sábado, 31 de agosto de 2013

O nó



Arrumações dá nisto: tropeçarmos em coisas de que nem nos lembrávamos ou mesmo sabíamos que ainda existiam.
No meio do pó dos livros (saiba-se que é, também, o nome de uma excelsa livraria em Lisboa) e do pó das caixas, mesmo fechadas, eis que encontro duas preciosidades do passado: dois cartões de estudante, distando entre si um ano apenas.
Trata-se do cartão do Liceu D. Leonor, um do ano 74/75 outro do ano 75/76, altura em que frequentei os antigos 6º e 7º anos dos liceus, já então chamados de “curso complementar dos liceus”.
Poupo-vos ao triste espectáculo de me verem sem bigode. Ainda o não tinha deixado crescer na altura e, desde que veio, nunca mais saiu. Tal como vos poupo à evolução do olhar dos 16 para os 17 anos. Não apenas a natural evolução da adolescência, mas uma adolescência vivida naqueles anos, rica de acontecimentos e emoções como poucas, de então para cá. E patente no olhar e o ricto ainda sorriso.
Mas não vos poupo a este pequeno mas sintomático detalhe: o haver ou não gravata.
Se a memória me não falha, ambas as fotografias foram feitas no mesmo fotógrafo em Lisboa. Ainda existe, ainda que muito modernizado, com outro nome e com o acrescento de “estúdio digital” na tabuleta. Já por lá fui perguntar e soube que os actuais donos são os filhos do que me fotografava, e que já se preparam para se reformar. Dos arquivos de então, já não há memória.
Mas o que acaba por ter graça é que no verão/outono de ‘74, altura em que a primeira foi feita, ainda subsistia um dever de usar gravata num documento importante. Que o retrato, feito no fotógrafo, era algo de importante! Um ano depois, no verão de ‘75, já a gravata era coisa do passado, que se não usava senão… nem eu sei bem quando.
Ficou-me um semi-hábito. Tenho umas dezenas de gravatas, a esmagadora maioria com o mesmo tema e por brincadeira. Raramente as usei, e sempre as mais discretas e em ocasiões em que fiz questão de não destoar: num ou noutro casamento, num funeral, por dever de ofício numa sessão solene com o papa João Paulo II e, confesso, quando está frio. Que a gravata é para isso que serve: proteger o pescoço.

Sobre as fotografias de passe, do seu uso e do seu fazer, tenho uma ou duas teorias que, em tendo eu tempo e disposição, as passarei para o papel, com respectivas ilustrações.
Mas que nos contam histórias, assim as saibamos ler, disso não haja dúvidas!
E vivam as arrumações e os tropeções, que nos justificam uma pausa apetecida mas não merecida.


By me

Alguns



Quando em turismo, gosto de ver igrejas por dentro. Não apenas por questões da arte sacra mas, e principalmente, porque a forma como estão mantidas me fala de quem as frequenta. E faço turismo para conhecer pessoas e não apenas arte.
Sempre assim fiz e aquando desta história, há trinta e tal anos, já o fazia.

Londres, Julho, acampado, sozinho.
Vadiando p’la cidade, vejo uma igreja de tamanho razoável que me pareceu justificar a visita.
Levava eu o cachimbo aceso e, quando me dirigia para a porta, um homem dos seus trinta e tal anos que ali estava lembrou-me que não deveria entrar a fumar. Claro que essa não era a minha intenção e disse-lho, apagando-o. E ficámos à conversa, para sorte minha.
Tratava-se do padre daquela igreja e fez de guia turístico no interior. Que valia a pena visitar, já que o templo estava dedicado à santa padroeira da RAF (não recordo qual era) e estava decorada com inúmeros estandartes da corporação, alguns bem antigos. Lindíssimo, tanto mais que se tratava de uma igreja Anglicana, com a sua arquitectura típica, entre pedra e madeira.
Estávamos nisto, no meio da nave com ele a explicar-me tudo aquilo, quando se aproxima outro homem. Cinquentão, com ar modesto, vinha pedir ajuda.
A sua história era que estava desempregado mas que tinha obtido uma promessa de emprego do outro lado da cidade. Mas não tinha dinheiro para os transportes. E propunha a venda de um rádio portátil para obter os fundos necessários.
O sacerdote pegou-lhe gentilmente por um braço e encaminhámo-nos os três para o átrio da igreja. Onde lhe fez mais algumas perguntas e lhe comprou o aparelho. E eu, puto, a acompanhar a coisa, tentando perceber o inglês em que se desenrolava a conversa.
Afastando-se o homem e pondo o padre o rádio debaixo do braço, perguntei-lhe eu porque havíamos saído de onde estávamos para ali fazer o negócio. Disse-me ele, sorrindo e no mesmo tom suave com que havia conduzido toda a conversa comigo e com o outro:
“Na casa do Senhor não se fazem negócios. Aqui no átrio, não faz mal.”

Continuo a não ser crente e continuo a não ter boa opinião sobre muitos dos sacerdotes. Não importa qual a confissão religiosa.

Mas alguns merecem ser conhecidos.

By me 

1%



Não me incomoda rigorosamente nada que haja gente a ganhar muito dinheiro. Muito mesmo.
Afinal, é óptimo que as pessoas possam estar de bem na vida, sem problemas ou tristezas. Isto, supondo que ter dinheiro o permite.
Agora faz-me sair do sério haver gente que não tem dinheiro suficiente para comer, nem para dar de comer aos seus, nem para ter acesso à saúde, à educação, à segurança…
E fico ainda pior quando percebo que são os poucos do primeiro grupo que provocam a situação a todos os do segundo grupo.

Ter um primeiro-ministro a ganhar cinco mil e tal euros mensais, sem cortes e tectos salariais, não me incomoda.
Agora saber que é ele que decide e impõe cortes nos salários e pensões e aumentos de impostos, ficando ele à margem disso…


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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A minha opinião



Alguém me explique isto, que eu sou demasiado burro para o entender sozinho.
Amanhã acontece aquilo a que chamam de “derby”, seja lá o que for o que significa este termo britânico em língua lusa.
Ao que parece, que o soube p’los jornais, será um encontro de futebol, entre o Sporting e o Benfica.
Oiço na televisão que se trata de um encontro de alto risco, p’lo que as polícias estarão de prevenção, com fortes reforços no local. E oiço que a posse ou arremesso de engenhos explosivos, vulgo petardos, será considerado crime e de imediato o seu portador ou utilizador detido.
Então é um encontro desportivo ou uma zona de combate? E, prevendo-se tantos riscos e perigos, porque raio é permitido? E, para evitar os confrontos bélicos entre os fanáticos da bola, vamos nós, cidadãos, pagar o trabalho extraordinário da polícia?
Espera lá! Então eu, que não ligo nada à bola, vou pagar com os meus impostos que se evitem os previsíveis confrontos violentos entre adeptos? Não quero!
Se eles querem andar à pancada, usando não importa o quê, é fácil: abram as portas do estádio, metam-nos lá dentro e fechem a porta à chave. Umas duas ou três horas depois, vão buscar os sobreviventes e enterrar, em vala comum e sem exéquias, os restantes.
Não quero pagar e farei o possível por arranjar forma de não pagar a minha quota-parte de impostos que correspondam a este evento!

Quanto à imagem, corresponde aos meus sentimentos com um gesto explícito sobre o tema e os fanáticos, mas adaptado a todas as idades e regras da Internet.



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Arrumações



Repito-me: tenho uma notória aversão a arrumações!
Claro que o trabalho que dão é grande. Tanto maior quanto mais protelarmos a coisa.
Claro que os critérios são sempre discutíveis, mesmo que a solo: Tamanhos? Autores? Género? Utilidade? Antiguidade?
Claro que a exiguidade do espaço, obrigando a puzzles pouco simpáticos não ajuda nem um pouco. Nem no fazer nem na vontade de tal.
Mas o que mais me desagrada nas arrumações é o tempo que irei perder, durante muito tempo, na procura de algo que, estando muito bem arrumado, não sei onde o arrumei.
Por outro lado, o arrumar passado muito tempo sobre a anterior arrumação, dá-nos a alegria de encontrar aquilo de que já não nos lembrávamos ou que nem desconfiávamos onde estaria.

Ou a tristeza de descobrir que aquele livro comprado recentemente, afinal, já cá estava, na pilha dos “para ler”. Neste caso, pode redundar na alegria de alguém, um terceiro, que pode engrossar a sua própria biblioteca mas que, cedo ou tarde, acabará por ter o mesmo problema: odiar arrumações!

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Fogo



Em tempos frequentei um curso de prevenção de acidentes de trabalho. Foi já há tanto tempo que muito do que então aprendi já esqueci. Muito mas não tudo.
Recordo, entre outros, a definição de fogo que, e usando as palavras do formador, era o que ensinavam aos básicos:
“O fogo é um triângulo, em que cada uma das arestas é, respectivamente, combustível, comburente e energia. Em se retirando uma das arestas, não há triângulo. Não há fogo.”
Por combustível, todos entendemos os que é: gasolina, palha, madeira, papel… Se não houver o que arder, não há fogo.
Por comburente entenda-se o oxigénio. Retiramo-lo abafando o fogo. Com água, a tampa na frigideira, o cobertor, terra…
Por energia entendemos o calor. Se arrefecermos o que arde, este extingue-se.
A água é o que mais conhecemos como agente de combate a fogos. Cumpre a função de abafar e arrefecer. Os extintores de pó químico cumprem a função de abafar e os de neve carbónica a de abafar e arrefecer, principalmente esta última. Existiam também até há uns anos os extintores de gás Halon, que cumpriam a função de abafar, sendo que se combinavam com o oxigénio, criando um outro composto e anulando a presença de oxigénio. Foi proibido há vinte anos, não apenas por ser tóxico mas também por ser danoso para a camada de ozono, já que este é oxigénio, combinado em três átomos, no lugar de dois como é habitual.
Falta falar na forma mais simples, mas trabalhosa, de se extinguir um fogo: retirar-lhe o combustível. Conhecemos esta técnica com a maior das facilidades: retirar de perto de um incêndio tudo o que possa arder. Fazemo-lo nas casas, nas garagens, nas oficinas…
Em tempos antigos, havia uma norma régia em Lisboa que, em havendo incêndio, os tanoeiros e construtores navais eram obrigados a comparecer com as suas ferramentas. Não havendo acesso à água como o conhecemos hoje, e sendo as construções feitas com muita madeira, a sua função era destruir com as suas ferramentas pesadas as casas em redor para evitar que o fogo se propagasse ao resto da cidade.
E no fogo florestal faz-se algo de parecido: preventivo ou interventivo.
Como preventivo é aquilo de que tanto vimos ouvindo falar: limpeza das matas e florestas, retirando ervas e mato seco. Isto acontecia sistematicamente nos tempos em que isso mesmo era usado como combustível nas habitações e em que quem vivia do campo e da floresta habitava por perto e cuidava do que era seu. Não é o caso hoje, em que os donos das terras vivem longe, por vezes accionistas de corporações, deixando a terceiros o trabalho de o fazer. Restam os poucos que residem nas aldeias, envelhecidos e com menor esperança no futuro.
Outra forma de combater incêndios faz parte das frases populares: combater o fogo com o fogo. Por outras palavras, em havendo fogos não extinguíveis na frente de fogo, fazer queimadas controladas no seu caminho, impedindo o seu progresso por ausência de combustível. Também é técnica antiga e recorre a meios simples, se bem que perigosos se se descontrolar.

Não sou bombeiro nem especialista em combates a incêndios.
Mas vejo nas imagens televisivas bombeiros mal equipados, combatendo incêndios na linha de fogo, com gente a morrer onde deveriam salvar pessoas e bens.
E vejo isto acontecer em terrenos privados e públicos: mato e floresta de pequenos agricultores, de grandes produtores de papel, matas nacionais, parques protegidos.
E se é complicado – mas não impossível – impor a idosos que cuidem das matas, é imperdoável que as grandes empresas o não façam. E é criminoso. Tal como é imperdoável e criminoso que o próprio Estado não o faça.

Quando dos incêndios florestais mais não restar que terra queimada e a memória, quando os eventuais incendiários forem julgados (quantos já o foram nos últimos anos?), fará sentido que se responsabilizem criminalmente quem não cuidou de mato e floresta e que, com isso, foi co-responsável por mortes de bombeiros.

By me 
Imagem algures na net 

Deep inside



By me

quinta-feira, 29 de agosto de 2013



Há dois anos, salvo erro, alguém publicou numa rede social um link de um jornal de grande credibilidade onde se noticiava o falecimento de Vasco Granja.
Alguém, numa redacção, deu crédito a quem divulgou, deu crédito ao jornal que o noticiava e, em consequência, trataram de fazer um texto de obituário, com tudo o mais que o acompanharia.
Felizmente alguém parou um pouco para pensar, analisou a página do jornal referido e constatou que a notícia datava de 2009. Três anos antes.
Agora…
Agora alguém constatou que o Presidente da República não tinha publicado as mensagens de condolências aos familiares dos bombeiros tombados a combater os incêndios. Mas tinha publicado notas de condolências aos familiares de figuras de casas reais da Europa e de economistas portugueses.
E este alguém divulgou esta ausência nas redes sociais e foi “um vê se te avias” com protestos e mensagens em consonância com o sentimento de injustiça perante esta falha do mais alto magistrado da nação.
Hoje ocorreu mais uma tragédia. Faleceu mais uma bombeira em defesa do país e na frente de fogo.
Acto continuo foi divulgado que o Presidente da República enviou a mensagem de condolências e os media não perderam a oportunidade para o relatar, antes que as redes sociais do caso falassem.

Pergunto-me quem está ao serviço de quem, quais os critérios que regem o gabinete de comunicação da presidência da república e quais os critérios das direcções de informação e de redacção.

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Dupon e Dupon



Há uns anos tive um episódio em Barcelona que acabou por ter graça, ainda que, na altura, eu não a sentisse.
No metro desta metrópole palmaram-me o porta-moedas.
A forma como o fizeram foi original mas, fosse como fosse, fiquei incomodado, para não usar outro termo. O dinheiro fora-se, naturalmente, mas era nele que tinha a chave do quarto do hotel. E havia que bloqueá-la tão cedo quanto possível.
Dirigi-me à esquadra de polícia que existe na estação mais central do metro da cidade para apresentar queixa. Sabia ser inconsequente, no sentido de recuperar fosse o que fosse, mas sempre oficializava a coisa e serviria para a estatística policial.
E foi aqui que se levantaram os problemas, por estranho que possa parecer.
Era eu a dizer ao agente que me atendeu que tinha sido roubado, usando do meu deficiente castelhano, e ele a dizer-me que não, que eu tinha sido… E eu não percebia o termo.
Estivemos nesta uns dois minutos até que surgiu outro agente com quem me entendi. Eu não tinha sido roubado mas sim furtado. Furioso estava eu com a questão da semântica e pedi explicações. Que me deu. Teria sido eu roubado se tivesse havido qualquer tipo de violência, sobre mim ou sobre o local de onde tinha desaparecido o bem em causa. Abrir um fecho, forçar uma fechadura, cortar a roupa… Mas como tinha sido apenas o enfiar a mão no bolso das calças para o acto, tratava-se de um furto. E, bem mais que semântica, trata-se de uma questão legal, com tratamentos policiais e consequências penais bem diferentes.
Aprendi várias coisas nessa tarde, incluindo sobre termos legais.

Hoje tive uma conversa semelhante, se bem que por motivos diferentes. Mas uma conversa de surdos, garantido.
O sistema de controlo de presenças da empresa onde trabalho faz-se com um cartão magnético num sensor, após o que teremos que colocar um dedo para reconhecimento da impressão digital. E possui um pequeno ecrã que confirma o registo.
À saída, constato que o tal ecrã, pequeno, estava com alguns dos seus dígitos a preto, não dando a informação por completo.
Tratei de avisar a funcionária da empresa de segurança que ali trabalha. Por sinal, a que estava de plantão era a superiora no local.
“Sabe que este ecrã está avariado?”, disse-lhe depois de transpor o torniquete.
“Não está não. O registo faz-se na mesma.” ouvi.
“Eu sei do registo, mas estou a falar do ecrã. Está avariado!”
“Não está não! Apenas não mostra alguns dos dígitos.” Retorquiu-me.
“Bem, isso é uma avaria e estou a informá-la disso.”
“Isso não é uma avaria: é uma pequena anomalia, já que está a funcionar.”
“Bem, uma avaria pode ter vários graus. Se estivesse de todo avariado não funcionava e vocês dir-me-iam que estava fora de serviço. Mas está avariado!”
“Não! Tem uma pequena anomalia, sr. Duarte, e o seu reporte foi anotado.”
Aqui vacilei. Para que ela soubesse de cor o meu nome, havia já a minha fama de “mau feitio” preceder-me de longe. Vacilei mas não desisti, e atirei-lhe antes de sair para a rua, com um sorriso estampado na cara:
“Pois: tal como na questão das autárquicas, também aqui é uma questão de semântica. Tratem, então, de reparar a coisa!”

Cá fora um outro funcionário da mesma empresa sorriu-me à passagem. Costuma ele estar naquele posto e conhece-me há anos. Os comentários,  guardou-os ele, e guardei-os eu, para dentro. Nem ele quereria contradizer a chefe nem eu o queria deixar mal visto.


By me

O comboio



Aqueles que estão ligados à educação infantil e pré-primária sabem bem melhor que eu aquilo de que falo:
A representação gráfica da criança passa bem mais por ícones do que vê, sente e imagina que por uma representação exacta da luz, cor e volumes.
A transformação dos “gatafunhos informes” para a representação “fiel” com escalas, perspectivas e “correcção” dos traços é algo que vai sucedendo aos poucos, em parte fruto do hábito do que vai vendo feito por outros, em parte fruto da receptividade que vai tendo de terceiros ao que vai fazendo.
É uma aprendizagem moldada numa cultura visual em que a geometria Euclidiana impera e onde o fac símile “é vital”.
A fotografia, enquanto sistema pré-programado de representação, fiel a uma geometria e reprodução de cores e luzes, bem como a sua rectangularidade, será o expoente máximo desse moldar cultural, em que largá-lo é das coisas mais difíceis de fazer.
Não tenho nem conhecimentos de pedagogia infantil nem oportunidade para o fazer. Mas bem que gostaria de ir aprender com os pequenotes o como fazer fotografia, bem para além de tudo o que a nossa cultura nos impõe, explorando bem mais os sentimentos implícitos que as formas e geometrias explícitas.


“Olha, é o comboio!”, disse-me o petiz sorridente, ainda não estreante da primeira classe, mostrando-me esta imagem feita com a câmara que lhe havia cedido.

By me and Rui 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Privacidades



É uma conversa que, volta e meia, vem à baila. E eu uso os mesmos argumentos de sempre.
Fala-se do vício do telemóvel e de como tanta gente é incapaz de passar sem ele. Mais: como as conversas são interrompidas de súbito, só porque o aparelhómetro de um dos interlocutores tocou. A premência de querer saber quem está a ligar e a eventualidade, tantas vezes remota, de ser assunto urgente, tudo justifica. Mesmo a má educação.
O meu argumento, baseado na minha própria atitude, é sempre o mesmo: atendo o aparelho se puder e quiser. E se puder e quiser interromper o que estou a fazer. E há coisas que não interrompo, nem que a vaca tussa.
Para reforçar este argumento, costumo perguntar se quando estão na casinha atendem o telemóvel. A maioria diz-me que sim, mas sempre achei que era uma forma de me calarem, o que não é fácil.
Hoje cheguei a outra conclusão.
Estava eu aqui entretido a fazer o que imaginam quando oiço um telemóvel tocar. Sabia não ser o meu e pensava-me sozinho, pelo que imaginei que alguém o havia deixado ali. Toca uma segunda vez, e eu tranquilo com a minha ocupação. Não chegou a tocar terceira vez.
De dentro de uma das privadas, nas minhas costas, oiço alguém atender e encetar uma conversa que, e devido ao revestimento do local e consequente acústica, nada tinha de privacidade.
Tive tempo de lavar as mãos e secá-las, tudo com calma, e a tal conversa, bem fútil por sinal, continuou com a maior das naturalidades, por aquilo que deduzi do tom que ouvia.
Vou, decididamente, mudar de argumento, que o que tenho ouvido parece ser verdade. E passar a usar um de maior peso:
Se quando estão deitados, em plenos deleites com quem deitado também está, também interrompem a função.

Sempre quero saber quem terá a coragem de dizer que sim!

By me

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Relatividades



“Tivemos 15 minutos para sair de casa. Pegámos nas crianças, nos animais, fotografias e uns papeis que precisávamos. Foi difícil.”

Estas são as declarações, copiadas de uma reportagem televisiva, de uma cidadã Norte Americana sobre o ter tido que evacuar as zonas de fogo que atingem o estado da Califórnia.
Note-se o que esta mulher entendeu como importante salvar.



By me

Um olhar - Patrícia



By me

O visível e o invisível



Se atendermos a que a imagem não é “o duplo de uma coisa, mas sim um jogo complexo de relações entre o visível e o invisível, entre o visível e a palavra, entre o dito e o não dito”, entendemos melhor como as imagens têm que ser repensadas na sua relação moralizante com o mundo.

In “Mandei-o matar porque não havia razão”, by Emília Tavares

Imagem: by me

Já falta pouco



Por cá ainda é só assim: pedindo por favor, com um agradecimento no fim e relativo apenas a pombos.
Considerando que alguns chamam a estas aves “os ratos com asas”, numa alusão a pragas urbanas, e considerando que há quem tenha pavor da animais alados, até que é simpático. Principalmente porque pedem e agradecem.
Mas eis que tropeço numa referência colocada on-line por um particular. Que fui esgravatar por via de dúvidas e constatei ser verdade: Em mais de 50 cidades dos EUA é proibido alimentar sem-abrigo e pedintes na rua. E as forças da ordem são instigadas a fazer cumprir a lei, não sobre quem pede mas sobre quem dá.
Quem quiser fazê-lo deverá levá-los a sua própria casa, a um restaurante ou a instituições apropriadas, onde os assistentes sociais intervirão junto de quem pede.
É por estas e por outras que me dou por satisfeito por viver cá. As coisas ainda são feitas em tom de pedido e com um agradecimento. Ainda e ainda só a propósito de pombos.

Que em breve estaremos como do lado de lá do oceano: Por haver quem dê mas, e principalmente, por haver que precise.

By me 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Talvez




Virá o dia, estou certo, em que talvez diga como o mestre disse:
“Este ano fiz doze boas fotografias. Foi um bom ano!”

Até que esse dia surja, garanto que vou continuar a tentar.

. 


Eh pah! Pelo-me por pão acabadinho de sair do forno barrado com manteiga.

A fotografia? Pois… Não deu tempo p’ra isso!

.

'Tá calor!



By me

Tu podes



Sejamos pragmáticos:
Nem em todos os dias em que um tipo se levanta da cama às três e pouco da madrugada p’ra ir trabalhar há vontade de fazer coisas novas.
Mas vir à janela p’ra ver como está o tempo, ficando arrepiado até ao tutano com a aragem fresca a virar frio, e ter visível este lembrete…
Eu sou a segunda geração que possui este singelo quadrinho desde o aprender as primeiras letras. Com história na sua feitura, posse e utilização.
Um dia passará para uma terceira.
Mas não tenho dúvidas que, de todas as frases feitas que encontramos nas redes sociais e nas lojas de inutilidades, esta é a mais certeira e infalível.
E, talvez de tanto o ver, tem sido o meu mote.


Em tom de nota de rodapé, fica esta fotografia como exemplo: não há horas impróprias, nem frio nem escuridão que impeçam o fazer de fotografia. Basta que queiramos.

By me

domingo, 25 de agosto de 2013

Carbo Sidral



Ir dormir e antecipar um sonho bom é um privilégio. Esta noite será meu!
Sonhar com o que em tempos nos refrescava o verão e que não voltou, é saber que é um sonho na verdadeira acepção da palavra.

Deixo-vos este meu, para uma noite de sonhos agridoces e gasosos.

By me 

Há 25 anos



Há 25 anos acordei com a notícia do incêndio. Dramático!
Com aquele instinto que bate forte na grande maioria de quem possui câmara fotográfica, e bem mais presente hoje que então, ponderei zarpar para Lisboa e ir fotografar. As credenciais da profissão que possuo certamente me dariam acesso ao locais mais “quentes”, sendo-me possível fazer imagens de relevo e, quiçá, únicas. Únicas no mundo da fotografia e únicas na minha vida.
Ponderei e não fui.
Se, por um lado, não sou feito do estofo dos foto-repórteres, por outro, e mesmo que conseguisse ultrapassar as barreiras de segurança criadas, iria certamente mais atrapalhar quem ali estava naquele espaço exíguo que fazer algo de útil.

Do fogo que destruiu o Chiado há 25 anos não tenho troféus. Excepto, talvez, este imaterial de saber que há coisas bem mais importantes na vida que a fotografia.

By me

O embaraço da escolha



A gadanha é uma alfaia agrícola.
Trata-se de uma foice de lâmina longa e larga, não muito curva, colocada na extremidade de um cabo longo. O seu utilizador está de pé e a lâmina roça o chão.
É hoje conhecida por dois motivos:
Por um lado, e por ser alfaia agrícola, era empregue pelas populações quando em confrontos violentos. É usada em ilustrações nas mãos de camponeses quando revoltados e na falta de armas convencionais. O seu aspecto não é de inspirar confiança e o seu uso não é, de todo, tranquilizador.
Por outro lado, foi generalizada esta ferramenta como símbolo da morte. Vê-mo-la em inúmeras ilustrações e iluminuras antigas: uma figura, em regra encapuçada e com uma caveira no lugar de face, empunhando-a. Ao que julgo saber, a utilização da gadanha como instrumento da morte prende-se com o facto de, ao ser usada, cortar tudo por igual, não diferenciando as boas das más ervas, como seria o caso de uma foice de cabo curto. E a morte, sabemo-lo, a todos leva de igual modo. Bons e maus.

Fiquei hoje sabendo que morreu António Borges. Levado por essa gadanha que a todos nivela.
Haverá, creio, quem lamente a sua morte. Naturalmente que os seus familiares, talvez que alguns alunos e os seus correligionários na finança, pensamento e política.
Eu não sou um deles!
O seu pensamento e discurso influenciaram por demais as actuais políticas, conduzindo-nos a onde estamos, sem que por isso respondesse perante o povo. As suas influências teóricas e políticas sempre se fizeram meio na sombra, para além do sufrágio popular, ficando os eleitos com a responsabilidade de tal. Para usar uma expressão que de quando em vez está na moda, fazia parte de um “governo sombra”. Sem responsabilidades nem responsabilizações. Dizia e influenciava o que tinha para dizer e influenciar e seguia a sua vida sem mais.


A sua morte, agora, dar-me-á trabalho. Terei que de uma destas apagar o seu nome, porque inútil o seu uso. Claro que, e face à escassez de material e à super abundância de candidatos, terei que encontrar o nome certo para o substituir. Coisa demorada, como se imagina, aí para uns quinze a vinte segundos.

By me 

sábado, 24 de agosto de 2013

Vim só deixar um poste!



By me

Meio quê?



A questão não é, naturalmente, se está meio uma coisa ou meio a outra.
Está mesmo e irremediavelmente vazio, p’lo que resta partir p’ra onde encontre onde o encher.

A ele ou à alma!

By me

Lembrete de coisas a não fazer



Já não quero falar na impossibilidade de se embarcar num carro-eléctrico num sábado de Agosto. Para além do guarda-freio, creio que mais ninguém fale português. P’lo menos de origem que, e para além do enxame de carteiristas, os turistas não o fazem mais que “obrigado”. E mal.
Bem mais difícil que subir num destes transportes públicos, é conseguir embarcar no que tem como paragem quase obrigatória a feira da ladra. Não sei algum local de romaria por essa Europa fora (Torre Eifel, Torre de Londres, Ramblas, Prado ou Praça de São Pedro) estarão tão fracamente servidas de transportes.
Claro que ir à feira da Ladra em Agosto equivale a uma ida a uma sauna, com a desvantagem de se estar vestido. Ele é o calor do estio, ele é o calor humano, ele é o calor do discutir preços, ele é a emoção fervente de se encontrar “aquela” peça… Claro que um alfacinha de gema sabe que se começa por cima e se vai descendo, memorizando o quê, por quanto e quem vende o que nos interessa, fazendo um mapa mental de onde interessa ir depois de tudo explorado.
Obviamente que outro aspecto a ter em causa ao ir à Feira da Ladra em Agosto é ter-se o cuidado de não levar sacos vazios connosco, para além de levar pouco dinheiro. Não ter isto em linha de conta, uma coisa, a outra ou ambas, é querer regressar-se com excesso de peso nos ombros e falta de peso na carteira. Voluntário ou não!
Mas o pior que nos pode acontecer ao ir à Feira da Ladra em Agosto é ter que levar com um anúncio destes enquanto se espera p’lo eléctrico (em plena hora de almoço já meio vazio) no regresso.

Fica assim um lembrete de algo a não fazer: ir à Feira da Ladra em pleno Agosto.

A menos que queiramos regressar com pequenas preciosidades (tamanho e custo), a maioria das quais inúteis que não para satisfazer o prazer de ter algo que será útil algures no futuro mas que se não sabe quando.

By me

"Pagamentos"



As fotografias que fiz no âmbito do meu projecto “Old Fashion” eram de borla. Gratuitas. Custo zero.
Eram elas feitas com o que aqui se vê, mais aquilo que aqui se não vê e que estava lá dentro bem no segredo dos deuses, e entregues a troco de coisa alguma.
Alguns desconfiavam seriamente da coisa e não queriam ser fotografados. Outros, sabendo-o grátis, queriam fazer várias. Outros ainda não entendiam que as coisas boas da vida são de borla, como o ouvir os pássaros ou o estar ao sol. Um houve que me perguntou se eu tinha licença para tal negócio. E houve ainda quem não aceitasse as condições propostas e fizesse questão de pagar. Deste último grupo tive as surpresas mais díspares: cafés, garrafas de água, gelados, bolos, jornais…
Recordo uma senhora, de muito poucas posses, que me ofereceu um pequenino tripé fotográfico já antigo, recolhido nem sei onde, “como paga de a ter fotografado no dia da Mulher”, disse-me ela. Tenho-o aqui, à vista e em evidência, em casa.
Recordo ainda uma outra senhora, esta com posses, que vinha com duas crianças, que contornou o negócio à minha revelia: passou p’lo quiosque onde sabia que eu ia tomar café, e lá deixou dinheiro para eles. Só o soube no final do dia, já com tudo desmontado, antes de abandonar o Jardim, quando lá me disseram que tinha ali crédito aberto.
Ou um outro, que nas suas palavras tinha de ofício o “carregar a merda dos outros” e que, traduzido em português corrente, corresponde a recolher de noite o lixo dos contentores, me prometeu deixar um copo de vinho pago e à minha espera, no tasco ali próximo e mesmo por baixo da casa onde vivia.
Ou ainda aqueles imigrantes de leste, sem ofício nem rendimentos, que me entregaram as pouquíssimas moedas que sobraram depois de passarem p’lo supermercado. Todas moedas de um, dois e cinco cêntimos.
A esmagadora maioria dos que fizeram questão de pagar aquilo que sabiam ser de borla foi gente para quem o dinheiro é difícil e preocupação constante. Todos eles foram sentidos e feitos, nunca como pagamento mas antes como retribuição. Coisas já raras de ver, nos tempos que correm.
E todos eles me tocaram fundo, p’la sinceridade dos gestos e p’la relatividade do seu valor monetário em função das posses de quem o fazia.
Mas o mais puro deles é o que aqui se vê: estas flozinhas, apanhadas naquele mesmo jardim, e que me foram entregues p’la petiza que se fez fotografar com os irmãos e os pais. Não foi um pagamento: foi uma dádiva. Uma coisa bonita por uma coisa bonita, uma oferta por uma oferta, uma troca em que o que contou, de parte a parte, foi o sentimento com que foi feito.
Fui principescamente pago, naquela manhã de domingo.


A técnica, a estética, a ética, a semiótica, tudo isso é importante em tudo o que envolve a fotografia. Mas se não houver sentimento, caramba!, para que serve?

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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Ganda lata



Acredito que para a grande maioria dos que virem esta imagem, pouco ela diga. Ou que diga coisas menos simpáticas.
A luta anti-tabágica impera (como bem sabemos nós, os fumadores) e será difícil de aqui ver algo mais que uma lata com cinza e pontas de tabaco.
Mas talvez alguns, espero, reconheçam a lata. Talvez.
Para os que não reconhecem, sempre acrescento que se trata de metade da embalagem de filme, virgem ou ainda por revelar. Película. Daquela película com que se fazem (ou faziam) filmes. No caso concreto, filme de 16mm.
Trata-se de um formato de filme que fica intermédio entre o filme amador e o usado nas grandes produções que conhecemos. Nacionais ou não. Mas que foi e é usado profissionalmente. Em publicidade, em escolas de cinema e, em tempos, era a forma de recolher imagens (reportagem) exibidas nos cinemas e nas televisões. Para os que não saibam, o sistema portátil de vídeo é coisa relativamente recente e usava-se exclusivamente filme.
Por isso mesmo, as estações de televisão possuíam laboratórios de filme, para além das câmaras, bem como moviolas (sistemas de montagem de filme). E, muito naturalmente, sobravam inúmeras latas como esta, depois de revelados os respectivos conteúdos.
Na época em fumar era algo quase tão natural como beber água, estas latas eram os cinzeiros ideais: de borla, em abundância, facilmente substituíveis se danificados. O que não era comum, pelo menos durante uma ou duas semanas.
Ver latas destas com esta função espalhadas em áreas técnicas era o que havia de mais natural. Mesmo onde não era suposto fumar-se.
O que já nada tem de natural é encontrar em uso e nesta função uma lata de 16mm num jardim público em pleno Agosto de 2013.
Ver uma assim, singela em cima de um banco de jardim fez-me recuar umas boas dezenas de anos. E, juro, olhei em redor em busca de alguma outra que agora, tal como então, estivesse pregada no cimo de uma ripa aí com uns 50cm, tendo outra lata por base, a servir de cinzeiro de pé para ser usado onde não houvesse mesa por perto.

Acredito que para a grande maioria dos que isto virem, nada disto conte. Mas talvez haja ainda um ou outro para quem isto sirva para uma breve mas real viagem no tempo.

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Sapo



Só para que conste, nem todas as madrugadas são profícuas!

D’arquivo.

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quinta-feira, 22 de agosto de 2013


Se, quando se convida um fotógrafo, se espera que leve a sua câmara fotográfica, quando se convida um escritor espera-se que leve a sua máquina de escrever? Ou um escultor pedra e cinzel?

Já agora, que se espera que leve um arquitecto?

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Zzzzzzzzz



“Conhece-te a ti mesmo!” é uma velha máxima que muitos entendem como exclusivo da personalidade. E será verdade, mas não toda a verdade.
O conhecermos as nossas capacidades e peculiaridades físicas é uma mais valia naquilo a que chamamos de bem-estar.
Uma das coisas que geralmente não conhecemos a sério é sobre o nosso sono. Costumamos dizer que necessitamos de “tantas” horas de sono em função de sabermos que, em a dormirmos, acordamos bem. Tal como sabemos posições, lados da cama, sensibilidade à luz e ao som… mas há algo que a maioria não sabe sobre o seu próprio sono e que os poderia ajudar em muito.
Uma noite bem dormida não é um ciclo inteiro de sono. Ao contrário do que pensamos, são dois ciclos somados. Muitos já acordaram com poucas horas de sono e, apesar de fisicamente cansados, a cabeça funciona perfeitamente. E muitos já acordaram depois de muitas horas de sono com a cabeça ainda sonolenta e pesada.
Sucede isto porque esse acordar aconteceu no final do primeiro ciclo apenas ou, no segundo caso, a meio do terceiro ou quarto ciclo.
Saber quanto dura o nosso ciclo de sono e programarmos a nossa noite para um, dois, três ou mesmo quatro ciclos é ter a certeza que o acordar será bem disposto. E, mesmo naquelas situações em que sabemos serem particularmente curtas as noites, acertá-las para um ciclo é mais que vantajoso.
Para os que dizem precisar de sete horas por noite, considerem que um ciclo são três horas e meia. E por aí fora.
E para os que tiverem dúvidas sobre isto, pensem naquelas ocasiões em que dizem estar cheios de sono e que precisam de uma sestazinha. Meia-horita ajuda, mas acorda-se “baralhado”. Mas se corresponder ao tal ciclo, que é diferente de pessoa para pessoa, o acordar é suave e bem disposto.


Da próxima vez que tiver uma noitada, ajuste o seu despertador para um ciclo apenas. Ou, se estiver muito cansado, ajuste-o para três ciclos completos. O seu corpo e a sua cabeça agradecer-lhe-ão.

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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Bom proveito



É um “must”, nisto das redes sociais, mostrar o que se come, os gatinhos ou cãezinhos que se tem ou com os quais se cruza, ou ainda os filhos, sobrinhos, netos ou outros parentes de pequena idade.
Fotografar crianças sem a sua autorização é uma violação da sua privacidade. Mesmo sendo crianças. Ou até porque são crianças e não têm a noção de privacidade ou da sua violação.
Animais de estimação não tenho. Gosto demasiado de animais para os obrigar a estarem presos num apartamento, condicionados aos tempos livres dos seus donos para poderem gozar de liberdade. Eu não gostaria de assim viver e não o imponho a ninguém. Mesmo que animal.
Já quanto a comida, uma de duas razões podem acontecer para serem fotografadas e exibidas: ou queixarmo-nos de misérias ou fazer inveja aos demais. Não me apetece nem uma nem outra coisa.
Mas sendo que é almoço, estou quase a recebê-lo e quero paricipar nisto das modas das redes sociais mas à minha maneira, deixo à vossa imaginação aquilo com que irei sujar estes talheres.

Que vos saiba bem, se for esse o caso!

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Dois em um



Em desespero

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O absurdo da formação actual



Por aquilo que leio nos jornais, a quantidade de estudantes no ensino superior está a diminuir devido à crise.
Não poderia estar mais incomodado com isto. Tenho para mim que a formação dos jovens, nos seus diversos graus, deveria ser gratuita para todos. Que haver gente capaz, integrada, profissionalmente sabedora e feliz na vida é uma mais valia para a sociedade. Muito mais que para cada um deles. E investir nas competências profissionais dos jovens (secundário, profissional, superior) é investir no futuro da sociedade.
Haver quem não possa seguir um percurso profissional apenas porque a sua família não tem meios económicos é um tiro no pé que todos fazemos, é um retrocesso civilizacional.
Por outro lado, esta poderá ser uma oportunidade doirada para corrigirmos alguns erros formativos!
Tem-se vindo a alegar, nos últimos quarenta anos, que só se será alguém na vida se se tiver uma formação superior. Disparate absoluto, já que nem todos têm capacidade intelectual para tal. Não se trata de menosprezo por ninguém, mas tão só a constatação de factos. Tal como nem todos têm capacidade para elevar grandes pesos, ou para desenhar, ou para escrever, ou para… Cada um deve procurar o seu futuro profissional à medida das suas próprias capacidades e não em consequência de chavões impostos socialmente.
Acontece, porém, que na sequencia destes chavões e na mira de lucros fáceis, têm surgidos instituições de ensino (profissional ou superior) em cada vão de escada. Satisfazendo a procura no mercado, mas sem qualidade suficiente para fazer a formação que publicitam.
Justificar tal afirmação? Fácil! A quantidade de jovens que, saídos destas escolas profissionais ou superiores, surgem no mercado de trabalho sem os conhecimentos que deveriam ter depois disso. Teóricos e práticos.
Possuem um diploma, pago e bem pago, mas que pouco mais vale que o papel em que está impresso.
Sair de um curso superior ou profissional na área dos audiovisuais para exercer a captação de imagem (vídeo, cinema, fotografia) entendendo a “regra dos terços” como um dogma inquestionável e sem saber a sua origem histórica ou como isto não é universal é formação no seu pior aspecto! É colocar os jovens dentro de uma forma, justa e opaca, impedindo-os de verem para além dela, transformando-os em seres meramente executantes de funções pré-programadas e incapazes de evoluir.

Formar jovens para serem exactamente iguais aos seus formadores é, mais que um tiro no pé social, um acto autofágico e demonstrador da incapacidade desses mesmos “formadores” de vão de escada.

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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Um olhar - "Risota"



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Ontem foi o dia da fotografia



Acontece que não gosto dos “dias de”. Fico sempre com aquela sensação amarga de ser necessário um dia de comemoração para que nos lembremos do importante que estamos a comemorar. No caso específico da fotografia, celebro-a eu, com a prática, todos os dias do ano, e mais seriam se mais houvesse.
Mas não querendo eu ser menos nem mais que todos os outros, aqui fica uma fotografia e uma estórinha a propósito do dia de ontem, o da fotografia.

Quando eu era pequeno lia tudo o que me aparecia p’la frente. O tudo é relativo, que deixei de parte o Pantagruel e a Lista Telefónica. Esta porque tinha muitas personagens e pouca acção, aquele porque me dava fome. Mas, fora isso, marchou de tudo, o que era próprio para a minha idade e o que não era. O que havia em casa e o que havia em casa dos amigos. Aliás, era um hábito comum: sem que deixassem de ter dono, os livros de cada um circulavam p’las casas de todos, num espírito de partilha já não muito habitual nos tempos que correm.
Fosse como fosse, a minha família ia alimentando essa minha fome de leitura e saber à medida do que era possível, considerando os orçamentos e tentando fazer uma selecção entre o que eu poderia ou deveria ler e o que havia disponível no mercado de então. Falo dos anos sessenta e setenta.
Nessa selecção eram incluídas algumas biografias. Para além do prazer da leitura, sempre ficavam os exemplos de vida relatados.
Um destes foi sobre o Dr. Albert Schweitzer, um médico que dedicou grande parte da sua vida ao combate in loco de doenças epidémicas em África. A capa do livro era a fotografia que aqui mostro, feita por Eugene Smith.
Passaram-se muitos anos antes que soubesse quem a tinha feito, mas nunca ela me saiu da cabeça. Tal como se passaram muitos anos antes de eu perceber da sua importância.
Quando, já homem feito, tropecei nela de novo foi numa monografia sobre o seu autor e tudo regressou, como se a biografia tivesse sido lida na véspera. E se nessa altura a fotografia já fazia parte da minha vida, talvez que tenha sido nesse dia que me apercebi muito a sério da importância daquilo que ela transmite, bem para além da qualidade técnica que possa ter.
Eu, que andava com a cabeça cheia com os Adams, os Bressons, os Westons, os Weegees, que andava a ensaiar os Zone Systems e procurava as purezas da composição e as excelências do negativo, acordei para os outros lados da fotografia, em que a semiótica da imagem e factor comunicação se e os sobrepõem.

Estou em crer que todos os que lidam com imagens têm várias que os marcaram. Por este ou aquele motivo. Esta é uma das que pertencem à minha própria galeria de especiais.

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