sábado, 26 de setembro de 2009

Coca-cola for ever


Há já um bom pedaço que estava a ouvir conversas no patamar da escada, e bem mais alto que o habitual, mas não lhes liguei importância, que não era nada comigo. Mas quando saí de casa, levando comigo o que arrastaria por hora e meia até à Estrela, deparo-me com três senhoras junto a uma porta, fechada.
Todas minhas vizinhas, duas tentavam, em vão, não mostrar nervosismo, enquanto a terceira chorava em coro com a filha de ano e meio, que ficara fechada em casa. E, para piorar a situação, a chave de reserva que uma das vizinhas possuía, não funcionava, que estava a da casa dentro da fechadura, por dentro.
Faz mais de vinte anos que não se deparava algo assim, nem que tinha resolvido um caso destes.
Da outra vez fora até interessante, que a vizinha em causa ficara na escada, usando, exclusivamente, pantufas, cueca e um negligée particularmente curto. Não me recordo se usaria relógio, nem sei se, na altura, o soube.
Nessa ocasião quis ser prestável e fazer como nos filmes, usando de um cartão para abrir o trinco, o que consegui para enorme espanto dela mas, principalmente, meu, que nunca pensei ser tão fácil.
Desta vez quis fazer o mesmo, mas a fechadura era de melhor qualidade e, pela certa, não fora fabricada em Hollywood. Não resultou!
Tentando manter a calma necessária entre as minhas vizinhas, voltei a casa em busca de algo mais comprido e com igual flexibilidade para o arrombamento, já que o deitar a porta abaixo não apenas seria por demais violento como a criança, de dentro, não gostaria.
Acabei por recorrer a uma garrafa de litro e meio de Coca-Cola que, cortada com o canivete, me forneceu um pedaço de plástico com tamanho suficiente.
No regresso, um outro meu vizinho tentava o que eu havia tentado, com um cartão, e com resultados iguais: coisa nenhuma! Só que eu, com o pedaço de garrafa também não, pelo que a solução encontrada foi telefonar para a polícia, que logo se prontificou em nos enviar um piquete dos bombeiros. Mas com o aviso que isso custaria uns bons 60 euros, mais coisa, menos coisa. Cobram caros, os bombeiros voluntários!
Mas, enquanto vinham e não vinham, tentei de novo e, para alegria de todos os presentes, de um lado e do outro da porta, lá esta se abriu. As lágrimas passaram de desespero a de alívio, mãe e filha misturaram-nas e acho que vi os olhos do meu vizinho a brilharem à luz da escada.
Lá ligámos de novo a cancelar a chamada e voltei a casa em busca dos meus pertences para seguir viagem.
Mas uma decisão tomei: Tal como tenho sempre em casa molas de roupa de madeira, clips, fita isoladora, e no cinto um canivete suisso e uma lanterna, também passará a fazer parte permanente da casa uma ou duas garrafas de litro e meio de Coca-Cola.
Não apenas mata a sede e fornece cafeína, como desentope canos, desenferruja pregos, limpa moedas, organiza os intestinos e, fiquei a saber, ajuda a arrombar portas.

Na imagem, outra utilização da antiga “água suja do imperialismo”: uma lata, trabalhada com o tal canivete, para pendurar no tripé e servir de receptáculo ás pontas de cigarro com que vou matando o tempo em redor da minha “Oldfashion”.
Seja como for, “Coca-Cola for ever”!


Texto e imagem: by me

Sem comentários: