sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O adeus



O meu tio Artur, que em boa verdade era meu tio-avô, era uma figura ímpar.
Há diversas coisas a seu respeito que sei ou recordo dele que marcaram o meu próprio percurso de vida. Ainda que só muito depois disso me tenha apercebido.
Uma delas foi o estar, em parte, na origem da minha relação com a fotografia.

Eu era muito pequeno, talvez que ainda nem com dez anos. E fui a sua casa com a minha mãe.
Ele estava muito doente, acamado, e pediu para ser fotografado. Pentearam-lhe os poucos e brancos cabelos que tinha, ajeitaram-lhe o pijama e a dobra do lençol e preparou-se a função.
Entenda-se, como nota de esclarecimento, que o fazer de uma fotografia à época era algo de importante. Que ela, a fotografia, não estava banalizada como veio depois a estar.
Pois no momento imediatamente antes do disparo, levantou ele a mão e acenou para a câmara. E foi assim, dizendo adeus e sorrindo, que foi registado. Pela última vez, já que morreu no dia seguinte.
Assisti eu a tudo isto, ainda que, creio, só alguns dias depois me disseram da sua morte. Mas revejo, como se há pouco, o fazer da fotografia.
Acredito, contra tudo e contra todos, que o meu tio Artur soubesse que aquela seria a sua última fotografia. E, sabendo-o, tivesse querido que fosse simpática, sorridente, acolhedora, como ao que sei e recordo, sempre foi na sua longa vida.
Não sei ao certo onde está essa fotografia. Talvez que num dos arquivos da família. E nem sequer sei alguma vez a tornarei a ver.
Mas o fazê-la, isso, nunca sairá daquele arquivo de imagens que é a minha memória.

Esta madrugada, ao dar uma olhadela rápida nos jornais on-line, gostei do que encontrei. Foi interessante de ver que todos os nacionais retratam Mandela a sorrir.
Não é essa a tónica dominante no resto do mundo, que muitos optaram por fotografias com ar sério, de estadista compenetrado.
Mas os jornais portugueses fizeram questão que a imagem do tema que atravessa o mundo por inteiro fosse um sorriso, muitas com um aceno cordial.
Será, talvez, a melhor homenagem que se lhe poderia fazer.


By me

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