quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Luto! De luto!



Sentado no comboio, de regresso a casa, fico a saber que a fábrica Majora encerrou.
Aquela que tantas tardes e noites lúdico-pedagógicas me proporcionou, ao longo de muitos anos e desde muito cedo.
E, se me não acreditam, daqui sentado onde estou consigo ver a caixa do jogo de xadrês, bem como a já estafada caixa do jogo do monopólio. E a do Micado. E dois baralhos de cartas. Já nem quero falar no que a memória me conta.
Confesso que fiquei abanado e fechei o portátil. Doeu-me!
Entretanto, um grupo de senhoras estava de conversa. E, a certa altura, disseram que esta é a noite das bruxas e que os deputados não estariam a trabalhar amanhã. Não sei como chegaram a esta conclusão, mas foi o que afirmaram.
Não me contive e, levantando-me, meti-me na conversa. Esclareci-as que amanhã é dia da votação final do Orçamento de Estado e que estariam todos presentes. E que faria sentido lá estarmos também, os que pudessem, mostrando o desagrado.
A mais nova, com trinta e muitos e que estava de pé, disse-me:
“Não posso! Amanhã tenho que ir para a minha empresa, senão é pior.”
“Bem”, acrescentei eu, “não pode ir mas pode demonstrá-lo na mesma, usando algo como isto.” E, tirando do saco um lenço preto, atei-o ao pescoço.
Sorriu-me. Com um sorriso bonito, mas triste.
“Já iria de luto de qualquer forma. Vou tentar receber o que ainda conseguir, que a minha empresa – a Moviflor – declarou insolvência. Eu sou uma das despedidas e não sei se conseguirei receber o que tenho direito.”
Fiquei calado até à estação seguinte, que era a minha. Lado a lado com ela, que continuou a conversa com as amigas, numa falsa boa-disposição.
Enganam-se os ânimos, engana-se o povo, engana-se o estômago. Até que mais não haja para enganar. E seja a ruptura final.


De ora avante estarei assim. Por ela, por todos os outros, por todos nós. E também por mim mesmo, que em breve me tocará em sorte.

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Passos Coelho afirmou hoje, no Parlamento, que não há uma violação clara da Constituição.

Claro que não há. Não houve ejaculação, apenas penetração. 

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Um olhar - Sara



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As bagas



Esta é uma entrada fofinha para os que não gostam de outras bem mais sérias como a anterior.

O Outono é a meia estação. Belo nas suas manhãs bem frescas mas dias tépidos, na sua luz baixa com tons lindos, antecipando as nuvens invernosas que as não deixarão ver, o cheiro da terra molhada com as primeiras chuvas… creio que todos gostam do Outono e eu não sou excepção.
E uma das coisas de que gosto nele são estas bagas.
Existem em variados matizes e os seus tamanhos oscilam, mas não muito, do que aqui se vêm.
As cores, fortes, vão compensando os castanhos e amarelos próprios da estação mas não enganando os insectos, que nunca os vi rondando-as.
Agora que eu as rondava quando pirralho, isso é um facto. Que o assalto que fazia (fazíamos), apesar dos espinhos, era implacável. Estas bagas tinham o tamanho certo para, inseridas nos brancos tubos das instalações eléctricas (também eles obtidos por via de por via de pilhagens), serem as munições certeiras para terríficas e sangrentas batalhas campais. Ou “aulais”, que nem dentro das salas de aulas as vítimas preferidas escapavam.
Ficam as memórias e fica alguma tristeza ao constatar que as bagas ali ficam durante tantas semanas. Ainda que nos alegrem a vista, a sua permanência é indiciadora que as batalhas de hoje se travam na virtualidade dos ecrãs, ficando de fora a sã convivência infanto-juvenil, mesmo que em campos opostos.
E que farão estes, quando adultos, se a não viveram quando crianças?

Desculpem o enviesar das ideias e o transformar um texto e imagem que se previam fofinhos para assuntos pesados, mas os tempos não estão tão simpáticos como gostaríamos.


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Cogitações políticas



Tenho vindo a afirmar o meu repúdio pela exclusividade partidária no acesso a lugares no parlamento.
A minha tese não tem colhido grande apreço junto de quem dela toma conhecimento. Ou nem contestam, ou fazem um sorriso irónico ou, aqueles que se dão ao trabalho de responder fazem-no com um “Pois, mas são os partidos que garantem a pluralidade de opiniões” ou “São eles o garante da democracia” e coisas semelhantes.
Mas continuo com a mesma opinião.
Não há leis ou vontades eternas, nem circunstâncias que se não alterem. E se, aquando da redacção da actual constituição, fazia sentido essa exclusividade, hoje não o faz.
Na época, 1975, os portugueses estavam ainda a aprender o que era viver em democracia, depois de mais de uma geração sem ela. A taxa de analfabetismo era gigantesca. O acesso à informação era diminuto e mesmo condicionado pelas lutas de poder e manipulação de conteúdos. Fazia sentido juntar em torno de organizações as tendências para que as escolhas no acto eleitoral fossem mais fáceis ou óbvias.
Hoje não é assim!
Ainda que existam analfabetos, a taxa é menos que residual. A democracia tem quase quarenta anos. A informação está ao alcance de todos e de variadíssimas formas. A ausência de conhecimento sobre propostas e percursos dos candidatos só acontece se e só se os cidadãos as quiserem ignorar. Estejam os candidatos agrupados em torno de partidos ou não.
Por outro lado, o limitar o acesso ao parlamento à exclusividade de partidos impede que outras sensibilidades aí se façam ouvir. Limita a responsabilização dos actos dos deputados perante os eleitores. Facilita a disciplina partidária em desfavor da relação deputado-eleitor.
Mas eu explico um pouco melhor:
Um partido político, mesmo tendo por objectivo o estar ao serviço do país, é uma entidade privada. Só a ele acede quem pelos seus membros for aceite, tem que cumprir os estatutos previamente definidos, tem que respeitar a disciplina interna e a obediência às estruturas dirigentes. Por outras palavras (e de novo) um deputado eleito por um partido tem responsabilidades e fidelização ao partido bem antes e mais importantes que as que terá para com os eleitores.
Mais ainda, aquando de eleições as opções propostas aos eleitores são as de listas de pessoas pertencentes a partidos ou nelas aceites com o estatuto de independentes. Mas essas listas não são disponibilizadas aos cidadãos. Quem as quiser saber terá que se dirigir algures a um local que não as assembleias de voto. O que impede, por exemplo, o recusar eleger alguém sobre quem se tem uma opinião negativa, já que nem se sabe que consta na lista daquele partido.
Da mesma forma, a substituição de deputados no parlamento acontece com um mínimo de publicidade. Uns saem, outros avançam e os eleitores nem se apercebem do facto. Excepto se forem muito atentos às notícias ou se se tratar de alguma figura proeminente no panorama político.

Indo mais longe na questão da disciplina partidária acima do respeito pelo eleitor, temos alguns casos recentes que bem o evidenciam.
Um deputado que foi punido pelo seu partido por, no parlamento, ter votado à revelia da disciplina partidária o orçamento de estado do ano em curso;
A ameaça de expulsão de militantes que se candidataram ou apoiaram outras candidaturas que não as do seu partido aquando das recentes eleições autárquicas;
O ser notícia de primeira página haver deputados que se propõem votar contra o orçamento de estado do próximo ano.
Ou seja: os membros de um partido devem obediência, antes de mais, ao seu próprio partido. E só depois podem agir em prol dos seus eleitores, tal como se comprometeram.

Ora eu tenho como dogma que um eleito representa os interesses dos eleitores antes de mais. E isso não é possível se ele tiver outros interesses mais relevantes.
Defendo, assim, que o acesso ao parlamento, onde são feitas as leis que regem o país e as relações entre cidadãos deve ser aberto a todos os cidadãos, inscritos ou não em organizações privadas. E que respondam, antes de mais, aos eleitores que os elegem.
Que isto de ter entidades privadas a gerir a coisa pública a que chamamos de País só se encaixa na democracia à luz das opiniões dos partidos que têm estado a governar e cujo objectivo é, claramente, destruir o estado em favor de privados.

A democracia não é privada!

By me

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Batata-frita



A história tem já uns quantos de anos, mas hoje voltou-me à memória.
Num centro comercial sou abordado por uma senhora. Já velhinha, parecendo-o ainda mais pela sua pequena estatura, parou, olhou-me de frente e perguntou:
“É pintor?”
Fiquei meio à toa. Nada em mim o poderia indicar. Talvez, mas só talvez, o chapéu de aba bem larga que usava na época, junto com o meu sempiterno colete e o saco fotográfico às costas. E respondi-lhe:
“Não, minha senhora. Não o sou.”
“Ah! Então é escritor.” Afirmou convicta.
“Também não. Mas sou fotógrafo, se isso ajuda.”
“Pois, eu sabia. É um artista.”
“Nem tanto, nem tanto”, tentei dizer-lhe, mas sem sucesso, que já se afastava no seu passo miudinho.
E, como estava de costas, não o posso assegurar, mas creio que levava um sorriso de satisfação por ter acertado.

E é este o mal dos seres humanos: para tudo têm que encontrar uma classificação, um rótulo, um compartimento mental onde encaixar o que vêem e conhecem. E pouco importa o rigor da relação entre denominação e realidade: desde que classificado, é quanto basta.
E, por tudo quanto é lado, os rótulos imperam: ele é o –ista, ele é o –crata, ele é o –eiro… desde que haja um sufixo é quanto basta.
Conheço boa gente que, assumindo-se de direita, tem atitudes bem mais de esquerda que alguns esquerdista que também conheço. E alguns destes que, dizendo-se de esquerda, fazem inveja a alguns direitistas de renome.
Por mim, os rótulos que me possam por pouco me importam. Intitulo-me de Acráta, mas podem chamar-me de batata-frita. Não serão eles, os rótulos, que me farão desviar do que penso e sou.
E, sendo que sou “do contra”, quanto mais teimarem em classificar-me, em encaixar-me num qualquer conceito pré-definido, mais gozo tenho em defraudar as expectativas.
A factura é pesada, por vezes. Desde a não promoção por não ir exercer o meu ofício, à borla, para um partido, até aos castigos não formais por ser objector de consciência perante imoralidades ou inverdades.

Os tempos que se avizinham são bem mais sombrios que o que gostaríamos. E os primeiros a tombar serão, certamente, aqueles que não encaixam em classificações e para com os quais é bem mais difícil de lidar. Que em não havendo rótulo, não há antídoto conhecido que não o nó Górdio.

Precavendo-me, mesmo que tarde, de ora avante serei um batata-frita!

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Um olhar - Yoko



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Teorias e práticas



Tenho para mim que é exactamente isto que está na origem de muitos dos problemas que atravessamos: o dinheiro.
Que se ele não existisse, não haveria bancos, impostos, empréstimos com juros, disputas inúteis apenas para aumentar as mais valias do trabalho alheio.
Nas sociedades ditas primitivas, onde ele não existe, nada disto acontece.
Mas, mais que acreditar nisto, faço o que posso para lhe passar ao lado. É um “passar ao lado” meio estranho, já que o recebo e uso, mas eu disse que faço o que posso.
Eis um dos exemplos:
Uma ocasião fui chamado, meio de urgência, a uma escola. Havia por lá uma questão não muito simples para resolver e o meu papel seria fazer um conjunto de sessões, em estilo de workshop, para passar métodos de trabalho aos alunos.
A ideia agradou-me: o desafio era grande e implicava uma boa dose de imaginação da minha parte, mas nada que, pensei, não pudesse ser feito. Aceitei.
Mas coloquei uma condição específica, para além de outras de ordem prática inerentes ao decorrer dos trabalhos: eu não seria pago em dinheiro.
Não tinha actividade aberta (e continuo a não ter) e não me apetecia abrir só para aquele trabalho.
Propus, então, ser pago em géneros. Eu diria o que queria receber, no caso acessórios de informática, e eles tratariam de os arranjar paramos dar. As questões de contabilidade seriam problema deles.
O meu interlocutor, que já me conhecia, aceitou mas com reservas, que haveria de saber se possível. E demorou bem duas semanas a confirmar o negócio, que propostas destas não são bem aceites por contabilistas e gestores, engomadinhos e ciosos dos seus belos livros de contabilidade.
Mas o trabalho acabou por ser feito, a contento meu, da escola em geral e, suponho, dos alunos envolvidos. Que, além de tudo o que era suposto ouvirem e fazerem no âmbito dos conteúdos em causa, ainda foram informados da forma como o negócio fora acertado. (Aproveito, sempre que posso) para “por um pauzinho na engrenagem”.
Nunca mais fui chamado.
Para pena minha, que gosto de fazer o que fiz. Para prejuízo dos alunos, que perdem oportunidade de conhecerem outras formas de pensar e agir. Para prejuízo da sociedade, com continua atávica e baseada no seu maior cancro que alastra.
Por mim, continuo a por em prática o que penso e sempre que posso, bem para além de regras e normas morais que são sempre as morais dos outros.


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Disse-me uma vez um arquitecto, conhecedor do seu ofício, que o tempo de projectar uma casa deve ser, no mínimo, o dobro do que leva a construir.
Isto para garantir não apenas a solidez mas a harmonia e equilíbrio de todos os seus componentes.

Não me disse ele quanto tempo é necessário para planear a destruição de um país mas, e pela amostra dada p’lo nosso governo, não é preciso muito.

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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Invejas



Só p’ra vos fazer inveja, eis dois relógios que não tive que acertar este fim-de-semana.

Cá em casa, o tempo é meu, caramba!

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A crise



A crise é grande e toca a todos. Aliás, e como dizem os antigos, “nem dá p’ro tabaco”.
Sei-o eu e sabemo-lo todos.
Por isso mesmo, quando me pedem um cigarro – e são cada vez mais os que o fazem - muito para além do género e da idade – em regra não recuso.
Mas faz-me sair do sério, mesmo, quando tratam de encontrar alguém que dê um cigarro sem mesmo se levantarem de onde se sentaram dolentemente, chamando quem passa, e tratando-o por “Oh chefe!”
Não o aceito, que é um tratamento pseudo-subserviente mas assumidamente de desprezo para com os destinatários. E, se me querem pedir o que quer que seja e se querem que a ele aceda, o mínimo que exijo é ser tratado com cordialidade.

É uma questão de mau feitio que, como sabem, tenho de sobra!

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Um olhar - Daniela



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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Orgulhoso ou nem por isso



Fazemos coisas que queremos e coisas que não queremos.
Destas últimas são, por exemplo, o lavar da loiça, o pagar impostos, o suportar as filas de trânsito.
Não as queremos fazer mas é difícil (só difícil) fugir a elas.
Já das que queremos, pode-se referir tomar banho, amar ou, no meu caso, fotografar.
E se do banho não há motivo para ter orgulho, mas tão só a satisfação posterior, no amar também não há motivos para estarmos orgulhosos, excepto no que toca ao orgulho de sermos amados. Já a fotografia é motivo de orgulho. Aquilo que faço é o resultado do meu esforço, nem sempre bem sucedido, mas sempre de vontade. E conseguir superar-me e ir mais longe hoje que ontem é motivo de orgulho.
Mas há outras coisas que faço porque quero e porque a isso sou obrigado e das quais pouco, se algum, orgulho tenho. Uma delas é o ser cidadão e fazer questão de o ser.
A cidadania não se limita ao acto eleitoral, ao manter as ruas limpas e cumprimentar quem passa. Passa por se ser interventivo, participativo, contestatário e solidário, ter opinião e fazer questão de ser coerente, passa por ser e não apenas estar.
E isto é algo que quero mas também ao qual me sinto obrigado. Não o fazer, mesmo que uns dias de uma forma mais visível e outros bem mais discreto mas não menos frutuosos, é renegar aquilo que sou e aquilo que quero ser. É não fazer aquilo que quero e aquilo a que me sinto obrigado, bem para além de leis e governos.
De ser mais que estar não me orgulho. Sou, ponto final. Tal como sou barrigudo. Sou.
O único orgulho que pode advir deste ser é o constatar resultados disso. Não me orgulho de atravessar a velhinha na rua. Mas orgulho-me que ela possa lá estar. Não me orgulho das aulas que dei, mas tenho um orgulho imenso do sucesso dos alunos. Não me orgulho de levar um sobrinho a uma manifestação, mas fico inchado de o ver a manifestar-se porque percebe e acredita no que diz e faz.
Há quem se orgulhe do carro que tem, do emprego que conseguiu, das férias que fez, da corrida que ganhou. O meu orgulho surge do que me sai das mãos, tendo por único adversário eu mesmo e os meus próprios limites.
O resto é porque quero e porque me sinto obrigado a isso.


By me

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O rescaldo é sempre assim: o treinador não treinou, o árbitro não viu, o jogador não chutou. É sempre assim.
Da bancada, do sofá, da mesa do café. Comentado ao balcão, na cantina, no autocarro.
Agora ver esses mesmos que assim comentam no relvado, mas que não acertam na parede de um palácio a cinco metros… isso não vejo!
Gostar ou não gostar é um direito próprio. Dizê-lo também e houve uns quantos que se bateram e batem por isso. Mas é um dever de todos, dos que dizem e dos que não dizem, de fazer algo para merecerem esse direito.
Houve quem não gostasse da vertente cultural. Admissível esse direito e essa opinião.
Talvez, quem sabe, que preferissem um discurso de um líder que, no final, desse por encerrado o acto e mandasse dispersar. Como é prática corrente. Tão autocrático quanto “O País pergunta” ou “Conversas em família” (para quem se lembra destas).
Ou talvez preferissem, e é seu direito, que um discurso inflamado conduzisse toda aquela gente, incluindo os que estavam ao colo de seus pais e os que gritavam do alto das suas cadeiras de rodas, para um assalto sangrento ao cimo das escadas.
Ou ainda…
Certo! Houve quem não gostasse. E a democracia é isso. Mas sugiro que, no lugar de patearem da plateia, saltem das suas poltronas para o palco e façam. Não importa o quê, mas façam. Digam, ajam, organizem… mas façam, em lugar de apenas protestar contra um evento, para o qual até foram ou não foram, mas que mais não fizeram.
Quando todos fizerem algo, mesmo que alguns não gostem, então alguma coisa mudará.
Porque, gostem ou não disso, não estamos a tratar de um jogo com vinte e dois tipos e uma bola, em que para o ano há outro campeonato!


Imagem: algures da net

domingo, 27 de outubro de 2013

Tristezas



Vejo as imagens de pancadaria no estádio de bola do porto.
Tanto esforço desperdiçado, de parte a parte.
Que o palco das operações deveria ser na capital, com um leão de cada lado e as barreiras derrubadas até bem lá dentro.

Mas o esférico no meio do rectângulo parece ter mais fascínio que o meio círculo cercado de colunas.

By me 

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Ontem mesmo, de conversa com um jovem de quinze anos, disse-lhe que, em caso de dúvidas sobre uma fotografia, a deixo visível durante uns tempos, dois ou três dias, até chegar a uma conclusão:
O que poderia fazer para a melhorar, o que não deveria ter feito, a eficácia no dizer o que quero com ela…
Sobre esta não preciso desta técnica.

Creio que está tudo dito e que qualquer coisa a mais seria estragar o que não deve ser estragado.

By me 

A Pentax



É certo que já somos poucos.
Não! Não é a protestar, que aí somos mesmo muitos.
É a fotografar com câmaras Pentax.
E eu, que sou de manias, em encontrando uma salto de imediato para o registo da feliz ocasião.
Esta minha mania fez com que, ontem, ouvisse por duas vezes “Olha o das Pentax!”
Foram dois que, frequentando os mesmos espaços que eu, já tinham sido objecto da abordagem do costume e fotografadas as respectivas câmaras.
Ontem, felizmente, encontrei um novo. Dito de outra forma, encontrei uma câmara Pentax, nas ruas de Lisboa e no meio da multidão, que ainda não constava da minha lista de “troféus”.

Aqui fica o registo, com a particularidade de pertencer a uma amigo.

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Um olhar - Tiago



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26 de Outubro nas ruas










“Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado”
Fabuloso texto, escrito e lido por André Albuquerque ontem, frente a esta mol de gente que saiu às ruas a afirmar o que sente.
As fotografias não lhe fazem justiça.


Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado, um actor desempregado. Em Novembro volto à labuta. À bilheteira e sem direitos, que é para não pensar que desaperto o cinto das calças. Os humanos não passam sem pão e água e os países não existem sem Cultura. O Coelho gosta da Nini e do Lá Féria, o Costa dá praças ao Tony. Na Ajuda o cacilheiro está sempre primeiro. Portugal embarcado e emigrado. Portugal afundado e eu continuo desempregado.

De Bragança até Faro: corta na saúde, corta na educação, corta na cultura, corta na dança, corta no cinema, corta no teatro. E depois? Depois privatiza, privatiza filho. O Teatro S.Carlos Santander Totta apresenta! O Teatro Sonae S.João vai estrear! O D.Maria II BPN orgulha-se de apresentar: Duarte e Loureiro a caminho da Carregueira!...há coisas que só mesmo no teatro...

"Artigo 78.º, Fruição e criação cultural, ponto 1: Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural." Porra para a constituição...o que é que a constituição já fez por ti hoje? O que é que a porra da constituição já fez por ti alguma vez na vida? Queime-se a constituição, queime-se o código do trabalho, glória ao pai, ao filho e ao trabalho temporário!

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.

E quero ainda dizer, que isto aqui, que isto aqui, é uma cambada de activistas, uma cambada de sindicalistas e uma cambada de lambões! Vão trabalhar, porra! Vão p'rá estiva 80 horas por semana, vão lavar escadas às 5h da manhã, vão ter dois empregos que é bom p'rá tosse, vão chapar massa em cima de andaimes, trabalham e ainda vêm a vista, vão servir às mesas, ficam com varizes, mas trabalham os gémeos, estão desempregados? Apanhem o cacilheiro gondoleiro. E a Luísa? Continua a subir a calçada...

Deus no céu, Soares dos Santos na terra. Pingo Doce, venha cá! Venha cá ver como se destrói a produção nacional, venha cá ver como se faz uma fundação instrumental. Pingo Doce: um litro de vinho aliena e estupidifica um milhão de portugueses. O Pingo é mais doce com a sede na Holanda, o Pingo quer ir ser ainda mais doce para o meio da Colômbia, o Pingo já é doce na Polónia do Wojtila. Pingo Doce: erva, coca, igreja e exploração, e tudo sem custos de produção.

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.

E queria chamar para junto de mim Isaltino Afonso de Morais! E queria chamar para junto de mim Alberto João Jardim! E queria chamar para junto de mim Avelino Ferreira Torres! E queria chamar para junto de mim Valentim Loureiro! E queria chamar para junto de mim Oliveira e Costa! E queria chamar para junto de mim Alves dos Reis! E queria chamar para junto de mim Al Capone!

"Artigo 20.º, Acesso ao direito e tutela jurisdicional efectiva, ponto1: A todos é assegurado o acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos, não podendo a justiça ser denegada por insuficiência de meios económicos." Alguém tire a venda à Justiça, por amor da Constituição.

"Artigo 74.º, Ensino, ponto 1: Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar. Artigo 75.º, Ensino público, particular e cooperativo, ponto 1: O Estado criará uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população. Artigo 64.º, Saúde, ponto 1: Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover. Ponto 2: O direito à protecção da saúde é realizado: alínea a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito." Ah, maldito tendencialmente! À venda neste leilão temos também um artigo de grande valor económico, um maravilhoso contrato swap dirigido à sua PPP de estimação, esqueça a lei fundamental do seu país e governe-se com artigos financeiros do mais tóxicos que há. Sabe qual é o preço certo?

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.

“Faz-me um bocadinho de impressão que 15 pessoas por mais eminentes que sejam tenham o poder de condicionar a vida de milhões de pessoas da forma como têm”(1), a saber: O Ulrich dos aguentas, o Catroga dos pintelhos, o Ferreira do Amaral das pontes, o Luís e o Nuno Amado dos bancos, o Ulrich dos aguentas, o Salgado dos espíritos santos, o Belmiro dos carnavais, o Durão dos caldos entornados, o Pires de Lima das cautelas, o Seguro do qual é a pressa, o Ulrich dos aguentas, o Moedas dos especialistas adolescentes, o Portas dos submarinos e dos vices, o Passos Coelho das enxadinhas para trabalhar, o Cavaco dos muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito...e as pistolas do Buiça? Emigraram com ele para a Suíça. Foi ao Campo Pequeno não havia viv'alma, no Terreiro do Paço estavam umas pessoas a correr patrocinadas pela telefonia, pegou na mulher e nos filhos e toca de zarpar. Já não teve de dar o salto, mas as lágrimas caíram-lhe na mesma.

"O que é que não temos? Satisfação! O que é que nós queremos? Revolução!"(2) Hoje é outra vez o primeiro dia do resto das nossas vidas, temos todos e todas um brilhozinho nos olhos. A austeridade não é inevitável. O pensamento não é único. Eu cruzei a ponte. Pára o porto, pára Coimbra, pára Braga, pára Viseu, pára o Funchal, pára Vila Real, pára Évora, pára tudo! O Alentejo é nosso outra vez. "A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir."(3) "Não nos venham com cantigas, não cantamos para esquecer, nós cantamos para lembrar que só muda esta vida, quando tiver o poder o que vive a trabalhar."(4) Se o ataque é brutal, a greve é geral. Salários e pensões não pagam dívidas, o empobrecimento não paga dívidas, a exploração não paga dívidas. Trabalhadores e trabalhadoras em luta contra a carestia de vida. A troika cheira mal dos pés, a troika é burra, morra a troika, morra pum! A troika é a velha, mas nós não somos nêsperas.

Spartacus morreu na cruz, a Revolução Francesa morreu na cruz, o 25 de Abril ainda está na cruz, é tempo de o resgatarmos.
"Artigo 1.º, República Portuguesa, Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular, e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária."

Liberdade, igualdade, fraternidade. Eu sou Spartacus. O povo, quando estiver unido, jamais será vencido.

"Artigo 21.º, Direito de resistência: Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública." A austeridade ofende os meus direitos, as minha liberdades e as minhas garantias.

Liberdade, igualdade, fraternidade. Eu sou Spartacus. Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado, mas resisto. A maré vai-se levantar. Eu cruzei a ponte. Não há becos sem saída. O Povo contra-ataca. Nós ou a troika?



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Um olhar - Ana



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sábado, 26 de outubro de 2013

Democracia??



Defendo desde há muito que o acesso à Assembleia da República ser exclusivo de partidos políticos é, de alguma forma, a negação da Democracia.
Mesmo que tenha esse nome. Mesmo que se tenha justificado no tempo o assim ter sido legislado.
Os partidos políticos são entidades privadas, ao interior dos quais só se acede se for aceite. E só é passível de ser eleito quem cada um dos partidos assim o entender.
Os deputados têm maior vínculo disciplinar ao partido a que pertencem que ao Povo que os elegeu.
Para quem tenha dúvidas de que assim é, veja-se este caso recente, publicado no jornal I. E acontecendo numa organização partidária com a qual não simpatizo, entenda-se.



O voto contra de Rui Barreto foi uma quebra da disciplina de voto do grupo parlamentar e violou o acordo de Governo estabelecido entre PSD e CDS-PP
O Conselho Nacional de Jurisdição do CDS-PP aplicou hoje ao deputado eleito pela Madeira Rui Barreto a pena de cinco meses de suspensão do partido por ter votado contra o Orçamento do Estado para 2013.
“O Conselho de Jurisdição do CDS aplicou ao militante Rui Barreto a pena de suspensão do partido de cinco meses”, disse fonte do partido à agência Lusa.
Segundo o acórdão, “dúvidas não subsistem de que o militante infringiu a disciplina partidária de forma consciente e deliberada, violando as normas dos estatutos a que estava obrigado, numa matéria de especial relevância política, com graves consequências para a imagem do partido”.
O documento reconhece, contudo, que “em defesa do participado [Rui Barreto] não pode deixar de se valorar as circunstâncias de caráter político da região de onde provém, designadamente, a deliberação da comissão política regional da Madeira”.
No dia da aprovação final global do Orçamento do Estado para 2013, Rui Barreto invocou o mandato que a estrutura regional do partido lhe deu e a "enorme desilusão" da discussão na especialidade para justificar o seu voto contra.
"Eu tenho consciência e também tenho um mandato da comissão política regional do CDS-PP. Portanto, essa é uma matéria do foro interno do partido e que eu devo respeitar e aguardar serenamente", afirmou na altura aos jornalistas, na Assembleia da República.
O parlamentar referiu a "enorme desilusão do processo orçamental", apesar de os deputados do CDS se terem "empenhado fortemente", considerando que "o que se conseguiu foi manifestamente pouco".
Rui Barreto sublinhou ainda que o seu voto contra o Orçamento não era contra o grupo parlamentar do CDS nem do PSD, nem contra o Governo.
O voto contra de Rui Barreto foi uma quebra da disciplina de voto do grupo parlamentar e violou o acordo de Governo estabelecido entre PSD e CDS-PP.
No passado sábado, o líder do CDS-PP/Madeira, José Manuel Rodrigues, declarou que os centristas da região não podem dar o seu aval à proposta de Orçamento do Estado para 2014, que classificou como restritiva, inconsequente e injusta.
“O CDS da Madeira, que esteve contra o Orçamento para 2013 por não concordar com o brutal aumento de impostos, não pode agora dar o seu aval a um Orçamento para 2014 que não só mantém o nível de impostos, nomeadamente o IVA do turismo e da restauração, como ainda procede a cortes injustos nos salários dos funcionários públicos a partir dos 600 euros”, disse José Manuel Rodrigues.
O dirigente partidário adiantou que, como fez com o Orçamento de 2013, o deputado do CDS eleito pela Madeira votará “pondo os interesses da Madeira e de Portugal acima de qualquer interesse partidário ou governamental”.
Face à possibilidade de Rui Barreto arriscar mais um processo disciplinar, José Manuel Rodrigues, que presidiu à reunião da comissão política regional, respondeu na ocasião: “Estamos aqui para assumir as responsabilidades dos nossos atos.”

Artigo e imagem: Jornal I


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O céu é ainda das poucas coisas em que sobre a tempestade que se avizinha ou a calmaria que sabemos que se lhe seguirá pouco ou nada podemos fazer.
O resto – as nossas vidas, as suas tempestades ou bonanças – sai das nossas mãos e daquilo que queremos.


By me

Militâncias



É um assunto que, volta e meia, surge em conversa: activismo, militância, cidadania… coisas destas.
Alguns avançam, e bem, com questões de fundo, com teorias políticas, com ideais de sociedade. Com opções de futuro cuja construção, hoje, é penosa e difícil. E, sendo-o, acabam por ir adiando.
Mas eu tenho para mim que, e para além das questões de fundo, das grandes opções ideológicas, mesmo das revoluções, tudo isso se constrói, também, nos pequenos nadas do quotidiano, nas mudanças de mentalidade. Com conversas e discursos de café ou de trabalho, com exemplos, com práticas diárias.
E porque surgiu em conversa com um casal desconhecido, no regresso a casa de comboio, aqui fica uma dessas práticas, velha de muitos anos na minha rotina.

Em havendo falha na energia eléctrica no meu prédio, a primeira coisa que faço é ir verificar se alguém ficou preso no elevador. Não que tenha a chave para a abrir, mas antes porque uma conversa sempre pode acalmar alguma histeria.
Verificando que não, regresso a casa e desligo o que posso desligar. Sempre evito, com isto, o pico de corrente do regresso. E sempre são alguns watts a menos na rede logo no início. Facilita a vida a todos e à rede de distribuição.
Por fim, e se for de noite, vou buscar um saco que tenho na cozinha, enfio o casaco e o chapéu, pego no tabaco e numa lanterna e desço para a porta do prédio. Onde me deixo ficar até volte a electricidade ou me parecer que mais ninguém está de regresso: meia noite e tal, uma hora.
O que faço ali? Por um lado a presença de alguém na rua, na escuridão de um bairro dormitório sem energia, e com uma lanterna na mão, é dissuasor do roubo de automóveis. Mesmo sendo um facto conhecido que eu não possuo nem carro nem carta de condução.
Por outro lado, vou oferecendo cotos de vela aos vizinhos que chegam. A maioria não tem como alumiar as negras escadas até casa e, alguns, nem luz alternativa dentro dela. Oferta mesmo, sem nada pedir de volta.
Bem, alguns perguntam-me como me podem devolver o que sobrar, ao que lhes digo que na caixa do correio será bom, desde que apagada, claro. Um dia, alguns dias depois de um desses apagões, tinha na caixa do correio um pacote de velas novas, que algum vizinho comprou e ali deixou. Vitória minha. Não p’las velas mas p’lo seu gesto e lembrança.
Creio que são estes pequenos gestos que se opõem frontalmente a esta sociedade competitiva até à demência em que vivemos. E que, de algum modo, demonstram que é possível outras formas de estar e de interagir com os demais.
Acredito que estas pequenas atitudes sirvam de exemplo para que outros as repliquem ou reinventem com vantagem, humanizando aquilo que se tem vindo a transformar em relações frias e calculistas.

As revoluções ou mudanças, mais que decretos ou confrontos, necessitam que sejam interiorizadas por quem as praticam, bem para além dos discursos inflamados e da prática da democracia.

By me 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

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Aveiro
Beja
Braga
Coimbra
Faro
Funchal
Hora, Faial
Lisboa
Portimão
Porto
Setúbal
Viana do Castelo
Vila Real
Viseu


É preciso dizer mais alguma coisa?

Uma questão de princípios



Estávamos de conversa e, a dado passo, disse-me que deixara de pagar multas de trânsito. Pelo menos algumas. Que quando as deixam no limpa-vidros do carro olha para elas e deita-as fora.
“Eles que venham cobrar”, acrescentou.
Pormenorizando, contou que a sau rua tinha sido objecto de mudança de trânsito e que passara a ser proibido parar ou estacionar, como sempre fora. E que não tinha como estacionar perto de casa, como sempre fizera, desde há mais de vinte anos.
“Não me interessa! Não pago! Não é justo nem sequer faz sentido, que a rua é larga e dá para tudo. Eles, se quiserem, que me processem!”
Mas acrescentou, em tom mais baixo:
“Bem, se depois e por causa disso me suspenderem o reembolso do IRS, vou lá e pago tudo na hora, claro.”
No início pensei que, apesar de o conhecer há muito, sempre seria um homem de princípios, cá dos meus, que se bate por aquilo em que acredita.
Mas, ao ouvir a conclusão, acabei por reconhecer o meu interlocutor:
Um homem de princípios mas com fins rápidos. Bate-se por aquilo em que acredita, desde que não saia prejudicado. Muito menos prejudicado no bolso ou no conforto.

São tantos os que assim se comportam que se os armasse e equipasse bater-me-ia de igual para igual com os exércitos mais poderosos do mundo.

By me

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Parece que o tribunal de execução de penas recusou a liberdade condicional a Mário Machado, antigo dirigente da Frente Nacional e líder dos hammerskins, movimento conotado com a extrema direita.
Foi ele condenado a dez anos de cadeia por vários crimes, entre os quais roubo, sequestro, ofensas à integridade física e posse ilegal de armas.
Por mim, tudo bem. E, se calhar, está certo.


Infelizmente, continuam por julgar e condenar muitos outros, mas muitos mesmo, que, protegidos e enquadrados na lei, continuam a cometer crimes de roubo, ofensa à integridade física, sequestro…

By me
Enquanto lá dentro se discute o orçamento de estado, cá fora até São Pedro protesta alto e bom som.

Será que ainda não perceberam?

Del



Tem dias em que não dá!
Mais de uma hora de volta de um texto retrospectivo e caustico, para chegar ao fim e constatar que tomou vida própria e que não é nada do que eu queria fazer.
Se fosse na máquina, teria puxado p’la folha, amachucando-a e jogando-a fora; se fosse no caderno, limitava-me a fechá-lo, guardando as outras páginas, ainda virgens, para outras diatribes.
Aqui, bastou-me um pequeno gesto. De que me arrependi de imediato.
Que o único “delete” que podemos e devemos fazer é para com aqueles que nos impedem de viver o futuro.
O passado, esse, é para arquivo.

É por essas e por outras que gosto tanto do arco da Rua Augusta.

By me 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Retrato de um dia de Outubro



By me


No próximo dia 26, sábado, vais para a rua manifestares-te até São Bento? Porquê?

Vou manifestar-me mais uma vez porque me revolta reduzirem-nos a simples números e estatísticas, porque me revolta a falta de sensibilidade social, a falta de políticas de reabilitação e inserção....Vou manifestar-me porque somos pessoas, porque somos cidadãos de pleno direito, porque temos direito a uma vida mais digna, mais inclusiva, mais participante... dia 26 de Outubro vou sair à rua pelo direito às pensões, que são de quem para elas descontou ao longo da vida, ao emprego, à saúde publica, ao Ensino Inclusivo, ao Ensino Público, à Justiça. Em suma, vou manifestar-me por aquilo em acredito...Eu acredito em Portugal!


Manuela R.

Trincheira



É uma daquelas peças de vestuário que já vai sendo rara de ver em uso. E, consequentemente, difícil de encontrar no mercado.
Mas, sendo certo que eu uso o que quero não aquilo que os fabricantes entendem que devo usar, fartei-me de procurar até dar com ela. Há anos que a tenho e houve algum bom sendo da minha parte, na altura, para a comprar “um furo acima”. O aumento da barriga e do resto não impede a sua utilização.
Falo de uma gabardine estilo “trincheira”.
Comprida a ponto de ficar abaixo dos joelhos, tecido fino que não aquece em demasia, ombros duplos por via da chuva… é o ideal para usar em momentos de muita chuva e vento, garantindo que o único que ficará encharcado da roupa a usar debaixo de telha serão as pontas das calças e o calçado.
Este estilo de roupa caiu em desuso. Fácil de entender. Acabaram as longas marchas a pé, o estar horas a fio à chuva, o seu comprimento não se compadece com o sentar nos baixos assentos dos carros e autocarros… a modernidade das deslocações e as compras feitas em centros comerciais levam a que cada vez menos gente as procure ou use. E os fabricantes e vendedores a reduzirem o que se negoceia.
Mas sou eu da velha guarda e, como disse, uso o que quero. E não andar de carro faz-me sorrir perante o encharcado da cintura p’ra baixo que vou vendo nalguns concidadãos.

E, já que falo em concidadãos e mau tempo:

Alguém pode dar um recadinho ao São Cristóvão, padroeiro dos viajantes e automobilistas? É que em tempo de chuva torrencial e com as valetas transformadas em ribeiros, nem sempre de pequeno caudal, conduzir rápido e perto do passeio é garantir um banho não muito limpo aos peões que nele caminham. O terem um “sobretudo de lata” não lhes dá o direito de assim tratarem quem não o tem, por opção ou com condição.

By me


No próximo dia 26 vais para a rua manifestares-te até ao parlamento? Porquê?

… Se for será a de 26, pois transportes têm seu custo e eu já saio pouco aqui do meu sítio. Não tenho grande capacidade de escrita por isso não gosto de falar para multidões... Sou mais uma Maria, desempregada de longa duração (3 anos) que tem de pedir reforma antecipada para ter algo para o sustento.


Maria G.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

E o dia acabou assim



By me
O título da notícia, no jornal Público, é o que segue:

“Eu não tenho amigos”, diz Passos Coelho


Não li o resto da notícia. Presumo que demonstre, sem nenhuma dificuldade, que o oposto é verdade e que os inimigos se contam por milhões.


Hierarquias



É uma daquelas coisas que, juro, sempre me fez confusão.
Porque raio se diz (ou pensa) “Fulano recebeu Cicrano”?
Não me refiro a “receber em casa”. Afinal a casa de cada um é o seu local privado, onde o acesso é condicionado a quem é convidado por quem lá vive. E o dono da casa deverá “receber” as visitas
Também não me refiro às relações entre estados. A ida de um dignitário de um país a outro é uma visita, como se de casas se tratassem. E faz sentido ser tratado com deferência, acompanhado ou recebido por alguém do mesmo estatuto: ministro, presidente, deputado…
Refiro-me mesmo à situação de um ministro “receber” cidadãos, de um presidente “receber” partidos, de um deputado “receber” sindicatos…
Caramba!
Quem assim “recebe” não é o dono de coisa nenhuma. É um funcionário público, no exercício do seu mister, que tem uma reunião de trabalho com aquelas pessoas. Pessoas ou grupos esses que, no fundo, são os seus patrões: pagam-lhe, mesmo que indirectamente, o seu salário, são os proprietários, colectivamente, das residências oficiais, gabinetes e palácios, e, em havendo alguma hierarquia, será uma ascendência de quem vai sobre quem está. Um pouco como quem vai a uma repartição pública e fala com alguém que está do outro lado da secretária ou balcão.
As frases “o ministro recebeu os sindicatos” ou “o deputado recebeu uma delegação” ou “o gestor recebeu os representantes” ou ainda “o director recebeu o delegado” são a total inversão de valores.
Que um eleito ou gestor de coisa pública não é dono de coisa alguma que não a sua cota parte do país ou empresa, não sendo nem mais nem menos que aquele ou aqueles que com ele falam. E o local onde essas reuniões de trabalho acontecem não é um espaço privado, como se de casa se tratasse, mas tão só o posto temporário de trabalho, de um contrato a termo certo, de um funcionário público.

Respeitemos as verdadeiras hierarquias e nunca nos esqueçamos que, no tocante à coisa pública, o verdadeiro dono somos nós.

By me