terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um olhar sobre o olhar


Foi coisa que sempre tive pudor em fazer: fotografar um cego.
Como diabo se pede a alguém para fazer algo que não poderá saber o que é?
Já me é particularmente difícil fotografar alguém sem o seu conhecimento e consentimento. Para além das eventuais questões legais, que as há, sempre se me pôs a questão de, ao fazê-lo, estar abusivamente a entrar na intimidade do fotografado. Mesmo que na rua, mesmo que no meio de uma multidão, existe uma privacidade, um recato que há que respeitar.
Agora fotografar um cego? Não apenas se me afigura muito mais difícil, como nem sequer sei como lhe pedir para tal!

Esta questão, que sempre me incomodou um niquinho, tomou proporções bem maiores nas últimas trinta horas.
Nestes dois dias usei, para o regresso a casa, uma estação de caminho de ferro que nunca uso em início de tarde. E, curiosamente, em ambos os dias, dou comigo a auxiliar cegos, meio perdidos naquela confusão de uma grande estação, com inúmeras escadas e acessos. Auxiliei-os nas suas necessidades imediatas, bem como nas seguintes, acabando por os conduzir a pontos ou lugares bem para além ou ao lado dos meus próprios trajectos.
O que me permitiu manter alguma conversa com eles (dois homens ontem, uma senhora hoje) e que, em circunstâncias normais, poderia acabar com um retrato ou um “olhar”.
Mas, apesar desse contacto de quase uma hora cada, sempre estive com pudor em lhes propor semelhante coisa. Como diabo se lhes pode pedir para fazer uma coisa que eles mesmos não sabem o que é, nem virão a saber?

Se eu fosse pessoa para acreditar num destino pré-concebido, até poderia pensar que estas duas situações incomuns e fortuitas para mim, em dois dias consecutivos, seriam alguma premonição para o fazer. Mas não sei se, amanhã tropeçar noutro cego, terei a coragem ou o atrevimento para lho pedir.

E não! Na imagem não está um cego, ainda que use óculos para ver melhor. Apenas o olhar de um amigo que gostaria de ter agora por perto para lhe perguntar que faria ele nestas circunstâncias.


Texto e imagem: by me

Segurança


Foi há uns dias.
Liguei o televisor num desses canais temáticos e foi mesmo a tempo de apanhar o fim de um programa. A voz masculina que se ouvia afirmava, em tom apocalíptico, que devemos usar as tecnologias para vivermos em segurança contra o terror.
Mudei de canal para um outro que nos mostrava uns quaisquer animais que, com a tranquilidade secular, comiam, trepavam às árvores e cuidavam das crias.
É que tenho para mim que esse tal terror se diverte à brava com as tais medidas de segurança da tecnologia – vigilância, inspecção, suspeição – já que elas, as medidas, mais que garantirem a segurança de quem nelas confia, alimentam o tal estado que o terror deseja: medo.
A cada passo que damos, em cada palavra que proferimos, por cada pensamento que temos, ficamos sempre com a sensação que o terror deles se poderia aproveitar contra nós, mas que os vigilantes, que cada vez mais tudo conseguem saber e sobre tudo conseguem agir, nos garantem que podemos estar descansados que eles nos protegem.
E vamos dando graças por eles, os vigilantes, lerem a nossa correspondência, escutarem as nossas conversas, espreitarem os nossos gestos escrutinarem as nossas bagagens. E os nossos medos, assim alimentados e assim tranquilizados, mantêm-nos na dependência deles, dos vigilantes, para gáudio do tal terror.
Que já nada precisa de fazer, que nós mesmos nos encarregamos de nos aterrorizar.
Paulatinamente vamos cedendo na nossa privacidade, na nossa condição de indivíduos autónomos, capazes de decidir das nossas vidas, em prol de uma sociedade castrante e castrada, qual rebanho que deixa os cães morder as canelas, conduzindo-nos para um redil gradeado e farpado.
Cada vez mais tenho a certeza que os tais do terror vestem fatinhos caros, falam para as câmaras e assinam decretos.

Texto e imagem: by me

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Expliquem-me


Alguém é capaz de me explicar, mas muito bem explicadinho, como se eu fosse muito burro…
… porque raio andam as mulheres de agora com esta moda de ter o peito do pé e o tornozelo tapado, deixando o resto a descoberto.
Com o calor que está e tem estado, não creio que consigam ter as extremidades dos membros inferiores mais frescas que com convencionais sandálias, chinelos, socas, etc.
A menos que as actuais modas definam o tornozelo como o expoente máximo do erotismo. Se assim é, recordo que já foi moda, em tempos recuados e não tanto. Tal como a barriga da perna, o joelho, a coxa ou mesmo parte das nádegas. E todas estas seriam bem mais frescas que este tipo de calçado.
Digam-me lá o que se passa, mas como se eu fosse mesmo muito burro!


Texto e imagem: by me

O boné


Se fosse um guarda-chuva e estivéssemos no inverno, certamente que há muito teria desaparecido.
Se fosse um casaquinho de malha e estivéssemos no Outono, também teria levado sumiço rapidamente.
Que as pessoas se esquecem do tempo que faz e não esquecem uma oportunidade para corrigir os seus esquecimentos.
Agora um boné, em pleno verão e na cantina de uma empresa de alta tecnologia e bem no centro de uma capital europeia…
Excepção feita a alguns, por velhos hábitos, ou a outros, para se afirmarem em grupos, quem anda de cabeça tapada? Mais para mais com este modelo de boné.
Espero bem que o seu dono, que aqui o esqueceu há umas semanas, continue de pé e de cabeça erguida, apenas lamentando o já não ter cabeça para se lembrar de onde o esqueceu.

Texto e imagem: by me

Velharias


Ainda que possa aparentar o contrário, tanto estas letras aqui pintadas são originais como a fotografia foi feita agora.
E, a menos que esteja enganado, estas letras estão aqui pintadas desde 1975, ou parecido. Uma velharia para um graffity, convenhamos.
O que me leva a perguntar se o dono deste prédio, ali em Benfica, será coleccionador ou comerciante de antiguidades e estará a guardar esta pintura com intuitos de a vender por bom preço.

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domingo, 29 de agosto de 2010

Viagem

Melhor que chegar ao destino, é fazer a viagem!


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Um retrato e o seu olhar

Raquel



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Na paragem de autocarro

Estação de benfica






Manhã de Domingo


Só mesmo uma manhã de Domingo, em Agosto, para se ver esta avenida do meu bairro, a 2ª mais importante, vazia desta forma.
Talvez ajude o ser 8 da manhã e o nevoeiro, que nesta zona se manifesta por dá-cá-aquela-palha, não augurar um dia de sol. Mas só mesmo para os incautos, que os conhecedores sabem que é “nevoeiro de pouca monta” e que, cedo, se irá com o calor que antecipa.


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Proibições


Alguém perdeu as estribeiras com as proibições que super-abundam nos tempos que correm.
Não! Desta feita não fui eu!

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sábado, 28 de agosto de 2010

Na paragem de autocarro

Av. Gomes Pereira


Aviso


Este aviso, categórico, inequívoco e, suspeito, de pouca legalidade, encontra-se na entrada da Vila Visconde de Santo Ambrósio, ali para os lados do Largo do Rato, em Lisboa.
Considerando o seu bom aspecto, bem como a grafia usada, estou em crer que será recente, ou no seu intuito original ou na sua recuperação.
Pergunto agora se, nos tempos que correm e no local em causa, ainda será necessária esta proibição tão completa.
A menos que algo se me escape, sobre a cidade no seu todo ou sobre este bairro em particular.
Que, e para além de algum esporádico “2 cavalos”, não tenho visto nada que se assemelhe a tracção animal recentemente.
A menos que se refiram às patrulhas montadas da GNR. E, nestes casos, nem são veículos nem cabem no baixo arco que lhe dá acesso.
Fica a curiosidade.

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Pôr-do-sol urbano

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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Fantasmas no Jardim

Sabemos que a fotografia é o registo de um instante.
Mas será que podemos fotografar o passado, os fantasmas que povoam o local?
Este é um ensaio sobre o tema!


Na paragem de autocarro

Largo da Estrela



Questão pertinente


Pergunto-me como será admissível que quem conduz este carro, com estes dizeres nas laterais, o estacione desta forma, impedindo ou dificultando a passagem dos idosos ou de quem tenha dificuldades de locomoção.

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Pitéu


Apetecível? Eu também achei!
Mas, passado um pouco, pensei que os meus sentimentos iniciais tinham pecado por defeito. É que o paladar excedia em muito o que os olhos ou as narinas me diziam.
Onde? No restaurante esplanada do Jardim da Estrela.
Boa comida, com uma apresentação incomum para o local, a preços mais que convidativos e usufruindo da frescura que velhas árvores proporcionam.

Nota extra: começo a ficar um viciado no uso da velhérrima 50mm. Voltar a brincar com uma focal fixa dá mesmo muito gozo!

Texto e imagem: by me

Na paragem de autocarro

Estação Entrecampos


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Um graffity


Terá esta mensagem clandestina alguma coisa relacionada com a sede de um partido político que está lá mais atrás?

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O regresso às aulas


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Na Av do Brasil


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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Na paragem de autocarro

Poço Cortes, Lisboa




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Kitty Litter (original) aka 'Mary Bale' Women throw's cat in to a wheeli...

Um olhar - Denise


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Três gerações - Três continentes


Chegaram, mãe filho, este ao colo dela. Aliás, teria que ser assim se para trajectos maiores, que o pirralho era tão piquinino que o seu andar pouco mais era que pôr um pé à frente do outro para não cair.
Falámos um pouco e fizemos a fotografia. E quedámo-nos na conversa, mesmo depois da função terminada.
O pequenote, esse, é que pouco se interessou no que dizíamos. Partiu para descobrir novos mundos, na imensidão de uns dez metros em redor. E, sendo o seu caminhar o que era, cedo caiu.
À distância a que estava, a mãe constatou que nada de grave acontecera. Tal como eu. O minorca, estendido ao comprido, de barriga para baixo, olhou em redor, sem choro ou beicinho, verificou a proximidade da mãe e lá se levantou para mais uma caminhada. Que acabou em queda de igual gravidade.
Afinal, é assim que aprendemos a caminhar, caindo, levantando-nos e continuando. E aprendendo como usar o que temos e onde e como pôr os pés.
A sua inexperiência era tal que, passado pouco, ei-lo de novo no chão.
A mãe, estrategicamente colocada na nossa conversa, ia verificando o resultado das quedas, ao mesmo tempo que se certificava que o seu trajecto não coincidia com o das bicicletas, skates ou patins que por ali pululam. Estava tudo controlado e tranquilo.
Quem assim não pensou foi uma velhinha, com ar de avó tremida mas extremosa, que à terceira queda do aprendiz de caminhante, achou que era demais.
Levantou-se do seu banco de jardim e, com uma dificuldade em caminhar equivalente à da criança, abeirou-se dele e levantou-o do chão. Regressando de seguida ao seu lugar sentado, não fora ser este selvaticamente ocupado por algum dos muitos outros idosos do jardim.
Pouquinho tempo depois, a cena repete-se: o pimpolho cai, a velhinha levanta-se e levanta-o e regressa ao seu repouso. Tudo sob o olhar vigilante da mãe, que ia cavaqueando comigo, à beira da minha câmara e tripé.
À terceira a coisa foi diferente: Depois de levantar o pequeno, que continuava sorridente como sempre, caminhou para nós com ele segurando-lhe o dedo. E a sua expressão advertia das advertências que haveria de dar à mãe “descuidada”.
Nada ouvi, que se encontraram a meio caminho, com troca de dedo agarrado. Trocado por calças, à altura dos joelhos, quando regressaram para junto de mim.
Com um sorriso, disse-me ela que este era um dos motivos para gostar do Jardim da Estrela: Fora aqui que ele dera o seu primeiro passo e era aqui que estava a aprender a andar. Bonito de ouvir!
Como que inspirado na conversa, o rapazinho afastou-se caminhando, de novo em direcção ao local onde a boa da velhinha continuava sentada. E a mãe, continuando a sorrir e fazendo contrastar o tom dos dentes com o da pele, acrescenta: “É melhor ir busca-lo antes que ela venha cá de novo!”
E foi, regressando ele ao colo e com a mãozinha esticada para a pelagem branca que me cresce no queixo e cara.
Quando, passado um pouco, se foram de vez, fiquei pensando que, na verdade, a melhor forma de aprender é ir caindo até aprender a coisa. E aproveitar a pequenez da altura para que as quedas sejam pequenas e pouco dolorosas.
Acontece, porém, que há sempre uma avozinha, cheia de boas intenções, que se intromete e tenta mudar o curso natural da vida. E que, ou bem que já se esqueceram que foram crianças e mães, ou bem que mais nada lhes resta fazer que interferir na vida dos outros, queiram ou não eles que isso aconteça.

E quem é que está na imagem? Pela certa que não se esperaria que eu aqui mostrasse os intervenientes neste episódio em torno do meu “Oldfashion”!
Em alternativa mostro este retrato. Que em comum com a estória apenas tem o local onde foi feito e minha câmara de madeira. Que a estória falou de três gerações e aqui mostro a Ana, vinda de um terceiro continente.
É que o Jardim da Estrela é assim como que um centro do mundo, onde de tudo acontece e onde de tudo converge.


Texto e imagem: by me

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

É inutil


Já não adianta mesmo pedir ajuda aos anjinhos!
Pois se, quando olhados de repente, os vemos neste estado…

Texto e imagem: by me

Um olhar - Maria Carruma


Não me importo com o que faz na vida: arrumar carros, camiões ou petroleiros.
Ainda que nem sempre se enquadrem na categoria de “esteticamente perfeitos”, desde que me cativem e eu tenha oportunidade, fotografo-os.
Mesmo que seja em troca de um pedido de cigarro ou que tenha que ser a correr, que o companheiro, que está lá ao fundo, pode não gostar.
Depois… Depois vem a pergunta sacramental: “Mas porque é que quer fotografar os meus olhos?”, ao que respondo, sempre sem mentir: “Porque gosto de fotografar coisas bonitas e os seus olhos são muito bonitos.”
O sorriso, ainda que desdentado e encimando uma barriga publicitariamente destapada e já notoriamente grande, foi genuíno. Breve mas genuíno!
Por uns momentos Maria Carruma voltou a ser Maria Bonita. E a carícia que fez no seu ventre repôs os dentes em falta, limpou-lhe as roupas, penteou-lhe os cabelos.
Depois… Depois veio um cliente e ela correu, que há que estar por perto ou não lhe pagam.

Texto e imagem: by me

domingo, 22 de agosto de 2010

Graffity lacónico


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Out Jazz 2010, Agosto


Gostam de Jazz? Á borla, ainda por cima?
Gostam de água e de ver barquinhos a passar?
Gostam de bom tempo e de usufruir dele, do cenário e da música à sombra de grandes guarda-sol ou de vetustas oliveiras?
Pois tivessem ido ao jardim da Torre de Belém, onde decorreu mais um OutJazz, o penúltimo neste local, este ano.
Para o mês que vem será no Jardim do Palácio das Necessidades, também em Lisboa e igualmente de borla, todos os domingos, sempre pelas 17 horas.

Texto e imagem: by me

Num Fast-Food


Faço o pedido. Vem a bebida. Chegam as entradas. Trazem o prato principal. Mas… Faltam os talheres.

Olhando para um lado e o outro, em busca de uma solução em auto-suficiência, acabo por recorrer a um expediente. Arriscado e de consequências não muito previsíveis.
Jogando a mão ao cinto, saco do canivete suíço. Com um gesto rápido de hábito antigo e um clic mais que conhecido, abro-o e empunho-o.
Obedecendo como que a uma batuta de aço, as conversas em redor baixam de tom ou silenciam-se, alternando com exclamações abafadas de espanto. Algumas cadeiras arrastam-se no chão.
Primeiro com o olhar, depois com um gesto da mão esquerda, livre, chamo a atenção de um dos empregados, que se aproxima hesitante. Em tom baixo, adequado à privacidade da situação, digo-lhe:

“Posso usar a minha própria ferramenta, mas creio que seria bem mais fácil se me arranjasse um garfo e uma faca.”

Endireitou-se de imediato, as faces recuperaram a cor e, acto contínuo, dirigiu-se a uma gaveta, num armário ali perto. A uma distância respeitosa, dois empregados e uma empregada observavam o que se passava. Ela com um discreto sorriso nos lábios, que já me conhecia.
Depois de uma curta viagem por outras gavetas e por uma mesa já pronta, o rapaz que me atendia regressou com os talheres em causa, entregando-mos com um pedido de desculpas titubeado.
Ao recebe-los, fechei o canivete com o seu ruído característico e ouviu-se, em jeito de surround, um coro de alivio e o retomar das conversas e barulhos de baixela.
E o resto do jantar decorreu com normalidade, com as pseudo pratas-da-casa.

Não acredito que, naquela casa de pronto-a-comer, se tornem a esquecer de ter as mesas prontas.
Não vá dar-se o caso de eu passar por lá de novo!
Nem me esqueço do sorriso divertidíssimo da empregada que, aquando da minha saída, me piscou o olho, cúmplice.


Texto e imagem: by me

Libelo


As actuais estruturas de ensino são, na sua essência, desonestas!
Violenta a afirmação? Eu explico:

Diz-se que o aluno (estudante, aprendiz) deverá sair da escola com um conjunto de saberes e competências bem definidos. Durante todo o percurso escolar, é o aluno (estudante, aprendiz) submetido a avaliações sobre essas aquisições, onde lhe vai ser dito se se ficou pelos mínimos, se aquém ou além deles. Se passou, se ficou num dos lugares cimeiros ou se chumbou.
Mas o papel do professor não é ensinar. Não é, do alto da sua cátedra, despejar o conhecimento, usando para isso técnicas standard, e esperar que tudo isso tenha ficado na cabeça dos alunos (estudantes, aprendizes).
O standard, o padrão, as medidas e técnicas universais são funcionais quando falamos de parafusos ou barris de petróleo. Ao entrarmos no campo do ser humano, existem tantas medidas e padrões quantos os indivíduos considerados. E a capacidade de aprender de cada um é tão diversa quanto uma estrela de outra.
Daí que, e para que os alunos (estudantes, aprendizes) obtenham os saberes e competências previstos, há que trabalhar com cada um deles enquanto individuo e não com cada um deles enquanto elemento de uma turma ou sistema de ensino padrão.
É assim que o professor não deve ensinar mas antes ajudar a aprender. Usar do tempo e esforço necessários e suficientes para que cada aluno (estudante, aprendiz) não se fique pelos mínimos mas antes atinja o pleno. Porque é para tal que lá estão e é isso que esperam. Aprendiz (aluno, estudante) e professor.

A avaliação, enquanto elemento do processo de aprendizagem, é importante, mas perigosa.
Nos moldes actuais, mede as competências adquiridas pelos estudantes (alunos, aprendizes) dentro dos valores padrão, colocando-os nos pelotões da frente, do meio ou de trás. E fica o assunto resolvido.
Nos aprendizes (alunos, estudantes) em que os resultados são medianos ou abaixo deles, fica a sensação de frustração, a quebra da auto-estima, a rebeldia contra o sistema que não reconhece o seu esforço em aprender, por comparação com outros. Que com facilidade atingem a excelência.
E, com isto, estamos a preparar cidadãos plenos, ex-alunos (ex-estudantes, ex-aprendizes) que se auto-nivelam pela mediania ou por baixo, orientados e classificados que foram assim durante 15 ou 20 anos da sua vida.

A avaliação (testes, trabalhos, orais) avalia de igual forma o trabalho de quem aprende e de quem ajuda a aprender. Porque um professor não deve ensinar mas antes ajudar a prender.
Se os objectivos deste trabalho de conjunto falham ou ficam-se pela mediocridade, se o mais novo dos dois se fica pelos mínimos ou aquém deles, pelo menos metade do trabalho, o do mais velho, foi deficiente.
Não usou do tempo e trabalho suficientes para que a equipe terminasse com satisfação.

Uma avaliação escolar bem concebida deverá ser construída não em função da mediania dos alunos (estudantes, aprendizes) mas antes em função do binómio aluno/professor. E se, num teste ou prova de avaliação escolar, cada aluno é avaliado uma vez por um professor, cada professor é avaliado por cada um dos alunos (estudantes, aprendizes). E se o resultado de uma turma se fica pelos mínimos ou lá perto, o professor é apenas sofrível no seu trabalho de ajudar a aprender.

No actual sistema de educação (e como este termo educação é odioso!), tenta-se combater o insucesso escolar. Não através do incremento dos métodos de aprendizagem e do investimento do sistema em cada aluno enquanto individuo, mas através da descida dos níveis mínimos e da satisfação da sociedade quando eles são atingidos. A diminuição dos chumbos ou reprovações.

Acrescente-se que avaliações mal concebidas, analisadas ou baseadas num mau trabalho de um professor podem condicionar negativamente o futuro daqueles que estão a ser avaliados. É demasiadamente importante para ser feito de ânimo leve!

É por isso que afirmo que o actual sistema de educação ou ensino é desonesto!
Os estudantes (alunos, aprendizes) não passam por ele aprendendo a fazer perguntas e a ter dúvidas mas antes a serem formatados por métodos e programas padrão, moldados pela sociedade e não adaptados a cada um deles. Os alunos são considerados como matéria-prima como farinha numa padaria.
Não são consideradas as características individuais e o percurso de cada um. Nem são satisfeitas as expectativas de sucesso que cada um tem!

Durante o tempo que estive ligado a escolas profissionais, a minha maior satisfação foi ver o brilho nos olhos daqueles com quem estava a trabalhar provocado por um “já percebi” e logo seguido de dúvidas e perguntas sobre a continuidade do trabalho que vínhamos fazendo.
E um orgulho tremendo de, querendo ir sempre mais e mais longe com eles, nunca ter reprovado um só que fosse.


Texto e imagem: by me

sábado, 21 de agosto de 2010

O castelo


Da princesa suburbana.

Salto alto


Há uns dias alguém, no mundo virtual da web, disse que eu gostava de fotografar lixo.
Cumpre-me dizer que tal não é verdade.
Se o fosse, teria muito para fotografar em aterros sanitários, centrais de recolha de resíduos sólidos urbanos e afins. Teria já tido, certamente, profícuas conversas com os técnicos camarários, bem como aqueles que recolhem o lixo com os camiões, para saber quais as zonas mais “rentáveis”, tanto em termos de quantidade como de qualidade. Também já teria acompanhado os catadores de lixo, na sua triste azáfama diária, tentando perceber quais os seus critérios e quais os prédios ou ruas, das suas rondas, que mais proveitos lhes trazem. Provavelmente também teria já andado de caixote em caixote, abrindo as tampas e revolvendo os seus conteúdos, preparado para captar o “brinde” do dia.
Nada disto fiz e, acrescento, não tenho intenções de o fazer.
Aquilo que vai acontecendo é o eu ir tendo atenção ao que me cerca, umas vezes olhando para baixo, outras para cima, muitas vezes surpreendido com a originalidade do que se pode encontrar ao abandono nas ruas. Não forçosamente na categoria de lixo ou jogado fora, mas tão só abandonado.
Este meu interesse surgiu, se bem me recordo, de ter “tropeçado” num montão de roupa transbordando de uns sacos, encostados a um automóvel, bem afastado de qualquer contentor de lixo.
Consegui logo ali, entre o ver, o captar e o olhar de novo, conceber três ou quatros motivos para que tão insólito monte ali estivesse: uma mudança de domicilio e um esquecimento; um desavença conjugal; o roubo de um apartamento…
De então para cá ficou-me o hábito e o divertimento. Em particular com calçado.
É daquelas coisas que não se jogam fora por dá cá aquela palha. Mesmo que já fora de moda, sempre se vão guardando, desde que usáveis, para uma outra estação ou moda. E mesmo os de criança, em ela crescendo, acabam por ser usadas por uma outra, da família ou não, com pé mais pequeno.
É que, e para além do preço do calçado, mesmo considerando as feiras de rua, sempre se fica com alguma afectividade para com aquilo que nos protege os pés. E se um sapato novo, por muito pouco que a tal se dê importância, é sempre um momento “diferente”, usar um sapato velho, já feito ao pé, é uma sensação de conforto à qual não damos por demais atenção, excepto quando algo corre mal.
A cada sapato, ou par de sapatos, que vejo abandonados na rua, atribuo uma qualquer estória, desde viagens a trabalho, de festas a desporto, de romances a raiva.
Conseguis imaginar este par a ir, ainda por estrear, a uma festa, numa discoteca ou casa de alguém? E uma segunda ou terceira até ter entrado na categoria de “já não são novos” e passarem a transportar e suportar a sua dona no quotidiano de ir, estar e regressar do trabalho? Conseguis imaginar quem os usou a olhar pela janela, de manhã, e tentar adivinhar se irá ou não chover e se os pode ou não usar? Conseguis imaginar uma qualquer amiga mais íntima, ou bem pelo contrário, a constatar que os sapatos são novos e como lhe ficam bem (ainda que possa haver ironia na observação)? Conseguis imaginar estes sapatos, lado a lado, e de frente para uns outros masculinos, por sob uma mesa de um restaurante?
Acontece que raramente conto o que passa pela cabeça quando os vejo e fotografo. Acho que tem muito mais interesse deixar esse aspecto para quem quer que veja a imagem, usando a sua própria imaginação e experiências de vida para construir uma estória. É que, afinal, quem calça o sapato é que sabe onde lhe aperta!

Texto e imagem: by me

Uma prenda


Para uma colega que se sente sexualmente discriminada.
Diz ela que, por não ter o “tomatinho para coçar”, lhe dão muito mais trabalho que aos colegas masculinos.
Que não te falte, amiga, que não te falte!

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Formas e cores


Há ocasiões em que sinto velho! Absurdamente velho!

“Sei lá, posso vir a encontrar o presidente da companhia e não ficaria bem estar com essa roupa.”
Este foi um dos argumentos que aquela senhora usou para defender a “etiqueta de traje”, ou seja, que certo tipo de roupa não se deve usar no trabalho, como “havaianas”, calções, camisas de alças e afins.
Ainda me soube acrescentar, à laia de compensação, que há meses (de verão) em que há uma maior tolerância, bem como um dia por semana, podendo nessas ocasiões haver uns “mini-excessos” quanto ao formato ou cores usadas no trabalho.
“Ao fim-de-semana”, cada um usa o que quer, mas em dias de trabalho…”

É aqui que me sinto velho! Absurdamente velho! O cinzentismo e a uniformidade que vai invadindo a nossa sociedade não encaixa, de forma alguma, no conceito que tenho de uma sociedade livre. Na verdadeira acepção do termo!
Que cada um vista, coma ou se penteie como mais lhe apraz, por forma a sentir-se tão confortável e de bem consigo tanto quanto o possível, não só concordo como recomendo. Vivamente!
O problema levanta-se quando se quer impor o gosto e o conforto de uns quantos à maioria, forçando-os a sentirem-se confortáveis de acordo com o gosto de uns poucos.
Vivemos numa sociedade dita livre, mas apenas enquanto nos encaixarmos nas formas, nos moldes, nas cores definidas por alguns como sendo o “correcto”.
Qual uma velha oliveira, transplantada de onde a natureza cresce com a exuberância que lhe é própria para um parque infantil suburbano onde tudo re-pinta de cinza, vou assistindo ao renascer do Preto & Branco transfigurado em cinzentos informes.
E a sentir uma terrível nostalgia dos tempos em que, tal como a vegetação, cada um vestia cores e formas de acordo com os seus próprios gostos, fosse quem fosse o vizinho, o chefe ou o presidente da companhia.
Estou a ficar velho! Absurdamente velho!

Texto e imagem: by me

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Conceito

“… Quando não houver verdadeiro impacto, não haverá arte. Quando a forma artística não é capaz de provocar o desconcerto no espírito do espectador e não o obriga a mudar de forma de pensar, não é actual.”

Antoni Tàpies, in “A prática da arte”, Edições Cotovia

Exausto...


... e de língua de fora, mesmo ao lado de um campo de jogos.

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