domingo, 30 de novembro de 2014

Liberdade



Uma ocasião pediram-me para usarem esta fotografia numa revista electrónica.
Claro que me senti lisonjeado e acedi, com a ressalva que ela tinha sido feita em torno do soneto “Liberdade querida e suspirada”, de Bocage, e que deveria ser publicada junto com ele. Acederam.
Qual não foi o meu espanto quando vejo, tempos depois, o referido soneto escrito sobre o lado esquerdo da fotografia. Letras brancas sobre o fundo escuro.
Não gostei. Nem um nico. Que, ao fazê-lo, todo o jogo claro/escuro que eu tinha criado se perdia com a mancha branca das letras. Não gostei!
Disse-o a quem o havia feito, tive que insistir e ser veemente e, vantagem dos processos digitais e on-line, foi alterado: o soneto escrito ao lado da fotografia, ambos impolutos e originais.
Não aceito que um editor de uma publicação subverta assim o trabalho criativo de um fotógrafo, seja o trabalho bom ou mau.
Sendo dado como pronto pelo autor, qualquer alteração sobre ele é criar nova obra, já não passível de respeitar a ideia original. Não aceito!

De igual modo não aceito que fotografias sejam impressas a duas páginas. Numa revista talvez escape, tal como num jornal. Mas não, de forma alguma, num livro.
A união das folhas, e porque a lombada e espessura do livro assim o obriga, impede o ver-se continuadamente todos os elementos (objectos, formas, cores, luzes, movimentos) que constam na imagem, desvirtuando-a e criando outras formas de leitura.
Uma fotografia impressa a duas páginas não é a fotografia original mas antes uma outra, com outro “ritmo”, gestão de interesses, sentidos de leitura, fraccionando-a mesmo.
E se o fotógrafo que a criou quis colocar algo em determinado ponto do espaço, desvalorizando todos os outros, não faz sentido, melhor, é um aviltar o trabalho original o impedir essa leitura ou importância.
Não gosto, não quero, não consumo!

Vem tudo isto a propósito de ter estado na “Feira do Livro da Fotografia”, em Lisboa. E que ainda decorre hoje, Domingo.
Nesta feira, entre outros aspectos, dá-se ênfase aos trabalhos de autor, às publicações que, mesmo com tiragens reduzidas, representam as abordagens de fotógrafos contemporâneos que usam este meio para divulgar os seus trabalhos. A sua forma de ver e sentir o mundo. Só posso aplaudir.
Acontece que alguns destes trabalhos exibem imagens a duas páginas. Impedindo o acesso integral à fotografia original.
Comentei isso com uma das pessoas que estava numa das bancas e a resposta surpreendeu-me. Ou não.
Perante o meu “Porque é que insistem em publicar fotografias a duas páginas?”, ouvi:
“Ah… e tal… é para dar ritmo ao livro… um livro não é apenas as fotografias exibidas, também tem personalidade própria…”
Ora batatas!
Então quando escolhemos um livro estamos a querer ver as fotografias de um determinado fotógrafo ou estamos a querer ver o trabalho de um determinado editor ou paginador?
Não questiono o trabalho destes. Ao fim e ao cabo, o tamanho das páginas, a ordem pela qual as fotografias são exibidas, se na página esquerda se na direita, se ao alto ou ao baixo, se todas com a mesma orientação ou salteadas… tudo isto faz parte do trabalho criativo de quem concebe e pagina um livro.
Agora, por favor:
Não queiram, com o pretexto da criatividade do paginador ou editor, subverter, adulterar, estragar, o trabalho de quem fotografou e que, no fundo, é a razão de ser do livro em si.

Vim da Feira da Livro da Fotografia com cinco livros. Que me deixaram com a carteira mais leve mas com a alma bem mais alegre. Trabalho de autor, compilações, texto, localização geográfica, históricos.
Mas nenhum com fotografias a duas páginas.


A liberdade criativa de um termina quando começa a liberdade criativa do outro!

By me

.

Sei que me vou repetir, mas não posso deixar de o fazer.

Tenho duas certezas apenas:
Que não vou durar para sempre;
Que ninguém deixará, na minha lápide fúnebre, a inscrição “Aqui jaz um tipo de bom feitio”.


Há que troque a última por “pagar impostos”, mas sabemos como isso nem sempre é verdade.
.

Nem o dobro



Um tipo às vezes esquece-se que já não tem vinte anos, nem mesmo o dobro, e quer continuar a fazer o que fazia quando tinha mais do dobro.

By me 

sábado, 29 de novembro de 2014

.

Le Roi et mort, vive le Roi!

Pela primeira vez nesta última semana, os principais jornais on-line não têm como notícia de abertura o caso Sócrates.

 .

Introspecção



By me

D'arquivo



O texto abaixo escrito tem quase dez anos. Fui tropeçar nele em olhando os arquivos. Tal como a imagem que o acompanha.
Se o escrevesse hoje as únicas alterações seriam formais: português e organização de ideias. Porque elas estariam lá por inteiro.
O único acréscimo seria o referir a internete e as redes sociais que, à época, não tinham o impacto que têm hoje.
Quanto ao resto, aqui fica tal como o encontrei.


O texto que se segue foi escrito durante um almoço e concebido para ser uma resposta personalizada a uma dada situação.
Mas ao passá-lo pelo teclado e em relendo-o, entendi que era bem mais abrangente que apenas o seu destinatário, pelo que aqui vos o deixo na íntegra.

Companheiro:
Vejamos então se nos entendemos nestes mal-entendidos.
Por um lado não sou dono da verdade. Aliás, não posso ser dono de algo que não conheço nem sei se existe. Tenho apenas opiniões que, até encontrar uma em contrário que me convença, funcionam como orientações de pensamento e comportamento. Para mim mesmo.
O mais que pode acontecer é, em divulgando o que penso, encontrar outras pessoas que partilhem os mesmos ideais e pensamentos. E, em conjunto, dizermos: “Esta é a nossa forma de ver este assunto, partilhamo-lo e, como tal, esta é a nossa “verdade” aqui e agora!”
E isto assim será até que os conceitos mudem em alguns e a “verdade” de agora o deixe de ser, passando a “engano” face à nova “verdade”. Até que uma outra sobrevenha.

Pegando agora no caso concreto: Se eu fotografo ou não desconhecidos e em que circunstancias. Sobre isto há que ver várias abordagens e os seus contextos.
A minha atitude de base é: o indivíduo deve ser preservado na sua reserva de intimidade!
Esta é uma abordagem genérica mas não dogmática.
Se alguém vem a um local público manifestar-se, pretende que o seu manifesto seja conhecido. Falamos aqui de actores, políticos e manifestantes anónimos que se juntam para darem a conhecer ao colectivo os seus pontos de vista. O acto de os fotografar e divulgar estas imagens vai ao encontro dos desejos dos fotografados, já que com as imagens recolhidas e divulgadas as mensagens vão mais longe e a mais gente.

No outro extremo da escala estão aqueles que nem sequer têm possibilidade de se reservarem ou preservarem dos olhares estranhos, quanto mais dos fotógrafos. Vagabundos, pedintes, sem abrigo, etc., que fazem da rua a sua casa, não tanto por opção mas antes por impossibilidades (de ordem vária) de escolher. Estes não podem decidir quando ou o que querem partilhar da sua vida – e de si mesmos – com estranhos.
É com estes e nestas circunstancias que o meu pudor se manifesta com mais intensidade, impedindo-me - ou quase - de os registar em imagem.
Eu sei que o destino das minhas fotografias é, em regra, o meu arquivo, eventualmente uma divulgação muito restrita. A única consequência dessas imagens que eventualmente eu pudesse fazer seria em meu próprio benefício, mostrando o quão sensível ou bom fotógrafo eu posso ser.
Estes fotografados, porque indefesos e involuntariamente expostos, em nada lucrariam com elas que não fosse uma diminuição da sua privacidade e, em constatando o seu fazer, um aumento da sua sensação de infortúnio.

A única circunstância em que cedo e refreio estes meus escrúpulos é quando me encontro, enquanto fotógrafo ou técnico de imagem, ao serviço da informação. Sei nessas ocasiões que as imagens que recolho irão beneficiar, senão o próprio retratado, o conjunto das pessoas que se encontram naquela situação, em campanhas de mitigação da pobreza. Aquela quebra de privacidade ou intrusão na intimidade não será inconsequente nem para meu único benefício ou glória.
Apesar disto a cada momento pondero os prós e os contras e, por vezes, o meu pudor nessa intrusão prevalece. E não o faço. Com os amargos de boca e profissionais que já me tem trazido esta atitude.

Entre um extremo e o outro (os que se expõem e os que não podem deixar de se expor) existem todos os outros, mais perto de uns ou dos outros.
A minha opção, enquanto fotógrafo particular, privado, amador ou o que lhe queiram chamar, é a de que as coisas boas devem ser partilhadas, enquanto que o sofrimento se e só se quem sofre assim o entende.
O sorriso, a alegria, a felicidade, a bondade são estados de alma que cada um que o vive quer por certo partilhar. Donde, confrontado com estas situações, não me sinto um intruso com a minha câmara. Usá-la e com o conhecimento dos fotografados é fazer chegar mais longe o seu estado de espírito, coisa que, regra geral, eles desejam.

Claro que no meio de todas estas considerações de carácter pessoal (repito que esta é a minha opinião e forma de comportamento) ainda existe a lei e o bom-senso.
A lei preserva, para além de qualquer dúvida ou interpretação, o direito à reserva da imagem. O ser-se fotografado depende da vontade e consentimento do próprio e do lugar e circunstâncias em que se encontre. E mesmo no que à comunicação social diz respeito - e ao seu direito e dever de informar -, é particularmente discutível se podemos (se eu posso) fazê-lo sem consentimento.
O bom-senso leva-nos, aos profissionais ou amadores de imagem, a sermos capazes de interpretar os olhares, as expressões, os gestos e as palavras de assentimento ou negação dos nossos alvos e a respeitarmo-los.
E o respeito pela vontade e opinião do próximo é algo que devemos ter sempre presente, na fotografia ou na vida, se queremos ser respeitados.

Como disse logo no início, não sou dono da verdade, até porque não a conheço.
Apenas sei o que penso e sinto, tentando passá-lo aos outros e, de alguma forma, demonstrar a validade dos meus argumentos.
Mas cada um é livre, como eu mesmo o sou, de concordar ou discordar, de agir em conformidade ou em oposição. Considerando sempre que para cada acção há uma reacção, quer se trate de sentimentos ou de atitudes materializadas.

Como se depreende de todo este arengar, o poder de síntese não é um dos meus predicados. Nem o tema é fácil de abordar em meia dúzia de linhas, que a Ética é algo de complexo e tão volátil e mutante quanto as civilizações.
Em qualquer dos casos, o que acima fica exposto corresponde, mais coisa, menos coisa, ao que penso.
Aqui e agora!
Nada me garante que amanhã, face a outros argumentos, não me desvie desta linha e, quiçá, assuma uma posição diametralmente oposta.

Porque de contradições é o ser humano feito e eu não passo disso!

By me

Looking for something



Sinto-me frustrado.
Poderá isto parecer prosápia da minha parte, mas estou a ser completamente honesto!
Estive num encontro onde sabedores do seu ofício falaram do que fazem, comparando as experiências e os condicionalismos do local exacto em que se empenham.
Estive lá para aprender. Eu, que sou menos que aprendiz na matéria, sem formação académica, com experiência reduzida e já recuada no tempo.
Pois a minha grande frustração foi o quase não ter ouvido depoimentos cujo conteúdo eu ignorasse ou falar de experiências que, com excepção de um caso e por motivos óbvios, eu não tivesse já vivido ou produzido.
Ou bem que sou um auto-didacta de sucesso ou bem que as experiências e as teorias ali expressas de pouco valor se revestem.
E sinto-me frustrado porque fui ali para aprender coisas novas.
Excepto uma frase que não conhecia deste modo e que realço:
“A estética é um ramo da filosofia.”
Donde, aprofundar a estética ignorando a filosofia é um absurdo. E, indo mais longe, considere-se que por “filosofia” se deve entender “conhecimento”.

Não tinha visto ainda as coisas desta forma e acho que vou passar uns tempos a remoer o assunto.

By me 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Luz



Piada corriqueira entre profissionais da imagem:
“A luz não faz curvas!”


Mas às vezes faz umas brincadeiras com piada.

By me 

Trim-trim



Tenho uma parecida em casa. Mas, confesso, não sei onde. Bem que a procurei mas não dei com o seu paradeiro.
Assim, e dada a urgência da situação, tratei de arranjar outra. As mazinhas, como esta, são baratinhas, pelo que o rombo não foi grande.
Para que serve e qual a urgência?
Bem, a época natalícia está já aí e, com ela, as enchentes nos centros comerciais, tantos os modernos e debaixo de telha, como os convencionais, nas ruas e no comércio tradicional. E estas enchentes fazem com que as pessoas se passeiem, a passo de caracol com reumático, aos quatro e aos cinco lado a lado, ocupando corredores e passeios. E impedindo literalmente que aqueles que se deslocam em velocidade normal tenham como os ultrapassar.
Vai daí, uma valente campainhada nas costas e até saltam para o lado, imaginando que vão ser abalroadas por uma bicla, que é coisa que agora não falta, dentro ou fora das ciclovias. Deixando o caminho tão livre como o que aqui se vê.

A ideia original não é minha, que a palmei de um vídeo no youtube, mas é magnífica e completamente eficaz. E divertida, bolas!

By me

.

É um nome. E outro, e outro, e outro.
E é uma cara. E outra, e outra e outra.
E é uma pessoa. E outra, e outra, e outra.

São demasiados os que vejo e sei triturados por uma economia da treta, por uma sociedade egocentrista, por impiedosos conceitos académicos e ideológicos que transformam todos e cada um em carne p’ra canhão!


MERDA!
.

Emendando a mão



Há uns dias fiz uma referência positiva a um acontecimento em Lisboa.
No espaço da antiga feira popular, e durante o mês de Dezembro e parte do de Janeiro, estará a funcionar um parque de diversões à moda antiga.
Hoje emendo a mão e recomendo que lá não se vá! Em circunstância alguma!
Isto porque nesse espaço está instalado um circo e, como se constata pela fotografia junta, inclui animais na pista. Que vivem em jaulas e aprendem os seus “truques” e rotinas de obediência por meios que não recomendaríamos a nenhum humano.
Espectáculos com animais enjaulados não, obrigado!


By me

Passam fome



Tenho sentimentos equivalentes tanto por uma sociedade igualitária de base com uma cúpula dirigente autocrática como por uma sociedade democrática onde as maiorias têm por aceitável viver-se qualitativamente de acordo com o tipo de trabalho que se efectua.
Quando se aceita, tanto em regime de classe dirigente como de maioria qualificada, que alguns passem mal enquanto que outros passam muito bem, só tenho uma reacção: asco!

É que, e se outros motivos não existissem, os cemitérios estão cheios de cantoneiros municipais e doutores de leis.

By me 

Exames



O médico teve dúvidas e mandou-me fazer um exame.
Mas tínhamos poupado tempo e dinheiro se mo tivesse perguntado.
São demasiadas as vezes em que me sinto assim: de cabeça vazia.

Hoje é um desses dias!

By me

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

.

Sobre uma das notícias do dia, e copiando a frase que alguém escreveu na net:


“Nunca vi um alentejano a cantar sozinho!”
.

Gipsy cor-pb



Agora sobre fotografia, e antes de ir cuidar da vida de outras formas.
Uma fotografia em preto e branco não é uma fotografia à qual retiraram o factor cor.
Ou melhor: pode ser assim mas, regra geral, tem que ser muito mais que apenas isso para ser algo que valha a pena ver.
Não considerar a luz, os contrastes, os brilhos, as proximidades lúmicas de cores, significa que o resultado será, certamente, enfadonho e pobre.
Para já não falar na questão da gestão do espaço, das linhas reais ou imaginárias, de onde os centros de interesse estão colocados… em suma: da composição de imagem ou enquadramento.

Qualquer tolo, hoje, faz fotografia em preto e branco. Basta usar o menu certo.
Poucos são os que fazem boas fotografias em preto e branco. Para tal, há que saber ver para além de olhar. E saber imaginar o resultado ainda antes de levar a câmara à cara.

Eu não sou um destes. Infelizmente.

By me

Dificuldades

Quando eu era catraio, ia sozinho de autocarro para o liceu. Dois autocarros para cada lado, com mudança a meio.
Muitas vezes não embarquei no segundo para poupar o dinheiro do bilhete. Quando o tempo o permitia, eu não estava atrasado e tinha algo em mente para comprar, gulosamente cobiçado nalguma montra. O segundo e terceiro factores eram recorrentes, que sempre gostei de chegar a horas e o orçamento familiar era bem apertado.
Os autocarros de Lisboa de então eram bem diferentes dos de hoje. Verdes, de dois pisos, alguns de porta atrás, aberta por onde se podia subir ou descer em andamento se a velocidade e a coragem o permitissem.
E tinham lotação limitada. Ao contrário de hoje, em que se entra no autocarros urbanos desde que se caiba, na época apenas viajavam se houvesse lugar sentado e no máximo quatro lugares de pé, bem identificados numa placa à entrada do veículo. Fazíamos sempre contas de quantos saíam e de quantos estavam à nossa frente na fila para entrar, tentando saber se a sorte nos batera à porta ou se teríamos que aguardar pelo seguinte.
E eram velhos, os autocarros. Pelo menos nas carreiras que eu frequentava. Conservados na medida do possível, alguns pediam reforma urgente, muito urgente. O fumo que emanava dos seus escapes e as queixas dos seus motores não deixavam azo a dúvidas.
Nesse meu trajecto escolar, os veículos eram sempre os mesmos nas mesmas horas e carreiras. Já os conhecíamos. Não sei se lhes dávamos nomes, mas já lhes conhecíamos as manhas e dificuldades.
Havia um pedaço, numa rua íngreme, de maior dificuldade na subida. E um dos autocarros, quando com a lotação completa, recusava-se a fazer aqueles talvez vinte metros. O motor esganiçava-se, rugia, mas não havia meio de subir. Mas já o conhecíamos, bem como a solução.
Em o ouvindo assim, saíamos (era um dos de porta atrás, aberta) e o bom do autocarro, aliviado da carga, lá conseguia vencer a ladeira. Parava no cimo, regressávamos ao seu interior e seguia viagem.
Interessante factor, quase que impossível nos dias de hoje, é que regressávamos todos aos mesmos lugares que ocupávamos. E quem ia de pé, de pé continuava. Sem protestos e, por vezes, com algum humor entre todos, cobrador incluído.
Suponho que na história relatada no artigo referido abaixo também a questão dos lugares retomados não se tenha posto. Mas, ao contrário do aí contado, nunca nos pediram para empurrar o autocarro.



By me

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

'Tá escuro



Ainda não são três da tarde mas está tão escuro, mas tão escuro mesmo, que me arrependi de, no lugar do guarda-chuva, não ter trazido o tripé.

By me

Relatos

Contou-me um passarinho que chove bem, na rua.

Estava encharcado, o coitado.
.

Shhhhhhhhhhh!



Um tipo que se deite já passado das quatro da manhã, a que horas se levantará?
Pois, é isso mesmo!
Agora que humor terá se, em pouco passando das oito, se iniciarem no apartamento do lado, paredes meias com o quarto, trabalhos de afagamento de soalho? Mecânicos.

Pois, é exactamente assim que me sinto!

By me

terça-feira, 25 de novembro de 2014

!

Vejo tantos a protestarem contra o desemprego, a desgovernação, as classes dominantes…
Mas também vejo tantos a inserirem o número de contribuinte nas facturas, a repetirem o voto ano após ano, a dizerem “amén” ao consumo induzido de artigos inúteis…

Façam o que quiserem, mas ao menos sejam coerentes!
.

Símbolos



Uma ocasião, há muitos anos, fui fazer umas fotografias nocturnas ali para a avenida Defensores de Chaves, em Lisboa.
Estava eu entretido e solitário a fazer o que me propunha quando fui abordado por uma patrulha da PSP, que chegara de carro.
Queriam saber o que estava eu ali a fazer, quem era eu, os meus documentos… o costume.
Apresentados os documentos em regra e usando de um tom coloquial e sarcástico, quis eu saber o que se passava e o que havia motivado a sua intervenção.
O meu cartão profissional havia acalmado a raiva dos esbirros e, com algumas desculpas implícitas, disseram-me que alguém havia apresentado queixa. Mas que estava tudo bem.
Foram-se embora, eu terminei o que queria e regressei pelo mesmo caminho, em direcção à paragem de autocarro.
No trajecto fui mimoseado com alguns insultos e ameaças. A minha presença, nada discreta, e ainda que isolado e longe da zona do negócio, havia afastado clientes às prostitutas que ali trabalhavam. E os proxenetas, no seu papel de protectores do negócio, haviam chamado a polícia. Que foi.

Esta história, verídica, é velha de muitos anos.
Mas por algum motivo os recentes acontecimentos mediáticos ma lembraram.
E a imagem, que não é nocturna, nem dessa época, nem desse local, foi a que me apeteceu repescar do arquivo.


By me

Poderes

É um fenómeno curioso o ver tantos e tão poderosos a querer separar a justiça da política.
Tal não é possível, caramba!
São os políticos, de acordo com as suas convicções e supostamente de acordo com os seus eleitores, que redigem, aprovam e colocam como válidas as leis.
São eles, por vezes à revelia da vontade dos cidadãos, que definem o que é certo ou errado, o que é legal ou ilegal.
São eles que entregam ao terceiro poder – judicial – as ferramentas ou os conceitos pelos quais ele se rege.
Donde, não me venham dizer que a política e a justiça não se mistura. Dependem uma da outra como o pão do forno.

 .

Prontos, é assim:


O tipo está preso e já não conta;
A legionella já tem culpado;
O congresso já congressou e não tem cabeça;
Das 400 propostas de alteração ao orçamento, só uma passou e não se sabe como;
O ébola já não mata (ou os jornais já não o contam);
Não houve nenhum decapitado nas últimas 48 horas.


Qual é o jogo de bola de hoje?
.

Adaptal SP2



Ontem tive na minha mão uma objectiva cujo conceito de funcionamento já não via há muito.
Tratou-se de uma Tamron Adaptal SP2. Tenho uma deste sistema, o que me fez ficar “guloso” por ela.
Os sistemas “Adaptal” tal como os “T2”, os “M42” e outros, baseavam-se no conceito em que o que importa é a qualidade da objectiva. O sistema de montagem na câmara poderia ser universal.
Alguns fabricantes usavam o encaixe de rosca como base do que construíam, outros vendiam as suas objectivas sem que fosse possível usá-las sem um anel adaptador, que também fabricavam. Usável em todas as objectivas da marca e dedicados à câmara em questão.
Nos tempos que correm, a concorrência desenfreada dos fabricantes faz com que cada um use patentes próprias, com sistemas de encaixe, contactos eléctricos e tiragens (distância do encaixe ao sensor) exclusivos, limitando a panóplia de objectivas disponível aos fotógrafos.
Passou a ser mais importante o exibir a marca do que se possui que a qualidade do que se faz.
Isto leva a que os fabricantes independentes, como é o caso da Tamron ou da Sigma, para não citar outros, produzam e coloquem no mercado objectivas dedicadas na proporção do que se vende dessas marcas de câmara. Deixando de parte quem usa marcas “minoritárias”, mesmo que de qualidade.
A especialização, as guerras comerciais e o consumismo desenfreado só trazem proveito aos fabricantes.

A objectiva que me fez salivar ficou na loja. O seu estado de funcionamento era tão deplorável que só por um quarto do preço me atreveria a trazê-la e só pela graça e para peças.

Na imagem, a traseira de uma Tamron Adaptal SP2 (90mm f/2.5), com o anel para Pentax ao lado.

By me 

!

Só para que a verdade dos factos seja reposta:
José Sócrates não é o primeiro primeiro-ministro, em exercício ou não, a ser detido em Portugal.

Essa “honra” pertence a Marcelo Caetano.

.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Desabafo de um Pentaxiano



As greves têm destas coisas!
Havendo greve no sector ferroviário e sendo certo que nem sempre se cumprem os serviços mínimos previstos, decidi jogar pelo seguro: vou para l
Lisboa muito mais cedo que o que seria normal. Não na hora de ponta mas com antecedência suficiente para que a falha de algum ou alguns comboios não ponha em causa a pontualidade que a entidade patronal espera de mim.
Assim, e porque não houve falhas, dou comigo na cidade com muitas horas de margem. E, ainda que só por graça (triste graça) decido ir dar uma olhada no que já está no mercado no tocante a fotografia. O Natal está perto e as campanhas comerciais estão aí, com as promoções e as novidades.
Não me conseguiram surpreender. As grandes superfícies, que vendem de tudo quanto é de consumo, ignoraram por completo a Pentax!
Encontrei a Nikon e a Cânon, a Sony e a Fuji, a Olimpus também marca presença. Na gama das muito baratas fui encontrar uma marca que desconhecia. Agora Pentax!
Nem câmaras, nem objectivas, nem flashs, nem estojos, filtros ou outras minudências.
A Pentax pura e simplesmente não existe para o mercado de consumo!
Claro que me incomoda, sendo utilizador de longa data desta marca. Sem uma só razão de queixa que não seja a falta de artigos.
É sabido que “longe da vista, longe do coração”. No caso do comércio, “longe das montras, longe das vendas”.
Indo mais longe: se quem se quer iniciar ou ir mais longe não tiver um corpo Pentax, como se pode esperar que tudo o resto se venda? E como esperar que se vendam corpos, de base ou avançados, se não estão à venda?

Sou um fiel utilizador Pentax. Mas se nada for feito pela marca, em breve serei um utilizador de velharias num beco sem saída.

By me 

Looking back



Excerto da obra “Modos de ver” de John Berger.
Editado por “Edições 70”, na colecção “Arte e comunicação”, Lisboa, 1999


“(…)
Uma imagem é uma vista que foi recriada ou reproduzida.

É uma aparência, ou um conjunto de aparências, que foi isolada do local e do tempo em que primeiro se deu o seu aparecimento, e conservada - por alguns momentos ou por uns séculos.

Todas as imagens corporizam um modo de ver. Mesmo uma fotografia. As fotografias não são, como muitas vezes se pensa, um mero registo mecânico. Sempre que olhamos uma fotografia tomamos consciência, mesmo que vagamente, de que o fotógrafo seleccionou aquela vista de entre uma infinidade de outras vistas possíveis. Isto é verdade mesmo para o mais banal instantâneo de família. O modo de ver do fotógrafo reflecte-se na sua escolha do tema. O modo de ver do pintor reconstitui-se através das marcas que deixa na tela ou no papel. Todavia, embora todas as imagens corporizem um modo de ver, a nossa percepção e a nossa apreciação de uma imagem dependem também do nosso próprio modo de ver.

(Por exemplo, Sheila pode ser uma entre vinte pessoas; mas, por motivos pessoais, só temos olhos para ela.)

As imagens foram feitas, de princípio, para evocar a aparência de algo ausente. A pouco e pouco, porém, tornou-se evidente que uma imagem podia sobreviver àquilo que representava; nesse caso, mostrava como algo ou alguém tinham sido - e, consequentemente, como o tema havia sido visto por outras pessoas. Mais tarde ainda, a visão específica do fazedor de imagens foi também reconhecida como parte integrante do registo. A imagem tornou-se um registo de como X tinha visto Y.

Constituiu isto o resultado de uma crescente tomada de consciência da individualidade, acompanhada de uma crescente consciência da história. Seria ousado pretender datar com rigor este último avanço. No entanto, pode afirmar-se com certeza que esta consciência existe na Europa desde o início do Renascimento. Nenhuma outra espécie de vestígio ou de texto do passado nos pode dar um testemunho tão directo sobre o mundo que rodeou outras pessoas, noutros tempos. Sob este aspecto, as imagens são mais rigorosas e mais ricas que a literatura. Esta afirmação não nega a qualidade expressiva ou imaginativa da arte, como se a considerássemos uma mera prova documental; quanto mais imaginativa é a obra, mais profundamente nos permite compartilhar da experiência que o artista teve do visível.
Ainda assim, quando uma imagem é apresentada como obra de arte, o modo como as pessoas olham para ela é condicionado por toda uma série de pressupostos adquiridos sobre a arte. Pressupostos que se ligam a:

Beleza
Verdade
Génio
Civilização
Forma
Estatuto Social
Gosto
etc.

Muitos destes pressupostos não se encontram já ajustados ao mundo tal como ele é (o "mundo tal como ele é" é mais do que um puro facto objectivo: inclui também a consciência). Em desacordo com o presente, estes pressupostos obscurecem o passado. Mistificam, em vez de clarificar. O passado nunca está pronto a ser descoberto, reconhecido, exactamente como foi. A história reconstitui sempre uma relação entre um presente e o seu passado. Por consequência, o medo do presente conduz à mistificação do passado. O passado não serve para se viver nele; é uma mina de conclusões que utilizamos para agir. A mistificação do passado arrasta consigo uma perda dupla: as obras de arte tornam-se desnecessariamente remotas; e o passado dá-nos menos conclusões a completar com a acção.


Quando "vemos" uma paisagem, situamo-nos nela. Se "víssemos" a arte do passado, situar-nos-íamos na história. Quando nos impedem de a ver, estamos a ser privados da história, que nos pertence. A quem lucra esta privação? Ao fim e ao cabo, a arte do passado vem sendo mistificada porque uma minoria privilegiada se esforça por inventar uma história que possa justificar retrospectivamente o papel das classes dirigentes e porque tal justificação já não faz sentido em termos modernos. Por isso, inevitavelmente, mistifica.
(...)


Imagem: by me


domingo, 23 de novembro de 2014

!


É muito provável que, com o advento da taxa sobre os sacos dos supermercados, volte a usar o tradicional jornal para forrar o caixote do lixo, antes de o despejar no contentor da rua.
Prática antiga, da minha meninice.
Mas há um jornal generalista diário, pago, que não terei como fundo a suportar os meus lixos. Nem para isso serve!

Ele mesmo é lixo, do mais tóxico, e já não sei quando foi o último ano que o folhei. Talvez que no século passado.

!

Disse-me um dia uma amiga:
“Os deuses perdoam, os burros esquecem. Aproxima-te de quem quiseres.”
Acontece que não consigo ser deus e acho que não sou burro.
Donde, não esqueço nem perdoo!

A uns quantos, não esqueço nem perdoo!
.

Rumos



Os fins não justificam os meios!

Esta parece ser a máxima que está imperar nas formações políticas. Nas existentes e nas emergentes.
Pois que os vejo – os de sempre e os novos – a debater o como mas sem enfatizar o porquê ou o para quê.

Mas de que adianta ter bússula, sextante e relógio para navegar se não sei para que porto nos dirigimos?

By me

Luvas



Em tempos de antanho, quando os combatentes usavam armaduras de chapa metálica, era hábito devolver uma luva dessas ao ferreiro ou armeiro que a havia construído. Depois do combate, entenda-se.
Servia ela como prova de apreço pela qualidade do trabalho e por ter ela ajudado o seu utilizador a sobreviver às violências bélicas.
Um armeiro ou ferreiro que tivesse várias luvas expostas seria um artesão de qualidade, servindo elas para o atestar.
Os tempos passaram e as luvas passaram a malha metálica, mantendo-se a tradição.
Mas sendo que havia cada vez mais fabricantes, passaram a conter moedas.
Com o passar do tempo, deixaram as luvas dos armeiros de ser importantes.
Mas o pagamento escondido por favores ou excelência manteve-se.

Até aos dias de hoje.

By me 

O enforcado



O banho tem destas coisas.

Por um qualquer motivo me lembrei de um termo quase em desuso: patíbulo.

By me

Think



- Oh pai? A água ferve a 90º?
- Não, filho, que disparate! A água ferve a 100º.
- Ah, pois… A 90º ferve o ângulo recto!

Piadas à parte, a verdade é que quantificamos tudo na vida. Pesos, volumes, distâncias, temperaturas, energias, tempo… Ainda não quantificaram os afectos, mas creio que não faltará muito.
Com as artes e as expressões pessoais, o mesmo se passa. Nas métricas, nos ritmos, nas proporções, nos equilíbrios… As fórmulas algébricas definem à priori ou explicam à posteriori aquilo que apeteceu fazer, aquilo que o criador entendeu por bem materializar.
E estas quantificações impõem regras e normativos. Que, por um lado, definem e generalizam o conceito de qualidade e, por outro, padronizam técnicas e materiais usados por cada um para se exprimir. E tente-se lá encontrar uma tela triangular para pintar…
Com a fotografia sucede exactamente o mesmo!
Submergida que está à ditadura das normalizações dos fabricantes, é difícil a roçar a impossibilidade de se lhes fugir. E se fabricarmos nós mesmos os materiais é quase uma impossibilidade (equipamento e consumíveis), as expressões de surpresa ou de desprezo por parte de quem atende o público ao lhe ser pedido um trabalho não normalizado acaba por ser hilariante, se não fosse trágico.
Tente-se mandar imprimir uma fotografia a partir de negativo ou de ficheiro digital que tenha, por exemplo, uma proporção de 1:7,5. Suspeito que só alguma lei recôndita e obscura impede os empregados de balcão de rirem, inibe o ouvir-se uma valente gargalhada. E provocaria uma chamada de urgência para o hospício mais próximo que pedíssemos um enquadramento trapezoidal irregular.
O alfanumérico das regras, leis e normalizações é tão castrante quanto um capador de porcos.

E o ângulo recto, com os seus 90º exactos da esquadria do nosso enquadramento, é a cereja no topo do bolo!


By me

sábado, 22 de novembro de 2014

.



De algum modo recordo-me de uma outra figura que foi detida e condenada por crimes fiscais, pese embora ser conhecido por outros motivos.
.

Opções fotográficas



A questão é a mesma: a forma como os jornais abordam, fotograficamente, um mesmo assunto.
No caso, a detenção de José Sócrates num caso de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção.
Seis jornais, seis fotografias, vistas nas versões on-line pelas 9 da manhã seguinte à sua detenção.

Todas elas são, naturalmente, de arquivo e é a escolha feita por cada um dos jornais, dos milhares que possuem em arquivo, que torna a questão interessante.

By me

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Prazeres



O prazer de ler, não importa onde ou quando.

By me

Não 'tava previsto



Não ‘tava previsto. Nada!
Mas isto de não ter pressa, de saber que não há que deitar cedo porque não há que levantar cedo e de me ver na rua com o sol lá bem no alto no meio de um céu azul… nada como aproveitar e deixar que os pés me levem para onde o nariz aponta, fazendo que conta que sou turista na minha própria cidade.
Costuma resultar, mas não hoje.
Depois de um percurso nunca feito, dou comigo onde não sou nem turista nem forasteiro, mas também nem vizinho nem da casa: no jardim da estrela.
Faz tempo, bastante, que aqui não exerço o mister de photógrapho à-là-minuta. Apesar disso, sou saudado por três pessoas diferentes, desses tempos, um dos quais me chamou de “o fotógrafo do jardim”, atravessando relva e caminhos para me cumprimentar.
Outra, já idosa, não teve coragem de se levantar do banco, que as pernas já não ajudam, mas não deixou de me acenar lá do meio das suas duas amigas.
A terceira… bem, a terceira reconheceu-me mesmo no meio dos vapores etílicos que lhe toldam permanentemente a vista e acabou por me confidenciar que hoje não estava lá muito bem. No meio da sua imaginação, tinha passado a noite com um espanhol e tinham abusado na cerveja.
Fui ainda abordado por uma romena, vendedora de calendários, “Borda d’água”, pensos rápidos e o que mais houver, que cada vez que me vê me pergunta por fotografias feitas nessa época. Vou-a encontrando em zona várias da cidade e de todas as vezes me pede o mesmo, como se eu andasse com elas na carteira.
De longe, ainda me saúda um agente da PSP, que conheci aqui mesmo, na sua patrulha p’las zonas frequentadas p’los jovens estudantes das imediações.
A coisa termina, suponho, com uma jovem estudante de teatro que me entrega uma tosta pedida e que me diz ter conhecido um velho compincha d’ofício, falecido bem longe.

Acredito que se tivesse trazido a minha câmara à-là-minuta e a tivesse instalado no lugar onde era costume, teria feito bom “negócio”.
Assim, restou-me usar a câmara de bolso e fazer o enquadramento que era rotina.
Cabe-vos o imaginar uma, duas ou mais pessoas neste espaço, mais sérias, enamoradas ou em paródia.

Que numa fotografia é tão importante o que viu e sentiu quem fotografou como o que vê, sente e imagina quem observa o trabalho final.

By me 

Aproveitando



Foi ao balcão de um cafezinho onde paro de quando em vez, não muito.
Sem  mais clientes, uma das duas mocinhas resolveu brincar comigo e dizer para a colega, apontando-me:
”Olha! O Pai Natal veio mais cedo!”
Fiz cara feia! Chamando-a, apontei o meu boné e perguntei:
“É daltónica?”
“Não, mas… eu estava a brincar!”
“Certo! Então e de que cor é isto?” E mantive o apontar o boné.
“É… É… É preto.”
“Não é vermelho nem tem uma borla, pois não?” insisti.
“Não, mas… eu estava a brincar consigo.”
“Então se não é vermelho nem tem uma borla branca isso quer dizer que… Estou de folga, trá-lá-lá!”, terminei rindo a bom rir.
A descompressão foi notória, as risadas também. A tal ponto que, ainda eu não havia recebido o meu café cheio e já estavam a contar o episódio a um colega delas que acabava de entrar.


É tão fácil criar um nico de boa disposição em redor. Basta aproveitar as deixas e dançar de acordo com a música.

By me 

Pois!

Se eu fosse mulher, médica, candidata a um posto de trabalho num hospital e um membro do júri me perguntasse se eu pensava em engravidar, provavelmente responderia:

“Sim, mas não de si!”
.

A frio!


Não gosto de futebol!
Não apenas porque serve de alienação às massas, que se revêem nas vitórias e derrotas dos seus ídolos e investem menos nas suas próprias capacidades, como há outras actividades desportivas bem mais agradáveis do ponto de vista visual.
E, como se tudo isto não bastasse, o futebol, como todos os desportos-espetáculo, é um elevar à categoria de quase divindade a competição, coisa que contesto furiosamente.
No entanto a posição recém tomada pelo governo sobre a compra de direitos televisivos de jogos da liga dos campeões pela RTP é uma posição ideológica e de compadrio.

Quer-se que a empresa televisiva seja cada vez mais autónoma dos dinheiros públicos. Pode-se discutir esta posição, mas é uma posição política.
Mas as transmissões de futebol, em particular as internacionais e de alto gabarito, são geradoras de receitas directas e indirectas. Na publicidade que lhe está directamente associada e na fidelização de público ao canal e na correspondente publicidade a que isso corresponde. Mesmo que algo distante da transmissão dos jogos.
E essa publicidade permite a tal autonomização económica definida pelo governo.
O que acontece, e não sejamos hipócritas, é que essa mesma publicidade – e respectivos proventos – a serem atribuídos à RTP, não o serão às demais estações privadas, retirando-lhes os lucros.
A questão não está, portanto, no investimento nas transmissões ou na questão ética da transmissão de desporto-espetáculo num canal público.
A questão está mesmo no desinvestimento no sector público (todo ele) para benefício do investimento privado.

Se a tudo isto acrescentarmos as proximidades económicas ou partidárias dos detentores dos canais privados com os detentores do poder, entendemos sem grande esforço o porquê desta reacção imediata.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Forasteiros e bilhetes



Tem dias que é assim: em não tendo pressa ou decidindo não ter pressa, deixo-me levar por aquilo que vejo ou imagino que vejo. Que sinto ou imagino que sinto. Que nem sempre tenho a certeza de ser uma coisa ou outra.
E não ter pressa ou decidir que não se tem pressa é uma dádiva dos deuses, da qual não são avaros se soubermos aproveitar.

Depois de tomar um café na gare do oriente, ainda faltavam dez minutos para o meu comboio. Ou vinte e cinco para o seguinte, se algo me prendesse por ali, por entre a chuva que caía fora dos abrigos, os passageiros que passavam e a luz que se ia escoando.
E aquele era um dos passageiros que me atraiu o olhar.
Um pouco mal alto e velho que eu, seco de carnes e com um panamá para a chuva a tapar-lhe com dificuldade a cabeleira ruiva a virar grisalha que irmanava em cor e tamanho com a barba, parecia estranhar o local. A pequena mochila com etiqueta e a pequena mala com etiqueta, ambas de avião, diziam tudo.
Primeiro olhou para o obliterador electrónico, com ar de quem não sabia para que serve. Depois para a máquina que vende os bilhetes, prestando atenção ao que faziam os do costume, mas também não avançando para ela. De seguida foi olhar para os cartazes dos horários, circundando-os mas não se detendo em nenhum. E o seu olhar descobriu a bilheteira convencional, com vendedores atrás do vidro. E foi.
Eu, cusco e achando que algo talvez não corresse bem, deixei-me escorregar pelo chão molhado, como quem não quer a coisa, só para ver o que acontecia.
Falava ele com o funcionário pelo buraco do costume, mas seria o mesmo se não estivesse. Que não se entendiam, fazendo o “biheteiro” gestos vagos mas bruscos apontando para o outro lado da gare. E, pelo que percebi do movimento labial, respondendo-lhe em português.
O homem do panamá e da mala afastou-se, dando lugar a outro cliente, mas com um olhar de quem não tinha aquilo que havia procurado: uma informação.
Não gostei! Não gostei do olhar de meio-perdido nem do que vi de desabrido por parte de quem vende bilhetes de comboio numa estação internacional ao tratar comum forasteiro.
Avancei e recorri ao “esperanto contemporâneo”, Inglês, perguntando-lhe se o poderia ajudar.
Sabia inglês, fluentemente ainda que com um sotaque que não consegui identificar e disse-me que queria comprar um bilhete para Faro e não sabia onde. E que era primeira vez que estava em Portugal.
Percebi tudo. Aquela era uma bilheteira para comboio urbanos e regionais. Os de longo curso são na outra ponta da gare, para onde o mal-encarado e incorrecto funcionário havia apontado. E lá levei o forasteiro até à bilheteira certa, deixando-o na fila. Com a secreta esperança de entenderem o seu inglês. Entenderam, que lho venderam, e lá se encaminhou para o cais de embarque correspondente.
Acenou-me enquanto subia as escadas rolantes, que o comboio partia em breve.
E afastei-me eu em direcção à bilheteira onde ele tinha sido mal-tratado. Informava, em português, que vendia bilhetes urbanos e regionais, sem indicação de onde ficaria a outra. Nem uma palavra, nem um sinal.
Gostei ainda menos!
A quantidade de gente de fora que ali chega, de comboio, camioneta ou mesmo vindo desde o aeroporto justifica indicações mais corteses. Escritas e, principalmente, por parte de quem vende bilhetes de comboio.
O meu nariz cresceu para além das barbas e achei que o devia meter no assunto. Rumei ao gabinete de atendimento do cliente, onde contei a história, indiquei quem assim tinha procedido e questionei o como sugerir a existência de sinalética adequada. E, de caminho, perguntei se quem ali trabalha, sendo uma estação internacional, não tem que saber inglês. Tem, foi a resposta.
E indicaram-me como e para onde fazer seguir a sugestão e a reclamação. Com o cuidado de me avisarem que tal sinalética tem que ser aprovada pela CP, que gere os comboios, pela REFER, que gere as linhas, e pela administração da GIL, que é quem gere a gare propriamente dita. Fiquei com a impressão que, a ser aprovado, virá a tempo de fornecer indicações aos passageiros oriundos de Marte.

Aguardo, agora, a inspiração para redigir o texto a enviar, sintético mas duro sobre o caso e a sugestão.

Que não quero que aquele vendedor de bilhetes da CP possa, de ânimo leve, assim tratar os passageiros que não falam português. No fim de contas, também são os bilhetes que ele vende que lhe pagam o salário.

By me