sexta-feira, 31 de maio de 2013

Head power



Bom seria se fosse orgânico e eu tivesse um!


By me
Vejo, num programa de televisão, alguém a ser identificado pelo nome e com o título de “sobrevivente”.
Não sei a que se referia, que não ouvi o que se dizia.
Mas estou em crer que, daqui por uns anos, e se tivermos sorte ou se fizermos por isso, haverá programas sobre sobreviventes com imensos protagonistas:

Os que sobreviveram a Passos Coelho e à Troika.

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Dividindo



Não é todos os dias, mas volta e meia lá me apetece: tomar um cafézinho a meio caminho entre casa e a estação de caminho-de-ferro.
São vários os locais onde o posso fazer: nestes bairros suburbanos os cafés surgem quase como que de entre os interstícios das pedras, numa tentativa de fazer negócio e p’la vida.
Acontece que alguns não frequento. Ou porque me recuso a ser menos bem atendido, ou porque não gosto do ambiente visual, ou porque não gosto da qualidade do café. Preferências!
Mas, neste trajecto de uns 1800 metros, há alguns de que gosto. Dois, para ser mais exacto.
Pois faço eu questão de, quando tenho essa tal vontade, de me alternar entre um e outro. Num dia vou ao que me fica mesmo em caminho, no outro vou a um outro, com um mínimo desvio de caminhada.
Porquê?
Porque, nestes tempos de crise em que vivemos, há que saber ser consumidor e cidadão, acarinhando gente e locais de que gostamos. Desta forma, ao dividir-me por mais que um local, e não deixando de satisfazer a minha vontade de tomar café, vou “distribuindo o mal p’las aldeias”, dividindo o meu gasto e os seus lucros por vários.

Acredito que, agindo assim, estarei a contribuir positivamente para minimizar os efeitos do período que atravessamos. E a dar um pouco mais de alento aos que o merecem.

By me 

Embuste, é o termo que me vem à cabeça



Saio do comboio para transbordo num autocarro.
No entretanto, constato que duas mocinhas e um mocinho andam ás voltas com uma câmara de vídeo, um tripé e um micro, para uma situação clássica de operador, jornalista e entrevistado. Ou equivalente.
Olhando para as idades, para o equipamento, para a forma como lidavam com ele e como tinham no chão os respectivos sacos e mochilas, não tive qualquer dúvida: era um exercício prático de aprendizagem. E deduzi onde estariam a estudar.
Fiquei de parte a vê-los fazer. De algum modo, ver aquilo recordava-me, com saudade, os tempos em que eu mesmo orientava estes exercícios, quer presencialmente quer à posteriori. E fui sorrindo das dificuldades e da forma como as iam resolvendo. Mais ou menos bem.
Até que ouvi uma recomendação de uma para a outra que me caiu mal. Não fazia sentido algum. Mais: era asneira da grossa, ainda que nada ficasse em perigo que não o resultado do trabalho. E não me contive.
Abelhudo que sou, fui meter o nariz!
Identifiquei-me com o ofício e sugeri a alteração ao que se preparavam para fazer, justificando. Ficaram a olhar para mim com cara de espanto. De facto, nunca tinham ouvido falar naquilo.
Rimo-nos e puseram-no em prática, constatando os resultados como os certos. E afastei-me, dando-lhes o espaço de que necessitavam.
Novamente os vi a asneirarem. Da grossa e básica. E, se já tinha começado, continuei. Expliquei-lhes o erro, as consequências posteriores e como o evitar. De novo ficaram a olhar para mim, como se lhes estivesse a explicar a origem do universo. Completa novidade para eles. Fui mais longe e acrescentei mais uma ou duas dicas de como corrigir o que estavam a fazer. Coisas simples, mais que básicas. Mas que foram recebidas, uma vez mais, com total surpresa: nunca disso tinham ouvido ou sequer pensado.
Zarpei, rindo-me e desejando-lhes boa-sorte. Afinal, não podia chegar atrasado ao trabalho para que me pagam.
Mas, por dentro não ia a rir, bem pelo contrário!
Nada do que lhes havia dito era extraordinário. Bem básico, por sinal. Eles estudavam num curso superior, em que estes conhecimentos ou competências deveriam estar mais que sabidos em fins de Maio de um primeiro ano que fosse. Tanto no que toca a captação de per si como da edição posterior e de como acautelar as complicações ai surgidas devido a más captações.
Conceitos mais que básicos que nenhum aluno meu, em escola onde eu tivesse ou venha a leccionar, nesta altura do curso poderia ignorar. Impossível!
E fico furioso por estes jovens estarem assim a gastar dinheiro e tempo preciosos em formações incompletas e ineficazes. Com resultados que tenho vindo a constatar quando ingressam no mundo real do trabalho com as carências mais que gritantes.
De tudo isto, o que agrava a coisa é ser recorrente constatar esta falhas em jovens daquela instituição. Que tenho vindo a encontrar p’la cidade, nesta ou naquela situação pública.
Aquilo que não sei é se o problema está no ou nos professores que possuem se nos currículos das respectivas cadeiras.
Em qualquer dos casos, uma coisa eu garanto: se tivesse eu no papel de eventual empregador e se me surgisse gente a fazer os disparates e erros que tenho visto nestes e noutros jovens saídos destes cursos de vão de escada pagos em bons euros, ficariam de fora garantidamente.

Nestas últimas dezenas de anos tem-se defendido que a formação é vital para o desenvolvimento da sociedade. E, na sequência disso, surgiram montões de escolas que prometem formação. Intermédia ou superior.
Mas falta a fiscalização e real certificação da competência destas instituições. No seu início e enquanto estiverem no activo.

Que o pior roubo que podemos fazer é o desperdício de tempo!

By me

quinta-feira, 30 de maio de 2013



Interessante é observar como nos media portugueses (imprensa, rádio, televisão) têm ignorado por completo o que se vai passando p’la europa em crise, tanto em termos de medidas governamentais como de contestação dos cidadãos.
A crer no que lemos, ouvimos e vemos, apenas Portugal está com problemas e a usar de soluções particularmente impopulares e redutoras da qualidade de vida.
De Itália não se fala, da Grécia não se ouve, de Espanha é um silêncio total, Chipre foi notícia efémera, a Irlanda é como se não existisse. A Alemanha, tal como a França, parece estarem tranquilas. A Holanda, esse modelo de pés de barro, nem conta apesar da realidade. Para não referir a Islândia.
É como se nada existisse!
Sendo que acredito que os meios de informação desses países não relatem o que neles acontece, tal como não creio que as agências internacionais não o difundam, será que existe uma incapacidade de a eles aceder por parte dos media nacionais?
Será que a fronteira lusa tem um bloqueio físico de informação?
Ou será que este bloqueio é interno, decidido e imposto por quem pode e não deve, com objectivos esconsos e não confessos?



Imagem: EU site, edit by me

Sorrisos na noite



É um hábito antigo que tenho:
Em subindo para um autocarro, e se não houver confusão na entrada, trato de saudar o motorista.
Naturalmente que o não conheço, que muitos são e vão variando, mas faço questão disso, que não são meros autómatos que ali vão, agarrados aos volantes, tão ou mais chateados com o caos citadino que nós, os transportados.
Quando calha ter o mesmo horário de noite, apanho o autocarro sempre à mesma hora, fazendo a ligação com o comboio, também sempre o mesmo, se não houver percalços p’lo caminho.
Tem sucedido que, nestes últimos dias, ter sido o mesmo motorista a fazer esta carreira a esta hora. Talvez que seja sempre, mas com os meus horários díspares, não o tinha reparado.
Desta feita reparei porque ao entrar, e ainda antes da minha própria saudação, já a estava a receber dele. Patusco e raro, tanto mais que não conheço de parte alguma, e deve ele lidar com muitos mais passageiros que eu com motoristas.
Surpreendeu-me ele ontem e hoje as “boas noites” foram em uníssono. Com o acréscimo de um sorriso atrás do seu bigode.
O dia não me correu particularmente bem. Mas este sorriso em fim de jornada compensou tudo o resto.
O seu preço? Muito mais barato que o obliterado na maquineta, mas com muito maior taxa de lucro. Recíproco.


 By me

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Do bom uso do calçado



Há pessoas com quem tenho muita dificuldade em lidar.
Dividem-se em dois grupos, o pequeno e o grande, e ambos são razoavelmente conhecidos.
O primeiro é composto de gente que ocupa altos cargos dirigentes na vida pública. Atingem o cargo por terem sido eleitos pelos seus patrícios mas, em lá chegando, estão mais preocupados na gestão do poder que lhes foi entregue (erradamente) que em cumprir e fazer cumprir as leis e as promessas eleitorais. Todos conhecemos muitos dos seus nomes e contra eles elevamos a voz ou o pensamento quase todos os dias.
O segundo grupo é composto de gente dita banal. Ocupam o cargo que ocupam porque são antigos na empresa onde trabalham ou dão-se bem com a chefia, ou têm o cartão com a cor certa ou ainda porque obtiveram uma qualquer graduação académica que lhes atribui conhecimentos teóricos. Mas mais nada. O seu principal objectivo é terem uma cadeira de espaldar mais alto porque isso lhes dá status; o seu grande desejo é terem uma mesa de maior área porque os distancia dos subordinados; o seu maior anseio é ter e usar de passwords, porque os coloca na prateleira de cima.
São aqueles que, em conseguindo um destes objectivos, ou semelhantes, mudam de vestuário, quase deixam de falar com os que ainda ontem partilhavam a sua mesa de refeições e passam a defender atitudes e decisões hierárquicas e monodireccionais que ainda na véspera condenavam em surdina.
Acredito que todos conhecemos um ou mais elementos deste grupo. O dos pequenos títeres cujo maior deleite é subir a escada, principalmente se esta for feita de cabeças.

Um dia terei botas de biqueira de aço. Talvez hoje!

By me

Coisas



“O monumento tem por finalidade fazer reviver no presente um passado engolido pelo tempo.”, leio no livro “A alegoria do património”, de Françoise Choay.
Em contrapartida, a photographia tem por finalidade perpetuar no futuro a efemeridade do presente, digo-o eu.

Coisas!

By me

terça-feira, 28 de maio de 2013

Luz e sombras




Tenho para mim que a luz só tem graça se puder ver o onde não chega em pleno.
Manias!

By me

Informação meteorológica no meu bairro



Entro no café aqui da rua com as mãos ocupadas. Uma segurava as abas do colete, a outra o chapéu na cabeça. O vento, bem fresco, não me deu descanso nos menos de cem metros que medeiam entre a porta de onde saí e a porta onde queria entrar.
Lá dentro, cinco mesas ocupadas. Não me fariam concorrência, que ficaria eu ao balcão: o café com bolo do fim da manhã não justificavam o sentar. Nem eu o quereria, que o grande televisor da sala jorrava sons e imagens de uma tal casa, não sei onde, na qual uns tantos são observados a cada instante. Mau demais para que eu o consuma.
Mas, enquanto espero p’lo que pedi e esfrego as mãos, vou observando quem está.
Um dos clientes lê. Um grosso volume de texto. É um cavaleiro, já reformado e com quem já conversei sobre fotografia, que estuda. Salvo erro História de Arte. Vejo-o amiúde aqui, quer com livros, quer com o portátil, quer escrevendo em papel.
Outra senhora, intermédia na idade entre o estudioso e eu mesmo, também lê. No virar das páginas, consegui ver o título, consentâneo com o que delas via: “King Lear”. Assim, na língua original. E, p’lo tom das páginas, fiquei sem saber quem seria mais antigo: se a leitora se o exemplar.
Uma outra senhora, sentada pertinho do televisor, ia repartindo a sua atenção entre este e o telemóvel, lendo e escrevendo. Um segundo jazia na mesa, ao lado da chávena já vazia.
Um quarto cliente, noutra mesa, entretinha-se a ler um jornal. O “Correio da Manhã”, pousado na mesa. No espaço restante, “A Bola” pouco deixava livre para chávena, já vazia.
O último não lia. Parado na sua cadeira, com uma chávena na mão, olhava fixamente para o televisor. Assim esteve todo o tempo que me demorei. P’la expressão que lhe via na face, não creio que pensasse no que via ou no que segurava. Mas era demorado e longínquo.  
Enquanto eu trincava o bolo, entrou mais um. Que se dirigiu à maquina dos cigarros e, de seguida para o balcão, onde pediu uma “mini”. E ficou entretido a abrir o maço.
Por mim, paga a despesa, saí. Deixei que o colete abanasse como queria, que o cigarro e o chapéu eram mais importantes.

Enquanto caminhava de volta a casa, ouvi trazido p’lo vento o som da sirene dos bombeiros, bem lá longe. “Meio-dia, espero eu”, pensei. Era!

By me

Aprendiz



Há uns bons anos atrás, numa das minhas idas mais ou menos regulares a Barcelona, levei comigo uma sobrinha adoptiva.
Uns meses antes, aquando de um jantar com os seus pais, amigos de longa data, virei-me para ela e perguntei-lhe: “Como é? No verão queres ir comigo a Barcelona?”
Ficou a olhar para mim com cara de tola, os pais a rirem da brincadeira mas, nesse Setembro lá estivemos, 10 dias a ver e viver o possível para ambos.
Um dos locais onde não podia deixar de a levar foi o Museu Picasso. Ainda que não possua as principais obras do génio, cobre toda a sua vida, todas as suas fases, tendo, entre outros, muitos trabalhos da sua infância e esboços de trabalhos maiores e famosos.
No final, perguntei-lhe sobre o que mais havia gostado, entre o que tinha visto e aquilo que eu lhe tinha conseguido explicar.
A resposta foi bem clara, para quem tinha onze anos à altura: “Das pinturas de quando ele era criança e pintava como as pessoas!”

Vem esta estória a propósito de ver e ouvir dizer que não se gosta de regras e convenções.
Posso presumir – e saber – que Picasso, Miro, Dali e tantos outros, também não gostavam de regras e convenções e que, quando partiram para o seu estilo próprio e inovador, foi uma tentativa de quebra com todas elas.
No entanto, qualquer um deles dominava, ou tinha dominado, as formas de representação plásticas convencionais, de acordo com as regras estéticas em vigor.
Não apenas porque as estudaram e aprenderam como, querendo expressar os seus próprios sentimentos e emoções e que eles fossem entendidos por outros, tiveram que recorrer às convenções, códigos e regras existentes.
O que aconteceu foi que, a dado passo, se sentiram insatisfeitos com o que faziam, pois que não o interpretavam como representando o que lhes ia na alma. Partindo das convenções, começaram a inovar, variar, quebrar as regras e códigos estéticos instituídos até encontrarem uma outra linguagem. Onde eles próprios se reconhecessem e que outros, com sentimentos na mesma linha, os reconhecessem e aos seus sentimentos.

Por outras palavras, num círculo de comunicação restrito, criaram outras e novas formas de comunicação, com outras e novas regras e convenções.
Porque, na total ausência de regras e convenções, a comunicação não existe, já que quem vê não entende quem pinta (fotografa, compõe, filma, dança…)

Indo mais longe, o simples facto de nos exprimirmos define uma convenção ou regra, já que o seu autor convenciona ou define que aquele gesto, aquela cor, aquele som ou aquela organização de espaço corresponde a um dado sentimento seu. É um ícone ou a substituição de algo impalpável por algo material ou não, visível ou audível.

Aquilo que eu gosto de ouvir ou ler é, antes sim, que não se gosta destas regras ou convenções. Porque não satisfazem, porque não correspondem aos sentimentos ou porque representam uma geração com a qual se quer quebrar amarras e criar distância. Ou ainda porque essas regras ou convenções nos sufoca e prendem, aspirando nós a outros voos.
É isto que gosto de ler ou ouvir, principalmente se seguido por algo nesta linha:
“Não gosto disto, não me satisfaz, não me identifico com estas regras, convenções, linguagem! Vou partir e encontrar o meu próprio caminho, a minha própria forma de expressão, as minhas próprias regras, convenções, códigos!”
Quando oiço ou leio isto, a minha reacção é sempre a mesma: “ Aleluia! Mais um que aprendeu a pensar e que nos vai ensinar algo de novo! Deixa-me aprender contigo!”
Porque, enquanto por cá andar, serei sempre um aprendiz. E é tão bom!..



By me

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Retrato de uma nação




By me

Delete



A fotografia digital veio trazer um terrível e maléfico avanço para as gerações futuras: a facilidade com que se destroem ou apagam fotografias.
Que o apagar de uma imagem, só porque não está “focadinha” ou porque o ou a retratado/a não está com a melhor aparência mais não faz que destruir os documentos de hoje que serão o passado colectivo de amanhã.
A facilidade com que estas imagens são arquivadas e o quase nenhum espaço físico que ocupam são uma mais-valia para os vindouros que não nos custa preservar.

Quando quiser apagar uma imagem, pense bem antes de o fazer.

By me 

Pecados



Eu e o futebol não nos partilhamos muito.
Ele não me necessita, excepto por motivos profissionais e eu não gosto nem um nico da loucura que provoca nos que dele vão mais longe que gostar.
É que igualar os níveis de felicidade pelos resultados desportivos, ainda por cima realizados por outros que não o próprio, é mais que triste: é doentio.
Mas com as “doenças” de cada um posso eu bem, não fora elas provocarem distúrbios na vida dos demais, gostem ou não de bola. As perturbações de trânsito, os humores, as relações pessoais e profissionais… quando isto é dependente dos resultados desportivos e me afectam… fico realmente incomodado.
Satisfazer-me-ia se as tristezas ou euforias fossem na sequência dos esforços dos próprios. Agora por via dos esforços de outros… Fazerem disso a sublimação das frustrações do quotidiano… é triste.
Portanto, eu e futebol não ligamos, que festejo as vitórias reais e não as substitutas.
Mas, no caso do jogo de ontem, fiquei bem satisfeito com o resultado. Por dois motivos.
Por um lado é-me agradável que os ”pequenos” tenham oportunidade e consigam encontrar um lugar ao sol. Que um resultado desportivo não pode depender apenas da quantidade de adeptos de um dos contendores e, menos ainda, do vigor ou violência com que demonstram as suas preferências.
Por outro lado, e isto é pouco bonito mas assumo-o, há alguém que é “doente” pelo Benfica e de quem não gosto nem um nico. Trata-se de uma pessoa arrogante, um pouco despótica, que usa da posição que ocupa para dar ênfase às suas preferências pessoais, quando deveria assumir uma perfeita neutralidade que o seu ofício exige. Saber essa pessoa hoje deprimida e acabrunhada, quiçá doente e faltando ao trabalho por via da derrota do seu clube é uma satisfação que tenho.

Não será este sentimento muito bonito, mas também nunca disse que sou perfeito.

By me 

domingo, 26 de maio de 2013

Torrões



Certo! Sou guloso! Não em demasia, mas um pouco.
E, nessa gulodice, este é um dos meus pecados.
Desde que me conheço que conheço o açúcar amarelo, ou areado. Desde menininho mesmo.
E um dos meus prazeres sempre foi ir abanar mesmo o açucareiro, ajudando ao de leve com a colher o fundo, para que os torrões viessem à superfície. Desde há muito que assim é.

E, já agora, fica a informação óbvia: havia mais para fotografar, mas já não há.

By me 

Pequenos exercícios



Façamos um pequeno exercício que, pela sua impossibilidade, não passa disso mesmo - um exercício de imaginação:

Supúnhamos que, por um qualquer motivo, durante cinquenta anos apenas uma meia centena de pessoas frequentava por ano o ensino superior ou profissional em Portugal. E imaginemos também, para reforçar o exercício, que todos tinham excelente aproveitamento.
Passado este meio século, teríamos uma sociedade de “incultos”, de gente que não saberia trabalhar com os equipamentos que hoje existem que não fosse pelo hábito, teríamos médicos, engenheiros de diversas áreas, especialistas de tudo em final de vida.
Teríamos também uma pequena mão-cheia de pessoas altamente qualificadas que, por serem tão poucas e considerando o sistema de procura e oferta, se fariam pagar a peso de ouro, aplicando os seus saberes às elites endinheiradas, ficando todos os restantes sem canos, medicamentos, diagnósticos, motores, sistemas eléctricos, casas, trigo, bifes e tudo o mais que hoje usamos e de que queremos mais e melhor.

Deste exercício de imaginação se pode concluir com facilidade que o sistema ensino-aprendizagem é vital para a sociedade. E que, como tal, deveria ser realmente gratuito, fosse qual fosse o grau de qualificação que se considerasse. E não o mero “tendencial” que a lei prescreve! Dando oportunidade a que quem tenha capacidades para ir longe no saber e no fazer o possa sem que isso seja um exercício de economia familiar. Trata-se de um investimento que a sociedade faz hoje para colher no futuro. Não tão distante quanto isso!

E, já agora também, considere-se que o que a imagem ilustra não pode ser a realidade. Nem o seu inverso! Nem os alunos são burros e os professores déspotas, nem os jovens os reis e senhores e os mestres os elos mais fracos.
Neste jogo de “aprender e ajudar a aprender”, cada qual tem o seu lugar e igual importância. E se ambas as partes de tal estiverem cientes e não se tratarem como adversários numa arena de mesas e cadeiras, todo o trabalho acontece com muito mais facilidade e resultados positivos.

Que é o que ambos querem e a sociedade deseja!

By me

Fuga em contra-luz



By me

sábado, 25 de maio de 2013

Equilibrios




Creio que já por aqui falei de uma empena favorita.
Fica a meio caminho entre a Av. da República e o Jardim do Arco do Cego, em Lisboa.
Gosto dessa empena porque, impoluta de janelas, cartazes e afins, nela se projectam as sombras se um prédio contíguo, ao fim do dia, com o sol baixinho, baixinho.
Hoje, em passando aqui a caminho de um restaurante mesmo em frente onde me sinto como que em casa (o Super Chefe, passe-se a publicidade), constato que cheguei um pouco tarde. A hora de ver e fotografar esses graffitys efémeros havia passado. Sobrava uma parede limpa, apenas iluminada pelo rosa forte do final do dia. Bonito e agradável, mas pouco sugestivo em termos de imagem
Eis que olho um pouco à direita e vejo esta outra empena. Dois prédios ao lado. E nela projectada a sombra que já conheço mas invertida, naturalmente. E estranhei a sério.
Que diabo, aquela sombra, e respectiva origem de luz não correspondia, em nada, à posição conhecida do sol. 180º desfasado! Nada batia certo!
Até que, olhando com mais atenção, me apercebi do fenómeno: a luz provinha da parede que costumo fotografar. Agora, liberta de sombras, provoca-as, reflectindo a luz que recebe e dando origem a estas sombras, suaves e discretas, quase que como não existindo.
Foi um pedacinho apenas, menos que cinco minutos. O tempo para me aperceber, gostar do que via e rapar da câmara de bolso para o registo. Este.
E deixou de ser visível. A luz mudou de eixo e intensidade e as sombras foram para onde costumam ir quando as deixamos de ver.

Sabendo que o universo se encontra em permanente desequilíbrio controlado, e que os deuses têm um sentido de humor e justiça para além do que conhecemos, acredito que protelaram o ocaso o mais que puderam, à espera da minha passagem. Em compensação de um super entediante jornada de trabalho.
Espero ter-lhes feito honra no privilégio de o ter visto.

By me

Sobre uma colher (*)




Sei que há quem disso faça método: sair de casa com a câmara e com um objectivo específico.
Pode ser retrato, pode ser reportagem de rua, pode ser apenas cor ou formas, podem ser diversos objectivos. Alguns com nomes de estilo ou técnica.
Não o consigo fazer! Pelo menos com regularidade.
Esta forma de ir para a rua fotografar é, e disso não tenho a mínima dúvida, uma forma interessante de aprendizagem. Que ao estarmos mais atentos a esta ou aquela forma ou assunto a fotografar nos desperta ou treina para reconhecer a situação e disciplinar o olhar. Funciona e disso tenho tido provas.
Mas talvez eu seja demasiadamente indisciplinado para o fazer. Ou talvez que seja demasiado curioso para me limitar a temas ou formas. Ou talvez que eu sinta que o universo passível de ficar na minha câmara é bem mais abrangente que o balizado por uma abordagem pré-definida.
Quando saído de casa com a intenção de fotografar, o mais que defino é território: “Hoje vou fotografar ali!”
Depois… Depois deixo-me levar pelo que os meus sentidos constatam, pelas palavras ou ideias que se vão formando e pelas soluções fotográficas para isso conjugar. Uns dias constato que estou guloso por cores e formas, outros pelos significados do que vejo, outros pelas pessoas e o que fazem. Nestes casos, sobrevém o meu pudor em fotografar desconhecidos à revelia da sua vontade.
Fica-me, então, aquela abordagem mista, em que o registo visual é o “depois”, ficando o “agora” para as palavras: o relato retrospectivo da razão de ser da fotografia.
Mas o que é garantido é que tenho que entrar em sintonia com o que vejo. Tenho que ter alguma empatia com o assunto, seja positiva ou negativa, para que o registo consiga atingir os níveis mínimos de satisfação. E tenho que “aquecer”. Tenho que sentir-me como que “um só” com o que vejo, mesmo que seja uma abordagem de “voyeur”, para que as imagens, ou mesmo uma só, faça sentido.
Aconteceu-me já ir fotografar temas mais que conhecidos, como manifestações nas ruas. O tema é mais que conhecido, sei o que se contesta e o que se reivindica, consigo antecipar os movimentos colectivos e conheço os locais. Mas, em chegando ao sítio, ainda vazio ou já pleno de gente, tenho que deambular um bom pedaço por ali, vendo pessoas e objectos, sentido emoções e namorando a luz. Não que não comece quase logo a fotografar, mas mais como exercício de aquecimento que como trabalho final.
Sei que sou assim e já me deixei de ficar desapontado quando tento abordagens diferentes com resultados frustrantes. Ou quando, por um qualquer motivo, não consigo essa empatia interior.
Saio de casa de espírito aberto e, tanto quanto possível, sem baias, pré-determinações ou preconceitos. E menos ainda com títulos pomposos ou categorias estereotipadas. Em chegando ao local, mergulho no que há ou está e logo se vê. O resultado é o que de fraco vou fazendo, mas é meu e não o imitar alguém.

(*) Esta é uma colher na linha. Tombada sobre a brita que entremeia os carris e as chulipas.
Ficar-me-á sempre a dúvida sobre o que estaria a ser comido, com uma colher de metal, numa estação de caminho-de-ferro, para que, talvez em chegando o comboio, fosse assim jogada fora.
Ou, em alternativa, em que estado de limpeza estaria quando foi surripiada de um qualquer café ou restaurante, enfiada discretamente no bolso e, aqui, descartada porque já não tinha graça o palmanço.

By me 

Vícios




Se bem que as redes sociais não sejam o lugar indicado a confissões de ordem privada, vou contar aqui um dos meus prazeres ou vícios privados e diários.
A par com fotografia, tenho que, pelo menos uma vez por dia, fazer alguém sorrir. De preferência, alguém desconhecido ou, no mínimo, alguém com quem não tenha grande intimidade.
Admito que este vício diário me é de tal modo importante que, em o não conseguindo, o dia acaba-me mal, sendo-me difícil conciliar com o sono.
Vai daí, e com medo que não suceda, trato de satisfazer este prazer privado na primeira oportunidade.
Claro que, com a idade e a experiência, acaba por não ser muito difícil, ainda que eu procure encontrar soluções ou métodos que sejam diferentes.
Um deles é fácil, barato e de resultados quase que garantidos.
Em entrando num qualquer local onde eu seja atendido, o normal é darem-me a saudação, num tom de quem me pergunta o que quero. Por exemplo “bom dia!”
A resposta já a tenho engatilhada: “Obrigado O mesmo para si!” OU, mais elaborado de dizer “Que os deuses lhe dêem o dobro do que me deseja!”
Isto dito com um sorriso que tento que nada tenha de irónico, sarcástico ou malicioso. Um sorriso, apenas.
A primeira reacção é, também ela, padronizada: surpresa e suspensão do que se estava a fazer ou dizer. E o olhar a tentar descortinar se estarei a gozar, a insultar ou nem uma coisa nem outra.
Mantenho o sorriso, faço um compasso de espera de uns três ou quatro segundos, e continuo, desta feita dizendo o que quero dali: um café, tabaco, jornal, seja o que for.
Ainda antes de pagar, ou mesmo de receber o que peço, tenho o meu troco: um sorriso. Que quebrou, p’la certa, a rotina de quem está atrás de um balcão, atendendo quem quer que ali apareça.
Saio do estabelecimento com o que comprei (ou fiz ou pedi) e com a satisfação do dever cumprido: se consegui fazer alguém sorrir, o dia não me pode correr muito mal.
Garantido!

By me

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Palhaço




Tenho uma certeza tranquilizadora:
Nunca me virão a acusar ou processar por chamar palhaço ao sr. Aníbal Cavaco Silva ou ao Presidente da república.
Tenho por demais respeito por quem exerce a nobre profissão de fazer rir os outros, para confundir esta pessoa ou este cargo com tal ofício.

By me

Garrafa na linha (*)




Semiótica é uma palavra cara. E de significado meio obscuro. E torna-se mais difícil de entender quando se refere à imagem.
Mas a verdade é que funcionamos por símbolos, por códigos visuais de qualquer género. Reagimos aos sinais de trânsito, à expressão facial, à palavra escrita.
A fotografia veio complicar a coisa. Sendo uma representação factual de uma dada situação (mesmo com as pós-produção que se fazem) mais não é que isso: pessoas, objectos, locais, jogos de luz e sombra que existiram. E que a fotografia no-la mostra, cortando de todo um universo de espaço e tempo aquele bocadinho rectangular.
Assim, e não havendo códigos estritos, a leitura ou interpretação do que é mostrado depende, sempre, de dois factores vitais: o reconhecimento factual do que ali está e a reacção emocional de quem vê.
Por sua vez, a reacção emocional vai depender de dois factores, igualmente vitais: a experiência e a memória de quem vê e o relacionamento destas com o conteúdo factual e a chamada estética.
E é nesta que a porca torce o rabo. Que a estética é, também ela, resultante de códigos, uns escritos outros apenas interiorizados. Os conceitos estéticos dependem da cultura em causa, tempo e local. A interpretação que fazemos da gestão de espaço e contrastes de cor e luz não é mesma que se faz nos antípodas, onde a cultura “ocidental” ainda não é a dominante.
Só para dar dois exemplos práticos, veja-se como as cores do luto variam no globo. Ou como o sentido de leitura também varia com a geografia.
E quando coisas tão simples e entranhadas em cada ser humano variam, toda a eficácia da comunicação varia. E fotografia é comunicação.
A globalização vai estreitando conceitos. E estéticas. E o peso na globalização dos emissores vai formatando as estéticas, cingindo-as gradualmente a conceitos uniformes definidos pelos mais fortes ou massivamente difusores.

Fotografar é, para além da satisfação de quem o faz (material ou espiritual) uma forma de comunicação. Quando as fotografias são exibidas (na família, na imprensa, na net) há quase sempre a expectativa de algum tipo de aprovação, de que a mensagem nela contida seja reconhecida por quem a vê. Que, se a ponte entre emissor e receptor não existir, a comunicação não acontece.
Conhecer como as fotografias são lidas ou interpretadas pelos eventuais destinatários torna-se, assim, vital para que ela, a ponte, aconteça. Quais os códigos estéticos vigentes, como os interpretamos, quais as vivências predominantes e os sentimentos associados, até mesmo os códigos de conduta (escritos ou apenas aceites).

Sobra, claro está, uma outra forma de fotografar. Ou de escrever, ou de pintar, ou de esculpir, ou de bailar.
Aquela em que quem o faz ignora (por acaso ou propositadamente) todos esses códigos e faz apenas o que lhe dá na real gana. Ignora as reacções de quem vê, dado apenas ênfase à sua satisfação de criar algo. Mesmo que os demais, em sendo confrontados com isso, não interpretem o que ali estiver. E reajam negativamente ou nem sequer reajam.
Os que assim se exprimem pertencem, maioritariamente, a dois grupos: os mais jovens, que procuram formas de viver, expressão pessoal incluída, à margem ou em contraponto com a geração anterior, e aqueles que se não satisfazem com os academismos, as regras instituídas, mesmo que não escritas, os lentes que mais não fazem que dizer o que é bom e o que não é, tudo moldando em torno de um conservadorismo atroz.

Cabe a quem fotografa (ou se exprime por qualquer outra forma) decidir como o faz: se como forma de comunicação, seguindo os códigos e as semióticas existentes, se seguir tão só o que lhe vai na alma e estar pouco preocupado com as reacções de terceiros.  

(*) Não pretende esta fotografia ser exemplificativa de nada do que acima está dito. Mais não é que uma de muitas garrafas atiradas negligentemente para a via-férrea por quem aguarda, com ou sem paciência, por um comboio que o há-de levar ao seu destino. E, tal como a garrafa terá morto a sede de quem dela bebeu, também esta fotografia satisfez, no momento, a vontade de fazer o registo. Nada mais.

By me 

Esta é uma pergunta matreira, insidiosa. Mas não posso deixar de a fazer.
Todos supõem estar razoavelmente bem integrados na sua cidade, no seu bairro, na sua rua. E conhecerem-no mais ou menos bem.
Então, pergunto eu agora:
Qual o número da porta que fica em frente de sua casa?”
Sabe-o com certezas? Supõe saber? Tem um palpite?
Da próxima vez que sair de casa, vá confirmar. Talvez tenha uma surpresa a seu respeito.
E não, não há que responder aqui em público, ou mesmo em privado.
E, levando a questão um nico mais longe: Sabe quem foi, ou que acontecimento, ou que lugar, deu origem ao nome da sua rua e das duas contíguas?

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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Parece-vos familiar?




“Então foste deitá-lo fora?”
“E o que querias? Velho, sujo, amachucado e, ainda por cima o miúdo já está maior que ele… Servia para alguma coisa guardar um traste destes?
Já teve utilidade, já. Agora não vale a pena!”


By me

Códigos




Os códigos de conduta estão cheios de proibições e obrigações.
Não matarás, obrigatório circular pela direita, não cuspir para o chão, declarar rendimentos… Obrigações e proibições.
Entenda-se que estes códigos são, muitos deles, ancestrais e que se enquadram como civis ou religiosos. Alguns padecem das duas circunstâncias.
No entanto, nenhum desses códigos refere condutas de referência, boas práticas ou comportamentos recomendáveis. Apenas proibições e obrigações.
Também tenho os meus próprios códigos.
Não baseados em leis ou mandamentos, não sujeitos a coimas ou penas de prisão, são os meus e é por eles que me rejo. No quotidiano.
Este é um deles:
Em caminhando por um passeio, na berma de uma rua, e em caminhando em sentido oposto alguém, assumo o desviar-me para a berma ou para o interior dependendo das circunstâncias. A predominante é se caminho no mesmo sentido dos automóveis ou em sentido oposto.
No primeiro caso, assumo o lado mais afastado da faixa de rodagem, no segundo o mais próximo. Porquê? Fácil!
Caminhar na berma da rua implica mais riscos no confronto com os carros, pelo que estar de frente para eles é mais seguro para ambos. Estar de costas é um risco acrescido e desnecessário.
A excepção que faço depende de quem caminha na minha direcção. Se se tratar de gente mais frágil (crianças p’lo seu pé ou em carrinhos, gente com limitações de locomoção ou cegos), garantido que o meu lugar é na berma, deixando a zona mais segura para eles.
De igual modo, em querendo atravessar uma rua, numa passadeira sem semáforos e em vindo apenas um ou dois carros por perto, recuo e dou-lhes a passagem, frequentemente com um  gesto explícito dessa cedência. É, as mais das vezes, mais fácil ou menos prejudicial, o eu esperar dois ou cinco segundos para que eles passem que eu usar do meu direito legal de prioridade na passadeira e obrigá-los a parar e retomar a marcha.
São códigos de conduta, ou cumprimento de uma ética de cidadania, que não estão escritos em parte alguma, criados e cumpridos por mim. E que não faço questão que os demais os sigam. A cada um a sua “moral” e o relativizar das importâncias dos umbigos é problema e ponderação de cada individuo.
O mais que faço, como agora, é relatar como eu mesmo me comporto. E, se por mero acaso, houver quem desse lado concorde e dele quiser fazer exemplo, considero que ganhei o dia.
Não por ter sido imitado. Isso é o que de pior se pode fazer. Antes porque sobre o assunto se pensou e tomou uma decisão. Que isso de cumprirmos obrigações e proibições é demonstração irrefutável do carneirismo em que vivemos, em que é mais fácil sermos dirigidos que pensarmos.

By me

Sortes




Todas as noites João rezava ajoelhado aos pés da cama.
Pedia ele, a deus e aos santos, que lhe fizessem ganhar a lotaria para sair da condição de miséria em que vivia.
Uma noite, estava ele concentrado nas suas preces, entra o anjo Gabriel pela janela e diz-lhe:
“João: esta semana vais ganhar a lotaria, que bem o mereces e assim o decidimos. Mas ao menos compra uma cautela, caramba!”

Assim estamos nós, em Portugal: Todos bramimos contra a situação actual, contra o governo, contra as políticas económicas, contra a ineficácia parlamentar, mas…
Mas nem damos um tirinho, nem nos revoltamos a sério, nem, ao menos, fazemos as escolhas certas, ano após ano. Aliás, muitos nem sequer escolhem o que quer que seja.

Se não compramos uma cautela, ou mesmo uma raspadinha, como podemos esperar que os deuses nos ajudem?

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Jorros de sombras



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Em trânsito, na noite




Ainda faltava um pedaço para a fronteira formal do fim de dia. E faltavam bem dez minutos para o comboio que me haveria de levar de volta a casa.
Cá fora a aragem estava no limiar do fresco. Mas só cá fora e em alguns lugares, que quanto ao resto, a temperatura estava amena. A ponto de ter o casaco preguiçosamente pendurado no saco e ter ficado em colete e mangas de camisa no interior da estação. Estava-se bem.
Este “estar-se bem” era bem patente nelas. Duas mocinhas, aí p’los vinte anos, com trajes leves, descontraídos e menos que pouco formais (rebeldes mesmo, dir-se-ia) estavam numa amena e divertida conversa, bem no meio do átrio. Em pleno contraste com os demais, sorumbáticos, uniformes nas suas roupas cinzentas, conformadamente à espera do comboio que viesse conduzi-los ao descanso merecido depois de uma jornada de trabalho. Elas eram a tónica dissonante naquela estação e não poderiam deixar de ser notadas.
Na sua diversão, uma delas dá um empurrão amigável na outra e esta protesta: “Não me empurres! Não posso pisar o azul!” Sorri!
Sorri do estranho da frase na idade e sorri dos esforços que de imediato fez para conseguir colocar os seus dois pés dentro de uma rodela semelhante a esta.
A outra alinhou na brincadeira e passou para um rectângulo da mesma cor e materiais, logo ao lado. E assim estiveram, continuando a conversa e tentando manter posições e decisões.
Estive vai-não-vai para lhes perguntar se poderia alinhar na brincadeira e também eu não poder pisar o azul. Mas desisti.
Que aquela brincadeira não era minha, se bem que todos nós por ela tenhamos passado. Que um cota, àquela hora e local, meter-se com duas jovens seria mal interpretado, p’la certa; Que eu nunca me atreveria a pisar, de propósito um coração tão esmeradamente feito.
Ficaram elas nas suas conversas e fiquei eu com uma fotografia (mais uma) deste bonito trabalho de um calceteiro, deixado numa estação de caminho-de-ferro, e que aos magotes lhe passam por cima sem que o vejam.
Que, nos tempos que correm, ninguém olha onde põe os pés, com a velocidade que nos querem imprimir.
Os dez minutos passaram e todos subimos e embarcámos.

By me 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O telemovel




Tem vinte e poucos anos e até gosto dela.
Do pouco que dela sei, consegue viver num limbo entre as convenções sociais, parece-me, lhe serão mais ou menos impostas pela sociedade e família, e as opções sociais que ela mesmo tomou, com decisões e opiniões não muito consentâneas com a geração anterior. Pensa e opina p’la sua própria cabeça, algo muito bom em qualquer época, mas raro nos tempos que correm.
Mas, claro, é filha dos tempos modernos.
Por isso mesmo entristeceu-me quando, um destes dias e em vendo-me usar o meu telemóvel para aceder a uma mensagem na web, me perguntou:
“Olha lá! Quando é que arranjas um telemóvel melhor? Tu até usas isso com frequência…”
Confesso que fiquei triste.
Que ela, com o seu talvez quarto de século, não entendeu ou aprendeu que não há que seguir as modas tecnológicas, impostas por fabricantes ou gente cujo objectivo é dizer e impor aos outros a suas própria forma de viver. Que os objectos não se descartam ou substituem apenas porque já têm não sei quantos anos e há mais moderno no mercado. Que não adianta, excepto para alimentar os abutres do mercado, jogar fora algo funcional e satisfatório só porque há algo de novo e diferente. Que muitos dos gadgets da comunicação vêm com montões de funções, que pagamos, e que de nada nos servem. Ou, pior ainda, nos tornam em escravos deles, levando-nos a pautar a nossa vida p’las pautas dos outros, no lugar das nossas.
No meio de tudo isto, o que mais me entristece é que a sua geração está a aplicar a pessoas o mesmo que ela aplica aos dispositivos electrónicos: Os novos é que importam e os velhos são descartáveis porque inúteis.

By me 

terça-feira, 21 de maio de 2013




“Que deus tenha em paz a sua alma.”
Foi a coisa melhor que ouvi hoje, no comboio. Para além, claro, do comentário do revisor que, em conversa informal no cais, enquanto aguardávamos p’la via livre, me disse que toda a linha está vedada, p’lo que já não há motivos p’ra acidentes. E é verdade.
Todos os demais ditos, conversas, observações e desabafos eram no sentido de criticar a situação, a má oportunidade, que deveria ter escolhido de outra forma... Até o governo foi chamado a dançar neste rol de conversa da treta.
A verdade é que poucos verbalizaram alguma compaixão ou pena p’la pessoa que se colocou na frente do comboio, estrategicamente depois de uma curva, p’ra acabar com aquilo que não poderia suportar mais.
O egoísmo do bicho-homem é terrível!

By me 



Todos comentam como o rio vai agitado, mas ninguém repara que são as margens que o apertam!

By me

Havia o “Estado Novo”. E o estado de graça. E o estado a que isto chegou.
Parece que temos um novo estado, que é conselho.
No meio de tudo isto, esquecem-se do estado em que muitos se encontram. Chama-se “Estado de Necessidade”.

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Fora daqui!




Não sou ciclista. Nem de turismo, nem de desporto. Tal como não tenho uma bicicleta. Nem uma pasteleira das antigas nem uma das modernaças, leves, práticas e rápidas.
Mas reconheço as vantagens desta prática: tanto as ambientais como a de saúde. E admiro os praticantes insistentes que, ao longo dos anos, têm conseguido melhorar as condições da circulação em biciclo. Tanto na legislação, como na visibilidade da prática como nas condições de segurança. E é divertido ver as ciclovias pela cidade, garantindo a segurança dos ciclistas que nela circulam.
Mas faz-me sair do sério o “ser-se mais papista que o papa”, aliado, talvez, a interesses económicos, disfarçados de boas intenções para as duas rodas. Este é um desses exemplos.
Na Av. Frei Miguel Contreiras, em Lisboa, foi instalada uma ciclovia. Mas, e considerando a largura da via, trataram de, com ela, extinguir o passeio. O tal espaço que não pode ser ocupado por estacionamento automóvel e que é reservado a peões.
Estes, ao saírem da estação de caminho de ferro, são impedidos de caminhar, sendo obrigados a transitar para o outro lado da rua, esperando que os automóveis respeitem a passadeira e que esta não esteja bloqueada por carros estacionados, sob pena de serem “insultados” pelos ciclistas ao verem o seu espaço ocupado por pacatos caminhantes.
Faz sentido apoiar as alternativas saudáveis e ecológicas. Tal como faz sentido respeitar e apoiar as vontades dos cidadãos.
Mas nem uma nem outra coisa justifica o menosprezo pelo peão, o encurralá-lo para “guetos”, o quase desejar que não exista.
Há situações que ultrapassam todos os limites, mesmo o do ridículo, levando-nos a pensar nos motivos não confessos para certos actos e decisões.
Nunca se esqueçam, automobilistas, camionistas, ciclistas e motociclistas, que quando não se encontram no vosso meio de transporte, são peões, condição em que vieram ao mundo.

By me