terça-feira, 31 de março de 2015

Livre e acrata



Num fórum ou grupo onde se discute um impresso contendo a formalidade da autorização do representante legam de um criança para que possa ser fotografada comercialmente, deu-me para contribuir com estas palavras.
Ficam à consideração (e as suas ideias) dos restantes, agora que vivemos num mundo onde a imagem é rainha.

É sabido que sou um acérrimo defensor do direito à reserva da imagem.
Esse direito aplica-se a qualquer ser humano, seja qual for a sua condição.
Também sabemos que uma fotografia, uma vez divulgada – seja qual for o suporte – é de difícil controlo. Tanto por parte do fotógrafo como por parte de quem nela consta.
Ser um adulto a deliberar sobre o fazer de imagens de menores, sem que fique legalmente salvaguardada a possibilidade de o próprio – o menor – emitir opinião sobre a sua própria imagem é, do meu ponto de vista, um abuso.
Mais ainda, não fica estabelecido nesse contrato que o menor, em chegando à maioridade, poderá revogar o contrato, exercendo o seu direito à reserva da imagem que lhe foi sonegado enquanto menor de idade.
É, do meu ponto de vista, pouco correcto colocar no mercado à revelia do fotografado, imagens dele, ficando “ad eternum” à disposição de quem a queira comprar e usar.
Sei que o mercado fotográfico e publicitário funciona assim. Não significa isso que concorde com tal prática. E, muito menos, que assim proceda eu.
Fazendo uma analogia no tempo, há mais de século e meio que se defende o direito à auto-determinação do ser humano – o fim da escravatura.
Faz sentido fazer o mesmo com a imagem do ser humano, mais a mais quando o próprio não tem poder de decisão sobre ela, como é o caso de menores.

Serei pouco convencional neste tema, mais a mais lidando com a fotografia como lido. Mas a minha condição de fotógrafo em momento algum se sobrepõe à minha condição de ser humano. Livre e acrata.


Imagem: do meu arquivo
By me

Um brinde





Um brinde a todas as nossas vitórias e fracassos, que é de ambos que somos feitos.

By me

Ficção





Há romances de ficção “lindos de morrer”.
“O Principezinho” é um deles. “Um estranho numa terra estranha” também.
A “convenção dos direitos do homem” e a “constituição da república portuguesa” entram na mesma classificação. 
.

segunda-feira, 30 de março de 2015

.

Eu vi! Eu juro que vi!
Eu vi os 30º graus que anunciaram.

Estavam num transferidor que tenho em casa.
. 

Nível





Tive ontem na mão uma câmara que tinha no visor electrónico um nível.
Dava bem nas vistas, que era constituído por uma linha amarela que atravessava toda a imagem.
Conheço muito boa gente que bem precisava disso, por aquilo que tenho visto de fotografias de interior, de edifícios ou mesmo de paisagens de mar.

By me

Pulgas



Anda por aí a circular uma fotografia.
Mostra-nos ela uma menina (?) na Síria (?) levantando as mãos em gesto de rendição (?) perante uma câmara fotográfica que ela supunha ser uma arma (?).
É interessante ver, por aquilo que li, que nunca é referido o nome do fotógrafo, ainda que se diga o nome do jornal para onde trabalha o jornalista.
Diz, antes sim, o nome de uma fotojornalista na Palestina que a divulgou.

Ando com pulga atrás da orelha sobre a veracidade da história contada. 
.

Ferramentas





Quando acontece eu abrir o meu canivete para fazer algo simples como abrir uma carta ou descascar uma peça de fruta e alguém por perto dizer “Chega para isso lá que tenho medo!”, costumo fazer uma brincadeira.
Dizendo-lhe “Vou-te mostrar algo”, aproximo a lâmina da sua cara. Na vertical e com o gume virado para mim.
Naturalmente que a reacção é a esperada: ou recuam, ou fecham os olhos, ou ficam rígidos…
De seguida acrescento “Agora espera”. E aproximo à mesma distância uma esferográfica que, entretanto, tirei do bolso.
A reacção também é a esperada: coisa nenhuma. Nem recuo nem manifestação de receio ou medo.
E continuo eu:
“Repara: apesar de me conheceres, de teres alguma confiança em mim e de saberes que não te iria fazer mal, tiveste medo da lâmina. Mas não tiveste medo algum da caneta. E, no entanto, em menos de coisa nenhuma, poderia espetar-ta no pescoço, antes que pudesses reagir.”
Assim é com tudo o que existe: por si mesmos os objectos não são perigosos!
É o uso que lhes damos que poderá, ou não, ser perigoso ou nefasto.
Um canivete, sabemo-lo, tanto pode servir para abrir uma garganta, para descascar uma maçã ou para talhar na madeira uma flauta.
Tal como uma caneta tanto pode servir para assinar uma declaração de guerra, preencher um impresso ou escrever um poema.
E, em última análise, sempre se pode concluir que a caneta é mais perigosa que um canivete, já que nos defendemos deste mas não daquela.
Em querendo, pode-se ainda usar uma velha analogia: “O poder da pena sobre a espada”.

O mesmo se pode dizer sobre a fotografia. Por si mesma ela não fará mal a ninguém. Mais ainda, temos a opinião generalizada que a fotografia e o acto de fotografar são questões técnicas ou artísticas, inócuas portanto.
No entanto, num bucólico jardim e numa tarde primaveril, tanto posso fotografar uma flor de uma árvore como posso afastar as folhas e discretamente fotografar o casal de namorados que ali se encontram à revelia do conhecimento das respectivas caras-metades.
A fotografia, por si mesma, nada tem de mal.
Mas quando a usamos para quebrar a privacidade de terceiros, para entrar abusivamente na intimidade de outrem, torna-se pérfida, odiosa, tão maléfica quanto qualquer outro objecto.

Este Domingo fui fotografar fantasmas. Para o fazer como quero, a técnica implica o uso de um tripé e nele a câmara orientada para zonas onde passem pessoas. Nada discreto, portanto.
Pois no jardim onde o fiz, vários foram os adultos que, acompanhando crianças pequenas, olharam para mim e para a câmara e tripé com ar agressivo. Suponho que pensaram que eu estaria a fazer imagens dos pequenotes. E, nos tempos que correm, isso é “politicamente incorrecto”. Creio que nada disseram ou fizeram porque não me viram a espreitar pelo visor. Mas que as suas caras demonstraram desagrado, lá isso demonstraram.
Felizmente, para mim e para quem estava comigo, não se aperceberam que a câmara estava a ser usada com um cabo disparador, fabrico caseiro, e que se eu quisesse fazer as imagens que eles temiam não dariam por nada.
Quando não, lá teria eu que desmontar a tralha, mostrar-lhes o que tinha registado e explicar-lhes que procurava fantasmas. Inócuo, portanto.

A ferramenta nunca é perigosa. O uso que lhe damos é que sim!

By me

Dificuldades





Ao passear na rua encontrou aquele insólito objecto caído no chão. Baixou-se, pegou-o e sacudiu-lhe o pó.
De imediato de lá saiu um estranho ser que lhe disse:
“Meu amo e senhor: Obrigado por me libertares. Tendes direito a um desejo!”
“Mas…. Quem és tu?”
“Sou um aprendiz de génio da lâmpada e tens direito à satisfação de um desejo.”
“Um desejo?! Mas o génio dá sempre três desejos!”
“Pois é, mas eu sou apenas um estagiário, pelo que só posso conceder um. E pede-me uma coisa simples, que ainda estou a aprender isto da magia.”
“Se é só um, tenho que pensar bem!
Podia ser um carro… Um monte de dinheiro… Juventude…
Não! Vou ser magnânimo!
Se é apenas um, será algo para bem da humanidade!
Desejo que termines com a guerra no médio Oriente! Esse é o meu desejo!”
“Eh lá! Olha que isso é muito difícil! Pede antes uma coisa mais fácil, por favor, que ainda estou a aprender…”
“Bem, então sendo assim… Desejo que termines com a crise em Portugal!”
“Ora bem, vejamos! Onde é que era mesmo essa guerra?”

By me

domingo, 29 de março de 2015

'Tava bonito, o dia





É verdade: eu já contei que gosto muito de fotografar quando a luz vem do lado de lá?

By me

Fantasmas





Gosto de sair para fotografar fantasmas. E não é coisa fácil.
Ou bem que não estão visíveis ou, por vezes, aparecem aos magotes, sem mesmo haver como os identificar. 

By me

Sobre a catástrofe na zona de Atacama, no Chile


O deserto de Atacama, no norte do Chile, é o de maior altitude de menor pluviosidade do mundo.
A razão de ser da sua aridez prende-se na conjugação da geografia do local e nas correntes marítimas do Pacífico, que impede a formação ou aproximação de nuvens.
Torna-se, assim, na zona privilegiada para a observação do espaço, sendo aqui que se encontram alguns dos maiores e melhores telescópios e rádio-telescópios do mundo.
Curiosamente, foi a sua aridez um dos motivos da mais longa guerra: trezentos anos. A dificuldade de cruzar os Andes, bem como a dificuldade dos mares ao sul da Patagónia fez com que os conquistadores espanhóis descessem a costa oeste da América do Sul. O deserto, árido ao limite, impediu avanços em grande escala dos europeus, o que facilitou a resistência do povo Mapuche que vivia entre os Andes e o Pacífico e ao sul do Atacama.
Apesar de não terem escrita, de não terem armas de fogo, de não terem cavalos, durante 300 anos fizeram frente sólida aos invasores.
Hoje vivem na Patagónia Chilena, numa reserva territorial. E correm o risco de de lá serem expulsos, visto que nesses territórios, até agora considerados inóspitos e inúteis, foram descobertas riquezas no subsolo.

Claro está que este já considerado extermínio não consta dos media, nem locais nem internacionais. Não é politicamente correcto falar no assunto, evidentemente.

By me

Faz sentido, não?

Pão com manteiga – 0.40€
Pão sem manteiga – 0.20€
Pão com margarina – 0.30€
Pão sem margarina – 0.15€
 .

Pão quente





Confesso que é daquelas a que não resisto. Velha como a Sé de Braga mas, para muitos, novinha em folha.
Em entrando no café aqui da rua para comprar pão, diz-me uma empregada que já me conhece:
“É café?”
Como resposta:
“Quem? Eu? Não! Sou mesmo uma pessoa. Mas o que eu quero é uma bica e duas bolinhas, por favor.”
Fica ela a olhar p’ra mim, ficam os demais clientes, que me viram entrar a coxear, a olhar p’ra mim, um sorriso colectivo, e eu lá bebo o meu cafezinho, pago e saio. Com a câmara dependurada no ombro, o meu pão quentinho e a satisfação de ter feito sorrir alguém hoje.

By me

O sol, as empenas e eu





Se pensarmos bem sobre o que fazemos, nós os fotógrafos, acabamos por chegar à conclusão que a nossa actividade funciona pela negativa.
Já nem falo, agora, na questão do enquadramento, em que com ele excluímos tudo o que nos cerca menos o que nos interessa. O sistema fotográfico assim nos obriga.
Falo, antes sim, que ao fotografarmos não estamos a registar a luz que nos agrada mas antes a modificação que ela sofreu. Quer seja por atravessar a atmosfera, quer seja porque algo se interpõe no seu caminho, quer seja a que é reflectida de um qualquer objecto ou ser vivo.
Não fotografamos a luz mas sim as suas consequências.

Tenho uma especial predilecção por fotografar empenas.
São telas grandes, impolutas de cores e irregularidades de formas, o local certo para que a luz, que não vemos, incida, se manifeste e nos mostre as alterações que sofre: as modificações de quando o sol está baixo no horizonte, atravessando mais atmosfera e materiais em suspensão; a reflexão na atmosfera, mostrando-nos um cor celeste tão breve quanto o pôr-do-sol; a interrupção no seu trajecto, feita pelos prédios vizinho, que reduz à bidimensionalidade fotográfica o que é de facto tridimensional…
Para todos os efeitos, sombras projectadas são fotografias, na medida em que é a escrita da luz que vemos.

Naquele dia atrasei-me no meu caminho, entretido que estive a ver aquele magote de gente jovem a desfrutar do jardim, do fim do dia e da antecipação de férias. Espraiados pela relva em pequenos grupos sentados nela ou não, cavaqueavam e riam-se por entre golos de cerveja barata com a displicência e alegria própria de quem ainda não entrou nas rotinas e obrigações laborais, parentais e horárias. Bom de ver, mesmo!
Quando decidi seguir e ir até a uma das minhas empenas favoritas constatei que era tarde: não chegaria a tempo de assistir à última fotografia ali exibida pelo sol.
Mas sendo que estava disposto a fotografar uma fotografia, escolhi outra: esta, que estava mesmo ali e que, fosse lá porque fosse, ainda não havia descoberto.
E se nós, fotógrafos, procuramos com a nossa parafernália tecnológica a perpetuidade do nosso trabalho, o universo, na sua eternidade, escreve breve e rápido, não se preocupando com conceitos estéticos ou tecnologias.

Gosto de empenas ao cair do dia. E de sentir, com a modificação das sombras, a nossa rotatividade. E a nossa brevidade.
Manias!

By me

sábado, 28 de março de 2015

RFM





Estive numa loja de fotografia recentemente. Uma loja boa, com equipamento para todas as bolsas e profissionais a saberem do ofício.
Enquanto esperava a minha vez, e depois de espreitar o que por lá havia, entretive-me a ver o que se passava no balcão.
Um dos clientes, uma senhora na casa dos cinquentas, tinha trazido uma câmara com uma avaria, ainda dentro da garantia. Uma câmara pequena, compacta, aquilo a que costumo chamar de “câmara de bolso”.
A loja, não podendo reparar o defeito, tratou de substituir a câmara em causa por outra, como o estipulado. Acontece que o modelo em causa está descontinuado, pelo que o que lhe foi entregue foi o que está no mercado actualmente. Por sinal, bem mais avançado que o devolvido.
Pois a senhora, estando às voltas com ela, não encontrava a acessibilidade de alguns comandos a que estava habituada. E reclamava que aquela não fazia o que a outra fazia.
A paciência do empregado foi extrema, explicando-lhe como acedia aos menus, como a usava em modo manual, como mudava os “setings”… Ainda assim, a senhora não estava satisfeita e saiu a protestar em voz baixa.
Com equipamento melhor que o anterior, mas a protestar.
De notar que, e para além do resto, a marca em causa é particularmente boa e dispendiosa. Só a ela acede quem realmente tem dinheiro disponível.
Quando chegou a minha vez, comentei o episódio, tendo obtido por resposta um suspiro de conformismo e um “São tantos assim…”
E quando sugeri que recomendassem o clássico RFM (Read the Fucking Manual) o que ouvi de volta foi o que esperava:
“A maioria nem os tira da embalagem de origem. Nem sei se não chegam mesmo a deitá-los fora junto com a caixa.”

Saí da loja com o que queria, incluindo um artigo já tão em desuso (um anel redutor de filtros) que demorou um bom pedaço a encontrar.
E com a certeza daquilo que sei há muito: para muitos, o manual de instruções é aquele livrinho, cheio de bonecos e letras, que só atrapalha o fazer fotografias da treta.

Na imagem: o local onde guardo os últimos aqui entrados. Os restantes estão em caixas, daquelas grandes, na despensa. 

By me

Velharia





A piada é velha. Bem velha. Mas sempre aqui a deixo, não vá alguém não a conhecer.

Esta noite não esqueça: quando estiver a dar uma, dê duas. 

By me

.





Sabemos ser o fruto proibido o mais desejado.
Por isso mesmo, e em vendo este aviso numa lojinha de inutilidades, tratei de fazer o registo, pese embora ter sido autorizado a tal.
Acrescente-se que, de todos os quadrinhos aqui existentes e cheios de frases feitas e inúteis, este era o único que estava “de banda como o Miranda”. Suponho que quem cuida da loja sabe que é o diferente que atrai o olhar.
Quanto às inutilidades, saí da loja com o que penso ser a arrumação certa para os meus aparelhos de medida de luz. Alguns deles, pelo menos. 

By me

Equilíbrios





Presume-se que as leis e a sua aplicação (justiça) representem as sensibilidades e a moral instituída na sociedade onde vigoram.
E é para isso que existe um parlamento, representante do povo, para redigir e aprovar leis. E é para isso que existe todo o sistema judicial, para julgar em função das leis em vigor.

Eis duas pequenas notícias num jornal de hoje onde a justiça é aplicada em Portugal.
E compare-se a importância relativa entre dois crimes – provados – e a forma como as penas foram aplicadas.

1-
O Tribunal de Aveiro condenou esta sexta-feira a dois anos e meio de prisão, com pena suspensa, um homem suspeito de ter filmado crianças a tomar banho nos balneários públicos da praia da Barra, em Ílhavo.
Durante a leitura do acórdão, a juíza presidente disse que o tribunal deu como provado tudo o que constava da acusação.
O arguido, de 27 anos, estava acusado de cinco crimes de pornografia de menores, três dos quais agravados, mas foi condenado apenas por um crime, que engloba todos os outros.
Apesar de o arguido padecer de doença mental ligeira, o colectivo de juízes entendeu não atenuar a pena, porque o relatório médico diz que o suspeito tem dificuldade em aprender com os erros e tem tendência para a repetição dos actos.
"Isto faz com que o tribunal tenha mais cautela e por isso não deve atenuar especialmente a pena", disse a juiz-presidente.
Todo o material informático do arguido onde foram encontrados conteúdos pornográficos foi declarado perdido a favor do Estado.
Durante o julgamento, o suspeito confessou os factos descritos na acusação, embora dizendo que não pretendia partilhar os conteúdos pornográficos, e mostrou arrependimento, sem conseguir, contudo, explicar o seu comportamento.
Segundo a acusação do Ministério Público (MP), o arguido captou imagens e efectuou vídeos de crianças com menos de 14 anos nuas, enquanto tomavam banho nos balneários públicos na praia da Barra, em Ílhavo.
As autoridades descobriram guardados no computador portátil do arguido e no cartão de memória do seu telemóvel milhares de imagens e vídeos de crianças e bebés nus.
Estes ficheiros terão sido obtidos pelo suspeito em diversos sites na internet, desde data não apurada até 2 de Junho de 2014, quando foi detido por inspectores da PJ de Aveiro.
O MP diz que o arguido efectuou, adquiriu e guardou tais ficheiros de imagem e vídeo com o propósito de se satisfazer sexualmente, adiantando que o mesmo partilhava as imagens através da Internet.

2 -
O Tribunal de Porto-Este (Penafiel) condenou duas pessoas a dois anos e sete meses de prisão, penas suspensa na sua execução, por fraude ao Serviço Nacional de Saúde, anunciou esta sexta-feira a Procuradoria-Geral Distrital do Porto.
Os arguidos foram condenados pela prática dos crimes de burla qualificada e de falsificação, sendo ainda condenados a pagar ao Estado 22.067 mil euros, lê-se na página oficial da Procuradoria.
“O tribunal considerou provado que os arguidos se apossaram de receitas médicas de cinco médicos, de vinhetas também de médicos, assim como de diversos nomes de utentes do Serviço Nacional de Saúde e dos respectivos números de beneficiários, todos eles com direito a elevada taxa de comparticipação do Estado na compra de medicamentos”, refere a nota.
Segundo a procuradoria, os presumíveis burlões apresentaram, entre 16 e 23 de Setembro de 2011, receitas preenchidas como se de verdadeiras prescrições médicas se tratassem e autenticadas com vinhetas utilizadas à revelia dos médicos seus titulares, em 25 farmácias, adquirindo medicamentos comparticipados pelo Estado a 95% e “pagando apenas a demasia desta comparticipação”.
Além do prejuízo causado ao Estado, o tribunal considerou ainda que os arguidos, com as suas condutas, “esgotando os medicamentos que compravam nas farmácias das zonas por onde passavam, impediram que os doentes, afinal os que deles verdadeiramente necessitavam, lhes acedessem”, frisou.

By me

sexta-feira, 27 de março de 2015

Viva quem faz! O segundo do dia



Conheço o espaço há muitos anos. É um daqueles restaurantes que me são de referência, conjugando uma boa relação qualidade/preço com a extrema simpatia dos donos. E de quem lá trabalha, por eles escolhidos.
Quando entrei pouco passava da hora de abertura para jantar. Também é minha rotina ali, esse horário. É sempre a hora mais pacata, antes das eventuais enchentes de clientes em grupo que acontecem aos fins de semana e nas férias escolares. Ainda bem para o negócio, que esteve a correr muito mais que mal quando a avenida esteve em obras e só cá vinha quem já o conhecia. Como eu.
Depois de pousar casaco, saco e chapéu, e ainda antes de pedir, fui tratar de lavar as mãos e vejo entrar o fulano.
Com “mau aspecto”, roupa enxovalhada, tal como o cabelo e a barba, com um copo de plástico na mão e um olhar acossado, de medo.
Confesso que receei o pior, com a sala vazia, e deixei-me ficar entre portas, a tentar perceber se haveria que fazer algo ou se estaria tudo sob controlo.
E ouvi a sua voz, de difícil percepção de tão baixo e mal pronunciada, perguntar se não teriam alguma coisa de comer.
O empregado ou não percebeu ou fez que não percebeu e fê-lo repetir por duas vezes a pergunta até que veio a dona que, percebendo, disse logo que sim.
Pouco depois de eu ter regressado à sala, vi que lhe trouxeram uma valente sandes, que me pareceu ser um prego. E ele, com a mesma voz sumida e concordante com o olhar de medo, perguntou se se podia sentar enquanto comia.
Como se vê pela imagem junta, a resposta foi positiva e ele comeu rápido. Quase não tive eu tempo para o registo.
Quando saiu, e com a mesma voz difícil, agradeceu para a cozinha, onde estava quem lhe havia dado de comer. Mas não sem antes ter arrumado a cadeira onde estivera sentado.

Não vou dizer o nome do restaurante. Entendo que gestos destes devem ser publicitados mas não fulanizados. E creio que a dona do restaurante pensa o mesmo.
Mas certamente que aqui trarei gente, como tenho feito no passado, com a certeza de que aqui bem se alimenta o corpo e a alma.


Viva quem faz!

Viva quem faz!



Numa pastelaria que conheço desde os meus tempos de estudante têm a trabalhar uma pessoa especial há bem uns cinco anos.
Trata-se de um rapaz, talvez homem, com trissomia 21.
Trabalha ao balcão, encarregue da máquina de café que manipula na perfeição. O que não é estranho.
O que é mesmo estranho é que quem gere esta pastelaria não tem problemas de ter uma pessoa especial a trabalhar bem à vista dos clientes.
Não sei qual o parentesco entre ambos, se algum. Mas em qualquer dos casos, é de louvar quem assim decide no lugar de, como é infelizmente habitual, encafuar pessoas especiais nas traseiras e cozinhas, como se fosse vergonha que uma pessoa especial trabalhe.
O meu aplauso a quem assim decidiu.

Viva quem faz!


Nota adicional: não tentem identificar a pastelaria pela chávena de café, que me foi colocada à frente noutro local.

By me

Três em um



Há pessoas cuja actividade profissional nos dá prazer ver.
Pessoas ligadas ao mundo do espectáculo – representação ou musical – são alguns exemplos. Aliás, a própria actividade nos dá prazer.
Mas há outras cuja actividade não nos dá prazer mas cujo desempenho merece ser visto. E dá prazer apreciar.
Refiro-me a gentes que nos quer convencer a fazer aquilo, em condições normais, não faríamos: vendedores de porta-a-porta e a nova actividade “pedintes para causas humanitária”.
Neste último caso, é um prazer ver a aparente boa disposição, a variedade de argumentos – estudados – joviais e alegres, a capacidade de adaptar o discurso ao interlocutor…
Juro que dá gozo vê-los a trabalhar, em regra junto a zonas de muito movimento.
Infelizmente o meu aspecto pouco convencional ou discreto tornou-me em figura conhecida, pelo que já não abordam: sabem da inconsequência.
Mas em aparecendo um grupo novo algum ou alguns acabam por ter o “azar” de vir ter comigo. E se eu estiver de maré… é divertidíssimo argumentar com eles, mesmo que daqui nada levem. Em regra aviso que não tenciono comprar ou contribuir, mas que não me furto à conversa. E ficam, para prazer meu.

Os últimos não tinham nada para venda, para além da conversa. E como ele, porque era um rapaz, não quis ser fotografado, acabei por ir a uma loja de inutilidades em busca de algo que servisse “para o boneco”.
Fica o registo do que encontrei, quase ao preço da chuva, tendo por fundo o local do “crime”.
Confesso: foi tão divertido esgrimir argumentos com ele (coitado) como o procurar o ícone respectivo.

Mas o cúmulo da diversão foi o ver os olhares dos passantes em vendo-me a fazer a fotografia.

By me

.


quinta-feira, 26 de março de 2015

.



É sabido que sou do contra. E uma das manifestações de ser do contra é ser contra os dias mundiais de qualquer-coisa.
Caramba! Como se só nesse dia essa tal qualquer-coisa fosse importante, deixando de ter valor nos restantes dias do ano.
Ele é o dia daquele-parente, ele é o dia daquela-doença, ele é o dia daquela-invenção, ele é o dia…
Fico cheio com os dias mundiais de.
Por isso, quando hoje soube que é o dia mundial do chocolate, perdi as estribeiras:
Entrei no primeiro café que encontrei, comprei um chocolate e não descansei enquanto não dei cabo dele à dentada.
É que eu sou do contra, sabem. 
.

Ares





Porque me pediram a opinião sobre um conjunto de fotografias, acabei por “dar ao dedo” e escrevinhar o que abaixo se encontra. Talvez que, para muitos, seja mais que sabido. Mas talvez que para alguns seja novidade.

Brincadeira que costumo fazer, quando estou com um grupo de gente e estamos a falar de imagem, composição, estética, comunicação… essas coisas. E isto tanto é válido em ambientes formais como em informais.
Tento descrever uma situação hipotética: um trajecto no metro. O centro da cidade, véspera de Natal, fim da tarde. As composições vão à pinha, entre gente e embrulhos bonitos, dentro ou fora de sacos.
E peço aos presentes que simulem estar na mesma carruagem nessas circunstâncias: de pé, agarrados aos varões, chocalhando ou não.
E, enquanto eles mimam situação, eu ralho com eles: é garantido que, nas condições descritas, não vão ter todo aquele espaço entre eles. E insisto que reproduzam o que supõem que aconteça, todos bem encostadinhos uns aos outros, no aperto de uma carruagem de metro super apinhada.
Aqui fazem-no e o resultado é o esperado, que trato de lhes fazer notar: por muito próximos que estejam, corpo com corpo, é certo e sabido que voltam a cara para o lado, garantindo uns vinte centímetros livres em frente do nariz. Mesmo que fiquem com ele apontado para o ombro.
Passada a brincadeira e o momento de aperto, explico-lhes sem mais delongas: todo o ser vivo (e até os objectos inanimados) têm um espaço próprio, que lhes pertence. Espaço esse que é sagrado e cuja intrusão ou é consentida (afago, maquilhagem, dentista…) ou é considerado uma agressão, que se evita.
Por outro lado, pouco nos importa o espaço que exista nas costas. Mais perto ou mais longe, e a menos que haja uma eventual situação de perigo, não lhe damos importância alguma.
A este espaço próprio damos o nome de “ar”. O “ar” que cada um necessita para respirar ou existir.
Na feitura de imagem, animada ou não, este espaço ou ar deve ser respeitado. Entenda-se, no entanto que o termo “deve” é relativo: pode não ser respeitado, sendo que mesmo isso tem significado.
Em termos práticos, imagine-se alguém de perfil. Com pouco espaço em frente do nariz, igual ou inferior ao que tenha atrás da cabeça, e haverá uma sensação de aperto, de abafamento, de falta de ar. Mas bastará que lhe seja dado mais ar em frente do nariz e logo passará a ter uma espécie de conforto.
O mesmo se passa com objectos. Inanimados ou não. Ver um ciclista em andamento com mais ar atrás que à frente e a interpretação que será dada, as mais das vezes, será a de que irá “estampar-se” na berma do enquadramento. Por outro lado, em tendo mais ar à sua frente, sentiremos
que está andar e que está tudo bem.
Mesmo um objecto inanimado necessita de ar. Uma cadeira, por exemplo, é usada pela frente, pelo lado oposto às costas. E, a menos que haja alguma mensagem meio escondida, se quisermos dar conforto a essa cadeira, haverá que respeitar esse espaço à frente da cadeira. Tal como um copo, com espaço acima, do lado da boca e não em baixo, na base.
Não há fórmulas absolutas nem regras inquebráveis. Há, antes sim, a necessidade de o produtor de imagem saber como ela é interpretada pelo público em geral e agir em conformidade. Presumindo que o objectivo da imagem é comunicar, agradando de algum modo a quem veja o trabalho.
Na sequência disto – de tudo ter um “ar” que lhe é próprio - acaba-se por chegar à conclusão que o centro da imagem será, talvez, o local menos “certo” para colocar algo. A menos, claro, que o “ar” em causa seja direccionado para a objectiva e que mais nada exista em redor que necessite de equilíbrio.

Em termos de exercício ou brincadeira, peguem num qualquer objecto. Pequeno ou grande, amovível ou não. Estudem-no ou analisem-no de modo a perceber de que lado e como é usado. E fotografem-no diversas vezes, umas respeitando esse “ar” outras negando-o.
De seguida, consultem gente que não sabe do exercício e questionem-nos sobre qual das imagens é mais agradável, mais tranquila, mais estável. Ou, de outra forma, confrontem-nos com quatro ou cinco imagens e peçam para que escolham uma, justificando se possível.
Talvez que cheguem a algumas conclusões elucidativas de como as imagens são lidas em geral e de como podemos, quebrando o normal, conduzir o espectador a leituras e emoções controladas por nós.

Os meus cinco cêntimos

By me

Suport



É sempre interessante ver um veículo policial com este autocolante em cada porta.
Tal como é interessante ver que estaciona em zona de turistas. Faz sentido, por estranho que pareça.
Mais interessante se torna reparar que estão aplicados nas portas de um Nissan Leaf, veículo eléctrico. E silencioso.

Claro que seria ainda mais interessante verificar que o autocolante dizia “Apoio de cidadão” e que, de facto, o fazia.
Mas, caramba, eu sou um ambicioso!
Toda a gente, governantes incluídos, me diz que não se pode ter tudo, nem viver acima das nossas possibilidades.


By me

Imagem





“…
Os etimologistas perguntam-se porque é que o termo “leiche” acabou por assumir o significado de cadáver que é o sentido que a palavra tem hoje em Alemão. Também aqui a evolução semântica é, na verdade, perfeitamente compreensível: o cadáver é por excelência aquilo que tem a mesma figura. Isto é tão verdade que para os romanos o morto se identifica com a imagem, é a “imago” por excelência e, vice-versa, a “imago” é antes a imagem do morto (as “imagines” eram as mascaras de cera dos antepassados que os patrícios romanos guardavam nos átrios das suas casas). De acordo com um sistema de crenças que caracterizas os rituais fúnebres de muitos povos, o primeiro efeito da morte é o de transformar o morto num fantasma (a “larva” dos latinos, o “eidõlon” e o “phasma” dos gregos), ou seja, num ser vago e ameaçador que continua no mundo dos vivos e regressa aos lugares frequentados pelo defunto. O intuito dos ritos fúnebres é precisamente transformar este ser incómodo e ameaçador, que obsessivamente retorna, num antepassado, ou seja, ainda numa imagem, mas benévola e separada do mundo dos vivos.
…”

Ensaio by: Giorgio Agamben, in “Lighten up” by João Onofre

quarta-feira, 25 de março de 2015

Dinâmicas





Por favor:
Ao fotografarem, pensem na dinâmica do assunto principal de per si, forma e função, na dinâmica do assunto principal com os assuntos secundários e destes para com ele, na dinâmica de todos eles com o último plano e na dinâmica de todos eles e cada um para com quem vê.
Em tendo estas questões resolvidas, quer seja pela gestão de espaço e perspectiva, quer seja pela gestão de luz e cor, e tudo parecerá mais fácil e as imagens resultantes contarão, por si mesmas, toda a história que se quer contar.
Quer se trate de uma folha de couve, de uma chaleira ou de guerra.
Em caso de dúvida sobre o acima exposto e pedido, analisem-se seriamente os trabalhos daqueles que cada um considera como mestre. 
.

.



O título da notícia reza assim:
“Conheça o coelho da páscoa mais caro do mundo”
E continua, contando que pesa cinco quilos, tem dois diamantes no lugar dos olhos e foi criado pelo chocolateiro Martin Chiffers.
Diz ainda que o preço é da ordem dos 45.000 euros.

Ora bolas!
O nosso coelho é do ano todo e tem-nos custado a todos muito mais que isso.
Há alguém que o compre e o leve de vez?
.

"Penso eu de que"





O estado é a maior empresa do país.
São centenas de milhar os assalariados que prestam serviços nas diversas áreas, da saúde à justiça, da educação à segurança, da higiene à cultura.
O objectivo desta empresa é a prestação destes serviços aos seus sócios – os cidadãos – e os meios de o fazer provêem das contribuições dos mesmos.
É um sistema em circuito fechado em que, quanto mais ricos forem os sócios e maiores as contribuições, mais e melhores são os serviços prestados! E o contrário é igual e lamentavelmente verdade.
Em princípio mas não inalteravelmente! Mas isto já é outra conversa.

As contribuições dos “sócios” desta empresa fazem-se sob a forma de dinheiro, numa pequena, ou não tanto, percentagem dos seus proventos.
Este dinheiro mais não é que o símbolo do poder ou riqueza de quem o possui, representando os bens detidos ou produzidos pelo seu detentor. É uma forma de fazer equivaler uma vaca a um saco de trigo ou uma dúzia de ovos a um aconselhamento médico ou um par de sapatos a um jogo de copos.
Mas cada vez menos se produzem bens e se aumentam os serviços. Há cada vez menos pessoas a criar vacas ou fazer sapatos ou cultivar trigo. Em compensação, há cada vez mais gente a prescrever medicamentos, a fazer aconselhamento jurídico ou a gerir firmas. A quantidade de serviços prestados aumenta na mesma proporção em que diminuem as produções de bens.
Por outro lado, e para aumentar este desequilíbrio, a população está a envelhecer, o que aumenta o número de consumidores em relação aos produtores.
Consequentemente, sendo o dinheiro uma representação dos bens produzidos e possuídos, este vale cada vez menos, visto que há mais gente a usar que a fazer. E o valor dos bens aumenta em relação ao do dinheiro.

O estado, enquanto maior e principal empresário, regulador da actividade colectiva e grande exemplo para os indivíduos, é, proporcionalmente, o maior prestador de serviços e menor produtor de bens. De riqueza.
Na sua actual filosofia de uma sociedade aberta à iniciativa privada vai, regular e continuadamente, alienando os seus próprios meios de produção de bens, afastando assim a possibilidade de ele mesmo criar riqueza ou, pelo menos, ser auto-suficiente nas suas despesas obrigatórias.
Está dependente da riqueza dos cidadãos, que estão cada vez mais pobres!
O aumento da eficácia na cobrança de impostos e contribuições dos cidadãos é uma medida recomendável mas ineficaz a longo prazo (para não dizer a curto prazo!). É a manutenção de um sistema autofágico que, gradual e inevitavelmente, se deteriorará até à falência total.

A solução passa, parece-me, por o estado, enquanto maior empresário e representante da sociedade, passar a produzir bens, introduzindo-os no mercado e, com isto, não apenas aumentar a riqueza existente em circulação, como dela retirar as mais valias para a sua própria manutenção.
Os grandes empresários, nesta sociedade virada para a iniciativa privada e o lucro, diversificam os seus investimentos, da produção aos serviços. E o resultado é que se vê: sucesso! Porque não fazer o mesmo por parte do colectivo, aprendendo com quem obtém bons resultados?
E com isso manter o principal objectivo do estado enquanto organização que é, em última análise, manter em boas condições e melhorar a vida dos seus “sócios”!

Se, para tal, tiver que ser mudada a lei, tanto a avulsa como a fundamental, faça-se!
Urgentemente!
E contratem-se (ou elejam-se) bons gestores desta mega empresa!



(Propositadamente este texto foi escrito à revelia do novo acordo ortográfico)

By me