quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Papa-açorda



Todos os ofícios têm o seu quê de rotineiro. Mesmo os mais criativos, no quotidiano têm rotinas, actos ou métodos que são iguais em cada dia, em cada truque.
Mesmo um actor, dos que trabalham na rua interagindo com o público e dele dependendo para a sua perfomance, tem rotinas, deixas, gestos, reacções que são previsíveis porque iguais e repetidas. Já tive oportunidade de ver alguns a representar e, passado algum tempo e por muito bons e divertidos que sejam, acabamos por saber o que irá fazer com este ou aquele transeunte, o que lhe irá dizer, de que forma o irá mimar ou provocar. E trata-se de uma actividade bem criativa, onde o improviso é, em boa parte, a chave do sucesso.
O invés também é verdade. Por muito rotineira que possa ser uma profissão, há sempre oportunidade de se ser criativo, inovador, marcar pela diferença no que é feito. Quantidade, qualidade, perfeição. Querer e conseguir ir mais longe e melhor, nem que seja pelo simples, se simples é, de fazer de cada dia um diferente, competindo consigo mesmo e conseguir surpreender-se com os resultados.

Um destes dias tive uma dúvida de trabalho. Aquilo que venho fazendo faz algum tempo é ligeiramente diferente do que os meus companheiros fazem. É só um niquinho, mas é diferente.
Nestas circunstâncias sou assaltado por dúvidas: sei justificar o que faço mas, sendo diferente dos demais, estarei a fazê-lo bem feito? Ou estarei a cometer sistematicamente um erro?
Para tirar estas dúvidas (e criar novas, em regra) o melhor mesmo é trocar opiniões com companheiros de ofício. Ventilar ideias, criar conclusões, nem que sejam que estamos todos certos, ou todos errados, e que a diferença não é nem boa nem má.
Pois de um dos que consultei recebi como resposta que preferia a outra solução. E, questionado sobre o porquê da preferência, deixou-me esclarecido a seu respeito:
“Foi assim que me ensinaram!”
Emitir uma opinião com base no “sempre assim se fez” é mau! Denota incapacidade de ponderar, evoluir, mudar, procurar algo de melhor que, quanto mais não seja, possa não ser rotineiro.
Mas dizer “foi assim que me ensinaram” em vez de “foi assim que aprendi” é um transpor de responsabilidades, é um assumir não ter opinião própria, é um aceitar que faz o que faz apenas como imitador dos restantes, pouco lhe importando a validade do que está a ser feito.

Este exemplo, lamentavelmente real, é apenas mais um no meio de tantos outros que podemos encontrar a cada passo: o alijar de responsabilidades, o dar continuidade apenas porque é tradição, o não aceitar nem nada fazer em prol da inovação, da evolução. E o conformar-se com uma rotina cinzenta e entediante. Ser-se estático na vida!
Um pouco como uma refeição tomada num restaurante franshisado: tanto o conteúdo da ementa como paladar do que engolimos, não nos surpreende, nem pela negativa nem pela positiva.
Uma papa-açorda sempre igual, até ao tédio final!


Texto e imagem: by me

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