segunda-feira, 31 de março de 2008

Uma imagem com tampa


E o rapaz do vídeo sempre foi punido com a sanção máxima: a mudança compulsiva de escola!
Eu não me queria pronunciar sobre o tema. A este respeito já muito foi dito e feito e nem sempre o mais acertado. Mas há um aspecto que ainda não vi debatido: ética e juventude!

Na sociedade em que vivemos, afirmarmo-nos como o melhor é uma necessidade. Não tanto por aquilo que efectivamente somos mas antes parecê-lo como tal aos olhos dos demais por atitudes ou posses. Não é muito importante o como o fazemos, mas desde que tenhamos um lugar bem definido entre os melhores, está tudo bem!
Fabricantes e comerciantes de artigos de consumo que não de primeira necessidade bem o sabem, e tentam convencer os potenciais clientes da importância dos seus produtos. De como sem eles não somos alguém digno de nota, marginais, anónimos, infelizes. Em particular no que se refere à electrónica e às tecnologias de informação e comunicação. Fotografia, vídeo, computadores, telemóveis, GPS’s e afins. Não há cão nem gato que não os tenha ou, em alternativa, que não faça do desejo de os possuir uma necessidade premente a satisfazer.
E, entre o público potencialmente consumidor, as camadas mais jovens são os que mais se deixam influenciar. E o alvo preferencial dos publicitários. Por um lado porque sempre desejosos de experimentar as novidades, de todos os tipos. Por outro, porque este, mais que qualquer outro grupo social, necessita de se afirmar: entre os seus iguais e entre os adultos. É aquilo a que se chama “ter um lugar ao sol”!

E as tecnologias surgem e evoluem mais depressa que os códigos sociais e éticos da sua utilização. Algo de novo é para ser usado intensivamente e até ao limite, antes que alguém diga que não se pode fazer ou que se transforme em obsoleto. As regras e códigos de conduta criados pelos adultos, na sua “sabedoria” e na sua necessidade que estes têm de impor restrições e condicionantes, são lentas a acompanhar estas mudanças.

É assim que, assistindo a uma situação insólita (confronto entre colega e professora) é difícil de resistir ao seu registo, possuindo o equipamento para tal e da moda (o telemóvel) e onde divulgar o inusitado evento (a internete).
Indo mais longe, a profissão de jornalista é hoje muito cobiçada, bem como a de repórter de imagem. É o que denuncia, é o que investiga, é o que comunica, é o herói das TV’s, que se exibe, que vai a lugares estranhos, que lida de igual para igual com figuras púbicas e de destaque.
Poder “brincar aos jornalistas” tendo a oportunidade e meio e não o fazer será, assim, contra-natura!

Claro que as questões éticas sobre esta questão existem. Mas, para quem?
Um jornalista ou repórter, se estivesse no local, certamente faria o mesmo registo. Portanto, porque não o jovem?
Dirão que ele não o poderia fazer, que há códigos de como e quando se podem fazer imagens de terceiros e de como e onde se podem exibir.
Mas… será que ele está informado, que conhece os códigos de conduta e dos limites de quem exerce o ofício? E será que quem exerce o ofício de jornalista ou repórter de imagem respeita as éticas e se coíbe de registar imagens em local não público e sem autorizações? Onde termina o que é permitido a um jornalista ou repórter de imagem e onde começa o que é interdito a qualquer outro cidadão?

No caso da escola Carolina Micaelis e das imagens captadas e divulgadas, tivemos uma adolescente, de 15 anos, que além de um acto de indisciplina teve um ataque de histeria perante a confiscação do telemóvel.

Tivemos também uma professora que não soube lidar com a situação e que deixou que uma disputa com a aluna passasse a confronto físico e a indisciplina generalizada na sala de aula.
Mas também tivemos o caso de um rapaz de 15 anos que fez o que vê fazer às figuras de referência dos tempos que correm, provavelmente sem nunca ter ouvido falar ou ter sido sensibilizado para a ética da recolha e divulgação de imagens.

Os códigos de conduta não são inatos. Surgem das relações no grupo. E é na vivência do jovem – humano ou não – que estes códigos são aprendidos.
É papel da escola, em paralelo com a família, fazer passar estes códigos, fazer com que o aprendiz aprenda o que lhe é permitido, o que lhe é interdito e a tomar decisões e fazer julgamentos nas situações não aprendidas. Tudo isto quer seja por conversas orientadas quer seja na sequência de situações vivenciadas.
Mas a escola não forma os jovens para o uso e para a ética da imagem. Ainda que esta seja a rainha dos tempos que correntem, não lhe é dada a formação para com ela lidar enquanto produtor ou consumidor.
Assim, como seria possível que este rapaz soubesse que não poderia ou deveria registar um acto insólito acontecido num espaço a que se habituou a chamar de seu: a sala de aula?
A sanção que lhe foi aplicada não só é descabida como injusta. E desproporcionada. Porque o erro, em havendo-o, não é dele mas de todos nós. Que lhe pusemos ferramentas nas mãos mas não lhe explicámos até onde poderia ir com elas.

A escola, como parte da sociedade, deveria usar este caso não para punir os intervenientes, mas antes para repensar qual o seu próprio objectivo e método.
Porque se é para preparar os jovens para a vida adulta activa, há que o fazer com as tecnologias actuais e com as éticas adequadas. E fazer adaptar estas àquelas. E não apenas como um repositório de conhecimentos tecnicamente correctos e eticamente vazios.
Por vezes, há que saber pôr a tampa na objectiva!

sábado, 29 de março de 2008

Uma fotografia


A fotografia que aqui vedes constou, até perto das 16 horas, no meu mostruário.
Pendurada de um dos lados do artefacto “Odfashion”, é da minha predilecção, bem como da maioria dos passantes e observantes. De há um ano a esta parte.
O que me faz gostar dela em particular não é apenas a fotografia por si mesma mas também, e principalmente e cada vez mais, as histórias e estórias que lhe estão associadas.
Pois hoje, a meio da tarde, vi-me na obrigação de a retirar, com mil cuidados, do escaparate lateral, descolando-a com a ponta da navalha da fita doble-face que a suportava dentro da mica de plástico. E, depois de verificar que nenhum dano constava, ofertá-la.
É que tinha visto algumas lágrimas rolarem na face de uma mulher de uns quarenta e poucos. E misturou o sódio dessa água com a humidade dos beijos com que cobriu o plástico que a preservada.
O facto de eu nada falar de Romeno e de ela nada falar de Português não foi entrave para perceber que se tratava da mãe e avó das retratadas, que elas estavam na sua terra natal e que fazia muito que não as via.
A mesma água com o mesmo sal rolou pelas suas faces, mas desta vez a iluminar ainda mais o sorriso que se lhe rasgou de orelha a orelha.
E foi com recomendações a um qualquer deus da sua preferência (não faz falta a língua falada para o fazer entender), e com beijos repenicados no icone que guardava religiosamente que se afastou.

A tarde rendeu pouco (três fotografias e algumas mais conversas). Mas que nem uma só tivesse feito, teria valido a pena a ida ao Jardim da Estrela.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Photoconclusão


O photocogitador observou que aqueles graffitis, novinhos em folha, ainda poderiam dar azo a uma photocrónica. E foi-os photocopiando.

No cimo das escadas, no piso térreo suburbano, três mocinhas aspirantes ainda a mulher, observavam. E uma delas perguntou, desafiadora:

“O senhor é photógrapho?”

O photoirónico exibiu a sua ferramenta e retorquiu com cara séria:

“Com isto na mão, dificilmente estarei a vender pneus!”

“Ah! Ah! Ah!”, riram em coro. E a terceira do trio atirou:

“Então tire-me uma photographia!”

“Está bem”, disse o photocaçador. E fazendo ponto de mira, disparou a photoarma.

Olhando para a culatra e depois para cima, desafiou:

“Pronto! Podes vir ver!”

“Você nem me photographou!”

“Anda ver”, disse, exibindo o phototroféu.

Descendo as escadas de três em três, a photocoquete perguntou:

“É daquelas que sai logo?” E vendo-se pequenina mas colorida, acrescentou: ”Olha, até fiquei gira!”

Lá no cimo, onde tinha ficado, a photoinquiridora afirmou:

“Você até é simpático!”

“Tem dias”, respondeu o phototrabalhador, afastando-se em direcção ao vídeotrabalho que o esperava, a 30km. “Tem dias!”


Já sentado no comboio, o photoescrevinhador foi pensando:

“As mais das vezes a importância de se ser photographado não está no resultado ou na pose. Reside, antes sim, no facto de alguém lhe atribuir valor suficiente para dele ou dela fazer uma photo.”


Quem disse que provocar um sorriso ou alimentar o ego é difícil ou sai caro?

Duas fotografias


Fiquei a saber AQUI que morreu no passado dia 18 o fotógrafo Philip Jones Griffits.
A minha memória para nomes sempre me pregou partidas e, reconheço, não sabia de cor o nome dele. Nem o de muitos outros, honrem-se daqui os seus nomes e trabalhos.
Mas para imagens a minha memória não me prega partidas e a fotografia de cima é dele e não a esqueço. Tal como não esqueço a fotografia de baixo, feita por Tim Page.
Estas duas imagens estão assim mesmo exibidas num livro que por aqui tenho, de que me lembrei assim que vi a referencia ao falecimento, e que tive dificuldade em encontrar no meio da confusão que por cá grassa.

Feitas com segundos e centímetros de intervalo, a sua comparação é um óptimo exemplo daquilo a que um outro grande da fotografia chamou de “Momento decisivo” – Cartier-Bresson.
A pequeníssima diferença de espaço-tempo de uma para a outra faz toda a diferença entre uma fotografia chocante (são-no as duas) e uma grande fotografia.
Esta cena, que se reporta à guerra do VietNam, foi captada em película. Teria sido complicado, se mesmo necessário, a utilização de motor na câmara para fazer várias imagens consecutivas a ponto ambos terem feito uma imagem no mesmo instante. Ambos escolheram um momento e disparam, cada um com a sua sensibilidade e capacidade de escolha.
Hoje, com os modernos sistemas fotográficos, esta questão não teria tido significado relevante e ambos teriam podido fazer a sua fotografia no mesmo momento. Ou, dito de outra forma, ambos teriam podido fazer uma série de fotografias em simultâneo de tal forma que, pese embora a diferença mínima de perspectiva, seriam quase idênticas.
Mas, bons fotógrafos que eram, tê-lo-iam feito? Provavelmente continuariam a “recortar a vida” no espaço e no tempo com as suas câmaras, condicionados da mesma forma pelas suas visões e teriam, talvez, feito as mesmas imagens que aqui vedes.
Que fotografar, mesmo que em reportagem, não é fazer em série e, mais tarde, escolher a melhor. Ou, pelo menos, não é só isso.
É, principalmente, saber escolher o momento certo, de acordo com as sensibilidades e acontecimentos em causa. E é este “saber” que faz a diferença entre “bons” fotógrafos e “grandes” fotógrafos.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Uma sugestão


O processo de “saber ler imagens” acaba por ser, ao contrário do que pode parecer, bem mais complexo que o “saber ler palavras”.
Os códigos não são tão explícitos, as interpretações podem ser múltiplas e as mensagens podem estar ou não claras, podendo havê-las subliminares, o que se pode tornar perigoso.
Num mundo onde a imagem, mais que rainha, é imperatriz, o domínio desta técnica torna-se vital, tanto para quem as produz como para quem as consome.
Indo ainda mais longe, eu diria que esta área do conhecimento deveria ser elemento obrigatório no ensino básico, como forma de preparação do jovem para o mundo em que vive e viverá.

O livro aqui referido “Ver, compreender, analisar as imagens” de Laurent Gervereau, editado pelas Edições 70 na sua magnífica colecção “Arte e comunicação”, não é completo.
Mas sendo que não acredito que exista alguma obra completa na matéria, é um óptimo ponto de partida para quem queira aprofundar a questão, por curiosidade ou ofício.
Tropecei nele há pouco tempo, meio perdido numa das poucas boas livrarias que ainda existem em Lisboa. O prazer que tive em o ler será, certamente, suplantado pelos extras de conhecimento e método que daí me advieram.

Recomenda-se vivamente!

terça-feira, 25 de março de 2008

Olhar, ver, captar


Que saudades dos tempos em que se usavam câmeras destas!
O peso, o custo de cada “boneco”, a complexidade na sua utilização levavam a que, a cada “disparo” do obturador houvessem certezas no que se estava a fazer. E a quantidade imagens “não úteis” no final do dia era diminuta.

Hoje, com o custo zero do digital, com a quantidade quase ilimitada de imagens por suporte, faz-se fotografia como quem bebe um copo de água. Melhor ou pior, alguma delas há-de ficar bem. E, se não ficar, há sempre o “mágico” Photoshop para dar um geito.
A esmagadora maioria dos fotógrafos de hoje, mais encartados ou mais amadores, vai disparando quase que inconscientemente. Quase que sem saber muito bem o que vai resultar.
O “Olhar photográphico” vai-se perdendo com o facilitismo do equipamento. Não porque esto imponha, mas porque se vai “desaprendendo” a ver antes de fotografar.
“Olhar, ver, captar” é uma sequência lógica e natural que vai sendo destruida, aos poucos, com a ilteracía da imagem que vamos vivendo!

segunda-feira, 24 de março de 2008

Casamento e adultério

"A Direcção-Geral de Impostos (DGCI) está a enviar cartas a contribuintes recém-casados pedindo que estes respondam, ao abrigo do dever de colaboração com a administração fiscal e no prazo de 15 dias, a um vasto conjunto de informações relacionadas com a realização do seu casamento. Caso não o façam dentro do período temporal estabelecido, são ameaçados com a instauração de um processo de contra-ordenação fiscal punível com uma coima que varia entre os 100 e os 2500 euros."

in: Público.pt

Na sequência desta notícia, que pode ser lida na íntegra AQUI, pergunto-me se aqueles que se divorciam também serão questionados pelas finanças.
É que é sabido que boa parte dos divórcios sucedem devido a infidelidades conjugais e que estas acabam sempre por ser dispendiosas, com refeições, flores, prendas, alojamentos, etc.
E recomenda-se aos fiscais das finanças que avancem nesta linha, já que os rendimentos serão garantidos. Quem serão aqueles que assumirão estas infidelidades por escrito ou mesmo que possuem recibos destas despesas? E, ao não apresentar o relatório completo, venha a coima!
Constata-se, assim, que das facadinhas no matrimónio podem resultar benefícios para a comunidade.
Casados de todo o país: Tornai-vos adúlteros que a nação agradece!

Uma janela


sexta-feira, 21 de março de 2008

O melro


Eles andam por aí todo o ano, de geração em geração mais ariscos e atrevidos.
Mas, talvez por ser o primeiro dia da Primavera, por ter estado um dia bem simpático e, como se não bastasse, ser noite de lua cheia, este deixou-se fotografar.

Jogos na valeta

Logo à chegada constatei que havia coisas escritas no chão:
O jogo da macaca aqui e ali, a malha um pouco mais à frente, um outro que não identifiquei mais ao longe.
“Que bom”, pensei. “Andaram por aqui a fazer coisas para a garotada brincar. Pelo menos, enquanto o parque infantil não fica acabado nas suas obras. E central, que em redor do coreto o que não faltam são bancos para pais ou avós ficarem enquanto as proles em 1ª ou 2ª mão gastam as energias.”
Montei a banca e, mal tinha tido tempo de começar no meu deambular e no observar a luz nas folhas ainda incipientes, eis que entra pelo portão uma carrinha. Branca, de carga, com a caixa bem grande e fechada, tinha apenas como dizeres um pequeno dístico junto à roda da frente da esquerda “Departamento de polícia de Nova York”. Não acreditei e fiquei a ver no que aquilo ia dar. Aliás, não tinha mais nada que fazer, pelo que veria de qualquer forma.
Parando perto do coreto, sai de lá um homem, dos seus trintas e poucos, com a pele tisnada, a barba por fazer e um ar gingão. A fita colorida do porta-chaves da moda saía-lhe do bolso das calças e o cabelo preto e grande estava em desalinho.
Abrindo a porta da carga, retira uma mangueira e um bocal e liga-os a um ponto de rega.
“Olha, os jardineiros deixaram de andar fardados e andam motorizados. E bem montados!”
Mas o tipo nem se preocupou com a relva, arbustos ou outros vegetais. Acabou por trocar de mangueira, por outra mais comprida e, espanto o meu, começou a lavar à mangueirada os jogos feitos a giz no chão.
Não resisti, cruzei o largo e interpelei-o, na esperança de o fazer parar antes que tarde demais.
Perante a pergunta: “Quem o tinha mandado apagar aquilo”, respondeu-me em ar desafiador que “Eu os fiz, eu os apago! Há algum problema?”
Não esperando tamanha hostilidade, expliquei-lhe que era pena, que aquilo ali era bem útil para a pimpolhada brincar.
Já mais calmo, e enquanto os jorros de água retiravam o giz do chão, acabou por me explicar:
Fazia parte de uma equipa de produção cinematográfica que, na véspera tinham estado ali a rodar um filme. Tinham pago as autorizações ao município, mas este exigia que se deixasse tudo como tinha sido encontrado. Daí o ele ter que vir ali lavar aquilo. “Uma trabalheira e uma canseira, fazer num dia tão bem feitinho para desfazer no outro. Mas se não o fizer eles multam-nos!”
.



O que aqui vedes, por entre as sombras de uma árvore ainda despida de Março, é o que sobra da água que mandou para a valeta as brincadeiras infantis.
Obrigado Câmara Municipal de Lisboa, por fazer cumprir ao pé da letra os regulamentos e contratos. Espero que nenhum edil me peça para fotografar o seu filhote no Jardim da Estrela.

quinta-feira, 20 de março de 2008

quarta-feira, 19 de março de 2008

Manifesto mal-amanhado


A liberdade é dos bens mais preciosos da humanidade. E é tão caro ao Homem (e aos restantes seres vivos, diga-se de passagem) que a civilização usa a sua privação como forma de punição aos códigos sociais.
Mas o conceito de liberdade é vasto e abrangente. Para uns poderá ser o movimentar-se sem restrições, para outros o poder criar e desenvolver empreendimentos, para outros o pensar e o falar.
E a ausência de liberdade sempre foi um mal combatido na história. A rebeldia dos povos contra autocratas e ditadores, o recurso a secretismos para escapar a esbirros políticos ou religiosos, o sangue derramado por essa bandeira sem cor nem pátria.
Alguns foram os que entenderam ser seu dever levar esse conceito a todo o mundo e o fizeram. Para dar apenas dois exemplos, Garibaldi e Che Guevara.
No entanto, e por muito nobres que fossem – e eram – os seus ideais, incorreram num erro crasso, hoje repetido: entenderam que o seu conceito de liberdade e a forma de o implantar seriam universais e que todas as sociedades deveriam por ele estar abrangidos. E, no momento em que assim pensaram e agiram foram tão autocratas quanto os naturais dessas sociedades que aos seus irmãos de região impunham a sua privação. Os conceitos sociais variam de zona para zona e de tempo para tempo e não haverá, forçosamente, nem fórmulas universais nem que impor um pensamento a quem não o tem. Tal como não se deve proibir de o ter. Esta é a verdadeira essência de Liberdade.

Por mim, que não sou nem genial nem altruísta para além do limite, entendo que a defesa que devo e posso fazer da Liberdade se restringe à minha área de influência, à sociedade em que me insiro. Junto daqueles que, de alguma forma, se regem por um mesmo conjunto de códigos de sociedade e culturais, onde a minha forma de intervenção pode e deve ser útil. Fazendo com que os meus pontos de vista, mais que serem aceites, possam ser conhecidos. E que cada um, fazendo uso da sua liberdade de acção e pensamento, possa optar pelas condutas que melhor lhe agradem. Passando sempre pelo respeito das liberdades dos restantes.
Claro que este exercício da Liberdade trás sempre amargos de boca. Por parte do exercício do poder governamental, policial, partidário ou laboral. Até mesmo cultural. Há sempre quem goste, queira e possa exercer a autocracia, tentando silenciar aqueles que a denunciam em público. Tenho tido a minha quota-parte e cicatrizes por actuar contra estes actos censórios e restringidores da Liberdade. Mas não é por isso que o deixarei de o fazer e a exercer!
Mas é complicado divulgar ideias e praticar a Liberdade no seio de sociedades que, sabendo-se privadas dela e conscientes da sua existência, nada fazem por ela, em que cada elemento se refugia no seu próprio micro-cosmos, fazendo por ignorar o macro em que se insere. E, com este alhear do que rodeia e, em simultâneo, alijar de responsabilidades, dar espaço de manobra alargado aos títeres e autocratas, de grande ou pequeno calibre, que fazem da sua ditadura a sublimação das suas frustrações pessoais.

É assim que prefiro fazer ouvir a minha voz onde existo na realidade, na sociedade em que estou inserido e que entendo por dentro, deixando as virtualidades das intervenções para aqueles que, ao contrário de mim, querem e sabem agir para além fronteiras e onde não são bem-vindos. E que assumem o risco de, por tanto querem divulgar a Liberdade, acabarem por a impor, impedindo-a.
Até porque, de que adianta querer arrumar a casa dos outros quando a nossa própria está caótica?

segunda-feira, 17 de março de 2008

Como ganhar umas lecas...


... se a dose de ingenuidade for suficiente:


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Texto: de um E-Mail recebido

sábado, 15 de março de 2008

Dificuldades de um fotógrafo

Não é fácil! Juro que não é nada fácil!

Colocar amêndoas da Páscoa, das moles, tipo Coimbra, ou das de recheio de licor, numa mesa para as fotografar.
Encontrar os fundos certos.
Encontrar o prato, bandeja ou guardanapo que esteja de acordo com o exibido.
Ajustar os eventuais acessórios que possam compor o conjunto.
A luz que, dentro do nosso estilo, faça realçar texturas e cores.
As posições ou equilíbrios que elas, as amêndoas, devem apresentar…

Eh! Espera lá! Onde estão as amêndoas?????

Pois é! No meio de tudo isto, as amêndoas voaram, melhor dizendo, foram içadas de onde estavam para as bocas circundantes. E, na hora do click, apenas se vêem línguas lambendo os beiços de satisfação e um “Desculpa, mas não resisti” estampado nos olhares.
Pois eu encontrei a solução infalível:

Ninguém come uma amêndoa que seja se não a segurar com os pauzinhos chineses!
Com eles, podem comer todas! À mão, nenhuma!

E não é que consegui fazer o diabo da fotografia?

Um olhar - Obrigado Zé!


Aquilo que somos é fruto de muita coisa. E existem miríades de livros que argumentam num ou noutro sentido, com esta ou aquela definição.
Por mim, entendo que somos fruto da matéria-prima de que somos originalmente feitos e que, à medida que o tempo passa e vamos vivendo, vamo-nos ajustando com as influências de que somos alvo. O caminho somos nós que o traçamos, mas os encontrões que vamos recebendo vão dando uma ajuda.
Destes encontrões, alguns sobressaem pela positiva, muito pela positiva. São exemplos, referencias, modelos que vamos seguindo porque os entendemos como importantes e a eles nos queremos igualar. Ou neles vamos bebendo.
Do pouco que sei no meu ofício, tive três mestres. A deficiência foi minha, que deles não aprendi tudo o que havia a aprender. Muito me bateram, em sentido figurado e em sentido restrito, tentando que fosse abrindo os olhos e que sentisse o que tinha em frente dos olhos antes de para lá apontar qualquer objectiva. Objectiva ou subjectivamente falando.
É que não se pode captar aquilo que se desconhece. Na melhor das hipóteses, obtém-se uma pobre fotocópia, desprovida de alma ou sentimento.
Desses olhos, através dos quais muito vi e que com os quais tentei abrir os meus, estes são um par.
O tom brincalhão, por vezes vernáculo, com que me censurava, elogiava e, principalmente, me punha a pensar questionando e questionando-me, fizeram com que os olhos da alma se me fossem abrindo. E descobrindo perspectivas ou pontos de vista sem os quais, meio cego eu era, não os encontraria.
É um prazer, passados que são mais de quinze anos de interregno no partilhar estúdios e cenários, cigarros e conversas, muitas conversas, ver estes olhos fixarem de novo o “viewfinder”, a mão firme na “rabicha do arado”, e enquadrar como poucos. Por muito banal que seja o que lhe está em frente.
Obrigado por regressares e recordares-me que, mesmo contra ventos e marés, qualidade e sensibilidade são coisas que nunca se perdem! E por continuares a dar-me na cabeça, ainda que agora branca!

sexta-feira, 14 de março de 2008

Uma lição


Tenho sempre comigo, no meu colete, duas canetas.
Uma Parker, de tinta permanente, das baratinhas. O seu suave arranhar no papel é um prazer caligráfico. Não fora a minha péssima caligrafia, e usa-la-ía muitas mais vezes.
A outra é uma Rotring. É a chamada “três em um” ou ainda “vira bicos”. Permite escrever com tinta azul, tinta vermelha ou grafite.

Tenho por esta uma estimação particular, já que me foi ofertada por um amigo e companheiro de muitas andanças fotográficas e de salas de aula
Quando ma deu, aquando do meu início das minhas actividades lectivas, ele e a esposa disseram-me:
A tinta azul é para escreveres os sumários no livro de ponto; o lápis para os apontamentos na caderneta e a preparação das aulas; a vermelha, para as anotações disciplinares e as reprovações.

Tenho um terrível orgulho em poder afirmar que, passados todos estes anos, a tinta vermelha ainda é a original. Nunca a tive que usar ao serviço da escola, quer fosse para castigar algum aluno ou para reprovar fosse quem fosse. O meu princípio sempre se pautou por: "Nunca chumbarei um aluno nem marcarei faltas disciplinares!”

Não porque seja demasiadamente mole ou permissivo. Quem me conhece sabe bem do contrário. Sou rigoroso e exigente e a palavra de ordem comigo é “Trabalho”. Muito trabalho.
Mas a verdade é eu não dou aulas nem ensino. Ajudo a prender. O meu papel é, ou foi, o de ajudar a aprender.
As matérias que eu expunha, explicava, demonstrava, etc, não se destinavam a demonstrar que eu sabia aquilo. Destinavam-se, antes sim, a que todos aqueles jovens que ali estavam as viessem a entender e saber. E que delas pudessem partir para outros saberes e experiências. Todos! Porque era para isso que ali vinham.
Uns com mais facilidade, outros não tanto, uns mais à-vontade nos conceitos teóricos, outros mais expeditos nas questões práticas, mas todos eles terminaram aquelas muitas semanas de trabalho conjunto a saberem e terem as competências mais que mínimas, e muitos para além disso, que se lhes exigia.
E se algum tinha mais dificuldade nesta ou naquela área, ali estava eu, como outros aliás, para os ajudar. Dentro ou fora de aula, dentro ou fora dos períodos lectivos, por vezes mesmo fora de horas e tarde na noite. Afinal, era para isso que ali estávamos todos.
Esta atitude de “ajudar a aprender” no lugar de “ensinar”, de todos nós envolvidos neste processo, transbordava muito para além das matérias de imagem, técnica, estética, fotografia e vídeo que ali nos levava.

Recordo em particular uma ocasião, no regresso após o interregno estival, em que se fez uma “revisão da matéria dada”, usando para tal um exercício prático: Grupos de três, câmaras e microfones e vá de irmos para o pátio simular entrevistas.
Havia na turma uma aluna particularmente fraca, com dificuldades de aprendizagem e sociais de diversa ordem. Logo após ter proposto o trabalho quase entrei em pânico ao pensar: “Ninguém vai querer formar grupo com a Etelvina (nome fictício)! E agora? Defino eu a organização dos grupos?
Erro meu. Foram os melhores, os que mais sabiam e estavam à-vontade com o material, os mais rebeldes e criativos, que logo se ofereceram para com ela formar grupo e irem trabalhar. E não se tratou de uma questão de se exibirem ou de liderança. Foi mesmo “Alguém precisa de ajuda e aqui estamos.
Sei que aquelas três horas de trabalho ao sol e à sombra de Setembro foram produtivas. Os saberes e as competências do ano anterior foram ali recordados, e mais uns pozinhos acrescentados.
Mas o grande ganhador fui eu, ao ver aquela solidariedade insuspeitada, aquela generosidade interior e natural. É uma lição que não esqueço.

Esta caneta que trago no bolso do colete ou da camisa, volta e meia recorda-me que o ser humano não é como aparenta e que, quando tem oportunidade, ultrapassa-se muito para além do que se dele espera.
Em particular a gente jovem.

quinta-feira, 13 de março de 2008

To be or not to be, that is not the question


Um dos atributos do ser humano, enquanto ser vivo, e considerado o mais positivo, é, simultaneamente, um dos que o mais prejudica: a capacidade de comunicar elaboradamente!
Esta comunicação (efémera se falada ou gestual, permanente se materializada por símbolos ou formas), ao fazer expressar pensamentos igualmente elaborados, permite-nos criar o conceito de Bem e de Mal, de Verdade e de Falsidade.
E desde que estes aspectos se tornaram evidentes e importantes na actividade humana, tentaram-se encontrar formas de dar credibilidade à comunicação, definindo verdade e mentira, aplaudindo uma, censurando a outra.
O conceito de honra é uma dessas formas, onde não apenas se cumpre e faz cumprir códigos de conduta rigorosos, como se afirma por verdadeira cada afirmação emanada de um homem honrado. A falta de honra ou o apodo de mentiroso é dos piores estigmas que a sociedade pode impor ao indivíduo.
Esta necessidade da verdade é tão grande que os tribunais, criados para apurar a verdade e corrigir as injustiças ou actos delituosos, o falar verdade é vital. É um estereotipo do cinema norte-americano o jurar-se em julgamento “Falar a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade”. E remata-se isto com o testemunho de “Deus”, que é o último refúgio da verdade inquestionável, mas igualmente não demonstrável.

Será curioso de ver como serei tratado um dia que tenha que prestar testemunho num desses tribunais, eu que sou ateu e agnóstico.
A afirmação da verdade é vital para o ser humano que usa testemunhos, exemplos, demonstrações, como eu estou agora aqui mesmo a fazer com estas linhas.
A verdade ou credibilidade da comunicação é, assim, a pedra de toque da sociedade e, em quebrando-se, desmorona-a.

Confrontado com alguma forma de comunicação, o Homem procura, em primeiro lugar, saber da sua credibilidade. Quer se trate de verbalização, escrita ou iconografismo.
Claro está que ninguém põe em causa uma pintura. Presume-se que ela, e o seu autor, não pretendem ser verdadeiros ou falsos. São um conjunto de símbolos cuja veracidade não importa.
Já com a escrita o mesmo não se passa. Ou bem que pensamos “Isto é credível” ou então “Isto é faz-de-conta”. Presume-se que num jornal não se encontram falsidades, mas definimos outras formas de escrita como “ficção”. E, se por acaso, se constata que num jornal constam falsidades, é um “Ai Jesus”, com acusações recíprocas e recurso aos tribunais para repor a verdade. E a credibilidade do jornal vai por água abaixo.

Na 7ª arte – o cinema - e no seu sucedâneo – a televisão – existem três categorias de credibilidade: o que é inquestionavelmente verdade (informação), o que é indubitavelmente ficção (séries, filmes, novelas, etc) e o que, sendo verdade, usa palavras ou imagens falsas (documentários). Ninguém acredita que um cineasta esteja anos a fio a filmar um leão em África para contar a sua história. Acredita-se que eles vivem daquela forma mas sabe-se que as imagens e as palavras são falsas. É um terreno pantanoso, este.


Com o surgimento da fotografia, no século XIX, supôs-se que a questão do “verdadeiro” e do “falso” pudesse ser resolvida.
Não sendo objecto de intervenção humana, mas tão-somente usando processos naturais e científicos, a imagem fotográfica assumiu contornos de “indesmentível”. Expressões como “Para mais tarde recordar” ou “ O fotógrafo estava lá” são disso exemplo.
Pelo menos no pensar do comum do cidadão. Porque cedo a justiça e os tribunais se aperceberam da possibilidade de manipulação ou falsificação da fotografia, apresentando imagens que não correspondiam à “verdade”, e recusaram-se a aceitá-la como prova para o apuramento da verdade colectiva.
Apesar desta desconfiança da justiça em relação à veracidade da fotografia, continuámos a dar-lhe o benefício da dúvida. Pelo menos em parte, dependendo do contexto onde ela se insere.
Presumimos como sendo verdadeiro testemunho da verdade se inserida num periódico em que acreditamos ou ao qual não atribuímos a possibilidade de nos mentir. Tanto assim é que os jornalistas ou empresários da comunicação quase não dispensam a utilização da fotografia para dar reforço e credibilidade aos textos e mensagens impressas.
Mas pomos essa credibilidade ou veracidade da fotografia em causa quando são usadas em publicidade ou exibidas numa galeria de arte. Das primeiras porque os publicitários não primam por “falar verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade”, pelo que o seu trabalho, fotografia incluída, podem e devem ser postas em causa. Das segundas, penduradas numa parede de uma galeria de arte ou publicadas em livros ou revistas conexos, ficamos na dúvida. Se a imagem com que somos confrontados é semelhante à nossa própria experiência, aceitamo-la como verídica; se a achamos ou ao seu conteúdo como estranhas ou dissonantes com as nossas próprias verdades, interpretamo-las como falsas. Mas não nos incomoda, porque numa galeria de arte não esperamos encontrar a “Verdade” mas tão só a expressão do autor, que se pode deixar levar pela imaginação ou fantasia e criar uma “Verdade” que só existe no seu íntimo. E nós, público, entendemo-las como tal.

No uso quotidiano do cidadão comum, amador fotográfico ou nem isso, a fotografia foi sempre considerada como um testemunho verídico e credível. As fotografias de férias e passeios, das festas de anos, de grupo ou de família, as feitas na bancada do estádio ou perante um acidente ou catástrofe não são (ou não eram) postas em causa.
O facto do fotógrafo amador não dominar as técnicas “complexas” da fotografia, de apontar e disparar, deixando o resto ao cuidado de laboratórios insuspeitos, dão um carácter de veracidade às imagens que ele produz.
Mas se o fotógrafo é já considerado como conhecedor das técnicas fotoquímicas, já os amigos e familiares, ao olharem para uma fotografia menos comum ou mais surpreendente, perguntam “Isto foi mesmo assim?” ou afirma “Isto tem truque!”
Com o advento da fotografia digital e a facilidade da manipulação e de acesso às ferramentas de tratamento de imagem, a questão da fiabilidade, veracidade ou honestidade da fotografia está cada vez mais posta em causa.
Até mesmo uma inocente fotografia de um pôr-do-sol ou de um salto meio acrobático do rebento é questionável, ouvindo-se quase pela certa “Isto foi montagem?” ou “Usaste o photoshop?”

É assim que a fotografia vai rapidamente perdendo o seu carácter de documento fiel (que em boa verdade nunca o foi) e ganhando o seu verdadeiro estatuto de forma de expressão pessoal.
E, com este estatuto, a sua credibilidade é tanto maior ou menor quanto esse atributo é dado pelo seu autor ou exibidor e pelo seu público ou receptor. A honorabilidade da fotografia é tão variável quanto o ser humano, enquanto ser comunicante.
A questão põe-se, então, se se espera que a comunicação seja verdade ou mentira e no grau de credibilidade que damos ao eu autor.
Ou, por outras palavras, se se espera que uma fotografia seja ou não verdadeira.
Da mesma forma que espero que um documento científico ou uma notícia de jornal sejam verídicos, não espero que o “Memorial do convento” de José Saramago ou “Os lusíadas” de Luís de Camões sejam verídicos. Ainda que ambos se baseiem em factos reais, aceito que num romance ou poema o autor dê asas à imaginação.
De igual forma, espero que as fotografias publicadas ou exibidas como sendo ícones de uma realidade, (num jornal, revista ou livro) e apresentadas como tal, o sejam, já não o espero de fotografias cujo objectivo explícito ou implícito seja a expressão de sentimentos do autor, interpretações não de uma verdade factual mas antes sentida.

Assim, o atributo de verdadeiro ou falso dado a uma fotografia ou imagem, depende da cumplicidade, de um entendimento prévio entre quem faz e quem vê.
E se o autor ou exibidor não a afirma como verdadeira e se o público não a recebe como verdade, pouco importante é que o seja ou não.

Ser ou não ser, neste caso, não é a questão!

quarta-feira, 12 de março de 2008

Bolinha de pão


Em meados de Dezembro último, passou de 14 para 15 cêntimos.
Em finais de Janeiro último passou de 15 para 16 cêntimos.
Hoje, meados de Março, passou de 16 para 18 cêntimos.

Senhor Primeiro-ministro e coadjuvantes:
Onde está a recuperação económica e o controlo da inflação quando um bem essencial como o pão sofre, em três meses, um aumento de 28%?
A menos que, no lugar de areia, andem a atirar-nos farinha para os olhos!

terça-feira, 11 de março de 2008

In vino veritas

Suficientemente ébrio para ser o motivo de chacota da garotada; suficientemente sóbrio para sentir curiosidade.
Suficientemente grosso para ter a língua entaramelada; suficientemente lúcido para perguntar, com timidez, se também podia.
Suficientemente bêbado para mal se aguentar direito; suficientemente arejado para guardar com mil cautelas a fotografia no seu saco maltrapilho.
Suficientemente toldado para me confidenciar alguns dos detalhes miseráveis da sua vida profissional; suficientemente ser humano para querer que se escrevesse por trás da foto o meu nome, a data e o local para mais tarde recordar.
Suficientemente gente para, ao afastar-se, agradecer com um aperto de mão e pedir desculpa de não estar nos seus melhores dias.
Suficientemente bom para, ao ir para onde quer que fosse naquele fim de dia, ainda olhar para trás com um sorriso para a garotada que dele chacoteava.

Quem? Não sou suficientemente despudorado para aqui e assim o exibir!

domingo, 9 de março de 2008

Uma fotografia que não fiz


Estive lá, na manifestação de professores.
Não como manifestante, que não sou professor de carreira ou mesmo a tempo inteiro.
Mas quis registar o que sabia ser algo de memorável. Fotografando.
E, ao contrário da minha abordagem fotográfica habitual, não quis fazer pormenores. Teria que fazer uns 100.000 pormenores para mostrar aquela mol de gente que ali esteve. E não sei de nenhum suporte fotográfico que aguente esse trabalho numa só tarde.
Por isso, a minha abordagem foi a de conjuntos, muitos conjuntos, tentando com eles mostrar aquele conjunto enorme. Tecnicamente falhei, devido a um erro crasso da minha parte, mas fica-me de lição: não testar algo em situações importantes!
Além do mais, tenho pudor de fotografar anónimos na rua, sem que haja algum tipo de cumplicidade entre fotografado e fotógrafo. Nem que seja um olhar de reconhecimento do que sucede.
Foi por tudo isto que não fiz aquela que seria, talvez, a mais significativa fotografia da tarde.

Marchava como os outros, fazendo ouvir a sua voz como os demais. Não levava nenhum cartaz, faixa ou balão. Que uma das suas mãos ia apoiada no braço de senhora que ia a seu lado. E, na outra, uma cana ou bengala de cego.
No meio de uma multidão de protestantes, fotografar um cego é mais do que o meu pudor ou ética consegue suportar.
Fica-me na memória a sua imagem. Bem como uma dúvida e uma certeza:
Até que ponto aquele homem se sentiu ultrajado, agredido e coertado para ter querido ir no meio de uma multidão daquelas protestar?
A alegria que terá sentido por, sabendo-se limitado, poder lá ter estado!

A sua fotografia, não a fiz. Mas aqui deixo o meu testemunho!

Um professor


Este não é um auto-retrato!
Não apenas fui eu que fiz a fotografia como a minha barba e cabelo são um pouco maiores. E este não é o meu estilo de chapéu.
Mas apraz-me saber que entre a classe docente, aqueles que lidam com jovens e adolescentes diariamente, haja quem não se preocupe em demasia com o seu aspecto.
Que esta forma de não-preocupação na formalidade é uma forma de liberdade.
E isto será, a liberdade, talvez o que de melhor os alunos podem aprender na escola.


Polícias e políticas


Para os que não conhecem o local, posso informar que esta avenida tem um quilómetro de comprido.
E que, quando os últimos desta manifestação passaram aqui ao fundo, os primeiros tinham-no feito duas horas antes.
De facto, 100.000 pessoas a desfilar leva tempo. E envolve organização para que tudo corra de acordo com a civilidade que se espera e deseja.

No périplo que dei pela zona da manifestação e envolventes constatei um facto que me foi, mais tarde, confirmado por companheiros da reportagem que por lá andavam ao mesmo:
99% dos agentes da polícia que se viam por lá eram (ou estavam identificados como tal) da brigada de trânsito.
Apenas se viam, ocasionalmente e só a acompanhar o desfile, alguns poucos grupos de dois agentes, em posições discretas e nada interventivas. E alguns altos comandos das forças policiais que, fardados ou à paisana, iam circulando e vigiando. Com um ar tranquilo, como se nada se passasse.
Considerando algumas ordens e actuações recentes do MAI e da polícia sobre esta manifestação, até que foi uma mudança positiva, este “low profile”.
Pena é que não se estenda a outras actividades governamentais e que governe e actue sem as intervenções mediáticas a que nos vai habituando. E que o faça de acordo com os governados e que os elegeram e não autisticamente.

sábado, 8 de março de 2008

Esmagador


Um bom fotógrafo certamente que encontraria forma de mostrar uma multidão calculada entre os 80 mil (fontes policiais) e os 100 mil (fontes da organização).
Por mim, confesso, não soube fazer melhor que isto para documentar a manifestação de professores em Lisboa, hoje.
Mas posso-vos garantir que é assustador ver tamanha quantidade de gente, desde do vinte e poucos aos sessentas e muitos, maioritariamente mulheres, a entupir as ruas da cidade.
E é igualmente assustador ver tantas mãos que moldam e ombros onde assenta o nosso futuro, já que são eles que preparam os Homens e Mulheres de amanhã.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Dia da Mulher


Porque hoje é vépera do dia da mulher!
Dois textos: Um AQUI, longo e sobre a mulher na pintura; outro abaixo.

Por todas as Luísas que já nem sabem o que é Domingo…

“Calçada de Carriche”,

Luísa sobe, sobe a calçada,
sobe e não pode que vai cansada.

Sobe, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.

Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.

Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa, larga que larga,
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa, larga que larga,

Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada,

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada2



Texto: by António Gedeão
Imagem: by me, 30 years ago, very close to Calçada de Carriche

Em torno de uma fotografia

Esta fotografia tem quarenta e um anos, mais ou menos uns meses.
Foi feita aquando da minha quarta classe, no pátio da escola que frequentei.
Dos que aqui estão recordo quase todos. Pela cara a maioria, pelo nome alguns. A uns acompanhei por uns anos, noutras escolas e aprendizagens, aos outros perdi o rasto.
Mas do que recordo, pessoas, espaço, árvore e janelas, não é agora importante. Esta fotografia, encontrei-a num envelope, junto com mais quatro, onde eu mesmo consto. Terão sido feitas por um fotógrafo “profissional”, que deveria correr pelas escolas da zona, aceitando as encomendas da memória para a posteridade. Várias da mesma criança, em várias situações, para que os familiares se sentissem tocados e as comprassem. Nenhuma espontânea, mas todas marcando uma época.

Mas o que também marca essa época, e acredito que o fotógrafo não contasse com isso, é o que consta no envelope que as contém: o preço.
Escrito a lápis a quantia de 100$00. Vinte escudos por cada fotografia.
E, se eu bem me recordo daquilo que minha família contava de quanto ganhava na altura, e éramos quatro irmãos, uma verdadeira fortuna. Para ser sincero, não quero imaginar o que, nessa altura, terá sido deixado de fazer para que estas fotografias tivessem sido compradas.

Pergunto-me agora se hoje, no séc. XXI, na era das tecnologias da informação e da banalização da imagem, se alguém faria tamanha despesa. De uma forma ou de outra, toda a gente tem uma câmara, tenha ela a qualidade que tiver. E aqueles que não as têm, provavelmente nem têm os seus filhos na escola.
E terão as imagens feitas hoje o valor comercial que esta teve nessa altura? Ou, indo um pouco mais longe: durarão as fotografias deste género, feitas com as técnicas e os suportes de hoje, tanto tempo?

Fica o alerta para os pais e avós dos tempos modernos para que acautelem e preservem as suas fotografias. E, se quiserem por a sorrir ou pensar daqui por umas dezenas de anos os que hoje são pimpolhos, ponham-lhes o preço atrás.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Almoços de borla

A história não é simples e começou faz tempo.
Fruto de acordo entre empregador e empregados, foi criado um seguro de vida e de incapacidade. Pago pelo primeiro a uma companhia de seguros.
Acontece que, para que ele funcione em pleno, devem os segundos preencher uma ficha com inúmeros dados pessoais, desde a identificação de herdeiros até ao historial clínico, recuando um bom pedaço no tempo.
Pois esta ficha tem que ser preenchida na empresa, passando por uma série de canais internos até ser enviada à companhia de seguros.
Indo mais longe, sendo o empregador o tomador do seguro, tem ele acesso a todos os dados que a ele dizem respeito, estas fichas incluídas.

Acontece que eu entendo que não tenho que dar à empresa onde trabalho todas estas informações pessoais, desde quem são ou serão os meus herdeiros até à minha história clínica. São dados da minha vida privada, que a mim dizem respeito e que não devem constar numa qualquer base de dados acessível por um qualquer director deste ou daquele departamento. A vida privada não pode nem deve estar ao alcance de qualquer um, objecto da devassa que este entender.

Esta minha posição sobre esta base de dados privada e incontrolável estende-se a todas as bases de dados que vão sendo criadas, ao “Big Brother” moderno que a todos vigia e controla.
Nada ou quase nada tenho a esconder, ou pelo menos nada mais tenho a esconder que o comum do cidadão. Mas entendo que privacidade é isso mesmo: privado.
Enquanto puder, ou para além disso, direi NÃO! ao alimentar da vigilância ou supervisão do individuo pela sociedade.
E se esta minha negação implicar a clandestinidade ou a marginalidade social, bem… “Não há almoços de borla”!

quarta-feira, 5 de março de 2008

Doubts


Today’s post is just about icons.
The carnation, simbol of portuguese revolucion and liberty;
The ruber stamp of the censorship;
The question mark.

Are we sure that what all we know about history and stories, far or close to us in time and space, is true? Are we sure that we know all the facts?
We can’t belive in everything we ear or read, unless we have a way to reasure it.
Otherwise, we are nothing but lambs in the hands of those who can and know how to manipulate people’s minds!

Dúvidas

Condutor envolvido em 'street racing' já tinha sido absolvido

O Tribunal de Seixal ouviu ontem pela segunda vez as testemunhas de defesa de Sérgio Alves, acusado de homicídio negligente num caso de alegada corrida de street racing, em plena A2, junto à saída para o Fogueteiro, de que resultou a morte imediata de Luís Guisado, de 23 anos, quando se dirigia para casa. A repetição da inquirição foi ordenada pelo Tribunal da Relação de Lisboa, que ao apreciar o recurso da família da vítima, contestando a absolvição do arguido, verificou que as cassetes com os depoimentos das testemunhas de defesa estavam mal gravadas. O juiz Helder Fráguas terá agora de proferir nova sentença. A repetição das alegações está agendada para 28 de Março.

O primeiro julgamento deste caso decorreu entre Abril e Maio de 2005, dois anos depois do acidente, ocorrido a 28 de Julho de 2003. O tribunal absolveu o arguido, Sérgio Alves, com 19 anos à data dos factos. A vítima tinha 23 anos e acabara de se licenciar em Física. Durante a produção de prova não ficou demonstrado que tivesse havido negligência. Terá havido um acidente, sem conteúdos criminais, em que nenhuma partes será isenta de culpas. Daí a absolvição. Ao que o DN apurou, o próprio Ministério Público (MP) havia proposto o arquivamento do caso. Foi o juiz de instrução criminal, após recurso, que pronunciou o arguido para julgamento. No entanto, o MP admite que Sérgio nunca iria a menos de 130 km/hora. Mas nunca refere tratar-se de street racing, embora este caso surja na comunicação social como o exemplo de corridas ilegais na via pública.

Sérgio contou ontem que, depois de uma ida ao cinema, saiu de Almada em direcção ao Fogueteiro, pela A2, ao volante do seu Honda Civic. À frente ía o amigo Sampaio ao volante de um Mercedes. A certa altura, com ambas as viaturas a rodar na facha esquerda, este desvia-se de repente para a faixa do meio, para evitar o choque com o Opel de Luís, que seguia naquela mesma faixa. Sérgio, que ia muito próximo, não consegue evitar o embate. Estaria Luís parado, ou em marcha muito lenta? As testemunhas ouvidas ontem garantem que sim. Ou uma coisa ou outra. Os pais do jovem vitimado crêem que o "filme" será outro. Iria Luís na facha da direita, sendo atirado, com a violência do choque, para a fachada esquerda? Na sua primeira decisão, o tribunal não viu fundamentada esta tese. Em Abril há nova sentença.


Depois de lido este artigo na edição electrónica do “Diário de Notícias” de 2008/03/05, fico com algumas dúvidas:
Em primeiro lugar, se o caso já tinha sido julgado e se neste a expressão ‘street racing’ e o que lhe está associado não foi usada nem pelo ministério público nem pelo juiz de instrução criminal, como pode um jornal fazer tal afirmação/acusação? Terá o articulista conhecimento de factos que terão escapado à acusação, aos investigadores e ao tribunal?
Em segundo lugar, e lido atentamente a descrição, fico sem saber se o caso se passou na “facha” da esquerda ou direita se na “faixa” da esquerda ou direita. É que quem o escreveu ou transcreveu usa as duas expressões indiscriminadamente, ficando eu mesmo sem saber, afinal, de que se trata. Gralha ou intencional?

E, já agora, o que é a “facha da esquerda”?

terça-feira, 4 de março de 2008

"Pau Preto"

Trabalhar em audiovisual, seja que suporte for, é um trabalho de equipa.
E a satisfação de cada um dos seus elementos é tanto maior quanto maior for a qualidade de cada um dos restantes. Tenham a função que tiverem.
Ao longo dos anos posso dizer que tive o privilégio de trabalhar com algumas das melhores que se foram organizando. Técnicos, criadores, realizadores e interpretes.
E um dos trabalhos que mais gozo me deu, e que ainda hoje me enche de orgulho de ter nele participado à minha medida enquanto operador de câmara, foi “Pau preto”. Uma peça de teatro televisiva, realizada por Oliveira Costa, em 1989.
Não apenas o resultado plástico nos proporcionou prazer em fazer como, ainda hoje, tenho satisfação em ver o seu resultado.

Mas, bem mais importante que isso, foi o facto de ter sido dos primeiros trabalhos neste país que abordou, de uma só vez, uma série de temas então tabus. E que ainda hoje o são, em parte:
Guerra colonial, descolonização, o êxodo de África, racismo, prostituição, homosexualidade…
E se os últimos três temas, de uma forma ou de outra, vão sendo abordados e a posição da sociedade portuguesa é cada vez mais tolerante e aberta, em relação aos primeiros nem tanto.
O peso na consciência que por cá grassa em relação à guerra, à forma como a descolonização foi feita e as suas consequências lá como cá, o problema do acolhimentos dos que de lá fugiram, e as recriminações de parte a parte, os dramas que se viveram no momento e à posteriori…
Tudo isto ainda não é assunto que se possa abordar à-vontade por cá que, tal como o pecado original, ainda há muitos o que evitam por traumas ou remorsos.

Apesar disso, em 1989 houve quem tivesse a coragem de não apenas o escrever como em aceitar passa-lo para suporte televisivo. E transmiti-lo.
Para essas pessoas, o meu aplauso.
E em particular para o seu realizador, Oliveira Costa, que soube dar forma magistral ao tema.
Aos que se derem ao trabalho de ver este vídeo note-se como, ao invés das tendências cinematográficas e videográfias de agora (e de então), a narrativa é feita não com recurso a mudanças de plano a cada dez ou vinte segundos, mas antes deixando os actores representar, movimentarem-se entre si e com a câmara, sendo esta ao mesmo tempo cúmplice e espectadora. Quanto tempo dura um plano? O necessário e suficiente para que a acção aconteça, explícita ou implícita.

Pau Preto”, um trabalho que deverá constar nos anais da historia do audiovisual Português!


segunda-feira, 3 de março de 2008

E que nome dar a isto?


Para quem acha que vai tudo bem ou quase por cá, por este jardim à beira mar plantado e mal amanhado, desengane-se. Quando não, veja-se:

Temos tido, recentemente, diversas manifestações de desagrado por parte de organizações políticas e laborais, em relação às medidas tomadas pelo actual governo. Centralizadas na capital ou espalhadas pelo país, todas têm vindo a espelhar mais ou menos espontaneamente aquilo que muita gente pensa e sente no quotidiano.


Até aqui nada de muito novo, que todos os governos de todos os países têm tido situações destas, desde que eleitos democraticamente e onde a livre manifestação seja um direito exercível.
A estas declarações e manifestações tem o governo respondido através dos canais habituais – os media – com afirmações onde se declara firme e não sujeito a pressões de rua.
Também nada de novo. Todos os governos são razoavelmente autistas. E não costumam ceder a pressões vindas da oposição ou dos populares. Em regra, quando estas se tornam demasiadamente fortes e ruidosas, acaba por cair – o governo.

O que não é nada comum, pelo menos por cá é, na sequencia destas manifestações, recorrer às bases de apoio partidárias para tentar calar ou abafar as vozes discordantes.
Marcou o partido da maioria um comício político (Caramba, há quanto tempo não ouvia ou escrevia esta expressão!) para uma semana depois de manifestações – previstas - de protesto por parte de uma classe laboral.
Assim, no lugar de ter que vir a terreiro com argumentos difundidos nos media, faz com que os seus simpatizantes e militantes façam passar a palavra governamental.
E isto é que é mesmo uma novidade nas técnicas de governar e fazer política. Pelo menos nos últimos decénios e por cá.

Resta saber se os militantes comparecerão, mostrando-se solidários com quem os convoca ou se, por outro lado, também entre eles haverá quem discorde das práticas e orientações dele emanadas.

Propaganda


Sabão?
Seguros?
Telemóveis?
Perfumes?
Supermercados?
Salsichas?
Nada disso!
Religião!


Pedaço de um cartaz afixado nas paredes da estação da CP cá do meu bairro, promovendo um reunião religiosa.

domingo, 2 de março de 2008

Fisgas


Posso dizer, sem parecer que me estou a vangloriar, que no fim de contas acabei por ter alguma sorte.
Nado e criado na cidade, cedo aprendi a viver entre o betão e os escapes, conhecendo as esquinas, as passagens, os cruzamentos, os trajectos dos autocarros.
Mas, por este ou aquele motivo, ainda consegui apanhar algum dos conhecimentos de aldeão. Não muitos, mas alguns.
E se foi coisa que aprendi cedo o fazer e usar uma fisga. Escolher a madeira biforcada, sem nós, não quebradiça ou flexível, com hastes direitas e abertas; a cortar certinho as câmaras de ar de bicicleta, que eram bem melhores que as de automóvel; a dar-lhes o nó certo, robusto e não volumoso; a cortar e ajustar o pedaço de couro (os calcanhares de sapatos velhos eram os melhores ou, em alternativa, o que sobrava dos sapatos de ginástica) onde a pedra iria aninhar-se antes de projectada…
E sabia fazê-las e sabia usá-las. Não sendo um mestre no tiro, saía-me menos mal e as latas iam caindo com frequência. Por vezes também os vidros, mas sempre por acidente, garanto. Em seres vivos, de duas ou quatro patas ou com penas, nunca atirei. Fiz várias coisas erradas e muito erradas na vida, mas esta não.

Hoje, quem quiser uma fisga basta passar por um armeiro, por uma grande loja de brinquedos ou, espantai-vos, por lojas de artesanato.
Já prontas, com os elásticos industriais colocados e simétricos, bastaria municiar, esticar e atirar. Mas não creio que estas fisgas de hoje, bonitas e torneadas na máquina, consigam fazer grande estrago, que a boca da forquilha é demasiado pequena. E recortadas com serra eléctrica de uma tábua de pinho, não creio também que se possa aplicar grande força nos elásticos. Pelo menos eu não arrisco, para minha própria segurança.

Mas aquilo que eu garanto, sem margem para erros, é que estas fisgas industriais não darão a quem as usar o gozo de as saber feitas pelas mesmas mãos que as manuseiam ou, em alternativa, terem sido sofrida e honrosamente ganhas em torneios de tiro à lata.
Mas também nenhuma delas dizia então “Portugal” de um lado e “Sintra” do outro. O mais que poderiam ter seria, gravado com a ponta do mesmo canivete que a montara, as iniciais do artesão.
Que há que ter orgulho no nosso próprio trabalho!

sábado, 1 de março de 2008

“É verdade, é! Li num livro que sim!”



Esta frase ouvi-a eu, meio distraído, no autocarro a caminho de casa. A minha mente ia mais virada para o que tinha lido de manhã, no comboio em sentido inverso e a tomar balanço para retomar a leitura poucos minutos depois.
Mas o tom com que foi dito fez-me regressar de onde estava e prestar atenção ao que me cercava.
A dona da voz peremptória não tinha mais que uns doze anos, tal como as suas interlocutoras. Não fixei o assunto, que talvez não fosse importante, mas tão só a importância daquela afirmação. E a minha satisfação por a ter ouvido, vindo de quem veio.
Para aquelas mocinhas, com aquelas idades, ler algo num livro é a atribuir ao que leram a carga do sacro-santo e nega-lo pecado capital. E, tão ou mais importante, o referente naquela conversa foi um livro e não uma pagina de web ou um programa de TV. Pelo aspecto e pela idade, as tecnologias de informação não lhes serão estranhas, mas o peso da importância de um livro, aparentemente, sobrepõe-se à sabedoria virtual do ecrã fosfórico.
E isto é tanto mais satisfatório para mim quanto a leitura é um dos meus vícios e prazeres, ainda que, para minha tristeza, não lhe possa dar o tempo e atenção que gostaria. Mas sempre o vou fazendo, em pausas acompanhadas de cafeína e nicotina (cada vez mais difícil esta conjugação) ou embalado pelo trepidar das férreas rodas do quotidiano trajecto de e para a labuta.

No meu saco tenho sempre um ou dois livros, entremeados com o caderno de escrita, o tabaco de reserva, a câmara fotográfica, papeis em tempos úteis e agora não tanto e tantas outras ninharias.
Mas, apesar do peso, quando calha passar por uma livraria sempre entro e dou uma olhada. Rara é a vez que não acabo por aumentar a pilha dos que tenho por ler aqui por casa. Das pilhas, em boa verdade.
Pois um destes dias, em passado por uma das boas livrarias da cidade, não resisti e entrei, dirigindo-me de imediato à secção da fotografia. Tinha este espaço um dos maiores e mais completos catálogos na matéria. E digo “tinha” porque, gradualmente e por força da concorrência feroz das grandes superfícies e das grandes cadeias da especialidade livreira, tem vindo a decair o número de títulos que ali podemos encontrar. Mas, ainda assim, vim de lá com um novo.
Confesso que não gosto de falar de um livro sem o ter acabado. Nem sempre o início tem um tão bom fim, ou as promessas da introdução acabam por se tornar sensaboronas e insípidas. Não é o caso deste.
Escrito por Laurent Gervereau em 1996, o “Ver, compreender, analisar as imagens”, publicado nas Edições 70, Lisboa, acaba por ser um livro bem apaixonante sobre o tema, pese embora a frequentes citações e referencias a outros autores. Em qualquer dos casos, é dos mais fáceis de ler que encontrei sobre o tema sempre complexo que é a semiótica e a análise de imagens.
Sendo que tenho cerca de um terço do livro lido, e porque vem a propósito no contexto de uma discussão sobre fotografia, cito uma pequena passagem, logo na página 20:

Erwin Panofsky […] insiste na especialidade da obra de arte: “Qualquer objecto pode ser visto esteticamente, e a maioria das obras de arte pode, segundo determinado ponto de vista, ser vista como objectos práticos. Mas aquilo que distingue a obra de arte de qualquer outro objecto é o facto de ela ter a “intenção” de ser considerada esteticamente.”

Faz muito tempo que procurava uma definição de arte. Tentei eu mesmo criar uma, na falta de encontrar algo que me satisfizesse e aos meus conceitos. Falhei, claro, que “a arte e o engenho” para tal não chegaram. E eis que encontro algo de muito plausível e simples.
Talvez que contradiga o que alguns autores de renome afirmam muito sabiamente. Mas…

É verdade, é! Li num livro que sim!