segunda-feira, 30 de junho de 2014

O ferro-velho



By me

Surpresas 2



Falava eu, posts atrás, sobre manipulação.
Manipulação de opiniões e sentimentos fruto da comunicação. De como os meios de comunicação social (escritos, falados, vistos, convencionais ou modernos) manipulam as opiniões. De como nós mesmos manipulamos opiniões (sempre o fizemos) ao falar, ao escrever, ao exibir imagens ou sons.
A própria indústria o usa, mesmo que com motivos nobres como o melhor contar uma história. Palavras, som, imagem…
Deixo-vos aqui dois links. Ambos se reportam a um pedacinho de um filme bem mais que clássico: “Aconteceu no oeste”, realizado por Sérgio Leone.
A qualidade de reprodução que ireis encontrar, se vos deres ao trabalho de ir ver ambos, é particularmente fracota. Para não dizer má.
Mas é o suficiente para o exemplo em causa.
Ambos os vídeos são da mesma sequência do filme original. Diferem um do outro pelo facto de um estar invertido esquerda/direita em relação ao original.
A própria sequência original é magistral, na forma como consegue contar-nos uma história sem nos mostrar um fotograma que seja dela. Apenas com o som e com os olhares dos personagens que nos mostra.
Mas repare-se como, pelo simples facto de uma das sequências ser o”espelho” da outra, as personagens ganham ou perdem força, a história lá fora ganha ou perde força, as emoções de cada um dos presentes ganha ou perde força.
Falava eu de manipulação? Tudo isto acontece, todos os dias, nos media.
A escolha de uma perspectiva, o ter a figura principal virada para um lado ou para outro, a escolha dos fundos… tudo isto condiciona-nos na forma como interpretamos os que vemos, criando empatias positivas ou negativas com o que nos é contado.
Para finalizar, e antes dos respectivos links:
Posso dizer “eu bebi um copo de água” ou posso dizer “um copo de água foi bebido por mim”.
Ambas as expressões estão correctas do ponto de vista linguístico, mas na primeira o centro da acção sou eu, na segunda o centro da acção é o copo de água. Não menti, mas orientei a vossa atenção.
Os links:
Divirtam-se a tentar perceber qual é o original.



By me

Surpresas????



Está meio mundo indignado com a notícia sobre o Facebook.
Ao que parece, há dois anos andaram a manipular os que aparecia no “feed de notícias” de alguns utilizadores, com o fito de perceberem até que ponto notícias positivas ou negativas influenciavam os posts dos mesmos. Foram uns milhares assim afectados, sem o saberem.

Estão espantados ou incomodados com o quê?????
Estão à espera que não existam jogos de manipulação nas redes sociais?
Santa ingenuidade!
Isso acontece há dezenas de anos, desde a invenção da comunicação social: impressa, ouvida, vista. As notícias são escolhidas, filtradas, ajustadas e difundidas de acordo com os interesses do meio ou suporte. Interesses económicos, interesses políticos, interesses desportivos… interesses.
Mesmo os próprios utilizadores manipulam as opiniões dos que acedem aos conteúdos, publicando o que querem para obter os resultados que querem: aceitação social, influências políticas ou laborais, interacção com terceiros…
As redes sociais são a versão moderníssima das conversas de café ou do largo da igreja. E essas conversas acontecem – sempre – com dois objectivos: porque queremos que a nossa opinião seja ouvida e aceite, porque queremos saber a opinião ou notícias de terceiros.
Por isso se escolhe (ou escolhia) este ou aquele café, este ou aquele banco do largo: em função de quem o frequenta, onde a nossa opinião pode ser ouvida ou onde o que por lá se diz nos interessa.
Fazem isso os media, todos os dias, a cada instante. Fazemos nós isso nas redes sociais, a cada publicação que fazemos ou acedemos.
Esperar que a gestão das redes sociais seja inócua, isenta, sem interferir em nada nos conteúdos é ingenuidade da mais pura.
Em último caso, vejam-se os banidos, as páginas apagadas, as denúncias por parte de utilizadores…

Acordem!
Manipulação é a palavra-chave desde o invento do púlpito, desde o invento da rotativa, desde o invento da emissão de um para todos.
Tudo o mais são roupagens para um mesmo conceito.
Ou acham que as cores escolhidas para uma capa, ou os sons e imagens escolhidos para um genérico ou as manchas gráficas ou a sequência de conteúdos é inocente e inconsequente?

Espantem-se com a vossa surpresa, não com o que a motivou!

By me

Uma fotografia



Eu sei que muitos não pensarão assim. Mas se eu agisse em função do que os outros pensam, não seria eu: Seria qualquer outra pessoa.

Uma boa fotografia não tem que ser técnica e esteticamente correcta, e não tem que ser original ou seguir cânones clássicos.
Uma boa fotografia tem que me satisfazer enquanto autor. Tenho que olhar para o resultado final e saber que correspondeu ao que vi com os olhos da alma e ao que imaginei que ela viria a ser.
Se, por mero acaso, ela agradar e contar algo a quem mais a vir, tanto melhor. De algum modo ela cumpriu uma das finalidades da fotografia: comunicar.
Mas, acima de tudo, ela tem que me agradar, que a fotografia é uma forma de expressão.
Se esta fotografia me agrada? Se satisfaz aquilo que imaginei? Será problema meu, ainda que se o não fizer de algum modo não fará sentido exibi-la.
Se ela agrada a quem a vê? Claro que gostaria que sim, mas não é, de forma alguma, uma prioridade minha.



(Nota extra: esta imagem foi feita pensando no que acima está dito, depois de ler um artigo sobre iluminação para fotografia e considerando um projecto que tenho em mãos.)

By me

domingo, 29 de junho de 2014

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Acredito que haja muito boa gente que não o entenda.
Ou porque não passou por isso ou porque, tendo passado, nada de especial lhe disse.
Mas das melhores sensações que se pode ter é ir para a cama sabendo que o mundo está um nico melhor, que há mais gente um nico mais rica por dentro porque descobriu um pouco de novos horizontes e que estão ao alcance da mão.

Saber que ajudámos a isso… néctar dos deuses!
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Hoje Lisboa esteve assim



By me

Um olhar - Lea



By me

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Não quero fazer mais nenhum comentário sobre a forma como os media tratam a morte trágica de uma pessoa em desfavor de todas as outras, igualmente trágicas.
Corporativismo e voracidade pelas parangonas por um lado, banalidade e indiferença por outro, são os termos mais leves que querem brotar dos meus dedos.

Ponto final!

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Bolas!



A tal de “nossa selecção” (nossa coisa nenhuma que eu não escolhi o que quer que fosse) já regressou.
E, com ela, os jornais deixaram de falar com o mesmo impacto do mundial de futebol.
Mesmo que eu não goste de bola, a verdade é que continua a ser espectáculo, continua a movimentar milhões (pessoas e dinheiro), a estar na origem de alegrias e tristezas profundas. Em todo o mundo!
Mas como já lá não estão os tugas, passa para segundo, quiçá terceiro plano.
Mesmo que para primeiro plano não passem coisas importantes, como gente nossa a passar fome ou sem casa, o desbaratar milhões em estudos inconsequentes, as mordomias mantidas aos grandes, apesar dos cortes aos pequenos…
Claro que as zangas de comadres continuam a estar em primeiro plano, mas até convém às comadres dos outros prédios.

Afinal o mundial é para quem gosta de bola ou para exacerbar nacionalismos absurdos?


By me

Opções



Nos jornais on-line leio duas notícias.
Que o filho de uma conhecida figura dos media sofreu um acidente muito grave. Que uma criança morreu carbonizada num incêndio doméstico.

Lamentável!
Não consta nem o nome da criança nem dos respectivos pais. Nem as fotografias.

Talvez por ter sido na Damaia e por serem guinienses!

Imagem: edit by me
Texto: by me

RFM



Continuo em peregrinação por um livro que está esgotado.
Já cá tenho um exemplar, do qual me não afastarei, mas quero um segundo para poder partilhar. Manias.
Mas sendo que está esgotado, que a editora já não possui nenhum exemplar disponível e que as bases de dados das livrarias do costume me dizem o mesmo, resta-me correr as pequenas livrarias e alfarrabistas, na secreta esperança de encontrar um exemplar “perdido”.
Um destes dias fui para a zona do Chiado e Calçada do Combro, em Lisboa. Vários locais onde poderia tropeçar no que quero, incluindo a Sá da Costa, agora reaberta temporariamente como galeria de exposições e alfarrabista.
Não tinha.
Mas não deixei de ir metendo o nariz no que existia. E de trazer alguma coisa. Não o que procurava, mas alternativas. Entre o que veio, este.
De formato de bolso e editado pela Bertrand (suponho que algures no início dos anos 60 pelas ilustrações) é um pequeno guia para fotógrafos em início de actividade.
E eu, agora em pleno séc. XXI, não perco oportunidade de ir aprender com os antigos. Que se as técnicas e as tecnologias mudaram, naturalmente, coisas há que se foram perdendo na voragem do consumismo. E que deviam estar sempre na primeira linha.
Este livro concorda comigo. E, pese embora o ter-lhe dado uma olhada hiper rápida, deixo aqui os nomes dos dois primeiros capítulos:
“O que é um aparelho fotográfico” e “Familiarizemo-nos com o nosso aparelho fotográfico”.
O capítulo seguinte intitula-se “O que é preciso saber sobre películas fotográficas”.
Entenda-se, de novo, que este livro, sendo uma tradução e adaptação de um original alemão, data dos princípios dos anos sessenta, época em que o digital era apenas a ponta do dedo e em que as câmara não vinham acompanhadas por manuais de instruções.
Este livro, como tantos outros de então e de agora, substituem-se a esses manuais, com a enorme vantagem de então de as diferenças de marca para marca e de modelo para modelo não estarem em complicados menus mas tão só na qualidade das ópticas, na fiabilidade das mecânicas e na robustez dos equipamentos.
Por muito simples que fosse (ou seja) o que temos na mão, a técnica do RFM, ou em português LPM (Read the Fucking Manual ou Leia a Porra do Manual) continua actual e vital.
Diria eu, sem exagerar, que dois terços das fotografias falhadas ou menos conseguidas advêm do desconhecimento que existe do como funciona a câmara que temos na mão. Potencialidades e limitações.

Este livro irá, para já, para uma das pilhas dos que tenho por ler aqui em casa. Depois de lido, irá para a zona dos mais antigos, com todo o respeito devido que o conhecimento dos antigos merece.

Ficando eu na dúvida se a regra que tanto defendo – RFM –é intemporal ou se sou eu que sou antigo.

By me 

sábado, 28 de junho de 2014

Bolhas



Faz tempo que me não acontecia: madeira mais que rija, parafusos calcinados e muito bem agarrados, bolhas na mão.
Talvez que tenha mãos de menina. Talvez que câmaras e tripés, botões e ofícios correlativos, não criem pele rija quanto baste para enfrentar reparações de marcenaria deste calibre.
Mas, em qualquer dos casos, estas bolhas recordaram-me muito alegremente umas outras equivalentes. No trabalho e na alegria.

Estávamos na Páscoa de ’75. Os tempos eram confusos e a certeza de ter o futuro nas nossas mãos suplantava, de longe, os escolhos que íamos encontrando.
Este primeiro ano lectivo do pós-revolução foi confuso. Muito. Programas e conteúdos, métodos e abordagens, relações hierárquicas e sociais… acima de tudo o não haver ensino segregado por género. Ensino oficial com escolas mistas era também novidade.
Para todos, incluindo alunos e alunas, que não estávamos habituados a lidar no quotidiano com o sexo oposto. Não era fácil aquilo, e tivemos que descobrir, de súbito, como o encarar e viver.
No meio de tudo isto, o material escolar foi-se degradando. Por material escolar incluo mobiliário: mesas, cadeiras, carteiras… A dado passo, havia que dividir um assento por dois rabos, que não havia que chegasse para todos.
Pois uns quantos de nós, enquadrados por um continuo solícito, voluntarizamo-nos e passámos metade das férias da Páscoa no sótão do liceu, reparando mesas e cadeiras.
Não imaginam, decerto, o quão rija é aquela madeira. Rija de desaparafusar. Rija de aparafusar. Rija de serrar. Rija de martelar. Rija de moldar.
No fim daquela semana havia muitas mais mesas, cadeiras e carteiras para distribuir pelas salas de aula do que pensávamos que fosse possível. E havia muitas mãos cheias de bolhas. Daquelas bem altas, cheias de líquido, que secávamos com uma linha atravessada nela com a ajuda de uma agulha.
Bolhas dolorosas e alegres.
Bolhas que provocavam queixumes entre gargalhadas e que se aguentavam firmes com o receber de novo no dia seguinte o cabo da chave de fendas ou do serrote.
Bolhas que nos enrijeceram as palmas das mãos e da alma, que aprendemos com elas que o futuro é nosso e que temos que o construir.
Bolhas que se aguentaram firmes quando batemos palmas ao distribuir o recuperado pelas salas de aula, tornando-as compostinhas e apetecíveis.
Bolhas que se têm reproduzido ao longo dos anos, sempre com a mesma alegria de saber que o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.

Bolhas de fazer um mundo melhor sabem a mel e fazem-nos cócegas na alma.

By me 

gostos

Não gosto do tipo. Nunca gostei e nos tempos que correm tenho ainda menos motivos para tal.
Mas ler uma afirmação dele faz com que suba uns degraus na minha escala de considerações.
Diz ele:
"Afinal, às vezes é fácil fazer as pessoas felizes."

Não interessa quem o disse. Não quero aqui dizer de quem não gosto. 
Agora que o tipo tem razão, lá isso tem!

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O ardina



By me

Priva - cidade



Aquando do surgimento dos primeiros “passes” electrónicos para os transportes públicos, algumas foram as vozes (a minha incluída) que protestaram contra tal.
O argumento foi que os sistemas de obliteração registavam a identidade do passageiro, bem como o local de entrada e de saída no sistema, permitindo assim ficar com um historial do trânsito de cada um que possuísse o novo passe.
Logo as empresas de transporte vieram a terreiro afirmar que não, que não ficava nenhum registo, que os obliteradores e cancelas apenas verificavam se o passe estava ou não válido.
Este desmentido por parte dos transportadores deixou de ser feito no final de 2009.
Veio a público que os STCP (sociedade de transportes de colectivos do Porto) tinham atribuído o prémio “passageiro frequente” a uma pessoa. De acordo com os “registos”, aquela pessoa fora a que mais vezes ao longo do ano havia obliterado o seu passe.
Como raio saberiam eles isso se não houvessem registos?
A parte gaga da história é que se veio a saber que o dito premiado era um carteirista que, para não dar nas vistas como borlista, validava sempre o seu passe. Foi reconhecido por fotografias publicadas na imprensa local aquando da entrega do prémio.

Dirão agora os cépticos: E que mal tem haver esses registo? Acabaram, com isso, por apanhar um bandido.
Certo. Excepto que também lá ficam registados todos os movimentos de todos outros passageiros. Pessoas honestas que querem a sua privacidade e não a têm. Fica esse registo nas mãos de uma entidade privada. Que dele fará o que entender, legal ou não, às claras ou à sucapa. E sabemos o valor que tem no mercado uma boa base de dados.
Tal como fica registado todo o tráfego nas auto-estradas sem portageiro. Os portais de controlo tratam disso, através da chamada “Via Verde”. Que está nas mãos de entidades privadas. E que servirá agora para controlo de velocidade. E autuações e processos policiais. E ficarão entidades privadas com o registo privado das infracções ao código da estrada.
Tal como fica registado nos serviços centrais dos grandes supermercados as compras que cada um faz. Através do apetecido “cartão cliente”, que até dá descontos. Que correlaciona as compras efectuadas com a identificação fiscal do cliente.

Continuo a insistir na mesma tecla: a vida privada de cada cidadão é privada. Não tem que andar em mãos de outras entidades, passeando-se em bases de dados cuja segurança é o que se sabe: pequena se alguma.

Em jeito de conclusão, sempre acrescento que a versão europeia da IBM (international business machines) foi a entidade que desenvolveu o sistema de numeração dos prisioneiros dos campos de concentração nazis.
Estávamos nos primórdios do processamento de dados automático e já era isto que se fazia.


Na imagem, roubada da net – um conjunto de agulhas para tatuar os números nos prisioneiros.
Texto - By me

Murro



“Eu pago o almoço.” Disse eu. “Quanto é?”
“É tanto”, disse o empregado. E acrescentou: “Quer o número de contribuinte na factura?”
“Não! Claro que não quero!”
“Quero eu.” Disse o meu conviva. “Ponha lá o meu.”
“Não!” afirmei. “Sou eu que pago e as facturas não têm o número de contribuinte.”
“Mas eu quero que me saia o carro. Faz-me falta.”
“Então pagas tu o almoço, que eu não colaboro com essa bufaria. Não colaboro com o pôr toda a gente a fiscalizar toda a gente. Bastou-me os tempos que vivia com a PIDE a espreitar-me atrás da orelha.”


Paguei eu o almoço.

By me 

Pensamento utópico (ou talvez não)


E se todos nos recusássemos a pagar impostos, dois meses por ano, com o pretexto que essa quantia serviria para pagar mordomias a quem as não merece?
E, se mais que recusar, não os pagássemos mesmo?
Seríamos todos – todos – presos? Onde?


Deve a Lei servir o Homem ou o Homem servir a Lei?

Abordagens



Ao contrário do que muitos pensam, o difícil ao fotografar um objecto ou uma pessoa não é o assunto propriamente dito.
Escolhida uma perspectiva adequada, uma luz eloquente e ultrapassada a questão da profundidade de campo, é muito fácil. Excepto…
Excepto o fundo.
A questão da contextualização do assunto fotografado é, provavelmente, o que mais diferencia o pintor do fotógrafo.
Que o primeiro pode, por decisão sua, nada incluir como fundo, deixando mesmo a superfície da tela por tratar. Inclui dentro dos limites da tela apenas e só o que entende, preocupando-se ou não com o restante.
Já o fotógrafo assim não pode fazer. Mesmo que só queira fotografar um rosto ou um objecto, o que lhe fica em redor faz parte da imagem e tem que ser tratado. Mesmo que seja a escolha de um fundo neutro, ali colocado propositadamente, ou limitado ao que demais existir atrás do assunto principal.
Técnica usual em tempos de antanho era ter em estúdio um conjunto de adereços, incluindo telões pintados, que fariam a contextualização do retratado. E era uma arte escolhê-los e usá-los.
Com o evoluir das técnicas e dos suportes, foi usada uma outra técnica, não particularmente fácil: Atrás do assunto (pessoa ou objecto) era colocada uma tela reflectora ou translúcida, onde eram projectadas imagens.
A dificuldade técnica era encontrar um equilíbrio útil entre a luminosidade e definição da imagem projectada e do assunto principal. Chegaram mesmo a ser criados ecrãs de projecção de alto rendimento e particularmente orientáveis para esse efeito.
Outra abordagem possível para esta questão é o recurso a laboratório. Foto-químico ou digital. Aquando da tomada de vista é colocado um fundo escolhido, branco ou colorido, para ser retirado em laboratório e substituído pelo fundo que se pretende. O Photoshop faz maravilhas nesse sentido.

Na série de imagens que tenho vindo a fazer com umas figuras de estanho que encontrei, resolvi usar “o melhor de dois mundos”.
Para já, uma abordagem ao sabor de velhos tempos: sem recorrer a edições posteriores. O que a câmara vê é o que mostro.
De seguida, e dentro dessa linha, exibir atrás do assunto principal uma imagem que de algum modo contextualize o assunto principal. Mas sem querer fazer supor que o assunto se encontra ali, naquele fundo. A artificialidade é assumida.
Do ponto de vista técnico, o suporte de exibição dos fundos é algo que todos temos em casa: um monitor de computador. Escolher uma imagem (de arquivo ou feita de propósito), ajustar o seu tamanho em função do ângulo de visão e usar de uma profundidade de campo que, tornando-a muito pouco nítida, acaba por lhe dar alguma força.
Resta jogar com a luz, garantir que esta não incide no ecrã, dar-lhe uma orientação e contrastes tais que não se tente enganar o espectador, fazendo-o crer que é real o que vemos…
O desafio, escolhida a abordagem e tornando-a padrão nesta série, é encontrar a imagem certa, em conteúdo, proporções e leitura, para cada uma das figuras a exibir.
Não tenho muito a noção de como quem a vê gosta ou não do que vê. As reacções são mais em função do assunto principal que em função dos fundos.

Por mim, estou a gostar dos resultados, desta mistura de técnicas antigas e modernas. Com a vantagem adicional de o fazer sentadinho da silva, o que não é comum no trabalho fotográfico.

By me 

Quentes e boas



By me

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Tratemos de o levantar!



By me

... e em dia de jogo...



By me

Aguadeiro



By me

Linguagens

É uma expressão popular: “Vai-te fod**!”
Nem todas as pessoas a usam e, das que a usam, algumas só em círculos restritos.
Mas, em usando ou mesmo pensando, o significado é sempre o mesmo: uma afirmação de raiva, de contestação, um insulto, quase que uma maldição para com o destinatário.
Pois tenho uma amiga que afirmava o contrário!
Dizia ela: “Que não te fod**!”
E argumentava: “Fod** é coisa boa e não quero que te aconteça uma coisa boa!”

Não creio que haja dúvidas sobre o ela ter razão.

By me 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Lunch time



O enredo original não é meu, pelo que apenas tentarei reproduzi-lo de memória.

Um homem, muito rico, muito muito muito rico, contraiu uma doença incurável, da qual sabia ir morrer.
Usando dos seus recursos e do tempo de que ainda dispunha, contratou os melhores e mais sabedores cientistas e dividiu-os em dois grupos, atribuindo-lhes duas tarefas distintas, com fundos ilimitados de investigação:
A um deles a criação de um sistema de suspensão de vida, à qual ele mesmo seria submetido. Desta forma, em encontrando solução para a sua doença, poderia ser “acordado” e curado.
Ao outro, a criação de uma fundação para a investigação e descoberta da cura da sua doença.
Assim, ele foi colocado numa esfera imperecível, enterrada bem fundo nos Himalaias. No seu exterior, inscrições e instruções de como o “acordar”. Se e só se a cura tivesse sido encontrada.
O tempo passou. E passou. E continuou a passar. Desse homem já nem a memória existia. E continuou a passar.
Os Himalaias transformaram-se em planície. E o tempo continuou a passar. E na planície emergiu uma nova montanha, alta e agreste com a anterior.
E o tempo continuou a passar. E a passar. E a passar.
Até que, fruto da erosão, a esfera onde o homem “dormia”, surgiu à superfície. Brilhante e impoluta como tinha sido concebida.
Quem a encontrou mostrou-a a sábios, que já nem se lembravam da sua existência. E o tempo tinha passado de tal forma que já nem se sabia como ler as inscrições no seu exterior.
Mas os desafios são para serem vencidos e acabaram por decifrar. E cumprir as instruções, abrindo-a e acordando-o.

Em abrindo os olhos e tomando consciência do que o rodeava, o homem percebeu que haviam perdido a batalha contra os insectos.

By me 

Elites



É sabido que não gosto de bola, mas tenho que voltar a ela.
Caramba!
No Brasil estão, salvo erro, trinta e duas equipas ou selecções. São as trinta e duas melhores selecções de futebol do mundo. No meio de tantos países que praticam futebol e que estiveram em competição para aqui chegar, apenas trinta e duas o conseguiram. É obra!
Destas trinta e duas, metade ficará pelo caminho nesta fase e, das que seguirem caminho, todas irão sendo eliminadas, até que só sobre uma. A campeã.
Não significa isto que as restantes trinta e uma sejam más. Ou fracotas. Significa apenas que uma delas foi melhor que as outras. Que uma delas foi a melhor de uma elite de selecções.
A selecção de Portugal faz parte dessa elite. Será ou não a melhor dessa elite. Apenas no final do campeonato o saberemos. Mas estar lá, no Brasil, faz dela uma das melhores trinta e duas selecções do mundo.
Se for eliminada, já ou numa das fases seguintes, é natural. Apenas uma de trinta e duas chegará ao topo, e não obrigatoriamente a portuguesa.

Portanto: não desmereçam da elite do futebol português, que até pertence à elite do futebol mundial.
Não queiram comparar o sucesso profissional daqueles que são uma elite a vós próprios, com as vossas vidinhas tristes que só têm alegrias com o sucesso dos outros.
Eles são bons. Poderão não ser os melhores dos melhores, mas são bons. Muito bons.

E vocês? São bons em quê? Nem sequer a escolher bons governantes, como temos constatado ao longo dos últimos e tristes anos.

By me

Paragens



Quando cheguei à paragem, ele já lá estava. Assim, como se vê. Com o acréscimo, não visível, de usar gravata, óculos e chapéu preto na cabeça.
E só lá estava ele. Tinha acabado de passar um autocarro da carreira que eu mesmo queria usar, logo antecedido de um outro da outra carreira que ali passa, e só lá estava ele.
Depois de mim, outras pessoas foram chegando. Uma, duas, cinco… não muitas, que já passava das sete da tarde, o comércio já estava fechado ou em vias disso, e os transeuntes eram ou pareciam ser residentes na zona, de regresso a suas casas. A maioria sem grandes pressas, parecendo querer aproveitar o fim do dia simpático e a pacatez que se instalava. O próprio trânsito, sempre denso naquela avenida, amainava.
Muito pouco regulamentar, porque demasiado perto da paragem, uma carrinha de uma empresa de publicidade havia estacionado. Os seus ocupantes foram beber uma imperial (ouvi-os falar disso) num café em frente, e a viatura ficara de tal forma que não se via o eventual aproximar dos autocarros.
Pese embora haver ali um indicador do tempo de espera para cada carreira, tenho pela prática muito pouca fé no que indicam. Vê-los lá ao fundo aproximarem-se é bem mais rigoroso. Por isso estava eu alerta, espreitando de quando em vez quase já na faixa de rodagem. Não que me preocupasse muito a meu respeito: rapidamente lhe faria sinal de paragem, mesmo que a meros cinco metros, e rapidamente me aproximaria dele para subir.
Mas ele, sentado que estava, concentrado que estava na leitura, limitado que estava nos movimentos, que a bengala bem o indicava, não seria tão lesto.
Chegou um autocarro, que seguiu o seu caminho. Alguns ficaram, esperando pela carreira que interessava. Eu e ele incluídos. Eu de olho na avenida e nele, ele de olho no jornal, concentrado. Nem levantava a cabeça.
Quando, finalmente, chegou a carreira que me interessava, ele nem se mexeu. Embarquei, junto com os demais que ali estávamos, mas ele ficou, ali, numa paragem de autocarro, lendo o jornal dobrado.
Suponho que aquele banco de paragem de autocarro fique bem mais perto de sua casa que os de jardim, a uns trezentos metros de distância. E protegido de alguma eventual aragem ou humidade, com as suas paredes de vidro. E gratuitas, ao contrário das do café em frente. Talvez bem mais luminosas e cosmopolitas que as de onde reside, de alvenaria e opacas.

Talvez que solitárias.

By me 

terça-feira, 24 de junho de 2014

Um olhar - Andreia



By me

Irresistível



Confesso que isto é irresistível.
Não consigo passar por esta parede sem fazer o registo da fotografia que o sol faz nela.
Porque, e se fotografia é a escrita da luz, o que aqui se vê será a fotografia de uma fotografia.
E, de todas as vezes que por aqui passei – e foram já muitas – vi fotografias diferentes. Todas elas únicas, a lembrar os tempos em que a photographia se fazia em suportes únicos, impossíveis de duplicar.
Bem ao contrário do que sucede hoje, com a imagem digital e as redes de difusão.

Talvez que o sol seja bem mais sábio que todos nós juntos.

By me

Já cá canta!



Certo! Já cá canta! Um choradinho ao telefone com a editora (Relógio d’Água, uma simpatia de gente), uma ida rápida antes que mudassem de ideias, e já cá canta.
Só consegui, mesmo, foi um só exemplar. E eu queria dois. Queria mesmo dois exemplares do mesmo livro.
Não se trata de açambarcamento de algo que está esgotado. De forma alguma.
É que, pese embora o que disse, quero poder continuar e emprestar livros. Que gosto tanto deles que é um prazer partilhar. E estarem em casa, a apanhar pó nas prateleiras faz pena.
Mas alguns há que não quero perder, não quero que torne a acontecer ficar impedido de a eles voltar só porque alguém sem alma resolveu transformar a partilha em dádiva irreversível.
E, enquanto vinha para Lisboa, com os dedos cheios de comichão de os pôr naquilo de que gosto, fui pensando:
Dos que tenho, quais os que me levariam a ter um segundo exemplar para poder partilhar?
A lista é longa e, de memória, é certamente incompleta.
Mas aqui fica uma mão-cheia de títulos. Alguns já tenho em repetido, outros será de todo impossível (ou quase).

“1984”, George Orwell
“Um estranho numa terra estranha”, Robert Heinlein
“Os Maias”, Eça de Queiroz
“História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar”, Luís Sepúlveda
“Memorial do convento” José Saramago
“Estação de trânsito” Clifford Simak
“Fahrenheit 451”, Ray Bradbury
“Metamorfose”, Kafka
“A inaudita guerra da Av. Gago Coutinho”, Mário de Carvalho
“Sete cartas a um jovem filosofo”, Agostinho da Silva
“Ensaio sobre a fotografia”, Vilém Flusser
“Ensaio sobre a fotografia” Susan Sontag
“Câmara clara”, Roland Barthes
“Photographic seeing”, Andreas Feininger
“Fotografia básica” Micchael Langford
“Modos de ver”, John Berger
“Ponto, linha, plano”, Kadisnky
“Dicionário das cores do nosso tempo”, Michael Pastoureau
“A língua da tua mãe”, Steohen Burgen
“Gaston la Gaffe”, André Franquin


A lista poderia ser bem maior mas, assim de cor e numa esplanada, é o que se ocorre.

Aos bocadinhos, tratarei de encontrar segundos exemplares (os possíveis) para poder partilhar. Que estes, façam o que fizerem, não ficarei sem eles!

By me

Porque me apeteceu, prontos!



By me

Imagem/Identidade



O texto e a imagem remontam ao ano de 2006. Os factos relatados não seriam hoje possíveis, face a actualizações tecnológicas. Pelo menos no local em causa.
Mas fica a história e a pertinência das questões levantadas, sempre actual.

Com grande frequência sou levado a entrar numa instituição. O seu acesso é condicionado, pelo que só pessoas identificadas podem entrar. Existe uma empresa de segurança que controla as entradas, em que os seus agentes verificam as creditações, apoiados em sistemas de vídeo.
Aqueles que, como eu, têm que lá ir com assiduidade possuem um cartão personalizado, com o seu nome, função e fotografia inscritos. Os que só lá acedem esporadicamente, são identificados à entrada através dos sistemas habituais e é-lhes fornecido um cartão temporário.
Um dia resolvi fazer uma brincadeira. Tratei de falsificar o cartão que possuía!
Ainda que o pudesse fazer com um bom nível de qualidade, fiz questão de fazer uma má falsificação. A mancha gráfica, tal como a palete de cores estava lá perto, mas o resto nem pouco mais ou menos.
Para começar, assumi o nome de “José Maria Pincel”. Em seguida reclamei para mim o cargo de “Presidente da Junta”, O mais complicado foi mesmo a fotografia. Teria que ser alguém com barbas e mais ou menos conhecido.
Ainda pensei em Karl Marx, mas corria o risco de ser desconhecido para muita gente. Optei então pela fotografia de Fidel Castro.
Durante dois meses lá entrei com esta identificação. No decurso desses dois meses, mudei de vestuário habitual, cortei a barba, mudei de chapéu. Mas mantive esse cartão.
Resultado: nunca questionaram a minha entrada nem vieram verificar a autenticidade da identificação apresentada.
Admitindo que, por causa da distância, não conseguiriam ler as palavras inscritas, no mínimo seria de esperar que a fotografia levantasse algumas questões, mesmo quando eu estava a usar barba. Para já não falar de quando a cortei. Nem isso.

Desta experiência, podem-se retirar pelo menos duas elações:
Por um lado, a segurança das instalações deixa muito a desejar. Essa era uma das tónicas que eu queria deixar bem clara. E dei-me ao luxo de enviar o falso cartão ao topo da hierarquia da instituição, junto com um relato das circunstâncias, para o demonstrar.
Por outro lado, e é o que é pertinente neste caso:
Será que quando olhamos para uma fotografia ou objecto vemos efectivamente o que lá está ou apenas aquilo que esperamos ver? Seremos sensíveis àquilo que nos é transmitido visualmente ou apenas àquilo que os nossos filtros mentais deixam passar?
Para além de vos deixar estas perguntas, deixo-vos também uma sugestão:

Façam um exercício semelhante a este. Na escola, no trabalho, na biblioteca, no aeroporto, etc. E verifiquem as reacções. Mas com uma cautela: tenham por perto a verdadeira identificação, não vá dar-se o caso de o funcionário ser zeloso e eficaz!

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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Um olhar - Paulo



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Um olhar - Sofia



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Lâmpada apagada



É verdade que sim: os génios conseguem.
Eu, que não sou génio, tenho que recorrer a truques e aceitar as minhas limitações.

Não me é possível mostrar por imagens, quer sejam escritas quer sejam visuais, sentimentos que não possuo real e profundamente.
Fazer imagens visuais ou usar de palavras que descrevam sentimentos é fácil: cores e tons, surpresa e originalidade, organização de ideias e elementos menos comuns, perspectivas e linhas de pensamento concordantes ou que surpreendam quem as vê ou lê… tudo isto são técnicas que se aprendem, umas mais fáceis, outras não tanto.
Abundam escolas de fotografia e de escrita criativa onde tudo isso se ensina e de onde se sai conhecendo-as.
Mas se não se sentir, se as situações não tiverem sido vividas ou emotivamente vividas… serão apenas mais uns gigabytes grafados, com teclado, caneta ou câmara, iguais uns aos outros, sempre todos iguais uns aos outros mesmo que diferentes. Mesmo que atraentes.
Os génios, esses, sabem sem aprender a ver com a alma e a materializar esse ver. E quando vemos o que viram… são génios.

Eu não sou génio. E tenho que trabalhar muito, emotivamente, para conseguir algo que se veja. Mesmo que mau.

Passar para além do visível, do tangível, e materializa-lo sob forma de letras ou enquadramentos é das coisas mais difíceis que conheço. Que o mais que faço, por muito que tente que não seja, mais não é que fotocopiar o que me cerca.

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Suburnanidade estival



Não chove nem faz sol. Neste momento.
Está um daqueles tempos que, convidando-nos a andar na rua em mangas de camisa, nos desaconselha a andar com elas arregaçadas. Aragem, quase que nem se dá por ela na pele ou nas folhas, de tão imóvel que está o ar.
Por isso mesmo, entretido que tenho estado com outras letras e grafias que não estas que vedes, tenho mantido as janelas abertas. Não de par-em-par, que algumas são triplas, mas o suficiente para que os fumos dos cigarros se não acumulem e que o exterior dê um ar da sua graça cá dentro.
Lá fora, do outro lado da praceta e longe do tráfego automóvel, algumas crianças brincam na rua. A escola acabou e agora, de tarde, nada como dar vazão ao esforço de crescimento ósseo e muscular. Incluindo o pulmonar.
P’las paredes da praceta, mesmo que do outro lado, vão subindo os seus gritos e risadas, sons reconfortantes e que contrastam com outros mais habitualmente ouvidos por aqui. Entre parágrafos ou ideias, encosto-me um nico e fico a senti-los.
E, por entre o bru-à-à jovial, sobressai uma exclamação violenta:
“Dá cá a carteira, miúdo! Dá cá a carteira senão espeto-te!”
Assusto-me. Como não poderia deixar de ser. E, antes ainda de me poder levantar da cadeira, as frases repetem-se, com o mesmo volume e entoação: “Vá! Dá cá a carteira, miúdo! Dá cá a carteira senão espeto-te!”
Corro à janela. Quem estaria, aqui e assim, a assaltar tão descaradamente? Poderia eu, da minha distante janela, fazer algo?
Por entre as ramagens das árvores (que os garotos brincam do lá de lá delas, no parqueamento) já só os vejo a eles e só oiço as suas risadas. Nem ameaças nem algum “matulão” a fazer das suas.
Mais não fora que uma brincadeira entre eles, repetindo, como boas crianças que são, o que vão vendo e aprendendo na vida real e nas televisões.
Mas o “miúdo” e o “espeto-te” não aparece nas televisões, nem cedo nem tarde. Vem das vivências tidas, de algum episódio assistido ou tido na primeira pessoa. E repetidas, meio de escárnio, meio de exorcismo.
Tempos vão em que os policias e ladrões, ou índios e cowboys, não iam tão longe, tão assustadoramente próximos de uma realidade que gostaríamos que fosse ficcionada.

Deixei-os lá onde estavam.
Incapaz de retomar as ideias interrompidas, fui retemperar animicamente com um café, ali a meio da rua.
Regressei com uns sapatos que lá deixei, com a certeza de que quando for tomar a bica depois de jantar já por lá não estarão.

Mesmo que o tempo não mude.

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Pesadelos



Quando acordei, marcava o relógio uma e pouco da manhã.
Ainda no escuro, e aconchegando-me, perguntei-me: “Que raio?”
Não tinha ainda dormido tudo, sentia-o, o corpo não me pedia nenhuma urgência, não me cheirava a queimado… “Que raio!?”
Eram mesmo raios. E trovões. E fora um destes, suponho, que me acordara.
Levantei-me e fui espreitar à janela. Adoro ver trovoada, que me reduz à minha insignificância perante a natureza.
Mas àquela hora não me apetecia muito. Até porque se começara seca, logo passou a copiosa chuva, bem vertical porque sem vento. Grossa, de se ouvir bater na chaparia dos carros.
“Não quero disto”, comentei com o meu umbigo, que não trazia botões. E voltei p’ra cama.
Tempo depois voltei a acordar.
A luz entrava, coada, pelas persianas. Fraquinha mas continua. E o corpo pedia acção. Semi-urgente. Satisfi-lo e espreitei de novo pela janela.
O céu estava escuro, pesado. E chovia. Não copiosamente como antes, mas chovia desapetecidamente. Convidativo a qualquer actividade que não vertical.
Ainda cirandei um nico p’la casa, satisfazendo alguma curiosidade mundial ou social, mas continuei a não querer. O tempo lá fora incomodava-me de sobremaneira. E voltei para a cama. “Pode ser que passe!”
Quando voltei a acordar, a parede em frente a mim tinha riscas aos quadradinhos pronunciadas. Apetitosas. Convidativas.
Saltamos – eu para um lado, as cobertas para o outro – e fui verificar.
“Certo! Esta noite sonhei com mau tempo! É o que faz ir para a cama quase logo a seguir a jantar.”


By me