sexta-feira, 24 de abril de 2015

Amanhã





Recordo, ainda catraio adolescente, o ter ido muito em segredo com a família assistir a uma sessão clandestina de cinema. Passava-se cinema russo e isso era proibido.
Recordo, ainda estudante liceal, o ter escrito, impresso e distribuído panfletos contra a guerra colonial. À socapa e com vigias de atalaia, que os riscos eram tremendos.
Recordo o ter sido apanhado por um continuo no liceu, de ele ter olhado em redor dentro da casa de banho onde estávamos, de me ter confiscado os papeis e, também clandestinamente, me ter mandado embora sem me denunciar à direcção ou polícia política.
Recordo como era aguardados lá em casa os sábados para que se comprasse o vespertino “Diário de Lisboa”. Nele e no suplemento, a crónica “As redacções da Guidinha”, lidas sofregamente. No seu estilo pouco convencional (forma e conteúdo), era dos raros escritos que conseguia passar para o público algo à revelia da censura.
Recordo, mesmo que em plena “primavera marcelista” as reuniões de movimentos de estudantes. As feitas localmente nos liceus ou as mais centralizadoras delas, em Lisboa. Sempre com sentinelas, impedindo a entrada de gente desconhecida, não fora serem bufos. Ou para avisar da chegada da ramona.

Agora surgem os partidos do arco da governação a impor uma espécie de comissão de análise prévia à cobertura da comunicação social nas campanhas e pré-campanhas eleitorais. Com os respectivos planos de acção previamente apresentados e aprovados por uma comissão com poderes para tal. E para punir os disso se desviarem.
Mais ainda, e por aquilo que pude ler: limitando os critérios editoriais aos partidos com assento parlamentar, deixando de fora os demais. Quer porque pouco representativos quer porque nunca sufragados.

Amanhã é 25 de Abril de 2015.
Haverá celebrações um pouco por todo o lado. Institucionais ou outras. Costumo estar presente. Celebrando e fazendo o meu próprio registo fotográfico da celebração colectiva.
Mas amanhã será diferente.
Não estarei celebrando: Estarei lutando!
Porque, e ao que parece, a democracia e a liberdade estão a sair do parlamento.

Sei o que vivi, mesmo que adolescente. E não o quero viver de novo nem para os vindoiros.
E se então lutei contra isso, hoje não será diferente!

By me

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