sábado, 31 de maio de 2008

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Duo


Ao preço da chuva


Pois aquilo que muitos têm andado à procura, quase que inutilmente, encontrei eu, com a maior das facilidades.
Numa lojinha de inutilidades, num quase igualmente inútil centro comercial, comprei um milhão de dollars por 60 cêntimos.
Ora se o valor do dollar, face ao euro, é assim tão baixo, se já se vende em qualquer lado como uma recordação, como querem os economistas, financeiros e outros manter a economia estável?
Não que ela tenha que depender da moeda americana. Não nos podemos esquecer que um dos motivos, não confessos, da invasão do Iraque por parte dos Norte Americanos foi o facto de os Iraquianos quererem passar a negociar o petróleo que vendiam com base em Euros e não em Dollars.
Ignomínia e blasfémia que não pode ser aceite pela nação que afirma, despudoradamente, que a América é a última esperança para a humanidade, conforme se pode ver e ouvir
AQUI

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Old and new


Agora imaginem que eu aqui deixava "mil palavras".

Preces


Foi isto que vi num pára-choques, ao sair de casa.
Confrontado com este apelo semi-desesperado, não me coíbo de dois pensamentos:
Para o dono desta viatura, aparentemente, já só restam preces para livrar o País do caminho que toma e que, curiosamente, somos nós mesmos que traçamos e percorremos;
E, ao colocar no pára-choques a sua prece, mais virado para baixo que para cima, a que “Senhor” dirige este português os seus pedidos?

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O portão


Um mero portão, dirão alguns.
Acontece que conheço este portão há trinta e quatro anos e um mês.
Nessa época, e nos dois ou três anos que se lhe seguiram, este portão do liceu onde andei a estudar, ainda que sendo um portão secundário, abria-se com bastante frequência, dando acesso à zona das festas, dos convívios, dos comícios (porque não), dos concertos pop’s ou classicos e de toda uma vivência social e animada que se vivia em todas as camadas sociais e as juvenis em particular.
Hoje este portão está assim: ferrugento. Naquele liceu apenas dois outros funcionam (o principal e o de serviços de apoio). E neste portão que cruzávamos com alegria e entusiasmo de viver e aprender, resta apenas uma coisa brilhante: a fechadura!

terça-feira, 27 de maio de 2008

O pátio


Ainda que possa parecer, à primeira e descuida vista, que alguém arremessou estes objectos à toa para este pátio, assim não aconteceu.
Inicialmente, havia aqui afixado um cartaz proibindo a prática de jogos no recinto.
Depois, colocaram as anilhas amarelas, pensando, suponho, que impediriam os eventuais jogos de bola ou equivalentes.
Pelo que vejo, não foram suficientes, pelo que, há pouco, acrescentaram os blocos cinzentos.
Mas consigo imaginar alguns jogos a aqui se praticarem: gincana, de olhos vendados, de uma esquina à outra sem cair; um enorme bilhar com muitas tabelas, assim se encontrem os tacos de tamanho suficiente; reajustar as posições dos blocos por forma a fazer símbolos obscenos aos proprietários…

Não moro neste prédio. Mas os seus moradores preferem que os seus filhos brinquem e joguem no asfalto e entre os carros, será problema deles. E de todos nós, que teremos que viver com os que, eventualmente, acabaram por ser chamados de “delinquentes”.
Não moro neste prédio, como já disse. Nem nunca morei. Mas se tivesse morado, já de lá teria saído, por mor desta vizinhança hostil.

Paridades e igualdades


A notícia, que a seguir transcrevo, constava da lista de “notícias de última hora” da versão on-line do jornal Público:

“Valor terá relação com rendimentos declarados
Indemnizações às vítimas de acidentes rodoviários têm novo regime

26.05.2008 - 19h13 Lusa
As indemnizações a atribuir às vítimas de acidentes de automóvel têm, a partir de agora, novos critérios e valores orientadores, de acordo com uma portaria publicada hoje em Diário da República. "Uma das alterações de maior impacte será a adopção do princípio de que só há lugar à indemnização, por dano patrimonial futuro, quando a situação incapacitante do lesado o impede de prosseguir a sua actividade profissional habitual ou qualquer outra", refere o Ministério da Justiça (MJ) em comunicado.O MJ destaca, também, que "o cálculo das indemnizações por prejuízo patrimonial passa a ter por base, para efeitos de proposta razoável, os rendimentos declarados à administração fiscal pelos lesados". Com a publicação deste diploma "ficam esclarecidas muitas das dúvidas existentes na área de indemnização devido a sinistros com automóveis", adianta o MJ, que explica que o diploma tem por base estudos, realizados pelo mercado segurador e Fundo de Garantia Automóvel, sobre a sinistralidade rodoviária.O diploma resulta de uma iniciativa conjunta dos Ministérios das Finanças e da Justiça.”

Interessante de constatar é que, apesar de ter sido distribuída pela agência Lusa, no dia seguinte nem o jornal Público nem o jornal Diário de Notícias, nas suas versões on-line, falavam no caso.
E o caso não é tão simples como isso!
Porque consigo imaginar que, num mesmo acidente rodoviário (suponhamos um despiste com atropelamento de peões) fiquem tetraplégicos um pedinte e um alto administrador de uma qualquer grande empresa.
Consigo imaginar que o segundo receba uma choruda indemnização, enquanto que o segundo, porque nem sequer apresenta declaração de IRS, nada receba.
Ou seja: para além da questão moral de se a vida ou um pedaço de corpo humano tem algum valor económico, esse eventual valor não é igual para todos e um braço ou uma perna de um rico vale mais que um braço ou uma perna de um pobre.
Que esta teoria seja apresentada e defendida pelas companhias de seguros, que sabem haver bem mais pobres que ricos e que, assim, diminuem substancialmente, as indemnizações a pagar, eu entendo; Se esta teoria fosse defendida e a lei promulgada por um governo assumidamente de direita, que defendesse primordialmente as classes mais abastadas em desfavor das restantes, também o entenderia.
Agora assinar e publicar esta lei um governo de um partido que se diz socialista e defensor de todas as classes sociais… Ou bem que não sabe o que está a assinar ou bem que não faz corresponder o que diz com o que faz.
E com uma divulgação timidamente modesta, ou ausente e cúmplice, dos principais jornais diários do País!



Texto: by me
Imagem: algures na web

segunda-feira, 26 de maio de 2008

No words today


Just me, my phone camera and some editing.
Can I?

By me

domingo, 25 de maio de 2008

A


What does it mean?
It can be just the first letter of the alphabet, were it all begans;
It can be the first letter of the name of some one very close to my heart, as close as the pin is;
It can be the symbol of anarchy, even if it breaks it’s limits;
It can be the first letter of a forgoten word: AMORE;
It can be all of them or just some of them or even something else you may think of.
But it sure is a provocation!
First they look at the pin, then at me, then at the pin again, and my face once more.
In the betewen, I can see their forehead with wrikles, trying to understand what or who they are looking at.
And if I can make people think, it doesn’t matter what about, then I make my day. And it just cost me 2 euros to do that!


Texto e imagem: me by me

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Detalhes urbanos


Eu não aguentaria! Juro que não seria capaz de me aturar a mim mesmo por tantos anos quantos os que viveu este poeta que uma artéria de Massamá enaltece e recorda.
E se imaginarmos que escreveu e publicou um livro a cada dez anos, o que até nem é muito produtivo, que tamanho teria que ter a biblioteca que contivesse toda a sua obra?

Tenho que confessar que a gargalhada que dei quando vi esta placa foi bem grande. Em volume e duração. A tal ponto que, na pacatez desta travessa, amornada com uma tarde neutra de feriado em que nem chovia nem deixava de chover, fez vir às janelas alguns moradores, que transeuntes não os havia.
Espero que ela – a gargalhada -, a minha figura plantado no meio da rua e a fotografia que fiz, tenha feito com que os moradores, quando por ali passem de novo, olhem com olhos de ver o que ali têm. Porque, em boa verdade, ninguém repara na placa da sua própria rua.
Daqui por um ano (bem, sejamos condescendentes – dois anos) voltarei aqui para ver se alguma coisa aconteceu.

Até o vinho!


Num Shopping de subúrbio, a poucos metros de uma loja de óculos e derivados em que uma das sócias é Mexicana, e por cima de um restaurante que já foi Chinês mas que agora diz ser Japonês, entro num restaurante Italiano.
O empregado, Brasileiro, conduz-me a uma mesa onde lhe peço uma das especialidades da casa: Peitos de Frango à Grega.
No final, junto com o café, um pedacinho de chocolate, onde fico a saber que é 70% African Ebony e que foi fabricado na Bélgica.
E, quando me preparo para beber o que restava do vinho Português, das terras do Sado, constato que o rótulo está todo ele escrito em Inglês.
Felizmente que temos o Euro, o Espaço Schengen, os PALOP, a CPLP e a Aldeia Global.
Quando não seria obrigado, para uma simples refeição, a exibir a cada passo um passaporte actualizado e válido para todos os países do mundo.


Texto e imagem: by me (with a phone camera)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

À pedrada


Tendo já passado horas a fio, de pé e sem poder arredá-lo, num cruzamento de duas ruas e uma praça num grande jardim de Lisboa, acabo por trocar alguns dedos de conversa com os habituais do jardim, aqueles ali vão todos os dias, bem como com aqueles que só lá vão de quando em vez. E até com aqueles que nunca lá tinham estado e, provavelmente, não voltarão a estar.
Para com os habituais, acabo por já quase que fazer parte da mobília, sendo que algumas das conversas extravasam de longe o tempo, o negócio, as recordações ou um qualquer outro episódio inconsequente.
Para alguns destes, as conversas entram mesmo no campo das confidências, ouvindo eu detalhes das suas vidas privadas, actuais ou distantes. Umas com graça, outras mesmo sem graça nenhuma.
E destas últimas, das que não têm graça nenhuma, bem pelo contrário, já perdi a conta às vezes que ouvi dizer que, este mês, não deu para comprar os remédios todos. São sempre idosos, reformados, que ali vão ocupar o tempo, quando o clima está de feição e as maleitas da idade o permitem.

E quando, em paralelo com estes desabafos, vejo estes anúncios na cidade, enaltecendo os hospitais privados, os sistemas de saúde privados, os seguros de saúde privados, e tudo o mais que se relaciona com a saúde e que só alguns alcançam…
Sinto vontade de começar à pedrada!
À pedrada aos anúncios, à pedrada aos hospitais, à pedrada àqueles que neles se inscrevem para tirar umas rugas da idade enquanto que tantos outros não conseguem sequer pagar o remédio para dar conta das dores da idade, aquelas que os impedem de sair à rua para desabafarem sobre as mesmas dores com os outros que por lá estão, com ou sem essas dores.

Eles gostam de nós, dizem eles!
O que eles não dizem é quais são as condições económicas que temos que ter para que eles gostem de nós.

Corrigindo


terça-feira, 20 de maio de 2008

Prioridades


Chuva! Aquela chuva que molha tolos quando eu estou em casa e que nem faz estar confortável na rua nem faz apetecer abrir o chapéu. Vagueava pela vila de Sintra, de olhos abertos, como convém a um fotógrafo, que é um voyer por natureza.
Eis que dou com algo de invulgar: numa montra de uma perfumaria, algo está a mexer onde não devia. Ainda que cego de um olho, o outro deu pela situação e aproximo-me.
Tratava-se de uma borboleta, mal nascida com certeza, que com este tempo não voará muito. Em qualquer dos casos, está do lado de dentro e não entende como não consegue sair, que o vidro lhe é algo de estranho. Claro que não sabe que, com esta chuvinha, a água lhe encharcará as asas e deixará de poder voar rapidamente. Mas continua a tentar, quase que para além das suas forças.
Borrifei-me para os borrifos que me caíam em cima e atravessei a rua para um abrigo de um toldo de uma pastelaria. Abri o saco, tirei a câmara e voltei a atravessar a rua (é fácil, nesta, que não tem trânsito automóvel!)
Sob o olhar meio estranho das empregadas dos perfumes e aromas lá dentro, lá fiz umas quantas fotografias da pobre borboleta, enquanto ia, mentalmente, contando o tempo que poderia estar sob aquela aguadilha antes de esta começar a ser em demasia para o equipamento. Regressei ao abrigo e tratei de limpar corpo e objectiva das gotas que a ornavam.
Enquanto o fazia, um olho em baixo e o mesmo olhando em redor, que o espírito da “caça” estava aceso. E dou com uma mulher que se aproximava pela rua fora. Àquela distância parecia agradável à vista, e fiquei a aguardar que chegasse mais perto para o confirmar.
Eis que pára, sem guarda-chuva e, sob esta, observa-se num espelhinho de bolsinha. Compõe as sobrancelhas, a franja, verifica o baton dos lábios e segue para uma porta, onde entra.
Não abri a boca, que dela pendia um cigarro, mas o espanto era evidente. Sob a chuva a compor a figura!? E para onde iria? A que se iria dedicar em que o aspecto da cara fosse mais importante que o cabelo e o casaco molhados? Claro que fui ver em que porta tinha entrado! Um banco.
Àquela hora, ainda não seriam 15.30 – hora de fechar – e com a pressa e preocupação com o seu aspecto, apenas poderia ir tratar de um qualquer negócio onde estaria a pedir algum crédito, ou tratar da renegociação do crédito à habitação, que anda bem mal parado, como sabemos. Pela certa que não iria fazer um simples levantamento ou depósito.
Acredito que a impressão que quisesse criar no seu interlocutor justificasse água no cabelo e na roupa, mas nunca, nunca mesmo, uma maquiagem desalinhada.
Entretanto, a borboleta lá tentava sair daquela prisão de vidro, sem saber que essa liberdade desejada significaria a sua morte a curto prazo.
Prioridades!


Texto e imagem: by me

Windows ZQ


No wallpapper, no folders, no icons, no pointer.
Just Windows and sorrow.
With this article, we can ask: Where are we goint to?




May 20, 2008
‘Big Brother’ Database for phones and e-mails

A massive government database holding details of every phone call, e-mail and time spent on the internet by the public is being planned as part of the fight against crime and terrorism. Internet service providers (ISPs) and telecoms companies would hand over the records to the Home Office under plans put forward by officials.
The information would be held for at least 12 months and the police and security services would be able to access it if given permission from the courts.
The proposal will raise further alarm about a “Big Brother” society, as it follows plans for vast databases for the ID cards scheme and NHS patients. There will also be concern about the ability of the Government to manage a system holding billions of records. About 57 billion text messages were sent in Britain last year, while an estimated 3 billion e-mails are sent every day.
Home Office officials have discussed the option of the national database with telecommunications companies and ISPs as part of preparations for a data communications Bill to be in November’s Queen’s Speech. But the plan has not been sent to ministers yet
Industry sources gave warning that a single database would be at greater risk of attack and abuse.
Jonathan Bamford, the assistant Information Commissioner, said: “This would give us serious concerns and may well be a step too far. We are not aware of any justification for the State to hold every UK citizen’s phone and internet records. We have real doubts that such a measure can be justified, or is proportionate or desirable. We have warned before that we are sleepwalking into a surveillance society. Holding large collections of data is always risky - the more data that is collected and stored, the bigger the problem when the data is lost, traded or stolen.”
David Davis, the Shadow Home Secretary, said: “Given [ministers’] appalling record at maintaining the integrity of databases holding people’s sensitive data, this could well be more of a threat to our security, than a support.”
The proposal has emerged as part of plans to implement an EU directive developed after the July 7 bombings to bring uniformity of record-keeping. Since last October telecoms companies have been required to keep records of phone calls and text messages for 12 months. That requirement is to be extended to internet, e-mail and voice-over-internet use and included in a Communications Data Bill.
Police and the security services can access the records with a warrant issued by the courts. Rather than individual companies holding the information, Home Office officials are suggesting the records be handed over to the Government and stored on a huge database.
One of the arguments being put forward in favour of the plan is that it would make it simpler and swifter for law enforcement agencies to retrieve the information instead of having to approach hundreds of service providers. Opponents say that the scope for abuse will be greater if the records are held on one database.
A Home Office spokesman said the Bill was needed to reflect changes in communication that would “increasingly undermine our current capabilities to obtain communications data and use it to protect the public”.


Texto: in timesonline.co.uk
Imagem: by me

Just for the fun - street guitar player


Iscas


Nada tenho contra os migrantes. São tão bons ou tão maus como quaisquer outros e a única coisa que os diferencia dos demais é o seu desenraizamento. Procuram noutras terras que não as suas uma eventual melhoria de vida, para ficarem ou para amealharem e regressarem.
Nós por cá já fomos fornecedores de mão de obra barata um pouco por todo o mundo – Europas, Américas, Oceanias… Ao que parece, e apesar de acharmos que a vida aqui não é grande coisa, ainda assim consegue ser um semi-paraíso para aqueles que têm, por lá, piores condições. Quer se trate de segurança ou mesmo o simples acto de comer.
E vamo-los vendo, em tudo quanto é sítio, nas mais diversas ocupações e com as mais díspares origens. Comum mesmo é ver eles e elas no comércio, na restauração, na construção, trabalhos em regra mal pagos e com um futuro incerto, bem “aproveitados” por empregadores não muito escrupulosos. E já não estranhamos se entramos num restaurante italiano e ouvimos falar com sotaque de Vera Cruz, ou se entramos para comprar uma revista e vemos do outro lado alguém a ler em cirilico. Para já não falarmos nos andaimes, que mais parecem conferencias da Nações Unidas.

Ainda assim, consigo ser surpreendido com algumas discrepâncias:
Num quiosque de uma zona turística por excelência (o castelo da Lisboa) quem me serve a bica e a amêndoa amarga tem tez e sotaque que em nada se relaciona com terras lusas.
Num restaurante chamado “Sabores de Lisboa”, todos os que ali trabalham são nados e criados algures do outro lado do atlântico;
Mas o que me faz mesmo sorrir, ou nem isso, é que os calceteiros que estão a recuperar o jardim da Estrela (alvo de intervenções de fundo) são todos de origem brasileira. E não nos enganemos: o que estão a fazer é a colocação da chamada “calçada portuguesa”. E posso garantir que o que vi fazer é mesmo bem feito e, aparentemente, duradouro. Estes poucos que ali vi de cócoras, em regressando ao seu país de origem, levam um conhecimento que, ao que sei, é muito bem pago, assim haja quem o queira aplicar.

Salvou-me o dia dos migrantes em actividades Lusas, o almoço.
No centro da cidade, numa zona onde os passantes são “atacados” pelos angariadores de comensais, o Restaurante “João do Grão” mantém os mesmos empregados faz muitos anos. E mantém igualmente a ementa tradicional, contra ventos e marés.
É ali sempre possível encontrar o bem nosso Bacalhau com Grão ou, para quem quiser, uma dose individual de grão de bico. Como optei por estas iscas, não tive coragem de lhes pedir o petisco.
Mas não perdem pela demora. Da próxima vez que for ali para os lados da rua dos Correeiros, junto à praça da Figueira, lá estarei. Para uma meia desfeita, umas iscas, um cozido, se for dia disso, ou qualquer outro prato cá dos nossos.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Calmaria


A história foi-me contada na primeira pessoa, pela protagonista: a mocinha.
Com quinze anitos, está a repetir o 8º ano. Isto porque, no ano passado, foi retida (dantes diziam “foi chumbada”) por excesso de faltas. De acordo com a própria, era mais o tempo que passava na rua e com os “amigos” que nas aulas.
A solução apresentada (e posta em prática) pelos familiares, foi draconiana:
Retiraram-na da escola que frequentava, bem no centro de Lisboa e pertinho da casa de seus pais, e matricularam-na numa outra, ali para os lados de S. João do Estoril, ficando a residir durante a semana em casa de sua avó, nas imediações. O regresso à grande cidade só vai acontecendo pelos fins-de-semana, de sexta à tarde a domingo à tarde.
Disse-me ela, em conversa ali mesmo no meio do Jardim da Estrela e junto ao meu artefacto, que está mais que satisfeita por o ano lectivo estar quase a acabar e, com isso, poder regressar em definitivo à grande urbe.
Nas suas palavras, já não suporta mais o som da aragem nas folhas das árvores e o chilrear dos pássaros, de manhã assim que acorda até que adormece de novo, à noite. É tranquilidade a mais, desabafa!

Pois tenho que aplaudir a decisão e a prática desta família. Pena é que a esmagadora maioria, por este ou aquele motivo, não possam fazer o mesmo. Acredito que os protestos juvenis foram muitos e veementes. Mas, ainda de acordo com a mocinha, as notas são soberbas e as faltas zero.
E aquilo que ela mesma diz já não suportar (a calmaria, a aragem, a passarada), será recordado com nostalgia, estou certo, daqui por uns valentes anos, quando o corre-corre citadino forem demais e a tranquilidade um oásis nas férias anuais.

Just for the fun - Young street dancer


Fim da tarde em Lisboa. O tempo não tinha estado grande coisa e tinha vindo para a cidade de nariz no ar, sem me preocupar com coisa alguma em particular. Os registos seriam “ao correr da pena”, se valessem o “gastar da tinta”.
Em pleno Rossio, dou com um grupo de rapazes e raparigas, ao som de um toca CD’s de pilhas, a dançarem e a repetirem a coreografia por diversas vezes. E, no meio deles, um com uma pequena câmara de vídeo, a gravar, tendo por fundo o chafariz que funciona. Nada comum e justificava o “gastar da tinta”.
Sentei-me no chão, entre outros curiosos que por ali estavam, e fui fotografando o que podia, que a luz e os ângulos não eram dos melhores para mim.
Numa pausa, para mudarem o DVD da câmara e a respectiva bateria, um deles (que não este) veio directo a mim. Sem hesitações. E disse-me, após a saudação:
Você é operador de câmara de televisão, não é?
Fiquei de boca aberta, já que nada do meu aspecto o denunciava nem me recordava dele por lá, pelos estúdios.
É verdade, sim. E como é que o sabe?
E recordou-me então. Tinha, há uns meses, andado no jardim da Estrela, com uma colega de curso, a fazer um trabalho de vídeo com entrevistas de rua e eu tinha sido uma das “vítimas”. O tema era uma música dita “marginal”, como aquela que os estava a acompanhar nesse momento, e tínhamos trocado umas opiniões sobre métodos de trabalho. Já nem me lembrava de todo!
E voltou para o grupo, aproveitando o resto de luz que ainda ia havendo, seguindo as indicações, junto com os demais, do operador-realizador.

Por mim, a “coisa” não estava a dar, pelo que “fechei a loja” e fui à procura de outros assuntos que justificassem o “gastar a tinta”. E, já agora, onde pudesse fotografar com algum anonimato, o que já vai sendo difícil, nos tempos que correm. Suspeito que há mais gente a passar pelo Jardim da Estrela do que eu previa.

domingo, 18 de maio de 2008

Just for the fun - Street dancer


E sim, claro !

Paguei pelo prazer de os ouvir e ver e pelo privilégio do os fotografar.

sábado, 17 de maio de 2008

Dia de chuva - 4


Sim, estava de chuva. E depois?
Conseguir apanhar, fotograficamente falando, a chuva no ar será talvez das coisas mais difíceis que poderá haver para fotografar.
Implica jogos de luz e sombra muito bem controlados, as mais das vezes recorrendo a fontes de luz artificial; implica ter equipamento resistente à água e que não nos faça doer a alma quando a chuva lhes bate em cima; implica nós mesmos estarmos na disposição de levar com a chuva em cima…

Implica uma série de coisas que nem sempre estamos de maré para fazer ou suportar.
Portanto, o melhor mesmo para fotografar a chuva é registar o seu resultado. E, para isso, não se necessita de equipamento complicado e dispendioso. Um simples telemóvel pode fazer a festa!
Mesmo que seja a meio caminho entre a bica matinal e o regresso a casa.


Texto e imagem: by me (with a phone camera)

Dia de chuva - 3


Sim, estava de chuva. E depois?
A vantagem de um télélé fotográfico é que está sempre ali, na bolsinha do cinto, manobrável só com uma mão.
E enquanto a esquerda segura o malfadado guarda-chuva, a direita manobra o aparelho, que tudo se faz só com um dedo, num curioso e minúsculo “joy-stick”. Excepto bloqueio de foco ou de flash, mas se o primeiro nunca está, o segundo está sempre, que assim o quero.
Onde é? Um beco quase vila, em pleno bairro de Campo de Ourique, Lisboa.
Estive mesmo para ir lá ao fundo para registar de perto aquele pontinho vermelho que se vê, bem ao centro da imagem. Uma cadeira em plástico, enquadrada por dois vasos com plantas. Um verdadeiro trono! Mas a chuva e um carro que queria entrar no beco dissuadiram-me.
É! Não se pode ter tudo com este tipo de câmaras. O facto de possuir focal fixa é sempre um desafio que obriga a, mais que ajustar a zoom, a pôr as pernas em movimento. E a jogar com aquilo que é mais precioso em tudo quanto são artes visuais: Perspectiva.


Texto e imagem: by me (with a phone camera)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Dia de chuva - 2


Sim, estava de chuva. E depois?
Qualquer pequena aberta serve para, saindo de um abrigo, ir ver como as plantas estão a gostar dela.
Sim, porque se nós não gostamos, o problema é nosso. Que tanto vegetais como animais agradecem a água que cai do céu. Se não no momento, pelo menos mais tarde, quando tudo fica mais viçoso e colorido.
E, ao ver uma flor sorridente, não resisti: rapei da câmara-que também-faz-chamadas-telefónicas, qual cowboy rapando do seu seis-tiros, e disparei.
No alvo!


Texto e imagem: by me (with a phone camera)

Dia de chuva - 1


Sim, estava de chuva. E depois?!
Onde está escrito que num dia de chuva não se pode vir para rua fotografar, mesmo que seja com um telemóvel?
E, se estivesse escrito, o que me obriga a cumprir essa regra?

By me (with a phone camera)

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Felicidade em pó


Volta e meia apetece-me!
Pegar em palavras ou ideias alheios e, com base nelas, fazer fotografia. Pode ser qualquer coisa, desde uma frase ouvida de passagem, uma notícia da TV ou jornal, um graffiti na urbe… Mas o desafio supremo é mesmo um livro.
Têm estes a vantagem de deixar ao leitor e à sua imaginação tudo o que lá não estiver expresso, explicita ou implicitamente. É aqui que a literatura fica a ganhar ao cinema, que este limita o voo das asas imaginativas do espectador, ao mostrar-lhe cada detalhe, cada sombra, cada prega da roupa.
No meio-termo entre o livro e o cinema, fica a fotografia, congelando num instante o que não existe, mostrando a interpretação do fotógrafo sobre o que outrem imaginou.

Foi o que me apeteceu fazer um destes dias!
Mas no lugar de ser com uma obra já sabida e conhecida, preferi fazer de outra forma. De um autor contemporâneo, uma obra tão recente quanto possível, cujo conteúdo se passasse em Lisboa.
Fácil? Nem por isso! Para começar, há que encontrar o livro. E foi com esse objectivo que me dirigi a uma livraria especializada.
Dá pelo nome de “Fabula urbis” e fica localizada ali para os lados da Sé, na velha Lisboa. E a sua especialidade é exactamente isso: Lisboa. É o seu tema e de bem antigos a actuais, em português ou outra (p’ra turista, claro) tem de tudo um pouco. Ficção, romance ou não, documental, livros, CD’s, DVD’s, monografias, colectâneas, vistas da cidade de hoje e de então, em cores ou em preto e cor… É curioso constatar como tanto se escreve e publica sobre Lisboa.
A mocinha que me atendeu era-me desconhecida. Vintes e poucos, agradáveis à vista e no trato, ficou meio desconcertada com o meu pedido: Ficção, passada em Lisboa, de autor português e tão recente quanto o possível.
Depois de ter olhado para mim, de se ter levantado e sugerido algumas prateleiras para eu escolher, perguntou-me se tinha alguém especial em mente. Não levava nenhum nome engatilhado, mas logo me saltaram dois sem hesitação: Mário de Carvalho e Henrique Nicolau seriam uma boa escolha. Não tinha nada de recente mas não se deixou ficar. Enquanto eu ia olhando as lombadas e consultando um ou outro tomo, ausentou-se por um pouco.
Na volta, disse-me que o seu gerente (eu sei que se referia ao dono, mas são termos comerciais que ficam bem) sugeria Eduardo Brum. Escolheu quatro obras distintas, uma das quais estava na montra, e entregou-mas.
Não o conhecia. Nem de nome, quanto mais de obra. Assim, escolhi o que tinha a data mais recente de publicação (2006) com o nome de “Felicidade em pó”. Não aceitei o saco de plástico que me quis dar, ela insistiu num de papel pardo e timbrado, que guardei na mochila fotográfica, e saí.
De uma livraria especializada em obras sobre Lisboa, devo ter trazido a única que por lá existia cujo enredo não é na velha cidade. Em boa verdade, o local onde a acção acontece não é local algum em particular que não seja apenas uma cidade. A única forma de afirmar que não se trata de Lisboa é pelos nomes das personagens, que não são portugueses. Mas em qualquer dos casos, agradável de ler, ainda que surpreendente no conteúdo e na forma.
Voltarei lá, à livraria, em breve. Não para reclamar ou devolver o livro por não corresponder ao pedido. Antes para ver se, desta feita, trago algo passado em Lisboa. Que era isso que queria e continuo a querer!

Quanto à imagem para ilustrar a obra? Ainda estou a pensar nisso, que não é fácil neste caso em particular. Mas esta acima pode ser uma solução, ainda que não passe de um esboço.


Texto e imagem: by me

Portas e intervalos


Os comboios que uso diariamente são constituídos por duas unidades quádruplas. Sendo que cada carruagem tem três portas, é fácil de fazer as contas: vinte e quatro portas e sete intervalos entre carruagens.
Assim, a probabilidade de um passageiro distraído no cais ficar com uma separação de carruagem à sua frente quando o comboio se imobiliza é francamente menor que a de ficar com uma porta escancarada para entrar.
Qualquer um que use uma linha suburbana o sabe.
No entanto, Caramba! Cada vez que o comboio pára e alguém fica com a separação à sua frente, reclama e diz que anda cheio de azar e que dia ainda mal começou e toda uma série de protestos e desabafos contra a vida em geral. Mas ninguém, pelo menos que eu tenho conhecimento em primeira-mão ou por ouvir contar, elogia quando fica com a respectiva porta convidativa à sua frente. Ninguém comenta que é um bom sinal, que o dia está a começar bem e que, se continuar assim, será muito bom.
O comum do cidadão só repara, comenta ou dá à evidência o que de mau acontece. Raramente, se alguma vez, o que de bom sucede.
Estou em crer que esta é uma característica não exclusiva dos portugueses, ou mesmo dos europeus. Será generalizada à espécie humana, onde quer que ela se encontre.

Encontramos a mesma atitude generalizada na comunicação social.
Evidencia, conta, relata, demonstra o que de mau vai acontecendo, dentro e fora das fronteiras respectivas, dando um espaço reduzido, se algum, ao que de bom vai sucedendo.
E tanto que assim é que se um alienígena por cá passasse e consultasse os jornais, as rádios ou as TV’s, ou bem que se suicidava ou bem que fugia lá para Alfa Centauro ou qualquer que fosse a sua origem. É que, de acordo com os media, a vida não está um caos ou tragédia. A vida É um caos ou tragédia.
Na política, na economia, nas guerras, nas fomes, nos holocaustos e genocídios, nas tragédias e desastres naturais ou provocados pelo Homem.
E se assim é com os media, pelo menos os ditos generalistas, os que neles ou para eles trabalham têm essa mesma postura. Quer escrevam, quer relatem de viva voz, quer registem as imagens. E as cores dos media são bem mais o vermelho do sangue que o verde de uma qualquer esperança. Porque, a dar crédito no que nos contam, essa já morreu faz muito.

Mas sabemos nós todos que a vida não é composta apenas de tragédias, de fomes, de mortos aos milhares. Tal como no comboio, tanto há de portas como de intervalos entre carruagens. Aliás, há mais de portas que de intervalos. Mas se o Homem comum não repara nisso, porque haveria de reparar o jornalista ou repórter de imagem?

É por isso que estou, regularmente, a protestar contra o World Press Photo.
Não contesto a qualidade das imagens que por lá aparecem. Bem pelo contrário, sei que algumas são de fazer inveja aos melhores foto-reporteres.
O que contesto, antes sim, é a demasiada evidência que é dada ao que de mau acontece, excluindo o que de bom sucede.
Claro que o que é mau tem que ser denunciado, aqueles que vivem na pachorrenta calma das sociedades ocidentais têm que ser confrontados com os desequilíbrios do globo e levados a manifestarem-se em solidariedade. A bem mais que apenas um sentimento ou uma manifestação pública.
Mas talvez cale bem mais fundo nas consciências o contraste de umas e outras vivências, o que de bom e de mau vai acontecendo, que apenas as imagens e os relatos sangrentos e esfomeados.
De tão calejados que estamos que, para fazer efeito, ou bem que as imagens e os relatos são cada vez mais horrorosos, ou então já ninguém lhes liga. Mas se a comparação existir, bem, talvez que o desconforto que ela provoque leve a que nós, os acomodados burgueses europeus e pan-americanos, de facto acordemos e partilhemos o que temos com os demais: comida ou paz!

Quanto ao WPP:
No dia em que ele tiver uma postura deste estilo e, com ele, os media alinharem pelo mesmo diapasão, então estarei na primeira fila para visitar, acompanhado de todos os alunos que então tiver comigo.
Não só para alimentar as estatísticas e, com isso, a mediatização do evento, como para poder mostrar aos jovens que o foto-jornalismo não é apenas o sangue, a tragédia, a desgraça, mas antes que a missão do fotógrafo é o fazer o público pensar mais do que ver.


Texto e imagem: by me (with a phone camera)

terça-feira, 13 de maio de 2008

Hoje o dia acabou assim


E enquanto este lusco-fusco contrastava com o dia de ameaça de chuva, entretive-me a ver como se comporta a minha câmara-fotográfica-que-também-faz-chamadas-telefónicas.
Não dou por mal empregue nem o dinheiro nem os testes. Aliás, tornou-se quase hilariante a situação:
Um tipo de barbas brancas e longas e de cabelo cortado e pintado no mesmo local, com um boné enterrado na cabeça e um mochila cheia de parafernália fotográfica, a registar o pôr-do-sol com este aparelhinho.
Achei eu graça à coisa e acharam graça os transeuntes, que não entendiam como um tipo com ar de pedinte ou quase, pode ter um telemóvel para fotografar a cidade.
Se não me cuido, um destes dias e para além da discriminação de que já vou sendo alvo em alguns restaurantes, se paro para acender um cigarro junto a uma parede, atiram-me uma moeda para os pés. Resta saber o que farei então.


Texto e imagem: by me (with a phone camera)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Nós, os fumadores


Nós, os fumadores, estamos a ficar banidos! Mas os industriais da hotelaria, restauração e similares, encontram solução para, com estas regras em funcionamento, não ficarem a perder.
De acordo com um artigo lido recentemente num diário português, os bares e discotecas nacionais tem constatado um aumento de consumo de álcool significativo desde a entrada em vigor das restrições ao uso de tabaco. Suponho que a atitude dos consumidores será qualquer coisa como: “já que não posso fumar, bebo mais um trago para esquecer!”
O que fica por saber é o equilíbrio entre benefícios e prejuízos desta alteração de comportamentos.
Já nos restaurantes as coisas passam-se de forma distinta.
Confidenciou-me uma gerente de uma loja pertencente a uma cadeia de fast food, que os cinzeiros existentes estão guardados no armazém. Nem os vendem, nem os deitam fora, nem os oferecem aos clientes ou funcionários. Estão ali apenas guardados. Suponho que à espera que os tempos mudem e que voltem a poder dar-lhes uso.
Entretanto os hábitos dos clientes também vão mudando. Enquanto esperam pela chegada do que pediram, avisam que estão ali, à porta, a fumar um cigarrito. No inicio da refeição ou no final, entre doce e café. Os funcionários, em havendo tempo, adaptaram-se e fazem retardar a entrega dos pedidos, para que os clientes regressem de fumar até ao fim. Gentilezas!
Mas aquilo em que estão a notar uma quebra é no café. Boa parte dos clientes, em terminando a sobremesa, pedem a conta e saem sem tomar café. Guardam estes dois ou três golitos de liquido fumegante e aromático para outro local onde possam fumar sentados. Em regra, esplanadas.
Não posso dizer que seja mal pensado, principalmente quando aqui na zona, Sintra, até existem locais aprazíveis onde o café e o tabaco podem co-existir sem incómodos de maior. E, já agora, a fotografia também pode ser praticada, se conseguirem ter a chávena numa mão, o cigarro na outra e ainda manobrarem a câmara.
No caso em exibição, trata-se da esplanada da biblioteca municipal de Sintra. Tanto o exterior como o interior são agradáveis para um pedaço tranquilo, com um livro um bloco de apontamentos e caneta ou apenas a mente. Recomenda-se vivamente!


Texto e imagem: by me (with a phone camera)

Sobre uma exposição fotográfica


Ter um conjunto de boas fotografias não é o mesmo que ter um bom conjunto de fotografias.
Enquanto que no primeiro caso cada imagem vale por si mesma, no segundo é tão importante a coesão ou o fio condutor entre as imagens quanto a qualidade de cada uma. Eu iria ainda mais longe dizendo que se o conjunto for muito bom, a qualidade individual de cada fotografia perde um pouco a importância.
Mas o contrário não é verdade! Se entre o olhar para uma imagem exposta e para a seguinte o espectador tiver que se re-referenciar, tiver que se encontrar e encontrar uma nova ponte entre si mesmo e o que lhe é apresentado diferente da anterior, o conjunto perde força, importância, valor. Redunda numa confusão para quem vê a sucessão de imagens. É um mau conjunto!
Se se tratar de uma exposição é um pouco pior. Quem lá vai, de propósito ou por acaso, espera ser levado numa viagem, conduzido pelas imagens e pelo ponto de vista do fotógrafo. Não havendo coesão, fio condutor, um rumo definido, uma perspectiva comum à maioria das fotografias exibidas, a sensação que se tem, aquando da saída, é a de alivio, como quem sai de um labirinto nebuloso.
E se a exposição for de fotojornalismo, bem, aí a coisa é francamente má! Porque um fotojornalista que não tenha uma visão pessoal do mundo, que não tenha uma abordagem coesa do que vê e exprime no seu trabalho, por muito boas que possam ser as suas fotografias apresenta sempre um péssimo conjunto de fotografias. É uma má exposição fotográfica!

Foi o que encontrei um destes dias. Entre o ir ver a exposição de DaVinci e um encontro de fim de tarde na cidade, dei comigo com tempo suficiente para deambular e olhar com a câmara. E, quando dou por mim, estou à porta de uma galeria de arte onde acontecia uma exposição fotográfica.
Já tinha tido conhecimento da sua existência mas, por qualquer motivo oriundo do meu sexto sentido, sempre tinha recusado ir ver. Sem nenhum motivo aparente, até porque o que conheço do autor é superficial e apenas da web. Mas, já que ali estava, e porque não?
Das fotografias que vi, recordo algumas. Pela composição, pelo instante, pela luz, pela mensagem que senti nelas. Mas do conjunto o que recordo é péssimo porque errático, porque sem fio condutor de mensagem ou de estética que eu identificasse, sem que eu percebesse qual a perspectiva que o autor tem sobre o mundo que fotografou. Não perdi o meu tempo, que serviu para confirmar o que suspeitava. Mas o que senti à saída foi alívio!

Esta é uma das situações que pode acontecer quando se visita exposições fotográficas. Felizmente não é tão comum assim, que tanto o galerista quanto o autor têm habitualmente o cuidado de, por entre os trabalhos deste, escolher um conjunto que faça sentido e que impeça a frustração do visitante.

De quem é a exposição e onde fica?
Não o direi aqui! Não conheço o fotógrafo pessoalmente para daqui lhe atirar pedras. Não quero, apenas com a minha opinião, influenciar outros que lá queiram ir ver o que lá está para ser visto.
Até porque, e como diz um companheiro de trabalho, é a minha opinião e vale o que vale: vale UM apenas.


Texto e imagem: by me

domingo, 11 de maio de 2008

Um lugar especial


Ainda não tinha começado o projecto há quinze dias.
Os jardineiros tinham andado por ali a regar e os bancos e a relva estavam molhados. Apesar disso, pediu-me que lhe fizesse uma fotografia em especial e lá encontrou um pedaço do banco onde se sentar sem se molhar. Mesmo em frente a uma árvore que ali está, no jardim da estrela.
Porque eu mesmo estava ainda a organizar as ideias e o como levar a bom porto o que tinha em mente, acedi a tão estranho pedido. E perguntei-lhe o porquê de ser junto à árvore. Disse que se tratava de uma árvore especial, onde vinha pedir auxilio e encontrar conforto na sua companhia.
Quando, após o clique, lhe perguntei pelo nome próprio e o ofício, sorriu-me e disse-mos, como se de alguma forma eu devesse sabê-los. Estava ligada ao mundo da música.
Mas sendo que o seu género daqueles que raramente consumo, ignorava por completo a sua existência e a sua carreira, ao que parece, em ascensão. Fiquei a saber pormenores mais tarde, numa busca na web.

Passados que são quase dois anos de actividade regular naquele espaço, confirmo o que me disse:
Com regularidade vejo-a passar, sempre com a sua mochilinha a imitar uma joaninha. Desce a rua que fotografo com passos rápidos e firmes, com os olhos postos na tal árvore. E, sem hesitar, senta-se aqui, no que parece um espaço feito para tal, e encosta-se ao tronco.
Nunca contei o tempo que ali fica. Uma meia-hora, pela certa. Mas quando a vejo de regresso, pelo mesmo caminho, o seu passo é diferente: mais elástico, tranquilo. E a sua expressão mais suave, sorridente, agradável de ver.

Não refiro aqui o seu nome.
Deixemos de reserva a identidade e o seu recolhimento que, nestas coisas de fé, cada um com a sua.
Mas deixo-vos o local: No Jardim da Estrela, lá para os lados do coreto, mesmo pertinho das roseiras da Galileia e do chafariz.
Se por lá passardes, e estiver vazio, aproveitai. Talvez que de lá possais sair com a tranquilidade que esta senhora demonstra no seu regresso.
Por mim, trago-a no saco, sob a forma de uma pedra. Com que brinco, mexo e remexo onde quer que calhe e me apeteça. E que no final me deixa, suponho, com um olhar semelhante ao dela. Ou ao vosso. Ou ao de qualquer um que encontre um pouco de paz consigo e com o mundo!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Lido


Jorge Sampaio: Média deveriam divulgar os principais anunciantes

Os grandes órgãos de comunicação social deveriam divulgar quem são os seus principais anunciantes, de forma a tornar transparentes as suas relações com o poder económico, defendeu hoje o ex-presidente Jorge Sampaio, numa conferência do ciclo “Os Presidentes e a Televisão”, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Sampaio, que falava para uma audiência de cerca de 120 pessoas, na sua maioria estudantes de Comunicação Social, defendeu o reforço dos mecanismos de serviço público de televisão, incluindo a procura de financiamento que permita a manutenção da sua independência e viabilidade.
Numa conferência onde falou com ironia do que chamou “técnica do microfone espetado”, Sampaio defendeu o hábito anglo-saxónico da utilização de porta-vozes como forma de evitar declarações precipitadas sobre todo e qualquer assunto. O facto de em Portugal não serem utilizados porta-vozes com a frequência que seria desejada terá, segundo Sampaio, uma única razão: “A gente [os políticos] gosta de aparecer todos os dias para confortar os portugueses sobre a nossa existência”.
Defendendo a necessidade de uma maior educação para os media, Jorge Sampaio apelou também para uma maior responsabilidade dos jornalistas e dos média. “Os média não podem ser dissociados da democracia em que se fundam, nem podem ser inimputáveis”, disse também o antigo Presidente da República.


A questão seria mesmo saber até que ponto essa divulgação corresponderia à verdade ou, como acontece com os partidos políticos, haverá contas escondidas!


Texto: in publico.pt

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Smile!


Isto é uma imagem!
Panorâmica (como está na moda), mas com o centro do movimento no assunto e não na câmara.
Com suporte digital na origem, como as novas tecnologias permitem. E viva a ausência de resíduos tóxicos, líquidos ou sólidos!
E, o que é mais curioso ou cómico, é que é a imagem daquilo que não consigo ver ao vivo, já que para ser visto ao vivo eu próprio terei que estar morto, o que não me permitirá ver o que quer que seja.
Mais ainda, a deformação da geometria fruto do método de produção da imagem, não faz com que o que aqui está representado seja fiel ao que quer que seja.
Assim, esta imagem técnica, a roçar a fotografia, mais não é que uma abstracção de uma realidade, códigos que permitem interpretar, bidimensionalmente, aquilo que não se vê.
(Mas que se sente, isso garante que se sente, principalmente quando somos forçados a ir ao dentista por causa de um dente com maus fígados.)

E a fotografia? Não é também uma representação codificada daquilo que, por mero acaso, vemos, mas também aquilo que cheiramos, palpamos, ouvimos, saboreamos? E, principalmente, sentimos!
Porque a fotografia é uma representação codificada, bidimensional, daquilo que sentimos, com o objectivo de o mostrar a outrem, mesmo que este outrem sejamos nós mesmos.
Tal como o Raio-X, também a fotografia é uma forma de observar o nosso próprio interior!

Texto: by me
Imagem: me, by my doctor

terça-feira, 6 de maio de 2008

Simão Bolivar


É uma dúvida com que fico!
Não sei o que prefiro: se os bonecos que constrói, talvez que à sua imagem e semelhança e que podereis ver AQUI, se o discurso com que nos brinda, quando nos aproximamos da sua banca.
Filho de bancário, bonecreiro e filósofo (segundo me contou e por esta ordem cronológica), ele próprio geógrafo, inventor e feirante, Simão Bolívar, de seu nome, merece ser visitado, se nele tropeçardes numa feira de artesanato ou numa exposição de artes alternativas.
Que se o virdes, desafiai-o a descrever as suas figuras, feitas de material reciclado. E se não conseguirdes imaginar as estórias implícitas que a vossa memória de infância vos sugira, pobre de vós e da vossa perdida para sempre meninice!

Negócios


A história é simples e, para além dos pormenores, banal.
Abriu há quase cinco anos. Mesmo encostado à estação de comboios, tinha cafés e bolos, refeições muito simples e pão quente, feito no local. E simpatia, muita simpatia.
Talvez porque três das quatro paredes fossem de vidro, o local convidava a entrar e estar, não fora ficar em local de pressa no caminho do trabalho ou de pressa no regresso a casa. Tinha ainda um pequeno detalhe ou truque comercial com muita graça e originalidade: o relógio de parede, atrás do balcão, estava invariavelmente adiantado uns quatro a cinco minutos em relação aos comboios. Quem quer que por ele se orientasse para viajar nunca perdia a composição prevista. Truques!
Mas se no início se fazia fila para se ser atendido ao balcão, nos últimos tempos as coisas foram mudando e as mesas foram ficando vazias, ocupadas ocasionalmente por aqueles que pagam, com o preço de um café, o direito a estar sentados e ver quem passa.
Um destes dias dei com a porta fechada. E com os vidros tapados, por dentro, com folhas grandes de papel. E este anúncio, avisando do encerramento e próxima reabertura. E fui forçado a “cafezar” noutro poiso no caminho do trabalho!
Acontece que, entretanto, encontrei uma das empregadas. A mais dinâmica e que, suponho, tivesse a função de ir gerindo o local na ausência dos patrões. Que vim a saber serem quatro.
E sobre quem vim também a saber que avisaram as empregadas na véspera da consumação dos factos. E sem nenhuma indemnização. O acerto de contas ficou-se pelo mês vencido, apesar de todas terem mais de quatro anos de casa. Nem mesmo um pré-aviso confortável! Assim! Literalmente de um dia para o outro!
E quando confrontei a minha interlocutora com a possibilidade e o direito de reclamarem junto da justiça daquilo que é delas por contrato e por lei, surpreendeu-me com esta resposta:
Para quê?! O assunto fica resolvido, se ficar, daqui por uns dois ou três anos. E eu preciso da estabilidade e do dinheiro é agora! Que o meu futuro e o do meu filho se faz dia a dia! E, seja como for, não me faltará com que viver! Que Deus tem mais para dar que o Diabo para tirar!
Este fatalismo, esta descrença na justiça, aliada a uma atitude de submissão pela condição de emigrante, faz com que muitos empresários se aproveitem. E que explorem até ao tutano quem deles precisa para viver. Com uma impunidade imoral!
Há quem chame a isto “capitalismo desenfreado”! Eu diria que é a metade má da flexigurança que os nossos governantes apregoam.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

If you can say the time, you can shoot bright!


Depois de muitos anos de procura em todo o tipo de lojas de Lisboa, encontrei-o: um relógio de sol portátil!
Este será, talvez, a melhor imagem para ilustrar a um dos nomes que uso no photoblog: “Relogioparado”.
Encontrei-o põe mero acaso numa pequena loja em Sintra. A “Artiscola”, propriedade de Ingrid Maria Wortelboer, que é uma simpatia de senhora, diga-se de passagem. E que, quando comentei com ela que neste espaço encontro sempre coisas incomuns, responde-me ela:
Só aqui tenho o que gosto e não o que está na moda para vender. Quando não teria aqui Barbies, que se vendem muito bem!” – Posso garantir que não tem Barbies nem outros bonecos da moda. Nem soldados de tipo algum ou armas de faz-de-conta. Recomenda-se o espaço, ainda que ninguém me tenha encomendado a publicidade. Pois se a senhora nem web site possui!
O que mais encontrei na loja, guardo-o para outro post, que se justifica um tratamento especial.

Seja como for, passei a ter um relógio-de-sol-de-bolso! Um luxo!

O seu a seu dono!


Depois daquele triste episódio em que a policia municipal quis autuar um repórter de imagem por estar a usar o tripé na via publica sem licença camarária, estou sempre à espera que venham ter comigo. Que o meu artefacto “Odfashion” só é viável em tripé, e o Jardim da Estrela é via pública e não tenho licença de tipo algum.
Foi assim que, neste domingo, ao ver o carro utilitário da câmara vir, bem devagar, da zona da feira para os meus lados e parar pensei que aquele era o momento.
Fardado e de boné regulamentar, o guarda que o conduzia saudou-me e quis saber o que era aquilo. Lá lho disse, usando do discurso com que brindo os curiosos.
Saiu do carro e ficámos um pouco à conversa, recordando ele outros tempos e câmaras que conheceu pela cidade, sem nunca referir as malfadadas licenças ou quejandas.
E fiquei a saber que se tratava de um elemento de uma organização em vias de extinção: Guarda-jardins!
Falámos da conservação dos espaços verdes, das obras que estão em curso naquele jardim para repor a iluminação pública, da segurança e da aparente falta dela nos espaços públicos dos poucos Guarda-jardins que ainda existem, que ele chefia e que, em tempos foram mais de duzentos e que, agora, se ficam por uns meros dezasseis…
Acabou por se ir embora, que ainda tinha a ronda para fazer noutros jardins, mas com a promessa de voltar. E voltou!
Mais conversa, com um pouco de política pelo caminho, das atitudes que os Guarda-jardins devem ter e de como, na sua ideia contrária ao que ouviu num curso de formação, é mais útil um guarda mudo mas sempre presente que um sorridente e interveniente, mas com rondas aleatórias.
E fizemos a fotografia que se impunha, com a pose que quis assumir, como sempre. E, ao responder sobre o seu ofício, deixou bem claro o que deveria escrever: “Guarda Principal”!

sábado, 3 de maio de 2008

Just for the fun - feeling the music


By me - May, 1st, 2008

Maio 68


Querido filho,

Perguntas-me o que foi o Maio de 68. Desta vez, confesso, apanhaste-me de surpresa. Não é de repente que se fala dele. Mas posso dar-te umas pistas. Depois vai ao Google e terás muitas pontas por onde pegar. Mais do que as barricadas, ocupação de universidades e confrontos com a polícia - impressionei-me com o dia em que as porteiras (será que alguma era portuguesa?) desfilaram em Montmartre. Empunhavam cartazes onde se lia: "Nós também temos direito à palavra!" Fiquei a pensar. O Maio de 68 foi um tremor de terra que até levou as concierges para a rua.

Ao que parece tudo começou na universidade de Nanterre, ali perto, porque os estudantes queriam liberdade sexual. Depois o movimento alastrou à Sorbonne - fica no Quartier Latin -, um dos bairros onde se acolhiam intelectuais e estudantes. A Sorbonne é fechada, estudantes são presos. Seguiram-se manif's e barricadas. Em Paris só se andava a pé. Não havia gasolina nem transportes públicos. A polícia apanhou com muitas pedras retiradas das calçadas, deixando à vista a areia de Paris. A praia...Houve muitas centenas de estudantes e polícias feridos e carros incendiados. Na noite mais violenta os estudantes montaram dezenas de barricadas.

A certa altura os sindicatos entraram na festa dos estudantes. A greve geral deixa a pouco e pouco França num caos. Fábricas e empresas fecharam. Dez milhões sem trabalhar. Mas a simpatia inicial com que se ouvia os estudantes dizer " é proibido proibir", "não mudemos de emprego, mas o emprego da vida", "ter tempo para amar e para aprender a amar" -, acabou.

Quase no fim do mês os sindicatos conseguem aumentos e mais férias. Largam a estudantada, que os acusam de traidores. A maioria silenciosa gaullista faz uma imensa manif, sinal tudo estava a terminar. Mas o que parecia a derrota entrou nos costumes. As pessoas aprenderam a contestar, a ter autonomia, a respeitarem a diferença, a viverem a revolução sexual. E outras coisas. Olha, estou atrasada, há muito mais, mas tenho de ir trabalhar. Não te esqueças de ir ao Google. Deixo-te com uma das palavras de ordem: "Nem deus, nem dono". Que achas? Escreve-me. Mãe.

Texto: by Leonor Figueiredo, in www.dn.pt
Imagem: by me

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Política, trabalho e aprendizagens


Poderia ter feito como em outros anos e ter ido engrossar as fileiras dos que desfilam no 1º de Maio. O meu horário de trabalho este ano, de entrar às seis da manhã, assim o permitia. Seria mais um a lutar com a minha presença, pelos direitos de quem trabalha.
Mas a emissão da manhã tirou-me a vontade. Sentados lado a lado em estúdio, estiveram os dois líderes das principais centrais sindicais a falar do dia e das razões que lhes assistem. Nem se cumprimentaram, nem se sorriram, nem se falaram. E, quando o jornalista lhes perguntou, com sofisma, para quando uma manifestação conjunta, titubearam, meteram as mãos pelos pés e deram a entender que não estava nos seus planos a curto prazo. Talvez que num futuro, distante, bem distante, se bem soube entender o que disseram e o que não disseram.
Este antagonismo mal disfarçado, se bem que por mim bem conhecido de há muito, deixou-me furioso! Porque, afinal, as posições de ambas as organizações até que são semelhantes. Diferentes mas bem semelhantes. E, juntos, obteriam bem melhores e mais rápidos resultados nas suas reivindicações.
Mas as coisas são como são e, neste 1º de Maio de 2008, não me apeteceu dar força com a minha presença a nenhum destes adversários de longa data.
No seu lugar, preferi ir ser mais um dos que se manifestaram e desfilaram, a partir do Largo de Luís de Camões, em Lisboa. Meio marginal, o evento acontecia sob o nome de May Day. O objectivo, transnacional, é dar voz específica aos que vivem com e da precariedade do seu trabalho, bem como à precariedade do seu futuro.
E, no meio daquela pequena multidão maioritariamente composta de gente nova (talvez que eu fosse o mais velho naquele espaço) vejo uma equipa de reportagem.
Com idades iguais ou ligeiramente inferiores à média dos presentes, tinham todo o aspecto de estudantes nestas coisas do audiovisual que, aproveitando o ensejo, estavam ali para fazer um trabalho prático. Bem vista a oportunidade!
E, ainda que a câmara andasse rodando de um para outro ombro, apercebi-me que as funções estavam mais ou menos bem definidas, cada um com uma tarefa definida. E, para minha alegria, o ombro que tinha a “ingrata” tarefa de carregar e apontar “o bicho”, era feminino.
Mas que alegria mesmo! Num país ainda bastante machista, onde as oportunidades de emprego definem-se pelo que há a fazer e pelo género, num país onde se fala em aplicar cotas na atribuição de cargos políticos, no lugar de deixar que os méritos falem mais alto para além do sexo, ver uma mulher segurar uma câmara no ombro e, apesar disso, ter toda a sua feminilidade patente no vestir e gesticular, é bom de ver! É mesmo bom de ver!
Que, neste ofício são raras e marginalizadas.

O que já não foi tão bom de ver foi a forma como ela e os seus companheiros seguravam o equipamento. Mão direita na objectiva, manobrando o comando de zoom, mão esquerda no visor de ocular. Claro que faltava uma mão para afinar o foco ou controlar a exposição. Para já não falar na estabilidade da câmara e no seu permanente nivelamento. Deixando de parte a fragilidade do visor, que não foi concebido e construído para ser o suporte da câmara.
Perdi então a vergonha e, tirando partido da brancura e comprimento das minhas barbas, abordei-os, tratando de ser tão afável quanto o possível, no meio daquela gente toda. E meio paternalista, lá lhes sugeri que segurassem a câmara como é suposto ser feito, dando uso prático às duas mãos. Afinal, aquilo tem sido estudado por muitos e competentes profissionais para um máximo de ergonomia e eficácia. E aquele não seria, com toda a certeza, o melhor resultado.
Para surpresa minha, dois deles reconheceram-me, que já tinham estado lá, onde trabalho e tínhamos estado um pouco à conversa, com umas dicas pelo caminho. E, em dado o recado, fomos cada um para seu lado, eles com o vídeo, eu com a fotografia, que era para isso que lá estávamos.
Mas lá no fundo, enquanto ia fazendo os meus bonecos, ia pensando no caso e ficando triste. Que eles eram estudantes da Escola Superior de Comunicação Social. E que esta, aparentemente, não lhes tinha dado a formação correcta. Porque alguma lhes teria dado, ou não lhes teria fornecido a câmara para trabalho autónomo no exterior. O mínimo que se poderia esperar seria que soubessem segurar no raio da câmara, que diabo! De uma forma segura e eficaz!
Pergunto-me que saberão eles de prático no final de três anos de estudo, pagando bom dinheiro pelo curso. Que, como ouvi e aprendi faz muito tempo, “A teoria sem prática é cega, a prática sem teoria é estúpida!

Em qualquer dos casos, espero que o trabalho lhes tenha corrido bem e que, mais tarde ao visionarem as imagens que fizeram, se apercebam da diferença entre segurar mal e bem a câmara. Não é a “pedra de toque”, mas pode ser o que separa um trabalho sofrível de um bem feito!
E venham daí a mulheres para se agarrarem à câmara! Que só conheço duas por cá, e uma delas já nem exerce. Mostrem que isto de trabalho tem a ver com as capacidades de cada um e não com o sexo ou com ideias pré-concebidas!

Dá que pensar: imagem da justiça

Há uns meses o servidor do Photoblog esteve com problemas de acesso. Abrir uma página era um tormento, colocar um post quase uma impossibilidade.
Vai daí, e sendo que o ir pondo pensamentos e imagens na web se tornou quase um vício, decidi abrir um outro espaço virtual: este.
Acontece que o blogspot não facilita de origem um contador de visitas, pelo que havia que inserir um. E decidi-me pelo Sitemeter. Que me vai dando informações não apenas das visitas como das suas origens em termos de países, cidades, língua nativa e mais umas coisitas. E qual a forma de acesso de cada visita, se uma ligação directa se usando um link de outra página. E é aqui que a coisa se torna engraçada.
É que tenho um post ali colocado que é um campeão de visitas, com uma média de duas visitas por dia, apesar de já lá estar há algum tempo.
O link de origem é o Google, o país é o Brasil e as palavras usadas na pesquisa dos visitantes são “imagem” + “justiça” ou “imagem” + “direito”.
Torna-se curioso a existência de tanta gente em busca de imagens em torno deste conceito abstracto: justiça. Até porque eu mesmo, volta e meia, faço a mesma procura para ilustrar algum dos meus posts. E mais curioso ainda quando se constata que são originários do Brasil.
E o que se encontra, nas buscas que tenho feito com este tema, são estereótipos, como a clássica balança de pratos iguais, segura por uma mulher de olhos vendados e com uma espada na outra mão. Ou o martelo de madeira, típico dos tribunais norte americanos. Estereótipos!

E isto, as figuras padrão espalhadas pelo mundo (ou quase) e a procura que muitos outros fazem de imagens com este tema, leva-me a pensar se será possível ilustrar ou criar uma imagem deste conceito. Ou criar uma outra imagem que não estas.
Começando pelo facto de as leis serem diferentes de zona para zona. Na forma e na origem. Continuando na noção que cada cidadão tem de justiça, em função das culturas e dos interesses individuais. Passando pelo conceito que “justiça” implica “punição” ou “reparação”, seja esta atribuída à vítima individual, corporativa ou à sociedade no seu todo. E ainda pelo conceito em que os avaliadores da justiça, bem como dos seus executores, não têm rosto ou nome quando o fazem, que as suas decisões não dependem de si mesmos mas antes da vontade do grupo que a concebe e que a legisla.
Assim, qual será a imagem ou ícone que, cobrindo todo o globo, representa a justiça? Porque os ícones, mesmo que referentes a temas abstractos, costumam ser consensuais. O “amor” pelo coração, que palpita aquando da paixão; A raiva ou inveja pelo verde ou roxo, cor que assume o rosto de quem a sente…
Mas a justiça não é universal no seu conceito ou origem. Que se a ocidental se baseia no velhinho direito romano e numa outra abstracção a que se dá o nome de “sociedade”, já a islâmica, por exemplo, baseia-se no conceito de Deus ou de Divindade, sendo estes os legisladores e juízes supremos. E, entre os seguidores do Islão, à mulher não é dada importância suficiente para poder ser a representação da vontade divina.

Qual será, então, a imagem possível e abrangente, de justiça? Também não o sei!
Mas sei que também dá para pensar, o facto de haver tantos cidadãos do Brasil em busca desta imagem. E não ter acontecido ainda, com o mesmo tipo de procura e resultados, com cidadãos de Portugal.
Estarão as gentes de “Terras de Vera Cruz” mais preocupados com a questão? E, se o estão, deve-se a uma maior consciência social, a uma maior utilização da web ou com mais problemas neste campo que os Lusos?
Acredito que os sociólogos ligados à justiça possam ter respostas para isto. Que eu não as tenho.
E, até as encontrar, continuarei a tentar encontrar ou criar imagens de justiça. Ainda que, nos tempos mais recentes, tenha optado por ilustrar os meus textos com imagens específicas dos temas tratados e não tanto sobre a abstracção.
Mas se tiver que pensar em alguma, talvez que apenas branco, sem forma ou sombras, possa servir o efeito. A pureza, a ausência de mácula, de pecado ou crime… Uma abstracção igualmente!