sábado, 28 de fevereiro de 2015

Coerências



Levar a sério o que diz um político reduz o esperma, pode causar a infertilidade e, em havendo coerência legislativa, a lei do tabaco deveria aplicar-se às declarações políticas, que só poderiam ser proferidas ao ar livre ou em sítios com a adequada extracção de ar e de credulidade.


Manuel António Pina, in “Jornal de Notícias”, 2008
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Executamos sinfonias, executamos orçamentos, executamos penhoras, executamos projectos…
Porque é que não executamos uns tipos?????
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Vergonhas



Roubar não é vergonha!
Vergonha é roubar (o banco, a loja, o fisco) e ser apanhado.

Conheço um tipo que agora, depois de apanhado, vai esconder a sua vergonha protestando contra as quebras ao segredo de justiça, as quebras ao segredo bancário, as quebras ao segredo fiscal. 
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Referência



Tenho-o referido um bom número de vezes. Hoje voltei a recordar-me dele e volto a referi-lo:
O filme “Yi-Yi”, de Edward Yang, prémio “Melhor filme”, Cannes, 2000.
Nada tem de novo, portanto, um filme já com quinze anos bem medidos. Mas não deixe de ser muito bom, em diversos aspectos:
O seu ritmo, as coisas simples da vida, as relações sociais, a composição de imagem…
Sobre esta última, gostaria de chamar a atenção para como num filme rodado em formato convencional, se encontram tantos enquadramentos verticais, pese embora quase não darmos por eles. O recurso a portas, esquinas, candeeiros, móveis, reduz a acção a um rectângulo vertical, pese embora o total ser horizontal.
Estou em crer que assim foi feito baseado na forma de escrita chinesa, que sabemos ser vertical. E o filme fala-nos de episódios de vida na china…

E, não menos importante, a presença ao longo de quase todo ele de uma câmara fotográfica (de rolo) nas mãos de um garotinho. O que atrai um garoto para fazer fotografia e que uso lhe dá? Recordo que o filme tem quinze anos e que o digital ainda não imperava.
Fica um pedacinho e a sugestão de o verem por inteiro.
Bem como a proposta de pensarem no porquê de fotografarem. 



By me

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Sabedorias



Conta o povo, na sua imensa sabedoria:
“Quem não sabe dançar, diz que o chão está torto”.

Tem uma outra afirmação equivalente, mas este é um espaço aberto a todas as sensibilidades, pelo que me abstenho de a reproduzir.

By me

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Há quem pense que trabalhar no meio audiovisual é o mesmo que plantar batatas:
Basta poder pegar na enxada e dar uma cavadela para colocar a batata.
Agora vão lá perguntar àqueles que o fazem se mesmo isso não tem ciência!
Até o ponto do cabo da enxada onde colocamos as mãos importa, quanto mais!
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Metade do dia





Mais de metade do dia já lá vai.
Já pôs alguém a sorrir hoje, ou está a guardar para o fim?

By me

Homem-estátua





Fotografar um “homem-estátua” é coisa estranha.
A sua actuação baseia-se na imobilidade ao longo do tempo e a fotografia é o imobilizar uma minúscula fracção de tempo. A fotografia de um “homem-estátua” dificilmente fará justiça ao seu trabalho.
Mas este despertou-me a curiosidade pela localização: em frente a um centro comercial. Longe, bem longe, dos locais habituais para este tipo de actuação e correspondente “cobrança” ao público.
Quedei-me um pouco a observar.
E achei graça aos seus trajes.
Identificados com coisa nenhuma, eram suficientemente largos para cobrir as roupas quentes que, obrigatoriamente, terá vestido por baixo. Consigo imaginar o cuidado no trabalho de costura no fazê-las, que farão referência não sei a quê, mas cujas linhas geométricas, aplicadas sobre a frente apenas, fazem um bom efeito.
A pintura facial primava por… escassa. Não sei se por poupança se por saúde, certo é que o tom de pele despontava sob ela, ficando nós na dúvida se será um branco rosado ou um rosa pálido.
Seja como for, fiquei a vê-lo um pouco, enquanto fumava um cigarro, e a constatar que usava da técnica de aliviar a imobilidade com movimentos de agradecimento, permitindo-lhe, com eles, mudar de pose. O normal.
O que já nada teve de normal foi o rapidíssimo episódio que assisti. Quase que inexistente.
Saindo do centro comercial, um homem vinha mexendo na sua carteira. E, de súbito, o “homem-estátua” levanta o seu braço direito, apontando de dedo em riste para o chão, e clama:
“Deixou cair ali uns papeis!”
A sua humanidade sobrepôs-se ao seu ganha-pão. E achei que este valia a pena.
Rebusquei uma moeda que valesse aquele trabalho, aproximei-me e, depois de a deixar cair na taça metálica a seus pés, perguntei-lhe em tom baixo:
“Aqui rende mais que na baixa?”
Muito pouco estátua, o homem rodou a cabeça e sorriu-me:
“Não, mas é muito mais tranquilo.”
Sorri também e afastei-me. O registo, fiz pouco depois, após o pedido do costume. E deixei-me ficar a observar como lhe corria o negócio, comparando-o com o que conheço lá no centro.
Nem um montão de gente a fazer um semi-círculo em redor, inibindo os passantes de contribuir, nem a concorrência de outros uns metros mais acima ou abaixo, nem o risco de passar algum e lhe levar a taça das moedas… Foi funcionando, apesar do frio, baseado no insólito da função e do lugar.
Espero que o São Pedro seja clemente e que abafe o vento e traga um solzinho para lhe aquecer os ossos. 

By me

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

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Estou cada vez mais apaixonado por uma luminária que conheço e com a qual me cruzo assiduamente.
Tem as formas, a arrogância, a voluptuosidade para que no seu cimo possa ser colocada uma corda (ou um cabo de aço) com um nó na ponta.
E nele um pescoço que cá sei.
Também sei que tem muitas irmãs, igualmente robustas e disponíveis para tarefas semelhantes, com outros pescoços.
Ou isso ou o Campo Pequeno, como o outro sugeriu.

Mas isto seria um atentado ao meu sentido estético e dmasiado barulhento para a tranquilidade que se deseja.
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Por motivos vários, vi-me na contingência de almoçar fora dos circuitos habituais.
Ponderadas as opções na zona, escolhi um em particular. Já não comia ali há uns tempos e, para além de me agradar o que servem, tem zona de fumadores. O ideal.
Pensava eu, na minha ingenuidade.
Sofreu obras e, com elas, foi extinta a área de fumadores.
Como se isso não bastasse, implantaram grandes ecrãs onde passam canais de desporto, desculpem, de futebol, obrigatoriamente visíveis de todos os lugares disponíveis.
Saiba-se que este restaurante acabou de servir a última refeição a este cliente.
Que se sou contra as proibições, também o sou sobre as imposições.

No meio de tudo isso, fica a perder o meu palato, que até gosto do que ali vendem.

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A fotografia é um ícone da realidade.
A partir deste dogma, podemos retratar a realidade com o registo lúmico do que nos cerca ou cercarmo-nos de objectos e situações que se substituam à realidade factual usando o mesmo processo de registo.
Importa, antes de mais, usar a luz e o seu registo, para exprimir emoções ou pensamentos. 

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Anonymous





Ao que parece, foram realizadas buscas e detidas pessoas de um grupo de Anonymous portugueses que se dedicariam a furar sistemas de segurança de instituições públicas ou privadas e divulgar dados nas redes sociais.
Parece que isso é crime e as autoridades terão actuado de acordo com a lei.

Mas já não é crime o comercializar dados obtidos através de contractos comerciais, obtendo lucro com isso e à revelia dos constantes nessas listas.
Essas actividades, feitas mais ou menos às claras e violadoras da privacidade dos cidadãos, desde que gerem lucros e, consequentemente, paguem impostos, já serão legais.

Diria Orwell: “Somos todos iguais, mas há uns mais iguais que outros”.

By me

Devaneio nocturno





Só mesmo para iluminar alguns aspectos:
A “noite” urbana não se caracteriza, ao contrário do que geralmente se pensa, por “falta de luz”.
O que na verdade acontece é um muito acentuado contraste entre o que está iluminado e o que não está.
Montras, candeeiros, faróis, são fontes de luz cujas origens vemos e para as quais olhamos. A luz que delas emana não é suficiente para nos encandear mas suficiente para derramar alguma sobre as zonas circundantes. As mais distantes recebem tão pouca ou quase nenhuma que dizemos estarem na escuridão.
Essa escuridão é muito mais notória nos sistemas de captação de imagem que nos nossos olhos. Estes têm um “automático” que se ajusta quase que instantaneamente a esses contrastes, coisa que as câmaras (digitais ou de película) não fazem.
A técnica, ou o truque, na fotografia nocturna não é mostrar tudo quanto os nossos olhos vêm, mas antes evidenciar a existência desse contraste, permitindo que algumas zonas tenham luz suficiente para que seja visível o que lá está e tirar partido das zonas mais escuras, mostrando-as como tal. É este equilíbrio que é difícil!
Temos, assim, que muitas vezes para fazer fotografia nocturna não necessitamos de usar longos tempos de exposição para que haja detalhe nas zonas escuras. Basta que as deixemos como tal e que mostremos os detalhes nas zonas claras. E é esse contraste que nos dirá, espectadores, que se trata de uma imagem de noite.
Logo, se não usamos sempre tempos demasiadamente longos, não necessitamos sempre de recorrer a um tripé (que se quer pesado e sólido). Alguma firmeza de mão, algum eventual apoio para a reforçar (esquina, candeeiro, ombro amigo) e a coisa resolve-se sem mais complicações.
Antes de mais, o que importa é saber o que queremos mostrar ou, por outras palavras, que história ou estória queremos contar. “Se eu souber porquê, sei como”, como costumo dizer.
Em seguida, há o sabermos tirar partido daquilo que temos connosco para fotografar. Se não existe tripé, não adianta querer fazer tempos longos, pelo que haverá que encontrar outras soluções, mesmo que uma delas seja o “não fotografar”. Ou, se a câmara não permite tempos longo manualmente, saber enganar o programa nela inserido (o tal japonês inteligente) por forma a obtermos o resultado desejado e possível.
A título de exemplo, fica esta imagem.
ISO 400, não muito alto portanto, em modo “Programa” deixando o “japonês inteligente” a pensar, e com um ajuste de -3 EV, para forçar que o que estava na escuridão, ou quase, assim ficasse. Tempo de exposição 1/30 de segundo, perfeitamente compatível com o uso da câmara à mão sem suportes adicionais ou muletas de ocasião.
Já o balanço de brancos “WB” foi deixado em “luz de dia”, fazendo com que a iluminação ficasse amarelada ou esverdeada, factor subjectivo extra para que se tenha a percepção de se tratar de uma fotografia nocturna com luz artificial.

By me

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

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Aquele fulano ficou sentado no avião ao lado de uma mulher sensualíssima.
Não resistindo aos encantos, mete conversa e pergunta:
“Aceitaria passar a noite comigo, num hotel, por 15 mil euros?”
Espantada, ela olha para ele de alto a baixo e diz que sim.
“Ah!” continua ele. “E por cinquenta euros?”
“Está a achar-me com cara de puta?”, riposta ela escandalizada.
“Bem: isso já decidimos. Agora é uma questão de preço.”


De algum modo isto recorda-me o que se passa com a chamada troika e os países devedores.
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O fim



Por vezes são os ditames da sorte que nos conduzem às situações.

O dia acabou cedo. Para aproveitar a respectiva luz, decidi ir de passeio para um bairro que conheço desde a meninice. No deambular, dou comigo em frente ao café/restaurante onde me encontro. De seu nome “Nova Bagdad”, tenho dele uma recordação indelével.
O meu caminho para o liceu passava, de quando em vez, pela sua porta. Acontecia quando decidia sair do autocarro umas paragens antes e fazer o resto do caminho a pé. Poupava, com isso, uns trocos no preço do bilhete.
Pois antes das oito da manhã, em frente a este café, faziam fila os garotos, novitos ou não tanto, de um bairro de lata que havia na zona.
E a razão era simples: aquele estabelecimento dava todos os bolos que sobravam da véspera. Dava-os antes de abrir a porta aos clientes.
Duas coisas aconteciam com isto: os clientes sabiam que ali só se vendiam bolos do dia, frescos, e a criançada que não os podia comprar tinha uma ou duas guloseimas garantidas.
Não consigo descer ou subir esta avenida sem disto me lembrar, de um tempo em que não havia ASAEs e quejandos e em que a solidariedade era real e prática.
Pois hoje não foi diferente e, sentindo um ratito, decidi entrar e regalar-me com um dos seus bolos, regado com um café cheio.
Na mesa ao lado estão três velhotes, residentes aqui no bairro, à conversa no abrigo da loja, no conforto de um cálice de Porto e no alívio de trocarem notícias do bairro. Muito mais humano que as pesquisas na net e as pantalhas iluminadas.
Pois oiço um deles comentar que um dos estabelecimentos de restauração e pastelaria mais antigos do bairro irá fechar portas no final deste mês.
Doeu-me! Doeu-me fundo no coração!
É mais um dos sinais de retoma de que o nosso glorioso governo fala, certamente.
Ainda restam alguns de outros tempos que, com maior ou menor modernidade, se foram adaptando. Sabe-se lá com que sacrifício empresarial e laboral.
Mas este, além da falta que fará, irá colocar mais unas dez a quinze pessoas no desemprego. O tal índice que o nosso estimado governo diz estar a diminuir.
Ficarei sempre sem saber se o país que eles governam será o mesmo em que vivo.
Em termos de gesto final, creio que lá irei hoje, pela última vez, jantar.

Mesmo contra a vontade e discursos de alguns bandalhos.

By me 

Sobre um soneto



Cá nesta Babilónia

Cá nesta Babilónia, de onde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E que pode mais que a honra e a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;

Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;

Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”
Imagem: by me

Pudores



A estação estava bem mais vazia que isto. Muito mais.
Nem estava com toda esta luz, que o relógio marcava umas 23.20h.
Tal como não estava uma composição parada no cais.
Nem sequer o episódio se passou no cais, mas antes na zona de bilheteira, no piso inferior.
Aliás, diga-se também, nada do que relatado aconteceu neste local mas num outro e em sentido inverso na rotina do casa-trabalho-casa.

Chegava eu àquela estação uns cinco minutos depois da passagem de um comboio. Àquela hora, aconteciam a cada 30 minutos, pelo que não tinha pressa alguma. Nem eu nem a mocinha que havia saído do autocarro junto comigo e que tinha o mesmo destino.
De cigarro na mão entrei na estação. Vazia. Ou quase. Que, junto a uma das máquinas de venda de bilhetes alguma coisa acontecia. Entre o segurança de serviço, um homem de uns trinta anos bem medidos e de uniforme habitual, e uma senhora, já perto dos quarenta, nem bem nem mal vestida, de óculos grossos, carteira, guarda-chuva branco alvo e lancheira verde e amarela. E um bilhete recarregável na mão. E lágrimas na cara.
Curioso (ou metediço) que sou, e não tendo pressa alguma, aproximei-me. O suficiente para perceber o que se passava mas sem ser demasiado metediço. Claro que fui.
A senhora chorava desalmadamente, acenando com o bilhete na mão e dizendo “E agora como é que vou para casa? E agora?”
Raios! Àquela hora, ou a qualquer outra, isso era problema sério. E cheguei-me, perguntando “Avariou-se o bilhete, foi?” Não seria coisa rara.
O discurso dela era pouco claro, por entre as lágrimas, mas entre o que disse e o que completou o segurança (que já eu ouvira dizer “não posso fazer nada”), lá percebi o drama.
Bilhete recarregável, viagens durante o dia a mais, falta de saldo para pagar o regresso.
E, entre outras coisas, lá lhe percebi a estação de destino. E que havia perdido este comboio que ainda fazia ligação com o autocarro. Coisa que o seguinte já não faria. Mas que lá ainda iria a pé. Mas até lá…
Entendi. Sempre eram umas oito estações, uma data de quilómetros para fazer a pé, fosse a que horas fosse. Menos ainda àquela hora, depois de um dia de trabalho e com um vento fresquinho.
Cheguei-me à frente: “Limpe lá essas lágrimas que vai para casa. Ora mostre lá o bilhete.” E, colocando-o no local da máquina, carreguei-o com a respectiva quantia. Não chegava a dois euros.
Ficámos os dois à espera do comboio no cais de embarque, no piso superior.
Para além do agradecimento, fugaz, junto da bilheteira automática, não mais lhe ouvi a voz. Nem nos partilhámos de forma alguma sequer numa carruagem. E lá a vi sair na estação que referira, algumas antes da minha.
Não sei ou desconfio o como irá resolver a questão, já que ontem foi dia 24, terça-feira, e o dia 1 só acontece no fim-de-semana. E, com ele, a chegada de salário.

Dizem os nossos governantes que o país está melhor.
Não se devem referir àquele em que vivo, que episódios destes continuam a ser frequentes. Ou mais frequentes ainda.
Tal como a fotografia não refere nem o local, nem a hora nem os intervenientes. Mas eu ainda tenho motivos éticos e de pudor para tal resguardo.


By me

Diferenças



Claro que Portugal não é a Grécia.
Enquanto que o Sócrates deles foi convidado a suicidar-se, o nosso foi posto na prisão e apenas preventivamente.
Pequenas diferenças. 
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Número de ouro



Um destes dias, numa acção de formação informal, sugeri que se fizesse um conjunto de imagens. Defini, genericamente, o conteúdo e a forma e deixei que cada um a fizesse a seu gosto.
Uma das participantes veio ter comigo, dizendo-me que tinha feito o sugerido mas que não estava a gostar do resultado. E mostrou-mo.
Olhei de relance, fiz-lhe uma ou duas perguntas sobre o seu back ground fotográfico, e dei-lhe uma sugestão de composição alternativa. Que respeitava o que havia sugerido.
Veio, depois, dizer-me que assim já gostava.
Claro que me doeu um pouco ter feito o que fiz. A sugestão dada baseava-se numa regra de composição e eu detesto mesmo falar nelas e induzir os formandos a usa-las. Prefiro, de longe, dizer-lhes que existem, quais os seus fundamentos e utilidades mas apenas uma vez. A partir daí, o seu uso ou não terá que ser de acordo com as preferências e gostos de quem fotografa.
No entanto, esta situação veio recordar-me uma outra questão:
O público em geral não tem que saber porque gosta ou não daquilo que fazemos. Poderá sabê-lo, em particular se for um público mais atento e interessado. Mas não espero ou desejo que o saiba.
É papel nosso, os profissionais da imagem, saber o que agrada ou não ao público e agir em conformidade. Quer fazendo aquilo que lhe agrada quer fazendo aquilo que lhe desagrada. Sabendo de antemão as reacções que ele, público, irá ter.
Qualquer um faz uma imagem: basta carregar no botão. Agradar ou satisfazer quem a veja depois pode ser uma questão de casualidade ou uma reacção induzida e prevista.
Separa o comum dos produtores de imagem dos amadores entusiastas e profissionais o saber porque agrada.
As regras, essas, podem ou não ser usadas. E podem até ser criadas novas.

Mas o que importa, acima de tudo no mundo da comunicação visual, é sabermos as reacções do público e trabalharmos em função delas.

By me

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Há coisas que é bera deixar acabar em casa.
Papel higiénico é uma delas.
Agrafos é outra.
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Fantasmas





Um destes dias regresso ao Jardim da Estrela para voltar a fotografar fantasmas.

Apenas eu e a câmara, sem fantasias ou truques de photoshop.

By me

Palavras





É verdade que sim: eu sei ainda boa parte do código morse.
E é verdade que sim: enviei e recebi alguns telegramas, usando ou não este sistema de comunicação.
O enviar de telegramas era caro e poupava-se nas palavras para se passar o máximo de informação com o mínimo de custo.
Hoje não regateamos o custo das palavras. Por isso, mas não só, não as poupo.
Que me dá tanto gozo usá-las quanto a luz e a perspectiva.
E para quem não gostar de muitas palavras, recomendo que se afaste de bibliotecas e livrarias. Há por lá imensas. 

By me

Ir ao cinema





Penso que tivesse sido em ‘72, mas não garanto. Teria eu então uns 13 anos.
Sujeito a um voto de secretismo solene, fui admitido nas actividades clandestinas de minha família. Era de noite, suponho que após o jantar, e fui levado a um lugar esconso e perdido na cidade. Uma plateia de cadeiras de café, frente a uma tela branca dir-me-ia, hoje, que iria assistir a uma sessão de cinema. Mas o não sabia na altura. O filme projectado, repito que em segredo, era o “Couraçado de Potemkine”, realizado por Sergei Eisenstein. Na memória ficaram-me imagens de muita gente, de grandes espaços, grandes edifícios, grandes máquinas, muito fumo, grandes canhões, as escadas e o carrinho de bebé.
Não entendi, na altura, que estava no Grupo Recreativo Ramiro José, algures por Entrecampos e que estava presente num acto mais que ilícito: Ver um filme Russo. A censura e a PIDE, ainda que mais brandos na altura, não tinham contemplações: tudo o que viesse da Rússia ou cheirasse a comunismo, era proibido, pecado capital. E quem a tal se associasse estava condenado aos quintos do inferno.
Mais tarde, não muito mais, esta pressão política aliviou-se um pouquinho e tive uma outra oportunidade. Em sessões culturais que o então cinema Império exibia às quartas-feiras de tarde, fui ver um dos que encheu a sala a transbordar: “Ivan o Terrível”, também de Sergei Eisenstein. A maior parte do filme vi-o sentado nas escadas do 2º balcão, tal como outras dezenas (centenas?) de pessoas, que as cadeiras estavam esgotadíssimas. Confesso que não me recordo de como tive conhecimento da projecção, mas sendo proibido e sendo de qualidade, não poderia faltar.
Anos passados, estava acampado na Zambujeira do Mar, fui a um cinema local. Um armazém, esvaziado dos produtos habituais, cheio de cadeiras desirmanadas, com um projector de cinema portátil. A máquina encravou e a película queimou, o filme era mau, mas muito nos divertimos: “Trinitá, o Cowboy insolente”.
Por essa época vibrei, já que a cadeira também vibrava, com o “Terramoto”, no cinema Tivoli. Apenas nesta sala em Lisboa poderia sentir-se todo o poder do filme, já que só uma construção em madeira como aquela poderia vibrar com os sons ultra-graves que acompanhavam as imagens.
Desta forma, entre estes e depois destes, um pouco aqui, um pouco ali, fui tomando conhecimento com a 7ª arte, mãe quase esquecida da televisão. No anonimato das grandes salas de cinema, na clandestinidade dos centros culturais, nas romarias ao cinema Quarteto ou numa sala multifonica de um centro comercial.
O cinema é o cinema! Feito para ser visto e degustado “no escurinho do cinema”, sentado entre desconhecidos ou não, no lugar que se escolheu ou que se arranjou mas, e sobretudo, numa tela grande. Numa tela de vários metros por vários metros, abarcando-nos com o seu tamanho. Os planos escolhidos, as velocidades dos movimentos, a sequencia das imagens… Tudo isto está feito para uma tela grande, para que uma plateia partilhe, de preferência em silêncio e sem pipocas, cada som ou palavra, cada fotograma ou acorde.
Do ponto de vista técnico-prático, pense-se porque motivo são tão raros os grandes planos (só a cabeça) em cinema, e tão frequentes em televisão. Imagine-se o tamanho de uma boca, sensual ou ameaçadora, enchendo um ecrã de uma sala prevista para 1500 pessoas.
Claro que a primeira fila da plateia é de evitar. Quando não, acontece como me aconteceu, passar todo um filme com a cabeça a rodar de uma lado para o outro, como quando vi “Fernão Capelo Gaivota” no cinema Apolo 70. Aquelas gaivotas com 10 metros de envergadura, esmagaram-me mas apaixonaram-me!
Claro que hoje a industria tem produtos híbridos, destinados aos dois consumos: as salas públicas e as domésticas. A qualidade sonora, os multi- ângulos, o poder ver uma cena em particular e fora do contexto geral, são um acréscimo, uma mais valia a colocar nos DVD’s, sob pena de ver reduzidos os ganhos. Também a pensar nesse tipo de consumo privado, toda a linguagem cinematográfica foi adaptada, tanto a visual como a sonora, alterando-se as escalas de planos, os ritmos das sequências, as origens e os tipos de sons…A electrónica de consumo acompanha (ou forma e induz) as tendências individualistas e consumistas. Disponibiliza grandes televisores ou monitores de vídeo, que quase enchem uma parede mas que esgotam, certamente, as linhas de crédito.
Mas comparar o fósforo, o plasma ou os LEDs destes aparelhos com a reflexão de uma tela é falar em linguagens diferentes. O conforto da intimidade paga-se com a qualidade da imagem.
E com a banalidade do acto. O cinema ainda é um acto social. Convidar alguém para ir ao cinema ou ser objecto de um convite, resulta da selecção daqueles com quem queremos partilhar algo de especial. Ainda hoje é banal melhorar a roupa ou a maquiagem sob o pretexto de uma ida ao cinema, com algum amigo, namorada ou familiar. Uma ida ao cinema implica uma decisão consciente, planeada, uma alternativa no espaço e no tempo: no espaço que percorremos, no tempo de que dispomos. A decisão toma-se, os bilhetes compram-se e, durante aquela hora e meia o mundo deixa de existir (se os gadjets forem desligados). Nem telefones, nem campainhas, nem choros de bebés nem cigarros nos afastam, nos distraem daquele mundo que ali nos é contado, daquele convite a uma outra existência efémera e imaterial.
Estarmos numa sala de cinema é como quem está numa montanha russa: agarrados na cadeira, usufruímos de todas as emoções sem nos podermos levantar, sem sairmos a meio. Assim, tomamos toda a refeição, dos aperitivos à sobremesa, com a certeza de que cada pedaço vale a pena e que o todo fará sentido, sem interrupções endógenas ou exógenas. Uma ida ao cinema fica na memória como uma ocasião especial, quase ficando cada fotograma para mais tarde recordar. E quando assim não é, fica-se com as sensações da ambiência, da convivência, da companhia.
Quem se recorda dos três últimos DVDs que viu?

Na imagem, o excêntrico que controla o obturador do projector de 8mm e super 8mm que tenho. Filme. Película mesmo. À moda antiga.
A excentricidade, por cá, não é só neural. 

By me

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Não em meu nome!
Garantidamente que não em meu nome!
Aqueles tipos não me representam e o que fazem não o fazem em meu nome!
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Justificando



Num texto já com uns anos escrevi que usava uma objectiva 70/300 para retratos.
Alguém estranhou tal objectiva, de potente que eventualmente seja, e aqui irei explicar o porquê.

Uma das minhas preferências em fotografar desconhecidos é registar-lhes os olhos. Só os olhos.
Isso implica uma escala de reprodução muito razoável. O que significa:
- o usar uma objectiva pouco potente e fazê-lo de perto;
- o usar uma objectiva pouco potente, fazê-lo de mais longe e ampliar posteriormente;
- o usar uma objectiva potente.
No primeiro caso, fazê-lo de perto, obriga a uma perspectiva próxima, resultando muitas vezes num nariz abatatado. Além do mais, e tratando-se de desconhecidos ou desconhecidas que abordo nas ruas ou parques, essa proximidade é pouco relaxante, acabando por ser uma intromissão ou agressão.
No segundo caso, uma imagem mais larga e ampliação posterior, acaba por ser uma “mentira” ao fotografado. Não sendo fácil obter autorização para tal imagem, costumo garantir que será apenas uma fotografia dos olhos ou pouco mais. E costumo mostrar depois, para tranquilizar o modelo. Se fizer uma imagem de todo o rosto, com uma objectiva menos potente e a uma distância confortável, terei mentido, mesmo que só vá aproveitar os olhos.
O terceiro caso, uma objectiva potente e a uma distância de trabalho “simpática”, obsta aos inconvenientes anteriores.
Não significa isso que a use em “300” por vezes fico-me pelos “200” ou “250”.
Por outro lado, o andar “à caça de” olhos, com o que isso significa de abordagem a desconhecidos com sucesso, não é muito complacente com o mudar de objectiva no acto. Por vezes, a anuência é relutante e há que actuar antes que mude de ideias. A rapidez de acção é vital.
Mas há outro factor importante a considerar: o usar de uma razoável distância focal para um retrato só de rosto dá-me duas vantagens técnicas:
- Por um lado, o conseguir ter um fundo tão desfocado quanto possível. Sabemos que a profundidade de campo depende da abertura do diafragma mas também – e muito – da escala de reprodução. Fundo distante, objectiva potente e diafragma bem aberto são as condições ideais.
- Por outro lado, uma objectiva “potente”, com um pára-sol adequando, permite-me trabalhar com o sol bem baixo, quase no limite do enquadramento, sem provocar flares mas com uma iluminação de que gosto bastante.

A tudo isto some-se um outro factor: os preconceitos. Na cabeça de muita gente, uma câmara reflex com uma objectiva comprida é sinónimo de o seu portador ser um profissional, ficando mais de parte a timidez natural de ser fotografado por um desconhecido. Usar-se uma compacta ou uma reflex com uma objectiva pouco comprida dá muito menos credibilidade, independentemente de quem a está a usar e para que fim. Preconceitos estúpidos e, por vezes, perigosos, mas que existem. E sabemos que parte do “trabalho” de quem leva a fotografia mais a sério passa por relações públicas, muitas e boas relações públicas.

By me 

Óscar





Oito jornais portugueses on-line. Excluindo os de desporto, naturalmente.
Todos eles titulam de abertura a noite dos Óscares e os vencedores.
Vou presumir que nada de mais importante aconteceu ontem!

ALHO!

By me

Três penadas e um desconto





A coisa conta-se em três penadas e um desconto.

Primeira penada:
Tenho o hábito, quando estou numa loja e o tipo de movimento o permite, de dizer uma ou outra graçola ou laracha ou mesmo piada, nem sempre para rir. O objectivo é desanuviar o ambiente de vendedor/comprador, levando o primeiro a sorrir e a quebrar a rotina do trabalho.

Segunda penada:
Nesta loja de fotografia, uma das já raras boas em Lisboa, comprei um artigo. Já na porta, lembrei-me de um outro, não vital nem fácil de encontrar, mas que talvez ali houvesse.
De volta ao balcão, a senhorinha que me havia atendido recebeu o meu pedido, encontrou o que eu queria e estendeu-mo, dizendo que custava 3,60€. Contando as moedas, e tendo-as no valor exacto, estendi-lhe a mão com elas, perguntado com tom sério:
“Se lhe der trocado, faz-me desconto?”
Olhou-me com o ar espantado habitual perante esta minha frase feita, e eu expliquei-lhe que, se fazem descontos por idade, por cliente, por cartão, por pontos, etc., porque não por entregar o pagamento “trocadinho da Silva”?

Terceira penada:
A senhorinha olhou para mim, sorridente, olhou para o ecrã de computador à sua frente e declarou em tom comercial, deixando-me de boca aberta:
“Faço sim senhor. São três euros, se faz favor!”
Bem lhe disse que estava a brincar e não a pedinchar um abatimento no preço, expliquei-lhe que o que queria era provocar um sorriso… Mas ela não se deu por achada e entendeu que o sorriso que lhe tinha provocado valia bem o desconto no preço do produto.

Epílogo:
Saí da loja 60 cêntimos mais rico.
E milionário, por ter conseguido encontrar alguém com sentido de humor atrás de um balcão, capaz de retribuir com uma gentileza uma graça ou brincadeira.
E não vale a pena pensarem nisso! Não vou voltar lá, fazer uma compra de grande montante e largar a piada para obter um desconto equivalente!

By me

Making love and having sex





Por motivos de ordem pessoal, não tenho hoje grande vontade de inovar por aqui.

Mas, e só para manter o hábito e o fluxo, aqui deixo um texto datado de 2009, tal como o escrevi então para uma revista com a qual colaborei.

A fotografia, naturalmente, é a de então também.

Se o escrevesse hoje, creio que só alteraria algumas referências técnicas descritas, entretanto substituídas.



Making love and having sex



I was on this gallery, seeing photographs and talking with the author. At some point, he asks me why I carry all that stuff: a heavy bag, full of equipment and my monopod hanging from the strap of the bag or hold on my hand.

I don’t remember what I answer him, but I suppose it would reflect my will of being able to photograph what ever I want and be ready for that, not depending on the limitations of some small pocket camera. Even if I always argued that we cam make good or satisfactory pictures with any camera, from the most sophisticated one to those now fashionable “pin hole”. As long as you know its limits and have good use of them.

Years latter I got this camera with a cell phone around it. Nice one, with a good lens, its just point and shoot. Almost “idiot proof”. My goal was to exercise with a focal fixed camera and impose my self the practice of perspective, the now a days poor sister of zoom lens.

Recently, I bough this pocket camera. Very nice lens, good resolution, easy to use and as light as it can be. And always ready to use, hanging on my belt all the time, just like a side gun. Lovely photographic notebook.



If some one asks it again, today, the same question, my answer would be different: I like to make love, not just have sex.

With my reflex, digital or film one, I can embrace it, lean my face against it, caress it at the focus or zoom ring, touch it gently where it reacts, having a smooth reaction, under the shape of a photograph.

With my pocket or cell phone camera, we just point and shoot and that’s all. We cant even lean on it, since the viewfinder has to be seen from a distance of 20cm, at least. There is no romantic involvement between camera, photographer and subject, there is no “preparations” or “warming up”. Just sex, not love!

I do believe that photographs are created in our mind, with our eye’s lens and everything else, from the framing and light measuring to all the post production tasks (editing, printing, framing and so) are just the technical needs to satisfy that need or creation. Necessary steps to materialise our imagination!

But all that process is also part of the fun, and we need to have fun at work, or it will become an obligation. And no one likes obligations!



Recently I have this family in from of my “oldfashion” camera. A couple and two children. The lady have the most wonderful smile I ever seen, bright, contagious, appealing! I was so fascinated with it that, being an image hunter, I desire to have that smile, almost as a trophy.

But, that day I went to that photographic practice on a light version, taking with me just the fake old camera with its tripod and my pocket camera, hanged on my belt. And none of them would be able to do the portrait she deserved.

The “oldfashion” camera as to be at the tripod, not just because of its weight but also because its shape: square and big.

As for the pocket one, its lens is just 5 times power. I couldn’t have just her face unless I got to close to her, being to aggressive. On the other hand, the non existence on lens shade would prevent me of using that very strong back light from a low sun as I like. Not even my hand doing the role would do the job, since it hasn’t the focal length needed and I would have always some ugly flares.

If I did ask her to portrait that lovely smile, either I wouldn’t be able to do the right framing or I would have the wrong light. I didn’t ask her!

It wouldn’t be an act of love, that picture! It would be just having sex.

Maybe, one day, we all be together, there or somewhere else. And I will be ready for that smile with my DSLR, leaving my pocket camera on the belt.



As for this photograph, it was an act of love, today, framing, playing with light and the deep of focus. And using my Pentax K100D with its Sigma 70/300 at a comfortable distance. Even if the sun wasn’t as low as I like.

By me

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sem importância





Esta fotografia tem alguma importância? Nenhuma!
Apenas que, enquanto esperava por um comboio que me haveria de levar ao meu destino, me recordei de um episódio, distante quase meio século dos dias de hoje.
Aconteceu ele numa histórinha de quadradinhos a que hoje chamamos de Banda Desenhada. Não faço já ideia de qual a colecção. Tanto poderia ser o Falcão como o Mundo de Aventuras como o Condor. Por certo que não seria o Jornal do Cuto, nem o Pisca Pisca, nem o Camarada, nem o Tintim. Contemporâneos, não faziam muito parte das leituras semanais ou quinzenais lá da rua. E eram mais caros, se a memória me não falha.
E a memória também não me diz quem seriam, em particular, as personagens envolvidos. Poderiam ser vários, que vários eram os heróis que nos inspiravam nas nossas aventuras fantásticas de ir até ao fim da rua ou, ousadia, passar para além da avenida. Claro que os prédios em redor, ainda em construção, prestavam-se às maiores loucuras e as fundações de uma escola por perto eram magníficas trincheiras. O que não tínhamos, e isso tenho por garantido, era montadas. Nem as grandes e brancas dos heróis de pistola ao cinto, nem as malhadas dos índios, sem sela nem laço… nunca foi por lá grande hábito o cavalo de pau, vá-se lá saber porquê.
Mas a história, de que me recordei e recordo, passou-se com isto: índios, cowboys, cavalos…
Estariam eles na pista de alguém, um mau p’la certa. E se os cowboys seguiam a cavalo, o índio pisteiro seguia a pé, olhando com atenção os indícios da passagem dos perseguidos.
A certa altura terá comentado um dos cavaleiros:
“Não seguiríamos mais rápido se fossemos todos a cavalo?”
Recordo do quadrinho onde o índio, de joelho em terra e cabeça voltada para os restantes, afirmava:
“Vê melhor a pista quem vai mais perto do chão”.

Nem uma nem outra têm importância. Nem a histórinha nem a fotografia. Separadas que estão por tanto tempo, difícil seria encontrar-lhes nexo. Excepto o fazerem ambas parte daquele percurso a que chamamos de vida, ainda que com uma ponte temporal tão grande a uni-las.
Mas certo é que ainda hoje refiro, implícita ou explicitamente, esse índio, quando afirmo que sou particularmente rico em vivências pelo facto de não ter carro ou mesmo carta de condução.
E é garantido que se eu me deslocasse de automóvel nunca teria a oportunidade de fazer esta fotografia, que não tem importância alguma. 

By me