sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Coragem



Sou um herói!

Consegui deixar de fumar um montão de vezes hoje!

By me

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Quando saí daquele taxi já passava das duas da manhã. E o meu desejo em o fazer era bem grande. Enorme.
Não tanto pelo adiantado da hora e o natural desejo de me recolher. Afinal, ao fim de tantos anos vamos estando habituados.
Era mesmo porque me incomodava o estar dentro daquele táxi com aquele motorista.
Com trinta e dois anos, começara ele o trajecto a queixar-se de como isto está mau, de como já quase não há clientes e a agradecer-me por aquele serviço lhe “salvar” a noite de trabalho. E depois evoluiu nos temas normais: de quem é a culpa, que “eles” nos estragam a vida, que devíamos correr com “eles”… o costume.
A certa altura disse-me que nunca tinha votado. Que não acredita “neles”, que “eles” são todos farinha do mesmo saco, que “eles” não contassem com ele para os lá pôr.
Ainda o questionei sobre que fazia ele para melhorar o estado de coisas e correr com “eles”.
“Nada”, disse-me. “Eles não prestam e eu não faço nada.”
Chateie-me. À séria.
Um tipo que não gosta da governação do país e do rumo que toma, que nada faz (em democracia ou fora dela) para alterar o estado de coisas e que passa o tempo a queixar-se do que “eles” fazem… Não tive paciência para tal!
E disse-lhe que uns quantos, há quarenta anos, tinham arriscado o pelo para que ele pudesse votar. Que não participar da vida pública (dentro ou fora da democracia) retira-lhe o direito de protestar. Que não participar, seja como for, é deixar que sejam os outros a decidir da vida dele. Que se ele nada fizer de melhor pela sua vida não tem que esperar que os “outros” o façam. Que aquilo que nada fizer hoje sobre o futuro é o que vai deixar de herança aos seus filhos. Que se não gosta de nenhum “deles” o melhor é ir ele mesmo para lá e mudar as coisas.
Não adiantou de muito. A “corrida” não era tão grande assim que permitisse muita argumentação. E ele estava de pedra e cal: “Nunca o fiz, não faço e não farei! Eles não prestam e não contam comigo!”

É um facto que a democracia em que vivemos está podre. Mas não gostar do sistema e nada fazer para o mudar, modificando-o ou substituindo-o, é aceitar passivamente os destinos que outros traçam da nossa vida.
Talvez que fosse do adiantado da hora depois de uma jornada dura. Mas não gostei de ser levado para casa por uma ovelha que sabe estar a ser levada para o açougue, que não gosta e que nada faz que não berrar no caminho.


By me

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Ano Chinês



Parece que se inicia agora o ano chinês do Cavalo.

Nada de comemorações!

By me

Etiqueta



Aquela dúvida:

Será que alguém realmente lê o que consta nas etiquetas da roupa ou, como eu, usa-as apenas para saber qual o lado de dentro da cueca?

By me

Vinganças



Qualquer um entende e concorda que prender alguém contra sua vontade é uma maldade. Nalguns casos, pode mesmo ser considerado um crime.
No entanto a sociedade, através da justiça que aplica as leis desejadas pelos cidadãos e definidas pelos deputados, considera a pena de prisão algo correcto, legal, passível mesmo de ser suportado pelos contribuintes.
Mas, analisemos as justificações para pena de prisão. Ou, se se preferir, analisemos o motivo de aplicar justiça.
Por um lado para que o infractor à lei aprenda que o que fez é um erro.
Por outro para que, e no decurso do cumprimento da sua pena, aprenda formas de ser um cidadão útil e integrado na sociedade.
Por outro lado ainda, e no caso de crimes particularmente graves, a sociedade não quer o criminoso no seu seio e a condenação a pena de prisão é forma de o excluir.
Por fim a vingança. É banal ouvirmos a populaça à porta de um tribunal quando decorre um processo, com o qual nada têm a ver nem como vítimas nem como testemunhas, clamarem por penas pesadas, afirmando “ainda é pouco” ao saberem do veredicto.
Mas também sabemos que a vingança é um sentimento feio, mesmo quando “servida fria”. E ensinamos isso às crianças. Pese embora os livros sagrados de diversas religiões considerarem que a vingança divina é natural e correcta.
E vive-se naquela contradição de considerarmos algo como maldade, a menos que provenha de deus.
Ora se a vingança é uma maldade (e o ensinamos às crianças) e se a privação de liberdade é uma maldade (mesmo que a termo certo), a justiça e os seus códigos são maldades sob a forma de lei. E o ser humano, que concebe como lei o fazer maldade, é um ser maldoso.

Por vezes tenho vergonha de ser um humano e de viver entre humanos!

By me

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Estratégias



E aquele fulano era tão magro, mas tão magro mesmo, que em chovendo não se molhava: passava entre os pingos da chuva.

Eu, que de magro pouco tenho, uso outra estratégia: passo entre os aguaceiros.

By me

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- E porque é que uma chávena de chá quente, num dia frio, bebida à janela, é prejudicial à visão?

- Porque não tiraste os óculos, seu parvo!
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Vejo um portfolio on-line de um candidato a profissional da fotografia.
Do ponto de vista técnico nada de especial a apontar. Do ponto de vista estético estão normais. Nem me espantam nem me incomodam. Excepto…
Decidiu o autor inserir nele imagens de reportagem de um qualquer evento que contou com a presença de Pedro Passos Coelho. Não sei quantas imagens terá feito, mas a maioria das que apresenta desse evento contam com a presença desta pessoa.
Duvido muito que, nos tempos que correm, estas imagens sejam um bom cartão de visita para angariar clientes. Excepto se procurar clientes do clientelismo.

Desejo-lhe boa-sorte no futuro profissional. Mas que não conte comigo para o recomendar.
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Dia não



Hoje parece ser dia não!
Não acredito nos líderes mundiais. Não acredito nos líderes nacionais. Não acredito nos líderes partidários. Não acredito nos líderes sindicais. Não acredito nos líderes.
Amanhã também será dia não.
E continuará a ser até encontrar um – um só que seja – que demonstre por actos reais que o seu objectivo é em prol dos cidadãos e não da elite a que pertence.

E pouco me importa que carimbo tenha: esquerda, direita, cima ou frente.

By me 

Amarelo



Eis como poderia apresentar-se um quadro de resumo das diferentes funções e significados da cor amarela na cultura ocidental, tal como são invocados nas entradas deste dicionário.

1) Cor da luz e do calor;
A mais luminosa das cores; pinta-se de amarelo aquilo que tem que se ver bem (bola de ténis);
Nos seus desenhos, as crianças pintam a luz sempre de amarelo (portas ou janelas iluminadas);
Cor do sol, das férias, ligadas aos tempos livres. Contrário do cinzento, da vida quotidiana (cf. Publicidade).

2) Cor da prosperidade e da riqueza:
Antigamente, as espigas de trigo, os cereais, símbolos da riqueza;
O ouro, os tesouros, as moedas. Assimilação amarelo/ouro;
Cor dos ricos e dos poderosos (cor do imperador na China);
Camisola amarela no primeiro classificado na Volta à França (Na origem deste amarelo está a do jornal L’Auto, que organiza a competição).

3) Cor da alegria, da energia:
Gosto das crianças pela cor amarela;
Medicamentos tónicos, fortificantes: de cor amarela ou alaranjada.

4) Cor da doença e da loucura:
Cor da bílis das doenças do coração, da acidez (amarelo/esverdeado);
Cor do enxofre (má reputação);
Cor da loucura (associada ao verde), pelo menos a partir do séc. XIII; cor da extravagancia e do disfarce.

5) Cor da mentira e da traição:
Cor de Judas e da Sinagoga (Idade Média);
Cor imposta aos Judeus (estrela amarela), aos excluídos e aos reprovados;
Cor dos traidores, dos cavaleiros desleais, dos falsos moedeiros (no séc. XVI as suas casas eram pintadas de amarelo);
Cor dos fura-greves, dos trabalhadores que atraiçoam em favor do patronato;
Cor dos maridos enganados (já atestada no séc. XVII.

6) Cor do declínio, da melancolia, do Outono:
Tudo o que é “amarelecido”.



In: “Dicionário das cores do nosso tempo”, por Michel Pastoureau, 1992, Editorial Estampa, Lisboa, 1997

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

MEO



Lá que reduzam os salários, ainda é como o outro: afinal, parece que andámos a viver acima das nossas possibilidades.
Que diminuam as pensões dos reformados até que faz sentido: no fim de contas, morrer é certo e é só uma questão de saber quando.
Que o tempo de espera nas urgências aumente também não é nada de grave: pensando bem, quem está doente não vai trabalhar, pelo que não há que ter pressa para nada.
Que este governo seja o campeão em quantidade de manifestações de protesto…  qual é o problema? Algum teria que ser, não?
Agora que venham mexer com o display do meu telemóvel, alterando o que lá está escrito e passando de TMN para MEO sem saberem se o quero… isso já é um abuso intolerável!

Se concordas que isto é inadmissível partilha.

By me 

Gafes



Comentário de Fantasio, colega de Gaston Lagafe, depois de ver a sua folha de vencimento e sem saber que o intercomunicador estava directamente ligado ao gabinete do patrão.


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Chavalo



Por vezes gostava de ter um gato. Ou um cão. Ou mesmo um periquito ou um cágado. Até poderia ser um peixinho vermelho.
Assim, poderia alimentar as redes sociais com fotografias, mais ou menos bem conseguidas, destes animais. E sem ter que ir “palmar” fotografias feitas por outros.
Mas gosto demasiado de animais para considerar a possibilidade de ter algum preso em casa.
Sendo certo que eu não gostaria de estar preso com autorização de sair duas vezes por dia e a quase que obrigação de gostar do meu carcereiro, também não o imponho a ninguém. Humano ou não.

Este é o “Chavalo”, que conheci solto na Jardim da Estrela, e que me fez o especial favor de se deixar fotografar.



By me

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Voltando à questão das manifestações e revoltas na Ucrânia:
Porque motivo vão tendo estas a cobertura mediática que têm, quando a primavera árabe teve a que teve, das revoltas abafadas no golfo pérsico quase nem se falou, sobre as contestações na Alemanha e na Itália também cai um véu pudico e o referendo catalão também é alvo do veto quase total?
É o “politicamente correcto”, de novo, a imperar nos media?

Terá algo a ver com as orientações políticas dos líderes dos movimentos contestatários ucranianos?
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As coisas que nós aprendemos



Tentando compensar uma razoável dose de amargura que ontem me invadiu, que se mantém animicamente mas que racionalmente quero dissipar, pensei hoje virar-me para coisas doces. Se possível.
E fiz a imagem que se vê.
Mas as ideias andavam com pouca consistência e fui dar uma olhada em conceitos e definições para lhes encontrar solidez. E dou com isto:

Hipócrates, o pai da medicina no século IV a.C., formulou a teoria humoral acreditava que a bile amarela estava associada com a raiva (humor colérico) enquanto a bile negra estaria associada à melancolia. Essa foi a teoria sobre funcionamento das emoções e é aceite até hoje pela medicina oriental e alternativa. Segundo ele, associando a bile amarela, bile negra, sangue e fleugma, respectivamente, ao fogo, terra, ar e água, esses humores predominariam em determinada estação do ano, isto é, verão (bile amarela), outono (bile negra), primavera (sangue) e inverno (fleugma). O desequilíbrio desses humores era considerado a fonte de todas as doenças.

Saiba-se também que a bílis amarela tem origem no fígado, a bílis negra no baço e que a fleuma são os sucos do sistema respiratório, excluindo as “cacas do nariz e o fluido da tosse. Já o sangue, creio que é do conhecimento generalizado.

Em jeito de acrescento, aqui fica o juramento de Hipócrates, que será aquele a que os médicos se submetem antes de iniciarem a profissão. Dele há várias versões, umas mais arcaicas, outras mais politicamente correctas aos tempos que correm. Esta parece ser a mais fiel ao texto original:

“Juro por Apolo médico, Asclépio, Hígia, Panacéia e todos os deuses e deusas, e os tomo por testemunhas que, conforme minha capacidade e discernimento, cumprirei este juramento e compromisso escrito:
- considerar igual a meus pais aquele que me ensinou esta arte, compartilhar com ele meus recursos e se necessário prover o que lhe faltar; considerar seus filhos meus irmãos, e aos do sexo masculino ensinar esta arte sem remuneração ou compromisso escrito, se desejarem aprendê-la; compartilhar os preceitos, ensinamentos orais e todas as demais instruções com os meus filhos, os filhos daquele que me ensinou, os discípulos que assumiram compromisso por escrito e prestaram juramento conforme a lei médica, e com ninguém mais;
- utilizarei a dieta em benefício dos que sofrem, conforme minha capacidade e discernimento, e além disso repelirei o mal e a injustiça;
- não darei, a quem pedir, nenhuma droga mortal, nem recomendarei essa decisão; do mesmo modo, não darei a mulher alguma pessário para abortar;
com pureza e santidade conservarei minha vida e minha arte;
- não operarei ninguém que tenha a doença da pedra, mas cederei o lugar aos homens que fazem isso.
Em quantas casas eu entrar, entrarei para benefício dos que sofrem, evitando toda injustiça voluntária e outra forma de corrupção, e também actos libidinosos no corpo de mulheres e homens, livres ou escravos.
O que vir e ouvir, durante o tratamento, sobre a vida dos homens, sem relação com o tratamento, e que não for necessário divulgar, calarei, considerando tais coisas segredo.
Se cumprir e não violar este juramento, que eu possa desfrutar minha vida e minha arte afamado junto a todos os homens, para sempre; mas se eu o transgredir e não cumprir, que o contrário aconteça.

Que os deuses vos sejam propícios e que o dia vos seja doce.


By me

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Câmaras

Há a câmara fotográfica, a que alguns dão bom uso.
Há a câmara municipal de que alguns abusam.
Há a câmara frigorífica que todos sabem para que serve.
Há a câmara anecoica de que poucos sabem a utilidade.

Há a câmara onde se coloca a bala, de que todos sabem a utilidade e a que em muito breve há que começar a dar uso.

By me

Ilegal



A coisa é assim:
Pagamentos relacionamentos com o estado? Via transferência bancária.
Devoluções por parte do estado? Via transferência bancária.
Receber salário? Via transferência bancária.
Contrato de prestação de serviços básicos? Pagamento via transferência bancária.
Utilização de auto-estradas ou ex-scut? Pagamento via transferência bancária.
Prémios de jogo da Santa Casa da Misericórdia? Pagamento via transferência bancária.
Espera lá!
Onde está escrito que para me relacionar com uma qualquer entidade, oficial ou particular, tenho que ter um contrato com um banco?
Esses tais bancos cujas dificuldades estamos a pagar através dos nossos impostos? E de cujos lucros não beneficiamos?

Será que o dinheiro, notas ou moedas, é ilegal?


By me

Legitimidades



A coisa parece-me ser medianamente simples.
Tenho um contrato de trabalho.
A minha parte nele é trabalhar dentro das condições acordadas: zelo, assiduidade, competência, etc.
A parte do empregador é pagar-me por isso.
Se eu não cumprir, no todo ou em parte, o que me toca neste contrato, é legítimo o empregador fazer o mesmo: pagar-me menos ou mesmo correr comigo.

E se o empregador não cumprir o seu lado, no todo ou em parte? Não será legítimo eu não cumprir aquilo que acordei? No todo ou em parte?

By me 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Oh chefe



Certo! Não gosto que me tratem por “Oh chefe!”
Porquê?
Bem, esta expressão, tal como a “Oh patrão!” acabam por ser uma negação de superioridade da pessoa a quem se dirige.
Era usada por subalternos e escravos libertos quando, dirigindo-se aos ex-patrões/chefes ou donos, lhes queriam fazer ver que já não o eram e que os papeis se tinham invertido.
Tratar alguém por “chefe” ou “patrão” não o sendo é, com uma expressão auto-submissão, afirmar o contrário.
Fazer um pedido a um desconhecido usando um vocativo deste género, é transformar um pedido numa ordem.
E quando um desconhecido assim me pede um cigarro está a tentar “ordenar-me” que o dê. E não gosto!
Dou o que quero, quando quero e se quero. Ordens ou ameaças travestidas de pedido, mesmo que sub-reptícias, comigo não funcionam.


By me

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Não sei se alguma vez terei lido um graffity tão importante quanto este

By me

Diaphoto



Fotografar é medianamente fácil. Olhamos para o assunto, gostamos do que vemos, a luz é do nosso agrado e apontamos a câmara. E deixamos o controlo de exposição aos automatismos.
Alguns, não muitos, interpretam ou avaliam as indicações do exposímetro da câmara, seguindo as usas indicações ou conjugando as leituras com a análise da luz existente, bem como das reflectâncias dos elementos na imagem.
Mas… e antes de haver forma de avaliar e medir a luz através da câmara? Como era?
Usavam-se aparelhos de medida, manuais e externos: fotómetros ou exposímetros.
A diferença entre os termos (e sei que o segundo é estranho) está nas leituras que neles podemos fazer. Os fotómetros indicam-nos a quantidade de luz em “foot-candle”, ou “candela por pé quadrado”, havendo alguns que usam outra unidade, o “Lux”. Dessa leitura, e conjugada com a sensibilidade do material de registo luminoso, deduz-se tempo e abertura. Através de cálculos complexos ou, o que é generalizado, usando uma escala de correspondências integrada no aparelho.
Por sua vez o exposímetro apenas nos dá valores de exposição, ficando o seu utilizador sem saber a quantidade de luz. Profissionalmente usam-se os primeiros, que nos permitem fazer outros tipos de interpretação.
Grosso modo, destes aparelhos de medida existem dois tipos: os que, ao receberem a luz geram energia eléctrica que é quantificada ou os que, em recebendo a luz se tornam resistentes à passagem de energia eléctrica, resistência essa igualmente quantificada. Nos segundos, é necessário fornecer a energia, em regra usando pilhas ou baterias.
Ambos os sistemas têm vantagens, sendo que os últimos são mais exactos quando existem tipos de luz com temperaturas de cor extremas, muito altas ou muito baixas: muitos azuis ou muitos vermelhos.
Mas… e como faziam os fotógrafos antes destes sistemas existirem? Como mediam a luz ou calculavam a exposição?
A experiência, fruto de tentativa e erro, era a pedra de toque. Consta que alguns fotógrafos, aquando do surgimento dos aparelhos de medida de luz, mesmo depois de os usarem ajustavam as leituras obtidas às suas próprias experiências visuais e de laboratório. Convenhamos que o rigor seria diminuto, mas a satisfação por se obter o efeito desejado seria grande, certamente.
Mas existia outro sistema que, ainda que dependesse da experiência do seu utilizador, era um auxiliar precioso: o extintómetro.
O seu sistema de funcionamento era relativamente simples: Olhando-se por um orifício, fazia-se deslocar à sua frente uma cunha fumada, cuja transparência ia da máxima até à opacidade. Quando o observador deixasse de ver parte do assunto, parte essa que dependia da calibração feita pelo fabricante, consultava-se a tabela do aparelho para se saber a relação tempo-abertura em função da sensibilidade.
Método estranho e de rigor bem duvidoso, mas na época fotografar, mais que uma ciência, era uma arte ou artesanato, com tudo o que isso implica.

Ao longo da minha vida havia visto apenas um aparelho desses. Em óptimo estado de conservação, ainda razoavelmente rigoroso, pertencia a um companheiro de andança fotográficas e lectivas. Que nunca se deixou convencer a vender-mo, ofertar-mo ou mesmo deixar-se “roubar”. Quando ia a sua casa, ficava eu a admira-lo, se não estivesse sacramentalmente guardado numa gaveta.
Há uns tempos, numa feira de velharias no Jardim da Estrela, dou com um. Ao preço pouco mais que simbólico de 15 euros. Confesso que se me tivessem pedido 3 ou 4 vezes esse valor, tê-lo-ia dado sem pensar muito.
Nos tempos que correm, nem deu muito trabalho a encontrar referencias. Referencias ao fabricante e data de fabrico, bem como o respectivo manual de instruções.

Para os que ainda pensavam que o jardim da Estrela não é um mundo cheio de surpresas, espero que tenham mudado de opinião.

By me

sábado, 25 de janeiro de 2014

Prato vazio



Jornais e telejornais abriram e deliciaram-se com praxes e parvoíces académicas. Que aquilo que deveria formar adultos com humanidade forma adultos com maldade.
Mas, claro, dos pratos vazios com uma côdea seca de pão não se fala. Talvez porque banal e quotidiano.


By me

Sem título



Foi já há uns bons anos, decorria o meu projecto “Old Fashion” no Jardim da Estrela e fui abordado por duas senhoras catequistas já não sei de que confissão religiosa.
Não costumo ser rude para com estas pessoas. A sua conversa não me interessa por demais e tento afasta-las com a urbanidade que posso e sei. Por vezes recorrendo a estratagemas pouco ortodoxos, mas não rudes.
Desta feita esgotei os que tinha sem sucesso. Eu estava ali “amarrado” à minha câmara montada e elas tinham-me como “vítima” garantida.
A conversa terminou, com vitória para mim, quando lhes apresentei um argumento adequado ao que ali fazia:
“As senhoras prometem a felicidade numa eventual vida após a morte. Da qual não há testemunhos que não a fé. Eu propicio a felicidade, aqui e agora, ao entregar, de borla, fotografias a quem mas pede e provocando sorrisos. Quem, de nós, tem mais sucesso?”
Engoliram em seco, disseram mais uma ou duas coisas e zarparam. Devem ter-me identificado como Belezu encarnado.
Mas o certo é que essa é a minha abordagem.
Podemos e devemos trabalhar para a felicidade futura. Sejam quais forem os conceitos de felicidade e os prazos considerados.
Mas não devemos descurar a felicidade no momento em que vivemos. Não apenas fazendo por ela mas encontrando-a no que somos e temos.
E, principalmente, fazendo com que ela se espalhe, qual epidemia, em redor. Mesmo que em pequenas coisas e por uns instantes.
Como? Depende das circunstâncias, dos envolvidos e das suas capacidades.

Se a vida fosse uma fórmula resolvida…

By me 

Séculos XVIII e XIX



Os grandes confrontos entre exércitos faziam-se com linhas de homens que avançavam sobre o oponente, disparando as suas armas.
Acontece que estas eram de pólvora negra, de carregar pela boca, de um único tiro. Depois de disparadas, haveria que deitar pólvora pela abertura frontal do cano, acrescentar o projéctil, calcar tudo com uma vareta e garantir a existência do sistema de ignição na câmara: inicialmente por pederneira, mais tarde por fulminante.
Disparava a primeira linha, avançava a segunda para disparar enquanto a primeira iniciava o remuniciamento, avançava e dispara a terceira enquanto a primeira terminava o carregar da arma, avançava a primeira…
Quando a distância entre as linhas adversárias era muito pequena, passava-se à luta corpo a corpo, de espada ou baioneta, esta colocada na ponta do cano da espingarda ou mosquete.
Mas se este avanço era táctico, para tomar uma posição inimiga, estes estariam equipados com canhões. Que eram municiados também pela boca da arma. Mas que disparavam sobre as linhas inimigas que avançavam, dizimando-as as mais das vezes.
Neste tipo de confronto bélico, a primeira vaga de assalto tinha uma taxa de sobrevivência diminuta, menos de dez a vinte por cento, ao que sei.
E era a esta vaga, conjunto de três linhas, que se dava o nome de “carne para canhão”. Que se sabia ser dizimada pelos canhões inimigos e que era o preço para que as linhas seguintes chegassem ao corpo a corpo.

Hoje a pólvora negra é usada apenas em espectáculos pirotécnicos. As armas de carregar pela boca (mosquetes, revolveres de acção simples ou canhões) já não são mais que peças de museu. E a carne para canhão já não se espalha pelos campos de batalha da mesma forma.
Mas continua a existir, a carne para canhão.
Às ordens dos generais dos mercados e dos marechais da política, a carne para canhão somos nós, que vamos tombando nos campos de batalha económicos, vítimas das ofensivas bancárias e geopolíticas.
E com a ilusão da “doce morte do herói” continuamos a marchar armados de notas, moedas, contratos e consumos.
Os generais de hoje já não têm estrelas nos ombros, não vestem de caqui nem possuem cavalos brancos.
Mas nós continuamos a alimentas essas guerras, caindo na frente de combate às ordens desses que não saem dos gabinetes estratégicos.
Continuamos a ser a sua “carne para canhão”.
Até que um dia espetemos no chão as baionetas, deitemos fora as munições e enterremos as carteiras com notas e cartões.



Imagem: “Harvest of death”, de Timothy H. O’Sullivan, 1863, Gettysburg, USA
By me

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Do uso do tempo



Para ir para casa tenho que ir de comboio.
Nada de especial com isto. Somos uns milhares muito valentes a fazê-lo diariamente, só na minha linha, um subúrbio de Lisboa. Imagine-se no mundo.
Por vezes regresso a casa já noite fechada.
Também nada de especial aqui. Quem anda nas linhas de caminho-de-ferro sabe que somos muitos que regressam a casa de noite. Uns vindos do trabalho, outros já bem mais tarde, vindos de outras andanças.
Já me aconteceu adormecer no regresso a casa. É raro e há muito que não sucede. Talvez porque deixei de ter uma vida a dobrar, regrando agora as horas de sono que necessito. Mas é banal encontrar quem adormeça de cansaço. Tal como não é estranho haver uma alma caridosa que, ou porque conhece a pessoa ou porque o comboio chegou ao fim da linha, vá acordar o dorminhoco. Já me aconteceu dos dois. Tal como já acordei vários.
O que é particularmente raro (para mim uma estreia) é ir tão entretido a pensar, infelizmente não em coisas boas, que quando dou por mim já tinha passado duas estações da minha. Há sempre uma primeira vez para tudo e esta foi a minha.
Resultado: mais de meia hora perdida, entre o trajecto extra para lá, o trajecto de regresso e o esperar por uma composição que me devolvesse ao local certo.
E que faz um tipo nestas circunstâncias, numa estação exemplarmente vazia?
Conta os postes, fuma um cigarro, verifica quantos autocarros esperam o iniciar da carreira, observa o lento caminhar dos ponteiros do relógio público, confronta a sua exactidão com o que se tem no pulso, fuma um cigarro, faz uma fotografia, testa a friagem dos bancos de pedra, alonga-se num lento caminhar no deserto cais de embarque… Inventa o que quer que seja para assassinar o tempo assim perdido.
Ou não tanto.

Que não há tempos pedidos mas tão só qualidades no seu uso.

By me 

Mezinhas



Aprendi isto com um velho parente, falecido há muito.
Trabalhava ele numa estamparia e serigrafia e estava encarregue das artes gráficas.
Para além dos desenhos por ele criados e do tratamento que dava aos que lhes eram trazidos pelos clientes, era também ele que se encarregava de todo o processo de abrir os quadros de seda que haveriam de permitir a impressão das tintas. E isso implicava técnicas de fotografia e laboratório, de muito rigor, incluindo o trabalho de retoque. Aquilo que hoje se faz em minutos num computador, levava então horas, quando não dias, a fazer.
E era também ele que tratava de fazer os químicos que usava.
Nada de comprar as fórmulas já feitas. Nem pensar. Comprava a hidroquinona, o bórax, o metol, óxido de prata e o que mais fosse necessário e misturava-os ele, seguindo ou não a fórmula original de acordo com as necessidades: sensibilizar as sedas, positivos, fotolitos…
Passei eu lá, nessa fábrica, algumas semanas de verão, em vários anos, agarrado à guilhotina a cortar galhardetes, etiquetas e o mais que ali se fazia, para ganhar uns trocos para as férias. E, nos entretantos, ia aprendendo este ou aquele truque do ofício.
Um deles referia-se a um mal de que muito boa gente sofre nesta altura do ano e que não sabe bem como tratar: frieiras.
Pois contou-me esse parente que para tratar as frieiras (sem ferida aberta) nada como revelador de película, já gasto.
Faz-se uma “boneca” com algodão e gaze, embebe-se nesse líquido e, gentilmente, vai-se aplicando nas zona a tratar. Deixa-se assim ficar uns quatro a cinco minutos, após o que se deve lavar bem com água tépida e sabão. Uma vez de manhã, outra à noite. Em três a quatro dias está o assunto resolvido.
Nunca precisei eu de tal remédio. Frieira é “coisa que não me assiste”.
Mas recomendei a várias pessoas e, das que tinham acesso a revelador, disseram-me que funciona.
Mezinhas antigas, artesanais, sem haver que recorrer a médico ou curandeiro. Com a grande vantagem de reciclar os químicos usados. Ou, pelo menos, dar-lhes mais um uso antes de serem descartados.

Não creio que hoje as frieiras se curem com cartões de memória ou macros de photoshop.

By me 

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Um dia bato em alguém!
Não me refiro àquele ataque de raiva momentânea em que, confrontado com um ultraje ou ignominia nos descontrolamos e mais nada se nos ocorre que a agressão física.
Não!
Refiro-me a, ponderadamente, sair de casa com a decisão firme de ir agredir alguém. Agredir à séria, violentamente. Até que esse alguém não tenha já quase forças para respirar. Um agredir, bater, violentar-lhe a integridade física até que a raiva que venho acumulando ao longo dos últimos anos se desvaneça, naquela certeza de que aquele, pelo menos aquele, não continuará a fazê-lo.

Um dia bato em alguém e terei prazer nisso!

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Grito



“Viva a revolução!”
“Viva a luta operária!”
“Por uma sociedade igualitária!”
“Unamo-nos em prol dos desfavorecidos!”

Adoro ver estas e outras frases na boca daqueles que, ao afirmarem-no, dizem de seguida e para dentro:
Mas não no meu quintal!
Mas não dos meus rendimentos!
Tenho que ir dormir!
Lutemos sim, mas eu fico na retaguarda!

Se eu fosse deus, acabava com o umbigo! Assim, estes já não tinham o seu para onde olhar em exclusivo.


By me

Saudade



Só porque me apeteceu recordar o meu projecto “Old Fashion”, o “ofício” de photógrapho À-Lá-Minuta, os três anos que durou e o que eu ali aprendi.
Em termos fotográficos, em termos humanos, em termos legais, em termos sociais…
Saudade é um termo português. Tenho saudades deste projecto.
Felizmente, e por motivos de ordem técnica, não poderei colocar de novo em execução.
E digo felizmente porque recriar o passado é tarefa absurda. Que as condições nunca são as mesmas, as expectativas grandes e as desilusões mais que frequentes.

Fica-me a memória do que foi. Que a Photographia também é “para mais tarde recordar”.

By me 

Crime e recursos



Naquele almoço a conversa recaiu sobre um tema já batido: os jovens que morreram na praia do Meco, levados pelo mar.
Alargou-se a conversa, até porque as sensibilidades eram várias, e falou-se também daqueles que arriscam a vida dos outros: pescadores e automobilistas. E alguém alvitrou que as penas de multa deveriam ser bem mais pesadas para aqueles que, à revelia das instruções das autoridades, avançam para situações de risco. No caso do mar, os custos das buscas e salvamentos são incomportáveis numa sociedade como a nossa.
Com uma certa dose de radicalismo, mas sincero na opinião, disse eu que esses casos, a serem punidos, não o deveriam ser com multas. Que há quem tenha dinheiro para as pagar e ficar a rir-se.
Por mim, e a verificar-se a infracção, seria pena de prisão efectiva – semanas ou meses – não remíveis a dinheiro. Que a privação de liberdade é igualitária nas condições económicas dos infractores.
E se as penas aplicadas pelos tribunais servem para que o infractor aprenda uma lição, umas semanas de prisão são bem mais eficazes que uma qualquer multa.
A resposta que ouvi deixou-me literalmente siderado! “Não há recursos para prender tanta gente”.
Ora batatas!
Não é importante que os criminosos ou infractores aprendam a não o fazer ou ser. O que conta, mesmo, é o custo da sua reintegração social. E, em não havendo recursos para tal, transforme-se o crime ou infracção em fonte de receita do estado.
Suponho que, na douta opinião de quem comigo partilhava a mesa, esta seja uma solução para baixar o deficit, reduzir a dívida pública e fazer regressar o país aos mercados.

Assim sendo, proponho de novo uma ideia antiga:
Actue-se em conformidade com lei e autuem-se todos os veículos que, ilegitimamente, estacionam nos passeios e passagens de peões, impedindo-lhes a sua livre e segura circulação.

Pelas contas que fiz, há uns dois ou três anos, uma única patrulha policial apeada, em Lisboa, renderia aos cofres do estado num ano a módica quantia de dez milhões de euros.

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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Iconógrafo



Em regra, os fotógrafos andam de um lado para o outro, em busca do melhor assunto, da melhor paisagem, para fazerem a sua arte.
Alguns desses trabalhos são de cortar a respiração.
Eu gostava de ser assim: de poder ir para onde me apetecesse, fotografar aquilo que quero, sabendo que irei encontrar a luz boa de que gosto sobre assuntos que me cativam.
Mas não posso. Por este ou por aquele motivo não posso. Tempo para as deslocações, forma de me deslocar, custos… não posso.
Vai daí, aos poucos, encontrei uma outra forma de fazer fotografia. Não será espectacular, não será de cortar a respiração com as luzes, cores, paisagens ou modelos… mas asseguro que correspondem ao meu estado de alma no momento em que a faço e no momento em que a trato.
Por vezes estou num qualquer lugar, banalíssimo, como uma paragem de autocarro, ou a tomar café ou mesmo num momento de higiene interior. E, de súbito, tenho aquela vontade de ilustrar aquele assunto que me assalta a alma. É um impulso tão intenso quanto a vontade de fumar um cigarro. Ou mesmo bem mais animal: como o de tossir. E até parece que rebento se o não fizer.
E é neste momento que tenho o meu prazer imagético: onde estou, ou num raio diminuto de 30 ou mesmo 100 metros, encontrar algo que corresponda ao que penso ou sinto. E a forma de o fazer.
Muito frequentemente isso é feito com uma câmara de bolso. Que me acompanha para onde quer que vá, sempre pronta a ser usada, pese embora as limitações técnicas que tem. Outras vezes, e tendo comigo a DSLR com todas as suas potencialidades, de uma forma mais elaborada, sendo mais fácil brincar com a luz, quer criando ou recriando ambientes, que usando-a para realçar este ou aquele aspecto.
Depois, há o jogo da perspectiva: de que forma, em função de uma dado pensamento, e dependendo do assunto e das potencialidades técnicas do momento, consigo eu fazer o registo que quero? E quantas vezes, não o sendo possível na altura do disparo, faço-o na mesma sabendo que terei – e como – que o alterar depois para obter o que quero.
E esse depois também é divertido.
Em estando eu tranquilo, sem pressas ou pressões, acontece umas horas mais tarde, em frente do computador que tenho em casa. Dois bons ecrãs (por vezes três) rapidez no processamento, luz ambiente controlada em termos de intensidade, incidência nos ecrãs e cor, o conforto da minha cadeira… tudo como eu o quero.
Outras, a pressa em acabar o que me vai na alma não se conforma com essa espera. E recorro ao meu portátil. Ecrã pequeno, com uma superfície que reflecte com facilidade a luz ambiente, adulterando contrastes e cores. Sentado num jardim, no treme-treme do comboio, acabado de entrar num café, entre dois momentos de trabalho… é onde me apetece e como o consigo fazer.
Não são obras-primas, nem sequer merecem ser expostas numa parede. Por vezes nem mesmo numa rede digital.
Mas uma coisa eu garanto: de um modo ou de outro, divirto-me encontrando soluções fotográficas onde quer que seja, com o que quer que seja.
Mesmo não indo longe, em busca das paisagens, modelos e luzes de cortar a respiração.

Talvez que eu não seja um fotógrafo, mas antes um iconógrafo. Que o que produzo são ícones do que me vai na alma.

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Cultura geral:



Aquilo de que nos lembramos depois de esquecermos o que aprendemos na escola.
Tal como aquilo que nos lembramos quando, confrontados com um problema novo e baseado em parâmetros desconhecidos, conseguimos solucioná-lo.

Por vezes é cultura séria, oriunda de estudos sérios e profundos; outras advém do que vamos lendo nas revistas, na net ou nas curiosidades dos suplementos de fim-de-semana; outras ainda da enorme capacidade de desenrasca, típica de um português.

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Homenagens



Veio o Manuel Alegre falar no assunto e logo, alegremente, uns quantos (muitos) falaram também.
Refiro-me à eventual transladação dos restos mortais de salgueiro Maia para o Panteão Nacional.
Em boa verdade, não necessita.
A Câmara Municipal de Lisboa já se encarregou, há uns anos valentes, de fazer uma homenagem ao homem.
No largo do Carmo, mesmo em frente ao quartel da GNR onde Marcelo Caetano se rendeu em ’74, está uma placa evocativa. É redonda, está mesmo ao nível do chão e nada a faz sobressair do resto da calçada. A ponto de a maior parte das pessoas, que não prestam atenção ao local onde põe os pés, nem se darem por estarem a pisar um dos homens da revolução. Um que deu a cara e o peito e que, em fazendo o que tinha a fazer, regressou a quartéis, deixando a democracia então restaurada ao cuidado dos portugueses.
É, talvez, a mais ignóbil homenagem que se lhe poderia fazer: mesmo que naquele local e mesmo que respeitando a sua modéstia, o quase que apagar a sua memória.
Mas eu não quero que ele seja levado para o Panteão. Se querem respeitar a sua memória, se o querem mesmo engrandecer, então façam como ele fez: lutem e cheguem-se à frente por aquilo em que acreditam, façam por que o país seja melhor e não entregue a uns quantos, por azar eleitos, que mais respeitam interesses bancários que o dos cidadãos.
No Panteão quero ver – e muito rapidamente – os restos mortais daqueles que, mesmo eleitos, estão a transformar o país num centro comercial de serviços, incapaz de produzir riqueza ou ser auto-suficiente, à mercê de jogatinas internacionais e onde os cidadãos nacionais mais não são que carne p’ra canhão numa guerra que não é a nossa.
Se querem homenagear Salgueiro Maia, saiam do vosso sofá e mantenham o país vivo!

Quanto ao resto, este é nome da minha rua. Tendo numa ponta Florbela Espanca e na outra Agostinho da Silva.

Não creio que pudesse estar melhor acompanhado.  

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