sábado, 30 de novembro de 2013

Leituras (outras)



Era noutros tempos. Em boa verdade, em tempos de má memória.
Mas, mesmo nesses tempos, muito se aprendia e muito serviu de base ao que somos hoje. Aida que nem sempre da melhor maneira.
Uma das coisas que se consumiam em minha casa eram jornais. Não muitos, que o dinheiro não abundava. Não muitos, que a maioria das notícias chegavam-nos após o lápis azul da censura. Mas alguns.
E, durante algum tempo, o Diário de Lisboa fazia a sua aparição em casa regularmente aos sábados.
E se outro motivo não houvesse, as crónicas da “Guidinha”, de Luís de Sttau Monteiro eram lidas com sofreguidão.
Aprendi a lê-las com os adultos. Aquela forma de escrita, sem pontuação alguma que não fosse o ponto final no fim da crónica, era algo que atrapalhava qualquer um a ler.
Mas foi também com isso que aprendi a ler nas entrelinhas, que aprendi o que era a interpretação de um texto para teatro, o que eram outras vidas e censuras que não as do meu próprio bairro e escola.
Os meus professores de Português não gostavam, quando lhes apresentava redacções com as ideias tão intercaladas, tão baralhadas, que poderiam ter mais que uma leitura. E tinham! Excepto uma que tive, de quem eu não gostava nem um nico, mas que ficava a olhar p’ra mim meio de lado e com um muito ligeiro sorriso.
Não creio que aquela escrita ou estilo hoje tivesse o sucesso que teve então. Não há que esconder ideias de censores absurdos, os jornais já não são consumidos da forma que eram e a própria leitura está a perder terreno face às tecnologias de informação.
Mas parar para pensar perante um texto, tentar descobrir-lhe o escondido, rirmo-nos daquilo que não podemos contar fora de portas…
Outros tempos!

Surge esta memória a propósito de um pequeno diálogo tido on-line com alguém que teve a sorte de já não ter que recorrer a esta forma saber as notícias.
No meio de tudo isto, a minha tristeza é nem desconfiar do local onde tenho guardado o livro que re-editou algumas dessas crónicas.

Fica a imagem da capa, palmada da net.

By me

Bilhetes e recados



Creio já ter por aqui contado a estória.
Mas porque o meu olhar caiu agora sobre este alicate obturador da Carris, que está pendurado e bem à vista ali na estante, aqui fica.

Eu teria uns onze anos. Sei-o porque recordo para que escola seguia no autocarro. O autocarro ainda era de dois andares e tudo se passou no superior.
Quando me sentei já a coisa estava quente: o façanhudo do cobrador a exigir o pagamento do bilhete e a chorosa senhora a dizer que se tinha esquecido do porta-moedas em casa.
Não recordo as caras. Mas posso deduzir que o cobrador (aquele que nos exigia o pagar do bilhete e cujo dinheiro, se nos escapássemos, seria gasto em rebuçados ou pastilhas) teria a mala dos trocos em coiro a tiracolo, bilhetes coloridos e alicate numa mão e a outra livre para receber o dinheiro, entregar os bilhetes, accionar a campainha ou dar-nos com o alicate na cabeça quando tentávamos escapar.
Da senhora também não recordo as feições. Recordo, antes sim, o ela ter a mão na sua mala, rebuscando-a sem sucesso. Ela sentada, ele de pé.
E ele ameaçava com o mandar parar o autocarro junto da esquadra para chamar a polícia.
Eu achei que seria possível o deixar o porta-moedas em casa. E achei que a ameaça (pesada e violenta) era demasiado para tal situação.
E, indo buscar coragem onde não a saiba ter, paguei o malfadado bilhete à senhora, usando para tal os tais trocos para rebuçados e pastilhas.
Não sei ao certo que a senhora me terá dito, mas alguma coisa teremos conversado. Recordo, isso sim, que o cobrador se afastou satisfeito e da paragem onde ela saiu, algumas antes da minha.
Tamanha ousadia da minha parte, pirralho que era, ficou guardada em segredo, que não tinha eu coragem para a contar em casa. Segredo inútil.
Algum tempo depois (dias, semanas?) confronta-me a minha mãe com uma carta que estava na caixa do correio, perguntando-me “O que é isto?!”
A carta, endereçada a mim e devidamente estampilhada, era do tamanho de um cartão de visita, que na altura não havia normalização de envelopes ou correio.
E no interior continha um cartão e selos de correio.
No verso do cartão estavam umas palavras de agradecimento da senhora do bilhete. Não recordo quais. E os selos correspondiam ao valor do que eu havia pago.

Esta é daquelas estórias que me estão marcadas para sempre.
Não tanto por aquilo que fiz. Caramba: tenho-me repetido tantas vezes e de tantas formas que esta seria apenas mais uma. Com o eventual destaque de não me recordar de nenhuma anterior e da idade que tinha.
O marcante, garantidamente, foi o gesto da senhora. De quem, infelizmente, não recordo nem nome nem feições. Que me terá perguntado a morada e se deu ao trabalho de assim retribuir.
Já não há bilhetes coloridos com os números das zonas para serem obliterados. Nem cobradores de mala de coiro. Nem alicates pendurados dos dedos.

Mas espero que continuem a existir homens e mulheres como esta que, pelos seus actos e exemplos, continuem a demonstrar aos catraios que a solidariedade não tem idade nem é coisa vã ou do passado.

By me 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Uma mão cheia



Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma.
É como demasiadas vezes me sinto, após uma “bem sucedida” transmissão.
As interrogações interiores são muitas e demasiado complexas para que lhes encontre resposta.

Supondo que têm alguma.

By me 

À sorte



Enquanto tomo a bica matinal, pára em frente da porta esta carrinha.
Dela sai um homem, já na casa dos cinquenta e muitos, que também quer um café, a meu lado. Vestido a rigor, ninguém duvidaria da empresa em que trabalha e que estava de serviço.
E vejo-o, para meu espanto, gastar mais de setenta (70) euros em apostas no euromilhões.
Suponho que este cavalheiro entende que é mais fácil assim tentar resolver o seu futuro que lutar por postos de trabalho e um futuro garantido na empresa em que trabalha e que hoje está em greve.


By me

Fome



Sabemos que os últimos anos têm sido marcados por muitas manifestações, protestos, greves.
Umas são mais concorridas que outras, umas mais mediatizadas que outras. Umas organizadas pelos do costume, outras bem mais fora do sistema.
Mas coisas há que as tem unido: entender como adversários a governação e os legisladores que lhe dão suporte, por exemplo.
Mas também tem sido comum o facto de apenas algumas organizações partidárias marcarem presença. Ou, se preferirem, algumas organizações partidárias primarem pela ausência permanente.
É, assim, legítimo pensar que aqueles partidos que se mantêm à margem dos protestos populares estão deles distanciados. Que não partilham das necessidades e das razões de protesto.
Não refiro quais são quais: basta que cada um pense um pouco no que costuma presenciar ou assistir nas TVs.


By me

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Alguém não?



By me

O discurso



“Olá! Posso tomar-lhe uns trinta segundos, não mais do seu tempo?”
Isto foi dito já na rua, depois de termos saído do autocarro. A interpelada, de uns catorze anitos como as amigas e não tão franzina como uma e muito menor que a calmeirona da outra, ficou a olhar p’ra mim com ar de espanto, talvez que sem saber muito bem que responder.
Tomei o seu silêncio como uma anuência e continuei de seguida, mostrando a minha câmara fotográfica, que entretanto tinha tirado do bolso:
“Gostaria que com a minha câmara lhe fizesse umas fotografias sem que disso soubesse? E que as usasse sem lho ter perguntado?”
“Ah, não! Claro que não!” Respondeu recuperando o fôlego e meio assustada.
“Pois os pedintes e os sem abrigo também não gostam! Mais ainda, a sua condição económica não lhes dá alento para sequer dizerem que não. Mais ainda, fotografar os que dormem nos cartões e nos vãos de escada ou sob os viadutos é o mesmo que alguém ir fotografar a sua casa, espreitando p’la janela e à surrelfa. Não gostaria disso, pois não?”
Ficou a olhar p’ra mim, continuando sem saber bem que responder, enquanto a maior sorria de, de dedo em riste, dizia “Eu bem dizia!”
O mutismo passou-lhe e arriscou:
“Mas era p’ra um trabalho da escola sobre o que passam essas pessoas no frio…”
“Pois será!”, continuei. “Mas tenha a delicadeza de lhes perguntar primeiro, respeitando a sua privacidade tal como gosta da sua.”
E afastei-me.

Esta conversa surgiu de ter ouvido no autocarro elas a combinarem que uma pediria a câmara emprestada ao pai e iria fazer aquelas fotografias.
Não sei se o meu discurso terá tido o efeito que queria. Mas certo é que há coisas que não se aprendem (ou ensinam) na escola ou nos livros que os mandam ler. E já só quando é tarde demais dão por aquilo que se lhes escapou.
As questões de Ética e Cidadania são conteúdos que, nesta sociedade competitiva, se recomendam não abordar na escola. Quem sabe se os jovens se rebelam…?

Quanto à fotografia, espero que não estivessem a contar que mostrasse as mocinhas em questão. Ou mesmo um sem abrigo.



By me

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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Ouvir falar em trabalhadores e sindicalistas, como se fossem coisas distintas…
O quarto poder está bem aliado aos demais poderes instituídos.

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Irrepetível



A fotografia funciona como uma tesoira:
Com o seu enquadramento, recorta de um continuo espaço/tempo um pedaço de ambos.
Tal como Prometeu roubou o fogo a Zeus, também o fotógrafo rouba um nico do tempo e do espaço, aprisionando-os entre quatro paredes.

É por isso mesmo que um fotógrafo que o seja não consegue deixar de fotografar: apercebe-se de quão fútil é a sua tentativa, sendo a vida e o universo o que são. E procura, com a multiplicidade dos seus registos, reconstruir aquilo que o obturador e o enquadramento recortam.
O enquadramento perfeito e o instante decisivo são tão mitológicos quanto Prometeu e Zeus. E assim será interpretado quando, daqui por 3.000 anos, estudarem o que fazemos hoje.


By me

O medo



E quando a polícia do estado diz que (mesmo que desminta depois) vai reforçar a segurança dos ministérios por causa das manifestações populares…
Talvez que o estado comece a ter medo do povo.


By me

Um roubo



É sempre interessante de ver o como os media cobrem os acontecimentos.
Do ponto de vista fotográfico, continua a existir a ideia feita que um repórter a sério tem que possuir uma câmara cara, de preferência volumosa. Este volume é, em regra, acrescentado com o “grip”, um acréscimo de bateria colocado sob a câmara, que lhe confere, para além de muito maior autonomia, um aspecto mais volumoso, pesado, sério e circunspecto. Em tempos era o motor ou winder, que permitia fotografar em sequência. “Obviamente que só um profissional podia assim gastar película!” Claro que tem que ser uma reflex. E com uma grande objectiva na frente.
Em cima um flash. Estes ainda não mudaram muito de configuração, continuando a ser a parte frágil a união deste com a câmara. Já ninguém usa um “cabeça de martelo”, lateral à câmara, e muito menos os de reflector redondo e lâmpadas ejectáveis.
Claro está que quem surgir com uma câmarazita de bolso, com um flash incorporado e sem uma correia de marca é um penetra, um “amador”, alguém “armado em”. A menos que tenha um ar retro, estilo Leica, em que é olhado com deferência pelos restantes.
Tamanho é documento!
No caso do vídeo é parecido, se bem que as tecnologias sejam mais rápidas nas mudanças de opinião.
Há as câmaras pesadas, fazendo o registo em cassete e com ligação ao resto do mundo por cabo até à antena parabólica que fará o salto via satélite para a estação emissora. Ninguém põe em causa quem aquilo faz.
Algumas destas substituem o complicado de manobrar cabo por um sistema de rádio. Mais liberdade de movimentos mas limitado por obstáculos como paredes e afins.
Segue-se lhe a miniaturização em modo pró: a comunicação com a estação já não é via satélite mas antes usando as redes de comunicação moveis dos telemóveis. Várias pens de banda larga repartem a imagem e o som entre si, garantindo a transmissão. Total autonomia, leveza do sistema. Dificuldade de comunicação se a cobertura no local da rede de telemóveis não for a melhor.
A juntar a esta redução de tamanho e autonomia, a própria câmara: metade do volume, menos que isso de peso, muito menos ainda de preço. Transportável num qualquer saco acolchoado, quando não em serviço o seu portador passa despercebido em qualquer lado. Claro que, de tão pequena que é de origem, que obriga a um sem número de extras acoplados, acabando por parecer e ser frágil na sua utilização. Ele é o visor, ele o projector de luz, ele é o transmissor, ele é o receptor rádio do micro, ele são as pens… quase que me recorda uma estação espacial, de tantos extras que trás.
Depois… bem, depois há a outra categoria de câmaras de vídeo: minorquinhas, compráveis em qualquer grande superfície, com um tripé ou monopé com a mesma origem, transportáveis em qualquer mochila de desporto ou escolar… algumas quase que são menores que o microfone sem fios que é usado. São os que alimentam com pequenos vídeos as páginas web de jornais e estações de rádio. Sem necessitarem de sistemas de transmissão que não um pequeno computador portátil (que viaja, eventualmente, na mesma mochila) e net,  a qualidade pretendida é a da web: as janelas são pequenas e a resolução exigida neste meio pelo público é reduzida.
São olhados meio de lado pelos outros, os da “tralha grande”: “O que vêem estes garotos ou garotas aqui fazer, ocupando um espaço que preciso p’ra minha câmara? Cresce na idade e no tamanho do “ferro” e depois a gente conversa. Entretanto, não atrapalhes!”

E são tantos os meios em uso, uns mais a dar nas vistas, outros bem discretos, porque são tantos os órgãos de comunicação, que é bem frequente ficar a dúvida se o “assunto importante” está à frente da objectiva ou se são elas mesmas que o fazem.

By me

Em Novembro



É por estas e por outras que nem sempre gosto do mês de Novembro.
De madrugada, antes do sol nascer, está um frio de rachar pedra.
A meio da tarde, ao sol e sem vento, está um calor de rachar pedra.

O pior no meio disto tudo, é que o meu nome não é pedra.

By me

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Prazeres



Não creio que haja imagem que descreva isto:

O prazer de vir a encontrar, completamente por acaso, um ex-aluno e vê-lo a fazer aquilo cujos inícios aprendeu comigo.

By me 

Arvorada



Pergunto-me se, no dia de hoje, não teria sido bem mais correcto colocá-la a meia haste.
Que ver a bandeira nacional no alto do mastro, orgulhosa das suas cores e significados no mesmo local e data em que se aprovaram mais um conjunto de leis que, mais que serem favorecedoras dos cidadãos são defensoras dos interesses económicos instalados, deixando à mingua a grande maioria dos que elegeram os ocupantes desta “Casa da Democracia”…

Com um pouco de sorte, em breve estará, de facto, a bandeira a meia haste. E os corações dos portugueses alegres com isso.

By me

Contraciclo



Por muito que insistam no contrário, por muito que reclamem pela saída do Euro, eu serei daqueles que defenderei a nossa permanência nestes sistema monetário.
Não se prende esta atitude, de todo, com o gostar das políticas económicas que têm sido seguidas na zona euro. Bem pelo contrário.
Mas a existência de uma moeda comum a tantos países ou, se preferirem, a tamanha área territorial, é um sério passo para a real abolição de fronteiras e, com isto, devolver ao ser humano a mesma liberdade que têm os pássaros migratórios: circular livremente sem ter que prestar contas a ninguém.
Que essa coisa de fronteiras, de limitar ou inquirir quem as cruza num sentido ou no outro, de assumir a posse da terra… isso é coisa arcaica, medieval, própria de uma sociedade castrada e castrante, que tudo e todos quer e pode controlar.
Sou defensor do Euro, preferencialmente alargado a toda a superfície do planeta.
Tal como sou defensor do espaço Schengen de cobertura mundial.
Que não tenho que prestar contas a ninguém sobre quem sou, de onde venho ou para onde vou.

A minha consciência é o único fiscal que aceito!

By me

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Confesso que não tenho especial simpatia p’las coisas mornas. Talvez a sopa, mas nem todas.
Agora aqueles jogos de cintura do “não-é-nem-deixa-de-ser”, do “diz-que-disse-mas-não-disse”, da mornice das posições pessoais e/ou políticas…

Essas dão-me azia!

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Um sorriso



Hoje uma flor, amanhã não sei, que os tempos não estão p’ra delicadezas.
E noutras condições, talvez mesmo em estúdio, teria feito melhor trabalho. Fotográfico, entenda-se.
Mas ela ficou lá, onde estava e como estava, sem pouco se importar com o roubar-lhe o retrato. E a exibir-se p’ra mim, p’ro sol d’outono, p’ras suas irmãs em redor e p’ra todos os demais que ali passassem e que p’ra ela olhassem.

Quanto ao resto iria jurar que, quando me afastei, ela me sorriu. Mas talvez que imaginação minha.

By me 

Real-virtual



Talvez que o problema seja meu.
Afinal, não estudei p’ra economista, não trabalho num banco e tenho muita dificuldade em gerir o pouco dinheiro que tenho.
Mas certo é que, queira-o ou não, sou obrigado a seguir as notícias. E recordo que, aquando da crise económica em Chipre, vi imagens de camiões muito bem escoltados, com dinheiro cedido por parte das instituições que constituem a TROIKA.
Será que o que nos estão a emprestar também chega por camião? Ou será por via aérea? Ou ainda, são empréstimos virtuais?
É que se são empréstimos virtuais, de dinheiro que não existe, porque raio temos nós que pagar juros sobre algo que não recebemos?

Ou, postas as coisas de outra forma, porque é que temos que pagar impostos e sofrer sacrifícios reais por dinheiro virtual?

By me 

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“Devemos criticar e condenar as transgressões dos manifestantes”
É o que leio de um depoimento de José Sócrates, ontem na televisão.
Certíssimo!
O que este começou o outro está a acabar!
A democracia acaba onde começam os direitos dos legisladores e governantes. A vontade do povo, expressa fora das urnas, em nada é importante.

Ora batatas p’ros dois e a sua pandilha!

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Previsões



Fixe!
Todas as previsões meteorológicas apontam para acentuados arrefecimentos nocturnos em todo o país. Nada de novo aqui, excepto as discrepâncias sobre o quanto frio irá fazer. As previsões mais optimistas apontam para, em Lisboa, 6º na quinta-feira, as mais pessimistas para 3º no mesmo dia.
Frio, digam o disserem, em Lisboa.
Acontece que esta diferença nas previsões, que parece ser de somenos importância, não o será no apoio ou socorro a quem vive na rua.

E sendo certo que não vi, em parte alguma, avisos ou preparação para esse socorro, só posso presumir que as entidades oficiais (protecção civil, câmara municipal, Cruz Vermelha…) e outras, optam p’lo optimismo.

By me 

Uma data



“Se a minha avó tivesse rodas, era um camião!”
Este é um chiste que um compincha lá do trabalho costuma usar perante a inevitabilidade do passado sobre o presente.
De igual modo se pode fazer a pergunta: “Que teria acontecido no planeta se a célula primordial tivesse morrido antes de se reproduzir?”


Mas fica-me sempre aquela dúvida: Se aquilo que se celebra hoje não tivesse acontecido, estaríamos hoje como estamos? Se aquilo que a direita e os moderados hoje comemoram tivesse tido um final diferente, haveria hoje motivo para tantos procurarem lá fora o que cá não encontram? Ou tantos nas filas para obterem de comer?

By me 

O cão



É assim que as coisas são noticiadas neste país.
Na noite de sábado para domingo aconteceu mais um caso de polícia que acabou mal. E acredito que os que acompanham as notícias sabem do que falo: um homem barricou-se num restaurante, fez disparos e explosões, matou e foi morto.
Já nem falo na questão de ser dito “foi morto” ou “foi abatido” e as diferenças semânticas entre ambas expressões.
Falo mesmo de só terem sido referidas duas mortes: a do assaltante e a de um militar da GNR. Ficou de fora em quase tudo quanto é jornal ou televisão o ter também morrido um cão da GNR.
Suponho que o cão, que não pôde escolher o ofício mas tão só a dedicação incondicional ao seu treinador, foi apenas um “dano colateral”.

Jornalismo no seu melhor!

By me

domingo, 24 de novembro de 2013

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O que eu oiço, esqueço.
O que eu vejo, lembro.
O que eu faço, sei.

As duas primeiras fazem parte do sistema de educação.
A terceira do sistema de aprendizagem.

Enquanto nos referimos à educação e não à aprendizagem, fica tudo na mesma.

Na escola e na vida!

By me

Luz é...



A propósito do Instagram e outros programas e sites onde as fotografias são publicadas depois de serem objecto de modificação com filtros, recorda-me uma estória televisiva.

O programa “João Baião”, nas noites de sábado da SIC, tinha uma linguagem de imagem inovadora em Portugal: quase não havia planos ou imagens paradas e o conceito de câmara estável parecia não existir. Na altura, alguém classificou esta linguagem de “televisão em movimento”. E fez escola, passados que são todos estes anos.
Aquilo que pouco foi divulgado é que esse tipo de imagem não surgiu como conceito estético mas como solução encontrada “em cima do joelho”. Aquelas horas todas de emissão, com todo aquele espaço e o tentar dar dinamismo visual limitava em muito o uso de tripés ou pedestais para as câmaras. E as câmaras portáteis da época, pesadas que eram, tornavam impossível o seu uso medianamente estável ao ombro ou à mão durante tanto tempo.
Assim, a opção foi tornar uma limitação em estilo e assumir, logo de início do programa, a instabilidade da imagem, forçando mesmo o seu abanar e movimentos rápidos e pouco “certeiros”.
Foi esta abordagem particularmente criticada na altura, até porque o próprio público se cansava da falta de estabilidade. E foi imitada em diversas circunstâncias, com ou sem sucesso.
Passados todos estes anos, esta abordagem visual é um estilo, intitulado “câmara à mão” nos meios académicos. Assume-se a ausência de estabilidade.
Mas é usada de forma parcimoniosa, como código de comunicação ou estilo visual, empregue se e quando se justifica.

Os filtros que modificam ou “estragam” as fotografias são idênticos. São usados para, com um carimbo de “arte”, disfarçar as incapacidades técnicas ou criativas dos seus autores. Desfocada, mal enquadrada, deficientemente exposta, tremida… uns filtros de riscos, cores, redutores de definição ou excesso de saturação e transforma-se aquilo que não se sabe fazer numa “obra de arte”.

Toda a experiência e inovação é necessária e bem-vinda! E a necessidade é a mãe da invenção.
Mas transformar uma poia de vaca em bosta de arte bovina…
Sugiro, para aquele que alinham nestas modas estéticas, que vão aprender os percursos daqueles que de facto inovaram na criatividade. Descobrirão que se trataram de inovações pensadas, argumentadas, decisões conscientes no romper com o classicismo e o convencional. E não por modismos tecnológicos, sugeridos por quem quer vender equipamento ou software. E também não para disfarçar o não saber o que é luz e perspectiva.


By me

Liberdade



Uma vez tive um pássaro.
Enfim, ninguém é perfeito, portanto porque não eu também?
A estória foi assim:

Estávamos em reuniões de avaliações de Natal. Enfiados todos os professores numa sala, íamos discutindo cada um dos alunos e “cantando” as notas para um de nós, que as ía lançando no computador.
A meio da tarde, na pausa que nos oferecemos para um cafezinho e um cigarrito, uma das funcionárias da secretaria veio falar com cada um, propondo-nos a compra de um periquito. Estranha a proposta, não fora o facto de ser uma espécie rara, um “periquito da Guiné”, trazido não sei como à revelia das autoridades.
Achei a coisa interessante para oferecer a uma garota novita, filha de um casal amigo, pelo natal. A pose e a responsabilidade por um ser vivo pode ser, para além de lúdico, pedagógico. Portanto, porque não?
Mas, quando já noite feita, fui buscar o bicho apalavrado, até me assustei. Com um tamanho intermédio entre um periquito convencional e um papagaio, ainda que novito, tinha umas patas que denotavam vir a ser bem grande no futuro. E nem sequer era particularmente bonito, de um tom verde pardacento.
Lá o levei para casa, comprei-lhe uma gaiola bem grande para o acomodar no futuro e tratei de saber e comprar o que comia o bicharoco. Decidi ficar com ele uns dias em minha casa, para perceber o que ele necessitava, antes do entregar à futura dona.
Ainda bem que o fiz!
Além de feioso, o seu grasnar era pouco menos que horripilante. A chiqueirada que fazia, com as asas e as cascas da comida, espalhava-se bem um metro em redor. E limpar ou dar de comer dentro da gaiola, só mesmo de luva, que o bicho deveria ser carnívoro ao tentar arrancar-me uns bons “bifes” dos dedos. Não sei quem estaria mais incomodado: Se eu com a trabalheira se ele com medo de mim.
Constatando todos estes inconvenientes, acabei por não o dar à garota. Seria uma “prenda de grego” para os pais, que ela não trataria dele e sobraria trabalho e aborrecimentos para eles. Se eu o tinha comprado, eu ficaria com ele.
Fui tratando dele conforme podia, tentando não o assustar em demasia e que se fosse habituando à minha presença, mantendo a higiene e alimentação nos padrões normais, dentro e fora da gaiola.

Um dia, quando me levantei, estava morto dentro dela.
Juro que me doeu!
Não que me tivesse afeiçoado ao bicho. Mas não lhe queria nada de mal e não me tinha apercebido que alguma coisa não estaria a correr bem.
Mas, pensando bem, a culpa terá sido minha. Por muito grande que seja a gaiola, é sempre uma prisão. E eu era o carcereiro.


Texto e imagem: by me



“ - O que é para si a Liberdade?”

“ - É ser livre numa prisão!
Todos nós vivemos numa prisão que nós mesmos construímos.
Porque nos impomos limites. Porque temos receio de os ultrapassar.
Acho que o próprio do Homem não é viver livre em liberdade de facto. É viver livre numa prisão!
Todos nós temos uma polícia política interna, cheia de proibições e de regras em relação as nós mesmos.”



António Lobo Antunes, in Grande Entrevista, RTP, 2006

Fácil



Sol, frio, cartolina preta, café acabado de fazer.

Fácil!

By me

sábado, 23 de novembro de 2013

Manobras



Ainda sobre a manifestação das forças policiais esta semana.

Tenho estado em muitas manifestações ao longo da vida. Algumas mais pacíficas, outras não tanto, algumas só com meia-dúzia de gatos pingados, outras com muitos, mas muitos milhares mesmo, de participantes.
Além do meu papel de cidadão a fazer ouvir a sua voz, tenho feito o que de fraco sei fazer: fotografia.
E o fazer fotografia implica, de algum modo, saber antecipar as situações para melhor o poder registar.
Uma das coisas que me habituei a observar foi a forma como as forças policiais se colocam no terreno. Tanto preventivamente como em estado de intervenção.
Nas escadas da Assembleia da República têm estado quase sempre, e sempre que os manifestantes são muitos, agentes da polícia equipados com armas bem mais poderosas que apenas os bastões, escudos ou pistolas. Para quem souber observar, estão por lá, recuadas mas prontas a intervir, shotguns e lança-granadas de gás lacrimogenio. Não são difíceis de detectar onde se encontram nem como manobram, se se souber o que procurar.
Na manifestação das forças policiais desta semana não estive. Os meus horários de trabalho não mo permitiram. Mas vi as reportagens de diversas estações de televisão e as imagens vídeo ou fotográficas feitas por manifestantes e colocadas on-line.
E não consegui descortinar, em momento algum, esses agentes assim preparados. Apesar de lá não ter estado, quase que posso garantir que estas formas de contenção de turbas não estavam no terreno.

A tomada das escadas do parlamento foi feita com método e ordem. Afinal, quem o fez está habituado as estas coisas e a cumprir ordens. E elas foram dadas por quem da poda sabe e por megafone.
A estratégia foi bem escolhida e executada, com uma frente de ataque e quebra das linhas adversárias pelos flancos, obrigando-os a recuar.
Mas é igualmente certo que os defensores, ao invés do habitual, estavam menos preparados para aguentarem posições.

Pergunto-me se as ordens de usar a força sobre manifestantes são dadas apenas quando se sabe que estes são gente pouco organizada, sem líderes militares nem treino de confrontos. Por outras palavras, sobre cidadãos comuns.

Talvez que comece a fazer sentido que, em face de força desproporcionada, se empreguem métodos eficazes. Por parte dos manifestantes, entenda-se.

By me 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

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Leio que:
“… Para a presidente da Assembleia da República o «facto de as manifestações se repetirem muito» junto ao parlamento, significa que a Assembleia «tem um valor sagrado, que o lugar é de esperança».”

Não haverá uma alma caridosa que explique, com muito detalhe, que o haver tantas manifestações junto à Assembleia da República quer antes dizer que se quer correr com ela e com os que com ela estão a destruir o país?


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Ah pois é!

Em Novembro queriam o quê? Ópera?

By me

Olhando de lado



A fraca relevância dada p’los media ao que aconteceu ontem em Lisboa é bastante sintomática do seu alinhamento com o poder.
Entenda-se, no entanto, que isso não significa que essa seja a atitude da maioria dos seus profissionais, mas antes sim de quem se encontra nos lugares de decisão editorial.
Triste, mesmo, foi não ter encontrado em suporte algum alguma comparação entre a noite de ontem e o que aconteceu no idos de ’75,quando estas mesmas escadas parlamentares foram ocupadas.
O histórico de ontem, mais que a tolerância entre profissionais do mesmo ofício, foi a repetição, 38 anos depois, da ocupação popular de espaços simbólicos sempre interditos.

Depois de ter assistido, à distância, ao que ontem aconteceu, repito a mesma pergunta: de uma outra vez que aconteça, amanhã ou depois, terão os elementos do corpo de intervenção o mesmo comportamento?
Ou ficar-se-ão os cidadãos pelas escadas, mesmo que simbólicas?
É tempo de devolver o poder aos portugueses!


(A imagem? Não, não é de ontem, mas bem que poderia ter sido.)

By me

Alto aí!



Ainda de madrugada constato que tenho numa caixa de correio electrónico uma mensagem datada de ontem, ao início da noite.
Não reconheço as assinaturas, mas reconheço o remetente.
Nela sou tratado por “colega”.
E a primeira coisa que me vem à cabeça é a velha frase, popular em andaimes e afins: “Colegas são as p…”.
Tal como não somos companheiros, camaradas, amigos, ou qualquer outra classificação que nos irmane ou aproxime. Com a melhor das boas vontades apenas aceitarei partilhar o apodo de “cidadãos”, que isso somos todos, façamos o que fizermos, tenhamos o cargo que tivermos.
A fraternidade é algo que tem que ser aceite e tem que ser merecida. Não é o caso, garantidamente. E tenho-me por suficientemente íntegro para não me sentir “colega” de quem esta assina.
O conteúdo da missiva e quem a enviou? Por uma questão de princípio, e que em nada se prende com deveres impostos por terceiros mas tão só de lealdade, faço questão de manter em privado o que assim recebi.

Fica este desabafo matutino, entendível apenas por colegas - estes sim - que também receberam semelhante insulto.  

By me

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

E amanhã?????

O fio de água



Num recente encontro de Esquerdas, a figura mais mediatizada foi Mário Soares.
Num outro evento a acontecer em breve, a figura homenageada – que afirma não ir estar presente por uma questão de modéstia – será Ramalho Eanes.
Aconteceram, nas últimas semanas, eventos políticos e culturais a celebrarem o aniversário de Álvaro Cunhal.

Cada um destes foi ou é figura grada no panorama político nacional. À sua maneira, com o seu próprio pensamento e forma de agir. E personalidade.
E sabemos que a idade trás sabedoria. Pela prática e pela meditação. Podemos não concordar com as suas práticas ou teorias, mas têm-nas.
E faz sentido procurar nelas algum daquele conhecimento que os mais novos não atingiram ainda. Porque não viveram. Porque ainda não pensaram.
Mas, caramba, se procurarmos apenas nos mais velhos as soluções do futuro nunca iremos ter outra coisa que não seja a repetição do passado!
Que as circunstâncias são outras, os actores são outros, os desafios são diferentes.
Onde estão os personagens de hoje, jovens ou já nem tanto, que sejam capazes de construir o futuro sem replicar o passado? Onde estão aqueles que, bebendo no que foi, fazem hoje o que se beberá amanhã? Onde estão as novas ideias?
Temos um país e uma sociedade que está a regredir em termos de condições sociais, económicas e, até, legislativas. Um regresso a um passado adaptado, em que as evoluções técnicas e tecnológicas permitem um replicar daquilo que foi combatido e ultrapassado durante quase dois séculos.
Se não encontrarmos novas soluções para travar estas nova forma de escravatura e submissão de todos a uma minúscula minoria económica e politicamente poderosa, será garantido que nos veremos, em breve, nas mesmas condições laborais, políticas e económicas do início da revolução industrial e o que se lhe seguiu.
É importante sabermos como foi feito e acarinharmos os que o fizeram. Mas se não encontrarmos o nosso próprio caminho hoje, o seu trabalho e contribuição terão sido inúteis.
Precisamos de ter, hoje, figuras que possamos homenagear amanhã!


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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Mão cheia de nada



Consta que o velho Sócrates, o tal da velha Grécia, gostaria de se passear pelo mercado. Sem comprar coisa alguma.
Questionado, terá afirmado que gostava de admirar a quantidade de coisas de que não necessitava.

Eu por vezes vou aos centros comerciais, mas não me comparo.

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Evoluções



Olha para este equipamento com alguma mágoa ou nostalgia e penso que talvez seja eu o último no activo que com ele ou equivalente trabalhou.
A transição do preto e branco foi uma aventura em que não havia mestres ou discípulos, Internet ou mesmo fax e em que os manuais vinham escritos em alemão.
Aprendíamos uns com os outros, num espírito de entreajuda e valorização recíproca em que a falha de um era a falha de todos. Bem longe da competitividade dos nossos dias.
Agora atravessamos a transição do analógico para o digital.
Também é uma aventura, mas com os suportes ao conhecimento que sabemos, com tudo ou quase ao alcance da ponta dos dedos, para quem queira aprender. E escolas.
Quando introduzirem o cheiro nas transmissões televisivas… bem, não creio que nesse dia eu ainda esteja a trabalhar ou mesmo na qualidade de espectador.


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E o banco, ali, vazio...



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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Vuvuzela



Estava eu hoje entretidinho a pendurar uma roupinha a secar quando ouvi uma vuvuzela. Raios partam o raio do instrumento, que é atroz até mais não poder!
E, sendo certo de dentro de minha casa soavam as vozes e os instrumentos d’A Banda do Casaco e que eles não usavam semelhante coisa, só podia ser algum, melhor, alguns vizinhos a saudarem um qualquer jogo que estivesse a dar na televisão. Parece que sim, e até numa zona onde a noite está bem mais fria que por cá.
A confirmação tive-a, segundos depois, ao ouvir um rapazola na praceta por sob a minha varanda, a dizer:
“Olha mãe! Marcámos um golo! Boa!
“Isso! Isso”, ouvi dizer à senhora que o acompanhava. E, enquanto o empurrava, e mais à mochilona que ele trazia em cima, acrescentou: “Então e quantos são seis vezes oito? Quantos são…?”
Lá mais ao fundo, na outra rua, as vuvuzelas faziam saber da alegria de uns quantos.
E eu, da minha janela, fiquei sem saber quantos são seis vezes oito, que a vozes passaram a baixinho.

Na imagem?
Uma encenação que fiz, em 2010, aquando do mundial de futebol. Bem na porta do meu prédio.

Não preciso falar com ninguém nem colocar nenhum aviso. Foi mais que esclarecedor, que nenhuma foi tocada cá dentro durante todo o maldito mundial!

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Ao sol



Era um fim da tarde outonal, frescota e de aragem equivalente, e o sol já só se escoava p’la abertura entre prédios que a linha de caminho de ferro abria na avenida.
Não sei que fazia ela ali, na pedra fria: se descansava de um dia de estudante, se esperava alguém que viesse parquear a moto, se apenas aproveitava o restava de sol.
Mas sei o que tinha entre mãos, passados que seriam talvez mais de dois capítulos: “Os Maias”, drapejando ao vento, síncronos com o cabelo.
Bonito de ver e proibido de interromper, muito naturalmente.



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Raiva



Há cinco anos publiquei eu este texto.
Hoje, apesar de uma referência temporal muito precisa, continua a ter um absurdo de actualidade. Lamentavelmente!


Confesso que até nem queria tocar no assunto. Tantos e tão ilustres nacionais já se pronunciaram sobre o tema que a minha opinião corria o risco de ser uma repetição, um “chover no molhado”. Sim, porque a questão é susceptível de muitas e variadas entrevistas, depoimentos, sessões opinativas, protestos, declarações, manifestações de intenções e criticas generalizadas.

Acontece, porém, que sobre o assunto caiu uma espécie de manto pudico de silêncio e que, após ter sido divulgado no dia e de uma ou duas personagens do panorama político terem dito de sua justiça, não mais se falou na coisa. Nem os políticos, de base ou de topo, vieram a terreiro dizer de sua justiça, nem os media lhe tocaram, ao de leve que fosse. Que o tema é escaldante e mexer-lhe pode ser perigoso.
Mas é coisa que me não tem saído da cabeça, quase me impedindo de ver outros temas e assuntos que nos cercam. Uma abordagem, outra abordagem, umas frases aqui, outras ali, mas tem andado por cá quase que como monomania! Não me sai da cabeça!

Não me sai da cabeça que os políticos, tanto os que constituem o governo como os que supostamente representam o povo no parlamento, redijam, publiquem e façam aplicar leis e regulamentos sobre as relações laborais e que se esqueçam de as aplicar sobre si mesmos.
Que, queiram ou não eles, a verdade é que essas mesmas pessoas têm um emprego: servir o país. E têm um patrão: o Povo Português! Gostem ou não, é aos cidadãos deste país que governantes e deputados têm que prestar contas e que perante eles assumiram o compromisso de respeitar e fazer respeitar as leis. Que eles mesmos redigem e publicam!

Refiro-me, no caso em concreto, às faltas de comparência que alguns deputados cometeram a semana passada, numa reunião no parlamento, ao que me recordo numa comissão. Tantos foram que a dita reunião teve que ser adiada por falta de quórum.
Caramba! O ofício destes senhores e senhoras é estar ali, participarem nas reuniões e tomarem decisões. Que para isso foram mandatados ou, se preferirem, contratados por todos nós, aquando das eleições.
Não estarem presentes, com desculpas esfarrapadas ou mesmo sem elas, é uma quebra de compromisso – político e laboral. E, em qualquer empresa ou organização deste país, esta quebra ou infracção disciplinar é passível de processo interno que, em ultimas consequências, pode levar ao despedimento. São estas as regras que estes mesmos senhores e senhoras aprovaram para os comuns dos seus concidadãos. E que quem contrata faz aplicar sem esperar muito e, por vezes, com rigores extremos.
Mas acredito que estes senhores e senhoras, eleitos pelo povo, se considerem acima das leis comuns que aprovaram e fazem cumprir. Vai daí, estar ou não presente nas sessões plenárias ou nas comissões é algo que deverá agradar e satisfazer o partido pelo qual foram eleitos, independentemente da satisfação ou opinião daqueles que eles mesmo representam. Despedir um deputado está fora de questão, mesmo que não cumpra o seu mandato de acordo com o que foi prometido e assumido. O mais que lhe pode acontecer é ser censurado pelo líder parlamentar ou pelo topo do aparelho partidário. E, com uma palmadinha nas costas paternalista, dizerem-lhe: “Vê lá se te portas bem, senão nas próximas eleições perdes a posição elegível ou nem sequer estás nas listas.”
Por outras palavras, “Se não te portas bem perdes o tacho nas próximas eleições.”

Só que, caramba!, eles são trabalhadores assalariados, como a maioria dos portugueses, com deveres para com os seus empregadores. E se não os cumprirem, são liminarmente despedidos.
Portugal não é uma coutada privada de uns quantos deputados e governantes! Que se aplique a deputados, ministros, presidentes ou autarcas a mesma lei que souberam aprovar para os restantes Portugueses: Se faltas, se és desonesto ou se não trabalhas bem, rua! Agora! E não aquando de uma eventual renovação de contracto!
Que nós, os Portugueses, somos mesmo todos iguais em direitos e deveres. E aqueles que fazem questão de não o serem arriscam-se a ser, bem mais cedo do que poderiam esperam, iguais aos seus antepassados: mortos e enterrados!

PUM!

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