está visível, e na grande maioria dos casos não está, contam-se pelos dedos de uma mão os casos em que esta está a meio do enquadramento. Em regra, francamente acima, evidenciando o que está cá em baixo. E quando está a meio, ela não está: acontece estar ali. Não é uma fronteira entre o cima e o baixo, mas antes uma linha que, estando, poderia não estar que nenhuma diferença faria.

Também para os puristas e os outros: a luz.

Dizem as regras que a luz deverá ser de forma a poder mostrar o assunto fotografado. Idealmente vinda do lado de cá do assunto. E isso é exactamente o que aqui não acontece. As opções de Salgado levaram-no a escolher horas e perspectivas tais que o sol estivesse do lado de lá. Evidenciando brilhos, projectando sombras e contrastes para cá, usando ambas – luz e sombra – para definir escalas, quer evidenciando-as quer confundindo-nos e só nos apercebermos delas num segundo olhar. E usando a luz (e as sombras) para nos mostrar o que é importante.



Todas estas técnicas – porque de técnica se trata – colocam-nos e ao autor numa atitude de meros espectadores. Como que numa posição analítica, espreitando o mundo mas não fazendo parte dele, como que se o que nos é mostrado estivesse nas vitrinas de um museu. Como se fossemos visitantes no nosso próprio planeta.

Coisa que, se calhar, até somos. Ou, bem pior, que se não tivermos cuidado, já só poderemos ver num futuro não muito distante, enquanto visitantes de um mundo que foi.



Não sei se a escolha de técnica e estética na abordagem ao tema foi coisa pensada e decidida, se foi resultado de sensibilidade inata. Mas, considerando que esta exposição é o resultado de um trabalho de dez anos e que implicou uma logística e preparação sérias e complexas, estou em crer que é o resultado de decisões assumidas.

Mas só quem sabe o que quer o pode fazer.

Como costumo dizer, “se souber o porquê, saberei o como”.

Resta-me recomendar a quem não foi ver que vá. E a quem já foi que lá volte e que analise com os seus olhos o que acabo de descrever.

E que se aperceba como se podem fazer fantásticas imagens mandando às urtigas os cânones fotográficos, quebrando as regras e seguindo uma linha própria.

Texto by me
Imagem by Sebastião Salgado

Saldanha





Aquele homem viu um anúncio na montra de uma lavandaria recém inaugurada perto de sua casa:
“Limpamos fatos em 24 horas”
Satisfeito com a celeridade e ser pertinho de casa, foi lá entregar um fato que tinha uma nódoa feia, fruto de uma farra onde tinha estado.
No dia seguinte, à tardinha, foi por ele e disseram-lhe que não estava pronto, só dois dias depois.
“Como assim?”, exclamou. “Pois não dizem que o fazem em vinte e quatro horas?”
“Claro que sim!”, ouviu de volta. “Vinte e quatro horas de trabalho, mas nós só trabalhamos oito por dia.”

Foi desta piada, velha de sei lá quando, que me lembrei ontem, enquanto esperava por uma autocarro na Praça Duque de Saldanha, em Lisboa.
A estátua que dá o nome à praça está envolta nestes tapumes simpáticos há uns tempos. Não sei precisar quantos. E contém, para além do anúncio ao mecenas da obra, fotografias daquilo que se não vê. Que a fotografia também serve para isso.
Na base, a indicação do que está a acontecer – um restauro – e da respectiva duração – 100 dias.
Claro que não contém a data do início da obra. Será pois difícil saber-se com rigor se a promessa temporal será ou não cumprida.
Mas, mais que isso, não nos diz se o prazo refere dias de trabalho. Que, feitas as contas a oito horas por dia, feriados, férias e fins de semana, corresponderão a quase ano meio de calendário.
Nem quis eu fazer contas a quanto corresponderá se a jornada passar de oito para sete horas.

Nota adicional: a estátua tem pouco mais de cem anos, por aquilo que pude saber. E dos edifícios que a rodeavam aquando da sua inauguração apenas restam três, ao que sei. O que não sei é por quanto mais tempo.

Nota adicional fotográfica:
Conheço este local e estas circunstâncias há já uns tempinhos e a horas mais diversas: manhãzinha, tardinha e noite. Pois foi esta a hora – a meio do dia - que me atraiu, pela luz e respectivas sombras no local. 

By me

sábado, 23 de maio de 2015

Muito estranho





Algo de muito estranho se passou hoje.
Depois de esperar dois cigarros, embarco num carro eléctrico a meio da tarde, a meio da Junqueira, em direcção ao centro da cidade.
E não é que estava assim, vazio, sobrando lugares sentados?
Num sábado solarengo, com a cidade cheia de turistas?
Não é que me queixe, mas estranho. 

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Um clássico





Eu sei que é um clássico, mas…
Cheers, para uma amiga muito, muito especial, hoje em particular. 

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Segredos



A tarde estava quente e eu estava cansado. Duas vezes passo de museu, bem carregado e depois de uma noite muito mal dormida… estava cansado e com calor.
Apetecia-me algo de refrescante e que me retemperasse as forças. Na zona onde estava – Chiado – tudo quanto é local a transbordar de gente: esplanadas, salas, bancos públicos, degraus de porta… transbordava e eu queria refrescar-me e retemperar forças.
Uma alternativa seria um gelado, que por ali há, que eu saiba, duas ou três casas da especialidade e afamadas.
Impossível!
As filas de futuros clientes transbordavam para o exterior, fazendo adivinhar uma longa e penosa espera. Recusei.
Até me lembrar dos velhos tempos. Daqueles em que a cidade não atafulhava de gente e que havia locais de bons e refrescantes gelados.
Dessas, das dos velhos tempos e no centro da cidade, creio que já só resta uma: esta.
Onde me sentei numa sombra agradável, providenciada por prédios vetustos mas sólidos e onde me refastelei com o que está na imagem e não se encontra nas lojas da moda. E, mesmo que se encontrasse, não haveria onde sentar para o degustar a preceito.
Na imagem (que eu também fotografo com o telelé o que como e me dá prazer), um banana split. Ideal para refrescar e retemperar forças.

Já quanto ao local… guardo-o para mim, como um dos últimos tesoiros privados da cidade. Mas se pedirem com jeitinho, talvez conte. Em privado.

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