domingo, 28 de fevereiro de 2010

Meia na linha


Confesso que nas linhas de caminho-de-ferro tenho visto de tudo um pouco. Do espectável ao inesperado.
Mas admito que meias (e perto desta estava a sua irmã) não contava ver de forma alguma.
Mais ainda: o facto de ali estar o par completo deixa de parte o terem lá ido para por força do vento, que dificilmente este as arrastaria para um mesmo local.
Pergunta-se então como raio alguém atira, ou deixa cair, um par de meias para a linha:
Terá trocado de calçado ali mesmo, na estação?
Terão caído de algum saco? Mas nem sequer estavam atadas ou presas por alguma etiqueta!
Viajar de comboio é, para além de cómodo e divertido, um bom motivo para pensar e colocar a imaginação a trabalhar.


Texto e imagem: by me

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Avé!


É um grupo que funciona em pirâmide.
O seu topo é ocupado por uma pessoa, escolhida entre os que ocupam o patamar imediatamente abaixo. O cargo é ocupado vitaliciamente. Por seu turno, os elementos desse segundo nível são escolhidos pelo líder máximo. O grupo possui ainda diversos outros níveis hierárquicos, sempre nomeados por algum superior. A admissão ao nível mais baixo desse grupo processa-se após aturados estudos por parte do candidato e mediante provas dadas.
Há um outro grupo, também em pirâmide.
O seu topo é ocupado por uma pessoa, escolhida por entre todos os elementos desse grupo, seja qual for o posto que tenham. A ocupação do cargo é a prazo, sendo que, regularmente, todos são chamados a fazer a escolha. Entra-se para este grupo pelo nascimento.

Os dois grupos acima descritos são, respectivamente, a igreja Católica Apostólica Romana e a República Portuguesa. Os cargos em questão são, obviamente, o de Papa e de Presidente da República.
E os eleitores são, também pela mesma ordem, o Colégio Episcopal e o Povo Português.

O que é curioso é que o relevo que será dado pela comunicação social à próxima visita papal ao nosso país já é, a mais de um mês de distancia, bem maior que o dado às candidaturas que se vão fazendo anunciar para o cargo de presidente da república.
Enfim, não será igual para todas! Se o candidato vier de um partido político, ainda que meio dissidente, é referido o seu historial e acompanhados os seus passos, com direito a tempo de antena nos principais noticiários televisivos.
Agora se o candidato não for originário de um partido político, tão fechado na sua organização interna quanto a igreja, então será votado para os canais temáticos, a deshoras e por pouco tempo.
Porque, e é sabido, as eleições não se ganham ou perdem em função das vontades dos eleitores. Dependem, antes sim, de como os media apoiam ou rejeitam cada candidato, fazendo o papel fantasma de supremo decisor, empurrando o comum do cidadão, seja ele um eleitor ou um crente, para o seu lugar de mera ovelha no rebanho.


Texto e imagem: by me

Porque me apeteceu


Porque me apeteceu exibir esta já antiga e porque me apetece ter oportunidade de voltar a ver a natureza a exibir-se desta forma.


Texto e imagem: by me

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

About confusion circle


Before someone asks, let me try to explain what “confusion circle” is.
I’m not an expert on the subject. So, if anyone finds an inaccuracy, please correct me. As well as with my poor English.

When we talk about light and lens, we are assuming some geometrical and ideal situations. The truth is that we can not reach that perfection when building something! Our lens has not the perfect curved surface that we desire. Somehow, in a very, very, very small scale, our lens hasn’t a perfect polished surface, but an irregular one.
This means that three light rays, with some geometrical point as source and crossing a lens, do not reach the target on the exact same point, due the surface different angles they have when entering and leaving the lens. And when we increase the number of rays, the area reached by them also increase.
To that area, not being a geometric point, they call the “Confusion circle”.
If this circle is too big we, the users, call it “out of focus” or “less defined image”.
This lack of definition increases with the curve of the surface. But also increases with the distance between the focal centre of the lens and the target. The bigger it is, the bigger the error, due the original difference of angle when emerging from each surface.
So, the lens designers try to correct this using several elements, each one with less curved surface. And adding some chemical treatment, or coats, to the surfaces, in order to get the most perfect curve they can.
That is why we get a bigger “deep of focus” when closing the diaphragm: we are using less light rays and, so, reducing the “confusion circle”.

But there is another thing that also may increase the “confusion circle”.
Light is composed of several wave lengths that, according to what they cross or what they are reflect from, we call “colour”. And each wave length has its own speed. This speed differences are used to measure astronomical distances.
But when light cross the border between two different materials, like air and glass or water, each wave length has its speed differently changed. And that is perceptible on their emerging angle. We all do that when creating a rainbow with a prism, as we did in school.
This light behaviour implicates different points for each wave length when reaching the target. And increasing the “confusion circle”.
Lens designers try to correct this by using different “refraction index”, using one different glass quality on each lens. And using different chemicals for the coats they apply over the surfaces. That is, they try to adjust the different wave length speeds.
What happens is, when doing that, they also change the overall contrast of the resulting image, as well as the colour saturation. That is why we have some lens with better resolution than others and some lens with “better colours” than others.

The admissible “confusion circle” differs with the use we give to the image. The ratio between the original target (film or sensor) and the final image size is the main factor. The bigger the ratio, the less admissible “confusion circle”. That is why we need for huge prints, and besides the pixel or grain issue, perfect lens. Those that has the smaller “confusion circle”. And, of course, the most expensive ones.
The image above was done some 20 years ago, on slide and using the most simple lens one can conceive: one magnifying glass, fixed on a extension and adjustable tube and all that fixed on my SLR camera. No correction lens, no multi coats over them. And the confusion circles became lack of definition.

You may now ask if all this is important. Or if a genius photographer (or painter) knows all about wave lengths, confusion circles and so on. They probably don’t, since they have what can not be learned: creativity! Or art, if you prefer.
But it may help us (at least it helps me) to understand what I am doing and trying to get further, using techniques instead of that spark of art that I don’t have.

As I said in the beginning, I’m not an expert on the subject and any extra information or correction is mostly welcome. As well as with my English.


Texto e imagem: by me

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

PLINK


That’s all I heard: PLINK!
And when I looked down, there it was: this broken UV filter!
I had to think for a good while until I understood it all. It was a tiny little rock that jumped from a moving well’s car and hit my camera, just in the lens.
Ever since I can remember I have a UV or a Skylight filter on my lens. I never cared for those who argued that it cuts some of the light radiations and modifies the resulting photograph. I never paid attention for some voices, arguing that UV filters, as well as any other filter, are a way to reduce the final image resolution.
I use UV filters to protect my lens, either from moisture and dust, as well as from scratches when cleaning the lens. And no one will ever persuade me not to use them.
I still have the cracked filter. Why? Well, it is the factual proof of this little story. And, maybe, an extra reason for you to have the same precautions.
Believe me: this PLINK was one of the worse sounds I ever heard!

Texto e imagem: by me

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O ovo


Ainda alguém se lembra do uso dado a estes ovos de madeira?
Tão ou mais difícil ainda: alguém ainda encontra onde comprar um?
Nota: O mesmo objecto, visto de três lados e sem edicção electrónica.

By me

sábado, 20 de fevereiro de 2010

I can't remember


It’s amazing what we do remember when looking to our own work, done long time ago!
I shoot this in early 80’s, when I had to fight with my parent’s furniture in order to have room to photograph. I still have the same kind of fights, this time with my own furniture.
I remember using my Linhoof Color Kardan 4x5 , with a Xenar 150mm f/4.5, over Agfachrome tungsten balanced. I got the camera for some advertising work and, if I do well remember, I stop doing it because art directors and my self didn’t share the same aesthetical concepts. Now I think they had some good points, but I was young, then.
I do remember this photo being done for a challenge. The idea, among this group of fellows young photographers, was advertising something, more because of it’s use than it’s brand name.
I also remember using a bottomless bottle. I cut it with olive oil and a burning wire. I never tried this technique before and I was lucky doing it at the first attempt. But I had two more bottles, just in case. For the shoot, I fixed it on a stand, at the desired position, and pored the water (What do you think? I use Vodka to drink, not to make photographs!) when and how I wanted.
I remember that I did not use real ice cubes. They would melt due the light source’s eat. So, I build some fake ones, using uncoloured jelly and water, and moulded like ice in the freezer.
I do remember not having money enough to buy a Gossen punctual light meter for large format camera. So I had to use my hand held Seconic for general readings and controlled the contrast with my Pentax Spotmeter. I still have then both and give them a good use.
I do remember doing just one photo, being absolutely sure of the results, unlike what we do, now a days, with digital cameras.
I do remember dreaming of a Polaroid back and having no money for it. Further more, we could not found one for sale, here in Portugal. The only occasions I use one was for serious advertising work, borrowed from a friend who had a photo school.

What I do not remember is where I stored the original 4x5 diapositive. I looked and looked around and I can’t find it! All I have is this printed copy. Cropped then as I wanted, since it doesn’t have the original proportions.
However I do remember, almost as it happened yesterday, the fun I had doing it. As well as the satisfaction when looking at the diapositive, the following week.
Memory can make us this kind of practical jokes. But, maybe, the most important is the “doing” not the “having” it!

Texto e imagem: by me

Só algumas linhas


Com alguns pontos e formas, mas sem palavras.

Não texto e imagem: by me

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sobre as presidenciais


As eleições presidenciais estão a um ano de distância, mas já se vão esgrimindo argumentos. E, pela classe dos que vão surgindo sobre os já declarados candidatos ao cargo, se antevê que a contenda não será nada pacífica!
Surgiu a candidatura de Fernando Nobre. E, a esse respeito, e numa entrevista a uma rádio, Alfredo Barros, antigo chefe da casa civil de Mário Soares, afirma o que se segue, retirado do jornal Público:

Alfredo Barroso, antigo chefe da Casa Civil de Mário Soares, criticou hoje a candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República e classificou-a como “insólita”.
Em declarações ao Rádio Clube, Alfredo Barroso considerou que o candidato não tem preparação nem currículo para o cargo de chefe de Estado e defendeu que lhe falta passado político para ser presidente da República. “Para mim é um pouco insólito que uma pessoa que como ele se entregou à acção humanitária ao longo de uma vida queira de repente disputar um lugar que exige uma preparação política e um currículo e um passado que ele manifestamente não tem”, afirmou.
Depois, o antigo responsável falou também de Manuel Alegre, para dizer que tanto o histórico socialista como o presidente da AMI são “dois populistas de esquerda” que se candidatam à Presidência da República para ajustar contas. “Tenho um certo receio dos candidatos que se apresentam a defender valores acima dos partidos ou além dos partidos. Quanto as candidaturas assentam nas críticas e no distanciamento fazem sempre suspeitar de populismo e demagogia”, acrescentou, também a propósito da corrida para as últimas presidenciais, em que Alegre concorreu sem o apoio do PS e contra Mário Soares.

Pergunto-me se a lei portuguesa não define que as candidaturas ao cargo de Presidente da República dependem de um dado número de assinaturas a apoia-la e não, como parece ser aqui defendido, do apoio de partidos políticos.
Pergunto-me também porque carga de água terá o país – e todos nós - que depender de partidos políticos que, ao que sei, são organizações privadas, onde a admissão depende do apoio de um já membro, e cujo funcionamento, para além de ter uma estrutura interna rígida, acontece à margem das vontades (por vezes conhecimento) dos restantes cidadãos. É que, ainda por cima, não é possível aceder ao poder legislativo sem se pertencer a uma destas organizações, privadas como já disse.
Não estou a defender esta ou aquela candidatura. Mas qualquer cidadão nacional, no pleno usos dos seus direitos, se pode candidatar e ver o que o povo escolhe. Tenha os apoios que tiver, de partidos, de movimentos cívicos, de um clube de futebol ou do que quer que seja.
Talvez que faça sentido este senhor, que ocupou o cargo que ocupou, repensar o seu conceito de democracia e o que sabe e deixa de saber sobre a constituição da República Portuguesa.


Texto e imagem: by me

WC chain

Between the tripod and monopod, at one side, and the Shake Reduction system on the other, either on the sensor or on the lens, there is this other devise that aloud us to have some extra steadiness on our camera.
I learned about it in an old almanac, I guess it was from the 30’s. And when I read it I had the same kind of doubts you will have. However, I gave it a try and I became with a useful and uncommon gadget. I call it the “WC Chain”!
How it is build: get a chain, a small one just like those used on old WC flushers. It should have 2 metres, or some more if you are a really tall person. Fix it to a screw, the same size as the fixing hole on your camera. If you have a fast fixing system, as I do, add a small hook or mosquetere some links below.


How to use it: Fix it to the camera; let the chain fall down to the ground; eye level the camera and lower it just a bit; firmly step on the chain; push the camera up. And that’s it!
You just won some one to two stops, with experience two to three stops.
This “WC chain” is as cheap as it can be, as light as it can be and as small as it can be. We can forget it into a lost pocket on our bag, lady’s purse or vest, but is always handy when the light is low and we can’t use a tripod. Either because we are on vacations and didn’t want to carry one, or because they don’t aloud us to have one, like in some music shows and so.
I don’t use this on long lens because, beside my own shake, there is the shake produced by its weigh and this does not absorb it. But for a pocket or a compact camera and for a wide angle to a medium long lens, is perfect.
Two to three stops are guarantee!
Now, get ready for some strange looks when you fix and use it with your camera. It sure isn’t the most common thing seen in photography world. But, are we, photographers, common people?

Texto e imagem: by me

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Preocupações


Começo a ficar realmente preocupado!
Há uns dias um velho companheiro de vidas e lutas defendeu como compreensível e aceitável o uso de escutas telefónicas, a intercepção e arquivo de correio electrónico e que isto, divulgado no “Youtube”, até que poderia ser benéfico.
Não entendi muito bem se estaria a falar a sério se a usar de algum sarcasmo, que até lhe é usual. Mas se fiquei na dúvida, a possibilidade de estar a ser sincero preocupa-me seriamente.
Mais ou menos pela mesma altura, veio um elemento bem colocado no sistema judicial português (e até bem conhecido por via da mediatização do que tem feito) afirmar que, para sermos livres e vivermos em segurança, devemos prescindir um pouco das liberdades individuais. Falava esta senhora sobre a criação de uma base de dados nacional de ADN, registando aí todos os cidadãos.
Este tipo de afirmação, ou de antecipação, deixa-me bem preocupado. Se, para garantir a liberdade do colectivo devemos restringir as liberdades do indivíduo, se este princípio é aceite, qual é o seu limite? E até que ponto essas informações não serão realmente perigosas se acedidas e usadas por gente pouco ou nada escrupulosa? Está na nossa memória recente, até porque com menos de um século, a tentativa de criar uma raça perfeita.
À época usou-se dos meios disponíveis, que passaram por tentar eliminar fisicamente os que não se enquadravam nesses critérios. Mas com os dados assim adquiridos e a tecnologia actual e o seu desenvolvimento, até que será viável esse desejo megalómano e racista, quiçá mesmo sem recurso a intervenções bélicas e genocídios.
Agora foi um companheiro de trabalho que me deixou preocupado!
Sempre na linha da frente no que toca a intervenção social, sindical e política, tendo apenas 45 anos, afirmou em tom categórico que vai abandonar a luta. Nem greves, nem eleições, nem participações em movimentos cívicos ou políticos.
Diz ele que, se os seus concidadãos não sabem escolher certo, não adianta bater-se por eles, pondo de parte o seu conforto e vida pessoal.
Com estas e outras de indivíduos, bem como com propostas, leis e atoardas de quem, supostamente, nos representa e legisla de acordo com a vontade “soberana” dos cidadãos, fico mesmo preocupado.
Que a defesa das liberdades individuais, do bem-estar colectivo e da integridade da vida privada vai perdendo activistas, vencidos pelo cansaço e pela insistência de uns quantos que teimam em serem os “mandantes”, usando para tal de todos os recursos. À margem da ética, dos interesses de cada um de nós e apoiados numa tecnologia que, devido à sua rápida evolução, também ela escapa às éticas e aos debates filosóficos.
Mas, e para além de preocupado, sinto-me cada vez mais solitário nesta forma de pensar.
Sendo Acrata, não quero impor o que quer que seja a quem quer que seja, seja qual for o método ou objectivo.
Mas também não aceito que me sejam impostos, por decreto ou por cansaço, ideias, comportamentos ou limitações que me coertem na minha liberdade de ser.
E fico preocupado também comigo mesmo! Porque este estado da sociedade me pode levar a passar a barreira da Acracia para entrar na Anarquia. E começar a ter como aceitável a imposição, pela violência, da minha própria forma de pensar.


Texto e imagem: by me

Um olhar


By me

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Frio na estação


Em que estaria a pensar esta mulher, sentada que estava num banco, de manhã, abrigada da chuva miudinha pelo telheiro do cais da estação, mas ao desabrigo do vento bem frio que se fazia sentir?
Vendo-a de longe, imóvel que estava, ainda pensei que estivesse com uns “fones” nos ouvidos, escutando umas quaisquer músicas produzidas num modernaço MP3.
Mas, em aproximando-me, constatei que não, tal como não estava a usar um telemóvel, nem a ler, nem a fazer tricot, nem…
Estava apenas ali sentada, de olhar fixo na parede fronteira, sem que nem um músculo se lhe movesse.
Acredito, porém, que a sua mente estivesse bem longe, muito mais que os destinos possíveis dos comboios suburbanos que aqui passam.
Creio que o seu olhar estava preso nas cores do graffiti, à sua frente na parede do outro lado da linha, e que tentava encontrar nelas o calor que aqui, bem longe da terra natal e neste Inverno bem rigoroso, difícil é de sentir.
E se o corpo não aqueceu, pela certa que a memória, dessa sua viagem imaterial, terá regressado bem mais confortado.


Texto e imagem: by me

domingo, 14 de fevereiro de 2010

A Falsa Gaiola


Ou a Ilusão de Liberdade



By me

Hard to deal with


Can we fake things? We sure can!
This wasn’t taken on a sunny day. Today we had here, in Lisboa, Portugal, a heavy and overcast sky, with some wind and what some of you may call of “warm temperature”: 6ºC! For us, having it at 3.00 pm is really cold.
Anyway, it wasn’t the best day for some tests with my “new”/old lens. Believe me: I had to use gloves, since its focus ring, made of metal, freeze my hands. And, just to give some extra touch, fighting against my cap flap was my flash.
But here it is, made with my Soligor 200mm f/3.5.
It’s lovely to feel all that weight, from the metal and real glass. And it’s also funny to see how my look can anticipate its angle, before looking through the viewfinder.
Full manual, build in the early ’70, I have two adaptors ring, for Pentax and Cannon.
And why was it hidden deep into a case, forgotten for long time?
First of all, I had to block the diaphragm, so that it can work and close. So, full manual, for exposure and focus.
But also it has a minimum focus distance of 3 meters. Nothing that some extension ring can’t deal with, but not practical!
This was shot at a distance of 3 meters, 1/180, f/11, ISO 400, with my flash in manual mode and full power.
I’m waiting for a sunny day to test its contrast under hard light.


Texto e imagem: by me

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Secou!


Enquanto o poder executivo combate o poder informativo, usando o poder judicial como munição e fazendo jogos de bastidor com o poder legislativo, alguém tirou o manípulo depois de fechar a torneira.
E secou!
Um destes dias, escutando nada mais que a vontade e o desejo, haveremos de voltar a dar-lhe cor. Quem sabe se usando o mesmo manípulo para apertar alguns garrotes!


Texto e imagem: by me

Porque hoje é sábado


Sábado, de tarde, num bairro suburbano.


By me

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Ex-estação


Será esta uma boa fotografia? Pela certa que não!
Tem pouca definição, as cores estão deslavadas e a perspectiva não é famosa.
Mas foi o possível de fazer da plataforma de embarque de uma estação de caminho-de-ferro da linha que uso diariamente.
O que aqui se vê é o que resta do edifício da estação. Demolido ontem, quando as temperaturas eram bem mais elevadas, vai dar lugar a um novo complexo de rodovias, zonas pedonais e atravessamentos de via desnivelados. Fruto da modernização da linha de Sintra e da quadruplicação da via desde de Lisboa até ao Cacém. Pouco importante para quem não usar esta linha que abastece os bairros suburbanos da capital.
Entristece-me, no entanto, que na sequência da voracidade do modernismo, da rapidez e do conforto, se destrua o que resta das estações desta linha. Os nossos netos não saberão por certo que havia quartos para os guardas das estações, que havia uma sala de telefone ou telégrafo, e que havia uma sala, de secretária maior que as restantes, reservada ao “chefe de estação”.
Destas estações originais da linha de Sintra, restam dois “faz-de-conta”: A estação do Rossio, transfigurada com plásticos e alumínios, e a de Sintra, que com as novas estruturas, máquinas de venda automática, quiosques para turista e espaço de fast food, se deixou de ver o edifício original.
Claro que as exigências do contemporâneo implicam alterações ao que existe, de preferência para melhor!
Mas, caramba, se para melhorarmos o presente, destruirmos o passado, o que deixaremos aos vindouros que não apenas o que restar dos nossos comportamentos egoístas?


Texto e imagem: by me

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Velharias eternas


Entra Todo o Mundo, homem rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que se lhe perdeu; e algo após ele um homem, vestido como pobre, este se chama Ninguém, e diz:
Ning.:
Que andas tu aí buscando
T. Mund.:
Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando.
por quão bom é porfiar.
Ning.:
como hás o nome, cavaleiro?
T. Mund.:
Eu hei nome Todo o Mundo,
e meu tempo todo inteiro
sempre é busacar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.
Ning.:
Eu hei Ninguém,
e busco a consciência.
Belzebu:
Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
Dinato:
Que escreverei, companheiro?
Belzebu:
Que Ninguém busca consciência,
e Todo o Mundo dinheiro.
Ning.:
E agora que buscas lá?
T. Mund.:
Busco honra muito grande.
Ning.:
E eu virtude, que Deus mande
que tope com ele já.
Belzebu:
Outra adição nos acude:
escreve logo aí, a fundo,
que busca honra Todo o Mundo,
e Ninguém busca virtude.
Ning.:
Buscas outro mor bem qu'esse?
T. Mund.:
Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fizesse.
Ning.:
E eu quem me reprendesse
em cada cousa que errasse.
Belzebu:
Escreve mais.
Dinato:
Que tens sabido?
Belzebu:
Que quer um extremo grado
Todo o Mundo ser louvado,
e Ninguém ser reprendido.
Ning.:
Buscas mais, amigo meu?
T. Mund.:
Busco a vida e quem me dê
Ning.:
A vida não sei que é,
a morte conheço eu.
Belzebu:
Escreve lá outra sorte.
Dinato:
Que sorte?
Belzebu
Muito garrida
Todo o Mundo busca vida,
e Ninguém conhece a morte.
T. Mund.:
E mais queria o paraiso,
sem mo ninguém estovar.
Ning.:
E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.
Belzebu:
Escreve com muito aviso.
Dinato:
Que escreverei?
Belzebu:
Escreve
Que todo mundo quer paraíso,
e Ninguém paga o que deve.
T. Mund.
Folgo muito d'enganar,
e mentir nasceu comigo.
Ning.:
Eu sempre verdade digo,
sem nunca me desviar.
Belzebu:
Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso.
Dinato:
Quê?
Belzebu:
Que Todo o Mundo é mentiroso,
e Ninguém diz a verdade.
Ning.:
Que mais buscas?
T. Mund.:
Lisonjear.
Ning.:
Eu estou todo desengano.
Belzebu:
Escreve, ande lá, mano.
Dinato:
Que me mandas assentar?
Belzebu:
Põe ai mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo o Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.


Texto: in “Auto da Lusitânia”, by Gil Vicente, séc. XV
Imagem: by me

Nenúfar ao sol


Esta fotografia, efectivamente, foi feita noutra ocasião que não agora, em Fevereiro, com tempo de chuva e sem sol.
Mas, caramba, já começo a sentir falta de poder fazer imagens como esta!


Texto e imagem: by me

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Acto fotográfico


Por vezes pergunto-me se, com a super abundância de meios de registo de imagem, com a facilidade com ela é feita, bem como o seu custo zero, as vivências não se tornam mais virtuais, mais dependentes dos visores das câmaras e bem menos das memórias e dos neurónios.
E das emoções, também.


Texto e imagem: by me

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Turning point


Most of us have some story that, somehow, became a turning point, or a starting point, on their activities. This is one of mine.

I was quite young. My experience with photography was very brief and I guess I did it more like a hobby or a fashion thing than anything else.
One night, a friend call me. Her husband was an actor, his play would end next Sunday, and he hasn’t any pictures of it. Could I do some? I said yes, sure!
Next Saturday I was among the audience, in the afternoon, seeing the performance and taking notes in the dark. At dinner, with my friend, we review them, analysing the story and how it was told on stage.
That evening I took the first set of photos, 3 rolls. Next day, in the afternoon, I took another set of 3 rolls, using other perspectives and moments to shoot. And the show ended.
I took care of those rolls as if they were babies. My experience in lab was almost none, the light on the stage was as dim as if it was a funeral and I only had 3 lenses: a 28mm f/2.8, a 50mm f/1.7 and a 75-150mm f/4.
When, a few days after, I return there, with my contacts sheets, I was afraid of his reaction. Technically, it wasn’t such a good job, neither was under an aesthetical point of view.
The actor saw them, the others actors also, as well as the director of the company. And I leave the theatre with the huge number of over 600 copies to print. They loved it.
One week after, when I went there to deliver the prints, the director call me, saw them and invite me to be their permanent photographer, with their exclusive. My ego became bigger than the building, but my surprise wasn’t smaller. Why?
Why did they like so much of my work? What did I so different from other photographers? I talked with other actors and directors, I watch very carefully what was being done then in Lisboa, and I came up with an answer, a strange answer: I hadn’t photographed the actors!
My concerning, while looking at the stage through the viewfinder, was the story, the characters, how they interacted, the props, the scenery, the light, the moods. I didn’t care about their best angle, I forgot about their wrinkles and body shapes, sensual or not. In some photos, their weren’t even pretty, but the story could be seen there.
Through the next three years working with them, I attend their rehearsals, either readings or stage ones. I saw how Mrs Luisa Maria Martins, the director, lead the actors on their performance, how she helped them creating all the background needed so hat the characters could be there with a story behind. And I learned how important the implicit story can be, even more than the explicit one.
I always shoot twice the shows: on the final rehearsal, when everything was ready, from light to wardrobe, from lines known by heart to music and so. And at the premier. I knew the play almost as well as they did, knowing exactly when to photograph. But, much more important, I knew exactly why and what I was photographing.
I still miss Mrs Luzia Maria Martins, that old, very wise and very demanding lady. I still miss the way she make us understand the “whys” so that we knew the “whats” and “hows”.
But, most of all, I became richer, then and now, with the knowledge about the importance of each story on each photograph. Even if it is just “It’s beautiful – or ugly!”
Even today, when looking at something or situation and wanting to photograph it, if I don’t know why I want it, I create for my self some reason, it doesn’t matter witch, so that I can understand what and how I’m doing it. And everything became easier to do.

I had some other turning points in my life, concerning photography. But this experience belongs to the three or four major ones.


Texto e imagem: by me

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Maus ventos os levem!


Tenho um colega de trabalho que, volta e meia, nos vem falar de como o Acordo de Empresa não está a ser cumprido pela Administração.
Em boa verdade, não é volta e meia mas antes com uma frequência confrangedora! O homem tem toda a razão, de facto existem clausulas que não estão a ser seguidas correctamente e, a menos que se faça alguma coisa, continuaremos a ser prejudicados.
A verdade é que este meu colega enferma de um terrível defeito: ao falar no assunto, fá-lo sempre com os mesmos argumentos, sempre com o mesmo entusiasmo, quase que como se a questão fosse a batalha da sua vida. E, de tanto insistir e sempre da mesma forma, já ninguém lhe liga atenção. Mais ainda, quando o assunto vem à baila, os circundantes, quase que com um sorriso triste, discretamente abandonam o local. O homem tem razão, toda, mas já ninguém o pode ouvir.
Com esta sua atitude, só uma parte no conflito fica a ganhar: a Administração da empresa, que assim continua a não cumprir o acordado e a não pagar o que é devido.
Esta questão recorda-me, com um paralelismo assustador, o que se passa na política portuguesa. E nas denúncias de corrupção e tráfico de influências nas altas esferas do poder. Nomeadamente, nas tentativas de interferir directamente sobre os media, imprensa ou televisões, afastando ou silenciando aqueles que, no exercício da profissão de jornalistas, vão denunciando isso mesmo e outros assuntos. Pondo em causa a integridade moral dessas altas individualidades ou organizações.
Acontece que isso é feito sempre da mesma forma, batendo sempre nas mesmas teclas e com os mesmos acordes. A tal ponto que, por saturado que fica o cidadão comum, acaba por virar a página ou mudar de canal. E as verdades continuam a ser ditas, mas sem efeito algum!
Está na hora de passar a usar outras abordagens, de fazer os ventos soprarem com mais força e com múltiplas direcções. Que o guarda-chuva protector da impunidade de políticos e governantes já está suficientemente abalado e estragado para que uma boa rabanada o leve e deixe a descoberto e vulneráveis aqueles que, aproveitando-se da sua posição, abusam dos cidadãos e dos seus direitos!


Texto e imagem: by me

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Chaves do tempo


Dando um passeio no arquivo, dou com esta imagem.
Não apenas é um “congelar do tempo”, apanágio de toda e qualquer fotografia como, e mais que isso, é perfeitamente actual.


Texto e imagem: by me

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Uma janela

By me

Mysterious Lady #2


On my first approach, some one asked for the full head. And another said that he would like to see the forehead.
So, here is everything there is to be seen about the mysterious lady.
It is also a classic way of showing it and, some how, it looks to me like a ghost, hanging like this, with so support below.
As the fist picture, it was done just with flashs and with the personal compromise of not using any photoshop manipulation, besides the cropping.
After all, photography is writing with light!
Texto e imagem: by me

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Fevereiro


E porque é que esta fotografia se chama “Fevereiro”?
Bem, só mesmo em Fevereiro se encontram, perto de chafarizes e torneiras públicas, balões que a canalha miúda rebentou ao encher de água. Afinal, nem todas as munições são de segurança. E, no Carnaval, nem tudo o que parece, é!

Texto e imagem: by me

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal


Nos últimos anos, três ferramentas de gestão estiveram na base de uma transformação radical da maneira como trabalhamos: a avaliação individual do desempenho, a exigência de “qualidade total” e o outsourcing. O fenómeno gerou doenças mentais ligadas ao trabalho. Christophe Dejours, especialista na matéria, desmonta a espiral de solidão e de desespero que pode levar ao suicídio.
Psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris, Christophe Dejours dirige ali o Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção – uma das raras equipas no mundo que estuda a relação entre trabalho e doença mental. Esteve há dias em Lisboa, onde, de gravata amarela, cabeleira “à Beethoven” e olhos risonhos a espreitar por detrás de pequenos óculos de massa redondos, falou do sofrimento no trabalho. Não apenas do sofrimento enquanto gerador de patologias mentais ou de esgotamentos, mas sobretudo enquanto base para a realização pessoal. Não há “trabalho vivo” sem sofrimento, sem afecto, sem envolvimento pessoal, explicou. É o sofrimento que mobiliza a inteligência e guia a intuição no trabalho, que permite chegar à solução que se procura.

Claro que no outro extremo da escala, nas condições de injustiça ou de assédio que hoje em dia se vivem por vezes nas empresas, há um tipo de sofrimento no trabalho que conduz ao isolamento, ao desespero, à depressão. No seu último livro, publicado há uns meses em França e intitulado Suicide et Travail: Que Faire? , Dejours aborda especificamente a questão do suicídio no trabalho, que se tornou muito mediática com a vaga de suicídios que se verificou recentemente na France Télécom.

Depois da conferência, o médico e cientista falou com o P2 sobre as causas laborais desses gestos extremos, trágicos e irreversíveis. Mais geralmente, explicou-nos como a destruição pelos gestores dos elos sociais no trabalho nos fragiliza a todos perante a doença mental.

O suicídio ligado ao trabalho é um fenómeno novo? O que é muito novo é a emergência de suicídios e de tentativas de suicídio no próprio local de trabalho. Apareceu em França há apenas 12, 13 anos. E não só em França – as primeiras investigações foram feitas na Bélgica, nas linhas de montagem de automóveis alemães. É um fenómeno que atinge todos os países ocidentais. O facto de as pessoas irem suicidar-se no local de trabalho tem obviamente um significado. É uma mensagem extremamente brutal, a pior do que se possa imaginar – mas não é uma chantagem, porque essas pessoas não ganham nada com o seu suicídio. É dirigida à comunidade de trabalho, aos colegas, ao chefe, aos subalternos, à empresa. Toda a questão reside em descodificar essa mensagem.

Afecta certas categorias de trabalhadores mais do que outras?
Na minha experiência, há suicídios em todas as categorias – nas linhas de montagem, entre os quadros superiores das telecomunicações, entre os bancários, nos trabalhadores dos serviços, nas actividades industriais, na agricultura.

No passado, não havia suicídios ligados ao trabalho na indústria. Eram os agricultores que se suicidavam por causa do trabalho – os assalariados agrícolas e os pequenos proprietários cuja actividade tinha sido destruída pela concorrência das grandes explorações. Ainda há suicídios no mundo agrícola.

O que é que mudou nas empresas? A organização do trabalho. Para nós, clínicos, o que mudou foram principalmente três coisas: a introdução de novos métodos de avaliação do trabalho, em particular a avaliação individual do desempenho; a introdução de técnicas ligadas à chamada “qualidade total”; e o outsourcing, que tornou o trabalho mais precário.
A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: “O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.”
Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí – a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua – acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe…

Mas o assédio no trabalho é novo?
Não, mas a diferença é que, antes, as pessoas não adoeciam. O que mudou não foi o assédio, o que mudou é que as solidariedades desapareceram. Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora estão sós perante o assediador – é isso que é particularmente difícil de suportar. O mais difícil em tudo isto não é o facto de ser assediado, mas o facto de viver uma traição – a traição dos outros. Descobrimos de repente que as pessoas com quem trabalhamos há anos são cobardes, que se recusam a testemunhar, que nos evitam, que não querem falar connosco. Aí é que se torna difícil sair do poço, sobretudo para os que gostam do seu trabalho, para os mais envolvidos profissionalmente. Muitas vezes, a empresa pediu-lhes sacrifícios importantes, em termos de sobrecarga de trabalho, de ritmo de trabalho, de objectivos a atingir. E até lhes pode ter pedido (o que é algo de relativamente novo) para fazerem coisas que vão contra a sua ética de trabalho, que moralmente desaprovam.

Qual é o perfil das pessoas que são alvo de assédio?
São justamente pessoas que acreditam no seu trabalho, que estão envolvidas e que, quando começam a ser censuradas de forma injusta, são muito vulneráveis. Por outro lado, são frequentemente pessoas muito honestas e algo ingénuas. Portanto, quando lhes pedem coisas que vão contra as regras da profissão, contra a lei e os regulamentos, contra o código do trabalho, recusam-se a fazê-las. Por exemplo, recusam-se a assinar um balanço contabilista manipulado. E em vez de ficarem caladas, dizem-no bem alto. Os colegas não dizem nada, já perceberam há muito tempo como as coisas funcionam na empresa, já há muito que desviaram o olhar. Toda a gente é cúmplice. Mas o tipo empenhado, honesto e algo ingénuo continua a falar. Não devia ter insistido. E como falou à frente de todos, torna-se um alvo. O chefe vai mostrar a todos quão impensável é dizer abertamente coisas que não devem aparecer nos relatórios de actividade.
Um único caso de assédio tem um efeito extremamente potente sobre toda a comunidade de uma empresa. Uma mulher está a ser assediada e vai ser destruída, uma situação de uma total injustiça; ninguém se mexe, mas todos ficam ainda com mais medo do que antes. O medo instala-se. Com um único assédio, consegue-se dominar o colectivo de trabalho todo. Por isso, é importante, ao contrário do que se diz, que o assédio seja bem visível para todos. Há técnicas que são ensinadas, que fazem parte da formação em matéria de assédio, com psicólogos a fazer essa formação.

Uma formação para o assédio?
Exactamente. Há estágios para aprenderem essas técnicas. Posso contar, por exemplo, o caso de um estágio de formação em França em que, no início, cada um dos 15 participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma semana e, durante essa semana, cada participante tinha de tomar conta do seu gatinho. Como é óbvio, as pessoas afeiçoaram-se ao seu gato, cada um falava do seu gato durante as reuniões, etc.. E, no fim do estágio, o director do estágio deu a todos a ordem de… matar o seu gato.

Está a descrever um cenário totalmente nazi...
Só que aqui ninguém estava a apontar uma espingarda à cabeça de ninguém para o obrigar a matar o gato. Seja como for, um dos participantes, uma mulher, adoeceu. Teve uma descompensação aguda e eu tive de tratá-la – foi assim que soube do caso. Mas os outros 14 mataram os seus gatos. O estágio era para aprender a ser impiedoso, uma aprendizagem do assédio.
Penso que há bastantes empresas que recorrem a este tipo de formação – muitas empresas cujos quadros, responsáveis de recursos humanos, etc., são ensinados a comportar-se dessa maneira.

Voltando ao perfil do assediado, é perigoso acreditar realmente no seu trabalho?
É. O que vemos é que, hoje em dia, envolver-se demasiado no seu trabalho representa um verdadeiro perigo. Mas, ao mesmo tempo, não pode haver inteligência no trabalho sem envolvimento pessoal – sem um envolvimento total.
Isso gera, aliás, um dilema terrível, nomeadamente em relação aos nossos filhos. As pessoas suicidam-se no trabalho, portanto não podemos dizer aos nossos filhos, como os nossos pais nos disseram a nós, que é graças ao trabalho que nos podemos emancipar e realizar-nos pessoalmente. Hoje, vemo-nos obrigados a dizer aos nossos filhos que é preciso trabalhar, mas não muito. É uma mensagem totalmente contraditória.

E os sindicatos?
Penso que os sindicatos foram em parte destruídos pela evolução da organização do trabalho. Não se opuseram à introdução dos novos métodos de avaliação. Mesmo os trabalhadores sindicalizados viram-se presos numa dinâmica em que aceitaram compromissos com a direcção. Em França, a sindicalização diminuiu imenso – as pessoas já não acreditam nos sindicatos porque conhecem as suas práticas desleais.

Como distinguir um suicídio ligado ao trabalho de um suicídio devido a outras causas?
É uma pergunta à qual nem sempre é possível responder. Hoje em dia, não somos capazes de esclarecer todos os suicídios no trabalho. Mas há casos em que é indiscutível que o que está em causa é o trabalho. Quando as pessoas se matam no local de trabalho, não há dúvida de que o trabalho está em causa. Quando o suicídio acontece fora do local de trabalho e a pessoa deixa cartas, um diário, onde explica por que se suicida, também não há dúvidas – são documentos aterradores. Mas quando as pessoas se suicidam fora do local do trabalho e não deixam uma nota, é muito complicado fazer a distinção. Porém, às vezes é possível. Um caso recente – e uma das minhas vitórias pessoais – foi julgado antes do Natal, em Paris. Foi um processo bastante longo contra a Renault por causa do suicídio de vários engenheiros e cientistas altamente qualificados que trabalhavam na concepção dos veículos, num centro de pesquisas da empresa em Guyancourt, perto de Paris.

Quando é que isso aconteceu?
Em 2006-2007. Houve cinco suicídios consecutivos; quatro atiraram-se do topo de umas escadas interiores, do quinto andar, à frente dos colegas, num local com muita passagem à hora do almoço. Mas um deles – aliás de origem portuguesa – não se suicidou no local do trabalho. Era muitíssimo utilizado pela Renault nas discussões e negociações sobre novos modelos e produção de peças no Brasil. Foi utilizado, explorado de forma aterradora. Pediam-lhe constantemente para ir ao Brasil e o homem estava exausto por causa da diferença horária. Era uma pessoa totalmente dedicada, tinha mesmo feito coisas sem ninguém lhe pedir, como traduzir documentos técnicos para português, para tentar ganhar o mercado brasileiro para a empresa. A dada altura, teve uma depressão bastante grave e acabou por se suicidar.
A viúva processou a Renault, que em Dezembro acabou por ser condenada por “falta imperdoável do empregador” [conceito do direito da segurança social em França], por não ter tomado as devidas precauções.
Foi um acontecimento importante porque, pela primeira vez, uma grande multinacional foi condenada em virtude das suas práticas inadmissíveis. Os advogados do trabalho apoiaram-se muito nos resultados científicos do meu laboratório. O acórdão do tribunal tinha 25 páginas e as provas foram consideradas esmagadoras. Havia e-mails onde o engenheiro dizia que já não aguentava mais – e que a empresa fez desaparecer limpando o disco rígido do seu computador. Mas ele tinha cópias dos documentos no seu computador de casa. A argumentação foi imparável.

Mesmo assim, as empresas continuam a dizer que os suicídios dos seus funcionários têm a ver com a vida privada e não com o trabalho.
Toda a gente tem problemas pessoais. Portanto, quando alguém diz que uma pessoa se suicidou por razões pessoais, não está totalmente errado. Se procurarmos bem, vamos acabar por encontrar, na maioria dos casos, sinais precursores, sinais de fragilidade. Há quem já tenha estado doente, há quem tenha tido episódios depressivos no passado. É preciso fazer uma investigação muito aprofundada.
Mas se a empresa pretender provar que a crise depressiva de uma pessoa se deve a problemas pessoais, vai ter de explicar por que é que, durante 10, 15, 20 anos, essa pessoa, apesar das suas fragilidades, funcionou bem no trabalho e não adoeceu.

Mas como é que o trabalho pode conduzir ao suicídio? Só acontece a pessoas com determinada vulnerabilidade?
Só muito recentemente é que percebi que uma pessoa podia ser levada ao suicídio sem que tivesse até ali apresentado qualquer sinal de vulnerabilidade psicopatológica. Fiquei extremamente surpreendido com um caso em especial, do qual não posso falar muito aqui, porque ainda não foi julgado, de uma mulher que se suicidou na sequência de um assédio no trabalho.
A Polícia Judiciária [francesa] tinha interrogado os seus colegas de trabalho e, como a ordem vinha de um juiz, as pessoas falaram. Foram 40 depoimentos que descreviam a maneira como essa mulher tinha sido tratada pelo patrão (apenas uma contradiz as restantes 39). E o que emerge é que, devido ao assédio, ela caiu num estado psicopatológico muito parecido com um acesso de melancolia.
Ora, o que mais me espantou, quando procurei sinais precursores, é que não encontrei absolutamente nada. E, pela primeira vez, comecei a pensar que, em certas situações, quando uma pessoa que não é melancólica é escolhida como alvo de assédio, é possível fabricar, desencadear, uma verdadeira depressão em tudo igual à melancolia. Quando essa pessoa se vai abaixo, tem uma depressão, autodesvaloriza-se, torna-se pessimista, pensa que não vale nada, que merece realmente morrer.
Era uma mulher hiperbrilhante, muitíssimo apreciada, muito envolvida, imaginativa, produtiva. Tinha duas crianças óptimas e um marido excepcional. Falei com os seus amigos, o marido, a mãe. Não encontrei nenhum sinal precursor, nem sequer na sua infância.
Aconteceu sem pré-aviso?
Houve um período crítico que terá durado um mês. As pessoas à sua volta deram por isso. Viram que ela estava muito mal, o médico do trabalho foi avisado e obrigou-a a parar de trabalhar e pediu a alguém que a levasse para casa. Mas ela não queria parar, insistia que queria fazer o que tinha a fazer. A família também percebeu que algo estava a acontecer, ela consultou um psiquiatra, mas é impossível travar este tipo de descompensação. Foi para casa da mãe, mas quando pensaram que estava a melhorar um pouco, relaxaram a vigilância e ela atirou-se pela janela.
Nos testemunhos recolhidos pela polícia, vê-se claramente que ninguém se atreveu a ajudá-la; todos dizem que tinham medo. Tinham medo do patrão, que era um tirano. Também assediava sexualmente as mulheres e esta mulher era muito bonita. Não consegui saber se tinha havido assédio sexual, mas várias pessoas evocam no seu depoimento que ela terá caído em desgraça porque se tinha recusado a fazer o que ele queria.

O caso da France Télécom foi muito mediático, com 25 suicídios. O suicídio é mais frequente nas grandes empresas?
Não. Nas grandes empresas pode ser mais visível, mas há também muitas pequenas empresas onde as coisas correm muito mal, onde os critérios são incrivelmente arbitrários e onde o assédio pode ser pior. Nas grandes empresas, subsiste por vezes uma presença sindical que faz com que os casos venham a público. Foi assim na France Télécom. Mas não acredito que a destruição actual do mundo do trabalho esteja a acontecer apenas nalgumas grandes multinacionais. E é importante salientar que também há multinacionais onde as coisas correm bem.

Quantas pessoas se suicidam por ano, em França e noutros países?
Não há estatísticas do suicídio no trabalho. Em França, foi constituída uma comissão ministerial onde pela primeira vez foi dito claramente que é urgente aplicar ferramentas que permitam analisar a relação entre suicídio e trabalho. Mas, por enquanto, isso não existe. Nem na Bélgica, nem no Canadá, nem nos Estados Unidos, não existe em sítio nenhum.
Na Suécia, por exemplo, há provavelmente tantos suicídios no trabalho como em França. Mas não há debate. Em muitos países não há debate, porque não existe esse espaço clínico, essa nova medicina do trabalho que estamos a desenvolver em França. De facto, a França é dos sítios onde mais se fala do assunto. O debate francês interessa muita gente, mas também mete muito medo.
Em França, foi feito um único inquérito, há quatro anos, pela Inspecção Médica do Trabalho, em três departamentos [divisões administrativas], passando pelos médicos do trabalho, e chegaram a um total de 50 suicídios em cinco anos. É provavelmente um valor subestimado, mas, extrapolando-o a todos os departamentos, dá entre 300 e 400 suicídios no trabalho por ano.

Falou de “qualidade total”. O que é exactamente?
É uma segunda medida que foi introduzida na sequência da avaliação individual. Acontece que, quando se faz a avaliação individual do desempenho, está-se a querer avaliar algo, o trabalho, que não é possível avaliar de forma quantitativa, objectiva, através de medições. Portanto, o que está a ser medido na avaliação não é o trabalho. No melhor dos casos, está-se a medir o resultado do trabalho. Mas isso não é a mesma coisa. Não existe uma relação de proporcionalidade entre o trabalho e o resultado do trabalho.
É como se em vez de olhar para o conteúdo dos artigos de um jornalista, apenas se contasse o número de artigos que esse jornalista escreveu. Há quem escreva artigos todos os dias, mas enfim... é para contar que houve um acidente de viação ou outra coisa qualquer. Uma única entrevista, como esta por exemplo, demora muito mais tempo a escrever e, para fazer as coisas seriamente, vai implicar que o jornalista escreva entretanto menos artigos. Hoje em dia, julga-se os cientistas pelo número de artigos que publicam. Mas isso não reflecte o trabalho do cientista, que talvez esteja a fazer um trabalho difícil e não tenha publicado durante vários anos porque não conseguiu obter resultados.
Passados uns tempos, surgem queixas a dizer que a qualidade [da produção ou do serviço] está a degradar-se. Então, para além das avaliações, os gestores começam a controlar a qualidade e declaram como objectivo a “qualidade total”. Não conhecem os ofícios, mas vão definir pontos de controlo da qualidade. É verdadeiramente alucinante.
Para além de que declarar a qualidade total é catastrófico, justamente porque a qualidade total é um ideal. É importante ter o ideal da qualidade total, ter o ideal do “zero-defeitos”, do “zero-acidentes”, mas apenas como ideal.
Em diabetologia, por exemplo, os gestores introduziram a obrigação de os médicos fazerem, para cada um dos seus doentes, ao longo de três meses, a média dos níveis de hemoglobina glicosilada A1c [ri-se], que é um indicador da concentração de açúcar no sangue. A seguir, comparam entre si os grupos de doentes de cada médico – é assim que controlam a qualidade dos cuidados médicos. [ri-se].
Só que, na realidade, quando tratamos um doente, às vezes o tratamento não funciona e temos de perceber porquê. E finalmente, o doente acaba por nos confessar que não consegue respeitar o regime alimentar que lhe prescrevemos, porque inclui legumes e não féculas e que os legumes são mais caros... Tem três filhos e não tem dinheiro para legumes. E então, vamos ter de encontrar um compromisso.
Da mesma forma, se um doente diabético é engenheiro e tem de viajar frequentemente para outros fusos horários, torna-se muito difícil controlar a sua glicemia com insulina. Mais uma vez, vai ser preciso encontrar um meio-termo. E isso é difícil.
Mesmo uma central nuclear nunca funciona como previsto. Nunca. Por isso é que precisamos de “trabalho vivo”. A qualidade total é um contra-senso porque a realidade se encarrega de fazer com que as coisas não funcionem de forma ideal. Mas o gestor não quer ouvir falar disso.
Ora, quando o ideal se transforma na condição para obter uma certificação, o que acontece é que se está a obrigar toda a gente a dissimular o que realmente se passa no trabalho. Deixa de ser possível falar do que não funciona, das dificuldades encontradas. Quando há um incidente numa central nuclear, o melhor é não dizer nada.

Isso é extremamente grave.
É. E em medicina passa-se a mesma coisa. Faz-se batota. Hoje, existem nos hospitais as chamadas “conferências de consenso” – acho que existem em toda a Europa – onde são feitas recomendações precisas para o tratamento de tal ou tal doença. E quando um médico recebe um doente, tem de teclar no computador para ver o que foi estabelecido pela conferência de consenso. O médico, que tem o doente à sua frente, pensa que essa não é a boa abordagem – porque sabe que o doente tem problemas com a mulher, com os filhos e não vai conseguir fazer o tratamento recomendado. Mas sabe também que se não fizer o que está lá escrito, e se por acaso as coisas derem para o torto, poderá haver um inquérito, a pedido da família ou de um gestor, e vão dizer que foi o médico que não fez o que devia. O problema da qualidade total é que obriga muitos de nós a viver essa experiência atroz que consiste em fazer o nosso trabalho de uma forma que nos envergonha.

Há muitos suicídios entre os médicos?
Cada vez mais. Há especialidades com mais suicídios do que outras – nomeadamente entre os médicos reanimadores. Em França é uma verdadeira hecatombe: é sabido que a profissão de anestesista-reanimador é das que têm maior taxa de suicídios. Nesta especialidade, os riscos de ser-se atacado em tribunal porque alguém morreu são tão elevados que os médicos se protegem seguindo as instruções. Mesmo que tenham a íntima convicção de que não era isso que deveriam fazer. Chegámos a esse ponto.
É uma situação insuportável e há médicos que não aguentam ver um doente morrer porque tiveram medo de que isso se virasse contra eles. “Fiz o que estava escrito e o doente morreu. Matei o doente.” Há cada vez mais reanimadores que se confrontam com esta situação. Ainda por cima os cirurgiões atiram sempre as dificuldades que encontram nas operações para cima do reanimador. Sempre. Cada vez que acontece qualquer coisa, é porque o anestesista não adormeceu bem o doente, ou não o acordou correctamente, ou não soube restabelecer a pressão arterial. O cirurgião nunca admitirá que falhou nas suturas e que por isso o doente se esvaiu em sangue.

Os médicos sempre foram considerados uma classe muito solidária…
Foram. Já não são. Eu trabalhei anos nos hospitais, e adorava trabalhar lá, porque existia um espírito de equipa fantástico. Éramos felizes no nosso trabalho. Hoje, as pessoas não querem trabalhar nos hospitais, não querem fazer bancos, tentam safar-se. São todos contra todos. Bastaram uns anos para destruir a solidariedade no hospital. O que aconteceu é aterrador.
O que é importante perceber é que a destruição dos elos sociais no trabalho pelos gestores nos fragiliza a todos perante a doença mental. E é por isso que as pessoas se suicidam. Não quer dizer que o sofrimento seja maior do que no passado; são as nossas defesas que deixaram de funcionar.Portanto, as ferramentas de gestão são na realidade ferramentas de repressão, de dominação pelo medo.
Sim, o termo exacto é dominação; são técnicas de dominação.

Então, é preciso acabar com essas práticas?
Eu não diria que é preciso acabar com tudo. Acho que não devemos renunciar à avaliação, incluindo a individual. Mas é preciso renunciar a certas técnicas. Em particular, tudo o que é quantitativo e objectivo é falso e é preciso acabar com isso. Mas há avaliações que não são quantitativas e objectivas – a avaliação dos pares, da colectividade, a avaliação da beleza, da elegância de um trabalho, do facto de ser conforme às regras profissionais. Trata-se de avaliações assentes na qualidade e no desempenho do ofício. Mesmo a entrevista de avaliação pode ser interessante e as pessoas não são contra.
Mas sobretudo, a avaliação não deve ser apenas individual. É extremamente importante começar a concentrar os esforços na avaliação do trabalho colectivo e nomeadamente da cooperação, do contributo de cada um. Mas como não sabemos analisar a cooperação, analisa-se somente o desempenho individual.
O resultado é desastroso. Não é verdade que a qualidade da produção melhorou. A General Motors foi obrigada a alertar o mundo da má qualidade dos seus pneus; a Toyota teve de trocar um milhão de veículos por veículos novos ou reembolsar os clientes porque descobriu um defeito de fabrico. É essa a qualidade total japonesa?
Hoje, nos hospitais em França, a qualidade do trabalho não aumentou – diminui. O desempenho supostamente melhorou, mas isso não é verdade, porque não se toma em conta o que está a acontecer do lado do trabalho colectivo.
Temos de aprender a pensar o trabalho colectivo, de desenvolver métodos para o analisar, avaliar – para o cultivar. A riqueza do trabalho está aí, no trabalho colectivo como cooperação, como maneira de viver juntos. Se conseguirmos salvar isso no trabalho, ficamos com o melhor, aprendemos a respeitar os outros, a evitar a violência, aprendemos a falar, a defender o nosso ponto de vista e a ouvir o dos outros.

Não haverá por detrás desta nova organização do trabalho objectivos de controlo das pessoas, de redução da liberdade individual, que extravasam o âmbito empresarial?
É uma questão difícil. Acho que qualquer método de organização do trabalho é ao mesmo tempo um método de dominação. Não é possível dissociar as duas coisas. Há 40 anos que os sociólogos trabalham nisto. Todos os métodos de organização do trabalho visam uma divisão das tarefas, por razões técnicas, de racionalidade, de gestão. Mas não há nenhuma divisão técnica do trabalho que não venha acompanhada de um sistema de controlo, em virtude do qual as pessoas vão cumprir as ordens.
Há tecnologias da dominação. O sistema de Taylor, ou taylorismo, é essencialmente um método de dominação e não um método de trabalho. O método de Ford é um método de trabalho.
Contudo, não penso que a intenção do patronato (francês, em particular), nem dos homens de Estado seja instaurar o totalitarismo. Mas é indubitável que introduzem métodos de dominação, através da organização do trabalho que, de facto, destroem o mundo social.

Qual é a diferença entre taylorismo e fordismo?
Taylor inventou a divisão das tarefas entre as pessoas e a interposição, entre cada tarefa, de uma intervenção da direcção, através de um capataz. Há constantemente alguém a vigiar e a exigir obediência ao trabalhador. A palavra-chave é obediência. “Quando eu disser para parar de trabalhar e ir comer qualquer coisa, você vai obedecer. Se concordar, será pago mais 50 cêntimos pela sua obediência.” A única coisa que importa é a obediência. O objectivo é acabar com o ócio, os tempos mortos.
Só muito mais tarde é que Ford introduziu uma nova técnica, a linha de montagem, que é uma aplicação do taylorismo. Na realidade, não é o progresso tecnológico que determina a transformação das relações sociais, mas a transformação das relações de dominação que abre o caminho a novas tecnologias.
O toyotismo [ou Sistema Toyota de Produção] utiliza um outro método de dominação, o ohnismo [inventado por Taiichi Ohno (1912-1990)], diferente do taylorismo. É um método particular que extrai a inteligência das pessoas de uma forma muito mais subtil que o taylorismo, que apenas estipula que há pessoas que têm de obedecer e outras que mandam.
No ohnismo, trata-se de fazer com que pessoas beneficiem a empresa oferecendo a sua inteligência e os conhecimentos adquiridos através da experiência. Para o fazer, nos anos 1980, introduziu-se algo de totalmente novo: os chamados “círculos de qualidade”.
O sistema japonês foi realmente uma novidade em relação ao taylorismo, porque ensinou as pessoas a colaborar sem as obrigar a obedecer – dando-lhes prémios, pelo contrário. Quando uma sugestão de uma pessoa dá lucro, a empresa faz o cálculo do dinheiro que a empresa ganhou com a ideia e reverte para o trabalhador uma parte desse lucro. Trata-se de prémios substanciais.
Mas há uma batota: os círculos de qualidade podiam durar horas, todos os dias, reunindo as pessoas a seguir ao trabalho para alimentar a caixinha das ideias. Todos se envolviam porque, por um lado, uma ideia que permitisse melhorar a produção valia-lhes chorudos prémios, mas também porque quem participava neles tinha um emprego vitalício garantido na empresa.
O sistema foi exportado para a Europa, os EUA, etc. porque durante uns tempos, a qualidade melhorou de facto. Mas a dada altura, as pessoas no Japão trabalhavam tanto que começou a haver mortes por karōshi [literalmente “morte por excesso de trabalho”].

O que é o karōshi?
É uma morte súbita, geralmente por hemorragia cerebral (AVC), de pessoas novas que não apresentam qualquer factor de risco cardiovascular. Não são obesos, não sofrem de hipertensão, não têm níveis de colesterol elevados, não são diabéticos, não fumam, não são alcoólicos, não tem uma história familiar de AVC. Nada. A único factor que é possível detectar é o excesso de trabalho. Estas pessoas trabalham mais de 70 horas por semana, sem contar as horas passadas nos círculos de qualidade. Ou seja, são pessoas que estão literalmente sempre a trabalhar. Mal param de trabalhar, vão dormir. As descrições de colegas que foram fazer inquéritos no Japão são aterrorizadoras.
O mundo do trabalho no Japão é alucinante. Há raparigas que entram nas fábricas de electrónica, por exemplo, e que são utilizadas entre os 18 e os 21 anos – porque aos 21 anos, já não conseguem aguentar as cadências de trabalho.
As famílias confiam-nas às empresas por esses três anos, durante os quais elas se entregam de corpo e alma ao trabalho. E nalguns casos, a empresa compromete-se a casar a rapariga no fim dos três anos. É mesmo um sistema totalitário. E mais: essas jovens trabalham 12 a 14 horas por dia e depois vão para uns dormitórios onde há uma série de gavetões – cada um com cama e um colchão –, deitam-se na cama e fecha-se o gavetão. Dormem assim, empilhadas em gavetões. Três anos… em gavetões… é preciso ver para crer.

Mas uma coisa destas não é aplicável na Europa
Não, pelo menos em França nunca funcionaria. Ainda não chegámos lá, disso tenho a certeza.

Mas acha que poderia acontecer?
Sim, acho que poderíamos lá chegar. Tudo é possível. Mas ao contrário do que se diz, não há uma fatalidade, não é a mundialização que determina as coisas, não é a guerra económica. É perfeitamente possível, no contexto actual, trabalhar de outra maneira, e há empresas que o fazem, com uma verdadeira preocupação de preservar o “viver juntos”, para tentar encontrar alternativas à abordagem puramente de gestão. O que não impede que a tendência seja para a desestruturação um pouco por todo o lado. É difícil resistir-lhe.

Uma empresa que defendesse os princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade conseguiria sobreviver no actual contexto de mercado?
Hoje, estou em condições de responder pela afirmativa, porque tenho trabalhado com algumas empresas assim. Ao contrário do que se pensa, certas empresas e alguns patrões não participam do cinismo geral e pensam que a empresa não é só uma máquina de produzir e de ganhar dinheiro, mas também que há qualquer coisa de nobre na produção, que não pode ser posta de lado. Um exemplo fácil de perceber são os serviços públicos, cuja ética é permitir que os pobres sejam tão bem servidos como os ricos – que tenham aquecimento, telefone, electricidade. É possível, portanto, trabalhar no sentido da igualdade.
Há também muita gente que acha que produz coisas boas – os aviões, por exemplo, são coisas belas, são um sucesso tecnológico, podem progredir no sentido da protecção do ambiente. O lucro não é a única preocupação destas pessoas.
E, entre os empresários, há pessoas assim – não muitas, mas há. Pessoas muito instruídas que respeitam esse aspecto nobre. E, na sequência das histórias de suicídios, alguns desses empresários vieram ter comigo porque queriam repensar a avaliação do desempenho. Comecei a trabalhar com eles e está a dar resultados positivos.

O que fizeram?
Abandonaram a avaliação individual – aliás, esses patrões estavam totalmente fartos dela. Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, após um longo momento de reflexão, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avaliação dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano. Surpreendente, não? E a razão que me deu foi que a avaliação individual não ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas.
Neste caso, trata-se de uma pequena empresa privada que se preocupa com a qualidade da sua produção e não apenas por razões monetárias, mas por questões de bem-estar e convivialidade do consumidor final. O resultado é que pensar em termos de convivialidade faz melhorar a qualidade da produção e fará com que a empresa seja escolhida pelos clientes face a outras do mesmo ramo.
Para o conseguir, foi preciso que existisse cooperação dentro da empresa, sinergias entre as pessoas e que os pontos de vista contraditórios pudessem ser discutidos. E isso só é possível num ambiente de confiança mútua, de lealdade, onde ninguém tem medo de arriscar falar alto.
Se conseguirmos mostrar cientificamente, numa ou duas empresas com grande visibilidade, que este tipo de organização do trabalho funciona, teremos dado um grande passo em frente.

Versão integral da entrevista publicada no PÚBLICO

Texto: in http://www.publico.pt/
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Calhandrice


Calhandra (lat. Calandra Gr. Kalandra), s. f. Espécie de cotovia ou laverca, com bico forte e voo rasteiro; (prov. Beir.) cobra; (prov. Minh.) dança ao som de viola; tocata; estúrdia; pl. Tacto, juízo.
Calhandreira s. f. mulher que despeja calhandros; meretriz; (prov.) bisbilhoteira.
Calhandreiro s. m. homem que despeja calhandros.
Calhandro s. m. Grande vaso cilíndrico no qual se juntam porcarias; bacio alto em forma de cilindro.

In: Dicionário da Língua Portuguesa, de Fernando J. da Silva, Editorial Domingos Barreiro, 4ª edição, 1984

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Fisco em aberto


Alguém vai ter que me explicar, muito detalhadamente, porque raio eu, cidadão medianamente cumpridor e sem problemas de monta com a lei, fiscal ou outra, terei que informar todo o mundo, incluindo os meus vizinhos do prédio bem como aquele residente no nº X da rua qualquer coisa de Vila Real, de quanto é o meu rendimento, que bens possuo e como me desloco.
Claro que ficarei a saber exactamente o mesmo sobre essas mesmas pessoas, bem como todas as outras que se relacionem com o fisco em Portugal. Mas… o que é que eu tenho a ver com as suas vidas privadas?

Leia-se este artigo do jornal “Diáro de Notícias” de hoje:
Socialistas vão apresentar projecto de 'big brother' fiscal, que coloca 'online' rendimentos brutos de todos os contribuintes
Todos os rendimentos declarados, de todos os cidadãos do País, vão ficar à vista de todos os que quiserem ver, na Internet.
Eis, em síntese, o projecto de lei que o PS tenciona apresentar, muito brevemente, na Assembleia da República: tornar públicos todos os rendimentos brutos declarados de todos os contribuintes.
Sem o imposto final pago, sem as despesas reembolsáveis (despesas de saúde, educação, etc.), mas com o rendimento bruto anual declarado. E, evidentemente, a identificação do contribuinte. Por outras palavras: acaba-se o sigilo fiscal. É o passo seguinte, depois de o Governo ter disponibilizado online a lista dos maiores devedores ao fisco.
Esta será, apurou o DN, a principal proposta que o PS enviará para a comissão parlamentar criada para o combate à corrupção - que só em Julho votará as novas leis para este efeito. Os principais autores da proposta são Jorge Strecht Ribeiro, Afonso Candal e Mota Andrade. Todos membros da direcção da bancada parlamentar do PS. Ontem, o projecto estava a ser ultimado, mas dificilmente terá apoio à direita (o PSD e o CDS votaram contra os projectos liberalizando o sigilo das contas bancárias). Resta saber o que pensará a esquerda.
O projecto é a resposta socialista a outros que foram apresentados pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP sobre sigilo bancário. Os dois partidos consideraram - embora depois concretizando de forma diferente - que é por via das contas bancárias que se detectam os rendimentos não declarados ao fisco. Rompendo o segredo das contas, verifica-se se um determinado contribuinte paga (ou não) ao fisco muito menos do que seria suposto, de acordo com os seus rendimentos.
O projecto do BE - que foi chumbado, logo na generalidade, pelo PS, PSD e CDS, e era o mais radical - já tinha tido apoios entre alguns socialistas, nomeadamente de Vera Jardim, que entretanto foi eleito presidente da comissão parlamentar de combate à corrupção. Seguia o chamado "modelo espanhol".
De acordo com o articulado bloquista, as instituições financeiras deveriam, duas vezes por ano, "comunicar a informação sobre saldos e movimentos de depósito ou outros proveitos nas contas individuais" de todos os seus depositantes. E, depois, estes dados seriam "confrontados" com as declarações de IRS do contribuinte.
"Caso os saldos médios ou movimentos estejam acima de um limiar razoável e se registem discrepâncias significativas, tais discrepâncias serão investigadas pelo fisco ou, nas condições impostas pela lei, comunicadas ao Ministério Público", lia-se no preâmbulo do projecto do BE. O qual, aliás, citava explicitamente Vera Jardim como apoiante da iniciativa, num debate parlamentar na legislatura anterior: "Queremos ir claramente no sentido do sistema espanhol, juntamente com as medidas propostas pelo Bloco de Esquerda. (…) É uma acção do próprio sistema financeiro de informação sobre a existência de contas bancárias e respectivos saldos de cada contribuinte, no início e no fim de cada ano."
Já o projecto do PCP - que foi aprovado na generalidade e aguarda discussão na comissão - previa outro caminho: a "derrogação" do sigilo bancário, mas apenas por iniciativa "devidamente fundamentada" do director-geral dos Impostos ou do director-geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais sobre o Consumo.


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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ainda sobre Segurança


O presidente da Comissão de Protecção de Dados Pessoais diz que a lei chega sempre mais tarde que as tecnologias e que a concentração da informação é um cocktail explosivo
Há câmaras por todo o lado, as informações pessoais constam de bases de dados que os cidadãos não conseguem controlar e muitas empresas conseguem fazer perfis ao pormenor dos consumidores. Estarão os dados pessoais em risco de ir parar a mãos perigosas? O cenário não é bom, diz Luís da Silveira, mas não é catastrófico. E alerta para o papel que cada um tem no controlo da informação sobre si que anda por aí espalhada..
Que situações de recolha de informações pessoais são hoje preocupantes que levam a comissão a classificar o cenário como "inquietante"?
O cenário é inquietante porque há situações que em conjunto significam um constrangimento importante da privacidade dos cidadãos. A videovigilância, que se está a banalizar, a utilização de dados biométricos (impressões digitais, imagem facial, a íris, o cheiro). Temos exigido que se trate de sistemas fiáveis, que não admitam a reconversão do código informático da impressão digital no esquema real da impressão digital.
E a geolocalização?
Está na moda. A mais usada é através de RFID - identificação por rádio frequência. O carro em que o trabalhador se desloca leva um chip que transmite sinais para a central da empresa e esta sabe onde é que aquele carro está em cada momento. A razão apresentada é a gestão de frota. Mas passam a saber onde está o trabalhador, onde parou para tomar café. Estamos a discutir se isso é legítimo para controlar os menores: formalmente, os pais têm direito a reger os filhos, mas às crianças não deve ser também reconhecido o direito à privacidade?
Os trabalhadores têm que dar consentimento.
Sim, sempre, mas o consentimento do trabalhador nunca é muito fiável, porque não é suficientemente livre. Só por curiosidade, onde isto já está a ser utilizado nas pessoas é numa discoteca em Barcelona: metem um chip debaixo da pele, entram na discoteca à vontade e debitam logo no cartão os consumos. As pessoas aceitam muito mais coisas do que a gente possa imaginar.
Estabelecer um limite é cada vez mais difícil?
Sim, até porque são cada vez mais difíceis de mensurar os interesses de segurança em jogo e a verificação de que a privacidade está a ser afectada. É enorme a pressão de entidades de investigação criminal obterem informação para realizarem o seu trabalho policial e ter provas em tribunal. Os bodyscanners dos aeroportos são a última polémica.
A questão já foi posta à CNPD?
Ainda não em termos formais. Os EUA estão a pressionar a Europa para os adoptar. Da nossa parte dizemos "Atenção!", há um bulir da privacidade, porque apanha as próteses, os implantes mamários, os sacos pós-operatórios. A simples circunstância de se despojar a pessoa das suas vestes é humilhante, e, se isto se aceita, depois onde é que se vai parar?
Esta comissão chumbaria?
Eu sou apenas um membro. Dentro dos critérios da comissão, muito provavelmente esta será a perspectiva. Isto é um sistema para aplicar a todos: parece que somos todos suspeitos.
Os EUA acabarão por fazer vingar a sua pressão?
Eu esperaria que não. Os EUA têm uma percepção diferente sobre a protecção: entendem que os dados pessoais são para girar, é isso que faz mexer a economia, e só em certas áreas são muito defensores da privacidade - abusos contra crianças e defesa de segredos comerciais. Tirando isso, não há uma lei de protecção de dados, nem qualquer entidade à maneira das europeias.
Há algo que garanta que os dados não são divulgados?
Nada, de facto. Este é o problema da globalização.
Há um laxismo em relação à exposição?
Há um desvalor. Os adolescentes são muito ciosos da sua privacidade em relação aos pais mas são extremamente abertos para fora, gostam de mostrar a sua privacidade aos colegas e amigos.
É possível acompanhar com leis a velocidade a que se introduzem novas tecnologias?
Há a questão problemática e perigosa da nanotecnologia. A lei chega sempre tarde. As tecnologias têm andado sempre à frente da lei.
Em que áreas é urgente legislar?
O importante não é legislar sobre uma tecnologia, mas sobre as suas aplicações, como no chip de matrícula, que é por RFID. Talvez faça sentido o legislador pensar se as recomendações da Comissão Europeia já estão maduras.
A Comissão é o fiel da balança?
É a sua obrigação. O que nós tentamos dizer é a necessidade de o nosso Parlamento acompanhar a legislação que está a ser feita a nível europeu. Sabemos nós que posição é que os portugueses estão a defender nos grupos europeus? Está o Parlamento português a cumprir o seu papel de fiscalizar, de saber e acompanhar o Parlamento Europeu?
Gostava de trabalhar mais de perto com o legislador?
Temos procurado fazê-lo. Apesar de os nossos pareceres aos diplomas legais não serem vinculativos, até hoje a assembleia tem tido em conta a nossa opinião. Pode ter havido discordância, com certeza que há e ponderada. Mas na generalidade acompanham.
A concentração passiva de informação sobre os cidadãos é um perigo quase tão grande quanto o terrorismo?
Não sei comparar, mas lá que cria riscos acrescidos, cria, sem dúvida. Temos tido sempre particular cuidado e preocupação quando nos são apresentadas pretensões de grandes bases de dados. Há sempre o risco da fuga de informação e utilização indevida com finalidades perversas, por qualquer poder. É um cocktail explosivo.
Os dados pessoais em Portugal estão hoje protegidos?
Do ponto de vista legal, sim. Foi a primeira Constituição a protegê-los. A grande questão é a aplicação e isso é da responsabilidade da Comissão, mas é claro que a protecção de dados não pode estar assegurada por uma equipa de 30 pessoas. A defesa dos dados pessoais tem que começar sempre nos próprios., nunca chegarão os tribunais e instituições deste género para o garantir.
Se metade dos pedidos é de videovigilância, os portugueses estão hoje com medo?
O sentimento de insegurança se calhar não corresponde à insegurança existente, agora que esse sentimento se instalou não há dúvidas.
E é aproveitado para cada dia se apertar esse direito à privacidade?
É sempre mais fácil quando temos medo. É isso que temos visto estar a acontecer a alguns níveis. E por isso dizemos que o número de pedidos de videovigilância é desproporcionado.
Somos de facto tratados como suspeitos?
Não há uma perspectiva generalizada, o que acontece é que em relação a certas iniciativas, até parece que somos todos suspeitos. Como nos bodyscanners: todos os que vão andar de avião são suspeitos?


Texto in: http://www.publico.pt/
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De novo Segurança


Imagine que é alérgico à penicilina e entra inconsciente num hospital longe da sua área de residência, depois de ter sofrido um acidente. Se não houver ninguém consigo que transmita essa informação, arrisca-se a ser-lhe administrada uma substância que, em última análise, pode levar à morte.
Esta é uma situação-tipo em que a existência do registo de saúde electrónico (RSE) que o Governo quer criar podia, em teoria, salvar-lhe a vida. Terminou ontem o prazo para a apresentação das fases para a sua implantação: 2012 é o prazo final para estar no terreno, mas o bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, diz que o sistema nunca será seguro, se não avançar um projecto que se arrasta há mais de seis anos: a criação da assinatura digital dos médicos, à semelhança do que já acontece com os advogados.
Pedro Nunes sublinha que "sem este problema estar resolvido tudo o resto é conversa. É por aí que se devia começar". O responsável refere que o Ministério da Saúde está a tentar arrancar com um projecto bastante menos complexo, a declaração de óbito digital, que ainda não saiu do papel por falta da assinatura. A certa altura foi sugerido que para criar o documento digital bastaria que o médico introduzisse nome e número da cédula profissional, mas a ordem recusou, nota, pois seria "um mecanismo permeável a fraudes", já que estes dados até nas vinhetas das receitas estão visíveis.
A ideia é que o RSE venha a ser um repositório de informação clínica relevante para a prestação de cuidados de saúde, acessível a médicos e enfermeiros a partir de qualquer unidade de saúde do país (pública ou privada). Em Portugal só dez por cento dos dados de saúde circulam por via electrónica, estima o grupo de trabalho criado pelo Governo para estudar a situação.
O grupo de trabalho debateu também a questão da segurança em unidades de saúde e chegou à conclusão que serão "escassas ou pouco consistentes as iniciativas de definição de políticas de segurança abrangentes". José Carlos Nascimento, assessor do secretário de Estado da Saúde para as tecnologias de informação, não tem dúvida que os níveis de segurança melhorarão com o novo sistema. O que acontece agora? Muitos processos clínicos em papel estão numa gaveta de um arquivo numa sala de uma unidade de saúde. Quem lá entra? Quem pode ler o processo quando ele anda a circular ou está pousado numa secretária?
O bastonário vê a criação do registo como "positiva", mas diz que os problemas de segurança "serão mais complexos", já que a centralização de dados "facilita o acesso a mais utilizadores e à distância".
Questões em aberto
Os utilizadores com acesso ao registo têm que ficar bem definidos, sublinha José Carlos Nascimento, dando o exemplo da Defesa, em que nem todos os oficiais estão credenciados para ter acesso "a documentos top secret". O registo do rasto dos utilizadores é um dos aspectos mais importantes "para poder haver responsabilização", ao nível do acesso, tratamento, transmissão e divulgação de dados, nota.
Outro problema: imagine que parte um pé e entra numa urgência onde um médico ou um enfermeiro acedem ao seu registo electrónico e, além de saberem que toma comprimidos para a hipertensão, têm também conhecimento que sofre de esquizofrenia. Será que quer que este tipo de informação esteja disponível em qualquer acto médico?
Este é o tipo de situação que, em princípio, não poderá acontecer, ressalva José Carlos Nascimento. Vão entrar agora na fase de tipificação dos "casos de uso", para definir a informação acessível em cada contexto. Que tipo de dados pode um profissional de saúde conhecer, por exemplo, numa situação de emergência? Numa consulta de rotina? Esta reflexão será feita com médicos e vai ser pedido à Comissão Nacional de Protecção de Dados que acompanhe o processo, em vez de apenas dar um parecer no final, explica.
Muito está ainda em aberto, sublinha José Carlos Nascimento. Uma coisa é certa: "o cidadão é proprietário desses dados" e tem que poder validar a informação e dizer: "Tipo sanguíneo: O Rh+? Eu?" Mas nem toda a informação pode ser acedida pelo cidadão, nota Pedro Nunes, tem que haver dois níveis: dados objectivos e "apreciações subjectivas dos médicos", "que não podem ser do conhecimento do utente".
O utente hoje já tem direito a conhecer o seu processo clínico em papel, mas o acesso só pode ser feito através de um médico. Também no registo electrónico deverá haver informação sensível que necessita de mediação médica, refere o responsável do Ministério da Saúde.
Manuel José Soares, porta-voz da Comissão de Utentes de Saúde do Médio Tejo, defende por sua vez que avançar com o registo "sem estarem satisfeitos cuidados de saúde para muitos portugueses é começar pelo telhado". Guilherme Castro Henriques, coordenador do Movimento de Utentes dos Serviços de Saúde, diz que o projecto apenas peca por tardio, porque será um óptimo instrumento de prevenção do erro médico


Texto in: www.publico.pt
Imagem: edit by me