sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Antônio Conselheiro



Toda a história tem pormenores originais, uns divertidos, outros não tanto.
A fotografia aqui exibida é de António Conselheiro, um activista político-religioso que liderou um movimento ao estilo dos “sem-terra” no Brasil, no final dos anos oitenta do séc. XIX.
Ficou o movimento, e a guerra, conhecida por “A guerra dos Canudos”. E que terminou com aquilo a que se pode chamar de “massacre” dos “revoltosos” por parte do exército Brasileiro.
Nada tem de especial isto. Aconteceu um pouco por toda a parte ao longo dos tempos.
O que é realmente original é ter sido o líder, que morreu na véspera do combate final, ter sido desenterrado duas semanas depois para ser fotografado. Essa fotografia foi feita pelo fotógrafo brasileiro Flávio de Barros, ao serviço do exército.
O objectivo de tal macabro registo foi o divulgar a imagem pela imprensa nacional com o fito de demonstrar que o político e santo (ou vice-versa) mas rebelde, estava morto e, com ele, o movimento.

Há quem seja ”morto” nas fotografias (apagado delas) para que não haja provas públicas da sua envolvencia nas situações retratadas.
Esta intervenção fotográfica é, para mim, única na história.
Descoberta num pequenino livro sobre a história da fotografia no Império brasileiro, levantou-me suficientes desconfianças na sua veracidade a ponto de ter procurado outras fontes que o confirmassem.

Estranho mundo o nosso, o dos fotógrafos!

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Oh poder



Eu sei que é uma repetição.
Há algum tempo encontrei, fotografei e exibi algo de muito parecido (igual?).

Mas não apenas adoro a mensagem subjacente, que subscrevo na íntegra, como fiquei fã de isto ter sido escrito numa parece mesmo em frente de um centro de poder, ali para os lados do jardim Constantino, em Lisboa.

By me 

Livro de elogios



Tratava-se de uma daquelas lojas a que chamo de “inutilidades”.
Não havia nenhum motivo especial para espreitar pela montra, mas uma caixas/malas existentes no interior aguçaram-me o apetite: talvez que fosse uma delas a solução para ter arrumados os meus aparelhos de medida de luz. Não eram, pese embora serem bonitas.
Mas, já que ali estava, dei uma olhada pelo resto da existência que, neste tipo de loja, por vezes, encontram-se coisas bem interessantes. E fui dando uns dedos de conversa com a empregada. Pelo que percebi, também ela desejosa de conversar, que o negócio está fraco.
Até que dou com o aviso de terem o “livro dos elogios”, mesmo ao lado do aviso do “livro de reclamações”. Já conhecia a ideia, de uma reportagem televisiva, e pedi-lhe para fotografar a capa. O que ela, simpaticamente, acedeu.
Ali estive um nico, a tentar encontrar um enquadramento que me satisfizesse. Quando guardei a câmara no bolso perguntou-me ela, que tinha estado a observar a função:
“Então? Conseguiu?”
Não tinha eu feito nenhum negócio, pelo que não tinha motivo para usar o dito livro. Mas, mesmo que tivesse, qualquer vontade de o fazer se diluiria ao ser posta em causa a minha capacidade em fazer o diacho da fotografia.
Indo um pouquinho mais longe: tinha ela estado preocupada, e tentado ajudar-me com o posicionamento do livro. Explicava ela que a sua capa brilhante reflectiria as luzes do tecto. Talvez que, na sua boa-vontade, não saiba que mostrar esses reflexos aparentemente incómodos é uma forma de mostrar a matéria de que é feita a capa. Na sua ausência, ficar-se-ia sem saber se seria brilhante se mate. Da mesma forma que aquele “clip” no topo, que ela gentilmente quis retirar para o “boneco” lhe atribui uma indicação de escala. Tal como o ar dela meio estranho ao ver o que lhe mostrei, com a capa não inteira, me deu a entender que, do seu ponto de vista, o ideal teria sido eu ter usado de um scanner, mantendo integral a geometria do livro. Claro que se perderia por completo a perspectiva de proximidade e o mostrar que estivera ele, o livro, nas minhas mãos ou lá perto.
Não será esta uma fotografia convencional. E a minha dificuldade foi conseguir colocar num formato horizontal aquilo que é vertical. E não será, certamente, uma imagem digna de um qualquer prémio ou publicação em livro de honra.

Mas, que raio: eu não queria fazer uma imagem para um qualquer catálogo. E um qualquer estranho perguntar-me se consegui fazer a fotografia deixa-me pouco satisfeito.

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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

E depois há aqueles dias...



Saio do trabalho com a sensação de, apesar de ter sido honesto no que fiz, dando o meu melhor, terá sido um esforço inútil. Melhor: fútil.
Maquinalmente inicio o trajecto para casa. Afinal, e apesar da hora, há muitas que estava a pé. E isso, somado a um aborrecimento fenomenal, fazia o corpo aspirar ao “lar, doce lar” e a cama que mais tarde me haveria de acolher.
Mas o aborrecimento épico de que sofria não era o suficiente para me impedir de pensar: “Raisparta! Nem sequer levas uma fotografia p’ra casa? Sai e faz uma!”
E, obedecendo à consciência, que costuma ser boa conselheira, saí do comboio ainda em Lisboa e comecei um pequeno passeio a pé.
Nada! Nadica de nada. O mundo estava lá para ser registado mas eu não o sentia. O aborrecimento fatal estava a dar conta de mim. A juntar à festa, começou a cair uma chuvinha miudinha, chata, que não justificava o enfiar-me num café (deixara o guarda-chuva em casa) mas que ia molhando tudo: boné, casaco, barba…
Mandei tudo às urtigas e procurei a paragem de autocarro mais próxima que me levasse aos comboios. Há dias em que não adianta.
Mas a que encontrei estava tão cheia quanto vazia estava a rua de autocarros. Mais: as pessoas começavam a olhar umas para as outras, em tom de desafio, dando a entender: “Não te chegues p’ra te protegeres da chuva que daqui não saio!”
Foram as gotas de água! Molhado por molhado, não quero estes por parceiros de viagem! E parti a pé, mesmo debaixo de chuva. Já não aborrecido mas antes chateado: comigo, com as gentes, com o trabalho, com a chuva, com a água no chão…
E foi a olhar para o chão, tentado fugir das poças na calçada, que dei com estas, insuspeitas numa zona “nobre” da cidade.
Animei. “Afinal, nem tudo está perdido!”, pensei. De caminho em caminho, de rua em viela, ainda fui dando ao dedo. A luz não prestava, mas eu havia acordado. E aquilo que, meia hora antes haveria de me escapar, agora já não escapava.
Quando a caminhada estava longa, e os cigarros curtos, vou por estes.
Entro num centro comercial e sou surpreendido com a informação que deixaram de ter tabacaria. Nem sequer uma reles máquina automática.
Parto para outro, onde não contava entrar. Comprei o que queria e, já que ali estava, fui meter o nariz numa livraria onde raramente entro.
Surpresa!
Estavam parcialmente em saldos e acabei por sair com cinco livritos de fotografia, comprados quase mais barato que a chuva que caía lá fora. Quase mais baratos cada um que um maço de cigarros. E os livros não se queimam!
“Certo! Agora está a dar-me a fome!”, disse de mim p’ra mim. E abeirei-me de uma daquelas lojas de franshising. No lugar de ir jantar em casa, jantaria ali e, em lá chegando, seria directo p’ra cama, que a alvorada será cedo.
E quando apresento um cartão para ser acrescentado mais um consumo, que me daria descontos quando completo, sou informado que está já completo e que o jantar é de borla. Grátis mesmo!

Creio que os espanhóis têm razão, quando dizem que não gostam de bons começos.
E se ainda tivesse alguma dúvida, perdê-la-ia hoje:

Quando a consciência recomenda algo, por invulgar ou estranho que seja, segue o conselho. Bate sempre certo!

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Reacções



Reacção dos meus vizinhos Gauleses quando o meu despertador toca às 3.30 para obrigações laborais.

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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Tarde de sol



Há quem rejubile com dias como os de hoje, em que o sol nos brinda com a sua pujança após longos tempos cinzentos e molhados.
Tenho aversão a estes dias!
Que a maioria dos que encontro caminham de olhos semi-cerrados, meio-incomodados com o brilho já não habitual. E alguns chegam mesmo a desencafuar os malditos óculos de sol, impedindo-me de ver e fotografar o que gosto.


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Desabafo

Há pessoas que se um dia morderem a língua morrem envenenadas.
Eu diria que é problema delas.
O pior é enquanto tal não sucede, caramba!

Nota extra: um destes dias penduro uma barra de sabão azul e branco com um dístico: “sabão especial para bocas imundas”.
.

Finalmente



E quando, finalmente, conseguimos lá chegar…

Uau!

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Efeméride

Interessante mesmo é constatar que em dez anos de bloguisses, a completarem-se muito em breve, tenho já mais de 6.000 entradas publicadas.
Neste espaço onde me lêem, noutros que mantenho em paralelo, ou noutros ainda que o tempo e as conveniências comerciais fizeram fechar.

 .

Autómatos



Nos meus tempos de catraio, os divertimentos não eram nem melhores nem piores: eram diferentes!
Começava por haver menos variedade. O que, entre outras coisas, levava a que cada um fosse conhecido até ao tutano, sendo a satisfação não só a antecipação do que sabíamos ser bom como também a confirmação de que gostávamos daquilo.
Um dos divertimentos que tínhamos era… a banda dos macacos.

Em aparelhos de vidro, como até há uns tempos existiam as gruas para tirar um brinde a troco de uma moeda (que raramente se tirava), existia uma espécie de um estrado onde se alinhavam uma variedade de macacos, cada qual com o seu instrumento.
Ao colocarmos a moeda (que já nesse tempo se usava o esquema de “sacar o dinheiro” aos incautos), a boa da banda começava a tocar uma música (não me recordo de quais, mas sei que variavam). Em boa verdade, os bonecos apenas mexiam mecanicamente, sendo a música produzida pelo estranho e misterioso mecanismo interior. Mas isso nem interessava aos catraios que nós éramos.

Estes e outros autómatos podem ser vistos no Museu do Autómato, (Museu d'Autòmats del Tibidabo) no parque de diversão de Tibidabo, em Barcelona. Já não têm o sistema de moeda, apenas um botão para os accionar, mas estão num maravilhoso estado de conservação. Recomenda-se a quem vá para aquelas bandas Ibéricas.

Hoje, nas lojas e cafés, o que há de mais parecido visualmente, são estes bonecos de plástico, vendidos como extra a acompanhar uns doces de características suspeitas e a preços quase proibitivos para crianças gastarem. Apelativos porque menos comuns, são objecto de atenção durante os 15 a 20 minutos até a “magia” passar ou surgir outro apelo, na mesma montra ou noutra ao lado.

Sem música e sem magia.

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Obituários



Não há órgão de comunicação social que não fale da morte de Coluna.
É, como tudo o resto, uma questão de critérios editoriais.
Já sobre o que acontece, todos os dias, nestes contentores e já de noite fechada, antes de passar o carro da câmara…

Talvez porque haver gente a comer o que retira dos contentores do lixo seja tão banal que não mereça uma linha ou imagem.

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Encoste



“Encoste! Pare o carro! Encoste aqui mesmo!”
O meu tom de premência e imposição foi tal que o motorista de táxi, olhando para mim pelo retrovisor, largando o que tinha na mão, assim fez. Encostou na berma. Melhor dizendo, encostou à direita onde podia que, no caso, significava ficar em segunda fila, ao lado de outros carros devidamente estacionados.
“Pronto!”, disse eu olhando para os olhos dele através do espelho. “Agora que estamos parados, pode continuar a sua conversa ao telemóvel. Não me importo de esperar uns trinta segundos para que possamos seguir em segurança para onde lhe pedi que fôssemos. Sabe, por muito importante que seja o seu telefonema, a minha pele é-o muito mais!”
Se os seus olhos, reflectidos no espelho pendurado do tecto do carro, disparassem, eu teria sido transformado em passador.
Terminou abruptamente a conversa, depois de recuperar o telemóvel que havia atirado para o banco do pendura, e seguimos.
Os solavancos a que fui sujeito naquele táxi, por via de travagens bruscas e curvas pouco regulamentares, foram bem esclarecedoras da sua opinião sobre a minha atitude.

Que espero que não esqueça!

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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A moedinha



Olhei para o espelho e concluí, epicamente, que estou condenado à morte.
Há mais de meio século que estou condenado à morte.
A questão é saber se espero que algo ou alguém sobre isso decida ou se trato eu do assunto, onde, quando e se me apetecer.

Há decénios que ando a jogar cara-ou-coroa sobre isso.

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Comodismos



Quase ao fim do dia, regresso a casa.
A estação de caminho-de-ferro em que queria embarcar estava cheia. Realmente cheia.
Cheia de gente no cais de embarque, a maioria com aquele ar de quem irá bater-se a sério por um lugar sentado ou, em alternativa, por um mais cómodo em pé.
Entrar já seria uma luta contra eles. Viajar então…
Olho para os painéis indicadores dos próximos comboios suburbanos. Aquela linha em quero ir para casa tem-nos de 15 em 15 minutos. Para os dois lados. E está a chegar um para o lado oposto.
Decido-me!
No fim de contas, não tenho pressa. Mas estou cansado.
Embarco em sentido contrário e desembarco duas estações depois.
Quando chega aquele que me haveria de levar até casa, vem quase vazio, como eu o sabia. Subi tranquilamente, pude mesmo escolher qual o melhor banco, com a melhor luz (vital para mim) e não sujeito aos encontrões de quem ficasse de pé na coxia.
Percorri o trajecto, embalado pelo chocalhar da composição, meio a dormitar, sempre informado dos locais por onde passávamos.
Não, não foi neste cais que embarquei. Este é em sentido contrário, duas estações depois. Que leva sempre um tempinho a decidirmo-nos a tirar a câmara do bolso e prepará-la para “disparar” através do vidro.

A modorra veio depois, com aquela sensação de um dia de trabalho cumprido e uma fotografia feita.

By me 

Looking back



Excerto da obra “Modos de ver” de John Berger.
Editado por “Edições 70”, na colecção “Arte e comunicação”, Lisboa, 1999


“(…)
Uma imagem é uma vista que foi recriada ou reproduzida.

É uma aparência, ou um conjunto de aparências, que foi isolada do local e do tempo em que primeiro se deu o seu aparecimento, e conservada - por alguns momentos ou por uns séculos.

Todas as imagens corporizam um modo de ver. Mesmo uma fotografia. As fotografias não são, como muitas vezes se pensa, um mero registo mecânico. Sempre que olhamos uma fotografia tomamos consciência, mesmo que vagamente, de que o fotógrafo seleccionou aquela vista de entre uma infinidade de outras vistas possíveis. Isto é verdade mesmo para o mais banal instantâneo de família. O modo de ver do fotógrafo reflecte-se na sua escolha do tema. O modo de ver do pintor reconstitui-se através das marcas que deixa na tela ou no papel. Todavia, embora todas as imagens corporizem um modo de ver, a nossa percepção e a nossa apreciação de uma imagem dependem também do nosso próprio modo de ver.

(Por exemplo, Sheila pode ser uma entre vinte pessoas; mas, por motivos pessoais, só temos olhos para ela.)

As imagens foram feitas, de princípio, para evocar a aparência de algo ausente. A pouco e pouco, porém, tornou-se evidente que uma imagem podia sobreviver àquilo que representava; nesse caso, mostrava como algo ou alguém tinham sido - e, consequentemente, como o tema havia sido visto por outras pessoas. Mais tarde ainda, a visão específica do fazedor de imagens foi também reconhecida como parte integrante do registo. A imagem tornou-se um registo de como X tinha visto Y.

Constituiu isto o resultado de uma crescente tomada de consciência da individualidade, acompanhada de uma crescente consciência da história. Seria ousado pretender datar com rigor este último avanço. No entanto, pode afirmar-se com certeza que esta consciência existe na Europa desde o início do Renascimento. Nenhuma outra espécie de vestígio ou de texto do passado nos pode dar um testemunho tão directo sobre o mundo que rodeou outras pessoas, noutros tempos. Sob este aspecto, as imagens são mais rigorosas e mais ricas que a literatura. Esta afirmação não nega a qualidade expressiva ou imaginativa da arte, como se a considerássemos uma mera prova documental; quanto mais imaginativa é a obra, mais profundamente nos permite compartilhar da experiência que o artista teve do visível.
Ainda assim, quando uma imagem é apresentada como obra de arte, o modo como as pessoas olham para ela é condicionado por toda uma série de pressupostos adquiridos sobre a arte. Pressupostos que se ligam a:

Beleza
Verdade
Génio
Civilização
Forma
Estatuto Social
Gosto
etc.

Muitos destes pressupostos não se encontram já ajustados ao mundo tal como ele é (o "mundo tal como ele é" é mais do que um puro facto objectivo: inclui também a consciência). Em desacordo com o presente, estes pressupostos obscurecem o passado. Mistificam, em vez de clarificar. O passado nunca está pronto a ser descoberto, reconhecido, exactamente como foi. A história reconstitui sempre uma relação entre um presente e o seu passado. Por consequência, o medo do presente conduz à mistificação do passado. O passado não serve para se viver nele; é uma mina de conclusões que utilizamos para agir. A mistificação do passado arrasta consigo uma perda dupla: as obras de arte tornam-se desnecessariamente remotas; e o passado dá-nos menos conclusões a completar com a acção.


Quando "vemos" uma paisagem, situamo-nos nela. Se "víssemos" a arte do passado, situar-nos-íamos na história. Quando nos impedem de a ver, estamos a ser privados da história, que nos pertence. A quem lucra esta privação? Ao fim e ao cabo, a arte do passado vem sendo mistificada porque uma minoria privilegiada se esforça por inventar uma história que possa justificar retrospectivamente o papel das classes dirigentes e porque tal justificação já não faz sentido em termos modernos. Por isso, inevitavelmente, mistifica.
(...)

By me

domingo, 23 de fevereiro de 2014

!



Só para que conste, hoje é domingo magro.
E, para quem não sabe, este é o que antecede o domingo gordo, o do Carnaval.
Saiba-se também que, e de acordo com fontes geralmente mal informadas, o próximo domingo foi suprimido devido a fortes restrições orçamentais.
Costumam reunir-se, ali para os lados de São Bento, os responsáveis por tal situação.

Também consta que hoje estão ali para os lados do coliseu de Lisboa.

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Sem enganos



E que ninguém se engane!
Este solzinho apetitoso, que provoca estas sombras simpáticas, numa manhã de domingo é o que acontece fruto de uma rara abertura de nuvens.
Pesadas são elas, escuras algumas, agourando alguns aguaceiros que não creio que venham amenizar o frio que se sente na leve brisa que corre.
O São Pedro tem, sem dúvida, um sentido de humor maior retorcido!


E, se bem conheço os meus vizinhos de bairro, acredito que aqueles contentores de lixo, esvaziados foram ontem antes de os cantoneiros entrarem de folga, estarão cheios logo à noite.

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Da arte



Um pedaço do livro "a prática da arte"
de Antoni Tàpies
Aqui poderá ver um pouco o que é a Fundacio Antoni Tàpies, em Barcelona, claro: http://www.fundaciotapies.org/site/spip.php?rubrique66

"
...
A arte é uma fonte de conhecimento, tal como a ciência, a filosofia, etc., e a grande luta empreendida pelo homem para ir ajustando a sua concepção da realidade - que é o que o enaltece e torna livre - não pode prosperar se se manipularem ideias que já foram concebidas e realizadas anteriormente. As formas caducas não podem conduzir a ideias actuais. Se as formas não são capazes de ferir a sociedade que as recebe, de a irritarem, de a impelirem à meditação, de fazerem com que ela veja que está atrasada, se não estiverem em ruptura, então não são uma autêntica obra de arte. Perante uma verdadeira obra de arte, o espectador deve sentir-se obrigado a fazer um exame de consciência e a pôr em dia as suas velhas concepções. O artista deve fazer com que ele compreenda que o seu mundo era estreito, e deve abrir-lhe novas perspectivas. Isto é: deve levar a cabo uma autêntica obra humanista.
Quando o grande público encontra plena satisfação em determinadas formas artísticas, é porque essas formas já perderam toda a sua virulência.
Onde não houver verdadeiro impacto, não haverá arte. Quando a forma artística não é capaz de provocar o desconcerto no espírito do espectador e não o obriga a mudar de forma de pensar, não é actual.
..."



Imagem: "Personatge amb gat", Antoni Tàpies, 1946

A fotografia do dia



Esta é a minha fotografia do dia de hoje.

Não tem detalhes? Bem, alguma coisa tenho que guardar p’ra mim, não?

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sábado, 22 de fevereiro de 2014

Coisas que me fazem sair do sério



Cruzar-me com um vizinho no prédio, dar-lhe a saudação e, em troca, receber coisa nenhuma.
Creio que vou adoptar, para estes casos, a mesma técnica que uso quando sou ultrapassado numa fila:
Rapo da câmara e peço para fazer uma fotografia, com o ar mais prazenteiro, tranquilo e beatífico do mundo. E justifico, depois de feita, que gosto de fazer o registo de quem não me saúda morando no prédio (ou me ultrapassa na fila).

Sempre quero ver as reacções!

By me

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Saiba-se:
Eu não quero estar em luta!
Quero, isso sim, estar em felicidade e bem estar e tê-las espalhadas em redor.

Mas se para isso tiver que estar em luta…
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Communards



A comuna de Paris aconteceu em 1871.
A fotografia era novidade, então, e os fotógrafos aproveitaram o ensejo e vieram para a rua, com os seus equipamentos muito pouco práticos, fazer o registo da sublevação e das barricadas.
Os revoltosos, orgulhosos das suas posições, deixaram-se fotografar. Coisa que nunca aconteceria em circunstâncias normais.
O que consta na imagem é o que sobrou de alguns dos communards, depois das polícias terem revistado os estúdios e laboratórios dos fotógrafos. Executados.

Pergunto-me o que sucederá em Kiev.


Imagem: by Disdéri, 1871

Títulos



Leio um artigo engraçado.
Aparentemente existe um diferendo entre uns serviços municipais e a ordem dos engenheiros, já que esta detectou existirem naquela pessoas que usam o título de “engenheiro” sem estarem inscritas na ordem.
Acrescenta ainda que se trata de uma “usurpação de funções”.
Por seu lado, a entidade municipal afirma que “não tem autoridade para desfazer usos sociais respeitosos”.
Pergunto-me, no meio desta discussão quase fútil, se é mais importante a posse de um título se a competência para desempenhar as funções. Tal como me pergunto sobre o tamanho do ego de quem assim se faz tratar.
E pergunto também se tratar alguém por um título académico ou funcional, como Dr., Eng., Arq., Ministro, Director, Meritíssimo, demonstra mais respeito pelo assim intitulado que pelos clássicos e igualitários Sr. e Srª.?
Como se ter um título académico tornasse alguém mais importante…
E recordo uma pequena história, já com uns anitos valentes:

Encontrava-me com os alunos a montar equipamento técnico num local que não a escola para a realização de um evento académico importante. O meu papel era, para além de ter feito a definição técnica das necessidades, o supervisionar o que ia sendo feito por eles, intervindo onde e se necessário, corrigindo algum erro ou acrescentando conhecimentos onde faltassem.
Tudo corria pelo melhor quando uma senhora, que para além do cargo honorífico que ocupava tinha, ao que sei, um doutoramento no currículo, me veio confrontar com um eventual comportamento menos correcto por parte da “maralha”.
Discordei de tal opinião e defendi quem lá estava. Com o vigor de saber que eram os “meus” e que neles não se toca impunemente.
O interessante foi a conversa ter divergido, a dada altura, dos comportamentos para os títulos. Insistia ela em me tratar por Dr., e insistia eu que não o era, já que não tinha sequer frequência universitária, quanto mais um doutoramento.
Este esgrimir de posições travestido de conversa polida e educada (recordo ter sido das poucas ocasiões na vida em que usei fato e gravata) durou uns minutos. Poucos.
Claro que venci o “embate”. Não sei se por ela ter percebido da injustiça das acusações e da minha posição firme a esse respeito se por ter entendido que o mero facto de possuir um título académico e uma posição honorífica não era suficiente para ter razão. E lá se afastou com o cabelo armado e pintado que ela usava para lhe acrescentar uns centímetros extra que não possuía a abanar qual cauda de cavalo.
Tenho para mim que somos iguais por toda a eternidade que foi e será. O que nos diferencia neste interregno a que chamados de ”vida” são actos e pensamentos.

Que títulos e diplomas se compram, a peso, na universidade da esquina.

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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O intruso



Quase dez da noite.
Vou à varanda, despedir-me do mundo antes de ir conversar com Morfeu.
Lá em cima, o céu estrelado e frio rivaliza com as luzinhas que emanam das janelas em redor da praceta lá em baixo, muda e queda. Que não há aragem nem carros por perto.
Do outro lado, talvez que daquela árvore frondosa que afronta a floresta de betão, um pássaro saúda a noite vigorosamente. Do lado de lá dela, na outra praceta, um cão responde-lhe.
E repetem por três vezes as saudações ininteligíveis.
E calam-se, tão de súbito e sem razão como haviam começado.
Não reconheci o pássaro pelo som. O que não é importante, já que também não identifiquei a raça do cão.

Não tive vontade de acabar o cigarro. Nem de fotografar. O intruso era eu.

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E quando o feitiço se volta contra o feiticeiro…



Sabemos que viver na urbe implica avaliações e concessões. Em particular no que respeita ao partilhar a via pública entre peões e automóveis: os passeios são para os peões, o asfalto para os carros.
Zonas mistas são as passadeiras.
Nestas prevê-se que o peão tenha a prioridade, devendo o automóvel parar.
Por mim, não levo isto à letra.
Se tenho tempo, ou vejo vir dois ou três carros e nenhum atrás, afasto-me da beira do passeio e deixo os carros passarem. É bem mais fácil para mim esperar uns míseros cinco ou dez segundos que para os carros pararem.
Mas tenho também um outro hábito: em parando um carro para que eu passe numa passadeira e em passando eu à sua frente, faço um aceno de agradecimento. Não tenho que o fazer, mas sabe-me bem e sei que quem conduz gosta.
Hoje foi o contrário.
Queria eu atravessar a rua nesta mesma passadeira. Aproximei-me da sua beira e vejo que se aproxima uma carrinha com uma grua, daquelas de reparar os candeeiros.
Vinha rápido e nenhuma outra viatura a seguia.
Dei dois passos atrás, afastando-me do asfalto e parei.
A carrinha, que tinha ligeiramente abrandado, acelerou de novo, passando.
E à passagem, o motorista, velhote e careca, acenou-me com um gesto largo de agradecimento.

É bom ver que não ando por aí sozinho na cidade.

By me 

Meio metro



Tem meio metro!
Garanto que tem meio metro!
Meio metro de diâmetro!
Tem meio metro de diâmetro este cano.
Ou melhor: Aquele cano de revolver de calibre.38 tinha meio metro de diâmetro!

Mas comecemos pelo princípio:
Estávamos no primeiro Outono da revolução. E uma revolução significa isso mesmo: tudo muda e se revolve. E se houve coisas onde aconteceram mudanças foi com a gente mais jovem e com a educação.
Até então o ensino era sexualmente segregado. Se hoje se pretende que exista educação sexual nas escolas, a grande vitória de então foi os estabelecimentos de ensino passarem a ser mistos, rapazes e raparigas lado a lado.
No início daquele ano conturbado de 74/75 juntaram-se aqueles dois liceus, um masculino, outro feminino e redistribuíram-se os alunos em função das moradas e dos melhores acessos à escola. Aconteceu nestes dois, como em todos os outros pelo país.

Claro que foi a grande confusão, com toda a gente sem saber onde estava colocada, entre muitas outras coisas que não se sabia. A confusão, diga-se de passagem, estava mais nas cabeças dos pais e encarregados de educação, que nas dos alunos.
Para nós, o mundo era um cubo e havia que o deixar redondo como vinha nos livros. Havia inúmeras arestas para limar, superfícies a polir, mas isso não nos assustava. Nunca nos tínhamos “cortado” nas ferramentas e o trabalho não nos intimidava.
Todos queríamos fazer algo. A mim tocou-me estar na recepção de um dos liceus, com as listas dos dois. Com um mapa ao lado, ajudava aqueles alunos e pais que estavam meios perdidos com localizações e transportes. E não eram tão poucos quanto isso…

Num desses dias de entusiasmo e confusão, surge um pai de uma rapariga. Consultada a lista, verifica-se que ficou colocada no antigo liceu masculino. O pai não aceita. Diz que ele (o liceu) tem má fama e que não quer lá a filha.
No que diz respeito à fama, até que tinha alguma razão: eu próprio tinha ajudado a construi-la. Mas tudo isso era história passada. Com a nova organização de alunos e professores, tudo iria ser diferente.
Mas aquele pai não havia forma de ser convencido. De jeito algum. Deveria haver muita confusão naquela cabeça e naquelas vidas. Ele era peremptório e nada o demovia. O tom da conversa subiu, começaram a juntarem-se mais alunos em redor, o homem foi-se enervando ainda mais…
Até que mete a mão ao bolso e saca de um revolver. Como a conversa era comigo, calhou-me em sorte ser o alvo daquele cano.
E garanto: a vinte centímetros dos olhos, um .38 tem meio metro de diâmetro!
Claro que a situação não durou muito! Rapidamente foi submergido pela maralha que nos cercava, foi desarmado e ainda levou uns “encostos”. E constatou-se que a arma, afinal, estava descarregada! Mais ou menos como estava o meu ânimo e interior depois de uma situação daquelas.

Mas o homem tinha que ser esclarecido. E a filha tinha mesmo que ir para o tal liceu.
Passado um pouco, todos mais serenos e sem a intervenção da tropa que aparecia por ali volta não volta, acabei por ir no carro dele mostrar-lhe o tal liceu, que eu bem conhecia, numa visita guiada.
Acabei por não conhecer a filha dele nem me recordo da sua idade ou do ano que cursava.

Mas fiquei a saber que um revolver.38, a vinte centímetros, tem meio metro de diâmetro.

By me

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Um texto d'arquivo



Tenho um relógio!
Na verdade, tenho muitos relógios espalhados pela casa, em funcionamento ou não. De pilha, de corda, de bolso, de parede, de pulso, de areia, de sol, autónomos ou inseridos em algum equipamento…
Para a panóplia estar razoavelmente completa, faltam-me, entre outros, uma clepsidra, uma vela graduada, um de cuco…
Mas, para o caso, o que interessa é este relógio.

Possuo-o há trinta anos. Foi comprado a um companheiro de trabalho que “ganhava uns cobres por fora” com artigos de contrabando. Alguém se recorda das Inoxcrome? Suponho que possa falar disso agora, que os prazos legais já prescreveram.
Comprei-o por ser automático. Ainda que seja de corda, não necessita que rodemos o “pinchavelho” para que trabalhe. Possui um pequeno mecanismo no interior que, com o simples movimento do braço põe a mola sob tensão e o sistema a funcionar. Prático.
Claro que se o deixarmos em repouso por uns dias, pára. Nada que, ao tornar a usar, meia dúzia de safanões não resolvam a coisa.

O mostrador não possui números. Mas também não fazem falta.
Quando olhamos para um mostrador de um relógio, poucas se algumas serão as vezes em que queremos saber ao certo que horas são, com o rigor da hora, minuto ou segundo.
Aquilo que procuramos saber é, de facto, quanto tempo passou ou falta para um dado acontecimento. Se estamos atrasados ou adiantados. Se iremos esperar ou ser esperados. Se a nossa impaciência tem ou não razão de ser.
Se perguntarmos a alguém pelas horas, logo a seguir a esse alguém ter olhado para um relógio, o mais certo é essa alguém olhar de novo, que não fixou o valor mas apenas a relativização do tempo. E não sabe que horas são.

O facto de este relógio ser de pulso não me agrada em particular. Sentir o braço preso por uma correia, ou seja o que for preso seja com o que for, desagrada-me.
O tipo de relógio que gosto de usar é de bolso. Não apenas não me prende em coisa nenhuma quando trabalhamos, como não nos preocupamos com a água nem nos estraga os punhos das camisas.
Acontece que os relógios de bolso têm alguns inconvenientes para mim. Ou bem que são mecânicos, de corda e volumosos, parecendo mais armas de arremesso que aparelhos de medida de tempo, ou, para serem de tamanho e peso reduzido, são de preços incomportáveis. Em alternativa, são de pilha. Tenho vários destes.
Mas a pilha gasta-se e, as mais das vezes, acabo por não ter paciência para procurar uma nova. E, cada vez mais, os relojoeiros não querem vender pilhas mas relógios novos! E descartáveis! Descartáveis como o tempo!
Por tudo isto, vota e meia lá estou eu a usar por uma temporada este velhinho relógio de pulso, fiel como poucos.

Tem uma enorme vantagem sobre os demais que possuo: Desde que o adquiri, que se adianta regularmente uns vinte e tal segundos por dia. Não se trata de um defeito, mas antes de uma desafinação. Mas que demonstra a sua qualidade, já que se mantém inalterável há trinta e tal anos.

Mas, dirão alguns, assim nunca sabes ao certo as horas!
Pois não! Mas se, por um lado, não é importante sabê-lo, por outro ou bem que chego no momento aprazado ou então adiantado. Nunca atrasado.
Ou seja, trata-se de um aparelho de medida pouco rigoroso e que me satisfaz por completo no seu funcionamento.


Talvez porque a vida não é exacta nem tem bitolas!.

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Talvez porque



Talvez por estar de chuva e já termos saudades dela;
Talvez por ser dia vinte, quinta-feira, e sabemos como são raras;
Talvez porque os bons agouros não são de fiar;
Talvez porque um quilo de sal num copo de água resulta em extrema saturação…

Hoje melhor seria não ter saído da cama, fosse a que horas fosse. 

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Há uns dias alguém se queixava por ter sido acordado a meio da noite com o chilrear da passarada.
Fica aqui o recado: pode mandar esses aqui para os meus lados, para fazerem coro com os que por cá também vão celebrando a vida.

É óptimo sair de casa ainda noite fechada e assim ser saudado!
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"Imagem fotográfica"



No constante fazer de imagens do quotidiano, as que são normais, regulares, habituais, vão-se desvanecendo, como papel fotográfico mal fixado, restando delas contornos vagos e imprecisos.
Do que recordo de há 40 anos, para além da festa da revolução por si mesma (o fim da guerra, da censura, da ditadura, da polícia política, o regresso da democracia) ficam as imagens da festa do quotidiano!
Cada dia era um dia, razoavelmente imprevisível e em que as suas consequências dependiam, em boa parte, do que fizéssemos. Não deixávamos o futuro em mãos alheias e intervínhamos, a cada passo, nos que a nós dizia respeito e no que ao colectivo tocava.
Construíamos! Debatíamos! Sonhávamos! Fazíamos!
É esse espírito de construção permanente, de almejar mais e melhor e de fazermos por isso (sem esperarmos que outros o fizessem por nós nem que para eles passássemos as responsabilidades de tal) que recordo com mais força. São fotografias perfeitamente impressas e fixadas que jamais se desvanecerão. Apesar dos aspectos negativos (que os houve) que aconteceram então e que ainda hoje marcam parte da nossa vida.
No espelho do tempo vejo aquilo que agora faço porque aconteça: intervir na sociedade, estando lá de corpo e alma, melhorando o que de menos bom vamos tendo e celebrando o que de alegre e positivo existe.
Mas quando olho para trás e para o lado, lamento sinceramente que esta atitude interventiva que então grassava se tenha desvanecido, qual imagem velha e mal cuidada.
Quando, daqui por 40 anos, olharmos para as imagens deste tempo que vivemos, o que sobrará serão imagens cinzentas ou amareladas, mal fixadas e amarfanhadas.

Porque nesta sociedade, a alegria de ser passou a alegria de ter. E o consumismo dos tempos que correm transforma de um dia para o outro a novidade em velharia, pouco restando para recordar. As fotografias que então fizemos com a alma repassam no tempo. As que hoje vamos fazendo, porque venais e efémeras, não sobreviverão à vertigem das novas novidades para consumir!

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

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Uma vez mais os partidos do governo propõem leis ou actividades à margem da lei fundamental.

Não tem dúvidas: este governo é o campeão da inconstitucionalidade! .

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Perdidos e achados



Encontram-se em tudo quanto é lado.
Mesmo nas linhas de caminho-de-ferro.

A minha dúvida é só esta: como raio foi para casa?

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As primeiras



são sempre as melhores.

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Contestação



Seria interessante ver os media nacionais dedicarem às contestações nacionais o mesmo nível de empenho que estão a dar às contestações na outra ponta da Europa – Ucrânia.
Mas também seria interessante ver as contestações nacionais com o mesmo vigor e convicção que estamos a ver lá.

Que, enquanto nos limitarmos a umas passeatas, uns cartazes e uns discursos, é garantido que nada mudará!

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A roupa



Zonas há, de qualificação “superior”, em que é interdito o colocar objectos nas janelas. Mesmo aparelhos de ar condicionado têm que estar escondidos.
Esta norma dos condomínios inclui o estender da roupa a secar.
Claro que este impedimento obriga a possuir máquinas de secar roupa, com o que isso implica de consumo energético. Suportado pelo utilizador e por todos nós, já que do ponto de viste ecológico, nada tem de barato.
Por mim, sou radicalmente contra isso!
Por um lado, a questão arquitectónica nada tem de polémica: depois de feito e entregue ao cliente, o edifício pertence ao seu proprietário e utilizadores. O urbanismo de autor ou de secretária não se pode sobrepor à utilização e evolução que os cidadãos dão ao que é seu.
Por outro, muito naturalmente, a questão ecológica. Mesmo que com energias alternativas e renováveis, as torres eólicas ou as barragens transfiguram a superfície e os ecossistemas.
Por fim, a questão pessoal: gosto de ver as roupas a secar (ou corar) ao sol. Dão brilho e cor às fachadas, dão vida ao frio das vidraças e ao neutro dos betões e fazem transbordar para o exterior as vidas pessoais.
Em tempos, as roupas só eram lavadas às segundas-feiras. Que o domingo era dia da família e da missa e não se faziam estas coisas. As mulheres, trabalhando em casa, dedicavam o dia seguinte a tal actividade.
Hoje as roupas são lavadas quando possível, quando os dias de folga que já não coincidem com o domingo permitem e o São Pedro dá um ar da sua graça e ajuda a secar roupa. De cama, de banho, mesa ou de trabalho.

Acresce-se que o lavar e estender roupa a secar já não é actividade exclusivamente feminina. Quem se passeie por bairros não “finos” verá homens e mulheres, de todas as cores e idades, a fazer o que há de mais natural: cuidar do ninho.

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