quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Divirtam-se





Não me interessa que façam boas fotografias.
O conceito de bom e de mau é tão relativo quanto a passagem de ano.
Interessa-me, antes sim, que:
A – Tenham prazer nas fotografias que fazem;
B – Que cada uma que façam seja um desafio para irem mais longe que na anterior;
C – Que a reacção do público esteja dentro das vossas expectativas;
D – Que não tenham escrúpulos em fazer diferente, mesmo contrariando todas as opiniões e sugestões;
E – Por fim: que todas as fotografias que fizerem sejam porque as quiseram fazer desse mesmo modo e não para serem iguais a ou em competição com.

O resto são minudências, imposições de mercado, técnicas de vendas e academismos bacocos!
Divirtam-se e aproveitem bem a luz.

By me

...



Não tenho grandes antecipações para 2015.
A evolução é uma linha contínua, mesmo que quebrada e em zigue-zague, e daqui por umas horas começo a ter uma ideia concreta.
O que eu não sei, de todo, é como irá ser 2016. 
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Há por aí uns moralistas que defendem que o dinheiro não compra tudo.
Sejamos coerentes: têm razão!
O dinheiro não compra a saúde daquele que faleceu no corredor do hospital, porque não havia dinheiro para contratar mais uns médicos e enfermeiros.
O dinheiro não compra a felicidade daquela que agora dorme no albergue porque a reforma não chegava para pagar a renda.
O dinheiro não compra o calor humano daquele que migrou porque a fábrica cá fechou e não tinha como dar de comer aos filhos.
O dinheiro não compra a justiça, porque blindados e submarinos são mais fortes que protestos e cartazes.

De facto, o dinheiro não compra tudo. 
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Desabafo mal-humorado antes do final do ano





Foi ontem!
Em mostrando uma fotografia recém-feita a um colega, numa pausa no trabalho, pergunta-me ele:
“Boa! Photoshop, não?”
Consegui ser suficientemente urbano e não dizer o que me ia na alma.
Mas creio que o meu olhar foi explícito, quando lhe disse que não, que a luz era mesmo assim e que me havia limitado a fazer o crop que havia imaginado aquando da obturação.

Perdeu-se o hábito de ver antes de fotografar, de fazer as opções certas em função do resultado desejado.
Hoje aponta-se, carrega-se no botão e depois logo se vê o que se faz com o resultado.
O pós-processamento é importante. Sempre o foi, desde os primórdios da fotografia. Faz parte de tudo aquilo a que chamamos de “fotografia” e que é o que medeia entre o vermos e o mostrarmos. Mas fotografar sem se imaginar o resultado final, sem se ter uma noção razoavelmente exacta daquilo que iremos mostrar…
A fotografia hoje é o fast-food do registo lúmico. O pensar antes de fazer ou o pensar depois de feito, analisar as opções tomadas e aprender com isso, dá trabalho, consome tempo e é pouco social.
Em parte devido ao custo zero do premir o botão, em parte devido ao conceito de “fotógrafo é artista e aquilo também eu faço”, em parte porque fotografar hoje é uma afirmação social.
É sempre um exercício útil, se bem que raro e difícil, o ver-se a quantidade de fotografias falhadas ou rejeitadas por aqueles que são invejados ou admirados antes que apresentem uma imagem final.

Se fazer arte com fotografia fosse assim tão imediato e instintivo, teríamos uns valentes milhões de artistas fotográficos p’lo mundo fora. E umas poucas centenas de pobres coitados, frustrados, que penam, estudam, treinam e tentam, antes de terem coragem de apresentar uma fotografia que se veja.
E não! Não estou a falar de mim que, com muita sorte, faço uma mediana fotografia a cada dois meses. O resto é vício. 

By me

Pegadas





No regresso do cafezinho constato que o patamar de entrada do prédio estava a ser lavado.
Por muito que eu não quisesse, por muito que eu esfregasse os pés no capacho, garantidamente que iria deixar pegadas sujas naquilo que estava a ser limpo.
Com um sorriso amarelo, dei a saudação a quem limpava e comentei sobre a inevitabilidade do patinhar aquele espaço.
O sorriso que recebi de volta foi triste. Mais triste ainda porque enquadrado pela cara bonita que o suporta:
“Pois! Hoje não é mesmo um dos meus dias!”
Quase que estive para dar meia volta, fumar mais um cigarro na rua, apesar da temperatura, e aguardar que todo aquele lajedo secasse. Pelo menos, assim, ela não veria o destruir do trabalho que estava a fazer e pelo qual, quase que pela certa, nem sequer é bem paga. Não o fiz!
Que são realmente efémeras as limpezas que fazemos, tal como as pegadas que deixamos.

By me

15 euros



Fico a saber p’las notícias que os portugueses este ano gastaram mais 150.000.000 (cento e cinquenta milhões) de euros p’lo Natal que no ano anterior.
Feitas as contas a dez milhões de cidadãos, corresponde a 15 (quinze) euros por pessoa.
Isso é lá motivo de alegria, se considerarmos as variações de impostos e preços ao consumidor?

As estatísticas contam-nos aquilo que querem que saibamos e delas interpretamos aquilo que queremos ouvir!

By me

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Estação Dourada


By me

Bocage - A raposa e as uvas




Contam que certa raposa,
Andando muito esfaimada,
Viu roxos, maduros cachos
Pendentes de alta latada.

De bom grado os trincaria,
Mas sem lhes poder chegar,
Disse: “Estão verdes, não prestam,
Só os cães os podem tragar!”

Eis cai uma parra, quando
Prosseguia seu caminho,
E, crendo que era algum bago,
Volta depressa o focinho.

Imagem: by me

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Desabafo fotográfico reduzido a letras:

Passo-me dos carretos quando vejo fotografias feitas com equipamentos muito caros, muito trabalhadas em editores de imagem e que têm o mar torto. Ou o retratado sem espaço para respirar. Ou que o centro de interesse está bem no meio, qual mira telescópica de arma de precisão.
Sugiro a esses autores que invistam em visitas a museus ou encontros de jovens fotógrafos, em estética no lugar de técnica, que vejam em vez de olharem.

Se, depois disso, quiserem pôr o mar a descair, a espampanante modelo com falta d’ar ou exercitarem o tiro ao alvo, estejam à vontade. Mas saibam porque é que o fazem!
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Em branco





Não me interessa o que dizem!
Há dias em que nem mesmo café e banho quentes desbloqueiam ideias ou dão ordem a pensamentos complexos.
Cinco rascunhos e cinco frustrações, sem conseguir sintetizar aquilo que consta de muitos livros com mais uns pozinhos de minha autoria.
Acho que preciso de um mergulho na actualidade informativa (política, económica, desportiva) para regressar a bom porto e tentar fazer qualquer coisa de útil por contraste. 

By me

Meteo





Bom dia!
Informação minimalista sobre as condições meteorológicas.

By me

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Ia eu, todo pimpão, preparar uma chávena de leite quente antes de ir para a cama.

Já com o púcaro no balcão da cozinha, abro o frigorífico para tirar um pacote que lá tinha já aberto, e diz-me ele lá de dentro aos berros e aflito:

“Fecha a porta! Fecha a porta! Fecha a porta senão entra frio!”
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Prendinhas do real



E agora, que o tal de natal já acabou, será que podemos concentrarmo-nos nos nossos problemas reais?

Ou será que vamos continuar a fazer de conta que há Pai Natal, que a ecologia é substituirmos a gasolina por renas e que os laçarotes coloridos são pacotes de saúde, alimentação em kit, justiça em fascículos e devoluções de impostos em calda?


By me

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Macho latino





Macho latino que se preze cospe para o chão, atira bocas foleiras às mulheres que passam, enfia os polegares no cós das calças e põe o pé na parede. Tudo por junto, ou só alguns factores, dependendo da necessidade de afirmação.
Mas há outro comportamento típico do macho latino com o qual também embirro solenemente: O ficar à conversa, encostado na ombreira da porta, obrigando todos os outros a pedirem-lhe passagem.
Confesso que já pensei em, nalguns casos de gente conhecida, ignorar que ali estão e continuar a caminhar como se a porta estivesse desimpedida.
Mas, e para além do inevitável encontrão e consequente troca de palavras azedas, arriscava-me a sujar a roupa no monte de porcaria em que esbarraria.
Não me apetece!

By me

Sons





Lembro ter lido, já não sei onde e há muito tempo, que o som que com menos volume e que mais facilmente acorda um ser humano de um sono profundo é o vagido de uma criança.

Não me importa quais as condições climatéricas! A minha rotina de fazer os cigarros do dia acontece na cozinha e sempre com a janela aberta. Integralmente se estiver calor, só uma fresta se estiver frio, mas esta janela está sempre aberta.
Assim, e na rotineira tarefa de os encher, a minha mente voa para o exterior, por vezes deixando-se levar muito para além daquilo que poderia ver se voltasse a cabeça. Levado pelo marulhar das árvores, pelo monótono roncar dos motores lá mais ao fundo, por algum pássaro que chama por companhia ou celebra a alegria de estar vivo.
O único som que me faz parar o que faço e espreitar p’lo vidro ou p’la balaustrada é o chorar de uma criança, por vezes porque caiu, por vezes porque embirrou. Por vezes porque é arrastada p’la mão de um adulto em direcção à escola, duas esquinas abaixo.
Constatada a inocuidade do queixume, regresso à rotina. E nem sempre os pensamentos regressam onde estavam.
Porquê desta imagem? Bem, caos é caos, interior ou exterior.

By me

Proibido





São frases ou slogans que não têm tempo ou lugar!
Cada geração que surge redescobre-as e usa-as, como se de verdades universais se tratassem. Que são!
Pena é que essas mesmas gerações, à medida que os tempos passam, invertam o sentido do sentir e passem elas mesmo a serem quem proíbe a proibição de proibir. E inventem as leis e os tribunais, as prisões e os advogados, as polícias e os ladrões. Aqueles mesmos que serviram de tema a brincadeiras ao mesmo tempo que gritavam: “É proibido proibir!”
A compensação é que atrás de uma geração vem outra que continua a clamar que “É proibido proibir!” Na clandestinidade dos graffitis, nos projectos-sonho da juventude, na alegria de quem acredita no futuro. Mesmo num caixote de lixo ferroviário!
E alguns jarretas que continuam a acreditar que o sonho é possível! 

By me

domingo, 28 de dezembro de 2014

Um conto por dia





Não importa quem escreveu. Ou talvez importe, que quem sabe fazer deve ser referido. Mas como prefere a discrição, fica no anonimato.
Importa, sim, é que o escreveu e bem. Aqui fica:

UM CONTO POR DIA
Sentada ao canto da sala de espera, junto aos elevadores, aquela mulher olhava-nos nos olhos e dizia-nos coisas que só quem sabia ouvir o olhar de alguém entendia.
Devia andar por volta dos trinta anos de idade, mas parecia uma velhinha nas expressões do rosto e no tremer do corpo.
Bebericava um café que alguém lhe tinha dado e volta e meia levantava-se, aproximava-se de alguém com passos vacilantes e pedia vinte cêntimos para um café.
Se recebia a moeda, sorria. Se lhe era negado o pedido esboçava um esgar como resposta.
O corpo era franzino, diria até que demasiado magra.
Vestia umas calças de ganga cuja cor era indistinta, uma camisola que já conhecera melhores dias e um casaco de cor bege que tanto podia ser de pele de ovelha como da pele dela mesma porque quando se levantava e seguia nos seus passos vacilantes, segurava-o pela banda com as mãos magras como quem se agarra a uma bóia de salvação.
Era morena, rosto escorrido, olhos castanhos profundos de uma dor infinita, lábios grossos e escuros que ora sorriam ora choravam num esgar de dor e sofrida solidão.
Pendurada ao pescoço, uma chave pendia de uma fita cor de laranja que volta e meia verificava se ainda lá estava com as mãos finas, tremendo, tremendo como se fizesse um frio de tremer a alma.
Sempre que passava um médico ou enfermeiro levantava-se e ia pedir qualquer coisa.
Depois ficava parada no corredor, parada como quem espera algo ou alguém, com os olhos fixos no nada que era a sua vida.
Voltava à sala e lá ia pedindo a este ou àquele uma moeda de vinte cêntimos para um café e depois voltava a sentar-se no canto junto aos elevadores e ficava de olhar perdido no vazio do que era a sua vida.
De vez em quando chegava um auxiliar de enfermagem lá lhe trazia uma sanduíche e um chá ou café que ela recebia com um sorriso.
Agradecia e de seguida levantava-se e percorria a sala oferecendo a cada um o dom da partilha.
É servido? Perguntava-nos.
As respostas eram sempre negativas junto com os "muito obrigado" da boa educação de alguns ou então o silêncio na resposta dos que não tendo educação nenhuma a viam como alguém importuno, um ser a escorraçar por estar a mais.
Durante horas observei-a, naquele cenário de drama humano.
Da orelha direita escorrera-lhe sangue pelo rosto que entretanto já secara e nas roupas andrajosas havia ainda vestígios de sangue misturado com lama e agonias várias.
Na troca de olhares que fez comigo contou-me a sua pequena história.
Perdera tudo.
Primeiro perdera o respeito da família e dos amigos, depois perdera o respeito por ela mesma e finalmente perdera as ilusões de um dia voltar a ser gente e a ter uma vida digna.
Não comia nada havia dois dias e fora escorraçada do buraco que tinha sido a sua casa durante algumas semanas.
As chaves eram da porta de uma casa cuja morada já nem se lembrava mais e de onde tinha sido despejada.
Já conhecera vários buracos onde pernoitara e de onde era corrida ou pela polícia ou por moradores vizinhos ou ainda por outros companheiros de infortúnio que nisto de se viver na rua tem os seus quês e não há solidariedade que valha quando se luta por um buraco e por um bocado de pão.
Aquele corte na orelha era resultado das brigas pelos melhores buracos da cidade e ela já não tinha muitas forças para continuar a lutar.
Quando andava, vacilavam-lhe as pernas e tremia-lhe o corpo.
Quem olhava sem ver, dizia que era droga.
Mas quem olhasse e visse percebia que era fome.
Uma fome imensa que já lhe roubara as forças e lhe tirara o brilho dos olhos e emaciava-lhe a pele.
E voltava a pedir a moeda de vinte cêntimos para o café a quem passava ou a algum doente.
Chegada a hora do jantar, serviram sopa e sanduíches a quem esperava a sua vez nas urgências e ela não se fez rogada.
Comeu de novo, sentada no canto junto aos elevadores.
Comia como quem comesse a sua última refeição na vida, saboreando cada migalha como se fosse um repasto de ricos.
Tremiam-lhe as mãos, o corpo franzino gemia em silêncio...
A fome não saciada por uma simples refeição falava mais alto...
Apenas para quem sabia ouvir aquela história.
Para os outros, para quem não sabia ouvir, aquela mulher era uma chata de uma pedinte que ia para ali importunar os doentes e os seus acompanhantes.
E nalgumas bocas ouvi a frase "e assim se faz um ordenado ao fim do dia de pedinchice".
A pobreza incomoda muita gente porque lhes atira em pleno rosto a forma como se ganhou a riqueza que se ostenta.
É fácil criticar o mendigo quando se tem a mesa farta e uma casa onde morar.
Quando saí, já não a vi pela sala nem pelos corredores, mas sei que hoje pelo fim do dia, é ali que a podem encontrar.
Ou então estará nalgum prédio vazio dos muitos que existem a cair aos pedaços pela cidade.
Se for nalgum desses buracos, ela vai ter de lutar, se tiver forças, para poder dormir se conseguir resistir ao frio de mais um dia de uma vida com muitas histórias para contar a quem souber ouvir.


Imagem: by me

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Quem abre as janelas sujeita-se às correntes de ar.
Mas quem fecha as janelas não sente o sol!
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Dia de sorte





Tiveram elas azar. Ou talvez não.
Tive eu sorte. Isso é garantido.

O supermercado estava vazio. Quase escandalosamente vazio. Sem apertos nos corredores e podendo eu escolher a caixa que queria com a certeza que ser atendido rapidamente.
Para reforçar a coisa, tinha conseguido entra na loja antes do aguaceiro e previa-se que, aquando da saída, já tivesse terminado.
O cúmulo é que tudo o que queria trazer havia nos escaparates, sem rupturas de stock natalícios e com prazos de validade convenientes.
Se quando entrei elas estavam lá, quando saí também. E uma delas abordou-me. Coitada! Queria convencer-me a aderir a um cartão de crédito. Logo eu!
Como o movimento era realmente fraco, acabámos por ficar de conversa. Ela e mais duas colegas, que se juntaram, curiosas sobre o que o “pai natal” estaria a dizer.
Quando lhes disse que parte da culpa do actual estado do país se prendia com o crédito mal pedido e mal usado, cartões incluídos, demonstrei com a veemência habitual a diferença que pode ter o uso de algo:
Abri o belo do canivete, com a sua lâmina grande. E logo se afastaram uns bons dois passos, de susto.
E continuei, dizendo que com aquilo tanto podia construir um berço para um bebé como uma forca mortal. O perigo não está na ferramenta mas no uso que lhes damos.
Conversa vai, conversa vem, e acabei por lhes mostrar a utilidade de alguns objectos pouco comuns que trago nos bolsos. Entre eles um borrifador de água, uma caneta de aparo, uma câmara fotográfica e uma corrente de autoclismo. E fiquei a saber aquilo de que suspeitava: nenhuma delas leu o Tom Sawyer, apenas viu os desenhos animados. E nenhuma delas sabe a alusão aos díspares e muitos objectos estranhos que ele transportava no bolso. Os filmes de animação sempre saltaram esse aspecto.

Foi sorte a minha, terem-me abordado num dia de boa disposição para comprar uma coisa que eu não queria nem quero.
Se não tivesse estado na conversa teria regressado a casa mais cedo uns bons vinte minutos. Antes de este sapato ter sido aqui despejado, que não estava quando saí.
Faz tempo que não vejo um na rua. 

By me

Assombroso





Por vezes fico assombrado com a quantidade de coisas menos comuns ou “inúteis” que existem aqui por casa. E que entraram cá apenas porque me apeteceu fazer esta ou aquela fotografia, atraído por este ou aquele motivo.
Neste caso, foi tão simples quanto o querer fazer uma brincadeira com cores, há uns tempos.
Mas ainda vou ter que me debruçar a sério sobre o que são cores fluorescentes e atractivas, bem como o fenómeno da polarização da luz por materiais opacos que não apenas os plásticos e outros sintéticos.
Bem como as reacções do olho e cérebro humano a tal situação.
Em complemento, sempre gostava de conversar com quem criou estas medidas para perceber o porquê da escolha de cada uma das cores para cada uma das medidas e não qualquer outra opção. 

By me

As coisas boas da vida





O meu projecto “Old Fashion”, enquanto durou, funcionava assim:
Os fotografados colocavam-se onde lhes dizia, de pé, sem que lhes indicasse nenhuma pose. A única influência minha era o clássico “Olhó passarinho” imediatamente antes de premir o cabo disparador.
De seguida aproximavam-se de mim e da minha câmara e, enquanto a magia funcionava no seu interior, questionava-os eu, para posterior estudo, sobre questões inócuas.
O processo (“magia” e questionário) durava minuto e meio, mais coisa menos coisa. Particularmente pouco tempo, se pensarmos nos processos arcaicos de revelador/paragem/fixador/lavagem. Mas a minha magia era diferente.
Mas para os mais novos, minuto e meio é uma eternidade. Muitos foram os que perguntavam “Então? Nunca mais?!” em demorando mais a magia que as perguntas.
A minha resposta (frase feita, é verdade) deixava muitos deles a olhar para mim com olhar desconfiado. E um sorriso nos lábios, por vezes gargalhadas, nos semblantes dos mais velhos:
“As coisas boas da vida fazem-se devagarinho.”

Por “coisas boas” entendam o que quiserem. Continuo convencido da universalidade da afirmação, incluindo o que se refere a fotografia.

Nota adicional: A qualidade da imagem é o que é, mas é histórica. Feita com um telemóvel, daqueles que já faziam fotografias, foi a primeira que me foi feita em acção e a que tive acesso. Um especial agradecimento à minha amiga que ma fez. 

By me

Talvez...





Talvez porque estava sol! Talvez por ser feriado! Talvez por faltar ainda uma mão cheia de dias para o final do mês! Talvez…!
O autocarro levava apenas meia dúzia de gatos-pingados. Uma senhora idosa, gorda e de ar modesto, num dos bancos da frente; eu mesmo, de pé e com o saco nas costas e o tripé ao peito, no patamar junto à porta; um casal de meia-idade, num banco logo a seguir; lá para o fundo, em bancos separados, dois homens de idades indefinidas. E nada nos unia naquela viagem, não fora o partilharmos o autocarro e, por ser o dia que era e a hora que era, parecermos uma multidão.
Mas, metido que estava nos meus próprios pensamentos e observando que ia a avenida deserta como nunca, não teria dado por nada, ou quase.
O que me fez despertar para o que acontecia ali dentro foi uma voz, vinda da porta da frente. Um rapaz, de vinte e poucos, nem bem nem mal vestido, exclamava para o motorista: “Oh chefe! Não me faça isso! Logo hoje!”
Olhei, como os demais devem ter olhado também. A nota de vinte euros que tinha na mão contava a história sem falar. Ele queria pagar o bilhete, um euro e oitenta cêntimos, mas o motorista/cobrador não tinha troco. Deve ter-lhe proposto entregar-lhe um vale da quantia a devolver, para ser recebida numa das estações centrais da Carris. Lá na outra ponta da cidade e não naquele dia, que se tratava de um feriado.
Acredito que o rapaz não tivesse ali mais dinheiro que aquele e ficar sem nenhum, naquele dia, seria catastrófico. Depois de trocar mais uma palavras, em voz baixa, com quem lhe devia vender o bilhete, veio de passageiro em passageiro, perguntando se, por mero acaso, não teríamos troco de vinte euros. E a nossa resposta, cada um à vez, foi negativa. Por mim, tinha uns cinco ou seis euros em moedas e a nota mais pequena era de dez. Não chegava!
Regressou lá à frente, sempre com a nota na mão, suponho que para tentar convencer o funcionário da sua vontade de pagar mas também da sua impossibilidade de encontrar trocos para tal.
Entre mim e ele, a velhota sentada chamou-o. Tinha decidido fazer aquilo que eu mesmo estava a hesitar em fazer. Abrindo e rebuscando no seu porta-moedas, foi contando moedas até perfazer os malfadados euro e oitenta do bilhete. E entregou-lhos, dizendo:
“Tome! Vá lá pagar!”
“Mas…” titubeou ele, “Mas…!”
“Vá lá”, interrompeu ela, “Vá lá antes que ele lhe passe a multa!”
E ele foi. Pagou o bilhete e deixou-se ficar por ali, junto à porta da frente.
Duas paragens depois a velhota saiu, transportando com dificuldade o seu próprio peso e o de um saco, volumoso também, que segurava. Não trocaram mais palavra e, creio, não mais se encontrarão.
Um euro e oitenta cêntimos. O preço da satisfação de ambos. O conceito de barato e de caro dependerá das posses de cada um deles. Que não me pareceram abastados, bem pelo contrário.
Mas…. Qual o preço de um sorriso? Talvez porque estava sol! Talvez por ser feriado! Talvez por faltar ainda uma mão cheia de dias para o final do mês! Talvez…!

By me

sábado, 27 de dezembro de 2014

Frases feitas





Num mundo de frases feitas, séries televisonadas, gatos fofinhos e fotografias gastronómicas, qualquer pensamento original com mais de cinquenta palavras está condenado ao olvido instantâneo.

By me

Votos de





Passada que está a festividade natalícia, com os seus desejos fraternos, mesa farta e crises de fígado, eis que se aproxima a passos largos a passagem de ano.
E também esta se encherá de votos alegres e brincalhões, com desejos sinceros ou nem por isso.
Antes que me esqueça e deixe passar a oportunidade, aqui ficam os meus.

A todos os meus amigos e os que se preocupam comigo e com o mundo, votos de uma excelente passagem de ano e que o próximo seja bem melhor que o anterior. O que não deve ser difícil.
A todos os outros…
A todos os outros também! Que se o mundo estiver cheio de gente feliz e de bem com a vida, mesmo que não me gramem, eu estarei melhor e mais feliz também.
E eu sou um tipo egoísta. 

By me

Mentira!





É muito mentiroso, o termómetro que tenho na janela. 

By me

Fotografia e personalidade





É uma daquelas coisas curiosas: não conheço uma só biografia de fotógrafo que diga que tenha sido má pessoa. Nem conheço um fotógrafo que seja má pessoa.
Não significa isto que não tenham existido ou existam. Apenas que eu não conheço.
Passa isto, penso, por a fotografia implicar uma relação positiva e de partilha com o mundo circundante, sendo um sério entrave à prática da maldade ou do egoísmo.
Esta é uma opinião. Passível de ser contestada, naturalmente, mas é a que tenho.

Ciente disto, durante os anos em que trabalhei com jovens para que aprendessem os rudimentos da fotografia ou vídeo, e um pouco mais que isso, sempre tentei transmitir-lhes essa noção da partilha ou intimidade com o assunto registado. E ainda hoje o tento, sabendo que quanto maior for mais satisfação ou sucesso se tem no registo da imagem. Para o próprio e para com os clientes.
Nem sempre o consegui. Naturalmente que nem todos os jovens que tentavam essa via profissional estavam particularmente vocacionados para isso e, apesar de nunca ter reprovado nenhum, alguns ficavam-se pelos limites mínimos dos objectivos propostos.

Passados que são alguns valentes anos, vou encontrando alguns deles. Na vida real, nas redes sociais, por interpostas pessoas, por mero acaso ou profissionalmente. E vou sabendo o que fazem e no que se tornaram. O que pensam, as opiniões que emitem, as atitudes que tomam…
E apenas vou reforçando a minha opinião, confrontando o rendimento escolar de então com o que são hoje.
Os que hoje, adultos que são, têm atitudes pedantes, opiniões de desprezo para com os outros, sectários sociais, alguns a roçar o racismo ou xenofobia, são exactamente aqueles que, enquanto estudantes, nunca demonstraram grandes qualidades no campo da fotografia ou vídeo. E o contrário é igualmente verdade. Pouco importando o rumo profissional que seguiram, uns no ramo, outros fora dele, que a vida é isso mesmo.

Não é necessário praticar-se a fotografia para se ser boa pessoa. Mas é imperioso ser-se bom e generoso para com o mundo para se ser Fotógrafo com F maiúsculo. 

By me

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O céu de fugida





Mania minha: olhar para aquilo que é iluminado pelo nascer ou pôr-do-sol, no lugar de olhar para o dito directamente.
Talvez que eu seja “do contra”. Certamente que sou!
Talvez que eu goste de olhar para aquilo a que as pessoas voltam as costas. Com certeza que sim!
Talvez que eu prefira ver o que é iluminado a ver a fonte de luz. É lógico que prefiro!
Mas, e no caso presente, nem foi uma questão do que prefiro ou não mas antes o que me foi possível ver e apreciar, entre duas fumaças, numa pausa mais que diminuta, entre o ouvir falar do primeiro-ministro a perorar sobre nuvens negras, o ouvir falar dos acidentes mortais e as estatísticas, o ouvir falar de economia e do futuro hipotético ou o ouvir falar de futebol e respectivas tricas fúteis.

São estes momentos, fugazes, que me fazem manter a sanidade mental que ainda me resta. 

By me

Maldades



Não! Como devem imaginar, nunca o fiz.
Aliás, nem nunca o vi fazer.
Apenas soube que se fazia, e em tempos tão recuados como setenta ou bem mais anos.
Pegavam-se em quatro metades como estas, de nozes, enchiam-se de pez, e colavam-se nas patas de um gato que se apanhasse ou se deixasse apanhar. Depois, soltava-se o gato.
Agora imagine-se o comportamento do pobre bicho, ao sentir aquilo colado nas patas, a ausência de tacto que provocaria e, pior que tudo, o barulho que faria ao caminhar. E quanto mais rápido andasse, mesmo corresse, mais barulho faria e mais o assustaria.
Contou-me quem o fez e o viu fazer que acabavam por apanhar o pobre bichano, exausto e aterrorizado, algumas horas depois, num qualquer canto onde se refugiasse. Ou mesmo em “campo aberto”, quando lhe faltassem as forças para fugir.
Frequentemente, os autores da “brincadeira” acabavam por apanhar uma valente coça do dono ou dona do gato. Mas era preciso que os apanhassem ou soubessem a autoria.
Maldades de antanho, pouco consentâneas com o “politicamente correcto” ou o espírito ecológico e de protecção dos animais que hoje vigora.
Felizmente!


By me

Breve informação térmica




A manteiga, que ficou toda a noite e por esquecimento no balcão da cozinha, está bem rija. 
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O que o EXIF não conta





Que veio da Ucrânia.
Que na terra natal construía pistons para motores Niva, e que a sua fábrica fechou, junto com mais quatro, todas na mesma cidade.
Que chegou a fazer 7km a pé da sua cidade para a aldeia onde vivia a sua namorada, com neve de meio metro, e que, mesmo assim, este frio de cá lhe parece pior.
Que ainda está à espera da substituição do seu passaporte roubado, que agora é emitido lá e não cá, e que sem ele não há trabalho nem autorização de residência.
Que vive de uns trocos que recebe de arrumar carros e que não se droga, de forma alguma.
Que o seu pé partido, em cima do qual se arrasta e que não tem como tratar, o limita na competição feroz por um carro arrumado.
No EXIF pode ler-se que eram 11 e tal da manhã de Natal. O que ele não diz é que as suas roupas e sapatos estavam completamente encharcadas e que os termómetros marcavam 10 graus.

By me

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Seis e onze



Melros. Vários. Pardais também. Dois gatos, um preto, outro riscado. Nenhum deles deu sinal de ter dado por mim.
Um carro-patrulha, devagar e com as luzes de prioridade apagadas.
Um táxi, de Lisboa, a deixar um casal com uma criança de colo.
Uma senhora de idade, preta, de lenço na cabeça e rosário na mão.
Ao longe, bem ao longe que não havia vento, um cão.
Algures também ao longe, mas noutra direcção, um galo, apesar do negrume da ainda noite.
Três janelas acesas, mais a escada onde entrou o casal com o pimpolho.
A estação primava pela exuberância de luz, mas também pela ausência de passageiros. Só com o aproximar da hora do comboio, que veio atrasado, surgiram meia-dúzia como eu, só para não deixar o cais vazio.
O que quebrou esta pacatez foram dois homens que, com as suas malas, já etiquetadas, deveriam seguir para o aeroporto.
E, a bordo da composição, não vi revisor.

Em Lisboa o cosmopolitismo já se manifestava, com filas para o autocarro, táxis à espera de cliente (confidenciou-me o que me transportou que os tempos estão maus e há que procurar serviços para compor o mês) e gente a conduzir com a pressa de quem vai atrasado para o trabalho, seja lá ele o que for, a esta hora neste dia.

Já o meu, esse, foi normal, que a frase “The show must go on” aqui é verdade, sejam quais forem o dia e as tradições.

By me