sábado, 31 de março de 2012

Apagão




Mais que militante do que quer que seja, gosto de me pensar como franco atirador. Há coisas em que alinho, outras em que não alinho.
E esta de apagar parte das luzes, nem que seja por uma hora, em simultâneo em muitas cidades, tem a sua graça.
Mas, como snipper, preferi não estar lá, onde os monumentos, edifícios públicos e praças se escureceram. Ainda que talvez pudesse fazer umas fotos engraçadas. Fiquei em casa, apaguei eu mesmo as luzes e acendi umas velinhas na janela.
Como eu imaginava, o meu acto isolado aqui no bairro deu frutos. Dos bons.
Enquanto as acendia e as fotografava, ouvi, do alto da minha varanda, três casais diferentes, mais as respectivas proles, que passaram na rua e comentaram o que eu estava a fazer. E foi também do alto da minha janela que lhes respondi e expliquei.
Passados minutos, uma das janelas do prédio ao lado do meu estava com uma vela acesa. E as luzes de casa apagadas.
Como eu sempre defendi, mais que os decretos são os exemplos que fazem passar as mensagens e mudam as mentalidades.
Entretanto as velinhas apagaram-se, que a aragem não perdoou. Mas manteve-se acesa a chama da minha crença em que é possível fazer mais e melhor. Assim o queiramos e não fiquemos de braços cruzados.

By me 

O Coelho




Este é o Coelho que bem conhecemos, dos escaparates dos supermercados e das vitrinas dos cafés e pastelarias.
Dele podemos dizer que é sazonal, que podemos acabar com ele à dentada e que nos deixará boa memória.
Do outro, daquele que conhecemos dos quiosques e dos ecrãs, já não podemos dizer o mesmo.
Mas se não deixará boa memória, podemos sempre tentar acabar-lhe a época rapidamente e, se não for à dentada, pode ser de qualquer outra forma!

By me

Dois episódios




Quando o conheci tinha trinta e tal anos.
Enérgico, imaginativo, conversador, bem disposto e brincalhão, era aquilo a que se chama um companheirão.
Tinha uns antecedentes atribulados. Fora motorista de camiões de petróleo no Norte de África e jornalista em Espanha. Aqui estava impedido de entrar, pois que seria preso. Recusava-se a identificar o elemento da ETA que ele tinha entrevistado e a polícia e os tribunais procuravam-no por isso.
Como não sabia estar tranquilo, procurou um ofício de alto risco e veio para junto de nós.
E encontrou o que procurava.
O sistema foi mais forte que ele.
Um dia, passou o portão com uma Walter 9mm na mão à procura de um dos directores. Não o encontrou porque, ajuizadamente, este fora esconder-se numa casa de banho.
Os ânimos amainaram e ele desapareceu. Dias mais tarde foi entregar-se, e mais à arma, num qualquer posto da GNR, algures no centro do país.
Esteve em tratamento e a trabalhar durante alguns meses. Era uma tristeza vê-lo naquele estado, mas sabíamos que era dos medicamentos.
Até desaparecer de novo.
Vim a saber, uns dias mais tarde e por uma chamada telefónica ao jantar na Bicaense, que estava tudo bem, tudo resolvido.
Tinham-no encontrado. Em Sintra. Na serra. Pendurado numa árvore.
O sistema tinha vencido em toda a linha.
Porque o José foi-se. Porque nunca perguntaram àquele director, ou qualquer outro, o que se tinha passado. Tudo continua calmo, porque o sistema vence sempre – quase sempre!

A já longa lista de nomes aumentou em mais um.
O João.
Com formação superior. Com uma posição de algum destaque. Boa pessoa. Muito boa pessoa. Sempre com um sorriso. Sempre disposto a trabalhar. Em quaisquer circunstancias.
Ainda tentou falar com alguns dos directores. Supõe-se que com a grande simpatia, e pacatez que lhe é peculiar.
Não o conseguiu.
Quase que resultou num caso de sucesso do sistema. Foi encontrado antes de tempo e foi acompanhado por quem deve e pode.
Desta vez o sistema não venceu – ainda!

A dança das cadeiras pelo poder ainda vai só na introdução. Espera-se para breve a sinfonia em todo o seu esplendor.
Quem atrapalha, quem incomoda, quem está no caminho, talvez tente falar com algum director, mas estes estão sempre muito ocupados para olhar para baixo.
Sobram candeeiros mas falta quem saiba dar os nós para lá pendurar aqueles que assim conjugam o verbo “EU”:

EU subo
EU trepo
EU espezinho
NÓS marginalizamos
NÓS abatemos
NÓS eliminamos de vez

Texto e imagem: by me

sexta-feira, 30 de março de 2012

O teste




Eu sei que a PDI não perdoa e também sei que está na altura de mudar de óculos.
Agora dizerem-me isso mesmo, disfarçadamente, numa loja, ao darem-me um cartão de contacto em que obriga a usar uma lupa para ler o que está lá escrito…
‘Tábém, pronto! Eu vou ao oculista!
Agora, fora de brincadeira, é uma loja que recomendo, pelo tipo de produtos e simpatia de quem ali atende. Qual? Não, agora não digo por questões de ética, mas fica para breve.

By me 

Aprendiz




Há uns anos atrás, numa das minhas idas mais ou menos regulares a Barcelona, levei comigo uma sobrinha adoptiva.
Uns meses antes, aquando de um jantar com os seus pais, amigos de longa data, virei-me para ela e perguntei-lhe: “Como é? No verão queres ir comigo a Barcelona?”
Ficou a olhar para mim com cara de tola, os pais a rirem da brincadeira mas, nesse Setembro lá estivemos, 10 dias a ver e viver o possível para ambos.
Um dos locais onde não podia deixar de a levar foi o Museu Picasso. Ainda que não possua as principais obras do génio, cobre toda a sua vida, todas as suas fases, tendo, entre outros, muitos trabalhos da sua infância e esboços de trabalhos maiores e famosos.
No final, perguntei-lhe sobre o que mais havia gostado, entre o que tinha visto e aquilo que eu lhe tinha conseguido explicar.
A resposta foi bem clara, para quem tinha onze anos à altura: “Das pinturas de quando ele era criança e pintava como as pessoas!”

Vem esta estória a propósito de ver e ouvir dizer que não se gosta de regras e convenções.
Posso presumir – e saber – que Picasso, Miro, Dali e tantos outros, também não gostavam de regras e convenções e que, quando partiram para o seu estilo próprio e inovador, foi uma tentativa de quebra com todas elas.
No entanto, qualquer um deles dominava, ou tinha dominado, as formas de representação plásticas convencionais, de acordo com as regras estéticas em vigor.
Não apenas porque as estudaram e aprenderam como, querendo expressar os seus próprios sentimentos e emoções e que eles fossem entendidos por outros, tiveram que recorrer às convenções, códigos e regras existentes.
O que aconteceu foi que, a dado passo, se sentiram insatisfeitos com o que faziam, pois que não o interpretavam como representando o que lhes ia na alma. Partindo das convenções, começaram a inovar, variar, quebrar as regras e códigos estéticos instituídos até encontrarem uma outra linguagem. Onde eles próprios se reconhecessem e que outros, com sentimentos na mesma linha, os reconhecessem e aos seus sentimentos.

Por outras palavras, num circulo de comunicação restrito, criaram outras e novas formas de comunicação, com outras e novas regras e convenções.
Porque, na total ausência de regras e convenções, a comunicação não existe, já que quem vê não entende quem pinta (fotografa, compõe, filma, dança…)

Indo mais longe, o simples facto de nos exprimirmos define uma convenção ou regra, já que o seu autor convenciona ou define que aquele gesto, aquela cor, aquele som ou aquela organização de espaço corresponde a um dado sentimento seu. É um ícone ou a substituição de algo impalpável por algo material ou não, visível ou audível.

Aquilo que eu gosto de ouvir ou ler é, antes sim, que não se gosta destas regras ou convenções. Porque não satisfazem, porque não correspondem aos sentimentos ou porque representam uma geração com a qual se quer quebrar amarras e criar distância. Ou ainda porque essas regras ou convenções nos sufoca e prendem, aspirando nós a outros voos.
É isto que gosto de ler ou ouvir, principalmente se seguido por algo nesta linha:
“Não gosto disto, não me satisfaz, não me identifico com estas regras, convenções, linguagem! Vou partir e encontrar o meu próprio caminho, a minha própria forma de expressão, as minhas próprias regras, convenções, códigos!”
Quando oiço ou leio isto, a minha reacção é sempre a mesma: “ Aleluia! Mais um que aprendeu a pensar e que nos vai ensinar algo de novo! Deixa-me aprender contigo!”
Porque, enquanto por cá andar, serei sempre um aprendiz. E é tão bom!...

By me

quinta-feira, 29 de março de 2012

Um olhar - Sara




Pese embora o estar na moda (boa moda, entenda-se) o conceito de “trocas”, há muito que o venho praticando.
Ele é equipamento fotográfico, ele é livros, ele é fotografias, ele é olhares”…
Este é um desses exemplos.
Abordado na rua, pedem-me um cigarro. Dependendo do meu estado de espírito, que nem sempre estou p’raí virado, olho para o olhar inquiridor que recebo. E, se tudo está de feição, vem a minha proposta:
“Troco!”, seguida de silêncio.
A reacção é tão padronizada quanto uma folha A4:
“Troca o quê?”, com espanto.
“Troco um cigarro por uma fotografia dos seus olhos. Só dos olhos!”
A hesitação também a habitual. Tal como a pergunta que se lhe segue:
“Mas porquê?” E guns ou algumas acrescentam “Colecciona olhos?”
“Claro que sim! E olhos bonitos, então, procuro não deixar escapar.”

Não posso dizer que funciona sempre, que já tive algumas recusas. Mas são tão raras que nem contam p’ra estatística.
E é um daqueles negócios de troca em que ambas as partes saem satisfeitas, ambas com o que procuram. Ainda que eu fique sempre a ganhar, já que além da fotografia, fico com a visão de um sorriso.
E, garanto, isso faz-me ganhar o dia!

By me

Um dos sete




É verdade que sim! Volta e meia dá-me a gulodice.
E se há quem se bata por um bom pastel de nata ou pastel de Belém, por um bolo de arroz ou um bom mil folhas, confesso que se o creme for bom, chego-me à frente. Quer seja num Duchesse, quer seja num Bábá. Em tempos batia-me por uma boa pirâmide mas, vá-se lá saber porquê, deixei de gostar tanto.
Acontece que faz já tempo que me não aparecia no prato um destes. Tempo para parar e degustar um tem faltado e, mais recentemente tem-me faltado agilidade para uma coisa destas.
E se a fotografia não está grande coisa, tenho duas boas justificações para tal: À uma porque, e ainda que a câmara estivesse mesmo ao meu lado na mesa, quis testar a capacidade de rotação do conjunto rádio/cúbito; em seguida, estava cheio de pressa em manter na boca o paladar já meio esquecido. Estive vai-não-vai para pedir outro e, aí sim, fazer uma foto de jeito. Não tive coragem!
Fica esta, feita entre duas saborosas e agilizadas garfadas.

By me

Certo!




E, de caminho, faz alguma coisa. Ou não faças alguma coisa.
Que estar apenas indignado e ficar de braços cruzados não conduz a lado algum que não seja à indignação e à inconsequência. Nunca a mudar o que quer que seja!

By me

Entre o olhar e o ver




Na sequência das “Trocas Fotográficas”, recebi isto que aqui se vê a duplicar: Uma folha de papel, formato A3 e translúcida, onde foram impressas diversas fotografias.
A acompanhar, um sistema de suporte e três velas, que o conjunto presume-se ser retro-iluminado.
Desde logo se punha a questão de três velas serem poucas, que se visualmente funcionava, a não uniformidade da distribuição de luz não permitiria um fotografia aceitável. Acabei por usar nove, distribuídas na vertical, garantindo a não uniformidade mas com níveis suficientes para o registo.
De seguida a questão da calibração de cor. A imagem final foi a de cima, a imagem quase correcta a de baixo. A pergunta seria: “Então o que é que os teus olhos viam?” ou “Então assim as fotografias impressas não estão reproduzidas como as viste?!”
Não era isto que os meus olhos viam nem as fotos estão correctamente mostradas. Acontece que, se desse como imagem final a de baixo, não se sentiria que a luz usada eram velas. Tanto o poderia ser com velas como com lâmpadas ou como com a luz solar. E teria que ser mostrado aquilo que não se vê: velas acesas.

Tenho para mim que nem sempre o ser-se fiel ao que existe será a melhor solução na produção de imagens. Que a frieza da tecnologia não é reprodutora de emoções e sentimentos. Pequenas mentiras ou desvios à verdade da técnica fazem, tantas vezes, a diferença entre aquilo para que olhamos e aquilo que vemos.

By me

quarta-feira, 28 de março de 2012

Batata frita photográphica




Por mim, podem chamar-lhe batata frita, rabicha do arado ou australopitecus. Que o que é importante é que nos entendamos e o resto é conversa fiada. No entanto…

No entanto custa-me ouvir e ler a palavra “lente” referindo-se a “objectiva”.
Que lentes tenho eu nos meus óculos, uma de cada lado. Por acaso até tenho lentes nos olhos, que são de geometria variável e dão-lhe o nome de cristalino. Tal como a minha lupa é uma lente.
Mas ela só é uma lente até ao ponto em que a coloco num tubo e ponho tudo à frente de um sensor de imagem, eléctrico ou físico.
A partir daí passa a chamar-se objectiva, com ou sem posição variável para efeitos de foco, com ou sem luminosidade controlada para efeitos de exposição.
Mas um sistema óptico, colocado num sistema de registo de luz, cuja função seja alterar a trajectória dos raios luminosos, para criar uma imagem real e invertida, composta que seja por ou vários elementos, com posicionamentos relativos fixos ou variáveis só é, na minha língua, uma objectiva. É isso que ela é!
Agora se lhe chamam “corrente d’ar”, “campainha de porta” ou acelerador de partículas”, basta que todos o saibam para que todos se entendam.
Resta esclarecer que se lhe chamarem “acelerador de partículas” deverão dizer, como complemento, “de sinal negativo”. É que a luz refracta-se e é desviada na sua trajectória porque diminui de velocidade ao passar de um meio menos denso para outro mais denso. E o inverso também é verdade.
E sendo que estas alterações de velocidade não são iguais para todos os comprimentos de onda (cores) as lentes (porque são compostas de um só elemento e sem tratamento de superfície) têm “aberrações cromáticas”. Por seu turno, as objectivas, porque possuem elementos de densidades variadas, curvaturas diferentes e tratamentos de superfície específicos, têm essas aberrações reduzidas ao mínimo, de acordo com a qualidade dos materiais e que se reflectem no respectivo preço final.

Quem se daria ao trabalho de fotografar usando apenas uma lente e sabendo que a qualidade resultante é bem inferior à de uma objectiva? Eu faço-o, mas a título de experiência e com os resultados controlados.
Mas eu não sou referência, já que photographo com objectivas e com lentes, mas conhecendo-lhes as diferenças. E nunca tentei com batata frita, mas há sempre uma primeira vez para tudo.

By me 

A vitória




Tenho um ódio visceral à competição. Entendo que não tenho que provar perante ninguém as minhas qualidades, nem tenho que tentar afirmar-me melhor que quem quer que seja.
E, tal como no universo, cada um é o que é, com as suas qualidades e defeitos, também eu tenho a minha cota parte de ambos, não sendo nem melhor nem pior que ninguém: sou eu!
Há, no entanto, um competidor terrível, que me tira o sono e sobre quem tenho sempre o maior prazer em vencer: eu mesmo.
Cada pequena vitória que consigo sobre mim mesmo tem, do meu ponto de vista, o mesmo sabor que um medalha olímpica ou uma taça do mundo. Faltaria apenas o hastear da bandeira ou o tocar do hino, tivesse eu algum deles.
Foi assim que entendi como uma vitória assombrosa o conseguir segurar, tombar e dar-lhe o uso previsto – beber – um copo de cerveja preta com a mão esquerda. Que saudades que tinha disso e que satisfação fazê-lo, mesmo com algum incómodo doloroso. Vitória!
Mas sendo certo que celebrar sozinho uma vitória nem sempre tem graça, decidi que mais alguém haveria de sorrir. Senão do que havia conseguido, de qualquer outra coisa.
Assim, quando a Andreia – soube-lhe o nome porque mo disse de acordo com as regras da casa, que nunca a havia visto – me pôs na mesa a entrada e disse “bom apetite!” como sempre, atirei-lhe com o ar mais escandalizado que consegui fazer. “Não diga isso, por amor de deus!”
Parou no seu trajecto, olhando para mim sem perceber, e continuei:
“Sendo apetite vontade de comer e sendo que estou num restaurante de livre vontade, apetite já eu trago. Certo?”
“Ah, bem, sabe, é o hábito…”
“Bem sei. E se quer ser simpática e fazer votos de qualquer coisa ao servir um jantar, diga antes “bom proveito” ou “que lhe saiba bem”. É que apetite já nós temos.”
Tomei o seu sorriso divertido (a casa estava quase vazia, entenda-se) como celebrando a minha vitória esquerdina sobre copos e cervejas. Que a piada, velha que é de anos e aprendida com um amigo, já a mim me cansa de ouvir.

By me

A alternativa




Volta e meia acontece-me precisar.
Antes de sair de casa meto no bolso do colete uma pedra que lá tenho.
Apanhei-a há já uns anos valentes e, quando estou a precisar de um caminho, ou de o encontrar, passa elas horas na mão, brincando eu com ela, falando eu com ela aquelas palavras que só os seus ouvidos sentem. E, quando a conversa se prolonga tempo suficiente, responde-se ela, da sua sabedoria. Daquela sabedoria que alguém (ou algo) tão velho quanto uma pedra pode ter.
Agora, e por força das circunstâncias, vejo-me com um objecto parecido. Terei que o carregar e “acariciar” durante uns tempos, até que os meus músculos da mão atinjam a capacidade de resposta que deles quero.
Mas só é parecido no formato e no tamanho. Que não creio que o material sintético de que é feito contenha o saber de uma pedra.
Mas, por outro lado, não sei se serei capaz de, com esta bola para fisioterapia, ter as conversas íntimas que tenho com a minha pedra.
A vantagem é que os meus colegas costumam dizer: “Cuidado que ele hoje está com a pedra!” ou Cuidado que está armado!”.
Desta bolinha não sei que poderão dizer.

By me

Complexo de invisibilidade




Já vão sendo poucos no panorama da restauração portuguesa. Poder-se-há mesmo chamar-lhes “uma espécie em vias de extinção”.
Os balcões sinuosos, com baixelas, garrafas e empregados de um lado, bancos de pé alto e clientes do outro, faziam de ponto de encontro, refeições ligeiras, ou consumo de líquidos (a granel, da maquina ou pré embalados).
Os clientes habituais das manhãs ou tardes, entre refeições, iam ocupando os bancos com um copinho ou taça pela frente, partilhando o balcão de madeira com o jornal e comentando-o com quem, do outro lado, ia arrumando talheres e pratos, ou com quem, mais ainda do outro lado e sentado de frente, ia lendo outra versão dos mesmos acontecimentos.
O facto de se partilhar a barra ou balcão com outros clientes, lado a lado ou frente a frente, se bem que quebrasse a intimidade do momento do repasto, permitia partilha-lo e às conversas, sendo frequente conhecimentos que se aprofundaram fruto desta informalidade do snack-bar.
Hoje sobraram os “open space” dos centros comerciais onde, nas horas de aperto, se vêm os comensais de tabuleiro na mão, vagueando de olhar no horizonte, em busca de um almejado lugar vago. E fecharem-se sobre si mesmo nas mesas rápidas de comida plastificada.

Nessa tarde havia tempo até ao relógio de ponto. Com alguma conversa pendente, fomos então até às lambretas, como chamávamos àquela forma de sentar nos bancos.
Era a altura de mudança de turno e nós os únicos clientes ali sentados, mesmo na curva do balcão. Era o melhor lugar, já que dali dominávamos todos os demais lugares vazios. E não tínhamos que rodar tanto a cabeça para falarmos.
Os empregados que estavam de saída empurravam-nos para os que entravam, e vice-versa. O jogo do empurra, típico do Português.
A repetida expressão “Oh faxavor!!!!” era inútil. Passavam lá ao fundo, entretidos com qualquer actividade particularmente importante como o empilhar os pratos ou dobrar os guardanapos, e o seu olhar passava por nós como por uma vidraça. Ouvidos moucos, olhares cegos e bocas mudas, tal como os macaquinhos…

A dado passo ergo o chapéu (o de chuva, que o outro não surtiria efeito), abro-o por cima da cabeça e assumo um ar encolhido e infeliz.
Rapidamente o gerente se aproxima, fazendo a gincana nas curvas do balcão, indagando o que se passava. A minha resposta foi esclarecedora:

“Estavam a demorar tanto tempo a atenderem-nos que receei que o prédio nos caísse em cima de velho. Apenas me protegi enquanto espero…”

O sorriso amarelo que lhe surgiu nos lábios apenas se igualava ao de um catraio apanhado com a boca na botija ou a mão na caixa das bolachas.
Fomos servidos de imediato e continuámos bons clientes e amigos como dantes. E nunca mais sofri do complexo de invisibilidade ali dentro.

Hoje, o balcão e as lambretas foram substituídas por mesas e cadeiras banais, de pinho disfarçado de faia.
Só se distingue dos seus iguais pelos degraus que a ele conduzem e por ainda ter em frente a montra e a porta de uma livraria.

By me

terça-feira, 27 de março de 2012

A vingança!





E se, durante cinco semanas isto me segurou apertando, dedos, pulso e braço, agora é a minha vez, c’os diabos!
Claro que tive que usar do meu “charme”, com algumas piadas e graçolas p’lo meio para que o enfermeiro me autorizasse a trazê-lo. Que há ordens expressas para que nada deste tipo de produtos, em especial os que possam ter estado em contacto com sangue, sejam trazidos pelos utentes.
Tal como fiquei a saber, por ele e pela outra enfermeira, que agora no Hospital Fernando Fonseca, vulgo Amadora-Sintra, quem lá vai não é tratado por “doente”, “paciente” ou mesmo “utente”. P’lo que me foi dito, a expressão correcta será “Clientes”.
Assim, este cliente já só ali regressa daqui por quinze dias, para verificação da recuperação muscular.
O troféu, esse, já daqui não sai, indo juntar-se à miríade de outros objectos estanhos que por aqui me ocupam espaço.

By me 

Informação no seu melhor




O título da notícia é fixe: “Formação: Aprenda a tirar partido da Internet e torne-se perito em media sociais”.
E, no desenvolvimento, ficamos a saber que se trata de uma acção de formação promovida pela FCH e que se destina a profissionais de comunicação e marketing.
No final, ficamos também a saber que existem de 20 a 25 vagas, que os formandos serão objecto de selecção através de uma entrevista com os docentes, que acontece 2 vezes por semana em horário pós laboral, num total de 24 horas de formação e que o custo total é de 990 euros.
Não sei se os formandos tirarão partido do curso. Agora que os docentes irão tirar, isso é garantido!
Tão ou mais curioso é ter sabido disto através daquilo que parecia ser uma notícia num jornal on-line mas que, na minha cartilha, não passa de publicidade encapotada.
Onde? No jornal I.

By me 

Começando por algum lado




Oiço um ministro da educação a dizer que quer aumentar o sucesso escolar, com mais alunos a passar de ano. E que, naturalmente, quem não souber, não passa.
No entanto, algumas coisas têm que ser analisadas.
Desde logo o facto de o “ir à escola”, seja qual for grau de ensino, ser obrigatório. E sabemos que nenhum jovem gosta de “obrigatórios”.
Em seguida, a enormidade de solicitações para outras coisas que a sociedade de consumo põe à frente do jovem. Ele quer ir, quer fazer, quer ser, quer ter, quer interagir, e nada disso é consentâneo como o “ir à escola”.
Por fim, temos todo o sistema que se centra no ensinar, no lugar do aprender. Como se o mais importante não fosse que os alunos aprendam mas antes o que acontece na escola, desde professores a políticas de educação, passando por equipamentos e economias de custos.
Donde, para que este ministro consiga os seus intentos – e eu espero do fundo do coração que sim – haverá que:
a) Alterar o modo de funcionamento da sociedade. Não me parece viável, bem pelo contrário.
b) Alterar a forma como o “ir à escola” é encarado, deixando de ser uma obrigação para ser algo que, realmente, apetece ao jovem fazer. Para tal haveria que, possivelmente, alterar radicalmente métodos, tornando-os competitivos com o resto da sociedade. Difícil, mas não impossível.
c) Alterar a forma como a escola se vê a si mesma, transformando-a num serviço à comunidade e aos alunos e não num sistema autofágico em que a substituição regular dos alunos é encarado como se de substituição de peças desgastadas se tratasse. Particularmente complicado, se pensarmos que isso implica alterar mentalidades em boa parte de quem está ligado à educação.

Mas talvez fosse um óptimo princípio, o retirar o arame farpado que envolve as escolas. Que o anseio por liberdade, intrínseco a todo a criança e adolescente não se coaduna com o sentir-se num redil.

By me 

Alguns vitrinistas



jogam com a luz e o espaço como se de fotografias se tratassem.

By me

Considerando os tempos que correm



não espanta que estejam murchas, as duas.

By me

Quando olho para esta parede




lembro-me sempre de um arquitecto que apagou algo do projecto original e se esqueceu de refazer.

By me

segunda-feira, 26 de março de 2012

Agora roam-se




Isto de inspiração passa, por vezes, pelo estômago. Não é novidade nenhuma.
Vai daí, e tendo hoje algo p’ra escrever, recorri a um restaurante na minha zona, com boa comida e onde sou conhecido.
Sento-me e, enquanto vou comendo, vou escrevendo. Sai-me fluído como gosto.
No entanto, e desde que aqui há um novo sócio, tenho que fazer uma pausa. Na sobremesa.
Nada há, nem mesmo a fluidez do discurso, que interrompa o prazer do palato com esta iguaria que só ali conheço: “delícia algarvia”.
Fios de ovos, amêndoa e alfarroba.
E fica a sugestão: se encontrarem um restaurante com doces feitos com alfarroba, peçam, berrem, façam birra, dêem murros na mesa, mas não descansem enquanto a não vo-la puserem à frente.
Que ele há prazeres tradicionais que não conhecer é acrescentar em um a lista dos pecados mortais.

By me 

Manias




Admitamos que a mocinha teve azar. Com tantos clientes e logo lhe havia de calhar eu na rifa.
Nunca a tinha eu visto ali, e sou cliente mais ou menos assíduo desta casa de hambúrgueres. Que, em estando bom tempo, se pode vir para a esplanada e fumar um cigarrito ainda antes de nos levantarmos da mesa.
Mas como de pequenino se torce o pepino, exactamente por ser a primeira vez que me atendia, ataquei a fundo.
Quando empurrou ligeiramente o tabuleiro na minha direcção, depois de pago e com tudo em cima, fiz uma pausa, olhei para ele, olhei para ela e, com o ar mais ingénuo deste mundo, perguntei-lhe:
“Desculpe. Tenho um aspecto assim tão porco e imundo?”
A sua pele negra ficou quase da cor dos guardanapos e titubeou nem sei o quê, que não percebi. E continuei:
“É que, sabe, não são precisos tantos guardanapos. Pelo menos para mim.” E, pegando nos dois de cima, acrescentei: “Vá, guarde lá esses.” Seriam uns sete ou oito, a olho.
Guardou-os sob o balcão, enquanto argumentava:
“Ah, sabe, é o hábito…”
“Pois, mas não passa de desperdício. Veja bem quantas folhas de árvore acaba de poupar!”
E segurando com a mão boa o tabuleiro, enquanto o apoiava na outra, afastei-me. Não sem antes ter visto, pelo canto do olho, que a colega dela na caixa do lado sorria, porque não poderia rir francamente. É que já me conhece há anos e, isso já eu reparei, é bem mais comedida no fornecer os benditos guardanapos. Não apenas a mim com também aos demais clientes. Talvez que tenha aprendido com uma tirada minha equivalente, quando me atendeu pela primeira vez.
Isto da ecologia e coisa e tal não pode ser apenas no discurso. Tem que ser nas práticas também. Ou principalmente.
E se eu não sou nenhum santo e cometo os meus pecados, nalgumas coisas não arredo pé.
Manias!

(Nota extra: comi o hambúrguer, e mais as batatas, e mais a cola, e mais o gelado, e só usei um guardanapo.)

By me

Reflexos do passado




Em tempos idos era assim:
Só se via roupa pendurada à janela à segunda ou terça-feira. Nunca aos Domingos.
O motivo é mais ou menos simples: Domingo era dia de festa semanal, o dia da família, o dia de missa, o dia em que se não trabalhava, o dia de usar roupa “domingueira”, a melhor que se tinha.
Mas aos outros dias, o homem saía para trabalhar, as crianças saiam para a escola e ficava a mulher em casa, cuidando das suas lides, incluindo a lavagem de roupa. Que a mulher queria-se em casa, com os trapos e as panelas.
Mudaram os tempos e mudaram os hábitos.
A mulher agora trabalha, dias úteis ou inúteis como o homem, domingos incluídos. A roupa, e as demais tarefas caseiras, fazem-se quando é possível, depois do horário de trabalho, ou mesmo ao Domingo, dia de folga laboral se o for, mas só por conta de outrem, que a casa não tem nem patrão nem horários.
A roupa à janela é assim visível, nos bairros típicos ou nos dormitórios suburbanos, a qualquer dia ou hora.
Mas os tempos continuam a mudar e, com eles, os hábitos.
O desemprego, que atinge quase todas as classes sociais e que é bem notório nos dormitórios, faz regressar velhos costumes. E, com eles, o guardar o Domingo para as cerimónias religiosas, clubístiscas, familiares ou outras. E a mulher, a mais atingida pelo desemprego, regressou ao lavar a roupa à segunda-feira, tentando que o Domingo, se for folga do homem, seja mais ameno no que toca a tarefas domésticas.
Há quem diga que a História funciona em ciclos, repetindo-se. Seria bom que só se repetissem os hábitos escolhidos e não os impostos!

By me

Circo de rua




O homem até tinha um número de rua engraçado, com uma excelente capacidade de interagir com quem estava ou passava.
Parabéns p’la actuação!
Não lhe perdoo é ter-me ficado com o isqueiro que andou a solicitar aos espectadores.
Bem que eu e outro andámos a chafurdar lá no saco onde ele o guardou, mas não o encontrámos.
Pergunto: que fará ele com aquelas mais de duas centenas de isqueiros descartáveis que ali tinha?

By me

Café sem tempo




Eu gosto de usar relógio de bolso.
Não me sinto com algo a prender-me, que sempre detestei, não me acelera o envelhecimento das camisas, costumam ser bonitos e, acima de tudo, sendo de mais difícil acesso, consulta-se menos vezes. E o tempo parece correr mais facilmente na sua própria velocidade.
Acontece que todos os que tenho são de quartzo. E, por puro desleixo, fui deixando esgotarem-se as pilhas e não as fui substituindo.
Levou-me isto, por pura preguiça, a andar nos últimos tempos com um relógio de pulso. Um mais que clássico Seiko 5, fiel como poucos mas… de pulso.
Agora imaginem que fará alguém que usa relógio de pulso e tem uma mão inutilizada que não lhe permite fechar a correia do relógio.
Resta-lhe, nos tempos que correm, não usar nenhum sistema específico para medir o tempo e recorrer ao já convencional relógio do telemóvel. Que dá trabalho e não me agrada.
A minha alternativa é ir consultando, por pura preguiça, os relógios que ainda vamos encontrando na via pública e nalguns estabelecimentos comerciais. E há um tipo de lojas que tem sempre um, algures colocado na parede e, em regra, oferta de uma empresa de algum tipo de bebida: cafés e pastelarias.
Mas eis que dou comigo numa excepção: esta! A pastelaria Néné, ao fundo da Rua Augusta, em plena baixa de Lisboa.
Tinha eu um encontro com hora marcada e estava adiantado. Entrei aqui para um café, pacato e banal. Enquanto mexia a chávena, procurei pelo relógio. Nada! Rodei várias vezes em torno de mim mesmo, vasculhando cada pedacinho de parede, incluindo entre expositores, na vã tentativa de encontrar o clássico. Nicles. Coisa nenhuma. Não havia relógio na parede!
Paguei (note-se que aqui, local de turistas e afins, um café ao balcão custa 55 cêntimos!) e preparava-me para sair quando descobri onde estava o medidor de tempo.
Dentro daquilo a que chamamos, em calão profissional, a “mosca”, no canto inferior direito de um ecrã de TV, sintonizado numa estação de notícias.
Daquelas invulgaridades pelas quais só se dá quando: a) se tem o meu ofício; b) se é curioso; c) se fica com um braço ao peito; d) se é preguiçoso e teimoso.
Recomenda-se o café/pastelaria Néné.

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domingo, 25 de março de 2012

Trocas fotográficas (ou trocas de luz)




Não gosto eu de aqui deixar público o que recebo nas “Trocas Fotográficas”.
Por uma lado, mostraria o quão este “negócio” me é proveitoso.
Por outro, correria o risco que ferir alguma susceptibilidade em deixando algum dos itens de fora.
Este será um caso de excepção, já que me foi feito um pedido explícito para que mostrasse o resultado.
Aqui fica o trabalho feito de propósito para as “trocas” usando imagens “surripiadas” do que eu mesmo vou publicando.
Agora digam lá que se não fico a ganhar com a coisa. 

No news are good news




Neste meu absentismo forçado tenho-me mantido tão afastado das notícias televisivas quanto possível. Até porque “já basta o que basta”.
Mas, antevendo-se para breve o regresso às lides, achei que deveria voltar a tomar a minha dose regular de informação televisiva, mesmo que doméstica, à guisa de profilático.
Ligo o aparelho e já a função se tinha iniciado. Não estava preocupado, que a abertura e respectivo desenvolvimento sabia-o (ou desconfiava-o) eu.
Aquilo para que não estava preparado foi uma “notícia de última hora”, sem imagens: o pivot a olhar directamente o espectador todo o tempo do texto.
E fiquei a saber que tinha acontecido um acidente mortal em Loret del Mar, Catalunha, com um jovem português de 17 anos. Que não havia dados de nem como nem da identidade da vítima e que as autoridades portuguesas na região estavam a acompanhar o caso. E que a cidade em causa é uma destino privilegiado para jovens em férias. Fim da notícia.
Consigo imaginar a quantidade de famílias portuguesas, com jovens agora nesta cidade, que entraram em pânico, correndo para os telefones na tentativa de saber do estado de saúde do seu parente.
Não teria sido possível ter sido adiantado na notícia lida que a família já estaria ao corrente e, com isso, evitar toda a confusão e apreensão?


A frase é de Eduardo Mazo, poeta e filósofo Argentino, radicado nas Ramblas de Barcelona. Mas é perfeita:
“O que mais gosto em televisão são os pássaros nas antenas!”

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O olhar de um Mestre




Sou um tipo cheio de sorte!
Ao longo dos anos a vida tem-me feito cruzar com alguns Mestres, que me fizeram o especial favor de me incluírem na sua convivência.
Não me refiro aos que muito sabem e fazem. Nem me refiro aos que muito sabem e fazem e que procuram que os demais o saibam e façam. Esses são muitos e mais ou menos fáceis de encontrar.
Refiro-me àqueles bem mais raros que fazem questão que aprendamos o nosso próprio caminho. Àqueles que dizem: “Olha! Eu vejo assim! Mas não faças assim. Faz de acordo com o teu próprio olhar.”
E eu, que ainda procuro o como saber fazer, tento não esquecer esse ensinamento que é, porventura, o mais importante de todos.
Este é o olhar de um deles.
Obrigado!

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Em que pensas...






... enquanto olhas quem passa?


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Escolhas




Éramos seis. Cinco assumiam-se como fotógrafos. Três assumiam-se como ateus ou agnósticos. Dois assumiam-se como amantes de Pentax.
E já perto do fim da tarde encontramos a figura ímpar:
Barba branca e grande, com dois cães por perto, sentava-se no chão junto a uns cartões com dizeres, cada um com o destino que seria dado à esmola que aí fosse deixada. Uma imitação do que uns outros, mais abaixo e em dobrando a esquina, vão fazendo faz tempo.
Goês, exprimindo-se em Castelhano e Inglês, tinha esta camisola vestida com isto por cima. Soube dizer-me de todas as características e modernidades da câmara e soube apontar-me a loja onde poderia eu saber sobre o novo modelo desta marca e deste género, saído há pouco para o mercado.
E enquanto ia passando as imagens em busca de uma em especial para me mostrar, pude ver que a grande maioria eram de flores.
São escolhas, nada mais.

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O aloquete




Quem quer que use isto sabe o que está a fazer.
Um bom cadeado, preso num puxador de uma porta, segurando um bom cabo de aço. Não pode haver dúvidas que o dono da chave quer ter a certeza que o que está na outra ponta do cabo não é levado.
E é normal encontrarmos disto garantindo a segurança de motos. Motões ou motociclos. Também não é incomum vermos bicicletas assim presas.
O que já nada tem de comum é vermos cadeados com esta robustez com um cabo desta qualidade num recanto da baixa Lisboeta a garantir que não são roubados os parcos haveres de alguém a quem hoje chamamos de “sem abrigo” e que em tempos eram conhecidos por “vagabundos”.
Talvez que quem viva de perto com esta realidade não ache estranho. Mas para mim, classe média em descida vertiginosa, deixa-me surpreendido.
Do que mais lá estava não fiz registo. Seria como que, à revelia do saber do seu dono, fotografar o interior de uma habitação. E a obtenção de troféus fotográficos tem limites que a ética me impede de ultrapassar.
Fico-me assim a pensar na ilusão na minha própria fechadura, atrás da qual guardo a futilidade da minha câmara, dos meus livros, do meu computador, das minhas panelas, da minha cama, da minha banheira, da minha vida…

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sábado, 24 de março de 2012

A luz ao fundo do túnel...



... merece sempre ser fotografada.

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Um olhar - Victor



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Mesmo em pleno Chiado






também os há abandonados.


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Escritas com... luz




Dizem os especialistas que a fronteira entre a pré-história e a história é a invenção da escrita.
A utilização de caracteres, ideográficos ou fonéticos, que são igualmente entendidos por uma comunidade ou povo.
Conhecemos de cor os nomes de algumas: “Cuneiforme”, “Hieróglifos”, "Romana”, “Árabe”, “Chinesa”, “Cirilico”, e tantas outras.
A forma como esses caracteres se espalham pelo espaço ou superfície é particularmente interessante. A forma como se unem, como são mais angulosos ou curvilíneos, como se alinham por uma linha superior ou inferior, o sentido como são escritos e lidos, se correspondem a sons ou ideias…
A tudo isto acrescente-se a “arte” da caligrafia, do desenhar manualmente esses símbolos, reflectindo em parte o apuro do seu autor, a fluidez e organização das ideias, o instrumento usado…

A invenção da imprensa, se veio democratizar o acesso à leitura e à cultura, veio também diminuir um pouco o desenvolvimento dessa “arte” da escrita e da caligrafia.
A máquina de escrever acelerou o processo e o uso de computadores pessoais está a dar o golpe de misericórdia na caligrafia.
O acto de escrever manualmente está a morrer e ver alguém com papel e caneta que não seja um estudante já começa a ser um episódio raro.
E se no PC existem diversos tipos de caracteres disponíveis (dezenas ou centenas), raros são os que escolhem uma, deixando-se levar por aquelas que, por defeito, são seleccionadas pelos processadores de texto. Indo ainda mais longe, o uso da Internet é bem mais redutor no que a caracteres diz respeito já que o leque dos disponíveis é ainda mais reduzido.
De uma forma ou de outra, vamos ficando balizados com a aldeia global, diminuindo cada vez mais a possibilidade de nos afirmarmos como indivíduos.

E se a escrita com caracteres está assim a evoluir, o mesmo sucede com a escrita com a luz – a fotografia.
Tratando-se de escrita, a sua feitura e leitura estão condicionadas pela cultura onde se insere. Temas, sentidos de leitura, gestão de espaço, etc. Mas também aqui, e mais uma vez, a globalização vem estreitando a forma como é feita e lida. A imposição de grelhas nas páginas web, formatos, resoluções, “peso” dos ficheiros, panóplias de cores, etc., estão, lentamente, a diminuir, cercear a liberdade criativa dos autores, que vão usando este já não novo meio de comunicação para exibirem e divulgarem os seus trabalhos.
Para já não falar de como pode ser igualmente redutor a padronização de sistemas e tecnologias na fotografia animada – Cinema e TV.

A título de exemplo de como é possível, apesar de tudo, fugir a estes standards da globalização, sugiro que se veja o filme Yi-Yi, palma de ouro de Cannes, 2000.
Observe-se como o seu autor, usando todo o enquadramento rectangular e horizontal típico do cinema, conseguiu fazer enquadramentos verticais, no que à acção diz respeito, típico da sua cultura original.
Do meu ponto de vista, é um daqueles filmes que deverá fazer parte da filmoteca pessoal e de referência de qualquer um que se interesse seriamente sobre a escrita da luz!
Recomenda-se!

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As aspas fazem a diferença



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sexta-feira, 23 de março de 2012

A pergunta




E quando me perguntam, nem sempre com um sorriso, “Mas onde é que tu tens a cabeça?”, respondo eu:
“Lá em casa, a fazer de modelo!”

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Iluminando




Cada fotógrafo regista o que mais lhe agrada ou salta à vista.
Para uns é o instante, para outros é a paisagem, para outros ainda são os detalhes…
Em regra, ajustam o seu equipamento em função deste gosto: a rapidez de focagem, os ângulos cobertos, as sensibilidades, resoluções, aberturas…
E, quando se juntam e “gabam” o que usam, vem a lume as câmaras, as objectivas, os tripés, os filtros…
Mas raro é ouvir falar naquilo que produz a matéria-prima que usamos para fotografar: luz.
Eu sei que uma grande maioria das imagens produzidas são feitas usando a luz existente: sol ou artificial. Mas mesmo nestes casos, raro é falar-se da melhor hora solar para fotografar, se com o sol em cima ou baixinho, se a descoberto se tapado por nuvens ou mesmo em zonas naturalmente contrastadas.
Menos ainda se ouve falar (ou lê nas descrições do fazer das imagens) que tipo de luz foi usado quando artificial. Se flash se continuo, quantos e com que potências, posicionados como. Ou que suportes, que tipo de palas, que tipo de difusores, que tipo de filtros, que tipo de energia.
Por mim, que tanto gozo me dá trazer para casa um “troféu” apanhado na rua como construí-lo de raiz debaixo de telha, é a luz – por vezes mais que as circunstâncias e os assuntos – que me fazem decidir se primo ou não o botão.
Debaixo de telha, e decidido o conteúdo, a minha primeira preocupação é – sempre – de onde vem a luz. De cima, de baixo, de frente, lado, trás, se existe uma janela, porta ou candeeiro imaginário, se tento recriar uma situação, se quero contraste ou antes pelo contrário… e coloco a primeira fonte de luz.
Umas vezes luz continua, se tenho assuntos muito polidos e reflexos complicados para controlar, as mais das vezes flash, que sempre me evitam cabos e acabam por ser de menores dimensões.
Depois… bem, depois é controlar sombras, criar volumes, espaço, profundidades, nuances.
É nesse jogo de conceber aquilo que não está lá que acabo por gastar a maior parte do tempo. E ter o maior gozo.
Fica a pergunta provocatória, para os que levam a fotografia um nico mais longe:
Sendo a luz a matéria-prima do fotógrafo e a perspectiva a sua ferramenta, gastam mais tempo com a primeira ou com a segunda?


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Limites?



Onde?

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Caído




Este não foi jogado fora, que eu sei.
Caiu de uma janela, onde estava o seu par a secar.
Deixei este arrumadinho junto às campainhas do prédio.

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25 minutos




É o tempo que demora a encher um expositor destes com os mais que difundidos chupas.
Ele há trabalhos…

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