sexta-feira, 31 de outubro de 2014

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Alguém terá que explicar aos nossos governantes, de um modo muito claro e inequívoco, que o acesso às comunicações electrónicas, bem como a posse de uma conta bancária, não são factores obrigatórios em Portugal.
O relacionamento dos cidadãos, nas suas diversas vertentes (judicial, fiscal, social) não pode depender da obrigatoriedade de os cidadãos possuírem um contrato de fornecimento de serviços com entidades privadas. Ninguém pode ser obrigado a pagar a terceiros para se relacionar com o Estado.
Assim, não é legítimo fazer discriminação entre quem possui contratos privados com entidades de serviços e quem não tem.
Não faz sentido – nem é legítimo – pagar o acesso à Internet para ser atendido mais rápido ou eficazmente.
Não faz sentido – nem é legítimo – ter que possuir conta bancária para pagar ou receber impostos. Não faz sentido - nem é legítimo – que quem possui telefone seja atendido no prazo de horas e quem não possui no prazo de semanas ou meses, no Serviço nacional de Saúde.
Não faz sentido – nem é legítimo – ter que possuir acesso a conta de Ineternete para aceder à justiça em casos de demandas que não crime.
E seguramente não faz sentido que os cidadãos que não possuem estes serviços sejam preteridos na qualidade, celeridade ou custos ao relacionarem-se com o Estado.
A menos que, naturalmente, o Estado Português tenha alterado a Constituição da República Portuguesa e que tenham passado a existir cidadãos de pleno direito e cidadãos de segunda categoria, pelo simples facto de possuírem ou não contractos de prestação de serviços com entidades privadas.


Para os tecnocratas de fancaria, com cumplicidades esconsas nos mercados privados, o meu muito grande “Vão morrer longe”. Que nem do vosso funeral quero tomar conhecimento.

By me

Humores

Por vezes, quando me ligam de números privados e estou de bom (ou mau) humor, atendo com uma destas frases:
“Bom dia! Fala do forno crematório do cemitério dos Prazeres. Em que posso ser útil?”
Ou ainda:
“Sala mortuária do Instituto de Medicina Legal. Faz favor…?”

Costuma ser remédio santo.
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A história está cheia de exemplos: boas ideias, fecundas e humanas, que colocadas em mãos erradas se transformam em coisas horrendas.
Na escala mundial, nacional ou local.
No plano político, religioso, laboral ou desportivo.
Por longos ou breves períodos.

E em tom de complemento: tenho muito pouco respeito por quem se apropria das ideias de terceiros, como se de suas se tratassem, usando-as para apoucar os demais em busca de vã glória. Ou em busca de benefícios materiais, a curto ou médio prazo, que não merecem.

Dúvida atrós

Este ano, e pela primeira vez na vida, estou a pensar alinhar na moda e disfarçar-me no dia das bruxas de algo realmente assustador.

Mas tenho dúvidas sobre o disfarce: Aníbal ou Pedro?
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Mentira fotográfica



A fotografia não é uma representação da realidade!
Na melhor das hipóteses, será uma representação da realidade mental de quem a fez, exprimindo sensações e memórias.
Há, no entanto, uma fronteira entre o registo do que existe e o exibir o que nunca existiu mas que foi sentido.
Essa fronteira acontece aquando da exibição!
Quando digo, ao mostrar uma imagem, “Isto foi o que aconteceu!” estou de um lado da fronteira. Quando eu digo, ao mostrar uma imagem, “Isto foi o que senti!”, estou do outro lado.
Esta fronteira tem que estar razoavelmente explícita, mesmo que implícita, perante quem vê a imagem.
Uma imagem parcialmente em cores, parcialmente em preto e branco não engana ninguém: é uma expressão plástica de sentimentos.
Uma imagem de um cenário bélico, feita por um fotógrafo credenciado e honesto também não engana ninguém: aquilo aconteceu mesmo. Pese embora todas as opções técnicas e estéticas que possam ser usadas.
Já complicado é, por exemplo, o recurso ao HDR. Se pode ser usado para evidenciar contrastes e cores que, aquando da tomada de vista, não foram possíveis de registar porque o equipamento não tinha possibilidade para tal, quando se ultrapassa esse limite, e antes de se entrar na assumida fantasia, o terreno é pantanoso. E é legítimo quem vê questionar “Era mesmo essa luz? Ou andaste a inventar?”
Por mim, que procuro não me afastar da realidade fotográfica (mesmo quando invento situações que fotografo), incomoda-me que me perguntem “Isso foi com o photoshop, não foi?”
Nos tempos que correm e com as facilidades de edição disponíveis, já é difícil dar crédito às imagens que vemos enquanto reproduções de uma situação real. Porque cada vez mais se usam das técnicas de laboratório digital para transformar a realidade em ficções desejadas, exibindo-as como se realidade se tratassem.
O erro ou embuste não está na alteração da realidade fotografada. Que se a ficção e o sonho não fossem legítimos, a vida seria uma sensaboria.
O “crime” está em mostrar o falso como real, em enganar quem vê.
Tenho por dogma que não há imagens erradas, mal feitas ou “mentirosas”. O que existe, antes sim, é a forma como são mostradas e a classificação que lhes são atribuídas.

A imagem aqui exibida é um exemplo clássico da “mentira fotográfica”.
Alguém que caiu em desgraça (na verdade, foi preso e executado) e que foi apagado das imagens oficiais.

Mas entre isto que aqui vemos e que foi “roubado” da net, e a miríade de outros exemplos não tão violentos com que somos confrontados diariamente nos media (nas suas diversas formas e suportes) e nas redes sociais, a diferença está apenas na desfaçatez da mentira e na forma como é apresentada.

By me 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

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O problema não está, nem nunca esteve, no dinheiro ou na economia.
O problema reside no poder e na ambição desmesurada em o deter.
O dinheiro e a sua gestão são apenas uma das suas ferramentas.

As leis (profanas ou religiosas), o controlo da educação e a imposição do consumo são outras.

Conceitos



Ouvi-a há muitos anos de um professor e ainda não me saiu da mente:
“A teoria sem a prática é cega, a prática sem a teoria é estúpida”.

Reformulei-a eu algum tempo depois:
“A técnica sem a estética é insípida, a estética sem a técnica é trapalhona. Qualquer uma delas sem a ética é cruel”.



By me

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Darwin



Olho para espectro politico nacional e o que vejo não passa de conservadores.
Conservadores de ideias, conservadores de cargos, conservadores de títulos, conservadores de práticas, conservadores!
Tanto os existentes conservadores como os actuais aspirantes aos cargos que, pelo que anunciam, se o conseguirem mais não serão que outros conservadores.

Darwin talvez estivesse correcto. Chegámos onde chegámos através de uma longa e laboriosa evolução.

Mas o que hoje precisamos é de uma radical revolução.

By me 

Triste



Duro mesmo é ver como as diversas organizações sociais e políticas que vão emergindo defendem mais do mesmo.
Formais ou informais, com aspirações legislativas ou com actividades no terreno, defendendo esta ou aquela metodologia, o certo é que os ideais de sociedade que defendem passam por uma organização estratificada, em que alguns têm direito e acesso a muito e muitos quase não têm direito a muito pouco.
Os cuidados médicos, a alimentação, a educação, a justiça, a habitação, não devem ser em função de uma classe social, com mais ou com menos posses.
Ou há diferença no valor humano entre quem recolhe o lixo dos contentores e quem produz esse mesmo lixo?
Ou há diferença no valor humano entre quem pastoreia as cabras e quem lhes come o queijo?
Ou há diferença no valor humano entre quem tece a seda e quem dorme nos respectivos lençóis?


Enquanto os objectivos forem os mesmos – a manutenção de uma sociedade estratificada, com uns a existirem para servirem os outros -, bem que podem mudar de estratégias, discursos ou fatiotas: não me convencem!

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Diaphoto



Fotografar é medianamente fácil. Olhamos para o assunto, gostamos do que vemos, a luz é do nosso agrado e apontamos a câmara. E deixamos o controlo de exposição aos automatismos.
Alguns, não muitos, interpretam ou avaliam as indicações do exposímetro da câmara, seguindo as usas indicações ou conjugando as leituras com a análise da luz existente, bem como das reflectâncias dos elementos na imagem.
Mas… e antes de haver forma de avaliar e medir a luz através da câmara? Como era?
Usavam-se aparelhos de medida, manuais e externos: fotómetros ou exposímetros.
A diferença entre os termos (e sei que o segundo é estranho) está nas leituras que neles podemos fazer. Os fotómetros indicam-nos a quantidade de luz em “foot-candle”, ou “candela por pé quadrado”, havendo alguns que usam outra unidade, o “Lux”. Dessa leitura, e conjugada com a sensibilidade do material de registo luminoso, deduz-se tempo e abertura. Através de cálculos complexos ou, o que é generalizado, usando uma escala de correspondências integrada no aparelho.
Por sua vez o exposímetro apenas nos dá valores de exposição, ficando o seu utilizador sem saber a quantidade de luz. Profissionalmente usam-se os primeiros, que nos permitem fazer outros tipos de interpretação.
Grosso modo, destes aparelhos de medida existem dois tipos: os que, ao receberem a luz geram energia eléctrica que é quantificada ou os que, em recebendo a luz se tornam resistentes à passagem de energia eléctrica, resistência essa igualmente quantificada. Nos segundos, é necessário fornecer a energia, em regra usando pilhas ou baterias.
Ambos os sistemas têm vantagens, sendo que os últimos são mais exactos quando existem tipos de luz com temperaturas de cor extremas, muito altas ou muito baixas: muitos azuis ou muitos vermelhos.
Mas… e como faziam os fotógrafos antes destes sistemas existirem? Como mediam a luz ou calculavam a exposição?
A experiência, fruto de tentativa e erro, era a pedra de toque. Consta que alguns fotógrafos, aquando do surgimento dos aparelhos de medida de luz, mesmo depois de os usarem ajustavam as leituras obtidas às suas próprias experiências visuais e de laboratório. Convenhamos que o rigor seria diminuto, mas a satisfação por se obter o efeito desejado seria grande, certamente.
Mas existia outro sistema que, ainda que dependesse da experiência do seu utilizador, era um auxiliar precioso: o extintómetro.
O seu sistema de funcionamento era relativamente simples: Olhando-se por um orifício, fazia-se deslocar à sua frente uma cunha fumada, cuja transparência ia da máxima até à opacidade. Quando o observador deixasse de ver parte do assunto, parte essa que dependia da calibração feita pelo fabricante, consultava-se a tabela do aparelho para se saber a relação tempo-abertura em função da sensibilidade.
Método estranho e de rigor bem duvidoso, mas na época fotografar, mais que uma ciência, era uma arte ou artesanato, com tudo o que isso implica.

Ao longo da minha vida havia visto apenas um aparelho desses. Em óptimo estado de conservação, ainda razoavelmente rigoroso, pertencia a um companheiro de andança fotográficas e lectivas. Que nunca se deixou convencer a vender-mo, ofertar-mo ou mesmo deixar-se “roubar”. Quando ia a sua casa, ficava eu a admira-lo, se não estivesse sacramentalmente guardado numa gaveta.
Há uns tempos, numa feira de velharias no Jardim da Estrela, dou com um. Ao preço pouco mais que simbólico de 15 euros. Confesso que se me tivessem pedido 3 ou 4 vezes esse valor, tê-lo-ia dado sem pensar muito.
Nos tempos que correm, nem deu muito trabalho a encontrar referencias. Referencias ao fabricante e data de fabrico, bem como o respectivo manual de instruções.

Para os que ainda pensavam que o jardim da Estrela não é um mundo cheio de surpresas, espero que tenham mudado de opinião.


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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Infantilidades ou nem tanto



A dança das cadeiras é um jogo antigo e infantil. Ou considerado como tal.
Um grupo de pessoas a dançar em redor de um conjunto de cadeiras. Quando pára a música, tentam sentar-se, sendo que há sempre uma cadeira a menos que o número de participantes.
Ganha aquele que se sentar quando já só houver uma cadeira.
É um jogo de sobrevivência, com os empurrões e corridas que se imaginam ou que conhecemos.
Sobrevive este jogo muito para além da infância, com ou sem cadeiras. Normalmente acontece de quatro em quatro anos, podendo ser encurtada a frequência se algumas circunstâncias externas a tal levarem.
Mas se é divertido assistir quando são crianças a jogar, é trágico quando não o são. Que os golpes e as jogadas de estratégia empregues pouco têm de cordato ou mesmo honesto.
Mas quando a dança acontece por motivos habituais somados a motivos extraordinários, tudo se complica. Todos os golpes são permitidos e usados, o conceito do “vale tudo” é a norma.

E ai daqueles que não querem participar em tal carnificina. São os primeiros a serem cilindrados num jogo impiedoso e cruel. Só ainda não vi armas de fogo, mas falta pouco!

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Milagres



Eis como ficar famoso e rico em menos de nada!
À distância de um click, grátis e divertido, as suas fotografias podem transformar-se em arte e transporta-lo do anonimato à fama.
Basta usar estes efeitos maravilhosos e originais, que mais ninguém usa ou não seriam arte, bastando para tal usar a sua câmara e uma galeria de fotos no facebook.
Simples, fantástico e divertido.
Para quê usar os neurónios, testar, tentar, falhar e tentar de novo se está tudo assim tão facilitado para que se transforme num artista fotográfico.
Aliás, o mundo está cheio de artistas fotográficos, a cada canto usando da sua câmara e efeitos fantásticos. Mas você será ainda mais fantástico, mais artista, mais famoso pela sua originalidade se usar dos nossos filtros industrializados, ao alcance de um click.
Ame os nossos efeitos especiais e seja um artista!


Quando me afastei deste cartaz publicitário numa rua de Lisboa, tive que ir beber qualquer coisa para esquecer que afinal não sou artista porque não uso destes filtros.


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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Paciência ou falta dela



Fosse eu crente numa qualquer divindade, ou conjunto de divindades, e haveria uma oração que repetiria várias vezes ao dia.
“Meu deus: dai-me paciência para aturar muitos dos seres humanos, que se me dais força parto-lhes a cara.”
Confesso que me recordei dela muitas vezes hoje, inserida naquela rotina de quem sai de casa e vai para o trabalho todos os dias.
Uma das situações que me encheu mesmo as medidas, uma vez mais, foi ver a quantidade de gente que cruza – entrando ou saindo – as portas de mola de um centro comercial e que ignora por completo quem vem atrás. E, muitas vez, acertando com a bendita porta em cheio.
Tal como é banal que aqueles que são alvo de uma gentileza, como o segurar a porta ou o ceder a passagem, não agradeçam nem repliquem o gesto para com um terceiro. Mesmo se esse terceiro transporta uma criança pequena, usa bengala ou tem as mãos ocupadas com sacos vários.


Foram muitas as ocasiões que hoje, ao longo de todo o dia, me recordei da minha oração agnóstica. Incluindo na porta de um centro comercial.  

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Fome



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domingo, 26 de outubro de 2014

Bilhete postal



Certo!

Por vezes não resistimos a um bilhete postal, mesmo que sem tripé.

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Evidências



Neste caso, os motivos são óbvios.

Já não tão óbvio é a total ausência do respectivo par.

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Trocas fotográficas versão 2.0.10



Troco 
Alguns conhecimentos fotográficos
Por
Não importa o quê, desde que feito pelo próprio.

Data – Domingo 9 de Novembro 2014, 14.00 horas
Local – Jardim do Príncipe Real.

Chamo a vossa atenção para o facto de a hora legal ter sido alterada no Domingo, 26 de Outubro, e que os dias estão cada vez mais curtos no que a horas de sol concerne.
Por isso a hora de encontro é ligeiramente antecipada e deseja-se que não existam retardatários excessivos. Isto para que a luminosidade natural possa ser usada até cerca das 17.00/17.30, quando ela se dissipar quase que por completo.

Nota – Considerando a época do ano e a instabilidade climatérica, poderá ser alterado o local, tal como conteúdos. A assim acontecer, será feito aqui aviso, sob a forma de comentário.

- Objectivo:
Disponibilizar alguns conhecimentos básicos de fotografia, de modo a melhor dominar o equipamento que possuem os participantes.
Neste caso específico iremos abordar, e para além das dúvidas dos participantes, a análise da luz existente, condições excessivas de contraste natural e seu controlo.

- Conhecimentos exigidos aos participantes:
Nenhuns.
- Equipamento:
Se possível, trazer uma segunda peça de roupa, fácil de vestir e despir, que contraste com outra que traga vestida: se vier vestido/a de claro, trazer uma peça escura e se vier vestido/a de escuro, uma peça clara.
Um bloco de notas e uma caneta ou lápis;
Uma câmara fotográfica, digital de preferência e não importando a sua simplicidade ou complexidade, com um cartão realmente vazio e baterias carregadas.
Uma pen drive.
Se possível, trazer consigo o manual de instruções.
- Duração:
Dependente da quantidade de participantes, três a quatro horas. 

Esta iniciativa é uma réplica de uma outra já verificada, com pequenos ajustes e correcções de método, baseada no princípio de trocas: cada um dá o que possui e pode, deixando de parte o conceito de dinheiro ou de valor do que estiver em causa.

Com a enorme vantagem de passar ao lado da crise existente, com ou sem troikas.

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Modas

É a febre dos low-cost.
Viagens, refeições, apartamentos, vestuário… tudo hoje é low-cost e quem quiser vender tem que aproveitar a moda e anunciar como tal.
Claro que há todos aqueles que usam o low-cost mas que não o dizem, com vergonha de terem que a ele recorrer.
E há todos aqueles que se gabam de terem descoberto um novo low-cost, escondidinho nas pregas de uma página web ou num folheto publicitário.

Aquilo que a maioria não se apercebeu ainda é que em Portugal é técnica velha, pois temos tido governantes low-cost desde há muito.
Não nos preços que praticam nos seus salários ou nas consequências do que fazem, mas antes na qualidade dos produtos que nos impingem.
Low-cost na entrega, high-cost na despesa.

E que tal nos deixarmos de modas importadas, de artigos de fancaria, deitando fora porque inaproveitável os low-cost governativos, e optarmos por artigos de qualidade?
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Reflexão fruto da experiência dos últimos, digamos, vinte anos:




“Quando um primeiro-ministro de Portugal diz que há indícios de situação estar a melhorar, fico cheio de medo do que aí vem.”
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Eu, fotógrafo



Não importa se o outro sabe: Eu quero e eu fotografo!
Não importa se o outro quer: Eu quero e eu fotografo!
Não importa se o outro autoriza: Eu quero e eu fotografo!
Não importa as consequências para o outro: Eu quero e eu fotografo!
Não importa a privacidade do outro: Eu quero e eu fotografo!
Não importa quem é o outro: Eu quero e eu fotografo!

Eu tenho uma câmara fotográfica!
Eu tenho o mundo à minha frente!
Eu tenho fome de imagens!
Eu cobiço o mundo!
Eu cobiço o rosto!
Eu cobiço o gesto!
Eu cobiço o acontecimento!
Eu cobiço!

Eu quero a luz!
Eu quero a pose!
Eu quero a estética!
Eu quero a arte!
Eu quero a celebridade!

Privacidade?
Ética?
Respeito?
Quero lá saber disso!
Se não gostam, paciência!
Sou fotógrafo e tudo me é permitido.


É por tudo isto que eu, que uso a fotografia para alimentar a alma e ocasionalmente a mesa, recuso que me chamem de fotógrafo.
Serei um apontador de câmara, um escrevinhador de luz, um iconógrafo, qualquer coisa, mesmo que batata frita.
Agora fotógrafo como o acima descrito e que tantos reclamam para si… Não sou!


By me

sábado, 25 de outubro de 2014

Volta e meia tenho mau feitio (às vezes é só meia volta)



Precisei de um teclado novo. Uma daquelas coisas que acontece a quem usa teclados.
Sendo certo que os teclados que uso têm que responder a algumas características específicas de tamanho, e sendo igualmente certo que não confio por demais no que é vendido nas lojas dos chineses, acabei por optar por ir a uma loja de electrónica de consumo e electrodomésticos que existe no supermercado do meu bairro. Sei que aí há o que quero.
Já lá dentro e já com o teclado debaixo do braço, fui dar uma olhada na secção das câmaras fotográficas. Não que esteja a pensar comprar uma. Mas, volta e meia, há quem me peça a opinião para a compra de uma câmara de baixo custo e gosto de saber o que há e a que preços.
Estava eu entretido a olhar para o exposto quando um “solícito” vendedor me aborda, perguntando-me se quereria eu ajuda.
Meio a sorrir, rodei um pouco sobre mim mesmo, mostrando-lhe a DSLR que trazia pendurada, e perguntei-lhe em resposta: “Acha que preciso?”
“Não tinha visto”, respondeu-me. “Mas como elas são tão diferentes…”
Achei que o tom era uma forma discreta ou dissimulada de me chamar cota ou ignorante. Talvez que imaginação minha. Mas não gostei.
Já no balcão, e em estando a ser atendido por uma mocinha, o rapaz aproximou-se. E eu, que ainda não tinha engolido tudo, tirei do bolso do colete este fotómetro, entreguei-lho e perguntei:
“Sabe para que serve isto? Sabe usá-lo?”
Ficou a olhar para o estojo, sem saber que responder. E tirei-o do estojo, mostrando-lho como aqui se vê.
Soube dizer-me que era para a luz, mas não soube ir mais longe.
E eu, tentando fazer passar na garganta aquilo que ainda não tinha engolido, continuei:
“Se não sabe para que serve isto, que é muito mais velho que você e não o último grito da tecnologia de consumo rápido, como pensa que me pode ajudar com uma daquelas câmaras?”
Abanou, mas não cedeu. E perguntou-me:
“E como é que guarda as fotografias?”
“Em folhas de mica ou envelopes sobre-compridos, se forem negativos, em dois discos externos se forem digitais.”
Aqui desistiu. Depois de mais uma ou duas larachas minhas sobre a velha disputa entre “câmara” e “máquina”, acabou por se afastar, deixando-me entregue à mocinha, que estava meio de boca aberta.

Toda esta conversa não faria sentido se:
a) Não fosse numa grande superfície, onde a embalagem conta mais que o produto e a minha embalagem, no queixo e na cabeça, não fosse branca;
b) Se as pessoas escolhidas para atender o público soubessem um pouquinho mais sobre os artigos que vendem;
c) Se a arrogância, disfarçada de cordialidade, não fosse o pão-nosso-de-cada-dia nas relações sociais dos tempos que correm.


Ainda que não acredite, espero que o rapazinho tenha aprendido a lição não encomendada. Mas o seu objectivo é, eventualmente, ganhar as comissões daquilo que vende e nada mais.

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Bola colorida



A diferença entre o idealista e o utópico é simples:
Enquanto este sonha com algo, aquele bate-se para concretizar o seu sonho.
Apesar disso…

“…
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida

entre as mãos de uma criança.”

By me

Os pobres



Não é fácil, mas fico sem argumentos urbanos e cordatos.
Diz-se “os pobres existem como sempre” como se se tratasse de uma inevitabilidade, tal como a morte ou o ocaso.
Dizia-se o mesmo da escravatura, da pena de morte, do direito de pernada…
Por muito sofista ou por grande que seja a minha capacidade de argumentação, não conseguirei justificar tal afirmação àqueles que vejo da minha janela (vi há minutos) a recolher o seu almoço destes contentores.


Quando as elites endinheiradas ou intelectuais aquilatam o universo pelas suas próprias experiências, tenho dificuldade em argumentar de forma civilizada.

By me 

Pim



Este é um romance pensado, redigido e ilustrado em linha com as actuais formas de consumo do trabalho escrito e fotográfico das modernas auto-estradas da informação.

“Era uma vez…
Um homem e uma mulher.
Conheceram-se.
Ele disse “Amo-te”.
Ela disse “Amo-te”.
Namoraram.
Casaram.
Foram muito felizes.
Pim.”

Se acham que este romance é curto, seco, parco de descrições e fotografias, com fraca caracterização de personagens e sem retratos, pouco rebuscado e espartanamente ilustrado… As bibliotecas estão prenhes de livros, contendo muitas páginas, usando de muitas palavras e imagens, que relatam e ilustram muitas circunstâncias complementares e com muitos pormenores.


Uns chatos, portanto.

By me 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

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Alguém teve, há uns séculos valentes, a infeliz ideia de entregar os destinos de um povo nas mãos de um político profissional.

Ainda hoje se comete o mesmo erro!
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Utilidades



Recomendado para quem estiver com problemas de falta de vocabulário ao pensar na governação ou a pensar em migrar e os motivos que o levam a tal.


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Limites



“Aquele que nada tem, tudo pode arriscar que nada tem a perder”.
Há por aí uns quantos que ainda não perceberam que estão a tirar tudo a muitos.
E quando muitos nada tiverem…


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É!



O texto tem exactamente dez anos. Publicado assim, e com esta imagem.
Fala ele de uma senhora que conheci então no meu bairro.
Mas bem que poderia ter sido escrito hoje, sobre muitas outras senhoras de muitos outros bairros.



Não é nem nova nem velha. É, apenas!
Mas era. Era professora e o marido era engenheiro. E os filhos eram adolescentes. E a saúde era gratuita. E a educação era para todos.
Era o dinheiro na carteira e eram as vitrinas a exibirem montras de nada.
Eram as mentes quase vazias e as bocas eram fechadas, que os ouvidos eram muitos e eram denunciantes.
Era um ditador que mandava e os esbirros eram bons executantes.

Não é nem nova nem velha. É, apenas!
Mas é. É atrás de um balcão e o marido é entre ferrugem e ferramentas. E é avó – é tele-avó. E as seringas são folheadas a ouro e os livros são inatingíveis.
São os bolsos vazios e são as montras cheias. E é um salário para pagar o aquecimento.
São as cabeças cheias de ideia belas, e são as bocas escancaradas e surdas para ouvidos que são generosos mas não falam.
O ditador é de má memória e os esbirros são vagas lembranças.

Foi uma revolução de logística e estratégia.
Cada vez melhor sentados, esses estrategas definiram movimentos e avanços. Ao toque de uma tecla ou ao balancear um manípulo ficcionaram cenários e adversários, semearam balas e colheram cemitérios.
Instalado na tele-plateia, o público global assistiu na pantalha ao fim tétrico de uma fábula de encantar. Só mesmo ao cair do pano se viu quem era o lobo mau e como tinha consumado a violação da inocente mole de vítimas.
Com o finalmente exibido exorcismo de um sistema caduco, os shares subiram e os tele-ídolos consolidaram-se.
De uma trincheira ou varanda, via satélite ou repescadas do fundo de um rio, as imagens da queda de alguns regimes alimentam os media e asseguram a manutenção da calma no rebanho que vai sendo pastoreado aos poucos para que continue a fornecer a lã com que uns poucos se vestem.
O preço da liberdade vai assentando em louros, peças e tumbas. Louros em que cabeças, peças sobre quê e tumbas de quem? E liberdade onde?

Não é nem nova nem velha. É, apenas! Uma migrante.





(foto - Robert Frank, Londres, 1951)
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Ex-libris



Queiramo-lo ou não, acabamos por criar rotinas. Umas melhores, outras piores, diga-se em abono da verdade.
Uma das rotinas que criei, há muitos anos, é a identificação de livros.
Quando os compro, insiro neles o nome, a data de compra, o preço e o local onde o comprei. É sempre divertido, passados anos, relembrar as livrarias que frequentámos, é sempre triste constatar as que fecharam, é sempre interessante comparar o evoluir dos preços e, por vezes, é uma alegria encontrar em casa de um amigo um livro esquecido.
Durante alguns anos, esta rotina passou por usar um ex-libris. Um autocolante feito por mim, com o meu logótipo, onde acrescentava data e preço. E insistia com os vendedores para deixarem a etiqueta da livraria.
O tempo passou, os autocolantes gastaram-se e nunca os renovei. Regressei, assim, ao sistema clássico de tudo escrever à mão na primeira folha.
Hoje tropecei num desses.
Sendo que trago sempre um livro comigo, que caiba no saco que uso, acabei um ontem: “A quinta dos animais”, de George Orwell.
Hoje, antes de sair de casa, procurei outro que, estando numa das pilhas de “para ler”, coubesse no meu saco do dia-a-dia. Calhou me sorte ser o “La imagen precária”, uma tradução em castelhano do original em francês de Jean-Marie Schaeffer.
Interessante de notar é que há quinze anos ainda usava os ex-libris, que há quinze anos frequentava esta livraria, que há quinze anos este livro custava 2295 escudos (onze euros e troca o passo) e que hoje este livro, se se vendesse em Portugal, custaria talvez o dobro.
Tal como é interessante constatar que este livro, sendo ao que sei uma referência na matéria, passou tanto tempo numa pilha de “para ler”.
Tenho que passar a rever essas pilhas com mais frequência!

Nota extra: este pedaço do que sobra de um talão de embarque da TAP e que estava a marcar duas páginas algures no primeiro terço do livro, diz-me ainda que foi levado como livro de cabeceira numa ocasião em que fui em serviço à Madeira. Por um qualquer motivo, quando regressei não lhe retomei a leitura. Não vou repetir o erro.


By me

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Antigamente



Não gosto nem um nico quando o conceito de “consenso” se resume a “é assim que eu quero”.
É que recorda-me aquela frase do antigamente: “Isto é uma democracia mas quem manda sou eu”.

Ou talvez o “antigamente” seja o “agora”.

By me 

Previsões



Vou partir do princípio que esta sinalização pública existente na zona oriental da cidade de Lisboa é um sinal de antecipação inteligente por parte dos autarcas e respectivos técnicos.
Pois que bastará trocar as suas últimas cinco letras para o transformar numa informação útil e perfeitamente actualizada.

Caso venha a ser necessário.

By me 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

IDE!!!!



Foi há uns dias.
Quisesse-o ou não, a proximidade e o volume da conversa eram tais que não pude deixar de ouvir.
Conversavam aqueles dois, um ele e uma ela, sobre algumas séries televisivas de alguns canais por cabo.
Não de séries de ficção, como policiais, sitcoms ou fantástico, mas antes supostos documentários. Sobre negócios.
No caso concreto, sobre leilões, penhores e pesquisadores de antiguidades. De como ganham (ou aparentam ganhar) rios de dinheiro ao comprarem pechinchas para vender caro.
O mote das séries é o saber aproveitar as oportunidades daquilo que supostamente vale pouco dinheiro e, de seguida, especular sobre o valor e vender bem mais valorizado. Sem que nada tivessem feito sobre o que compraram que não fosse o comprar e vender.
Quem sobre estas séries falavam estavam entusiasmados, a ponto de parecerem ter inveja de não conseguirem fazer o mesmo.

Significa isso que as séries estão bem feitas e conseguem os objectivos não confessos para além do entretenimento: valorizar aqueles que vivem da especulação, da agiotagem, das dificuldades de quem vende ou penhora, para com isso ganhar dinheiro.
E o objectivo é mesmo esse: fazer com que os desgraçados que vendem por “dá cá aquela palha” porque em situações complicadas, se sintam quase que agradecidos por haver por haver agiotas que vivem da desgraça alheia. Fazer com esse ávidos do lucro fácil sejam heróis e aceites na sociedade como elementos úteis e necessários.


Nada risco nas programações das TVs (canais abertos ou pagos). Mas tivesse eu algum poder sobre elas…

By me

Modelos



A empresa A tem um trabalho para ser feito. Não tendo meios próprios para o fazer, nem os querendo ter, contrata a empresa B para tal.
A empresa B, também não tendo meios humanos para o cumprir, contrata gente para tal, condicionando esses contratos à prestação de serviços à empresa A.
Mas a empresa A, ao fim de algum tempo (dias, semanas, anos) muda de opinião e cancela o contrato com a empresa B.
E as pessoas que trabalham para a empresa B são despedidas, com um ou dois dias de aviso, sem mais nada.

Não, este não é um exemplo hipotético sem solto no quotidiano português.

Estes políticos de pacotilha estão a organizar a sociedade de modo a que o medo da sobrevivência seja a mola que faz a obediência cega a uma classe dominante, endinheirada, bem comida e bem dormida, cujo único objectivo é ter poder de decidir sobre os demais e manter o seu nível de vida obsceno por comparação.
Necessitamos de, com a urgência de “para ontem”, rever o modelo de sociedade em que queremos viver e que os nossos filhos vivam.


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Impropérios



Acordei amargo, hoje.
Talvez porque tenha, ainda na cama, rogado um par de pragas ao tipo ou tipa que, por baixo da minha janela, se entretinha a usar da buzina para chamar alguém, ainda antes de muitos de nós e o sol se levantarem.
Talvez porque é quarta-feira, que é aquele dia que nem é nem deixa de ser.
Talvez porque tivesse que dar corpo a um texto que venho adiando porque incómodo.
Talvez porque ainda não me saiu da cabeças a dúzia de castanhas assadas que não comi ontem porque estava calor demasiado calor para castanhas assadas.
Talvez porque a expectativa do conteúdo das notícias do dia não seja animadora.
Talvez porque saiba que hoje, tal como ontem, me verei na contingência de ter que sorrir, mesmo que pouco, para quem eu sei que me quer estragar a vida.

Caramba!

A vida ensina-nos a ser hipócrita de quando em vez. Mas ao menos antes de sair da cama devo poder ser honesto por inteiro e dar voz ao meu descontentamento.

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Disparando à toa



Curioso é pensar no termo usado para o carregar no botão que provoca uma fotografia: “Disparar”. Em inglês, a mesma coisa: “Shoot”.
A analogia que se pode fazer com o outro “disparar”, o do gatilho de uma arma, é terrível.
Em ambos os casos, o fotógrafo interpreta o seu gesto como o de caça, o “abater” o assunto fotografado. E a consequência é, em regra, mais um troféu, pendurado numa parede, exibido numa página web ou religiosamente guardado num álbum mais clássico. Eventualmente, divulgado nos media.
Mas o assunto foi alvejado, abatido e guardado.
E a câmara usa-se como quem usava uma arma à cintura ou atravessada nas costas: pronta a usar sobre os alvos que interessassem guardar ou aniquilar.

Curioso também é a falta de respeito francamente manifesta sobre o assunto alvejado.
Fotografa-se aleatoriamente, sobre uma cara bonita ou um corpo em necessidade, sem mesmo se saber se o seu dono ou dona o autoriza. À surrelfa, como que emboscado por entre as folhas de uma mata. E quanto mais discreto for o disparar, quando menos o alvo disso se aperceber e não agir em conformidade, melhor. São os troféus espontâneos, a chamada “street photography”, como hoje está na moda dizer.
A vontade das pessoas assim abatidas pouco conta: “Que diabo, sou um fotógrafo! Não vê a câmara, que cara e sofisticada que é? É meu direito usa-la sobre tudo e todos que estejam ao seu alcance!”

O que não é sofisticado, nada sofisticado, é o procedimento de quem dispara.
Ser fotógrafo implica uma boa dose de voyerismo. Mas não respeitar o que se fotografa, fazendo-o e usando-o à revelia do conhecimento e vontade do fotografado, é a coisa mais rasca e baixa que se pode fazer na nobre actividade de fotografar. É como quem, com binóculos, espreita o tomar banho e vestir da vizinha ou vizinho, pelas janelas que estão abertas.
  
Para esses tais de “fotógrafos”, o meu olhar de desprezo! E o meu olhar de tristeza para uma sociedade que, vítima de si mesma, cada vez menos respeita o individuo e a privacidade!



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terça-feira, 21 de outubro de 2014

A glória do efémero versus o anonimato do eterno



Se me doeu? Claro que doeu!
Se me surpreendeu? Claro que não surpreendeu!

Dá mais audiência, mais tiragens e mais cliques a morte de um estilista, que vestiu celebridades, que a de um fotógrafo, que levou o mundo ao mundo.

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Ser do contra



Há quem seja mesmo amigo da onça!

Não apenas proíbem como obrigam a fazer ginástica para se saber, com rigor, o que é proibido.

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Para que serve?



Um dia fiz uma fotografia.
Depois, fiquei a olhar para ela e a perguntar-me: “Para que serve?”
E quando acabei por me recordar da frase, mais que batida e de uma fábrica de películas “Para mais tarde recordar”, fiquei com uma outra pergunta a atazanar-me a cabeça:
“Então se aquilo que me fez guardar algo para recordar era suficientemente importante para eu ter o cuidado de me não esquecer, não serei eu capaz de guardar isto na minha própria memória, com tudo o mais que a fotografia não mostra - cheiros, sons, paladares…?”
Dessa data para cá fiz muitos milhares de fotografias. Umas porque quis, outras porque mo pediram. Mas nenhuma delas para mais tarde recordar.
Que, se a minha memória o não guarda, então não é importante.
As imagens que produzi neste entretanto foram, acima de tudo, pelo meu prazer de ser capaz de fazer uma imagem contendo algo que fosse passível de me agradar e, eventualmente, de agradar a terceiros. E que contivesse uma história, explícita ou implícita, que eu quisesse que outros a ela acedessem.
Quanto ao resto, prefiro guardar em mim.
Para me não esquecer, tenho blocos de apontamentos, escritos com luz ou com tinta: nomes, endereços, ideias a trabalhar posteriormente… Mas não são fotografias: são instrumentos de trabalho.

Que eu sou tudo aquilo que fui. E o que tenha esquecido de pouca monta será.



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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A propósito de



Se a imagem é minha e o título também, já o texto é um excerto do livro “Introdução à análise da imagem”, de Martine Joly

“…
Trata-se de uma passagem do livro “O foi do horizonte” de António Tabucchi, em que a personagem principal, Spino, tenta encontrar a identidade de um morto graças a uma fotografia que subtraíra da sua carteira.

Em casa instalou tudo na cozinha para trabalhar mais à vontade do que no cubículo onde tem a câmara escura. Durante a tarde tratara de arranjar os químicos e comprara uma tina de plástico numa secção de jardinagem dos grandes armazéns. Conseguiu um rectângulo de luz de trinta centímetros por quarenta e inseriu o negativo de reprodução que mandara fazer num laboratório de confiança.
Imprimiu toda a fotografia, deixando o ampliador aceso uns segundos mais que o necessário porque a reprodução estava sobre-exposta. Na tina do revelador os contornos pareciam custar a delinear-se, como se uma realidade passada e longínqua, irrevogável, resistisse a ser ressuscitada, se opusesse à profanação de olhos curiosos e estranhos, se negasse a despertar num contexto que não lhe pertencia. Sentiu que aquele grupo familiar se recusava a voltar ao palco das imagens para satisfazer a curiosidade de um estranho, num lugar também estranho, num tempo que já não é o seu. Percebeu igualmente que estava a evocar fantasmas, que estava a tentar extorqui-los com o ignóbil estratagema da química, numa cumplicidade forçada, num compromisso equívoco a que eles, vítimas ignaras, se tinham prestado com uma pose improvisada diante de um fotógrafo de então.
Torpe virtude a dos instantâneos! Sorriem. E aquele sorriso é agora para ele, mesmo que não queiram. A intimidade de um instante irrepetível da vida deles pertence-lhe agora, dilatado no tempo e sempre idêntica a si mesma; pode vê-la quantas vezes quiser, pendurada numa corda que atravessa a cozinha, a escorrer. Um risco em diagonal, que a sobrexposição acentuou desmesuradamente, atravessa de lado a lado os corpos deles e a paisagem deles. É o risco involuntário de uma unha, a inevitável corrosão das coisas, o vestígio de um metal (chaves, relógios, isqueiros) com o qual aqueles rostos coabitaram em bolsos e gavetas? Ou será a marca voluntária de uma mão que queria apagar aquele passado?
Mas, seja como for, aquele passado está agora num outro presente, expõe-se sem querer a uma decifração. É o alpendre de uma casa modesta de subúrbio, os degraus são de pedra, enrolada num dos pilares cresce uma trepadeira enfezada, florida de campânulas claras; deve ser verão: adivinha-se uma luz ofuscante e os fotografados têm roupas leves.
O rosto do homem tem uma expressão surpreendida e, ao mesmo tempo, indolente. Está de camisa branca, com as mangas arregaçadas, sentado por trás de uma mesinha de mármore, e tem à frente um jarro de vidro, a que está encostado um jornal dobrado. Decerto estava a ler, e o improvisado fotógrafo chamou-o para o fazer erguer os olhos.
A mãe vem a transpor a soleira da porta, entrou na fotografia por acaso e nem sequer deu por isso. Tem um aventalinho às flores, o rosto é magro. É ainda jovem, mas a sua juventude parece já passada.
As duas crianças estão sentadas num degrau, mas afastadas, alheias uma à outra. A menina tem duas tranças queimadas pelo sol, óculos com aros de massa, usa tamanquinhos. No regaço tem uma boneca de trapos. O rapaz está de sandálias e calções. Tem os cotovelos sobre os joelhos e o queixo apoiado às mãos. Um rosto redondo, uns cabelos em que brilham alguns caracóis, uns joelhos sujos. Do bolso dos calções emerge a forquilha de uma fisga. Olha em frente, mas os seus olhos perdem-se para lá da objectiva, como se seguisse uma aparição no ar, algo que escapa aos outros fotografados. Olha ligeiramente para cima, as pupilas indicam-nos sem qualquer possibilidade de erro. Talvez esteja a olhar para uma nuvem, para a copa de uma árvore.
No canto da direita, onde o terreno se prolonga num caminho empedrado, sobre o qual o telhado do alpendre desenha uma escada de sombra, distingue-se o corpo enroscado de um cão. O olho do fotógrafo, desatento à presença dele, apanhou-o por acaso no enquadramento e a fotografia corta-lhe a cabeça. É um cachorro com malhas pretas que pode parecer um fox mas é com certeza um rafeiro.
Algo o inquieta naquele instantâneo plácido de desconhecidos; algo que parece esquivar-se à sua decifração: um sinal escondido, um elemento aparentemente insignificante e que, no entanto, pressente ser fundamental. Depois aproxima-se, atraído por um pormenor. Através do vidro do jarro, onduladas por efeito da água, as letras do jornal dobrado a meio que o homem tem à frente dizem: “Sur”. Emociona-se, dá por isso e diz para consigo: a Argentina, estamos na Argentina, porque me emociono?, o que é que a Argentina tem a ver? Mas agora sabe o que os olhos do rapaz estão a fixar. Por trás do fotógrafo, imersa na vegetação, há uma moradia cor-de-rosa e branca. O rapaz fixa uma janela com as persianas fechadas, porque aquela persiana pode entreabir-se lentamente, e então…
E então o quê? Porque é que estás a inventar nesta história? Que diabo está a tua imaginação a inventar fazendo-se passar por memória? Mas justamente naquele instante, não em ficção, bem real dentro de si, uma voz infantil chama distintamente: Biscoito é o nome do cão, não pode ser outra coisa. 
…”



By me