segunda-feira, 31 de agosto de 2009

domingo, 30 de agosto de 2009

On photography - the smell


Photography is, generally, the materialization of what we see: a flower, a smile, a car.
Some time we, photographers, go further and we try to materialize what we imagine. We built a set, got the right light and playing with colours, objects and perspective, we manage to get a photograph equal or similar to what we did imagine.
We also try to capture what is not imprisoned: time. Through a photograph we try represent an hour, a year, a life time. Good photographers are able to do that.
It is also common to photograph things that aren’t material: love, cold, grief, freedom. Then, most of photographers use standard codes to reach a universal communication: a kiss, a coat, a tear, a broken chain. Or any other that represents the photographer’s feelings and, at the same time, can be read the same way by the viewers. Some photographers are master on the job, some are professionals and some just got luck.
But there are subjects that became really difficult to reproduce with a photograph. At least for me. Like a mixture of odours.
On a very hot day, with no wind what so ever, nearby a railway track, there is this unique scent.
It came from the wooden railway-track blocks (the modern concrete ones doesn’t have it), from the iron rails, from the lubrication oil felled from the wheels, from those wild plants growing on the sides, from the electricity poles and cables or the ozone created there…
Together with this strange odour, there is the old memories that came to me: vacations, empty railway stations, the waiting time spend sitting on the ground, leaned on the back-pack, the sound of bugs flying around, the sweat going down the torso, the company and the good times spend together…
How do we tell all this in just a photograph? I’ve tried it again and again and I still haven’t been able to do a picture that sows it as I want. The one you see up there is just an essay not full reached.
But, maybe, some things aren’t reachable by photography!


Texto e imagem: by me

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Perguntas lucrativas


E porque é que os computadores são estúpidos e ignoram o que é felicidade? Porque só dão respostas e nunca perguntas!

Tinha eu uma dúvida. Nada de muito especial, mas fazia-me confusão, já que aquilo não encaixava em nada do que eu sabia ou conhecia. Referia-se ao comportamento de uma planta, junto da qual passo com muita frequência. Aquela em particular, ao invés de uma outra igualzinha e ao lado, tem as suas folhas organizadas de forma diferente e incomum.
Mostrei o fenómeno a vários conhecidos que comigo partilham o local, em momentos de ócio e nicotina, mas nenhum soube dar uma resposta cabal. Luz, calor, vento, poluição, várias foram as explicações aventadas, mas nenhuma consistente com bom-senso.
Eis que tropeço no jardineiro daquele local. Homem com comportamentos pouco habituais, consta que tem aquele emprego como forma de recuperação de vidas anteriores menos recomendáveis. A maior parte das pessoas que por ali passam, em o sabendo ou suspeitando pelo aspecto, evitam-no ou, pior ainda, ignoram-no, como se fosse portador da peste ou um mero ornamento do local.
Pois eu abordei-o e questionei-o sobre a coisa. De imediato obtive uma resposta sobre a planta em questão, sobre a sua irmã, mesmo ao lado, do que elas gostam e não gostam e de que forma manifestam a sua satisfação e desagrado. E ficámos um pouco a conversar sobre isso mesmo e sobre o como podemos ver as plantas sorrirem para nós, se nos deixarmos penetrar pela sua forma de falar.
A conversa acabou, ele seguiu para onde ia, eu fui comprar o gelado que me apetecia. E, estava eu a receber o troco do negócio, debatendo-me com o porta-moedas, os trocos e o gelado, tendo apenas duas mãos, quando ele regressa e me aborda.
Diz-me ele “Tem dois ou três dias para as comer.” E entrega-me esta galhada de uma romãzeira com duas belas romãs. Fiquei meio sem jeito e ainda lhe perguntei de onde vinham. Havia uma, ali mais ao fundo, agora carregadinha, e eu nem havia dado por ela. E estas duas vinham porque alguém gosta de plantas. E havia dado importância a quem, as mais das vezes, é transparente ou a evitar.
O saber está em todo o lado. E fazer perguntas dá-nos, para além das respostas, alguns prazeres insuspeitos.


Texto e imagem: by me

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A sala de aula


Esta é uma imagem retirada de uma reportagem televisiva de ontem, 24 de Agosto de 2009.
Versava ela sobre o aumento do sucesso escolar em Portugal, acompanhando o Primeiro-ministro e a Ministra da Educação numa visita a uma escola secundária de Lisboa. Imagens destas duas figuras públicas andando pelas instalações, imagens de alunos e professores no trabalho de aprender e ensinar, imagens e sons dos discursos sobre o tema, agora muito convenientemente proferidos, que 27 de Setembro se aproxima a passos largos.
Sobre esta reportagem não irei questionar como diabo foram encontrar, em pleno mês de Agosto, alunos numa escola pública. O mais fácil seria ir encontra-los numa praia, num festival de verão ou semelhante.
Também não irei questionar se estes mesmos jovens, ou os seus responsáveis legais, autorizaram a recolha e divulgação das imagens ontem difundidas. Aliás, não sei mesmo se os pais e encarregados de educação saberiam que o evento iria ter lugar e, com ele, a óbvia recolha de imagens e sons.
O que questiono mesmo é um pequeno pormenor visível nesta imagem aqui exibida, e só neste plano. Aquilo que consta lá no alto, de um lado e do outro do quadro preto (agora verde) desta sala de aula de uma escola pública de Lisboa.
De um lado, à esquerda, um crucifixo. Do outro aquilo que parece ser a imagem de um santo ou da “nossa senhora”.
Pergunto-me como será possível que numa escola pública, aberta a todos os jovens cidadãos deste país, se imponha o conceito de cristianismo assim, permanentemente à frente dos olhos dos alunos, seja qual for o credo de cada um, das respectivas famílias ou, em último caso, se algum credo religioso tiverem.
Ao que julgo saber, as aulas de educação religiosa são facultativas e em função das decisões dos alunos e encarregados de educação. Ao que sei também, a lei portuguesa separa muito claramente o âmbito de intervenção do estado do da igreja, tendo em 1974 terminado o conceito de “Deus, Pátria, Família”.Também sei, e é do conhecimento comum, que fruto das migrações e mudanças de mentalidade, o número de não cristãos, por ateísmo ou por seguirem outras confissões religiosas, tem vindo a aumentar substancialmente em Portugal.
Como se admite então que forcem os jovens, numa altura de formação da personalidade, numa altura da vida em que as perguntas sobre ela são bem mais que as respostas encontradas, a terem que conviver com símbolos religiosos específicos em locais públicos, horas a fio diariamente, meses seguidos todos os anos, durante o período escolar obrigatório?
O meu conceito de liberdade, não apenas física mas, e principalmente, a de pensamento e credos, revolta-se contra esta prepotência sub-reptícia daqueles que, em nome do estado, impõem algum tipo de religião aos jovens.
Aqui ou onde quer que seja!


Texto: by me
Imagem: in “Telejornal”, rtp.pt

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

sábado, 22 de agosto de 2009

Anúncio


E aqui?
Anuncia-se dois espaços comerciais ou dois templos?


By me

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Uma pérola na noite


Entretido que vinha a ler, nem me apercebi da chegada à estação do meu bairro. Quando levantei os olhos do livro, já as portas do comboio se fechavam, deixando-me com a solução única de descer na seguinte e apanhar um táxi de volta, que a noite já não era jovem, o trajecto longo e o cansaço bastante.
Quando, já desembarcado, cheguei à praça de táxis, uma mulher, na casa dos trintas, com uma criança pequenita, encostavam-se à parede, tentando em vão proteger-se da aragem promovida a vento que arrefecia os corpos, em contraste com o valente calor do dia. E se a maior tiritava, a pequena optava pela estratégia comum naquelas idades: saltava, abanava-se, saracoteava-se, tentando que o sangue, em correndo, a aquecesse.
Dei a saudação e perguntei se esperavam um táxi, que primavam pela ausência. O que também não estranhava, já que a noite era o que era e Agosto estava em plena maturação. Anuíram, que certamente não estavam à espera do horário de abertura da farmácia a que se encostavam. E deixei-me ficar, ignorando a aragem, que a camada adiposa me protegia, e matando o tempo com um cigarro de impaciência. Sem mais palavras trocadas.
Ao fim do segundo cigarro, eis que surge um táxi. Um apenas, que me iria deixar solitário na escuridão da noite e na esperança que houvesse mais motoristas a trabalhar àquela hora e em mês de férias.
Abrindo a porta e empurrando a pequenita para o interior, diz-me a mulher: “Vai para São Carlos?”
Pois eu não ia, seguindo mesmo a direcção oposta.
Mas a invulgaridade da oferta alumiou a minha noite. Em mais de vinte anos de uso habitual daquela praça em circunstâncias semelhantes, não me recordo de ter ouvido tal pergunta com a implícita proposta de boleia.
E porque a noite estava escura, que os candeeiros por ali não abundam, não consegui fixar as suas feições de igual tom. Mas ficou a alvura daquele coração, qual pérola rara, a brilhar bem mais que os faróis do carro que se afastava.


Texto e imagem: by me

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

"No Sir" guy


Yesterday was the International Photography’s Day.
But maybe someone explain me why it happened on middle August. Half of the world is in high summer, the other half in high winter. And, as far as I know, neither season is the best one to use the camera out side. Either it is real hot, with high contrast light or is raining, with low contrast light. And cameras, most of them, don’t like water from sky!
Of course we can use summer or winter to photograph, but I prefer spring and fall to do it. Better light, better colours, nice shadows, medium weather.
But I also must say that I don’t like this day, the same way I don’t like Christmas, Labour’s day and other special days.
At Christmas, as well as at others holydays, people must be happy, family must get together, and everybody must have nice feelings about human kind. At Labour’s day, everybody remembers their poor working conditions, how small are their wages or how long are working journey.
But I believe that those feelings should happen every single day. It doesn’t matter what the calendar says. We must feel happy or protesting every time we want or feel like it and not just when someone say’s “Today is the day for it!”.
With photography should be just the same. Not only one day for exhibitions, not only one day to show and sell new books, not only one day to promote events around photography. And, for sure, not just one day to go out and make pictures and try to be creative.
As for me, since I don’t like this kind of unique celebrations, I dint use any of my cameras! The nearest I got was just the caring one of them on my belt, as usual. Just in case!
But I’m a “No sir” guy! And I practice photography all the other days of the year, but on the International Photography’s Day!


Texto e imagem by me

sábado, 15 de agosto de 2009

À fé de quem sou


Já passava das duas e meia da tarde. Tinha estado com o horário da madrugada, nesse dia prolongado por causa de férias, tinha acabado de passar um autocarro, implicando mais uns bons 20 minutos de espera, e estava um calor abrasador.
Enquanto tentava, em vão, encontrar uma sombra fresca sob o abrigo da paragem, uns metros mais acima pára este carro.
Bolas, pensei. Porque raio não se ficou no recorte de estacionamento e teve que vir para cima do passeio?
E, apesar de o espaço deixado livre para os peões ser bem mais que suficiente, achei que seria mais um caso a registar. E fi-lo, vigiado pelo olhar franzido do ocupante da viatura, que nunca dela saiu.
Preparava-me para sinalizar o autocarro, que entretanto já se entrevia ao cimo da avenida, quando um outro condutor resolveu irmanar o que se vê na imagem. Mas, mais que igualar, entendeu que o deveria suplantar e subiu o passeio com as duas rodas da frente e uma de trás, ocupando todo o passeio. Entre o pára-choques e o muro não caberia uma mão-travessa.
Não bastava ter tido uma semana de me levantar às 3.30H; Não bastava estar um calor perto do infernal; Não bastava ter tido uma desavença com a chefia nesse dia. Tinha que vir este com este comportamento!
Mandei às urtigas o autocarro, abeirei-me da janela do condutor, saudei com uma continência quase regulamentar e pedi-lhe que abrisse o vidro que lhe queria falar. E perguntei-lhe:
“Não sabe que não pode estacionar em cima do passeio?”
Com um sorriso trocista, respondeu-me:
“Não posso, não, que já cá estou. Não devo!”
A piada, de tão velha que é, perdeu a graça e assumiu foros de provocação. Eu, que já estava zangado, encontrei-me num limbo entre isso mesmo e a fúria desmedida.
“Vou repetir, para o caso de não me ter entendido: Não sabe que não pode estacionar em cima do passeio?”
A moça que vinha sentada no banco de trás, indicando a senhora sentada ao lado do condutor, afirmou pela janela:
“É que ela é deficiente!”
Em simultâneo, ele mostrava-me um dístico azul que, em circunstâncias normais, lhe dariam direito a alguns privilégios de estacionamento. Mas nunca aquele ali assumido.
Hesitei uns segundos. Hesitei em dar-lhes uma lição de moral, em que as necessidades especiais dos deficientes seriam usadas para censurar aquele estacionamento abusivo, já que nem mesmo ela ali poderia passar. Hesitei em afastar-me e fotografar o conjunto, não lhes dando nem troco nem explicações. Hesitei em dar espaço nos meus lábios para de entre eles saíssem os impropérios que a minha língua violentamente insistia em pronunciar.
E, enquanto hesitava e levava a mão à minha câmara fotográfica no seu estojo sob o meu colete, ele engrenou a marcha-atrás, que nem tinha desligado o motor, reocupou a faixa de rodagem e afastou-se avenida abaixo. E eu fiquei a vê-lo afastar-se, no vazio de Agosto, sem que fosse sequer capaz de lhe fixar a matrícula.
O que me não sai da memória é o sorriso trocista daquela cara redonda encimando um corpo que me pareceu pequeno atrás do volante. E, garantidamente, da próxima vez que com ele me cruzar, farei com que guarde a troça e o sorriso no lugar que nunca nele foi ocupado por educação e respeito pelos demais concidadãos, deficientes ou não.
À fé de quem sou que não se ficará a rir!


Texto e imagem: by me

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Híbrido


A banalização da escrita electrónica e a posse, desde há menos de um ano, de um computador realmente portátil, tem feito com que parte do que vou escrevendo seja directamente nas teclas. Com vantagens e desvantagens.
Por vantagens, por exemplo, é ficar com o texto pronto e em letra legível de imediato (o que não é frequente com a minha caligrafia). Texto batido no teclado é texto pronto a usar.
Também há, como vantagem, o acesso a outras fontes, quer sejam como complemento de ideias, quer seja como correcção da escrita, quer consultando o que nele está arquivado, quer seja procurando na web.
Ou ainda, o poder tratar as imagens, que o hão-de acompanhar, de imediato, criando uma maior empatia ou intimidade entre ambas as formas de expressão.
Acontece, porém, que estas mesmas vantagens são também desvantagens.
À uma, o facto de “texto batido é texto pronto” também é texto escrito de uma penada, não revisto nem corrigido. Nas ideias, na forma e, até, no uso da língua. Que a preguiça muitas vezes me impede de refazer aquilo que, aparentemente, está pronto.
Não podemos esquecer que, por muito de impulso que se trabalhe, mesmo esse terá que ser o resultado de alguma maturação, repetição mesmo. E se as ideias andam a “marinar” cá dentro, por vezes dias a fio, nem sempre é ao escrevê-las que ficam com as arestas limadas. Fazer um rascunho, uma primeira versão acaba por ser um bom método. E coerente.
Claro que o uso do pc portátil, por muito que ele esteja vulgarizado e na moda, ainda aguça a cobiça de elementos da CAPA (Confederação dos Amigos das Propriedade Alheia). E a discrição é uma das melhores formas de os evitar. Além do mais, a excentricidade de estar a escrever com caneta num bloco em cima do joelho e sentado num comboio em andamento, acrescido do meu aspecto, é suficiente para que, se me abordarem, seja para me darem uma moedinha ou avisarem-me com cumplicidade da aproximação do revisor.
Mas, para mim, a maior desvantagem de escrever directamente no teclado é o não uso da caneta. Confesso que o estender da tinta sobre o papel é um prazer, o segurar a caneta entre os dedos uma satisfação, mesmo naqueles momentos em que a indecisão faz com que o aparo fique imóvel a milímetros da folha.
Há, no entanto, um momento em que o escrever clássico de caneta e papel me é desagradável. Pelo menos incomodativo o suficiente para hesitar em o fazer: As primeiras palavras na primeira folha de um bloco de apontamentos novo.
Por muitos que já tenha usado e encetado, por tamanha rotina que isso acabe por ser, o macular a alvura das folhas virgens com uma escrita quase ilegível é, sinto-o, um sacrilégio. E hesito, hesito, hesito…
Claro que, após a primeira linhas, ou mesmo a primeira palavra, em tomando balanço ao fluir das ideias e com as palavras a brotarem quase que inconscientemente, numa vã tentativa de acompanhar em velocidade no papel o que grita atrás dos olhos, todas as hesitações se desvanecem.
E quando mais tarde, em casa, no café, numa pausa de trabalho ou num jardim, tudo passa a letra preta sobre fundo branco e luminoso, nenhum resquício dessa angústia me atrapalha.
Neste dualismo entre a caneta e o teclado, sou um híbrido do aprendido de pequeno e amante do deguste com a facilidade e imediatismo da máquinas contemporâneas.
Se o meu trabalho tivesse algum valor, poder-se-ia dizer que aproveito o melhor de dois mundos. Assim… É apenas o híbrido possível!


Texto e imagem: by me

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Explicitudes


Sejamos claros:
Para CP, uma boa mudança é a imposição de obrigações para o passageiro. Utente, como hoje se diz.
Não quero nem pensar no que a CP poderá considerar uma “Má mudança”!


Texto e imagem: by me

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A janela


Foi do lado de lá desta janela. Ou talvez da do lado, não posso já garantir.
Mas foi do lado de lá que, naquela segunda-feira, pelas 8.30 da manhã, pela primeira vez fiquei frente-a-frente com uma turma de alunos. Sozinhos, eles e eu.
Para eles era uma estreia, já que se tratava do primeiro dia de um ano escolar e estavam no primeiro ano de um curso profissional onde esperavam vir a aprender um ofício. Um ofício que queriam ou supunham querer.
Mas, mais que para eles, que toda a sua vida tinham sido alunos em turmas, era a minha primeira vez daquele lado da secretária. Com todos os receios que o peso da responsabilidade e a consciência da minha ignorância naquela actividade acarretavam. Talvez mesmo, mais que receios, roçava o pânico.
E, à medida que eles iam entrando na sala, cada um deles sozinho e a descobrir o que era aquilo, eu, de pé em frente da secretária e sorrindo para eles, olhava-os e o medo crescia. Que, na expressão de cada um e uma, na pose de cada um e uma, eu via ou tentava descobrir quem eram e ao que vinham. Mas, pior ainda, era ir adivinhando demoníacas tropelias e terríveis dificuldades no relacionamento aluno/professor. Passados todos estes anos, tenho que confessar que estive quase a abandonar a sala e o trabalho!
No entanto, e por um qualquer motivo, deixei-me ficar, venci os medos quase pânicos e, findos uns dias de convivência, apercebi-me do quanto estava enganado.
Ao contrário do que havia visto, aquela era uma turma de rapaziada e raparigada excelente, ávidos de aprender e desejosos de trabalhar. Foi óptimo ter estado com eles!
Resta-me saber quem, daquele ano lectivo, mais lucrou e aprendeu: se eles enquanto alunos, se eu enquanto ajudante de aprendizagem. Que foi exactamente nesse ano, o primeiro, que entendi e aprendi a diferença entre ajudar a aprender e ensinar.
Claro que, e para além disto e de tudo o mais que fui entretanto aprendendo com os alunos, ficou-me a certeza que não devemos dar crédito à primeira impressão com uma turma. Ou com um individuo. Que essa primeira impressão depende do nosso próprio estado de espírito, bem como do daqueles que avaliamos. E que, nesse processo de recíproca abordagem, em regra ficam escondidas as melhores facetas.
Dar tempo ao tempo e oportunidade de cada um se descobrir, se desvendar, de dar o seu melhor e o seu pior. E aí sim, fazer ou ir fazendo um juízo sobre o grupo ou pessoa. É uma boa regra que deve ser seguida sempre!
Claro que o “Sempre”, tal como o “Nunca”, são conceitos que nunca devem ser seguidos sempre. Até porque, por vezes, a primeira impressão acaba por se revelar a mais correcta, por mais tempo e esforço que se use no aprofundar o conhecimento.
Foi o caso de um aluno que tive, passados anos e noutra escola. Desde o primeiro dia que não tive boa opinião a seu respeito. Enquanto cidadão, enquanto aluno, enquanto futuro profissional. E, do que recordo das reuniões de professores, era a opinião generalizada.
Acabo agora por o reencontrar neste mundo maluco dos audiovisuais. Não o reconheci de imediato, para vergonha minha, e foi ele que mo recordou. E, se também então não recordei a opinião que tinha formado dele, a consulta aos arquivos, então em papel, refrescou-me a memória.
E tive a tristeza de constatar que essa opinião era correcta. O que dele vi a trabalhar bem como o que dele vi enquanto mero cidadão veio, sem sombra de dúvidas, na linha do que havia sentido anos atrás. Mais valia que, quando abandonou o curso a meio, já não sei porque motivos, tivesse seguido uma qualquer outra actividade onde, para além de ganhar a vida, o fizesse com mais qualidade e brio.
Mas, por outro lado, fiquei satisfeito. Foi o facto de ele ter abandonado o curso, bem como mais um ou dois ao longo dos anos que com jovens trabalhei, que fez com que o meu objectivo se mantivesse impoluto: Não reprovar um aluno! Que em algum sendo mais fraco na aprendizagem apenas iria exigir mais esforço da minha parte. Afinal, é para isso que se está numa escola: para aprender, sendo essa a função dos que lá estão a “ensinar”.
Porque “Escola” é isso mesmo: O abrir das janelas sobre o futuro e mostrar aos alunos os horizontes que dali se vislumbram. As portas que se abram, os caminhos que se tracem e os horizontes que se atinjam, isso, já não depende de nós. Serão eles que o farão!



Texto e imagem: by me

Luzes no alto


Numa pausa, numa fugida, numa escapadela durante um intervalo de um programa, tentando manter o nível de nicotina no organismo, dou com isto.
A esta hora, a maioria das pessoas ainda está a dormir ou a lutar contra a vontade de o continuar a fazer. O que me faz ter o desprazer de saber que coisinhas bonitas como esta têm pouco quem as veja, ao vivo e a cores.
Resta-me a satisfação de dar por bem empregue o dinheiro dado pela câmara que trago sempre no cinto e que, mesmo entre duas fumaças a correr, está sempre pronta a dar o seu melhor.


By me

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O Olho do Furacão


Diz quem sabe que bem no centro de um furacão, no chamado “olho”, é tudo calmo e que nem uma brisa corre.
Pois eu, em relação ao “Cartão do Cidadão”, tenho uma atitude de cepticismo tipo furacão. Melhor ainda: sou contra a sua existência e ao que ela permite!
A facilidade de apenas usar um cartão e com ele aceder a variados serviços é, à partida, plena de bondade.
Mas incomoda-me de sobre maneira a maldosa possibilidade de um mesmo cartão permitir o cruzamento de dados pessoais, fazendo com que o técnico de saúde possa saber se votei recentemente ou, nas finanças, tomarem conhecimento de quando me constipei e o que usei para a curar.
Lamentavelmente, essas bases de dados, estas informações privadas sobre cada um de nós, já existem. Mas são estanques entre si, não sendo possível cruzar esses dados a menos que a justiça o determine. E fundamentadamente!
Por uma questão de princípio, e apesar de ele, o cartão, permitir simplificar muitos actos do cidadão, sou contra!

Mas, no meio deste furacão de contestação, acabo por encontrar o tal “olho”, sobre o qual vale a pena debruçarmo-nos.
De acordo com uma notícia lida num periódico, a utilização do Cartão de Cidadão para actos eleitorais irá obrigar a que o voto seja exercido na zona de residência declarada. E não na zona onde cada um entende e nela se recenseou.
Apesar de ser mais uma imposição, esta até que faz algum sentido: Levará a que cada cidadão eleitor conheça o local onde vive, os problemas que ele dizem respeito e, por via de aí votar, resolvê-los. No lugar de votar, por exemplo, na terra onde nasceu e a que está ligado afectivamente, mas onde vai apenas em ocasiões festivas, reuniões familiares e de férias anuais. Faz isto sentido!
Mas, para que nesse “olho” exista uma calmaria total, para que nem uma brisa lá corra, falta um detalhe:
Que os candidatos à Assembleia da República ou às Autarquias sejam igualmente residentes na zona pela qual se candidatam. Residência atestada pelo tal Cartão de Cidadão. Quer se trate de Lisboa, Bragança ou Pico.
Desta forma deixávamos de ver constar nas listas de muitos círculos eleitorais candidatos que viveram toda a sua vida adulta na capital. E que só concorrem por aquele circulo ou àquela Câmara para fazerem carreira política ou ficarem em lugar elegível. E deixaríamos de ver candidatos a Câmaras a saltar de município para município a cada quatro anos, nada ou quase sabendo daquele a que se candidatam.
Teríamos ainda uma real ligação entre eleitos e eleitores, sabendo estes que aqueles os conheciam e sabiam os seus desejos e as suas vontades sobre o país ou o município.
Não é, no entanto, expectável ver a lei eleitoral alterada neste sentido. É sabido, e temos constatado isso ao longo dos tempos, que os que estão no poder são ávidos de impor regras e normas ao povo, mas de se eximirem a elas, como areia por entre os dedos.
Continuaremos assim a ver os políticos a saltarem de lista em lista, de círculo eleitoral em círculo eleitoral, como se do jogo da Glória se tratasse. Só que, em vez de dados usam os nossos votos!
Mas, se vivemos numa democracia representativa, que ao menos seja isso: representativa! A menos que o tal “Olho do Furacão” se transforme em “Olho da Rua” e seja lá que os coloquemos!


Texto e imagem: by me

sábado, 8 de agosto de 2009

Olhares contraditórios


E de quem são estes olhos atrás dos óculos? Nem desconfio!
Nem sequer sei qual a sua nacionalidade, que lhe perguntei, acenando com a câmara: “Posso?” e ela sorriu e acenou que sim.
Com um vestido de verão bem curto, calçando botas de cano alto, meio escondia-se atrás de um cavalete, onde pintava uma paisagem da cidade de Lisboa. Em boa verdade, o mais difícil para o fazer é escolher o local, que toda ela se propicia a tal. Pelo que está, pela luz, pelas perspectivas… Toda a cidade se presta a ser retratada.
O difícil de encontrar é quem se disponha a fazê-lo com tintas e pincéis, que não cão nem gato que não se passeie com uma câmara na mão. Nem eu mesmo a tal escapo.
O que pintava? Umas escadinhas, encimadas pelos clássicos pilaretes de pedra e ladeada de prédios, alguns anteriores ao grande sismo do séc. XVIII.
Mas, bem mais incomum que tudo isto, era a figura masculina que fazia de modelo, sentado no topo das escadas, de costas para ela. Que segurava o que parecia ser um bloco de notas mas que, um olhar mais atento, revelava ser um E-Book.
Numa cidade velha alguém renega as electrónicas e retrata alguém com elas na mão.


Texto e imagem: by me

Uau!


I’m a photographer, I’m on vacations, I’m in Lisboa!
Uau!

By me

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Para lá do Marão...


Vivemos numa sociedade pejada de proibições e imposições. Escritas em forma de lei, código, norma ou despacho. Definem o que é interdito e, acessoriamente, as sanções aos infractores e definem as obrigações e, acessoriamente, as punições aos não cumpridores.
Em complemento, ficham-nos, catalogam-nos, arquivam-nos, impõe-nos a participação num mundo Orwelliano, antevisto em meados do séc. XX e concretizado no séc. XXI.
É o arquivamento das comunicações, móveis ou fixas, de voz ou de dados, em gigantescos arquivos às ordens dos tribunais.
É o subsídio de 200 euros, atribuídos a cada recém-nascido, obrigatoriamente guardados numa conta bancária e só movimentavel a partir da maioridade. Junto com o primeiro choro e a primeira mamada, vem o cartão de cidadão, com o número de identidade e o número de contribuinte. E a obrigatoriedade de possuir um contrato com uma instituição bancária, queira-se ou não tê-la.
Mais obrigações, mais fichas, mais informação para o Big Brother gerir.
Mas, em paralelo com estas imposições escritas, existem outras não formais mas tão tirânicas quanto as primeiras. Os códigos de conduta, as convenções sociais que, não sendo impressas em diário da república nem sufragadas democraticamente, acabam por ser leis e sanções como qualquer outra.
Ele é o “Dress Code”, impondo vestuário a quem trabalha, quer se tratando de farda assumida como tal, quer se tratando de uma uniformização do vestuário convencional, numa tentativa de anular o indivíduo. Nada de mangas de camisa, chinelos ou calças de ganga, decotes pronunciados ou mini saias. Cara rapada, preferencialmente, e penteados discretos e práticos. E nem pensar em cores não naturais nas zonas pilosas, assim como piercings, tatuagens e afins. Pelo menos visíveis.
Códigos sugeridos, sussurrados, induzidos. E os infractores, ainda que não sejam objecto de processos judiciais ou disciplinares, são colocados nas “prateleiras” das empresas, arredados de promoções, avaliados negativamente.
Há aqueles outros códigos, mais ou menos consensuais e aplaudidos pela generalidade da população, que cerceiam os políticos e governantes nas mordomias e aproveitamentos de posições dominantes. Claro que estes códigos são objecto de vista grossa pelos visados, ignorando o que a população diz e pensa, sendo “violados” quantas vezes à revelia da própria lei escrita.
E diz o bom senso que governantes não devem, em vésperas de eleições, aproveitarem-se do cargo que ocupam para fazer campanha ele. Não fazer inaugurações de última hora e partidárias, não usar de dinheiros públicos e consequentes logísticas em interesses partidários, não confundir o trabalho de governante com o trabalho do partido.
Códigos consensuais para os cidadãos, ignorados por quem está no poder.

Pois agora veio a ERC (Entidade Reguladora da Comunicação) sugerir que os media (TVs, Rádios, Imprensa) se devem abster de usar como comentadores, analistas ou cronistas gente que conste em listas concorrentes aos próximos actos eleitorais, Nacionais e Autárquicos. A menos que, diz ainda a ERC, seja garantida a equidade de oportunidade a formações que se oponham às das pessoas em causa.
Recomendação de bom senso, diria eu. Como me enganei!
O bom senso do cidadão português normal não coincide com o bom senso dos media e dos poderosos. E caiu o Carmo e a Trindade.
Ainda mal a recomendação da ERC tinha saído, já as associações de media vinham a terreiro defender que os seus conteúdos são responsabilidade editorial e que, nesta questão, nenhum estranho pode meter o nariz. Que uma recomendação destas é atentatória da liberdade de imprensa e que esta deve ser defendida a todo o custo. E que devem ser o bom senso dos media e as decisões dos directores que podem e devem vingar.

Pois é! Se “Para lá do Marão mandam os que lá estão”, para lá das rotativas e dos emissores mandam os jornalistas! Os tais que compõem o quarto poder e que não são sufragados para os cargos que ocupam!


Texto e imagem: by me

Minudências


“… Apurou-se também que o mesmo indivíduo havia perpetuado um crime da mesma natureza no passado dia 30 de Julho, à mesma empresa de transporte de valores.”

Este é o parágrafo com que termina uma notícia sobre um assalto a uma carrinha de transporte de valores, na secção “Local” do jornal Público de 2009/08/07.
O artigo não está assinado, pelo que a sua responsabilidade cabe, em último caso, ao director do jornal.
E em que é que isto é importante? Tão simples quanto a importância de confundir “perpetuar” com “perpetrar”. Ou, para usar os tempos verbais do articulista, confundir “perpetuado” com “perpetrado”.
A diferença entre “tornado eterno” ou “para sempre” e “ter efectuado” ou “ter feito” é óbvia mas não assim tão grande, pelos vistos.
No meu dicionário há quatro entradas a separá-las. O meu teclado tem duas letras de intervalo. Neste jornal a diferença é, aparentemente, menor ainda: a que separa a competência de um jornalista da ignorância da língua portuguesa.
Minudências, no fim de contas!


Texto e imagem: by me

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Imaginem


Imagine-se o que terá sentido, pensado e, quiçá, exclamado a pessoa que empurrava o carrinho de bebé de onde caiu esta roda.
E imagine-se aquilo que essa mesma pessoa terá vivido até ter chegado a um local onde esse carrinho não fosse imprescindível.
Como muleta neste exercício de imaginação, saiba-se que esta roda foi fotografada na linha de caminho de ferro lá do meu bairro, junto ao cais usado para de lá se sair e não junto ao habitualmente usado para chegar.

Texto e imagem: by me

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Hoje...


... o dia acabou assim.

Looking for...

... the last meal.

Campus de Justiça


Têm alguns elementos do sistema judicial afirmado que o novo Campus de Justiça, em Lisboa, poderia ter mais dignidade.
Vários foram os aspectos que me foram referidos em privado por alguns deles, como a ausência de água potável, a promiscuidade entre as partes e entre estas e os juízes, a dificuldade de estacionar viaturas, o não funcionamento de algumas vertentes das tecnologias de informação…
Nenhum deles referiu, em privado ou frente às câmaras, que a porta nobre lá está, com a escadaria monumental a separar o comum do cidadão do celestial local de justiça.
Na mente do dono da obra e do arquitecto responsável, por certo que, para aceder à justiça, há que penar e só os mais fortes e resistentes lá chegam.


Texto e imagem: by me

Sobre o Flickr


Li, há uns dias num blog sobre fotografia, uma frase provocante:
“Todas as imagens que hoje vemos, especialmente as postadas nos flickrs são todas absolutamente iguais.”
E concluiu o autor com uma outra, repleta de ironia:
“Na verdade, vivemos hoje uma estética flickeriana pós-moderna!”.

Estas duas afirmações mexem fundo comigo e sobre elas não posso deixar de aqui colocar o que penso, em concordância e em discordância.
Entenda-se, no entanto, que tento aqui ser sintético, o que não apenas não é fácil com este tema como não é uma característica que eu mesmo possua.


Comecemos por pensar no que o cidadão comum pensa ser um fotógrafo dito “profissional”.
É aquele que, qual caçador solitário, vai a lugares exóticos ou situações perigosas, e regressa com troféus sob a forma de fotografias. Ou aquele que priva com as beldades, aquelas que enchem o olho e que, ainda por cima, lhes diz o que fazerem e como se exibirem. Ou ainda, é aquele que está onde estão os grandes, os decisores, os que governam o mundo. É alguém que, por ser fotógrafo, é um privilegiado.
Claro está que esse tal cidadão comum ignora o quão difícil é aceder-se a alguns lugares, o quão complicado é conseguirem-se algumas credenciais, o quão violento pode ser o lidar com alguns seguranças, privados ou não. Ou quanta frustração pode estar (e em regra está) atrás de cada fotografia de sucesso!
Assim, e tal como sucede com as princesas, desportistas e gente do mundo do espectáculo e cinema, há uma tentativa de imitar os ídolos.


Acontece, porém, que fazer uma imagem é fácil, cada vez mais fácil. Uma câmara de média gama não custa uma fortuna, um computador para pós-tratamento também não e sabemos os que são programas pirateados, Desta forma, cada disparo em digital é a custo zero, depois de adquiridos os equipamentos de base. E a luz e o mundo estão aí para serem captados. Cada um à sua medida pode imitar os seus ídolos.


Por outro lado, o acesso à divulgação da fotografia era, até há uns tempos, difícil. Implicava arranjar uma galeria (e respectivo galerista) que estivesse na disposição de disponibilizar tempo e espaço ou uma revista ou jornal (com o respectivo editor fotográfico) que estive disposto a arriscar publicar.
Para além de os espaços físicos ou os de imprensa não serem assim tantos quanto isso, há ainda que passar pelos crivos dos galeristas, que decidem o que se pode ou não vender ou expor, o que é “arte” ou não é, bem como os editores fotográficos dos periódicos, que decidem se as imagens estão ou não em consonância com a linha editorial em causa ou com os artigos a ilustrar.
Hoje, os únicos filtros existentes são, ou podem ser, apenas as decisões dos fotógrafos, o ter-se acesso à web e uma conta num qualquer flickr. As escolhas do que se publica são, em exclusivo, dos autores dos trabalhos, sem qualquer outro aconselhamento ou decisão. O que faz com que as escolhas do que é colocado on-line se baseiem nos gostos e capacidades dos fotógrafos, seja qual for o seu “calibre”, e não nas opiniões de “lentes” e comerciantes, cuja opinião depende do seu conservadorismo, das modas estéticas vigentes e da capacidade de venda dos trabalhos. Sejam estes bons ou maus.


Mas também devemos considerar a quantidade de imagens que se produzem e os motivos de tal produção. É que, para além do custo zero e da facilidade de exibição, existe a efemeridade de cada fotografia.
Até há alguns anos, o consumo de fotografia fazia-se nas galerias e museus ou nos livros e revistas. E ia-se a exposições com o intuito de degustar o que lá estivesse, ou comprava-se a publicação com o mesmo objectivo. E se uma visita a um museu ou galeria fica na memória do visitante, as publicações ficam nas caixas ou estantes, sempre disponíveis para uma revisitação ou consulta. Por necessidade ou pelo simples prazer de ver trabalhos de que gostamos. Ou, melhor ainda, passear numa livraria, encontrar “velhos amigos” ou “ novos conhecidos” nas prateleiras e ter o prazer de as levar para casa e com eles passar uns bons momentos. Ou de com eles aprender algo mais.
Em alternativa, na web gastam-se uns escassos segundos a ver uma imagem, para logo de seguida se passar à seguinte, que são muitas por ali e há sempre outras para serem vistas. E, quantas mais são vistas, menos na memória se nos ficam. Meia hora depois de se iniciar esse périplo, de quantas nos recordamos? Ou do nome dos autores?
E se, enquanto consumidores de imagens, o sabemos, enquanto produtores de imagens igualmente. E para que o trabalho de cada um, seja produtor comum ou amador, ou um “expert” ou profissional, há que apresentar quantidade, por vezes mais que qualidade. Ser-se o último a publicar na web, no blog, no flickr (seja ele qual for), por forma a que essas imagens fiquem na página de entrada ou nos favoritos dos visitantes para que, de algum modo, fiquem em evidência. E serem visitadas ou vistas, tão assiduamente que fiquem na memória e se evidenciem na mol de fotografias vistas.
Sabemos também que, em regra, a quantidade é inimiga da qualidade. E o fotógrafo comum acaba por se repetir, ou repetir as fórmulas que conhece como eficazes na comunicação fotográfica, nesse seu anseio de ser conhecido e visto.

Para alicerçar a expressão “bombástica “No flickr as fotografias são todas iguais”, devemos considerar também nós mesmos, os que vemos essas tais fotografias.
De tantas imagens que vemos, mesmo que todas difiram em estéticas, técnicas e conceitos, acabamos por ter uma noção do todo e não das partes e, porque somos humanos e preguiçosos, um padrão no que vemos. Um padrão de heterogeneidade do qual é difícil de sair. Do qual é difícil de sairmos!
Por muito que nós mesmos possamos saber da matéria, tanto de estética como de técnica ou ainda de semiótica, findo um pedaço de “surfar” nos flickrs, acabamos por ficar com uma espécie de névoa, de criar padrões de análise que nos conduzem, inexoravelmente, a classificações minimalistas e uniformes. E ficarmos com essa tal ideia de que “no flickr as fotografias são todas iguais”.

Mas para fazermos essa análise das fotografias do flickr, ou de quaisquer outras fotografias ou de qualquer outra forma de expressão pessoal, haverá que abandonar os nossos próprios conceitos de estética e de qualidade e analisar os conceitos inerentes aos autores, bem assim como os contextos em que se inserem. À revelia do que afirma Popper, no seu excelso “Mito do contexto”.
Os fotógrafos que nos ficam na memória são, muito naturalmente, os muito bons, alguns mesmo génios. E a genialidade não se encontra nas farmácias ou na foz de um rio. É aquilo que alguns, poucos, têm e que muitos tentam imitar. E são esses muitos que enchem as páginas web. E que se esforçam por fazer melhor e/ou diferente as fotografias que apresentam. Sujeitos às limitações interiores que possuem. E às limitações que a vida lhes impõe: Não saem dos seus bairros, cidades, países, fotografam fora das horas de trabalho ou quando não há deveres familiares ou escolares a cumprir.
Ou, para ir ainda mais longe, estão formatados pela cultura em que se inserem, quer seja a apreendida nas publicações impressas, quer seja a apreendida nas publicações electrónicas. Ou ainda na TV e no cinema. Como seja a ditadura do número de ouro ou a imposição do espaço útil com quatro cantos em ângulo recto.
Para já não falar nas questões afectas aos respectivos países e regiões do globo. Com as suas cores saturadas, composições e assuntos mais agressivos, constatáveis nos climas quentes, ou as cores mais pastel e assuntos e estéticas mais tranquilos, visíveis nos autores de países mais frios. Ou a existência ou ausência de estabilidade sócio-económico-política que nesses países se possa viver.
Até porque sabemos que a inovação advém da inquietude e esta tanto pode ser endógena como exógena!

Não se pode deixar de parte a questão da facilidade da produção fotográfica. Se hoje basta ter a câmara, fazer click e os automatismos de fabricante fazem quase tudo o resto, se no photoshop a tentativa e erro são inconsequentes que os originais não se perdem ou destroem, assim não era até há algum tempo atrás. O grau de conhecimento sobre películas, exposição, químicos e afins era tal que só quem a tal actividade se dedicava obtinha satisfação no seu trabalho. Por outro lado, o custo de cada trabalho, aliado ao trabalho que cada imagem implicava eram de tal monta, bem como o tempo que mediava entre o fotografar e o ver a fotografia, que o simples premir do obturador obrigava à existência de muitas certezas nas decisões e gestos. E a uma razoável antevisão mental do resultado final.
Obrigavam a pensar a fotografia e no acto fotográfico. O que hoje é incomum de encontrar.

Claro que, no meio de todas estas considerações, para que a expressão ”No flickr todas as fotografias são iguais”, há ainda que pensar no que é o flickr. Ou o que são os espaços de publicação de fotografias na web, tenham o nome que tiverem.
Muito frequentemente, e bem mais do que se poderia esperar ou gostar, estes espaços são mais pontos de encontro social que galerias virtuais de fotografia. Usando a imagem, fotográfica ou não, busca-se reconhecimento de capacidades, pares no pensamento, um “lugar ao sol” ou tão só a quebra de solidão.
Sintomático de tal são os comentários deixados nas imagens publicadas e quem os deixa. Uma grande maioria é do género “Gostei!” ou equivalente e escritos por quem constar na lista de favoritos de quem é comentado. O número de visitas ao espaço de cada um depende, sem sombra de dúvida, do número de comentários feitos a outros e da quantidade de “adicionados”. As galerias virtuais são vistas em circuito fechado, criando-se grupos de interesse que não dependem da qualidade das imagens expostas mas tão só da assiduidade com que se comenta e se publicam novas fotografias. E, uma vez mais, a quantidade é sobrevalorizada em relação à qualidade.
Nestas circunstâncias, é natural vir a constatar as semelhanças dos trabalhos exibidos. As temáticas ficam restritas ao grupo, as estéticas também, para já não falar nas linguagens de imagem empregues.

Deverá ainda considerar-se um outro aspecto, vital do meu ponto de vista:
A esmagadora maioria das fotografias na web são produzidas por gente jovem. Porque é moda o uso das tecnologias de informação; porque é moda o uso da fotografia; porque é uma forma de comunicação no grupo a que se pertence ou se almeja pertencer.
Acontece, porém, que o órgão da visão é o ultimo a ficar completo. Em termos de maturidade fisiológica e em termos de maturidade de percepção. Ao invés do que acontece com a audição, a primeira a surgir, a que mais cedo se completa. E a comunicação sonora é a que mais cedo se pratica, até porque dispensa o contacto físico ou o uso de qualquer instrumento. Dir-se-ia que é a mais “animal”.
E porque a visão mais tarde se completa e mais complexa é, o seu uso exige mais prática, mais maturação do indivíduo, fruto das experiências e da vivência.
Por isso mesmo, é muito mais comum encontrar-se quem tenha sucesso na comunicação sonora ainda jovem, ao invés da comunicação visual, seja fotografia, pintura, cinema ou teatro, onde esse sucesso acontece bem mais tarde na vida.

Com todo este “discurso” sobre a eventual normalização das fotografias no flickr, não estou, de forma alguma, a retirar importância ou qualidade ao que ali é exposto. Tanto uma como outra, como em qualquer forma de expressão pessoal, devem ser avaliadas em função de quem as faz, bem mais que em função das regras ou modas em vigor.
Ao longo dos anos em que estive no papel de professor de fotografia e vídeo (prefiro usar o termo “ajudante de aprendizagem”!), a avaliação dos trabalhos que me eram apresentados era feita em função dos objectivos que aluno tinha com cada trabalho e em função da evolução que cada um apresentava ao longo do tempo. Considerando a mensagem que se pretendia transmitir e a eficácia com que ela era recebida no grupo a que se destinava.
Que uma fotografia pode ser particularmente boa, eficaz na comunicação e original em forma e conteúdo e ser, ao mesmo tempo, pouco ou nada apreciada fora do contexto a que se destina. Grupo etário, grupo social, grupo cultural. Quem quer que esteja fora dele e olhe para o conjunto dos trabalhos apresentados, verá uniformidade no conjunto, poucas diferenças ou originalidades. E cada uma ser igual às demais. Mas, dentro do grupo de destino, cada uma poderá ser a melhor, a mais comunicativa, a que mais sentimentos ou mensagens fará passar.
Caberá ao fotógrafo em causa, aprendiz numa escola, Freelancer, assalariado de uma publicação ou utente assíduo de um qualquer flickr, decidir se os trabalhos que apresenta se destinam ao publico em geral se a um grupo restrito com o qual se identifique.
E caberá a quem as analise, interpretar esses destinos e saber avaliar em função deles e não apenas com base nas regras e códigos aceites pela maioria. Para já não referir a questão de essa “maioria” ser ocidental, do médio-oriente ou do extremo-oriente. Que, para além de uma avaliação incompleta e, consequentemente, incorrecta, será castrante para quem a receba. E castrante na criatividade e capacidade de comunicação.

No meio de tudo isto onde fica a arte?
Tenho que admitir que eu mesmo não sei, até porque não sei o que é “Arte”, fotográfica ou outra.
Mas, sobre esta questão apenas, muito haveria que dizer e já aqui não tenho espaço nem o leitor paciência.

Para finalizar, repito que tudo o acima escrito não passa de uma síntese sobre a matéria. E, a par com a criatividade, o poder de síntese não é uma das minhas qualidades.
Espero, no entanto, ter-me feito entender a quem por aqui passar e tenha a coragem de tudo isto ler.


Texto e imagem: by me

domingo, 2 de agosto de 2009

À espera de...


Papa-açorda


Todos os ofícios têm o seu quê de rotineiro. Mesmo os mais criativos, no quotidiano têm rotinas, actos ou métodos que são iguais em cada dia, em cada truque.
Mesmo um actor, dos que trabalham na rua interagindo com o público e dele dependendo para a sua perfomance, tem rotinas, deixas, gestos, reacções que são previsíveis porque iguais e repetidas. Já tive oportunidade de ver alguns a representar e, passado algum tempo e por muito bons e divertidos que sejam, acabamos por saber o que irá fazer com este ou aquele transeunte, o que lhe irá dizer, de que forma o irá mimar ou provocar. E trata-se de uma actividade bem criativa, onde o improviso é, em boa parte, a chave do sucesso.
O invés também é verdade. Por muito rotineira que possa ser uma profissão, há sempre oportunidade de se ser criativo, inovador, marcar pela diferença no que é feito. Quantidade, qualidade, perfeição. Querer e conseguir ir mais longe e melhor, nem que seja pelo simples, se simples é, de fazer de cada dia um diferente, competindo consigo mesmo e conseguir surpreender-se com os resultados.

Um destes dias tive uma dúvida de trabalho. Aquilo que venho fazendo faz algum tempo é ligeiramente diferente do que os meus companheiros fazem. É só um niquinho, mas é diferente.
Nestas circunstâncias sou assaltado por dúvidas: sei justificar o que faço mas, sendo diferente dos demais, estarei a fazê-lo bem feito? Ou estarei a cometer sistematicamente um erro?
Para tirar estas dúvidas (e criar novas, em regra) o melhor mesmo é trocar opiniões com companheiros de ofício. Ventilar ideias, criar conclusões, nem que sejam que estamos todos certos, ou todos errados, e que a diferença não é nem boa nem má.
Pois de um dos que consultei recebi como resposta que preferia a outra solução. E, questionado sobre o porquê da preferência, deixou-me esclarecido a seu respeito:
“Foi assim que me ensinaram!”
Emitir uma opinião com base no “sempre assim se fez” é mau! Denota incapacidade de ponderar, evoluir, mudar, procurar algo de melhor que, quanto mais não seja, possa não ser rotineiro.
Mas dizer “foi assim que me ensinaram” em vez de “foi assim que aprendi” é um transpor de responsabilidades, é um assumir não ter opinião própria, é um aceitar que faz o que faz apenas como imitador dos restantes, pouco lhe importando a validade do que está a ser feito.

Este exemplo, lamentavelmente real, é apenas mais um no meio de tantos outros que podemos encontrar a cada passo: o alijar de responsabilidades, o dar continuidade apenas porque é tradição, o não aceitar nem nada fazer em prol da inovação, da evolução. E o conformar-se com uma rotina cinzenta e entediante. Ser-se estático na vida!
Um pouco como uma refeição tomada num restaurante franshisado: tanto o conteúdo da ementa como paladar do que engolimos, não nos surpreende, nem pela negativa nem pela positiva.
Uma papa-açorda sempre igual, até ao tédio final!

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sábado, 1 de agosto de 2009

Na boca das crianças...


No quiosque da estação do meu bairro, ao comprar a dose diária de cigarros, interpelo as mocinhas que ali trabalham:
“Porque raio, sendo hoje dia 1 de Agosto, início de férias, de sol, de calor, de praia, está a chover? Expliquem-me!”
A resposta não se fez esperar:
“Porque andamos a dar cabo do planeta e agora ele está a vingar-se! É a explicação do meu irmão de onze anos.”
Na boca das crianças a verdade!


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"Premenores" da língua


Algures em Lisboa.
Denunciando a falta de leitura, quiçá nem mesmo a dos jornais desportivos. Ainda que estes não sejam referência para a manutenção de coisa alguma, nem mesmo da língua!
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