domingo, 30 de junho de 2013



Lisboa, Portugal, 2013.

Em breve, numa rua perto de si.

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Em honra de



Não adianta pensarmos de forma diferente: a imagem que se forma na retina, a forma natural de vermos o mundo que nos cerca, é o invés daquilo que entendemos. De pernas para o ar, se quiserem.
É o nosso cérebro que a torce, retorce e torna a torcer, fazendo com que interpretemos o mundo de pernas para baixo. Uma inversão daquilo que, organicamente, vemos.

Há meio milhar de anos Mestre Gil escreveu o que abaixo transcrevo. Esta é uma imagem feita em sua honra.


Entra Todo o Mundo, rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que perdeu; e logo após, um homem, vestido como pobre. Este chama Ninguém e diz:

Ninguém : Que andas tua aí buscando?

Todo o mundo: Mil cousas ando a buscar :
delas não posso achar,
porém ando porfiano
por quão bom é porfiar.

Ninguém : Como hás nome, cavalheiro?

Todo o Mundo: Eu hei nome Todo Mundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo

Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência

Belzebu : Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.

Dinato : Que escreverei , companheiro ?

Belzebu : Que ninguém busca consciência,
e todo mundo dinheiro.

Ninguém : E agora que buscas lá?

Todo o mundo : Busco honra muito grande.

Ninguém : E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.

Belzebu : Outra adição nos acude:
escreve logo aí, a fundo
que busca honra todo mundo
e ninguém busca virtude.

Ninguém : Buscas outro mor bem qu'esse?

Todo o mundo: Busco mais que me louvasse
tudo quanto eu fizesse.

Ninguém : E eu quem me repreendesse
em cada cousa que errasse.

Belzebu : Escreve mais.

Dinato : Que tens sabido?

Belzebu: Que quer em extremo grado
todo o mundo ser louvado,
e ninguém ser repreendido.

Ninguém: Buscas mais, amigo meu ?

Todo o mundo: busco a vida a quem ma dê.

Ninguém : A vida não sei o que é,
a morte conheço eu.

Belzebu : Escreve lá outra sorte.

Dinato : Que sorte?

Belzebu: Muito garrida:
Todo o Mundo busca a vida
e ninguém conhece a morte.

Todo o Mundo: E maisqueria o paraíso,
sem mo ninguém estorvar.

Ninguém : E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.

Belzebu : Escreve com muito aviso.

Dinato : Que escreverei ?

Belzebu: Escreve
que todo o mundo quer o paraiso
e ninguém paga o que deve.

Todo o Mundo: Folgo muito d'enganar,
e mentir nasceu comigo.

Ninguém: Eu sempre verdade digo
sem nunca me desviar

Bellzebu: Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.

Dinato: Quê?

Belzebu: Que todo o mundo é mentiroso,
E ninguém diz a verdade.

Ninguém: Que mais buscas?

Todo Mundo: Lisonjear.

Ninguém: Eu sou todo desengano.

Belzebu: Escreve, ande lá mano.

Dinato : Que me mandas assentar?

Belzebu: Põe aì mui declarado,
Não te fique no tinteiro:
Todo o mundo é lisonjeiro,
e ninguém desenganado.




(Excerto de “Auto da Lusitânia”)

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Podia



Podia um termómetro, à sombra, mostrar outros valores?

Podia, mas não era a mesma coisa!

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Informação meteorológica



By me

sábado, 29 de junho de 2013

Falcões? Por favor, ajudem.



Aqui em casa, nem corrente de ar consigo ter. Fazendo uma pausa no trabalho, vou à janela. A brisa quase que nem merecia esse nome.
Mas, enquanto tento tirar partido do pouco que há, fico a ver as aves que vejo acima e ao lado do prédio fronteiro.
“Que engraçado”, pensei, “esta minúscula aragem e as correntes ascendentes devido ao calor permitem-lhes ficar bem quietinhas no ar.”
Eram quatro, e não as reconheci. Sou citadino e urbano, que querem!
Fui buscar os binóculos, que estavam longe, e constato que eram o que me queria parecer: aves de rapina. Juvenis, ao que me quis parecer, p’la forma como planavam e ascendiam e desciam do telhado, pareceu-me que é por ali que têm o ninho.
“A modos que” pareciam estar a brincar umas com as outras, brincadeiras próprias da idade e aprendizagens úteis na vida adulta. Como nós mesmos, aliás.
Foi o tempo de ir buscar a câmara, com a 400mm e fazer algumas fotografias. Se a qualidade é bem fracota, é bem natural. Esta objectiva não é assim tão potente e, p’las contas e trignometria que fiz, deveriam estar a uns bem 250 metros de mim. Bem ampliadas, deram nisto.
Fica o pedido de ajuda: alguém é capaz, a partir delas, dar-lhes uma identificação positiva sobre a espécie a que pertencem?


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Ter cabeça para



Certo! Por vezes são as velharias que nos trazem satisfação. Ou a manutenção de velhos hábitos.
Nesta imagem vêem-se as cabeças de dois tripés, um Benbo e um Gitzo. Uma delas suporta uma Pentax K7, com uma vetusta SMC 50mm f/1,7.
E o que é que a esquerda tem a ver com a direita? O facto de estarem aqui duas cabeças de tripé idênticas. Manfroto #115.
Tenho a cabeça da direita há já não sei quantos anos. Muitos. É a cabeça que uso por sistema aqui em casa, no que vou fazendo, aplicada no Benbo. No Gitzo, mais portátil e passível de levar para o exterior, tenho usado uma rótula , igualmente Manfroto.
Mas não é o mesmo trabalhar com uma rótula esférica e com uma cabeça destas.
Esta tem uma geometria muito própria, um trabalhar único e quem não estiver habituado a ela, terá algumas dificuldades. Mas eu estou e as minhas mãos usam-na como uso a minha caneta de tinta permanente: naturalmente, sem esforço e com satisfação.
Mas trata-se de uma peça já difícil de encontrar, porque descontinuada no seu fabrico. O fabricante oferece outros modelos, equivalentes e que não experimentei. Mas que não parecem tão ergonómicos.
Ontem tive a satisfação de encontrar uma à venda em Lisboa. Numa loja de artigos fotográficos usados, fazia parte de um conjunto tripé/cabeça, mas consegui convencê-los a separa-los e vender-me em peças: só a cabeça.
A grande vantagem desta compra, ligeiramente mais cara que se comprada num leilão on-line, mas com a garantia do seu estado perfeito, é que posso assim dedicar umas boas horas à manutenção da mais antiga (desmontar, limpar, lubrificar, remontar, afinar) sem ter que ficar com um tripé “descabeçado”.
Para quem nunca tal peça usou, recomenda-se, com as devidas cautelas pela estranheza inicial.
E para quem realmente gostar, como eu, e quiser comprar uma, não me contacte: não tenciono vender nenhuma, que aquilo de que gostamos não nos desfazemos.
Acrescento que também não está à venda nem a rótula nem as outras duas Gitzo, uma “Repórter baby” e uma clássica, nº3, para grande formato.

Um bom tripé é fundamental. Todos o sabemos. Mas o que muitos ignoram é que a sua cabeça é ainda mais importante.

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Pão e circo (em Latin panem et circenses) foi um conceito e uma prática de alguns imperadores romanos. O objectivo era oferecer jogos e combates sangrentos, ao mesmo tempo que se distribuía pão por entre os espectadores.
Serviria isto para distrair o povo das políticas e práticas dos governantes.
Ao que sei, este projecto foi catastroficamente dispendioso, levando mesmo a aumento de impostos e graves problemas à economia do império.
Nos dias de hoje, estas práticas acontecem em estádios de futebol ou em locais com vista p’ro rio.


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Ler as notícias sobre as contratações, e respectivos valores, de jogadores de bola é quase tão obsceno quanto o ouvir os líderes políticos e governamentais nas TVs.

Mas muito menos que aquilo que vejo acontecer, da minha janela, nos contentores de lixo da minha rua durante o dia.

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Juro



Juro que sempre me fez confusão como, nos filmes americanos, os personagens entendem que ficam protegidos de uma ameaça vinda da rua ao fecharem a porta com uma volta de chave e… a porta ser de vidro.

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Encontrou-se



Porta-notas e moedas em muito bom estado de conservação, vazio à excepção de alguns bilhetes de transportes já caducados.

Avisa-se que a fila de gente a reclamar a sua posse é maior que a de entrada no mega pic-nic com o Tony Carreira.

By me 

Vícios fotográficos



Está tudo tão parado aqui na minha rua, ar incluído, que tive que esperar que alguém viesse colocar o lixo no contentor para ter a certeza que não tinham pendurado uma fotografia na minha janela.

By me 

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A moda



Cobriu a cidade como um manto, não sei se diáfano se terrífico.
Fica a moda, à venda nas lojas do chinês e correlativos, nas echarpes, camiseiros, calças, malas, chapéus, e tudo o mais que o ser humano, na versão feminina, é capaz de inventar para se cobrir.
Ele é com padrões mais largo, ele é com padrões mais claros, alguns mesmo sem cor, como no tempo do preto e branco, zebrados, trigrezas, panteras, leopardos… tudo quanto se referir a pele de animal serve para tapar a pele.
Ou outras coisas.
A esse respeito, só me posso lembrar de uma piada, velha de quase meio século, contada então à boca pequena. E contada agora com a boca do tamanho da rede.
“Qual a maior ambição de um leopardo???? Fácil! Ter um casaco de pele de gaja!”

Que me perdoem as que alinham nesta moda, mas… tentem ser um nico originais, ‘tá bem?


(Nota extra: dei cinco aérios nos ciganos p’ra fazer esta fotografia. E fico com a certeza de que, pelo menos este pedaço de pano não me irá fartar o olho.)

(Segunda nota extra: Esta fotografia foi feita na entrada superior da estação do Rossio, em Lisboa. Editada no comboio, de regresso a casa, o texto que a acompanha foi escrito no comboio. E o conjunto publicado igualmente a partir daí.
Enquanto tratava do assunto, sentia o olhar bem curioso de uma senhora já de idade, sentada a meu lado, sobre o que ia eu fazendo. Tendo ela saído na estação anterior à minha, constato que as calças que trazia vestida eram deste padrão exacto, um nico mais claro, talvez.
Espero que tenha lido o texto todo.)

By me


Mais de uma hora para que todos os 226 entrassem, de permeio com os que, por via de outros processos, também ali se dirigiram.
Os media estavam todos por lá, das rádios, das televisões, dos jornais, com os equipamentos do costume e até, algumas novidades.
Os advogados também compareceram, com nomes e funções de peso, coadjuvantes e ilustres desconhecidos. Alguns, até, que nada tendo com o processo em causa, fizeram questão de aparecer. “Just in case!”
A polícia também marcou p’la presença, com os do costume, mais os de trânsito e os do corpo especial de polícia. Que bem se diferenciavam p’los olhares, os da força e os da inteligência. (Divertido, o analisar estes olhares, se bem que não fotografáveis!) Cães, se os havia, estavam escondidos, ao abrigo do sol impiedoso da manhã.
Quem primou p’la ausência foi gente a solidarizarem-se com estes, ontem detidos e identificados, hoje presentes a tribunal criminal de pequena instância.
Talvez que não tenha ficado bem claro, via comunicação social, que esta actuação policial se destinou a, bem mais que manter a ordem pública, a criar ficheiros. Melhor dizendo, a actualizar e aumentar os ficheiros existentes, com novos nomes e moradas.
P’lo que fui ouvindo, as condições no interior eram muito abaixo do aceitável, considerando o número de arguidos e seus advogados. A ponto de um dos identificados ter recebido apoio médico por parte do INEM, chamado de urgência.
Fiquei sabendo que, face ás condições do local e devido a pedidos de advogados para organizarem a defesa, o julgamento foi adiado por duas semanas.
Não fiquei a saber se no mesmo local. Nem se com a mesma falta de apoio por parte dos que se manifestam mas não dão o corpo ao manifesto.
E não fiquei a saber se quem o decide mandará fazer cobertura informativa do caso, ou se será mais um daqueles que “cairá no esquecimento”. Que quinze dias é tempo suficiente para transformar uma actuação policial suspeita numa “legítima intervenção” perante “perigosos arruaceiros anarquistas”.
Fica a convocatória, com duas semanas de antecedência!



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Ontem



Para ser perfeito, mas perfeito mesmo, só faltou que houvesse sangue, daquele vermelho mesmo, com feridos de ambas as partes, gases lacrimogéneos, balas de borracha e pneus incendiados.
Mas nada disso aconteceu.
Ficaram-se os acontecimentos por um desfile/manifestação por algumas ruas e avenidas, com a intervenção policial resumindo-se a deslocar a miniturba para ruas controladas e uma detenção colectiva com intimação para que compareçam em tribunal hoje.

Isto parece ser o resumo do que aconteceu ontem em Portugal. Pelo menos a dar fé nos jornais e televisões. Hoje.
De cinco jornais diários on-line, só um não fala da greve geral de ontem com base nos acontecimentos acima descritos.
Os textos são sobre o tema, as fotografias de capa são sobre este assunto. Quase parece que a greve geral de ontem foi apenas isto, uma manifestação “ilegal” de cerca de 200 pessoas. Todos os demais que não trabalharam ontem não contam.
Já os canais de TV de notícias alinharam pelo mesmo diapasão.

Este país é tão de “brandos costumes”, que nem um niquinho de sangue se viu. Deve ser o que pensam os que alinham as notícias com que intoxicam os portugueses.
Já o protesto nacional que ontem aconteceu… Nada conta, que foi apenas mais um.

E quando os protestos são recorrentes, quase deixam de ser notícia.

By me 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Dádivas e partilhas



Aconteceu há uns anos.
A empresa onde trabalho entrou em greve por três dias. Segunda, terça e quarta.
Sendo que temos horários díspares, os tais que alguns entendem por privilégios, alguns de nós não estariam em horários de trabalho em alguns desses dias. Ou porque de folga, ou porque de férias.
Porque a essas pessoas, nessas circunstâncias, não seriam descontados esses dias de greve, propus eu o seguinte:
Por sectores de trabalho, essas pessoas contribuiriam, com o valor do que lhes seria descontado se estivessem de greve, para um saco comum, a dividir por todos. Assim, o sacrifício seria igual ou proporcional para todos e o auxílio também, que três dias de descontos é obra.
Da boca de um colega de trabalho ouvi o seguinte: “Oh JC! Se estás com problemas de dinheiro, faz como eu: pede ao banco.”
De pouco adiantou dizer que eu estaria de folga em dois desses três dias e que estaria a contribuir bem mais que a receber.
Nada aconteceu.

Entre o partilhar e o dar há uma fronteira. Ténue, mas existe.

Mas aqueles que nem sequer entram em território de partilha pouca consideração merecem da minha parte.

By me 
Interessante mesmo é constatar que nenhum outro governo em Portugal pós revolução foi objecto de tanta contestação nem de tantas greves p’lo país fora.

Se isto não for sintomático da opinião e vontade popular entre eleições, não sei o que possa ser, para além da violência nas ruas.

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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Sem enfeites



Alguém comentou que “isso ninguém tem o direito de fazer”.
Isto sobre escritos nas paredes ou graffitis.
Vejamos o que é “Ter o direito de…” na actual sociedade:
Gente a passar dores e sofrimento, mesmo que na infância, porque não há meios para tratamentos.
Gente que toda a vida pagou, obrigatoriamente, um contrato de reforma com o Estado e este, unilateralmente, altera os termos desse contrato, pagando menos que o combinado.
Ver crianças e adolescentes saírem de casa para a escola de barriga vazia, à espera do almoço a meio do dia, porque essa será a única refeição completa que terão de segunda a sexta. Que ao sábado, domingo, feriados e férias não há aulas.
Ver painéis publicitários, anunciando electrónica de consumo, jóias ou passagens aéreas de turismo, bloqueando a passagem a deficientes motores ou visuais. E pagando as respectivas licenças camarárias.
Ver gente com diferendos legais com grandes empresas ou o Estado, perderem as causas porque não têm como pagar advogados especialistas em retorcer as vírgulas da lei.
Ver gente, com crianças pequenas pela mão, numa fila já depois do sol pôr e ao frio, para receber um saco de comida que não têm como aquecer durante toda a semana.

Quando ninguém tiver o direito de viver isto, quando ninguém for obrigado a viver isto, fará todo o sentido que os protestos se façam em exclusivo pelas vias legais, parlamentares e policiadas.
Até lá, todas as vias serão válidas, mesmo aquelas que estão subjacentes ao ditado popular “Os fins não justificam os meios”.
Porque, entenda-se, o que realmente incomoda nos escritos públicos nas paredes, mais artísticos ou meros rabiscos, é o carácter permanente das mensagens subversivas que possam conter. Que as manifestações funcionam a prazo, depois de eleitos os políticos agem em função dos seus próprios interesses e os referendos não têm carácter vinculativo. Mesmo a comunicação social é manipulavel em função dos poderes instituídos, vergando-se a partidos e audiências.  
O grave problema está em que este género de contestação perdura até que a pintem por cima, mantendo acesa a chama que o poder, conservador por natureza, faz questão de apagar.

A contestação subversiva não é “A” solução. É “um” meio!

By me

Livros



Odeio livrarias. Mas é que odeio mesmo!
Entrar numa livraria e não consumir é apenas um nico menos doloroso que um petiz numa loja de brinquedos não poder mexer em nada. Mas só um nico mesmo.
Mas também é por isso que não sou grande frequentador das feiras do livro. As mais das vezes, as apetências são tantas e os orçamentos tão pequenos que acaba por ser uma tortura. Dolorosa.
Mas um dos defeitos das feiras do livro é que não possuem, ou raramente possuem, o tipo de livros que realmente me interessam. As opções dos livreiros vão mais para o grande consumo, deixando muitas obras
Fora dos pavilhões.
Desta feita, resolvi ir a uma livraria. Sem nada de especial em mente que não fosse ver o que havia de novidades, se alguma coisa, no campo da fotografia. Monografias, ensaios ou técnicos.
Acabei por gastar dinheiro, naturalmente.
Dois autores que conheço e que recomendo, Berger e Fontcuberta, com obras relativamente novas (uma deste ano, outra de 2010). Ambas pela esplêndida editora GG, Gustavo Gili, de Barcelona.
Para quem não conhece a editora ou os autores, recomendo uma voltinha.

E regresso de barriga cheia, que a alma também se alimenta!

By me

Graffitys



É por estas e por outras que querem acabar, punindo severamente, os graffitis e escritos nas paredes!

By me
Você compra livros de autores de que não gosta?
Você veste peças de roupa com cores que não suporta?
Você come vegetais com sabores que odeia?
Você aceita ter em casa gente que não convidou?


Então porque se deixa governar por estes cavalheiros?

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terça-feira, 25 de junho de 2013

Um olhar - a história e amoral da história



O início da história tem mais de dois anos.
Entro eu numa loja de artigos de belas artes, em Lisboa, em busca de um bloco de notas com o formato de que gosto e que sei já só se encontrar neste tipo de comércio.
Conversa vai, conversa vem, e consigo convencer a empregada que ali trabalha a deixar que lhe fotografe os olhos. Não foi fácil o convencê-la, tanto mais que tivemos que vir para a ponta do balcão, que a luz no interior não me chegava.
Aquilo que não veio junto com o bloco de notas e a fotografia foi o seu nome, que não mo quis dar. Inventei um na hora, um que os arquivos de identificação não aceitam para registo mas que ela aceitou, e foi o que ficou no meu próprio registo fotográfico.
Um anos depois entrei de novo na mesma loja, desta feita em busca de um outro artigo bem mais difícil de encontrar. Não o tinham, como eu já suspeitava, mas tinha ela, a “menina”, uma boa memória que me surpreendeu.
Perguntou-me se não teria sido eu que, em tempos, lhe havia “tirado” uma fotografia ali mesmo, na loja. E queria saber o que havia eu feito com ela.
E se eu, sem pensar no assunto, não me recordava do episódio, assim que a “menina” o referiu recordei-me de imediato. E foi questão de, enquanto dávamos dois dedos de conversa extra, ligar o portátil e procurar no arquivo on-line a referida imagem. Mostrei-lha, fiz cópia e enviei-lha, muito naturalmente. E fiquei a saber aquilo que há um ano me tinha sido sonegado: o seu nome.

Tem esta história todos os ingredientes para ser uma história feliz, com prólogo, desenvolvimento e epílogo. Excepto na sua moral.
Se para nós, que lidamos com a fotografia como um padeiro lida com pãezinhos, cada fotografia é única mas é mais uma no meio de centenas ou milhares, para os fotografados assim não é.
De cada vez que escolhemos alguém para fotografar e interagimos com essa pessoa, passa ela de “Uma” pessoa a “Aquela” pessoa. É-lhe dada uma importância bem fora do habitual, e durante aqueles breves minutos de conversa e click, passou a ser o centro do universo. Para benefício mútuo de quem regista e é registado.
E se nós, fotógrafos, estamos habituados a recortar o universo em pequenos rectângulos de luz, para quem assim é recortado é um daqueles momentos “para mais tarde recordar”.
A situação, no seu todo, não me foi original. Já muitos foram os que me abordaram, recordando-me que os havia fotografado nesta ou naquela situação. Mas veio a “menina” (mantenhamos um véu pudico sobre o seu nome) recordar-me da responsabilidade que temos, nós os fotógrafos, para com quem fotografamos, na forma como o fazemos, nos destinos que damos a cada registo e no respeito que devemos ter para com a pessoa que, sabendo-o ou não, nos permite ter mais um nico do universo guardado na câmara.
E se sobre a Ética muitos foram já os que pensaram e escreveram, muitos mais são os que esquecem ou nunca souberam o que é a Ética Fotográfica.

Que o uso e porte de câmara bem como o recortarmos e guardarmos o universo em pequenos pedaços, não nos dá o direito de omnipotência sobre ele ou sobre os registos.

By me

Fechado



No próximo dia 27 de Junho haverá uma greve geral no país.
E, desculpem lá os sindicalistas, activistas e outros, mas não estarei nas ruas de Lisboa a fazer ouvir o meu protesto.
Não que não tenha motivos para fazer greve ou para protestar. Tenho, e não são poucos.
Mas se morasse em Lisboa poderia atravessar a cidade a pé, ou de bicla, e comparecer junto dos demais. Mas não moro nem tenho. Nem mesmo outro tipo de viatura própria.
E não estarão, certamente, à espera que eu, vivendo nos subúrbios, tente chegar à cidade num dos eventuais comboios que possam circular por haver quem não esteja de greve. Nem estarão à espera que tome um táxi, dos que estejam de serviço por não terem aderido à greve, para ir e vir.
Se a greve é Geral, farei muita questão de não usar nenhum serviço que não seja dos mais básicos e imprescindíveis. Não farei, com a minha actividade estando em greve, com que alguém trabalhe. Seja quem for. Seja porque motivo for. Nem mesmo um café, ali do outro lado da rua. Greve geral é greve geral e não a furarei!
Por isso mesmo, a greve estender-se-á ao interior de minha casa e nem roupa lavarei. Água e energia, nada mais que o estritamente necessário.


Quanto a vós, fica ao vosso critério: fazer ou não greve, levar ou não outros a trabalharem. Com a esperança que o sacrifício de uns se reflicta na vida de todos.

By me


Tal como chegou o calor, também chegaram os protestos contra os “incómodos” resultantes de uma greve que deverá abranger todos os sectores e todo o país.
Espero, com todo a sinceridade, que estes que protestam não recorram ao Serviço Nacional de Saúde. O tal serviço universal, que vem sendo destruído paulatinamente, e que foi criado na sequência de muitos protestos e lutas.
Tal como espero que estes que agora protestam reclamem igualmente por não trabalharem dois dias por semana. Que a semana de 5 dias e 40 horas foi conseguida depois de muitas lutas, protestos e mesmo vítimas mortais.
E, já agora, espero que os vossos filhos se fiquem pela “quarta classe”. Que o ensino básico de nove anos, universal e tendencialmente gratuito, tal como está definido na Constituição, também foi conseguido fruto de lutas, protestos, greves e confrontos.
E não se esqueçam, estes e estas que agora protestam, que poderem as mulheres votar foi conseguido depois de muitos protestos, confrontos e paralisações. Violência, mesmo.
Falta, talvez, acrescentar que estes que assim protestam podem fazê-lo porque alguns outros protestaram e tudo arriscaram para que todos o pudessem fazer.


Saibam também esses que o poder político dispõe de todas as ferramentas e armas para impor os seus desígnios e vontades. Excepto o protesto e a paralisação, antes de os cidadãos enviesarem pela via da violência.

By me 


É por esta e por outras que qualquer líder de uma qualquer jotinha, sabendo fazer o nó da gravata, com as costas quentes por um qualquer “senador” e usando de promessas simpáticas, faz deste país o que quer.

Ainda há uns dias toda a gente se queixava da ausência estranha do Verão e agora, que chegou com todo o seus esplendor, toda a gente se queixa do calor.
Se um desses quase imberbes, ou aparentado ter uns negligentes dias por fazer, vier prometer tepidez nacional e sombras frescas e aprazíveis, ganha as próximas eleições. Mesmo que ponha toda a gente a ganhar no limiar da sobrevivência e a trabalhar sem tempo para acompanhar o crescimento dos filhos.



By me
Ouvir dizer que um governante (presidente, ministro, deputado) vai receber gente em representação de trabalhadores ou movimentos de cidadãos, faz-me sempre pensar se esses, que recebem, serão porventura alguns monarcas, que se dignam descer do seu trono até ao povo.
Esquecem-se eles, os tais presidentes, ministros e deputados, que são o que são ao serviço do país e que, em consequência, ao serviço de todos os cidadãos.

E, se quisermos criar uma ordem hierárquica, é o Povo que está acima dos governantes, e não o inverso como é comum eles pensarem.

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segunda-feira, 24 de junho de 2013

Um olhar



No meu percurso da série “Um olhar”, volta e meia há fotografias que faço, consentidas, mas que não consigo aproveitar, por muitas voltas que dê nos maravilhosos editores de imagem.
Uma vezes porque a luz não me deu oportunidade para uma profundidade de campo simpática, outras porque o foco ficou fora de sítio, outras porque o tempo de exposição foi por demais longo e resultou tremido… Quase sempre por falha minha. Algumas sem desculpa!
Mas, de quando em vez lá acontece a culpa não estar do meu lado.
Conseguir fazer uma fotografia deste género a alguém já com um ou dois (ou mais) grão na asa e que não consegue estar em equilíbrio, é obra.

Talvez que este tipo de fotografia seja passível de ser feita por um bom fotógrafo. Eu não o sou!

By me 

Um olhar - Sandra



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Um olhar - Ricardo



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Às vezes os dias acabam bonitos



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Ouvido



Oiço uma senhora jornalista, de um jornal diário lisboeta, afirmar na TV com uma certeza inabalável:
“A Democracia só se faz com partidos e numa democracia representativa os partidos são imprescindíveis.”

Ora se considerarmos que os partidos políticos são entidades privadas (só para lá entra quem é aceite pelos seus membros e não quem o quer) temos então que a Democracia depende de entidades privadas e não do Povo.
E sendo igualmente certo que quem faz as leis são os deputados e que estes só acedem ao Parlamento se pertencerem a listas de partidos políticos, temos que as leis deste país, supostamente feitas em Democracia, dependem de entidades privadas e não da vontade livre e inequívoca do Povo.
Indo mais longe: a gestão das coisas públicas (orçamentos, funcionalismo público, monumentos e património, justiça, saúde, segurança, defesa, educação…) depende de um governo, seleccionado a partir do Parlamento. E sendo este constituído por entidades privadas, são entidades privadas que gerem a coisa pública, bem à margem da vontade e decisão do Povo.

Razão tinha o Mestre, aviltado e exilado.  



By me

Semáforos



Aquele fulano tinha um hábito peculiar: conduzindo p’la cidade normalmente, fazia questão de acelerar e passar em todos os sinais vermelhos. Mania que todos os seus conhecidos sabiam e que, por via dela, também todos já haviam apanhado sustos valentes.
Um dia um desses conhecidos, tendo apanhado boleia com ele, reparou em algo bem estranho: o amigo, em chegando a um sinal verde, abrandava e seguia com a máxima das cautelas, olhando em redor com toda a tenção.
Tão estranha era a coisa que comentou:
“Olha lá! Tu estás mais louco que o costume? Então aceleras com o vermelho e vais a passo com o verde, quase parando?”
“É que, sabes”, ouviu de volta, “O meu primo, que aprendeu comigo, veio a Lisboa. E não sei por onde anda!”

Vem esta estorieta, velha de muitos anos, a propósito do dia de ontem.
Por causa de uma fotografia (que não consegui fazer) estive um bom bocado plantado do separador central de uma avenida de Lisboa.
Tendo chegado cedo, tive oportunidade de ir vendo o que passava em redor, tráfego incluído.
E tive oportunidade de constatar que é enorme a quantidade de veículos que não respeitam o semáforo, acelerando mesmo quando já está vermelho há uns bons segundos. O interessante da coisa, em boa verdade triste, é que a esmagadora maioria dos que o faziam eram carros bem caros, de boa cilindrada e marca.
Felizmente, não assisti a nenhum acidente, mas sustos houve vários.

A existência de códigos, regras, leis, com tribunais, polícias, proibições e penalizações, está na origem da sociedade como a conhecemos. E, dizem os académicos, que quanto mais regulada, mais evoluída a sociedade.
Não posso discordar mais desta opinião. E, em podendo eu, abolia-as todas, de uma só vez e à pázada.
Mas o certo é que vivemos como vivemos, com elas e eles. Mas, e principalmente, com os que entendem que as regras e leis existentes só se lhes aplicam se lhes forem favoráveis. Caso contrário, são para serem heroicamente ignoradas, havendo sempre dinheiro, advogados e potência de motor para fugir às consequentes penalizações.
Estou em crer que se a nossa polícia, no lugar de fazer questão de marcar presença do outro lado da barricada quando o povo se manifesta, fizesse assumida caça a estes “Chico-Espertos”, haveria de arrecadar boas quantias, eventualmente usadas na diminuição dos sacrifícios e abusos sociais que nos estão a ser impostos.

“Penso eu de que…”

By me


Esta palavra é demasiadas vezes usada.

Principalmente porque poucas vezes se considera a utilização alternativa do seu oposto!

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Coisas beras



Ele há coisas beras; coisas muito beras; e coisas pior que tudo isso.

Este é um caso da terceira categoria!

By me
E fica aquela pergunta mais ou menos crónica: “Porque é que os computadores são estúpidos?”

Fácil: Porque só têm respostas. Nenhuma pergunta!

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Um olhar - Karina



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A luta



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Um olhar - Diego



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Lua de Lisboa



Só para que conste, esta é a lua de Lisboa.
Também brilha ao sol, também é redonda e também está no alto.
Mas todos a pisam e, a menos que olhemos com atenção, ninguém dá por ela.
Encontra-se no Largo do Carmo, mesmo em frente à porta principal do quartel-general da GNR, local onde, simbolicamente, terminou a acção armada da Revolução de Abril e de onde saiu, como prisioneiro, o então presidente do conselho de ministros, Marcelo Caetano.
Comandava as forças aqui em cerco o Capitão Salgueiro Maia, que já tinha enfrentado forças blindadas de combate no Terreiro do Paço.
Foi um dos que, tendo tido papel mais que importante neste acto e nas questões políticas que lhe deram origem, não quis a ribalta, não quis o estrelato e que, acabada a intervenção militar, se retirou para quartel, deixando o poder e a glória a outros.
É um dos heróis dessa data e tenho o privilégio de morar numa rua com o seu nome.
Mas é a vergonha da cidade que a este homem tenham feito este monumento, bem mais discreto que ele mesmo, passando desapercebido aos olhos e sob os pés de todos quantos aqui passam.

A lua cheia acontece a cada 28 dias (reparem que a semana tem sete dias, o valor exacto de cada quarto de lua).
É ela objecto de todas as objectivas e do olhar encantado dos enamorados.
A lua de Lisboa é única e desta forma, para vexame nosso e de Jorge Sampaio, na data da inauguração Presidente da Câmara da cidade.


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domingo, 23 de junho de 2013

Cidadania e Liberdade é isto, caramba!



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Sem nome ou retrato




É por estas e por outras que sei que nunca serei repórter.

Ontem, concentração e desfile LGBT. Jardim do Príncipe Real, em Lisboa.
Cheguei já havia gente concentrando-se num terço do espaço. Que outro terço estava ocupado pelas actividades habituais do local, idosos e crianças, uns jogando cartas e convivendo, os outros, sob o olhar atento de pais, avós ou equivalente, no parque infantil. O terceiro terço ocupado com um mini espectáculo musical, daqueles que animam jardins e parques da cidade por alturas da primavera e verão.
Fui deambulando, vendo quem estava e o que fazia, aquecendo a alma antes de começar a fotografar. Que há que entrar no espírito do evento, se não se quer fazer apenas fotocópias.
Por entre a cor, a alegria e a jovialidade que se previa, uma figura estranha. A nota dissonante, o que quebrava a unidade heterogénea do lugar.
Uma moça, rondando os vintes, solitária. Não que não houvesse mais solitários. Entre os idosos, alguns havia que estavam à margem de tudo e todos. E, no encontro propriamente dito, outros solitários que, como eu, ali estavam para fotografar.
Mas esta moça não pertencia a estes grupos.
No peito um pin com o arco-íris, sinal inequívoco da razão de ser da sua presença. Os trajes não eram definidores do que quer que fosse, ainda que um pouco convencionais ou clássicos para o evento. Mas mais ou menos de acordo com a sua idade.
O que a fazia diferenciar-se dos demais era a tristeza. Uma tristeza enorme, funda, que aparentava vir da alma. Na sua forma de se movimentar, na sua pose, na sua solidão, na sua expressão. Até mesmo quando lhe pedi para fotografar o pin, o seu sorriso e encolher de ombros de assentimento foram tristes. Muito tristes.
Continuei naquilo que ali me tinha levado, circulando por entre gente, prestando atenção a coisas e pessoas, a luz e perspectivas. Mas não deixei de pensar na mocinha e na sua tristeza.
Fui-a vendo, que não havia assim tanta gente como isso, e, a dado passo, constatei que tinha encontrado gente conhecida. “Bem”, pensei, “pelo menos não ficará solitária”. Erro meu. Depois dos cumprimentos e beijocas, seguiram eles para um lado, ficou ela para trás. Triste.
O cortejo arrancou e, com ele, a urgência de não perder o momento: luz, situações, perspectivas. E, mesmo no meio disso, e durante as conversas que fui tendo com conhecidos, o meu olhar procurava a triste solitária. Não a vi.
Tropecei nela já mesmo ao final do dia, aquando dos discursos na Praça da Figueira. Solitária e triste, como a havia visto a meio da tarde. Não resisti!
Chamei-a de parte, para um pouco longe do som, e incentivei-a a tirar partido da ocasião, da festa e da afirmação individual e colectiva que ali acontecia. Inconsequente. A única resposta que obtive foi um “É complicado” sem mais. Nem eu queria saber mais que não fosse espantar aquela tristeza profunda.
Mesmo os sorrisos que fez para as fotografias que lhe fiz foram tristes, de circunstância.
O dia acabou e, com ele, a luz e a função. E parti eu para outros compromissos, já um nico atrasado.
Mas da cabeça não me saiu, nem sai, aquele triste rosto, num ar discreto e tímido, em nada consentâneo com a idade e o evento.
Não fora ter eu algo já aprazado (e o tê-la perdido de vista de novo entretanto), e juro que a haveria fazer rir, uma vez só que fosse. E não importa como.

Fotografar algo implica criar algum tipo de empatia com o que se fotografa. Positiva ou negativa.
Mas fazer uma reportagem implica manter algum distanciamento, alguma imparcialidade em relação ao que passa em frente e ao lado da objectiva.
E é isto que eu não consigo. Nem sei se quero conseguir.


(Nota extra: espero que não contassem que aqui mostrasse alguma das fotografias que lhe fiz, ou mesmo que lhe refira o nome. Ficam os contrastes. Talvez que um dia, se a tornar a ver e lhe registar um sorriso ou riso genuíno…)

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