terça-feira, 16 de setembro de 2014

Um recado



Ontem dei comigo a dizer a coisa mais importante que, creio, alguma vez já disse sobre fotografia.
Estava de conversa com uma jovem, que ainda nem atingiu o quarto de século, e que tem um interesse muito sério sobre fotografia. Sério mesmo.
E sugeri-lhe, visto que só há poucas semanas está em Lisboa, aproveitasse para ir fotografar uma ou mais manifestações, se e quando acontecessem.
Disse-me que não, que não era assunto que a atraísse.
Disse-lhe que, e para além das questões técnicas e estéticas, com todo o manancial de gente que ali está para registarmos, há também a questão humana, o factor da história que é a nossa e que fazemos, o nosso olhar sobre o que nos cerca… Não estava a conseguir convencê-la.
E disse-lhe que, para além da arte e da expressão pessoal, o nosso papel enquanto fotógrafos, talvez que o mais importante, será o deixarmos um testemunho real aos vindouros daquilo que é o nosso tempo. Sempre condicionado à nossa própria perspectiva sobre o que fotografamos, mas um testemunho.
Ficou ela a olhar um pouco para mim, na pouca luz que nos envolvia, e fiquei a ouvir o que tinha acabado de dizer, no silêncio que nos cercava.
Efectivamente, e para além do grau de importância que possa ter o facto de fotografarmos, o certo é que o que fazemos hoje serão os testemunhos de amanhã. Será aquilo que, caso sobreviva à voragem do tempo, à fragilidade dos suportes e ao olvido e confusão no meio dos milhões de imagens que hoje se fazem, que confrontará a realidade de hoje com os relatos mais ou menos emocionados daqueles que vivem os acontecimentos.
Cada um de nós, ao falar de algo que viveu no passado mais ou menos distante, ajusta-o e filtra-o de acordo com as suas próprias emoções, “colorindo-o” em consonância com o tempo decorrido e as vivências tidas. É inevitável.
As imagens que hoje façamos, passe o tempo que passar, vivamos o que vivermos, serão testemunho mudos mas imparciais das nossas emoções hoje, não sujeitas a recordações.
Claro que serão interpretadas no futuro. E essas interpretações dependerão de quem o fizer. Tal como hoje mesmo fazemos dos registos pictóricos do passado, no papel, na tela ou na rocha.
Mas a quantidade de imagens que hoje são feitas, na sua totalidade, deixam de lado as subjectividades de cada um dos fotógrafos e resultam numa realidade incontestável. E por muito tendencioso que possa ser alguém no futuro a analisa-las, o somatório de todas elas será um testemunho neutro e indesmentível do que hoje somos, fazemos e pensamos.

Hoje fotografamos porque nos apetece. Porque o assunto nos atrai, porque é a nossa forma de expressão, porque é actividade na moda.
Mas os vindouros – uma, cinco, dez gerações – agradecerão que o tenhamos feito, sejam quais forem as nossas motivações agora.


E, em jeito de recado para o caso de ela ler estas linhas, sempre acrescento que não! As manifestações de rua, políticas ou sociais, não são todas iguais.

By me 

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