sábado, 31 de julho de 2010

Formas

By me

Uma lenda


Estou em crer que já aqui tinha falado desta rua. Trata-se da Rua Flores do Lima, paralela à Av Estados Unidos da América, em Lisboa.
É uma rua modesta, em que os automóveis entram e saem pelo mesmo lado, que no outro extremo apenas existem escadas. Pelo nome apenas a conhecerão os residentes, as entidades oficiais e os carteiros. E pouco mais.
Mas há três bons motivos para esta rua ser importante: É nela que se localiza a “Casa do Conselho de Tomar”, bem como a discoteca “Templários”; É aqui que fica o cinema “Quarteto”, lugar mítico de romarias cinéfilas; O nome, que tem uma história ou estória agora com o dobro da graça.

É voz corrente na família que o nome desta rua se deve a um jardineiro, de seu nome Lima, parente afastado e falecido faz muito. Diz-se que ele cuidava dos jardins existentes nos palacetes que por ali havia como ninguém e que as suas flores eram únicas, gabadas e invejadas por muitos. Os palacetes e jardins terão sido demolidos para darem lugar aos actuais edifícios e arruamentos, mas terá ficado a memória do jardineiro e das suas flores. Alguns terão querido perpetuar esse dom florido e terão dado o seu nome ao arruamento.
Mas, dando uma volta pela página do município, encontro a secção de toponímia onde sobre esta rua se diz o seguinte:

“Este topónimo, atribuído a pedido dos moradores do arruamento, deriva do título do livro Flores do Lima da Autoria de Diogo Bernardes e constitui homenagem a este Escritor, que deu o nome a um arruamento com este Topónimo.”

Acredito que o município tenha registos sólidos que consubstanciem o que afirma, tanto mais que a rua terá uns 50 anos, e o nome foi atribuído em 1961.
Por meu lado tenho apenas uma tradição oral familiar, agravada por nenhum do parente que eu tenha conhecido em vida ali tenha residido.
Com isto e com a ilusão perdida, creio que vou deixar de dizer que existe em Lisboa uma rua em honra de um familiar. Era uma estória bonita, que morre aqui, com a frieza da web e dos factos da história.
Mas desconfio que, em momentos especiais, alimentarei a lenda.
Afinal, quem sabe onde fica a Rua Flores do Lima, em Lisboa? Ou mesmo a Estação Central, grande, imponente e polémica, conhecida apenas por uma alcunha?


Texto e imagem: by me

Pornografias e obscenidades


Os banqueiros até passaram os testes de resistência, mas a verdade é que os mercados ainda não aliviaram as dúvidas sobre os bancos e a palavra crise ainda não saiu de cena.

Se a convicção é de que são tempos de dificuldades económicas e financeiras, o certo é que os resultados do primeiro semestre da banca não o traduzem. O lucros dos quatro maiores privados a operar em Portugal rondaram os oitocentos milhões de euros (800.000.000 €), subiram quatro por cento (4%), e na lista dos grandes só o Santander Totta recuou.
Mais ganhos com menos dinheiro pode até causar confusão, mas há até quem lembre que o desempenho dos bancos não é só influenciado pela capacidade de endividamento.

Operações fora de portas, em concreto no Brasil e em África, que engrossam os lucros mas jogam em desfavor do Estado. Em seis meses de actividade, todos os quatro bancos registam menos impostos a pagar em Portugal.

E a decisão do governo de aumentar o IRC das grandes empresas jogou, para já, a favor da banca, permitiu valorizar os custos contabilísticos que ainda não foram considerados custos fiscais, aumentando assim os impostos diferidos. Os quatro bancos acabaram beneficiados e apresentam uma factura a pagar ao fisco inferior à do ano passado.
Entre o deve e o haver, na banca, sobram sempre milhões, são quase cinco por dia de lucro, desde o inicio do ano.


Texto: in “Telejornal", RTP, 2010-07-30
Imagem: by me

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Prestar contas


Será, muito provavelmente, com um Ábaco que prestaremos contas.

Réguas de cálculo, nónios, máquinas de calcular ou folhas Exel serão demasiadamente avançadas para os meios de contar e somar do piso de cima ou da última cave.
Que sabemos serem os seus administradores demasiado velhos para aprenderem coisas destas.
E as boas e más acções não são nem grandes nem pequenas. São-no apenas e cada uma vale um, nada mais.


By me

Esta é uma bota da treta!


Rígida, não caminha nem nunca caminhou. Mais ainda, apesar de amachucada, nunca foi calçada. E isto porque o seu interior, no lugar de vazio e pronto a receber um pé, é maciço, feito de loiça.
Como aliás toda ela.
Explicado num português com forte sotaque francófono, o seu vendedor da mesma cor da bota sempre me explicou que serviria, se o quiséssemos, como cinzeiro. E, como que para mo demonstrar, lá me mostrou a ranhura no calcanhar para segurar um cigarro a arder.
E, ao fim de tanto tempo com um olhar desperto para sapatos (botas, chinelos, pantufas e afins) abandonados na rua, não pude deixar de reparar que esta bota estava sozinha na banca de uma “feira” de ocasião, numa estação de caminho de ferro.
Não resisti e, não a podendo fotografar ali mesmo, comprei-a. Esta poderia não ter o par, mas não ficaria ali abandonada, no meio de tanta outra quinquilharia e artesanato senegalês.
Para minha tristeza e talvez porque sou ingénuo, mal me tinha afastado e outra ocupava o mesmo lugar.
Mas não pude deixar de dar uma gargalhada, ao constatar que também esta era do pé direito. Suponho que, por baixo da bancada, haveria um caixote cheio de botas de loiça, todas do pé direito.
E as do pé esquerdo? Onde estarão?

Texto e imagem: by me

quinta-feira, 29 de julho de 2010

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Mais um passo no sentido da civilização


O Parlamento da Catalunha aprovou hoje, por escassa maioria, a abolição das corridas de toiros na região autónoma.
resultado foi de 68 votos a favor e 55 contra, com nove abstenções, sendo esta a primeira vez em toda a Espanha continental que se proíbem as corridas de toiros numa das comunidades. As Canárias já as tinham proibido em 1991.
Em Dezembro, o Parlamento catalão assinara uma petição de um grupo de cidadãos a proibir as corridas.
Durante o debate, foi referido que este género de espectáculos tem vindo a perder popularidade em todo o território espanhol, com cada vez menos gente a ir às praças de toiros.
“Há tradições que não podem permanecer congeladas no tempo, enquanto a sociedade muda. As coisas mais degradantes devem ser abolidas”, disse Jose Rull, deputado do partido nacionalista catalão Convergência e União, que dera liberdade de voto à sua bancada.
Só não participou na sessão de hoje um dos 135 deputados do Parlamento regional e a abolição vai entrar em vigor no mês de Janeiro de 2012.

Texto e imagem: in jornal público on-line

Nomenclaturas


Na minha tentativa frustrada de aprender a arte de bem marinhar, tal como nas minhas aprendizagens fugazes de como combater incêndios, fiquei a saber que existe um instrumento comum às duas actividades. Pelo menos um.
De cabo de madeira bem comprido, com uns dois metros e meio ou mais, e possuindo uma ponteira de ferro com um gancho do mesmo material, serve ele para segurar à distância ou puxar para nós um objecto. No caso de embarcações, é usado para manter a distância a um bote ou muralha de acostamento, ou ainda para ajudar a içar algo da água. No caso dos bombeiros, a serventia é poder manusear materiais em chamas, ficando nós a uma distância segura.
Agora pergunto eu porque raio foram dar o seu nome – Crock – a algo que é para usar nos pés mas não é nem sapato, nem soca nem chinelo, e que é feito de qualquer coisa intermédia entre o plástico e a borracha?

By me

Ainda uma chave


E que faz um homem, mediano, normal e activo, ao confrontar-se num espaço semi-público com uma mulher atractiva, simpática e apenas conhecida, vestida com chinelos, cuecas e negligée?
Arromba uma porta!

Regressava a casa da bica matinal. Ao sair do elevador, oiço chamar pelo meu nome. A voz era-me familiar e vinda do andar inferior.
Espreitando pelo vão da escada, vejo uma vizinha, que morava um piso abaixo, sentada no degraus da escada, a olhar para cima e para mim. E a deixar-me estupefacto!
Tinha ela no corpo uns chinelitos com um pompom, uma tanguita e um negligée curto e quase inconstatável. Não sei se teria aliança, brincos ou outros adornos, que não os procurei!
Espantado com a situação, desci as escadas e tratei de saber o que se passava e porque pedia ajuda. Confesso que não lhe perguntei o que fazia naquele propósitos!
Contou-me ela que, tendo regressado de viagem de núpcias uns dias antes, estava em casa a dar uma arrumação às embalagens das prendas de casamento. E que vinha pondo as caixas vazias na escada, para mais tarde as ir colocar no lixo. Numa dessas vindas à escada, uma forte corrente de ar tinha-lhe fechado a porta, deixando-a na escada com pouco mais do que com que tinha vindo ao mundo. Ainda que muito aumentado!
E que faz um tipo numa situação dessas? Tentando tranquiliza-la e racionalizar a questão, que outra abordagem não seria possível, comecei por lhe perguntar pelo marido, se não teria outra chave. O que seria natural.
Claro que tinha, mas estava a trabalhar em Lisboa, só regressava pela noitinha e a agenda telefónica estava em casa. Fechada!
A alternativa lógica seria oferecer-lhe abrigo na minha própria casa, que o casal já conhecia, e colocar o meu guarda-roupa à disposição, para conforto e tranquilidade de todos. Mas, antes disso, ainda tentei outra abordagem.
Olhando para a porta, firmemente fechada, constatei que possuía quatro (4) fechaduras. A de origem do apartamento mais três posteriormente acrescentadas. Medos! E questionei-a sobre qual a que estaria a fazer de trinco e que teria que ser aberta. Apontou-me a original.
Era igual à que eu mesmo tinha tido em minha casa e que tinha retirado por frágil e de fácil arrombamento. Ainda que eu nunca tivesse tentado nada do género!
Mas, havendo sempre uma primeira vez para tudo na vida, e lembrando-me de tudo o que havia visto em filmes policiais, meti mãos à obra. Com o canivete afastei o batente, que estava apenas pregado e com um cartão de credifone tentei forçar o trinco. Fanfarronices!
Acredite-se ou não, fiquei eu mesmo bem mais surpreendido que a minha vizinha. Que, com a mesma facilidade com que se corta manteiga no verão, empurrei a lingueta do trinco e a porta abriu-se como que num passe de mágica. Fácil, fácil!
Juro que nunca tinha tentado nada de semelhante e que se o tentei fazer foi porque apenas havia que fazer algo e de nada me tinha lembrado de melhor, de atrapalhado que estava.
E ficou a situação resolvida, no que à segurança, tranquilidade, decoro e boa-vizinhança dizia respeito.
Depois de ter recebido os agradecimentos óbvios e de a porta se ter fechado de novo, desta feita com a dona do lado certo, subi as escadas e fui verificar se com a minha própria porta se poderia fazer o mesmo e com a mesma facilidade. Não podia! Pequenos detalhes de concepção, fabrico e montagem tornavam a minha fechadura muito mais segura que a outra. Talvez por isso mesmo tenha sido bem mais cara.
Curiosamente, e apesar de eu e ela nos termos rido algumas vezes do episódio, nunca tal sucedeu na presença do marido ou mesmo este se referiu à estória. Não sei se alguma vez a soube, mas pela minha boca não foi. Afinal, há coisas que um tipo não conta. Não conta que aconteçam nem conta que aconteceram.
(Nota: Já não resido no prédio em causa faz tempo e, entretanto, sobreveio um divórcio entre eles, pelo que não entendo este relato como uma inconfidência ou que venha a ter consequências por conversas vinte e tal anos tardias.)

Texto e imagem: by me

Inna e Roma


Os sentimentos, ainda que genuínos, podem ser reforçados com estímulos externos.
Sabendo isto, da teoria e da prática, crio uma pequena expectativa antes de entregar a fotografia já impressa.
Depois de a retirar da “caixa-mágica”, olho-a por vezes de relance, outras com fingida atenção e, mantendo-a virada para mim e encostada ao peito, lanço uma frase para os que estão ansiosos por a ver. Uma delas é (e não posso aqui revelar todos os meus trunfos) “Se não gostar não leva!” Um pouco na linha que certas lojas e produtos usam: “Satisfação total ou devolução do dinheiro”.
Neste caso, o riso meio da graça, meio do nervoso, manifesta-se e, acto contínuo, entrego a fotografia.
Sendo que parte das pessoas esperam uma partida ou equivalente, outros contam com algo de muito má qualidade e outros ainda têm uma péssima opinião sobre si mesmos, a surpresa é em regra agradável, apesar de algumas não serem lá grande coisa como fotografias.
Mas também há quem não goste. E o diga! As mais das vezes, pouco ou nada referente à qualidade da imagem ou da impressão, mas antes referente à pose ou expressão facial. Ou, como não poderia deixar de ser, em relação ao peso, nuns casos que parecem ter muito, noutros o contrário.
Este casal, que reagiu de forma típica durante todo o processo que antecedeu a entrega da fotografia, não gostou. Uma destas pessoas não gostou da sua pose mas, como em 100% dos casos, quis levar a fotografia, sim senhor!
Mas eu é que não gostei do desagrado que ali vi! E como até eram particularmente divertidos e bem-dispostos, mandei as rotinas às urtigas e fiz uma segunda, com a DSLR. Como gosto de fazer, jogando com contra-luz natural e luz frontal difusa.
A opinião mudou por completo e a alegria de terem esta segunda compensou o desgosto face à primeira.
E porque o prometi, aqui fica, ainda que noutro espaço que não o “Oldfashion”. Mas, mesmo que não o tivesse prometido, e desde que não mo interditassem, aqui a poria. Porque também eu gosto dela, pese embora a ausência de sorriso que assumiram, e de que eu tanto estava a gostar.

Texto e imagem: by me

terça-feira, 27 de julho de 2010

Um... heeeh, um... pois, um...


Um coiso na linha, pronto!


By me

Pedaços de que gosto


Viva quem faz!
Nome próprio: Vânia
Idade: 23 anos
Sinais exteriores: Mulata, magra, cabelo curto
Sinais interiores: honesta

Como sei eu isto tudo? Porque vi, ouvi e perguntei.
Estava a trocar dois dedos de conversa com uma mocinha amiga, numa lojinha de crepes ali para os lados da gare do oriente, quando ela surge.
Interrompendo a conversa, porque cheia de pressa, vinha devolver cinco euros que tinha recebido em excesso no troco de uma compra, uns vinte minutos antes.
Metediço como sou, meti conversa e soube o que queria saber. Mais não necessitava. Nem mesmo o retrato.
É que, nesta sociedade ego-centrista, exemplares destes são raros. E a melhor, a única, recompensa que ela quis e teve, foi o ver a satisfação da minha amiguinha com o erro corrigido.


Texto e imagem: by me

segunda-feira, 26 de julho de 2010

http://www.ted.com/talks/lang/por_pt/barry_schwartz_on_the_paradox_of_choice.html

http://www.ted.com/talks/lang/por_pt/barry_schwartz_on_the_paradox_of_choice.html

Camera obscura


Somehow I came up with this two years old photograph.
It’s me, working as an Oldfashion photographer, at Jardim da Estrela, Lisboa.
You may see how old and new techniques may be together.
After all, both of them are “Camera Obscura”.

Image: “Stolen” from http://jumento.blogspot.com/

Destes


Não me importo de ver estacionados no passeio.
Mas só destes!

By me

domingo, 25 de julho de 2010

Um chinelo


By me

Estava calor!


Estava calor! Mesmo calor!
Uns 40º à sombra, bem medidos!

Mas quem é que se preocupa com o calor se se estiver apaixonado, se houver uma sombrinha, por pequena que seja, e se em fundo houver uma banda de jazz a tocar?

By me

Dançando sob o sol!


E desafiando a gravidade!

By me

Manias


Que eu sou um tipo de manias já não será novidade para aqueles que me fazem o favor de vir a estas paragens. Para os outros, aqui fica a informação: sou um tipo de manias!
Há coisas que faço questão de fazer e outras que faço questão de não fazer!
Não roubo a chupeta a um bebé! Faço questão disso! Consumo oxigénio a cada inspiração! Também faço questão disso!
Entre uma coisa e outra é uma questão de escolha de forma de vida e de coerência que procuro manter.

Uma das coisas que não faço por uma questão de coerência é consumir produtos da marca Parmalat e derivados. Pelo menos enquanto me lembrar que esta empresa de lacticínios Italiana viu em Portugal oportunidade de ganhar dinheiro sem olhar aos custos.

Quando começou a operar em Portugal há já bastantes anos, entrou a matar, comprando tudo o que estivesse à venda e tratando de “agarrar” o que não estivesse mas interessasse. Com a enorme quantidade de capital que vinha da sede, em Parma, apresentou preços dos seus produtos a níveis tão baixos que quase destruiu os pequenos e médios produtores, obrigando muitos a fechar ou vender as suas empresas e explorações e a despedir os seus trabalhadores, antes que a fome lhes batesse à porta.
Com os retalhistas a estratégia era igualmente agressiva: fornecia-lhes os seus produtos e entregava-os nas lojas a preços muitíssimos mais baixos que os das marcas suas concorrentes. A condição era os pequenos comerciantes não possuírem ou venderem produtos dessas outras marcas. Claro que muitos foram os comerciantes tradicionais que aceitaram a situação.
E assim, não apenas as marcas concorrentes perderam negócios como acabaram por fidelizar clientes e consumidores, não pela qualidade do que compravam mas antes pela inexistência de alternativas.
As situações dramáticas que esta estratégia empresarial criou foram inúmeras: firmas fechadas ou falidas, cooperativas sem cooperantes, gente despedida e a passar fome.
O que estranho efectivamente é que, quando há uns anos rebentou o escândalo económico na casa mãe, em Itália, a filial portuguesa tenha ficado incólume. Claro que nós por cá nunca soubemos o desfecho do caso italiano, mas suponho que não fosse conveniente, quem sabe.

É por isto que não consumo produtos da marca Parmalat, leite e seus derivados, sumos e outros. Enquanto disto me lembrar…
E é por isto também que tive uma discussão, enfim, uma conversa azeda, quando ao jantar mandei de volta os pacotinhos individuais de manteiga desta marca que nos puseram à frente enquanto esperávamos os bifes e bebericávamos as cervejas.
“No pão quentinho até que ia saber bem! Vá lá!...”
“Na minha mesa e do meu bolso, não!"

Que querem? Sou um tipo de manias!”


Texto: by me
Imagem: edit by me

sábado, 24 de julho de 2010

O colectivo


Ponham-me o carimbo que puserem, tenham lá paciência, mas esta é a minha opinião.
O sistema ensino/aprendizagem deveria ser gratuito!
Não tendencialmente gratuito!
Não subsidiado!
Gratuito!
Pago pelo colectivo!
Em todos os graus, do pré primário ao superior!
Em todas as instituições e para todos os estudantes/aprendizes!
Em todos os aspectos: frequência, material didáctico, alojamento inclusive!

Eu explico o porquê:
Um cidadão válido na sociedade é aquele que, tendo um elevado grau de autonomia e estabilidade material, emocional e intelectual tem, para além disso, uma contribuição útil no e para o grupo em que se insere.
Esta contribuição pode ser através de uma actividade física, intelectual ou mista. E será tanto mais útil quanto melhor preparado estiver e, consequentemente, melhor o desempenhar.

O fazer um curso, seja de que grau for, não apenas lhe permitirá ter uma vida mais confortável e tranquila como, com o resultado do seu trabalho, contribuir para que a sociedade evolua no mesmo sentido.
Logo, ter um curso (tecnológico, profissional, superior) é uma mais valia para a sociedade onde se insere, e não apenas para ele.
O paradigma desta afirmação é a actual carência de médicos pediatras, obstetras e geriatras que grassa em Portugal. Tal como de calceteiros, canalizadores e mecânicos.
Ao limitar-se o acesso a esses mesmos cursos e preparações através das condições materiais do estudante ou da sua família, está-se a cercear o desenvolvimento social.
E isto constata-se através da quantidade crescente de alunos que, todos os anos, deixam o ensino superior e politécnico por falta de meios económicos. Veja-se um relatório recente da Universidade do Minho. E as estatísticas sobre a redução do número de estudantes nos cursos profissionais.

Os cursos que permitem o exercício de um oficio ou profissão reflectem-se mais na sociedade que no individuo. É uma questão de qualidade de vida. É um investimento da sociedade nela mesma.
Ao exigirem-se pagamentos para frequentar esses mesmos cursos, está-se a fomentar e existência de elites, não pelos seus potenciais intelectuais ou de desempenho e habilidade, mas antes pelos seus antecedentes familiares e condições sócio-económicas.
E, naturalmente, a reduzir a qualidade de vida de todos.

Na sociedade actual, pautada basicamente pela competitividade desenfreada e pelo sucesso económico, limitar o acesso à preparação técnica e cientifica do jovem é um suicídio colectivo, lento, metódico e consciente.


Texto e imagem: by me

Magic Garden


Agora imaginem:

Estão de pé no meio de um jardim há horas. Deambulam em torno de uma câmara num tripé, fumando cigarros que vão deitando, conscienciosamente, no lixo depois de apagados. Com o olhar, vão analisando quem passa, tentando perceber se vai ou não parar e ter curiosidade. Em caso positivo, vão desenrolando a conversa e fazendo algumas fotografias.
Imaginem ainda que, já pelo fim da tardinha, depois de um bom pedaço sem gente que vos aborde, estão parados. Que a vossos pés pousa um bando de pombos. Que, de súbito, um deles levanta voo e vem pousar numa das vossas mãos. Que atrás dele vem outro, e ainda outro. Imaginem que ficam atónitos com a situação e que esta evolui para mais um pousado no vosso ombro.
Imaginem também que eles levantam voo e outros os substituem, sentindo nos dedos das mãos, esticados agora e na pele dos vossos antebraços, as garras de uma meia dúzia de pombos que, delicadamente, se firmam.
Imaginem mais ainda que, com alguma cautela, três garotos aí com cinco ou seis anos se aproximam, de olhos esbugalhados, e que vos perguntam como é que conseguiram fazer aquilo. E imaginem que não lhes sabem responder outra coisa que não seja pedir-lhes pouco barulho e pouco movimento para não os espantar.

Conseguiram imaginar?
Então conseguiram sentir o que eu mesmo senti hoje, pelas seis e tal da tarde, em pleno Jardim da Estrela.
Garanto que é tudo verdade, excepção feita ao pombo aqui retratado, num outro dia fotografado.
Afinal, com as mãos cheias de pombos, como poderia eu manobrar uma câmara?
Mágico, este Jardim!


Texto e imagem: by me

PdC


Com uma abertura desta, o que é que queriam: grande profundidade de campo?

By me

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O sargento


Os antigos postos da caixa, hoje centros de saúde, são um cadinho de impaciência e de mau humor.
Quem a eles se dirige são doentes, a quem ironicamente se chama de “pacientes”
São pessoas que padecem de algo, visível ou não, cujo incómodo, dor ou sofrimento não se compara nem mede: todos entendem que o seu problema é grave.
O primeiro embate nestes locais é feito com os administrativos. Ouvem o pedido, seguem as regras do sistema e aturam a impaciência ou imposições dos pacientes. E há que ter paciência para aturar a impaciência dos pacientes.

Um dos métodos usados é o do “sargento lateiro”.
Voz ríspida, instruções secas, conversa reduzida ao mínimo. Não que se trate de mau humor, agressividade ou antipatia. É, as mais das vezes, uma forma de colocar método naquela pequena multidão que espera vez com a impaciência própria de um paciente. E é uma defesa para não se deixarem influenciar pelos argumentos, nem sempre os mais simpáticos ou cordiais, que podem ouvir, e ouvem pela certa, que paciência é uma coisa que não abunda por aqueles lados.

Com a senha numerada na mão, esperei pela minha vez. Lá ia ouvindo a voz do “sargento” feminino que, da sua secretária, ia chamando pelos números.
Quando ouvi o anterior ao meu, levantei-me e aproximei-me da porta de acesso. Sempre se poupa uns segundos e uns atropelos. Quando chamou pelo F12 que eu tinha na mão, cheguei-me à frente e disse ao que ia. O tratamento que recebi foi o padrão, nem bom nem mau. Padrão!
Lá me pediu os documentos, que já levava na mão, foi escrevendo no teclado e, na altura devida, pediu-me os dois euros e cinco cêntimos da taxa moderadora.
Despejando o porta-moedas na mão, constatei que os tinha e trocadinhos em moedas pequenas. E dei-lhe a minha frase, também padrão, destas circunstâncias: “Se lhe der trocado, não me faz desconto?”
O sargento desapareceu e vi-lhe um sorriso que não sei se mais alguém terá visto naquela manhã naquele posto de saúde.
Quando, já a guardar a papelada, lhe perguntei se teria tempo de ir fumar um cigarrito à rua, disse que daria para dois ou três e sorriu de novo.
Mas antes de tornar a vestir a “farda de sargento”, ainda me pediu desculpa por ser assim à pressa, mas que havia tanta gente para atender… E gritou lá para dentro: “Senha F13!”

“Quem vê caras…”


Texto e imagem; by me

Mau feitio


Que eu tenho um mau feitio levado da breca é do conhecimento geral de quem me conhece.
Há coisas que me fazem sair do sério e só não intervenho mais incisivamente por questões de comodismo ou de desprezo pelos demais intervenientes!

Regularmente vou ao cafezinho ali a meio da rua tomar a “bica com bolo” da ordem.
Duas, três horas depois de acordar, dadas que sejam as voltinhas na web, o pequeno-almoço doméstico, a higiene matinal e uma boa dúzia de cigarros consumidos na ânsia de repor os níveis de nicotina perdidos com o sono.
Neste café, que prima pela luz e pela simpatia de quem ali trabalha, existe o hábito de se encontrarem disponíveis alguns jornais diários. Não que eu os consuma, que os do desporto ou dos boatos e maledicência me passam ao lado. Mas muitos há que o fazem.
Regra geral, esta leitura pública acontece à mesa, com todo o tempo e conforto, com uma chávena de café já vazia, por vezes num convite implícito a que os recém chegados se juntem à mesa.
Mas alguns há que fazem do balcão o seu lugar de leitura. Escancarado em cima do vidro, de braços abertos apoiados, chegam a chávena para o lado para deixar as letras livres.
Mas só as letras, que o espaço que os demais consumidores da loja utilizam fica restrito àquilo que entendem deixar livre. Nem para aceder ao que se quer consumir nem mesmo para se poder ver o que está em venda no expositor.
O cúmulo do azar será encontrar um casal que o faça em conjunto!
Aí o pedido da bica é feito por cima dos ombros, a recepção da chávena é feita por cima do jornal e o deitar do açúcar é um jogo de equilibrismo entre o pacote e o café.
Este olhar para o próprio umbigo é algo que me faz sair do sério, por vezes levando-me a ter “saídas” não muito simpáticas.

Um destes dias deu-me para esta, em pleno bairro de Alvalade, em Lisboa: “Desculpe, mas… será que o meu café atrapalha o vosso jornal?”
O olhar que recebi na volta, se disparasse, ter-me-ia transformado num passador! O aspecto de “patos bravos novos-ricos” com excesso de gel para um e roupas dignas de um “trottoir” para a outra, bem davam a entender que o dinheiro que possuíam, ganho sabe-se lá como, lhes dava direito a ocuparem todo o mundo e arredores.
Mas nem com esta afirmação consegui os míseros centímetros vitais para receber a chávena.
Não fui de modas! Com ar de desastrado, entornei quase todo o bendito café por cima do jornal, com uns salpicos adicionais para aquelas roupas engomadinhas.
Pedidos de desculpa, exclamações de desagrado, mas lá consegui tomar a bica no espaço que me seria devido pelo preço que paguei!
Por parte de quem estava do outro lado do balcão não houve comentários. Mas os discretos sorrisos que lhes vi, depois da saída deles, bem que afirmavam um “Bem feita!” Mas como o cliente tem sempre razão, pouco mais poderiam ter feito.

Que este acto não foi bonito, não foi! Mas que me soube muito bem, lá isso soube!


Texto e imagem: by me

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Geni e o Zepelim

LIvres?


Seja qual forma como tentemos abordar o tema, a verdade é que estamos sempre e eternamente presos.
Confinados a uma cela ou na superfície do planeta, com horários, cartões identificativos e códigos de conduta.
A qualidade da prisão é que varia. Alguns vêem no abrir da fechadura a sua liberdade, outros no vencer a atracção terrestre. Uma chave uns, asas outros. Há quem vá mais longe e não possua relógio ou recuse o bilhete de identidade.
Mas depois de cada fronteira, depois de cada quebrar de grilhetas, apenas constatamos que continuamos presos. Por outras grades, por outros conceitos, por outras obrigações.

Quando, há uns anos largos, conversava com um Argentino, logo a seguir à guerra das Malvinas ou Faulkland, dizia-me ele: “Nós? Somos livres! Podemos sair à noite e tudo!”
Ou ainda aquele outro jovem que dizia: “Esta semana estou livre. Os meus pais vão de férias para fora.”

Mas a liberdade não é um estado legal ou material. É um estado de espírito!
O exercício da liberdade começa, antes de mais, dentro de nós. Por aceitarmos ou não por limite o que nos impõem. O deixarmos ou não a nossa mente vogar e decidir o que fazemos. O termos ou não uma verdadeira consciência de nós mesmos e do que nos cerca.
A nossa verdadeira prisão somos nós próprios, na nossa condição de seres humanos de carne, osso e sangue. Pensantes e conscientes.

Quando formos capazes de saber, e não apenas dizer, “Eu posso!”, com toda a plenitude do que isso significa, então seremos realmente livres.
Até lá, enquanto nos sentimos limitados por um planeta, regulamentos ou grades, mais não seremos que sempre prisioneiros daquilo que os nossos sentidos nos transmitem.
E tanto assim é que somos obrigados a comunicar codificando e descodificando estas letras e imagens, presos que estamos a estas convenções.

E, enquanto você o faz, vou ali dar corda ao relógio e trancar a porta.


Texto e imagem: by me

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Uma fotografia


Estava de férias em Lagos.

A família regularmente alugava a mesma casinha nos limites rurais da cidade e íamo-nos espraiar de manhã e à tarde para a meia praia.

Uma ocasião vi um glorioso carro dos anos 50 estacionado na avenida marginal. Impecável, parecia acabadinho de sair da fábrica. A seu lado, uma pequena palmeira no passeio. Mais ao fundo, a muralha de pedra do porto e o céu azul.

Este conjunto sugeriu-me uma imagem a fazer, desde que com a luz no ângulo certo. Feitas as contas e olhada a bússola, seria pelo meio-dia.

Uns dias depois, tendo o céu a limpidez adequada, parti descendo a colina, carregado com a câmara, as ópticas, os filtros, o tripé… toda a parafernália. Havia que chegar ao local a tempo de apanhar o sol na posição certa.

A meio caminho sou interpelado por um casal de velhotes que caminhava em sentido inverso:

“- Olá, como está?

- Desculpem mas… conheço-vos?

- Não se lembra de nós?

- Confesso que não. Querem ajudar-me?

- Em Coimbra, junto à Sé velha, há uns anos… Aquela fotografia que nos tirou…”

Recordei-me então e ficámos um niquinho à conversa.

Reformados que estavam, aproveitavam quando estava bom tempo para passear e conhecer o país como não tinham podido quando jovens.

E, à medida que iam viajando, iam fotografando o que viam, enquadrando-se ora um ora outro na imagem. Tinham uma única fotografia de ambos desses passeios: Aquela em que eu me tinha oferecido para fazer com a câmara deles, em Coimbra, aquando de uma das minhas peregrinações ao Encontros de Fotografia.

Apenas uma, de milhares que tinham. Apenas uma que os mostrava aos dois. Partilhando os Outonos amenos da vida e de Coimbra.

A minha oferta, tão natural quanto um copo de água, marcou-os indelevelmente. Aquela fotografia não é uma fotografia para eles:

É A fotografia.

Confesso que na altura já nem me recordava do facto. E, não fora eles, nem nunca mais o recordaria, de entre muitas situações semelhantes vividas.

E esta fotografia, que nunca vi, é uma daquelas que consta do meu álbum de recordações. Não como um ponto de viragem, mas mais como um parágrafo no livro que vamos escrevendo e a que chamamos vida.

Quanto à foto do carro? Bem, a hora de verão está atrasada em relação à solar, pelo que cheguei demasiadamente tarde nesse dia. Voltei lá mais tarde, mas não consegui dar-lhe aquele ar retro-californiano que queria.

Não adianta imitar. Há que ser espontâneo e generoso na fotografia, tal como na vida.



Texto e imagem: by me

João Teixeira Lopes (Bloco de Esquerda) à bulha com Strecht Ribeiro (PS)

Ser photógrapho


Estava eu no Jardim da Estrela, na minha actividade habitual por lá: Photógrapho.

E estava mais ou menos rodeado de gente: curiosos, pessoas que esperavam vez, gente que fazia fila para receberem a beberagem que nesse dia se promovia por ali… Bastante gente em redor.

A dado passo constato que, num relvado próximo, acontecia fotografia. Um homem na casa dos 50’s, razoavelmente equipado para tal, ia fotografando uma moça/senhora, no início dos trinta, vestida de forma provocante e tirando partido disso e que, com um cachorrinho, ia posando de pé, sentada e deitada na relva. Achei piada, mas tinha mais com que me preocupar: as minhas próprias fotografias.

Entre duas delas, dou de novo uma olhada e reparo que a objectiva estava, discretamente por entre as folhagens, assente em mim e no meu artefacto. Ora subia, ora descia, ora abria, ora fechava, mas era para os meus lados que os clicks aconteciam.

Não me espantei ou incomodei. Afinal, o meu artefacto e a minha actividade não só estávamos num local público como éramos algo de invulgar. E já vou ficando habituado a ser objecto de enquadramento nestes propósitos.

Passado um pouco, no meio da minha azáfama, dou comigo encostado à moça/senhora. Sorridente, com sotaque brasileiro, insinuante e colocando o cachorro entre nós, o roço era evidente.

A princípio não percebi. O cão lambeu-me o nariz – só o cão, entenda-se – e ela foi dizendo umas piadas meio sem nexo mas fartando-se de rir com elas. Até que, em virando o meu olhar, vejo o fotógrafo disparando insistentemente. Horizontal, vertical, mais aberto, mais fechado, o obturador electrónico da DSLR não parava de trabalhar.

Mantive uma certa bonomia para com a moça (que o merecia), o cachorrinho (que de nada entendia) e o fotógrafo (que olhava para mim dentro e fora do visor).

Ao fim de um pedaço, lá entenderam que já chegava e afastaram-se. Sem uma palavra, um sorriso, um olhar cúmplice ou mesmo um menear de cabeça. O trabalho estava feito e pronto.

Aqui saltou-me a tampa!

Pedindo desculpas para uma pequena pausa a quem me rodeava e esperava vez, dirigi-me ao portador da câmara fotográfica, segurei-lhe levemente no braço e afastei-o de quem com ele estava, que o que lhe tinha para dizer não era para muitos ouvidos. E ouviu!

Ouviu que, ainda que mestres no mesmo ofício, o respeito recíproco não se perdia; Que ainda que me não tivesse manifestado, um pedido prévio ou um agradecimento posterior teria sido simpático; Que por muito discreto que ele pudesse ser, a potente teleobjectiva dava nas vistas por entre as ramagens e que a encenação da moça nada tinha de espontâneo; Que eu estava a sentir-me usado e abusado; Que noutras circunstancias, com menos gente por ali e com menos trabalho também, trataria de lhe confiscar a câmara, à força se tal tivesse que ser, até à chegada das forças policiais que eu mesmo chamaria, para que as minhas imagens fossem destruídas na sua presença; E que não confiasse em demasia na alvura e comprimento das minhas barbas, que atrás delas estava quem o pudesse pôr em prática.

Engoliu em seco, atirou-me com um “obrigado” mais frio que o pólo Norte, pegou no braço da moça e afastou-se. O canito, esse, não teve que correr, que estava nos braços dela.

Por mim, voltei à diversão colectiva e consentida que o meu “Oldfashion” permite e propícia.

Não sou pessoa de ler publicações “cor-de-rosa” ou do “jet-set”. Mas, e se por acaso, vier a ver alguma imagem minha com aquela senhora e cão e sem o meu consentimento expresso… Bem, para alguma coisa servirão advogados e tribunais!

Que uma coisa é ser Photógrapho, outra é ser fotógrafo!

Texto e imagem: by me

terça-feira, 20 de julho de 2010

Dificuldades


- O.K., Marlowe – disse eu entredentes. – És um tipo duro. Um metro e oitenta de homem em aço. Oitenta e cinco quilos, nu e de cara lavada. Músculos tesos e sem maxilares de vidro. Podes aguentar isto. Foste atirado ao tapete por duas vezes, apertaram-te o pescoço e levaste, sem perceber como, com uma coronhada no queixo. Foste injectado com drogas e mantido em estado de embrutecimento até ficares tão doido como dois ratos a dançar uma valsa. E depois? É rotina.

Agora vamos lá a ver-te fazer alguma coisa realmente dura, como vestir as calças.


Texto: Raymond Chandler, in “Farewell My lovely”, citado em “A lingua da tua mãe”, by Stephen Burgen

Imagem: by me

Stop graffity!


At least, this kind!

By me

Cansado...


... e de língua de fora, chegou e parou.

By me

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Operário em Construção

No man is an island


No man is an island entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main; if a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as any manner of thy friends or of thine own were; any man's death diminishes me, because I am involved in mankind. And therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee.

Texto: by John Donne (sec XVII)

Imagem. By me

Meio par...


... de Ténis não é um Téni!

By me

domingo, 18 de julho de 2010

Stop


Ficaremos sempre sem saber onde nos conduziriam estas escadas.
Talvez que ao castelo da Bela Adormecida, que em já tendo acabado há muito o baile, encerrou até à próxima história;
Talvez que ao Céu, que com o que por aqui há de pecado, dificilmente haverá quem suba por direito até lá;
Talvez que a um comício de político honestos, mas nem eles lá vão nem já há quem os procure;
Talvez que a uma casa assombrada e, por via das dúvidas, as autoridades interditaram o local.
Da próxima vez que aqui passar, irei dar uma olhada, que um sinal de trânsito é muito mais pequeno que a minha curiosidade!

Texto e imagem: by me

Para grandes males...


Há perguntas absurdas e perguntas pertinentes.
Exemplo de uma pergunta absurda será o querer saber o que é que eu tenho na mão! Está bem de ver que é um tijolo!
Será, talvez, apenas um pedaço de tijolo. E será um pedaço de tijolo burro ou cego, daqueles que não têm buracos. Mas é, indubitavelmente, um tijolo e só não o constata quem não o quiser!
Agora outra coisa será o perguntarem o que estou eu a fazer, com um tijolo na mão e levantado à altura da cabeça, à minha janela. Isso sim, será uma pergunta pertinente, inteligente, fruto da observação dos factos e da não obtenção de uma resposta imediata.
Mas eu explico:
Estou, muito simplesmente, a preparar-me para defender o meu castelo ou, se preferirem, a minha casa e o meu merecido repouso!
Desde o início deste mês que uma senhora residente no prédio ao lado do meu tem o seu filho pequeno num ATL. O serviço, ou escola, ou creche, tem uma carrinha que o vem buscar todos os dias, entre as 7.45 e as 8.00 horas.
Acontece que o motorista da dita viatura entende que as mães, com as respectivas proles, devem estar à porta de suas casas, esperando pelo transporte. E, caso não estejam, faz saber do seu atraso com a potente buzina da carrinha.
Aliás, este motorista sabe de antemão que esta mãe não espera à porta do prédio mas sim em casa, à janela de sua casa. Por isso, ainda mal entra na praceta que aqui se vê e já está a apitar, várias e repetidas vezes.
No meio de tudo isto estou eu. A carrinha pára aqui, neste espaço que se vê iluminado pelo sol, bem por baixo da janela do meu terceiro andar. E eu, que a esta hora estou apenas com quatro a cinco horas de sono seguido, que os meus horários de trabalho assim mo obrigam, sou acordado por um despertador que não quero nem comprei.
Esta semana, bem ainda antes do soar da buzina, saí da cama. E quando a carrinha chegou, já eu ali estava, vestido e pequeno-almoçado, à sua espera.
Tive com o motorista, e a dama que o acompanhava, uma conversa não particularmente simpática, mas onde deixei bem claro o meu descontentamento com aquele acordar intempestivo, bem como o conteúdo do código da estrada no tocante ao uso de buzinas dentro de perímetro urbano.
O que lhes ouvi não me deixou tranquilo quanto aos meus futuros sonos!
Assim, estou preparado para que, da próxima vez, saibam sem quaisquer dúvidas o quanto eu desgosto do tom e do volume da sua buzina, àquela hora e naquele lugar.
Para além deste pedaço de tijolo, tenho mais dois a meus pés. E, se não chegarem, do prédio em ruínas onde os fui buscar há muitos mais para alimentarem o meu paiol de protesto!

Texto e imagem: by me

Teoria compactada


É uma teoria antiga que tenho.
Ainda não me dei ao trabalho de a escrever por completo, porque não só as pesquisas que a consolidem abrangem campos muito variados e que não domino em profundidade, como organizar estas ideias sob a forma de letras sólidas é algo de muito trabalhoso. E preguiça é o meu nome do meio.
Em qualquer dos casos, aqui fica, tão resumida quanto o possivel:

A fotografia não é actividade de gente jovem!

Mas, antes que me batam ou me desprezem, leiam toda a argumentação sumária e a própria contra-argumentação.

Se a fotografia é uma forma de comunicação, o órgão sensorial de base é a visão.
Este é o que leva mais tempo a maturar. Não apenas no que aos recém-nascidos diz respeito, que levam semanas e meses a identificar cores, formas, distâncias, como mesmo a chegar ao estado adulto de desenvolvimento biológico e psicológico, atingindo este ponto a partir dos 16/18 anos de idade. Acrescente-se que a sua complexidade orgânica e psico-motora é tal que é a área da medicina que possui maior número de doenças e mal-formações indexadas e que é o órgão sensorial que primeiro perde funções em casos extremos de sobrevivência do individuo.

Por outro lado, a complexidade do ser humano não se satisfez com a efemeridade da comunicação oral ou gestual. Havia que tornar permanente as mensagens, para suprir as falhas de memória dos retransmissores e para chegar a muitos receptores.
Daí que a oralidade e gestualidade tenham encontrado a materialização, através de suportes e códigos incipientes ou complexos, de entendimento geral ou restrito: A escrita, a pintura, a escultura e, no caso vertente, a fotografia.

Mas acontece que a comunicação não é uma actividade unívoca. Quem comunica espera que a sua mensagem seja recebida e entendida. E, para saber se assim é, espera uma informação de retorno, acusando a recepção e interpretação – o feed-back.
Isto acontece na oralidade, na gestualidade, na música e demais artes de representação ou de palco. O receptor, interlocutor ou público alargado, vêem, ouvem e reagem de imediato. Anuindo ou contestando, aplaudindo ou vaiando. Até a própria ausência de manifestação é uma manifestação!
Nas artes visuais tal não sucede. O suporte de comunicação é trabalhado, em regra num espaço e tempo íntimos e reservados, e só depois de concluído é exposto ao receptor. E fica, mesmo na ausência do autor, para ser visto, interpretado, apreciado. O feed-back do receptor, a acontecer, é muito posterior à criação da mensagem, criando um hiato bem grande entre os dois momentos.

Por outro lado ainda, a materialização da mensagem implica matéria-prima para a produzir. E conhecer as suas técnicas. E custos na sua obtenção.
Enquanto que a oralidade, a gestualidade e demais formas de comunicação imediatas se podem fazer com recurso a poucos ou nenhuns objectos ou consumíveis (cantar, falar, dançar, assobiar, percutir…) a materialização de mensagens implica papel, tinta, caneta, telas, pedra, cinzéis, câmaras, películas, químicos, arquivos… E todo o que é necessário para os produzir e obter.

Por fim, consideremos que a comunicação gestual ou sonora é também um factor social.
A música, a palavra, a dança junta quem com a forma ou conteúdo se identifica. Por motivos culturais de hábito ou contestação, por interacção social nas relações materiais ou de género, com códigos e manifestações de um-para-todos ou de todos-para-todos, como pode ser um recital, um hino nacional, o baile da paróquia ou uma declaração de amor.
Já a comunicação materializada não é agregadora. Ninguém se junta em torno de quem escreve, pinta ou esculpe. Ou fotografa. Mesmo o usufruto do trabalho final é individual ou muito pouco gregário.

Introduza-se agora o factor idade e juventude!
Os jovens são, por natureza, aprendizes, experimentadores, consumidores rápidos, buscadores de sensações e de identidade individual e colectiva.
Durante a infância e juventude, o ser humano está a aprender as regras e códigos da sua sociedade, quer se trate das interpessoais ou técnicas e práticas de produção e sobrevivência. Numa primeira fase da vida segue exemplos, numa segunda contesta-os, procurando a sua própria forma de ser e estar.
E porque a sociedade é complexa nas suas interacções e tecnologias, estas experiências passam por inúmeros falhanços e algumas vitórias pelo caminho. Assim, há que ir experimentando para alterar esta relação, aumentando o número de satisfações e reduzindo as insatisfações.
Na comunicação, em que o feed-back é vital para a obtenção da satisfação, os processos morosos e de retorno tardio não são os mais recompensadores. Este atraso redunda em insatisfação e é dela que o jovem foge.

É assim, por tudo o enunciado, que vamos encontrar a maioria – a grande maioria – dos jovens envolvidos em processos de comunicação imediata, com um atraso no feed-back pequeno ou nulo, quer seja enquanto consumidores ou enquanto produtores de mensagens. A comunicação sonora ou gestual.
Todos eles passam, até porque faz parte do processo de aprendizagem socialmente instituída, pela materialização da comunicação. Aprendem a escrever e ler, desenhar e esculpir e também a fotografar.
Mas acabam por as abandonar, pelo timing do feed-back, pela tardia maturação do órgão sensorial e processos associados, pelos custos da matéria-prima, por não servir como acto social.

É evidente que alguns há que se mantêm como utilizadores destes processos.
Porque encontraram satisfação na actividade, porque são precoces, porque têm acesso aos meios de produção ou por não necessitarem de uma afirmação social e pessoal do mesmo cariz dos demais do seu grupo etário. Mas são poucos!

Nos tempos que correm, na chamada “sociedade de informação”, as coisas estão a mudar!
A facilidade de produção da comunicação materializada – no caso da fotografia, a digital e o custo zero na produção de imagens -, a rapidez e imediatismo na produção e exibição das imagens – internete, telemóveis -, o facto de ser novidade e moda – o que define grupos de identificação e, de alguma forma, de contestação à geração anterior – faz com que cada vez mais jovens usem a fotografia como forma de expressão e comunicação.
Em tentativas mais ou menos “artísticas” (o que quer que isso seja), apenas porque apetece fazer ou porque apetece mostrar, o fazer da fotografia é agora fácil, rápido, de feed-back quase imediato e de satisfação bem mais atingível.

Esta nova geração da informação e digital produzirá, espero eu, um muito maior número de fotógrafos/comunicadores de qualidade.
Assim tenham a oportunidade de o tentarem, errarem, satisfazerem-se e aprenderem. E pensarem em profundidade no que produzem e comunicam.
E isto depende, em regra, de um factor não tecnologicamente modificável: tempo de vida!

Texto: by me
Imagem: edit by me

Como ilustrar?


Não chegava a um metro e setenta. A sua barba era branca e estava de acordo com o graduado dos óculos de aros grandes e quadrados. O cão que trazia pela trela quase que lhe arrancava o braço, de seco que era de carnes.
Quando se aproximou, meteu conversa. O artefacto ali exposto é, quase sempre, motivo de conversas com o seu utilizador, de sorrisos de memórias distantes ou de apartes para os companheiros de passeio. Mas os oitenta anos deste passeante não perdoaram e acabou por se sentar no banco de jardim.
Passado um pouco de bate-papo de recordações, eis que, do outro lado do coreto, surge uma cara conhecida. Já por lá tinha passado várias vezes e muitas tinham sido as horas de conversa filosófico-política. Um dos seus entreténs é tentar desmontar a afirmação do fotógrafo em ser anarquista.
Na sua companhia vinha um gigante. Não um mitológico, mas media, bem medidos, um e noventa e cinco. Para cima.
Fotógrafo e câmara são apresentados, como figuras raras mas já típicas do local, com um comentário “Não te tinha dito?!”
Conversa vai, conversa vem e, a propósito de qualquer coisa, falou-se de basquetebol. Que o mais alto dos dois Luíses tinha praticado há uns bons quarenta anos.
E o pequenino, lá do banco com o cão ao lado, salta como que picado:

“Basquetebol? Você praticou basquetebol? É que, sabe, eu fui seleccionador do Clube Tal! Sou o Carvalhal!”
“Nem me diga! Quando? Então deve-se lembrar de mim, que treinámos e jogámos juntos!”

E lembrava! As memórias conjuntas jorraram como que fresquinhas: nomes, lugares, encontros e resultados. Fotógrafo e visitante habitual ficaram de fora, que nada daquilo lhes dizia respeito, a não ser a satisfação daquele encontro fortuito e improvável.
Dos relatos distantes resultaram nomes e encontros recentes e foram reforçados por telefonemas para outros dali ausentes mas que tinham partilhado lugares e experiências. E trocas de números de telefone.
Antes de se separarem, os dois para um almoço com terceiros, o mais pequeno com o cão para casa, deixou o conhecido uma pergunta:

“E agora? Como é que vai registar este encontro? Nem uma fotografia dos dois juntos faz?”
“Não! retorquiu o fotógrafo, Como mau repórter, fico-me com as memórias e as letras, mais tarde lançadas no papel. Depois logo penso numa imagem!”

Aqui fica, deixando as recordações e o reencontro para quem o viveu.


Texto e imagem: by me

Convivências comerciais


By me

sábado, 17 de julho de 2010

E se ela....


... vestisse de amarelo?



By me

A dúvida é...


... cadê o bicho?



By me

Perdidos e achados


Quando, há uns anos, mudei de casa, andei furioso meses a fio!
Ainda que tivesse sido razoavelmente cauteloso no empacotamento e organização da tralha em mudança, acabei por constatar que tinha perdido no processo uma pinça!
“Absurdo!”, direis vós “Que importância tem uma pinça? De uma forma ou de outra, não passa de uma ferramenta e o mais fácil é arranjar outra, que até não são caras!”
Verdade! Na área de pinças e outras ferramentas para trabalhos miúdos, tenho de sobra, algumas mesmo tão especializadas que nunca as cheguei a usar fosse em que trabalho fosse. Mas esta…
Esta era uma genérica, de bom aço e mola, ao tamanho certo da mão e nem precisava de pensar para a fazer chegar ao local certo para segurar ou largar um parafuso minúsculo ou aquela mola que salta sempre para o local mais inapropriado. E só ver de um olho não ajuda a coisa!
Acabei por quase esquecer o assunto até que um dia – Óh alegria suprema! – encontro-a escondida num reprega de um saco de viagem que raramente uso. Não, não dei dois saltos nem a beijei, mas que fiquei contente, isso fiquei.
E aqui está ela, a sua pontinha quase impoluta e inalterada, com mais de vinte anos de usos vários, nem sempre os mais delicados.
O que segura ela? Um pedaço de vidro, quase esférico de um lado, quase plano do outro, encontrado um destes dias na rua. A seu lado, uma estrelinha de metal, encontrada da mesma forma.
Eu não ando com o nariz enfiado no chão, em boa verdade. Mas naqueles momentos de pausa, aguardando seja o que for ou com a mente bem lá longe na busca de uma frase ou solução para um tema, os olhos vagueiam e, volta e meia, prendem-se em coisas surpreendentes.
Suponho que a estrelinha fizesse parte de um qualquer fio de bugiganga. Agora a peça de vidro, nem consigo descortinar qual a sua utilidade.
Mas certamente haverá alguém entristecido pela ausência destes dois objectos, tão inúteis ou tão preciosos quanto a minha pinça!

Se conhecerem alguém que os esteja a chorar, dêem-lhe o meu contacto que os enviarei com prazer.


Texto e imagem: by me

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Contive-me


Nos comboios da linha de Sintra, Lisboa, os bancos são geralmente verdes. Uma espécie de veludo de cor base verde com um desenho repetido do logótipo da CP. Nas carruagens não motorizadas são 48 os lugares sentados.
Na coxia e na janela, frente a frente, em grupos de três nos topos, há de tudo. E cada um tem o seu lugar preferido, função da comodidade, do acesso à porta, isolamento, de frente ou de costas para o trajecto…
Mas há oito lugares que são vermelhos. Do mesmo tecido e padrão dos demais mas de cor vermelha. São desta cor para assinalar que se trata de lugares prioritários ou reservados a portadores de deficiência, grávidas e acompanhantes de crianças de colo.

Para já, lamento que haja necessidade de haver lugares reservados. Cada viajante, cada cidadão, deveria ter plena consciência de quem com ele viaja e ceder o lugar a quem dele necessite efectivamente, sem que tenha que haver regras para o definir!
Talvez num futuro não muito distante isto possa vir a ser verdade.

Mas o que é patusco, verdadeiramente curioso, é a cor escolhida.
Nos códigos ocidentais, mas não só, a cor vermelha foi eleita como a cor do perigo, da proibição, do mal e do pecado.
A sinalização para viaturas ou pedestres assim o indica, quer se trate de sinais passivos ou activos.
Ou, indo mais longe, a lanterna vermelha que, pendurada sobre uma porta, indicava um bordel, uma casa de pecado. Tal como o próprio Diabo, que dizem usar uma capa vermelha.
Mas o código usado para um assento, vermelho entre outros de cores diversas, indica genericamente que é proibido lá sentar, excepto alguns em particular. E é interessante observar quem nem nele se senta ou tudo faz para o evitar.

Há uns tempos, já depois do anoitecer, viajavam nesses mesmos dois bancos, um homem e uma mulher. Bem na minha frente. Suponho que fossem Cabo-Verdianos, já que falavam entre si Crioulo.
É uma língua estranha para um português, já que usa termos lusos e outros de origem bem distinta.
Da conversa destes dois apercebi-me apenas de alguns pedaços soltos, cujo resultado seria qualquer coisa como isto:
Argumentava o homem que a reserva ou proibição de sentar naqueles bancos vermelhos só se aplicava nas horas normais de expediente.
Segundo ele, só nesse período é que os portadores de deficiência, grávidas ou acompanhantes de crianças de colo tinham forçosamente que viajar. Fora desse horário seriam iguais a todos os outros, não havendo lugar a qualquer reserva.
Junto com as gargalhadas surdas que me estremeciam, um outro sentimento me invadiu:
Quebrar um dos vidros assinalados como saída de emergência e fazê-lo sair por lá com o comboio em andamento!
É uma urgência, uma necessidade imperiosa que este cavalheiro, e outros como ele, entendam que a sociedade se compõe de indivíduos, todos diferentes na língua, na cor, na mobilidade, e noutras características individuais. Tal como ele. E que compete ao conjunto atender às necessidades específicas de cada um.
Talvez depois de uma saída intempestiva ele mesmo se transformasse num portador de deficiência e entendesse que ela não escolhe horas nem locais: está sempre!
Mas contive-me. Nem gargalhei nem o vidro ou os seus dentes se partiram.
Com grande pena do pedaço de rebelde que há em mim.


Texto e imagem: by me

Janelas fotográficas


Para nós, ocidentais, membros integrados da sociedade da imagem e fotógrafos, a fotografia damo-la de barato.
Quer seja a ver quer seja a fazer, a fotografia faz parte das nossas vidas e mais ou menos um carregar no botão é um acto banal. Tal como é banal lidarmos com fotografias, nos media, nos álbuns, nos computadores. Seja de coisas e lugares desconhecidos, de recordações de gentes e locais, de nós mesmos. Haverá mesmo, como me foi confessado em conversa informal, quem as rasgue por não gostar do que si nelas via. Aquela memória não a queria!
Mas, as mais das vezes, não nos apercebemos que a fotografia não é universal, nem geográfica, nem culturalmente e, importante da mesma forma, nem economicamente.

Eles eram dois.
Com um ar sujo e um olhar acossado, que lhes dava uma maturidade que em nada correspondia à sua juventude de 16 e 15 anos. A nossa comunicação foi francamente difícil, que de Búlgaro nada sei e eles de português menos que nada. No final, acabámos por falar em inglês, que o de um deles ainda dava para tal, ainda que igualmente muito fraco.
Pois quando souberam que as fotografias eram grátis – palavra quase universal – não resistiram e quiseram fazer. Questionados sobre se queriam uma dos dois ou duas individuais, optaram pelas segundas, que sempre seriam duas fotos que levariam.
Depois de as fazermos, de as receberem e de preenchido o inquérito, conversaram um pouco entre eles e quiseram fazer outra, agora em conjunto. Disse-lhes que não, que grátis seria apenas uma e que as seguintes seriam pagas. Á falta de dinheiro, recorreram a argumentos, alguns engenhosos e com o recurso à ajuda divina, mas fiquei na minha. É assim que funciono e as excepções têm que ser muito bem justificadas, o que não era o caso.
E afastaram-se ali para o lado, para a relva, com os seus odores bem fortes, com os seus sacos maltrapilhos e os seus sorrisos de meninos-homens.
Passado um pouco, e porque havia pouca gente pelo jardim, reparo neles de novo. Deitados na relva, de barriga para o ar e a cabeça assente na bagagem, entretinham-se a observar as fotografias recém feitas. Mais de perto, mais de longe, vendo, apontando e mostrando ao companheiro os detalhes, deles mesmos ou da paisagem.
Pela forma como as viam e como, mais tarde, as guardaram nos sacos informes, aquelas fotografias eram quase como que um tesoiro, imprevisto e precioso. E quando, mais tarde ainda, e depois de terem ali dormido a sesta, um à vez por segurança, a forma como passaram por mim ao partirem e se despediram apenas reforçou a minha certeza: a importância daqueles papeis coloridos que levavam nos sacos. Junto com a sujidade, a evidente fome e aqueles olhares – imberbes - que os colocam numa vivência que desconhecemos de perto. Nós, que lidamos como a fotografia como eles com restos e moedas de cêntimo.

Esta imagem que vos mostro foi feita quando eles repousavam na relva, vendo as fotografias. Aperceberam-se do retirar da DSLR do saco e do apontar a 400mm e, sem hesitar, “fizeram-se à fotografia”. Não era esta que eu queria fazer, que preferia tê-los a ver as fotos.
Mas talvez assim seja melhor. Para estes sem abrigo certo a menos de uns milhares de quilómetros, a descontracção na relva e o respectivo registo seria uma invasão da sua privacidade, que não têm. E vieram espreitar por sob uma cortina inexistente, da sua casa sem paredes, para ficarem na janela do meu enquadramento burguês.
E, como costumo dizer em tom de brincadeira mas cada vez mais a sério, não sei quem, neste negócio de fotografias grátis, fica a ganhar: Se quem as leva se quem as faz.


Texto e imagem: by me

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Catita


A Catita era uma pacata jumenta que residia com meus avós, no Algarve. De bom feitio, prestava-se sem grandes protestos aos pouco carregos que lhe eram pedidos ou às raras vezes que tinha que puxar a charrete amarela e vermelha em que os meus avós se deslocavam às aldeias vizinhas em visitas familiares.
Encontrava-a todos os anos quando por lá ia passar as férias de verão.
Rotina diária era ir pôr a Catita ao pasto no final do dia e ir buscá-la de manhãzinha. Ficava ao relento, com umas peias e uma espia numa estaca, dando-lhe um raio de acção de uns 25 metros.
Acompanhava eu o meu avô nessa rotina, orgulhosamente montado na manta de riscas que a cobria. Já conhecia os truques e técnicas, de tanta vez o fazer.
Um dia quis ser grande. Quis ir buscar a Catita sozinho. Não me queriam deixar, mas tanto insisti que acabei por levar a minha avante.
Em lá chegando, cometi um erro fatal: retirei-lhe as peias e a espia antes de lhe colocar o cabresto.
Ora a bela da Catita, que até era pachola, apanhou-se livre como nunca e pirou-se. Correu pelo restolho fora, atravessou o pomar vizinho e quase me fugiu de vista.
E digo quase porque não fiquei inerte. Assim que ela desembestou, percebi o que tinha feito, peguei no cabresto e vá de correr atrás dela.
Agora tentem lá correr por cima do restolho e torrões rijos, com um cabresto na mão e a respectiva arreata rojando no chão. Isto tentando igualar a jumenta na corrida.
Dei vários trambolhões em cima daquele restolho aguçado e cortante, mas nunca esmoreci.
Acabei por a apanhar numa vinha próxima, onde a Catita se deliciava com as uvas ainda frescas da madrugada.
Já encabrestada, regressei pelo mesmo caminho a fim de recolher as peias, espia, estaca e manta e voltar para casa.
À chegada, e perante o meu atraso, já meu avô se preparava para me ir buscar, junto ao portão que separava o quintal calcetado da estrada asfaltada.
Em face do meu estado, pouco me foi dito. Os meus calções e camisa rasgados, o peito, braços e pernas escorrendo dos arranhões profundos e o meu olhar cabisbaixo foram castigo mais que suficiente. Isso e a desinfecção que o meu avô, ex-enfermeiro do exercito, tratou de me fazer.
E nunca mais se falou em eu ir buscar a Catita sozinho.
Mas aprendi a lição: Procedimentos de segurança em primeiro lugar.


Texto e imagem: by me

Amor com amor se paga


Tenho que admitir que fui mauzinho, mas não resisti!

Vi-a aproximar-se. Fins dos 60’s, principio dos 70’s, bem vestida e com um andar firme. Ao passar pelo chafariz (avariado e sem torneira, por sinal), parou. Deu meia volta, abeirou-se de um canteiro florido e colheu um ramalhete. Não uma nem duas mas um ramalhete de flores.
Não gostei! Não gostei nem um bocadinho! Claro que elas estão ali, sem redes nem guardas. Mas tenho para mim que, ainda que sejam pagas pelo erário público, ou por isso mesmo, as devemos lá deixar ficar, para nosso prazer e dos que em seguida vierem. Mas como ela não terá sido a primeira nem, infelizmente, será a última, deixei-me ficar, registando para mim o facto. Nada mais.
Depois de as ter composto na mão, retomou a marcha. Para os meus lados. E quando deu com os olhos no meu artefacto, inflectiu o rumo e aproximou-se.
Às saudações habituais, de quem está bem disposto consigo e com o mundo, acrescentou a questão de, estando eu por ali, porque não iria eu também ao Jardim da Parada, ali em Campo de Ourique?
Lá lhe respondi, cortês mas sem grandes sorrisos, que gosto mais do da Estrela (ainda que já lá tenha estado e até nem me tenha desagradado. É uma alternativa possível.)
Quando me perguntou pelo preço, não perdoei! Disse-lhe que eram grátis mas não roubadas, como as flores que tinha na mão! E que se todos fizessem como ela, nenhuma restaria para vermos e gostarmos!
A resposta? Bem, foi sublime!
Disse que sabia ser pecado; Que antes mesmo de as arrancar tinha pedido perdão a deus; Que eram para a sua neta, pelo que seriam para uma boa causa; Que ela mesma até era muito piedosa, alimentando mais de vinte gatos vadios lá na rua dela, sem pedir nada a ninguém.
Os deuses perdoam, os burros esquecem! Não sendo eu nem uma coisa nem outra, quando acrescentou que haveria de passar por ali de novo, desta feita com a neta, para “tirar” uma fotografia, sempre lhe disse que logo se veria se me apeteceria ou não fazê-la.
Olhou para mim uns segundos, sorriu como se tivesse acabado de me perdoar de uma terrível blasfémia e seguiu o seu caminho sem mais uma palavra.

Não sei se lhe recordarei a cara caso regresse daqui a uns dias. Mas se a memória me não falhar e ela voltar, fotos minhas de borla não terá!
Manias minhas, que até gosto de ver as flores nos jardins!


Texto e imagem: by me

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Complexo de invisibilidade


Já vão sendo poucos no panorama da restauração portuguesa. Poder-se-há mesmo chamar-lhes “uma espécie em vias de extinção”.
Os balcões sinuosos, com baixelas, garrafas e empregados de um lado, bancos de pé alto e clientes do outro, faziam de ponto de encontro, refeições ligeiras, ou consumo de líquidos (a granel, da maquina ou pré embalados).
Os clientes habituais das manhãs ou tardes, entre refeições, iam ocupando os bancos com um copinho ou taça pela frente, partilhando o balcão de madeira com o jornal e comentando-o com quem, do outro lado, ia arrumando talheres e pratos, ou com quem, mais ainda do outro lado e sentado de frente, ia lendo outra versão dos mesmos acontecimentos.
O facto de se partilhar a barra ou balcão com outros clientes, lado a lado ou frente a frente, se bem que quebrasse a intimidade do momento do repasto, permitia partilha-lo e às conversas, sendo frequente conhecimentos que se aprofundaram fruto desta informalidade do snack-bar.
Hoje sobraram os “open-space” dos centros comerciais onde, nas horas de aperto, se vêm os comensais de tabuleiro na mão, vagueando de olhar no horizonte, em busca de um almejado lugar vago. E fecharem-se sobre si mesmo nas mesas rápidas de comida plastificada.

Nessa tarde havia tempo até ao relógio de ponto. Com alguma conversa pendente, fomos então até às lambretas, como chamávamos àquela forma de sentar nos bancos.
Era a altura de mudança de turno e nós os únicos clientes ali sentados, mesmo na curva do balcão. Era o melhor lugar, já que dali dominávamos todos os demais lugares vazios. E não tínhamos que rodar tanto a cabeça para falarmos.
Os empregados que estavam de saída empurravam-nos para os que entravam, e vice-versa. O jogo do empurra, típico do Português.
A repetida expressão “Oh faxavor!!!!” era inútil. Passavam lá ao fundo, entretidos com qualquer actividade particularmente importante como o empilhar os pratos ou dobrar os guardanapos, e o seu olhar passava por nós como por uma vidraça. Ouvidos moucos, olhares cegos e bocas mudas, tal como os macaquinhos…

A dado passo ergo o chapéu (o de chuva, que o outro não surtiria efeito), abro-o por cima da cabeça e assumo um ar encolhido e infeliz.
Rapidamente o gerente se aproxima, fazendo a gincana nas curvas do balcão, indagando o que se passava. A minha resposta foi esclarecedora:

“Estavam a demorar tanto tempo a atenderem-nos que receei que o prédio nos caísse em cima de velho. Apenas me protegi enquanto espero…”

O sorriso amarelo que lhe surgiu nos lábios apenas se igualava ao de um catraio apanhado com a boca na botija ou a mão na caixa das bolachas.
Fomos servidos de imediato e continuámos bons clientes e amigos como dantes. E nunca mais sofri do complexo de invisibilidade ali dentro.

Hoje, o balcão e as lambretas foram substituídas por mesas e cadeiras banais, de pinho disfarçado de faia.
Só se distingue dos seus iguais pelos degraus que a ele conduzem e por ainda ter em frente a montra e a porta de uma livraria.

Texto e imagem: by me