terça-feira, 30 de setembro de 2008

Um dia é da caça, outro do caçador


E se somos abordados por um bando de gozões que, inquirindo sobre assuntos sérios, vão gozando com os inquiridos, que fazer?
Bem, o melhor será, respondendo igualmente a sério, gozar com eles e com a situação, tanto mais que parte do que eles sabem fazer sobre televisão já a mim me esqueceu há muito.
Acredito assim que, quando se afastaram, fossem na dúvida se eu teria estado a falar a sério ou nem tanto. Tanto mais que, ao saber para onde era a reportagem, mostrei algumas das minhas credenciais, afirmando que não sabia muito bem se poderia ou não responder-lhes.
Assim, junto da minha câmara, com o seu aspecto e com o meu, posso, sem grandes escrúpulos, citar aquela frase:
Vem à minha sala de jantar, dizia a aranha à mosca!


Texto e imagem: by me

Stroke of light


segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O fim de um fotógrafo


Já o conheço vai para dois anos.
Nunca quis posar para o meu artefacto, mas elogiou-o e identificou-se como mestre no mesmo ofício.
E fui-o vendo, de quando em vez, a passear o cão, com a sua Nikon F pendurada no ombro, sempre com a 50 e pára-sol de metal, como já é raro de encontrar. E sempre de colete, uma espécie de uniforme dos fotógrafos de reportagem, dos tempos em que ter uma objectiva a jeito, ou logo ali à mão um rolo de reserva, fazia a diferença.
Em qualquer dos casos, fui deixando de o ver, melhor, já nem me lembrava da sua existência, de tantos são os que por ali passam. Mas hoje tornei a dar com ele, e num local insuspeito. Confesso que o reconheci mais pela câmara e pára-sol que pela expressão.
Foi num restaurante-café que decidi experimentar para o almoço. Enquanto tomava a bica final, apercebi-me da sua presença e do motivo de já quase não ir ao Jardim: o homem sofre agora, moderada mas notoriamente, da Doença de Parkinson!
Consigo imaginar o seu sofrimento acrescido! Para além de todos os males que lhe estão associados, já não poderá fazer uma fotografia que não seja tremida, oscilando ao sabor da sua falta de controlo muscular! E o que custará isto a alguém que toda a vida se bateu por imagens nítidas e firmes!

Quando perdi a quase totalidade do uso da vista direita, passei mal. Que a noção de distâncias desvaneceu-se e levei muito tempo a saber viver com isso e a encontrar substitutos úteis.
Mas confesso que não sei como reagirei no dia em que me encontrar nesta situação, em que, de todo, não puder dar uso a uma câmara fotográfica!


Texto e imagem: by me

sábado, 27 de setembro de 2008

Pózinhos de perlimpimpim


As fotografias que faço no Jardim da Estrela, no âmbito do meu projecto “Oldfashion”, são grátis! Custo zero para o retratado! De borla! Oferta! Brinde! Presente!
Foi assim que concebi o projecto e transforma-lo em actividade comercial seria subvertê-lo. Além de me obrigar a requerer licenças à Câmara Municipal. E de me obrigar a passar facturas e ter contabilidade organizada. Tudo coisas que me incomodam de sobremaneira e que, no mínimo, me iriam provocar pesadelos!
Mas, muito mais importante que tudo isto, seria muito menos divertido. Para mim e para os restantes intervenientes, sejam eles fotografados ou não.

Claro que esta gratuitidade do projecto tem afastado gente (o que também é factor contabilizado no estudo que faço). Tem também levado a argumentações engraçadas, forçando-me, de quando em vez, a encontrar novos argumentos face ao esgrimir sorridente que vai acontecendo. E gente tem havido, pouca felizmente, que encara o acto de pagar mais como uma obrigação da sua parte que um direito da minha.
Vai daí, tenho tido quase todo o tipo de pagamentos: em flores e folhas, em gelados, em águas, em chocolates… Ainda que o único que peça seja um sorriso, o que mais me tem agradado são os que recebo espontaneamente das crianças. Ou, pelo menos, os que aparentam serem espontâneos.
Acontece que alguns adultos insistem em pagar mesmo e em dinheiro e aqui também tem havido originalidades nas formas encontradas. Há quem o deixe na tampa da câmara, há quem mo enfie no bolso do colete, há quem o tenha na mão quando ma aperta a despedir-se, há quem afirme, peremptoriamente, que só fará a fotografia se a pagar… Acaba mesmo por ser uma conversa de tolos, eles a querem pagar e eu a não querer receber. Ambos insistentes e irredutíveis.

Pois agora fui surpreendido com uma abordagem à questão deveras original.
A fotografia fez-se, eu expliquei o preço e ainda houve tempo para umas conversas animadas com a pimpolhada que vinha com a mãe. E se esta não aceitou que eu fosse, perante a prole, o Pai Natal em pessoa, não enjeitou a possibilidade de eu ser um ajudante ou amigo da referida figura. E fiquei confrontado com um conjunto de perguntas infantis que, de uma forma ou de outra, fui tratando de responder sem desmistificar o que quer que fosse.
A grande surpresa aconteceu horas depois, no final do dia. Em chegando ao quiosque do jardim, onde tomo o cafezinho da chegada e um outro ou um gelado de saída, sou confrontado com o facto de ali ter crédito. Hein! Como? Crédito?! Como assim?? Então não é que, perante a minha recusa em aceitar dinheiro, a bela da mãe foi deixar uma quantia no quiosque para pagar as minhas despesas durante algum tempo!
O pior de tudo é que não tenho forma de o devolver ou contestar, que não creio que a senhora ou as crianças ali se cruzem comigo de novo.
Assim, aqui fica a devolução virtual do recebido, feita com a minha “Caixa mágica” e com a ajuda de uns “Pózinhos de Perlimpimpim” que o amigo do Pai Natal guarda para ocasiões especiais.
E, em qualquer dos casos, obrigado.


Texto e imagem: by me

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

À fé de quem sou!


Negra! Daquele tom africano que quase nos faz pensar em algo levemente azulado. E que, pela minha falta de hábito em registar este tipo de tez, me deixa quase à-toa em o reproduzir com exactidão.
Bonita! Francamente bonita. Pelo menos naquilo que lhe podia ver, ou seja, as mãos, metade dos pés e a cara. Que todo o resto estava integralmente coberto. Num sinal inequívoco da sua fé ou crença.

Quando passou para cima, acompanhada pela pequenada, olhou mas sem muito interesse, que a canalha miúda absorvia-lhe a atenção. Mas no regresso, com mais calma, ficou a olhar à distância para o meu artefacto. Sentindo-lhe interesse, sorri-lhe e gesticulei-lhe que se aproximasse, o que fez.
A comunicação começou por ser difícil e a medo, que pouco sabia de português. Mas em sabendo-me a falar, ainda que mal, o francês, tudo se tornou mais fácil e quis fazer uma fotografia.
Enquanto a impressão acontecia, fui inquirindo a anotando as respostas, como de costume. E foi aí que a coisa aconteceu!
Não tinha a senhora entendido que não apenas iria haver uma eventual publicação na web como, menos ainda, que eu ficaria com uma cópia do que lhe entregasse. E isso quase que a ofendeu. Acredito que entrasse violentamente em confronto com a sua religião que, ao que sei no seu país de origem – Senegal – é seguida com muito rigor.
Desfiz-me em desculpas pelo meu erro ou engano na informação e prometi-lhe solenemente que, em chegando a casa destruiria a cópia que possuía. Que ficasse tranquila que tal sucederia pela certa.
E tantas vezes o assegurei que ela acabou por se descontrair um pouco e passamos a uma pequena mas amena conversa. Estava há cerca de um ano em Portugal, a língua escrita entendia-a mas a falada era uma dificuldade. E que um dos objectivos em aqui estar era o continuar os estudos iniciados na terra natal, nomeadamente em filosofia.

Em chegando a casa e em tratando as imagens e dados recolhidos, confesso que me passou pela cabeça ficar com a imagem. Afinal, ninguém saberia da coisa, ninguém a veria, nem mesmo a retratada e a sua prole, pelo que nenhum mal daí adviria. Excepto…
Excepto a minha própria consciência! Que palavra dada é palavra a cumprir, mesmo que mais ninguém saiba que o fiz. Que o meu pior juiz sou eu mesmo!
E foi destruída!

E se a retratada, cujo nome eu tenho mas que aqui não referirei como é óbvio, por aqui passar, que esteja descansada:
Daquela fotografia, feita numa destas tardes de 2008 no Jardim da Estrela, não existe nenhum outro registo que não seja aquele pedaço de papel com que ficou.
Porque, afinal, seja qual for a fé que nos move (monoteísta, animista ou ateísmo) a honra é comum a todas!


Texto e imagem: by me

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Answering - a personal poin of view


If you were a photographer or a videographer for as long as I am, you may think the way I do!
The great majority of the pictures taken in the world (video or photographs) include persons. In a way that is natural, since photography is also a desire for possession of the object or the meaning of what is photographed.
But more than a half of those photographs were not made with their permission. Or even with their knowledge of the act!
We, the image-makers or picture-hunters, presume that just the fact of having the “gun” allow us to shoot whatever we want, whenever we like. The hunger for “that” picture, for the one that is different and better than all the others ever done, take us to forget that everyone as the right to be preserved in their intimacy, even in a public place, the right to decide if their picture can or not be done.
And, among all, those photographers and videographers related with the media (TV or newspapers) are the worst! Looking for the front page or the prime-time, there is not ethic to be respected, for “The news is more important than persons”! This sentence was told me by a respected and important newsman, sometime ago!
But those that aren’t related with news aren’t better! Just to get the trophy, to show their performance as photographers, to show that they got the chance of being there when it happened, they shoot everybody, whenever they want or not, whenever they know the fact or not!
Of course that we can say that pictures of disasters, poverty and so on can and are used to modify behaviors and thoughts all around the world and, as much people see them, as much they can change it. That is what happen whit some great photographers and videographers, connected whit some media.
But most of us, photographers and videographers aren’t so and, for sure, I am not!
And so, the great part of the image-makers and photo-hunters do it for personal glory, regardless the opinion or desire of their targets! And the least we can say about this is “It’s not fair!”

This position of mine is also based on a general attitude in life, were freedom and respect are the mains, if not the only, rules!
Being so, and trying to be coherent, I seldom photograph people unknown. At least on those occasions, when I do it for my pleasure. As what I do as a professional… Well, I have to eat too and this is my prostitution role in life. But I don’t know for how long!

English is not my natural language, and translations seldom are accurate. And this subject can not be written in a few lines. Anyway, I hope to make myself clear on the why I don’t photograph strangers in the street.
My approach to make portraits of mankind is, rather than it self, it’s work. The things he builds, he does, he undoes, the right and the wrong things.
Of course I do exceptions. Now and then my lens points to some absolutely unknown person and my finger hits the trigger. And I’m not proud of it! Or, in another way, my project “Oldfashion”, that can be found here (www.photoblog.be/oldfashion) .
If, with my attitude, my message reach the public, that is something else. But that’s the way I do it!


Texto e imagem: by me

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

To be or not to be... happy 1/2

Can a pigeon, a common pigeon living in a common park, be happy?
And, in either cases, can we see it in their faces?
Please, take a look at this picture, think about it, get to a conclusion and see the next post.
















Texto e imagem: by me

To be or not to be... happy 2/2

This pigeon and I are acquaintance for some time. We share the same park and, now and then, he is around me and my camera.
If you look carefully, you will notice that his left leg has no paw. I don’t know if it was a birth problem or an almost happy run away from some cat or rat. So, when is not flying, is limping around, much slower than the others when it came to run for food or for a mate.
Due to this, or because he got used to humans, he let me do this photo, among many others.
So the question is: can we see, just by looking at his face as in the previous post, some kind of happiness or unhappiness?
Or being happy is the process of finding satisfaction in what we are and have, regardless the quest for a better life?


Texto e imagem: by me

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Candidate



I’m sorry for redirect you to somewhere else, but today is my contribution to the run for the presidency at USA.


Imagem: from youtube.com

O acto de fotografar


Volta e meia faço aquilo que não devo e que recomendo que não se faça: fotografo desconhecidos à revelia do seu conhecimento!
Mas não o faço à-toa nem procurando situações degradantes para os fotografados. A tónica, ou o título geral destas imagens, é “o acto de fotografar”
Restrinjo-me a situações em que existam fotógrafos a actuar, em regra turistas em locais turísticos. E o que busca são as poses, as expressões, o relacionamento da figura fotografada com a câmara que tem nas mãos, ocasionalmente, e se as condições os permitirem, com o assunto fotografado.
Rapo” da minha 400mm, apoio o conjunto no monopé e deixo-me ficar por ali, se possível sentado, de olho alerta que nem um caçador. A discrição consigo-a por via da distância, apesar da ferramenta e do aspecto.
Estas imagens, e já tenho uma quantidade razoável delas, são para meu gozo pessoal, não para publicar aqui ou ali, quanto mais não seja por uma questão de respeito para com os fotografados. Para já não falar naquelas em que não consigo o instantâneo certo. Os fundos, as poses, o passar alguém pelo caminho…

Mas com esta não consegui resistir.
Feita no Rossio, local turístico por excelência ainda que não entenda muito bem porquê, é o retrato acabado da fotografia de férias, do auto-retrato, daquelas imagens que são feitas não apenas “Para mais tarde recordar” mas para também para servirem de testemunho da presença dos fotógrafos no local.
A imagem que estes fizeram é bem o testemunho disso, da diversão e do prazer nestas férias e, mais que tudo, mostram que ambos lá estavam e satisfeitos com isso.
Espero que se divirtam no tempo que lhes restar por cá!


Texto e imagem: by me

domingo, 21 de setembro de 2008

Equinócio


Hoje é o início do Outono.
É também aquele dia em que temos tanto de luz solar quando da sua ausência. Facto notado desde os tempos primordiais, quando o Homem ainda nem tinha inventado a escrita ou a roda. Conhecimento oralmente transmitido, fruto da mera observação dos fenómenos da natureza.
Não sei se as posições da Terra, do Sol e dos demais Astros serão as que se vêem na imagem. Mas o artefacto é bonito e a liberdade de composição e de iluminação levaram-me a isto.
Que me perdoem astrónomos, astrólogos e meros curiosos!

Texto e imagem: by me

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

76-24-ZS


Eu sei! Eu sei que uso um espaço próprio para protestar contra as agressões que os peões são objecto por parte dos automobilistas. Em particular, na usurpação do espaço reservado aos primeiros para que estejam em segurança no espaço público.
Mas este caso merece um reparo especial!
Eram umas dezanove e trinta, mais coisa, menos coisa.
De quinta-feira, 18 de Setembro de 2008.
O local? Em plena praça dos Restauradores, a escassos metros da “Loja do cidadão”, junto da qual dois cívicos se entretinham a conversar, fazendo mais “figura de corpo presente” que outra coisa.
E não adiantou em fazer esta fotografia, bem como a que a seguir fiz da matricula. Note-se que vinha do Jardim da Estrela, com o belo do tripé às costas e o carrinho com o resto dos apetrechos.
Já do outro lado, parei e olhei pelo vidro da porta do passageiro. Confesso que, se os meus olhos disparassem, este se teria estilhaçado. Mas de nada adiantou também.
As duas dondocas que, no interior de tão bela viatura, conversavam, olharam para mim, encolheram os ombros e voltaram ao assunto que tanto as preocupava.
Quando, mais abaixo, já à esquina da estação ferroviária, olhei de novo para trás, nada tinha mudado: o carro ali paradinho da silva e os agentes da ordem a fazer o que lhes teriam mandado, mas que não seria, pela certa, verificar se os cidadãos estão em segurança na via pública!
Ficou a raiva e a fotografia. Como se dizia, em tempos de antanho:
O fotógrafo estava lá!

Texto e imagem: By me

Just for the fun!


Mine and their’s, of course!
After all, aren’t we children all life long?

Texto e imagem: by me

terça-feira, 16 de setembro de 2008

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

É p'ró menino e p'rá menina!


“Olha! Esta fotografia foi tirada em Sintra! E esta aqui no jardim. E esta também, lá do outro lado!”
“Ora então se sabe estas, talvez me saiba dizer onde foram feitas as outras, do outro lado da câmara.”
“Fácil! Então esta foi em Belém e estas foram aqui!”
“Boa! Pois por ter acertado em todas tem direito, completamente grátis, a fazer e levar uma fotografia feita aqui mesmo e agora!”
“Então e se não tivesse acertado?”
“Também fazia, e também de borla. Mas isso é outra conversa.”

Com estas e outras larachas, entre algumas risadas e outras conversas sérias, tive a tarde bem ocupada a fotografar.
O jardim estava cheio por via do concerto promovido por umas bebidas ditas “refrescantes”. Não gosto delas, mas a música sabe bem e ver a relva e os bancos assim compostinhos, com gente de todas as idades e estratos sociais, é uma alegria.
À conta da banca que montaram para ofertar as garrafinhas e que atrai uma multidão famélica de borlas e brindes, tive que improvisar e optar por outro poiso. E aquele que uso como alternativa estava ocupado com viaturas da produção do evento, pelo que tive mesmo que escolher outro local. Optei por uma meia distancia, entre a multidão e o quiosque-esplanada, onde agora vou tomando o meu cafezinho da ordem (bem bom, por sinal!)
Pois quando cheguei do almoço, perto desta nova localização, estava este “palhaço”, a tentar fazer pela vida. O seu negócio era vender estes balões de feitios. E, apesar do seu traje, o limitado do seu artesanato não aumentava com o seu sotaque de terras de vera cruz.
Mas como já lá estava aquando da minha chegada e a nossa proximidade seria alguma, fui ter com ele para lhe perguntar se não se importaria que montasse a minha banca por perto. É que, ainda que com negócios e clientela diferentes, acabaríamos por fazer alguma concorrência recíproca. Por mim, não me importava, mas ele estava a ganhar a vida.
Pois não levantou obstáculos, que em sendo um “sem licença”, tal como eu, ser-lhe-ia difícil de o fazer. E ainda acabou por me pedir, caso me fosse possível, o fazer-lhe umas fotos dele em acção, para um eventual portfolio que queria fazer.
Mas eu mesmo estive por demais ocupado para poder fazer muito mais que isto. E que a luz também não ajudava, que os “contra-luz”, em reportagem, implicam um cuidado que não pude ter.
Aliás, estive tão ocupado que, perante o calor que se fazia sentir, fui salvo por um velho conhecido ali do jardim, que me levou uma daquelas garrafinhas plásticas. Gostasse ou não, líquidos são líquidos e eu estava sedento. E, antes de se afastar, ainda me soube dizer:

“Com essas barbas, estás cada vez mais oldfashion!”

Bem, eu uso a pelagem, o colete e a barriga, este aqui usa a maquiagem, o colorido e o sotaque. E se ele cobra umas moedas, eu cobro um sorriso.
Em qualquer dos casos, tanto no negócio dele como no meu,


“É p’ró menino e p’rá menina, dos 8 aos 80, bem medidos para um lado e para o outro”.


Texto e imagem: by me

Au revoir!


Nunca vos aconteceu? Acordarem de manhã com uma música no ouvido? Pois a mim acontece-me volta e meia.
Nunca percebi muito bem o motivo de tal e muito menos os critérios para que seja essa e não qualquer outra. Por vezes é uma mais popular e simples, outras uma mais pesada e “rocalhada”, por vezes ainda uma qualquer outra menos comum e insuspeita.
Pois nesta manhã de domingo, que tinha previsto ir passar no Jardim da Estrela, dei comigo a sair da cama com a Marselhesa no ouvido. O “Allons enfans de la patrie” não havia meio de querer parar de sair pela boca, ecoando na cabeça, materializado mais por assobio que cantado, que só sei a primeira linha. E nada o justificava, que não o tinha ouvido recentemente, não tinha visto nenhum filme desta língua, nem mesmo ouvido qualquer música com esta origem nos últimos tempos.
Não prestei muita atenção ao facto. Até porque o conceito que à época, o acompanhou – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – fazem parte da minha maneira de estar na vida.
E eis que dou comigo, em pleno Jardim da Estrela, com concerto musical por fundo, a fotografar desesperadamente. Foi uma tarde altamente proveitosa, sob diversos pontos de vista, incluindo o número de imagens efectuadas. Felizmente levava reservas de energia e matéria-prima, ou teria ficado apeado.
Com o que eu não contava foi o ter que usar dos meus parcos conhecimentos da língua francesa com transeuntes, fotografados ou não. Em regra o inglês sobrepõe-se, sendo que é o actual “esperanto”. Mas esta foi uma tarde francesa.
E, dos diversos contactos que tive nesta língua, evidencio com particular ênfase esta mocinha que aqui vedes. Depois de uma troca de fotografias, fiquei sabendo que, para além de marselhesa de origem, é estudante de fotografia. E, mesmo estando de férias, não dispensa a sua câmara e o seu uso. Recomenda-se!
O que também se recomenda é reparar com atenção no que tem nas mãos: uma Bronica 6x45. Película formato 120, doze fotografias por rolo, nada de zooms ou artifícios electrónicos. É com esta ferramenta que aprende o ofício, suponho que também com qualquer outra digital que possua. Mas esta foi a que escolheu para trazer nas férias.
Digam lá o que disserem os pedantes da fotografia contemporânea, a fotografia faz-se pensando, mesmo a reportagem. E esta câmara é uma das que obriga a tal exercício. Pela forma como é manuseada, pelo custo de cada imagem, pela sobriedade das opções. Há que saber o que se faz antes de o fazer. Ou, por outras palavras, há que saber o porquê antes de se encontrar o como.
Fica daqui o meu aplauso à Lola, assim se chama ela, bem como à escola onde estuda que a incentivou a tal.
Au revoir!


Texto e imagem: by me

sábado, 13 de setembro de 2008

I got my camera


Difícil mesmo é fazer com que as pessoas entendam que há coisas na vida que se fazem pelo prazer de as fazer. Tão só e apenas pelo prazer!
Que todo o resto que lhe possa estar associado pode ser secundário. E que não tem que ser, obrigatoriamente, por dinheiro.
No Jardim da Estrela perguntam-me porque ofereço as fotografias.
Encenando um pouco, acabo por dizer que se trata de um estudo sobre fotografia e, se insistirem muito, atiro-lhes com um ou dois nomes pomposos, acabados em –gia. E acrescento que não vivo daquilo, quando não já teria morrido de fome.
Houve mesmo quem me perguntasse em que universidade estava a fazer o mestrado ou doutoramento, para ali estar, assim, a fazer aquilo para estudar.
Há quem não entenda que o “saber” pode ser um prazer e que a aprendizagem também. E que se juntarmos a isso um outro prazer, no caso a fotografia, então as coisas acontecem pelo prazer, tão só e apenas pelo prazer.



I got life, mother

I got laughs, sister
I got freedom, brother
I got good times, man

I got crazy ways, daughter
I got million-dollar charm, cousin
I got headaches and toothaches
And bad times too
Like you

I got my hair
I got my head
I got my brains
I got my ears
I got my eyes
I got my nose
I got my mouth
I got my teeth
I got my tongue
I got my chin
I got my neck
I got my tits
I got my heart
I got my soul
I got my back
I got my ass
I got my arms
I got my hands
I got my fingers
Got my legs
I got my feet
I got my toes
I got my liver
Got my blood

I got my guts (I got my guts)
I got my muscles (muscles)
I got life (life)
Life (life)
Life (life)
LIFE!

Music and lyrics: “I got life” in “Hair” AQUI
Texto e imagem: by me

De novo!


Ele há coisas tão certas como o natal ser em Dezembro e a Páscoa calhar a um domingo:
É todos os anos haver milhares de pessoas, que são ou querem ser professores, que não são colocadas no sistema público de ensino.
Sendo que este é muito maior e com muitos mais funcionários que o privado, o certo é que estas pessoas ou ficam sem trabalhar ou vão exercer qualquer outra actividade, a título provisório ou definitivamente.

Além do incómodo que me provoca saber do desespero destes milhares de concidadãos, há uma coisa que me provoca raiva:
Quem não os contrata é o estado, gerido pelo governo. Este tem por função organizar a coisa pública em função da eficácia, dos custos e da vontade do povo.
A maioria destes candidatos a um cargo de professor é formada nas escolas públicas, pertença do estado e geridas pelo governo.
Também é o estado que detém o instituto nacional de estatística, que todos os anos nos informa da explosão demográfica negativa, ou seja, da diminuição do número de crianças nascidas. Estes nascimentos acontecem uns cinco ou seis anos antes dos seus ingressos nas escolas.

Então, sabendo-se sem grande dificuldade que a necessidade de professores está a diminuir, porque motivo todos os anos o ensino superior coloca no mercado de trabalho mais e mais jovens formados para essa actividade? Em maior número do que as necessidades resultantes do número de crianças nascidas e dos que se reformam?
Ou seja, porque motivo o estado, pela mão do governo, mantém nesta actividade lectiva, uma oferta de mão-de-obra substancialmente superior à da procura?

Está-me a parecer que o governo, que são pessoas contratadas pelo estado para o gerir, está a fazer mal o seu trabalho. Não está a desempenhar correctamente as tarefas para as quais é contratado, resultando daí o sofrimento e a frustração de milhares de cidadãos.
Está-me a parecer que este mau desempenho profissional é passível de aplicação da actual legislação, por eles mesmo aprovada, onde o despedimento com justa causa é uma das penalizações.
Ou, indo mais longe, está-me a parecer que serão passíveis de sanções judiciais com obrigação de indemnizações pagas ao estado contratante, por incúria e gestão danosa.
O que é grave nesta gestão danosa, é que os danos não são apenas materiais mas, e principalmente, de ordem humana, afectando com isso, e com carácter regular, muitos milhares de pessoas todos os anos e de uma forma regular. Na sua vida actual e futura.

Se os feriados podem ser criados ou eliminados, de acordo com os interesses políticos e as tradições populares, também esta rotina anual de incerteza e desespero de umas dezenas de milhar de pessoas, jovens ou não tanto, pode ser anulada.
Basta para isso saber gerir e prever cientificamente o futuro. O que, na prática, é o que se pede a um governo. Qualquer que seja a sua cor partidária!


Texto e imagem: by me

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Direitos de autor


Quando se fala em direitos de autor, quer seja nos artigos da lei, nos artigos de jornal ou nos artigos de opinião como os blogs, regra geral fala-se de dinheiro.
Fala-se dos proventos, pagamentos e dividendos em dinheiro ou espécie que os diversos intervenientes - autores, representantes, herdeiros ou divulgadores – assumem ter sobre a obra criada.
Textos ou música, coreografia ou realização cinematográfica, obra plástica portátil ou inamovível.
Todos estes resultados de uma actividade intelectual e artesanal ou artística que se manifesta de uma forma material e permanente ou imaterial e efémera são objecto de posse.
E de cobiça!
A pirataria (cópia ilegal, plágio, roubo, etc…) são consequência do desejo de se possuir algo a que se atribui valor (afectivo, estético, material...).
As regras e as leis existentes defendem o direito do autor sobre a autoria da obra, reservando-lhe os lucros da sua comercialização ou transacção.

Mas há outro aspecto, tão ou mais importante, sobre a autoria que, regra geral, é negligenciado: a obra em si mesma.
A facilidade da reprodução actual (de textos, fotografias ou pinturas, música ou cinema) faz com que se copie de uma forma indiscriminada, usando o trabalho original a seu bel-prazer. Muitas vezes truncando-o inserindo-o noutro contexto, “abusando” da obra original a tal ponto que o próprio autor teria dificuldade em reconhecê-la. É uma das características da sociedade tecnológica e de informação em que vivemos.

E se há uma forma de arte ou de expressão que fica a perder com estes processos é o cinema!
Quando um realizador concebe uma cena ou filme, em que a marcação de actores, banda sonora, tamanho e sequência de imagens, cenários e cores, está a conceber para um dado suporte final. As mais das vezes, a tela grande de uma sala de cinema.
Ao transformar esse trabalho, ainda que legitimamente pago, num suporte de consumo doméstico, boa parte do trabalho vai-se pelo cano abaixo.

Só para dar alguns exemplos:
A grandiosidade da nave alienígena em “Encontros imediatos do 3º grau”, ao descer naquele terreno, perde-se por completo se, no lugar de ser vista numa tela de 10 metros, o for num ecran com uns míseros 60 centímetros;
Os voos solitários sobre as montanhas e oceanos em “Fernão Capelo Gaivota” transformam-se em imagens monótonas e entediantes;
O trepidar do assento em “Terramoto”, desaparece, reduzindo o audiovisual a pouco mais que uma reportagem de um qualquer telejornal.

Não é à-toa que existe o conceito e a especialização em “tele-filme”. Som, imagem, acção, tudo é concebido para o pequeno ecran. Nas dimensões existentes e nas condições da sala: luminosidade, ruído ambiente, distancia de observação, interrupções fortuitas…

Vem tudo isto a propósito dos canais temáticos de TV sobre cinema e sobre os clubes de vídeo e lojas de venda – fita ou DVD.
Lucram os distribuidores, com o aumento da facturação; lucram as estações de TV, com o aumento das audiências e da publicidade; lucram as lojas com as vendas ou aluguer…
Mas perdem os autores, que vêem as suas obras apreciadas em condições que degradam, para não dizer aviltam, o trabalho original; perdem os clientes, que compram lebre e levam lebre, mas compare-se a lebre de caça com a lebre de aviário!

Uma comparação, talvez fácil, é sobre a “Gioconda”. Dificilmente haverá alguém, na sociedade ocidental actual, que não tenha visto uma reprodução: nos jornais ou revistas, em livros, em calendários, na web…
Mas a quem a tenha visto ao vivo, no museu, só poderá concordar comigo.
Ou a capela Sistina; ou o “Nascimento de uma nação”; ou a 5ª de Beethoven; ou “As bodas de Fígaro”…

Dir-me-ão alguns que o cinema em casa é prático, cómodo e economizador de tempo e dinheiro. Também o é o “fast food” ou uma grande chávena de café em jejum depois de uma noite de três horas de sono.
É uma questão de quantidade versus qualidade!
É uma questão do rumo que a sociedade está a tomar!


Texto: by me
Imagem: edit from the web

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Kodak 110


Esta foi a primeira câmara fotográfica que comprei. Não foi a primeira que possui mas a primeira que comprei. Adquirida com o primeiro dinheiro que ganhei a trabalhar, logo o primeiro, recordo ainda os motivos e o local.
A loja já não existe, tal como a grande maioria das lojas de equipamento fotográfico espelhadas então pela cidade.
Os motivos de então continuam ainda hoje válidos: compactação do equipamento, alguns ajustes na tomada de vista, baixo preço.
Lamento que já não se encontre película para ela. O formato 110 desapareceu com a banalização do 35mm e suas câmaras e, mais recentemente, com o advento do digital. E lamento porque gostaria de ainda hoje a poder usar. Não se trata de saudosismo mas antes o prazer de, em possuindo algo, que funcione e que, em qualquer momento que me apeteça, o possa por em acção.
Mas há um outro factor que me leva a ainda gostar dela: o obrigar a pensar! Limitada que está por uma objectiva de focal fixa, leva o fotógrafo a ter que encontrar soluções de composição mais elaboradas, por forma a dar ênfase àquilo que quer contar com a imagem.
Recentemente, e por via de uma avaria na minha DSLR, fui obrigado a recorrer ao meu telemóvel ou, se preferirem, à minha “câmara-fotográfica-que-também-faz-chamadas-telefónicas. Tem sido uma delícia usa-la e ser obrigado a pensar, pondo de lado os facilitismos (óptimos, diga-se de passagem) que as câmaras actuais permitem. O “Japonês inteligente” ajuda-nos em muito, o podermos optar por esta ou por aquela distância focal é uma ferramenta imprescindível, mas… voltar às origens, saber dominar a perspectiva, as limitações de exposição e usa-las em nosso proveito é algo que dá um prazer fotográfico como poucos.
Um destes dias, e mesmo só por uma questão de regresso às origens, pegarei na minha velha Lomo, ainda identificada como “Made in USSR” e não “Made in Rússia”, ponho-lhe pilhas e película, e vou dar umas voltinhas. Só mesmo para ver se não perdi o toque, se alguma vez o tive!


Texto e imagem: by me

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Intimacy

Smaller than my litle finger’s nail.
Have a nice lunch.


Texto e imagem: by me

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Reading a coffée cup


Some look for it in the deeps of a cristal ball;
Others seek it in a deck of cards;
Some inquire the dog-whelk shells;
The most common is to ask the stars.
Or even reading the leaves in a tea cup.

As for me, I can tell the past, the present and the future looking at this.
This week, at work, if I look at an empty coffee cup at 5.45 am, I can say without error:
“I was’t enough!”;
“I need one more now!”
“Either you will give me another in half an hour or I will fall a sleep!”

Easy!


Texto e imagem: by me

domingo, 7 de setembro de 2008

A pérola


Até que nem ia muito cheio, o autocarro. Enfim, não mais que o que seria de esperar pelas oito e meia da manhã de um domingo. Principalmente se considerarmos que se afastava do centro da cidade e não o invés.
Fosse como fosse, o pequeno percurso a fazer até chegar à minha paragem, onde iria esperar pelo outro que me depositaria no trabalho, não justificavam que me fosse sentar lá no fundo, onde tudo sacode e solavanca bem mais.
Assim, deixei-me ficar junto à porta do meio, de pé, com a mochila fotográfica nas costas e, pendente de uma das suas correias de transporte, o monopé. Sim, que eu iria aproveitar o facto de o dia estar bonito e de ser domingo, para ir mais cedo para o trabalho e espreitar com olhos de ver e de fotografar a miudezas animais e vegetais que ali existem.
E ali estava eu, abanando um pedaço e sendo alvo dos olhares entediados dos demais passageiros, quando o meu próprio olhar ficou preso. Junto à porta, bem encostadinhas ao varão onde nos agarramos, seguras por um rasgo no metal, umas quantas bolinhas brilhavam. Àquela distância, até que poderiam ser o resultado de uma soldadura bem tosca, mas o local era estranho para isso.
Dei um passo ou dois em frente e, com o pé, tentei perceber de que se tratava. Mexiam-se! Pouco mas mexiam-se!
Foi aí que tentei fazer o meu primeiro número de ginástica de curioso do dia: por entre o chocalhar da viatura, com a pesada mochila nas costas e o monopé a atrapalhar os movimentos, acocorei-me e agarrei uma. E levei a minha curiosidade mais longe: Já erecto, pus os óculos e usei da lupa do relógio para perceber, para além de qualquer dúvida, de que se tratava aquilo que tinha na mão.
Era isto! Uma pérola, de plástico genuíno, de um qualquer colar feminino.
Sendo que sei que os autocarros da capital são limpos todos os dias aquando do recolher, acredito que estivessem por ali há pouco tempo, uma, duas horas no máximo. Para mais sendo domingo, dia de vestir a roupinha especial e de usar os adereços a condizer.
E, com ela na mão, consegui imaginar o que se teria passado para que ela e as suas iguais ali estivessem: Um gesto mal medido em direcção ao varão, com os solavancos da viatura e a caminho da saída, e um dedo metido no colar, forçando o quebrar do fio. E as bolinhas a espalharem-se no chão, talvez umas dentro, outras fora, já com o transporte parado, e a sua dona, ainda que as querendo apanhar, a não o conseguir por via dos olhares de desagrado dos restantes passageiros a quererem seguir viagem e a não quererem ali ficar retidos com o catar da bijutaria.
E imagino também o desgosto da dona, com a toilete cuidada mas com o colo descomposto, nú mesmo, sem saber como se apresentar na igreja onde iria rezar ou junto dos familiares que iria visitar.
Tivesse eu mais tempo, e iria de paragem em paragem olhar o chão, tentando encontrar mais alguma caída e, com isso, verificar onde tal acidente se dera. E, com essa informação extra, tentar imaginar o resto da história, em função do local, das gentes e edifícios.
Mas flores, insectos e outros seres vivos esperavam-me sem o saberem, junto ao espaço onde eu, com botões quase tão pequenos quanto esta pérola, tento criar o tom de pele certo e igual em todas as câmaras de televisão.
Mas se encontrarem uma dona chorosa pelo seu colar, digam-lhe que pelo menos uma das bolinhas eu guardei. Basta telefonar-me.


Texto e imagem: by me

sábado, 6 de setembro de 2008

Cage


Unbalance? Sure!
Who said that prison has to be square or time symmetrical?
Past is always less than future and Earth is a blue cage. Or should I say “golden”?

Texto e imagem: by me

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Once upon a time...

Just for the fun of doing it.

Far, far away...


Far, far away, there is a magic castle where every living beings are happy, with no pain, illness or hunger.
We must keep walking until we get there!



Artigo no “Publico on-line”, 2008/09/05

O Tribunal Judicial de Faro emitiu hoje uma providência cautelar para impedir a realização de um “rodeo brasileiro” marcado para amanhã à noite na Feira do Cavalo de Estói, no concelho de Faro, no âmbito de um Campeonato Nacional de Rodeo promovido pela Associação Portuguesa de Rodeo e pela empresa Megalqueva.
O tribunal considerou demonstrado que nos “rodeos” deste tipo “os animais são afectados de sofrimento cruel e prolongado sem qualquer justificação” e que a Animal tem legitimidade e direito de promover a defesa dos direitos dos animais pelos meios legais adequados. A Feira do Cavalo de Estói é promovida pelo Grupo de Amigos do Cavalo de Estói e envolve a junta de freguesia local, no concelho de Faro.
A decisão do tribunal, proferia na sequência do pedido de providência cautelar interposto pela associação Animal, deu também como “demonstrado o fundado receio” de que “a realização do evento cause lesão grave e dificilmente reparável dos direitos dos animais que pela providência cautelar se pretendem acautelar”, visto que, depois de ocorrer, “a dor infligida aos animais utilizados nos espectáculos constitui notoriamente um dano irreparável.
A sentença, assinada pelo juiz Joaquim Cruz, determina ainda que a Junta de Freguesia de Estói, o Grupo de Amigos do Cavalo de Estói e a Megalqueva paguem solidariamente a quantia de 15 mil euros no caso de realizarem mesmo o “rodeo”. A Animal pedia uma multa de 50 mil euros.
No final de Maio, a Megalqueva realizou um "country rodeo" numa feira em Santiago do Cacém, que culminou na queda de uma bancada, provocando 60 feridos ligeiros.
O presidente da Junta de Freguesia de Estoi, José da Paula Brito, tinha acabado de ser informado da decisão quando foi contactado pelo PÚBLICO e remeteu para mais tarde uma reacção.
O “rodeo”, autorizado pela Câmara de Faro, tinha também o apoio da Direcção Regional de Agricultura do Algarve e do Serviço Nacional Coudélico, dois organismos do Ministério da Agricultura, o que a Animal considera “escandaloso”, atendendo a que o tribunal deu razão à associação no que respeita à ilicitude da realização destes eventos em Portugal.
O presidente da Animal, Miguel Moutinho, disse em comunicado: “Foi com a maior satisfação que vimos o Tribunal de Faro tomar esta decisão, que impedirá que vários bois e cavalos sejam brutalmente violentados neste ‘rodeo’”. Este responsável diz ainda que “os ‘rodeos’ são espectáculos extremamente violentos que, mesmo nos EUA e no Brasil, de onde estão a ser exportados para outras zonas do mundo, já foram proibidos em diversos municípios e através de diversas decisões judiciais, justamente pela crueldade extrema de que se revestem”.
A associação diz também que em 2004 já tinha conseguido travar uma tentativa da introdução dos “rodeos” em Portugal, e que este ano há uma nova tentativa, “mais forte”, a qual a Animal vai tentar travar na Justiça.
A Animal é uma associação que assume por missão “defender, estabelecer e proteger os direitos de todos os animais não-humanos que sejam seres sencientes”, isto é, “seres capazes de experienciar o sofrimento, tanto a nível físico como psicológico e emocional, e cujas características fazem com que tenham um interesse natural não só em não sofrerem mas também em não serem aprisionados e em não serem mortos”. A Animal considera que “cada animal importa por si próprio enquanto indivíduo”.



Imagem: by me

256


Sabemos que Portugal, à imagem e semelhança do que vem acontecendo em muitos outros países ditos desenvolvidos, está a envelhecer.
Por outras palavras, cada vez mais os casais vêm reduzindo o número de filhos que têm ou querem ter, para já não falar naqueles que decidem de todo não os ter. Acrescente-se a isto o aumento da esperança média de vida, com o apoio social e medico que é dado aos idosos.
Na prática, isto redunda em que a idade média dos cidadãos aumenta. Com as consequências isso trás na diminuição de gente em idade produtiva, na diminuição dos montantes das contribuições que a população activa faz para o bem-estar da colectividade, no aumento bem notório das necessidades de cuidados geriátricos. E respectivas despesas. De saúde e de reformas, que bem as merecem, umas e outras.
Esta explosão demográfica negativa ou tendencialmente negativa é algo que vem ocupando pensantes, políticos e economistas. Nos motivos e nas consequências a curto, médio e longo prazo. E algumas soluções têm vindo a ser apresentadas. Recordo uma, feita para Espanha, que passava pelo aumento da aceitação de emigrantes que, oriundos de países com tradições de muitos filhos por casal, viriam não apenas trabalhar como aumentar a população juvenil.
Curioso mesmo é pensar que já grandes civilizações da antiguidade, como a Romana, tiveram problemas semelhantes com soluções equivalentes. Com a diferença que chamavam aos emigrantes “escravos”
Claro que esta questão da aceitação de migrantes tem outras vantagens, como seja a renovação do sangue. Posto de outra forma, a questão da “Raça” desaparece ao haver a mistura de origens (europeias, asiáticas, sul-americanas, africanas), sendo mais difícil será o surgimento de teorias racistas.
Mas a solução passaria, parece-me, por criar condições a que os “nativos” tenham mais vontade em procriar. Por questões económicas e de fundo e por questões de satisfação do casal. Que muitas vezes o não se ter filhos prende-se com futuro material que ele – o casal – antevê. As dificuldades de manutenção do nível social, a insegurança laboral, o aumento do custo de vida e os prognósticos pessimistas que se vão fazendo desencantam os jovens.
Porque, em boa verdade, um casal que aufira cada um 500 euros, e são tantos por aí, com os contratos a prazo e os “outsorcings”, perguntar-se-à pela certa que fará quando, no início do ano lectivo a factura de livros escolares for de 256 euros. Como desabafou comigo um colega sobre a sua filha, agora a entrar para o 7º ano de escolaridade. Ainda naquela idade em que ela, a criança, é obrigada a frequentar a escola. Para já não referir que a roupa do ano passado não serve já e que as chuvas e frio estão à porta.
Diz-se que a vida é uma rosa, com pétalas e espinhos. Os jovens, hoje, só vêem cardos, não lhes apetecendo muito esforçarem-se e continuarem a serem picados. Nem mesmo o optimismo e entusiasmo próprio da juventude em início de vida ultrapassam isso.



Texto e imagem: by me

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Dragon-fly


It’s easy when both of us, model and photographer, have the patience to do it!
Tokina AT-X 400, helicoid extender, manual focus, f:11, 1/90
Pentax K100D with monopod


Model: him
Photographer: me

Self-portrait (Just some times!)

Me by me

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Solidari-QUÊ?


Não sou do género atlético ou heróico. Nunca estive ligado às actividades desportivas, o meu ventre é bem visível à distância e costumo ter algum bom-senso no que toca à minha integridade física.
Apesar disso, quando vi o dono do café regressar ao seu interior com o segundo extintor na mão, não hesitei: segui-o!
O primeiro, supunha-se, tinha resolvido a questão, havendo apenas fogo no interior da tubagem de exaustão, onde não havia acesso fácil. Restava muito fumo, negro e tóxico, que dificultava ainda mais a visibilidade na fábrica de pão e pastelaria, sem janelas e fracamente iluminada pelas luzes de emergência. Que a energia tinha sido cortada, assim como o gás.
Mas, pelo postigo da zona de clientes para a zona de fabrico ele vira o reacender das chamas e foi, afoito. E razoavelmente inconsciente do perigo a que assim se expunha, ao entrar, sozinho, onde o fumo mais abundava e com o risco de a ele sucumbir. Por isso fui atrás dele. De mãos vazias, que não havia mais extintores e não conhecendo o local, corria, calculado, o mesmo risco que ele à minha frente. Mas sempre poderiam ser necessárias duas mãos para o trazer de volta.
Felizmente não houve que o fazer.
Quando os bombeiros chegaram, com tudo o que entenderam fazer falta para acudir a um fogo, restou-lhes o trabalho de desenfumagem e tomar nota da ocorrência. Tal como fizeram os agentes policiais que também acorreram à chamada.
O que não aconteceu, e me deixou preocupado, foi os residentes dos andares superiores não terem abandonado as respectivas casas, ainda que instados a isso antes da chegada de socorro. O mais que fizeram, como medida preventiva, foi o retirar a roupa estendida a secar, por mor da fuligem.
Mas o que me deixou mesmo furioso foi o que aconteceu ao nível da rua.
É que, mais acima e mais abaixo, existem dois outros cafés. Cada um a uns quarenta metros deste. Não lhe são concorrentes, já que o tipo de clientela e os serviços e produtos que disponibilizam são bem diferentes. De comum mesmo, só o café.
Mas, apesar de não haver rivalidade comercial aparente, nada fizeram em prol do vizinho em apuros. Nem se foram oferecer para o que quer fosse nem mesmo disponibilizaram os extintores que, obrigatoriamente, possuem, para minimizar estragos antes da chegada dos bombeiros.
Assomaram às portas, vigiaram à distância e, a menos que a minha imaginação me pregasse uma partida, quase lhes vi um sorriso meio escondido nos lábios.
Solidariedade, tanto no café debaixo como no de cima, é algo de desconhecido ou assumidamente ignorado. E isto é algo que me deixa fora do sério, ainda que saiba ser a tendência moderna das sociedades desenvolvidas.
Não sei o que farei se o azar lhes bater à porta e estiver por perto. Se bem me conheço, acredito que farei algo equivalente ao de ontem: o necessário na ocasião, sem olhar a quem.
Mas, pensando no que aconteceu nesta minha rua, a vontade que tenho é atravessa-la, sentar-me onde der jeito e, pacatamente, ir fotografando. Afinal, incêndios ao virar da esquina não acontecem todos os dias.


Texto e imagem: by me

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Uma e tal da madrugada




Já eu estava envolvido nas primeiras carícias de Morfeu quando, vindo da rua, subindo ao meu terceiro andar e entrando pela minha janela fechada, me chega aos ouvidos um ruído terrível. Haverá quem lhe chame música mas, para mim, com a quase total ausência de melodia e harmonia e o ritmo a dominar tudo, não lhe dou esse nome. Menos ainda quando o seu volume é tal que consegue tirar do sério e do sono meio quarteirão, em pouco passando da uma da madrugada. Num bairro onde tais situações são mais que raras.
Nada satisfeito, até porque sei que, em ele se indo, tenho dificuldade em chamar de novo o sono, fui à janela tentar perceber o que se passava.
Mesmo em frente a ela, três pisos abaixo, um homem e duas mulheres, aparentando pouca idade, entretinham-se em conversa junto de um carro que, de portas abertas, vomitava por elas a plena potência do seu sistema sonoro. Até que, por entre risos e gargalhadas, recolheram alguns pertences, que me pareceram ser de praia, e entraram para o prédio contíguo. Deixando o carro fechado e calado.
Não gostei! Nem um pingo! Devo dizer mesmo que fiquei fulo da vida! E, em sabendo o meu sono distante, enfiei umas peças de roupa e desci à rua. Pela posição mais que irregular do carro estacionado, o seu dono deveria voltar em breve, e ali me teria para me ouvir, ainda antes de ouvir de novo a chinfrineira demoníaca.
Para me entreter, fui testando os limites da minha “câmara-fotográfica-que-também-faz-chamadas-telefónicas”. E constatei aquilo que suponha ter por certo: até pouco mais de um metro, o flash ainda serve para alguma coisa. Mas para além disso é inútil. Pelo que improvisei ali mesmo um suporte de emergência para a imagem que aqui vedes. E em muito “trabalhada” para que alguma coisa se veja. Sei que o grão abunda, mas mais não tinha ali para o registo.
O motivo que demorou o dono do carro no interior da casa que não identifiquei foi maior que a minha paciência, pelo que acabei por me retirar. Juro que o carro ficou incólume. E, de manhã, já ali não estava. E como as restantes viaturas que ele bloqueava não se queixaram para sair, deve ter ido embora ainda antes do nascer do dia, que não ouvi protestos de buzinas.
Mas, se por mero acaso, encontrarem este carro e o respectivo dono, podem dar-lhe da minha parte algo do responso que eu mesmo lhe daria. E se quiserem dar uso a alguma bengala nodosa, parecida com a que eu tinha comigo nesta noite, não tenham cerimónias: façam de conta que era eu mesmo, que depois logo acabo a conversa!


Texto e imagem: by me

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Sun Tzu


Ir às compras num fim-de-semana é sempre uma má escolha. E tanto pior será se este coincidir com o fim-do-mês. Se acrescentarmos que o mês é o de Agosto, o de férias e que, nele, estão todos os veraneantes a preparar o regresso ao trabalho e à escola, então, ir às compras num destes dias é quase um acto de masoquismo da parte de quem o possa fazer noutro dia qualquer.
Acontece que me esqueci por completo destas circunstâncias e fui às compras no supermercado cá do bairro neste sábado. Ainda estava a aproximar-me e já estava a arrepender-me, por via da quantidade de carros que via estacionados. Se eu mesmo fosse de carro, talvez tivesse dado meia volta e regressado em qualquer outro dia. Mas indo a pé e com mais de metade do caminho percorrido... Decidi aceitar o risco e enchi-me de paciência para as confusões nos corredores dos expositores e as filas nas caixas registadoras. No mínimo, iria ali estar o triplo do tempo previsto e sair de lá com menos de um terço do bom humor com que entraria.
Como me enganei!
Como é habitual nestes espaços, à entrada existem diversas pequenas lojas de conveniência: cafezinho, tabacaria/jornaleiro, florista, lavandaria, reparação de calçado, electrónica de consumo e pronto-a-vestir. E, depois do café para ganhar coragem, fui tratar de tabaco, que por aqui é um dos pouco locais que vendem a marca que consumo.
Estava a lojista a preparar as sobras de jornais e revistas da semana para as devoluções e vejo, em cima do balcão, um pequeno livreco: “Sun Tzu, a Arte da Guerra”. Nunca o tinha lido apesar de ter já encontrado diversas referências a ele. Tenho mesmo um colega (pobre coitado), que o cita amiúde, quase que como à bíblia.
E porque não”, pensei, “leva-lo?” Mais um para pegar em havendo tempo e, entretanto, aumentar a pilha enorme dos que ainda não tive tempo para tal. E perguntei por ele e pelo seu preço.
A resposta foi meio simples, entre cifras e anotações: “Este vem com um jornal, não o posso vender avulso!” “Pois bem, dê-me então o jornal com o livro”, retorqui, que já havia decidido leva-lo.
Pois, mas este veio com o jornal da semana passada… O desta semana é outro” “Mas é este livro que eu quero. Será que ainda tem o jornal da semana passada?
Sorriu. No meio de jornais, tabacos, trocos e afins, ainda encontrou ânimo para sorrir. “Leve-o”, disse-me. “E quanto é?” perguntei, que já tinha pago os cigarros.
Nada. Leve-o que, de qualquer forma, iria de volta como sobra. Não é nada!
Por vezes vale a pena ir às compras num supermercado de bairro, no último fim-de-semana de Agosto.

E o que a imagem tem a ver com a estória? No meu imaginário, alimentado pela cinematografia do extremo oriente, estas plumas que abundam por aqui, no caminho de casa para as compras, assemelham-se aos estandartes e insígnias que os combatentes de tempos antigos usavam.
E, da mais de metade dele que já li (sim, acabei por lhe dar preferência sobre todos os outros) será um bom guia para quem faça da competição ou da guerra a sua forma de vida. O que, diga-se em abono da verdade, parece estar na ordem do dia!

Texto e imagem: by me