quinta-feira, 30 de abril de 2015

Sem enfeites



Só p’la graça, sem enfeites, saída do telele.

By me

Two ways of life



Publiquei aqui esta imagem há uns dias.
Coloquei-a no contexto de uma discussão/conversa sobre a veracidade de algumas fotografias e provoquei quem a viu a procurar o seu autor, data e demais informação. Aqui fica alguma coisa sobre ela.
Foi produzida em meados dos anos 50 do séc. XIX, por Óscar Gustave Rejlander e tem o nome, ao que sei, de “Two ways of life”.
E não se lhe pode chamar de “fotografia”. Em boa verdade, entendo-a como “imagem fotográfica”.
Esta diferenciação advém do facto de cada uma das figuras humanas que aqui vemos terem sido fotografadas individualmente e posteriormente terem sido essas fotografias justapostas ou sobrepostas, naquilo a que hoje damos o nome de edição, pós-produção ou fotomontagem.
A importância desta imagem, bem como a de tantas outras deste autor e de outros da época (meados do Séc. XIX) prende-se com o que se queria contar e o contexto cultural da altura.
A fotografia ainda era técnica recente, sendo que a comunicação visual se baseava na pintura, gravura, miniaturas, etc. A questão da veracidade da fotografia ainda não se tinha levantado, sendo que se estava ainda no início de uma outra, estéril, e que ainda hoje alimenta algumas conversas: arte ou técnica. Na altura a técnica ainda vencia.
Assim, não sendo prioritário o assegurar a veracidade do mostrado, havendo o hábito de produzir e/ou ver representações pictóricas que, mais que fieis, se preocupavam com o iconografar ideias ou sensações, a fotomontagem era perfeitamente aceitável. Não se esperava que o mostrado fosse uma “cópia da realidade”.
Torna isto esta imagem menos importante ou bela? Nada disso, penso eu!
Foi usada para fazer uma alegoria à vivência humana. Fantasia, baseada em parte nos relatos bíblicos e na moral vigente, procura à boa maneira da pintura, mostrar contar aquilo que se quer contar sem imposições técnicas e sabendo que haverá tempo para a observação e consequentes elacções. Indo mais longe, sabendo que ninguém irá para ela olhar e sentir-se enganado por falsidades factuais. Bem mais importante que o representado é o seu significado.
O tempo passou, as técnicas fotográficas evoluíram e, com elas, a questão da veracidade passou a ser um tema importante: conta a fotografia a verdade dos factos? Pode ela falsear o que aconteceu?
A esmagadora maioria do público que consome fotografia hoje espera ver uma fotografia como uma “cópia da realidade”. Sabemos que não o é, quanto mais não seja porque apenas representa um dos cinco sentidos e é bi-dimensional, no lugar de quadri-dimensional.
Mas o público não espera ser enganado na factualidade do que lhe é mostrado. A menos que…
A menos que, em olhando para um trabalho, encontre pistas, sejam quais forem, que lhe digam que não se trata de uma “fotografia” mas sim de uma “imagem fotográfica”. Por outras palavras, que aquilo que lhe é mostrado não resulta apenas da acção da luz no material foto-sensível, mas sim uma alteração da factualidade, inserindo, acrescentando, inventando ou subvertendo aquilo que a objectiva mostrou.
Trata-se de uma utilização das técnicas fotográficas perfeitamente aceitável, razoavelmente bem interpretadas pelo público e sem enganos e subterfúgios.
Claro que quem produz este tipo de imagens procura, com recurso a todas as técnicas disponíveis, inventar o todo ou parte do que mostra de modo a que se assemelhe no possível a uma “fotografia”.
O problema (se algum) levanta-se na perfeição desse embuste.
Se ele é executado ao limite, não deixando pista alguma sobre o ser uma “imagem” e não uma “fotografia”, em sendo descoberto a questão da criatividade, da “arte”, da capacidade artesanal do seu autor perde-se por completo, sobrevindo apenas o facto de o público ter sido enganado.
Bem divulgados têm sido os casos de “imagens” apresentadas como ”fotografias” e que foram denunciadas e excluídas do contexto pretendido: concursos e imprensa.

Óscar Gustave Rejlander foi um mestre no que fez. Tal como muitos outros, então e agora.
Não apenas na perfeição técnica e estética do que produziram, mas porque não se esqueceram da questão ética, velha de séculos, sobre o que é a “verdade”.
Tenho para mim que uma excelente, ou mesmo boa, “imagem fotográfica” é aquela que nos consegue enganar até certo ponto, deixando-nos pistas para o desengano. As que ultrapassam este limite são embustes, falsidades, mentiras, com as quais não gosto de conviver.

Sugiro que aqueles que se dedicam a fazer “imagens fotográficas” pensem seriamente nisto: se querem ser conhecidos por contarem uma história ou uma estória (real ou ficcionada) ou se aceitam o risco de ficarem com o rótulo de mentirosos. Se preferirem a primeira possibilidade, sugiro que deixem no vosso trabalho pistas, mais evidentes ou não tanto, sobre a “não verdade” do que mostram e o se tratar de “imagens fotográficas”

By me

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Se eu digo palavrões?
Digo sim senhor e com orgulho!
Australopitecus, estenopeica, otorrinolaringologia, hiperfocal…
Agora palavras “feias”, como as que se referem a escatologia, genitais ou cargos políticos… Procuro não as dizer, ainda que por vezes não tenha outro recurso senão usá-las para classificar acções ou pessoas.
Mas, também, não sou perfeito.
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O conhecimento é como as cerejas: atrás de uma vem outra e outra e outra…
O problema põe-se com aquelas pessoas que, em tendo comido uma, presumem que comeram todo o cesto! E que nos exibem um caroço como amostra de todos os demais.
Ainda consigo argumentar com esta gente uma, duas, três vezes.
A partir daqui deixa de ser argumentação ou troca saudável de saberes: são conversas de circunstância, em que a urbanidade impera e em que guardo para mim os palavrões que teimam em brotar-me da boca.
Quando não consigo pisgar-me discretamente para longe deles. 
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Metropolis



Há coisas que devem ser muito difíceis de entender.
Será que os portugueses ainda não entenderam que cada vez que estão a usar as máquinas de pagamento automático nas grandes superfícies – hipermercados ou outras – estão a contribuir para um posto de trabalho a menos?

A modernidade tecnológica não pode ser pretexto para vidas de miséria!

By me

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Tranquilidades



Quando entrei no cafezinho, para a bica matinal antes de seguir para a grande cidade, já a conversa acontecia.
Dizia uma mocinha, atrás do balcão que nunca tinha andado de avião. E respondia-lhe uma senhora à frente do balcão, com idade para ser sua avó, que quando vivia em Angola fartava-se de andar de avião, que as cidades são distantes e as estradas não prestam.
Entretanto a mocinha veio trazer-me o café que já sabe que eu quero e perguntar-me se eu queria um copo com água. (Nunca quero a água, mas meteu-se-lhe na cabeça que sim, paciência). Entretanto a tal conversa morreu ou quase.
Mas estive vai-não-vai para a reavivar, metendo o meu longo nariz onde não era chamado.
Mas seria longa a explicação e o meu tempo para tal não abundava.
No entanto, bem gostaria de lhes explicar porque é que, apesar de gostar, me recuso a andar de avião.

Para embarcar num avião, tal como no TGV francês ou no seu equivalente AVE espanhol, há que passar por medidas de segurança, tendo cada passageiro que demonstrar que não é pessoa perigosa pelo facto de transportar certo tipo de objectos.
Ora acontece que:
Os objectos não são perigosos. O seu uso sim! O simples facto de ter comigo um canivete não significa que tenha intuitos assassinos, mas tão só que gosto de descascar a fruta que como.
Mas o mais importante, que me impede de embarcar passa por outro motivo: o ter que demonstrar que sou inocente. Que a sociedade securitária desconfia de tudo e todos.
Na minha cartilha de vida, todos são inocentes até prova em contrário. Ninguém anda a perguntar a quem passa na rua “vai matar alguém hoje?” ou semelhante. Presumimos que isso não sucede.
Mas para viagens aéreas, presumem que qualquer um poderá ser um terrorista e terá que demonstrar, por não transportar objectos “perigosos” que o não é.
Recuso-me a passar por tal indignidade! Não dou azo a que possam desconfiar das minhas intenções! Sou “pessoa de bem” e não admito que partam do princípio do contrário.
Donde, não viajo de avião!

Para os que me dizem, e há quem o diga, “Mas assim não vais a certos lugares”, respondo:
“Será certo que não. Mas durmo tranquilo, não tenho vergonha de olhar no espelho nem sou humilhado por uma sociedade que tem medo de si mesma!”


Imagem: palmada da net
By me

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Alguém vai ter que me explicar, como se eu fosse realmente muito estúpido, porque é que é quase que obrigatório possuir conta bancária – e cartão multibanco - nos relacionamentos comerciais ou com o estado.
Será que o dinheiro passou à clandestinidade?
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Verdade ou consequência





Os objectos não mentem! Um prédio não mente, um garfo não mente, a lua não mente.
Aliás, e sobre a lua, costuma-se dizer que a lua é mentirosa. Isto porque, quando em quarto-decrescente aparenta ser um “C” e em quarto-crescente aparenta ser um “D”. Já do lado de lá do equador, Brasil por exemplo, a lua é verdadeira, assemelhando-se no seu formato às letras que atribuímos ao seu estado. Deve-se esta peculiaridade não à lua, que estará sempre da mesma forma, mas à posição de quem a vê, que no outro hemisfério se está de “pernas para o ar” em relação ao que acontece em Portugal.
Vem esta conversa a propósito de uma discussão quase tão velha quanto a fotografia: A fotografia é mentirosa ou verdadeira?
Eu diria que nem uma coisa nem outra. A fotografia é, apenas.
A mentira ou verdade está em quem a vê e quem a conta. Está em atribuir-se-lhe valores, está em dizer-se “isto é verdade, que eu estava lá!” ou em dizer-se “isto é verdade, é uma fotografia!”
Isto acontece porque se entende que a fotografia, sendo um sistema mecânico e autónomo de registo de luz, mostra-a para além dos valores verdade/mentira. E isto acontece porque nos habituámos a ver a fotografia como documento na imprensa, atestando a verdade do texto que a acompanha.
Mas também acontece que a sociedade tem sempre reservas perante o que a fotografia mostra. Os tribunais não aceitam fotografia como meio de prova, a menos que quem a fez esteja para além de qualquer suspeita. E quando se vê uma imagem fotográfica menos comum, era comum ouvir-se “Ah, isso é montagem”. Hoje o que é comum de se ouvir é “Ah, isso é photoshop”, o que vem a dar no mesmo.
Um bom exemplo de como a verdade ou mentira na fotografia depende, em exclusivo, do valor que lhe atribuímos, é a fotografia vencedora do World Press Photo de 2006. Nela vemos um carro de aspecto impecável, de capota descida e com alguns jovens a bordo, cruzando uma zona destruída por bombardeamentos no sul de Beirute. Lembro ter ouvido inúmeros comentários depreciativos sobre os jovens: “Como é possível andar-se assim no meio de tanta desgraça?!” Aquilo que a maioria não sabia ou não sabe é que esses mesmos jovens estavam no seu próprio carro, no seu próprio bairro, à procura da sua própria casa, bombardeada e destruída como todas as outras.
Em contrapartida, se mostrar eu esta fotografia, muitos serão, como foram, que perguntarão se terei colocado um arame no interior do cigarro. A minha resposta é, como sempre foi, que a fotografia mostra o que realmente aconteceu, resultado de paciência, algumas tentativas e muitos anos de fumador. Sem arames ou quejandos.
Como terceiro exemplo, os serviços policiais que investigam os casamentos de conveniência com o objectivo de obter a cidadania portuguesa procuram, entre outros motivos de prova do afecto ou não entre os recém casados, a existência de fotografias que relatem o tempo de namoro: festas, amigos, lugares em comum, gestos de afecto… Claro que isto é um absurdo, que todos sabemos que tudo isso pode ser falsificado e que, em menos de uma semana e com as ajudas inevitáveis, qualquer um interessado no embuste cria uma vivência de anos de namoro num álbum fotográfico.
Assim, e voltando a um tema que tem mais de 150 anos, a fotografia não é nem verdadeira nem falsa. É a afirmação de veracidade de quem a mostra ou a interpretação como verdadeiro ou falso de quem a vê que lhe dá o valor moral.
Por mim, aceito qualquer imagem fotográfica. E interpreto-a, sempre, como verdadeira no sentido de ser aquilo que o seu autor me quis mostrar. Mesmo uma casa de pernas para o ar ou um rato de fato espacial a roubar pedaços de queijo da lua.
Quanto à factualidade do representado na fotografia, reservo-me sempre o direito de a pôr em causa, comparando o que vejo com a minha própria experiência e saber, considerando a credibilidade de quem a mostra e o que o seu autor me diz sobre a sua veracidade.
Quanto ao resto, e nos tempos que correm e com as tecnologias e media existentes, é sempre aconselhado usar de algum cepticismo. 

By me

terça-feira, 28 de abril de 2015

Emergência





Alguém tem por aí, à mão de semear, um daqueles martelinhos especiais?

By me

Smile





Parece que hoje é dia do sorriso. Não sei se dia internacional, dia mundial, dia global ou dia universal.
Sei que é o dia do sorriso e que foi criado por Harvey Ball, o criador do “Smille”.
 Por isso mesmo, quando vi este sorriso não resisti: veio comigo.
Claro que um sorriso não funciona sozinho, pelo que veio onde estava instalado: um chassi ou porta-negativos formato 6,5x9 (2 1/4x31/4) que encontrei à venda numa loja da especialidade.
O interesse no chassi é simples: em tempos trabalhei com uma Linhoff Tecnika 70 e um dos formatos que suportava era este. Com o qual me entretive a “brincar” aos Ansel Adams e o seu Zone System. Cada negativo exposto e revelado individualmente para total controlo de contraste.
A dificuldade, em meados dos anos ’80 era encontrar película rígida com este formato. Havia apenas duas casas que o disponibilizavam, da marca Orwo, uma de porta aberta, a outra o seu representante, um escritório em Lisboa. ISO 125 (na altura a identificação era ASA) e já era muito bom.
Acrescente-se que esta fotografia foi feita com um smartphone, cujo ecrã é maior que estes negativos. E que todo o porta-negativos, já agora.

São nove e tal da noite deste dia mundial do sorriso.
Se ainda não sorriu ou fez alguém sorrir hoje, ainda vai a tempo. Tal como amanhã, depois, depois...

By me

Provocação





Tem-se vindo a falar num grupo de fotografia, em público ou privado, sobre a veracidade de algumas fotografias.
Por outras palavras, se aquilo que é exibido é o resultado daquilo que se viu no local, com mais ou menos corte ao original ou com mais ou menos ajustes de brilho, contraste, etc. ou, pelo contrário, se se trata de uma factual manipulação de duas ou mais imagens, criando uma situação falsa, mesmo que bonita ou espectacular.

Deixo-vos aqui esta imagem fotográfica, que não é minha. E deixo ao vosso cuidado, se entenderem que vale o esforço, o procurarem-na e indagarem sobre o seu autor, data e características do que aqui está.
Talvez que se divirtam, ao mesmo tempo que se espantem. 

By me

Eu quero a minha cidade de volta



No miradoiro de Santa Luzia, quase não consigo ver a cidade, por entre as cabeleiras loiras ou grizalhas quase brancas.
As escadas para o rio estão super-iluminadas por flashs ininterruptos, sem fito ou utilidade.
Ganho espaço em Santa Apolónia. No cais, na zona molhada, hotéis lacustres, a que dão o nome genérico de barcos, que jorram turbas de curiosos, todos mais velhos que eu, que ocupam todos os lugares do autocarro.
Desembarco na praça do Comércio. O seu contorno repleto de esplanadas e vendedores de recuerdos, nem umas nem outras para a minha bolsa de alfacinha.
Subo a rua Augusta e só muito a custo encontro um comércio atendido por um lusitano, quase parecendo estar numa qualquer filial das Nações Unidas, versão oriental.
Atravesso o Rossio e quase que tenho que recorrer a intérpretes para perceber alguma coisa das múltiplas e divertidas conversas que por ali acontecem.
Junto ao Teatro Nacional, os Tuc-tuc atrapalham trânsito rodoviário e pedonal, falsificando turismos e transportes tradicionais.


Quero a minha cidade de volta!

By me

Provocações





Não tenho grande paciência para aqueles que passam o tempo a enaltecer as novidades no campo da captação de imagem (fotografia ou vídeo) e que, no fim de contas, não sabem contar uma história, não conseguem pôr o público a sonhar nem são capazes de serem fiéis ao que acontece em frente da objectiva.
No lugar de sonharem com o que não têm, saibam fazer um enquadramento que conte a história que querem contar; saibam tirar partido da luz que existe ou ajustá-la ao que imaginaram; saibam escolher a perspectiva que conduza (ou desvie) o olhar daquilo que se quer (ou não quer).
A maior parte dos que passam o tempo a “babarem-se” com as novidades são os que não têm um pingo de criatividade e são incapazes de tirar partido do que possuem.

Ou é necessário uma caneta com aparo de ouro para escrever um bom romance?

Byme

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Uma questão de métodos e linguagem





A história é antiga. Antiga o suficiente para acreditar que talvez alguns dos que a possam ler agora à época não soubessem ainda ler. E, por um qualquer motivo, creio já o ter a ter contado on-line, não sei quando nem onde.
Mas como vem a propósito de uma situação de que soube recentemente, aqui fica.

Naquele tempo havia poucos com as minhas especialidades profissionais. O mercado, emergente então, ainda não estava preparado com mão-de-obra especializada para atender aos pedidos.
Por isso, alguns de nós, fora das horas de trabalho normais, íamos atendendo os pedidos externos, umas vezes aqui, outras ali.
Uma dessas empresas tinha por sócio-gerente um aldrabão. Pagava mal e a desoras, sendo sempre necessário umas conversas extras para que nos fosse entregue o que era nosso por direito.
Um dia, eu e um companheiro decidimos que já chegava.
Fomos à sede da empresa pedir o pagamento final em atraso. Com a firme decisão de de lá sairmos, pela última vez, com o dinheiro no bolso.
O encontro foi no gabinete dele, ele sentado, nós de pé. E a sua conversa a do costume: “Agora não convinha, talvez que mais lá para o fim do mês, nós telefonamos quando tivermos os cheques prontos…” o costume.
Acontece que eu estava mesmo já farto daquela conversa e não estive com meias medidas: Pondo as mãos na cintura, tal e qual um varina, e puxando o colete para trás, perguntei-lhe: “Então e como é que vai ser?”
O seu olhar esbugalhou-se, já que com o meu gesto deixara a descoberto, como que por acaso, aquilo que trazia do lado direito, entalado no cós das calças. Não era muito grande ou barulhento, mas fazia o seu serviço com eficácia. E eu sabia-me eficaz com ele.
O olhar de quem estava sentado à nossa frente dançou da minha cintura para a minha cara, da minha cara para a cara do meu companheiro, da cara dele para a minha cintura, umas poucas de vezes. Sempre em silêncio, que os argumentos estavam já esgotados.
Levantou a mão da secretária, pegou no telefone interno (foi há já bastante tempo, lembram-se?) e falou com alguém da empresa.
Algum tempo depois saíamos de lá, cada um com o seu cheque devidamente preenchido e assinado. Que fomos de imediato levantar, por via de dúvidas.
(Ressalve-se que conhecíamos um pouco do seu passado, e sabíamo-lo habituado a este género de argumentos, fosse ele a colocá-los, fosse ele o objecto deles).

Por vezes não são necessárias palavras ou tons de voz exaltados para resolver os problemas: uma mera sugestão de alternativas é suficiente.

By me

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Conhecem aquela história de um tipo que era tão bonzinho, mas tão bonzinho,  que nem partia um prato?
Pois, acontece que a história não dizia se o tipo teria ou não barbas e cabelos compridos e não referia copos de vidro, pois não?
Valeram as luvas!
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Para que conste



Será bom que graxistas, bufos, sabujos e outros que tais saibam que não são apreciados pelas respectivas estruturas ou chefias.
Apenas são tolerados enquanto úteis e descartados assim que possível.

No fim de conta, nem mesmo o poder gosta, de facto, de gente de mau carácter ou de traidores.

By me 

Conceitos





Ouvi-a há muitos anos de um professor e ainda não me saiu da mente:
“A teoria sem a prática é cega, a prática sem a teoria é estúpida”.

Reformulei-a eu algum tempo depois:
“A técnica sem a estética é insípida, a estética sem a técnica é trapalhona. Qualquer uma delas sem a ética é cruel”.

By me

domingo, 26 de abril de 2015

Coerências





Parece que a comunidade internacional está a mobilizar-se em peso, incluindo o secretário-geral da ONU, no sentido de convencer o governo da Indonésia a não fuzilar oito estrangeiros, acusados de tráfico de droga.
Faz todo o sentido, esta solidariedade internacional.
Só é pena é só se manifestarem por serem estrangeiros. Quando são cidadãos indonésios acusados e executados não se pronunciam.
Tal como não se pronunciam (ou se o fazem é tão baixinho que ninguém ouve) quando são executados prisioneiros nos Estados Unidos da América.
Tal como não oiço a comunidade internacional, incluindo o secretário-geral da ONU protestar contra o facto de continuar as estar um sem número de prisioneiros em Guantanamo, sem culpa formada, sem julgamento e sem defesa. Há anos!
Acho que a comunidade internacional, tal como o secretário-geral da ONU não conhece o que acontece portas adentro dos EUA. 

By me

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Depois de um namoro de poucos anos, foi ontem anunciado um casamento para daqui a seis meses.
Parece que é da praxe o sacerdote dizer “até que a morte os separe”.
Será que podem fazer um favor a uns milhões e morrer juntos?
Já, de preferência!
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O retrato





É verdade que sim: esta fotografia não está grande coisa.
Aliás, está mesmo fracota.
Poderia eu argumentar que a luz estava chocha, que ainda não tinha entrado no espírito da coisa, que estava a levar uns encontrões e que havia pouco tempo pois estavam a afastar quem estava no caminho do Chaimite.
Poderia eu argumentar um montão de coisas, mas isso não acrescentaria rigorosamente nada de qualidade a esta fotografia. Não fosse…

Fiz esta imagem porque a senhora se diferenciava dos demais. Não encarneirava, não usava cravo e os únicos símbolos ao dia seriam a boina vermelha e a estrela nela aposta.
Olhando para ela, ali desfilando bem em frente ao Chaimite, alegre como poucos, fiquei na dúvida se essa alegria adviria do festejo geral se de um outro, muito particular: o ela ainda ali estar a festejar.
A fotografia foi feita após pedido, como é meu hábito. E como se constata pelo olhar bem directo.
Já na altura não fiquei satisfeito, mas foi o que pude fazer e não lhe daria mais atenção no momento não fora a senhora ter-me pedido para que lha mostrasse. O que fiz, naturalmente.
Mas ela foi mais longe e pediu-me que lha mandasse por e-mail. “Claro que sim! E qual é ele?” disse de imediato, rapando do caderninho e da caneta.
“Não vale a pena, que venho já preparada.”
E metendo a mão ao bolso das calças, tirou de lá aquilo que já não vai sendo tão comum assim: um cartão de visita.
“Mas manda-me mesmo, não manda? É que há muitos que dizem que mandam e depois não recebo nada… manda, não manda?”
Não tinha posto os óculos para escrever o que me dissesse. Mas pu-los para ler o cartão. Estava lá tudo o que precisava de saber, incluindo uma discreta mas bonita flor de Lis a encimar tudo.

Esta é mais uma das centenas de milhar de fotografias falhadas ou menos boas que fiz ao longo dos anos.
Apesar disso, foi enviada.
Que sou pessoa para cumprir promessas, mesmo que envergonhado pelo falhanço. 

By me

Encontros





Uma das coisas que me é difícil fazer, quando vou fotografar um dado evento, é deixar de parte ideias pré-concebidas.
O ideal será, muito naturalmente, chegar ao acontecimento de alma aberta, capaz de receber o que sucede em redor e ir fazendo o registo. Bem que deambulo de início, tentando deixar que o espírito existente me invada.
Mas não me é fácil, quando se trata de manifestações políticas: tenho ideias sobre o assunto e, naturalmente, o meu olhar está filtrado por elas.
Mas, também, não pretendo ser jornalista. O que faço é um retrato de mim mesmo projectado sobre o que me cerca. Deixo a questão da isenção da comunicação para os profissionais da comunicação.

Numa manifestação há coisas que procuro. Com afinco. E já me apercebi de alguns olhares sobre mim, quando estou parado ou em trânsito no meio da multidão, estranhando o “olhar de caçador” que vou tendo.
Uma das coisas que esse meu olhar de caçador procura, sempre, são câmaras fotográficas. Manias.
Mas não qualquer uma!
Dada a raridade da marca que uso e de que gosto, Pentax, sempre que encontro uma nestas circunstâncias trato de a fotografar.
Não quem a possui. Não é isso o importante. O que conta, neste caso, é haver quem use aquilo que começa a rarear e muito.

Ontem não foi excepção. Ou melhor: foi excepção porque não vi nem uma que fosse. Não significa que não estivesse alguma por lá, mas eu não vi.
Vi foi este outro exemplar fotográfico, também ele raro.
Raro por ser película, raro pelo formato desta, raro pela sua marca.
Quem a segurava estranhou o pedido, mas a cumplicidade fotográfica sobreveio, o orgulho na peça também, e aqui está.
Acredito que, dos milhares de formas de captação de imagem que ontem desceram a avenida, esta fosse peça única! Naquilo que é e no que implica a sua forma de usar e características.
Viva quem faz!

By me

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O prazer de ver coisas bem feitas ou perfeitas é quase inexcedível.
Daí que as pessoas frequentem concertos, exposições e museus, bibliotecas…
Mas há coisas bem feitas ou perfeitas que são particularmente difíceis de ver.
Por exemplo: um bonito nó de forca em alguns pescoços conhecidos.
Eis algo que ainda não tive o prazer de ver e que muita falta me faz. 
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Graffiti 3D



By me

sábado, 25 de abril de 2015

Dois retratos





Há uns dias usei a fotografia que consta à esquerda.
Sobre ela publiquei:

Há cinco anos fazia eu este retrato e juntava-lhe estas palavras: “Espero apenas que o bonito sorriso que aqui exibes não seja apenas porque o dia estava bom, havia festa e tinhas uma flor na mão. Desejo mesmo que ele, o sorriso, seja porque acreditas de alguma forma no que ele significou e significa, e que tenhas como verdade que o futuro te pertence e que o irás construir à tua medida. Quanto ao não teres hoje aquilo que, então, nós acreditámos e sonhámos, mais não posso fazer que, a ti e aos da tua geração, pedir desculpa pelo nosso falhanço. E citar António Gedeão, excelentemente interpretado por Manuel Freire:
Eles não sabem nem sonham
Que o sonho comanda a vida E que sempre que o homem sonha O mundo pula e avança Como bola colorida Entre as mãos duma criança." Não sei o teu nome, tu que descias a avenida. Mas espero que agora, cinco anos passados, continues a sorrir com um cravo na mão. Agora que talvez já tenhas acabado um curso, agora que talvez já tenhas constituído família, agora que talvez já estejas a lutar por um salário honestamente ganho. Agora!

Hoje, também num 25 de Abril, tropeço nela. Reconheci-lhe a cara mas não as circunstâncias de como nos conhecíamos. E meti conversa.
Sabia ela de onde.
Recordava-se da fotografia feita há cinco anos e recordava-se ainda do tipo das barbas e de câmara estranha que a havia fotografado ainda há mais tempo, no Jardim da Estrela.
Não resisti e tentei reproduzir a anterior.
A luz não é a mesma, nem o cabelo, nem os óculos, nem o cravo…
Mas o sorriso é! E, por aquilo que percebi da mini-conversa que tivemos, a razão de ser dele mantém-se – o acreditar no futuro. Apesar do presente ser o que é.
Agora já sei o teu nome. Quem sabe se num qualquer outro festejo da Revolução não tenha eu a oportunidade de te chamar por ele.
E de tornara registar um sorriso bonito e esperançoso. 

By me

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Dar por mim, acrata convicto, a defender num café da minha rua o exercício da democracia e a justificar o seu custo económico, perante uma plateia de uns dez vizinhos……

Ou estou a ficar decrépito ou estou a ficar desesperado!
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Truques e brincadeiras







Para os que gostam de experimentar diferente, fazendo do velho novo, abordar técnicas que, sendo de antanho, estão na moda e usando um toque de modernidade, aqui fica:

Uma brincadeira já com uns anitos.



Sacrifiquei uma tampa de corpo, da qual retirei um bom pedaço do seu centro.

Recortei um pedaço de cartolina preta com o tamanho e forma exacta para caber no exterior da tampa. Bem no seu centro, um orifício com meio a um centímetro de diâmetro. A necessidade da cartolina prende-se com o facto de o nome da marca estar gravado em relevo na tampa, comprometendo a geometria do sistema.

Cobrindo o orifício, um pedacinho de papel de alumínio, no centro do qual se faz o clássico minúsculo buraquinho com a ponta de uma agulha ou alfinete.



E pronto!

Com um nico de habilidade e engenho temos uma câmara pin-hole moderna, com resultados digitais.

O seu nome técnico é, como alguns saberão, “estenopeica”.

A imagem formada é, tal como com uma objectiva convencional, real, invertida e menor que o objecto fotografado.

As vantagens deste método, no lugar da clássica caixa ou lata e suporte argêntico, serão:

O imediatismo da coisa. Poderemos ver, “na hora” o resultado e fazer correcções;

Um razoável controlo de exposição. Nas câmaras que permitam uma medição e funcionamento TTL com objectivas manuais e antigas, bastará fazê-lo que teremos o tempo de exposição em função do diâmetro do orifício (sempre minúsculo naturalmente) e da distância a que se encontra do sensor (I=1/D², a velha fórmula vital em tanto na imagem e luz);

A possibilidade de variarmos o ângulo de visão sem grandes transformações. Para quem não gostar do ângulo conseguido com o sistema descrito e mostrado e quiser ângulos mais apertados, bastará afastar o artefacto construído, usando para tal um anel de extensão para “macro” ou um fole com o mesmo objectivo. Os parâmetros de exposição alteram-se naturalmente, mas obtêm-se assim uma “teleobjectiva”.

A sugestão óbvia, mesmo que em dia de sol intenso, é recorrer a um tripé, já que terão poses longas.



O resultado?

Este é um dos que obtive quando andei a “brincar” com o sistema. A qualidade depende do diâmetro do orifício, do papel de alumínio usado e da perfeição e regularidade nos seus bordos com que o orifício seja feito. Na altura decidi melhorar o sistema que fiz e a qualidade resultante, mas… já sabem como é: aquilo que guardamos para depois tarde ou nunca acontece.

Para quem se quiser entreter, os testes de construção e criação do orifício podem ser feitos em casa, testando pela janela e em dia de sol, e o conjunto guardado numa caixinha que se arruma num qualquer compartimento do saco da tralha.

Divirtam-se e aproveitem os dias de sol que se aproximam.

By me

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No dia em que os portugueses, mais que celebrarem, fizerem por merecer a celebração, nesse dia…
Nesse dia apanharei uma bebedeira descomunal, celebrando a verdadeira libertação dos portugueses.
Até lá…
Até lá continuaremos agarrados ao passado, à espera de um qualquer embuçado que surgirá numa manhã de nevoeiro para fazer aquilo que não temos coragem!
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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Também secam





Então mas… e os cravos também secam?

As flores sim, como quase tudo o que é material e vivo.
Agora o espírito, o significado, a vontade… Acho que nem depois do que é vivo morrer secará!

By me

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Eu juro!

Olho para muitas – demasiadas – fotografias feitas por profissionais e a primeira sensação que tenho é a de falta de ar.

Eu fico com falta de ar ao ver tanta falta de ar nos modelos e situações apresentadas.

Ainda se fosse de propósito… 
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