quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Normalidades



Caminhava calmamente pelo corredor, saindo da luz do sol e entrando na obscuridade das lâmpadas do centro comercial.
Entre o seu cabelo alvo, já um pouco rarefeito, e o casaco de cabedal um pouco coçado, um bigode farfalhudo e bem aparado compunha-lhe a cara.
A sua mão esquerda apoiava-se numa bengala, que manuseava com destreza, bem a compasso do seu caminhar e parar.
Porque ele parava! A cada meia dúzia de passos olhava para quem lhe estivesse mais próximo e cantava-lhe. Desafinado e já com falta de voz, repetia sempre os mesmos acordes e o mesmo verso antigo de nem sei quantos anos:
Et maintenant, que vais-je faire…
Eu, bem como os demais que ali estavam a almoçar, olhámos uns para os outros, meio espantados como insólito da situação. Mas nem a empregada que ali atendia, nem o segurança a uns metros de distância, lhe prestaram atenção. Deduzi que se trataria de um frequentador habitual do espaço, como tantos outros reformados que usam os centros comerciais como forma de matar o tempo que lhes sobra.
Este… bem, este ainda verbaliza o seu problema, de quem se viu sem ocupação e, talvez, sem com quem partilhar a sua amargura.

É tão difícil – e absurdo – definir normalidade!

By me

terça-feira, 21 de novembro de 2017

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O que eu oiço, esqueço.
O que eu vejo, lembro.
O que eu faço, sei.

As duas primeiras fazem parte do sistema de educação.
A terceira do sistema de aprendizagem.

Enquanto nos referimos à educação e não à aprendizagem, fica tudo na mesma.

Na escola e na vida!
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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Leituras (outras)



Era noutros tempos. Em boa verdade, em tempos de má memória.
Mas, mesmo nesses tempos, muito se aprendia e muito serviu de base ao que somos hoje. Ainda que nem sempre da melhor maneira.
Uma das coisas que se consumiam em minha casa eram jornais. Não muitos, que o dinheiro não abundava. Não muitos, que a maioria das notícias chegavam-nos após o lápis azul da censura. Mas alguns.
E, durante algum tempo, o Diário de Lisboa fazia a sua aparição em casa regularmente aos sábados.
E se outro motivo não houvesse, as crónicas da “Guidinha”, de Luís de Sttau Monteiro eram lidas com sofreguidão.
Aprendi a lê-las com os adultos. Aquela forma de escrita, sem pontuação alguma que não fosse o ponto final no fim da crónica, era algo que atrapalhava qualquer um a ler.
Mas foi também com isso que aprendi a ler nas entrelinhas, que aprendi o que era a interpretação de um texto para teatro, o que eram outras vidas e censuras que não as do meu próprio bairro e escola.
Os meus professores de Português não gostavam, quando lhes apresentava redacções com as ideias tão intercaladas, tão baralhadas, que poderiam ter mais que uma leitura. E tinham! Excepto uma que tive, de quem eu não gostava nem um nico, mas que ficava a olhar p’ra mim meio de lado e com um muito ligeiro sorriso.
Não creio que aquela escrita ou estilo hoje tivesse o sucesso que teve então. Não há que esconder ideias de censores absurdos, os jornais já não são consumidos da forma que eram e a própria leitura está a perder terreno face às tecnologias de informação.
Mas parar para pensar perante um texto, tentar descobrir-lhe o escondido, rirmo-nos daquilo que não podemos contar fora de portas…
Outros tempos!

Surge esta memória a propósito de um pequeno diálogo tido on-line com alguém que teve a sorte de já não ter que recorrer a esta forma saber as notícias.
No meio de tudo isto, a minha tristeza é nem desconfiar do local onde tenho guardado o livro que re-editou algumas dessas crónicas.


Fica a imagem da capa, palmada da net.

By me

domingo, 19 de novembro de 2017

Rumos



Porque é que chegámos ao ponto em que chegámos, tanto na questão económica quanto no que respeita ao respeito que as instituições governamentais têm pelos cidadãos? Fácil!
Porque, ao longo dos tempos, temos passado carta branca a entidades privadas (partidos) para que, supostamente em nosso nome, decidam por nós.
E, ao passarmos essa carta branca, não apenas nos desligamos da gestão do país, como autorizamos que as decisões sejam tomadas e executadas à revelia da vontade do povo. O tal povo que lhes deu carta branca.
Quando os representantes do povo não deverem mais obediência ao seu partido que a quem os elegeu;
Quando dos cidadãos realmente se interessarem pelos actos que os seus representantes vão fazendo, fiscalizando-os e questionando-os directamente e não apenas e ficticiamente de quatro em quatro anos;
Quando os eleitos possam ser responsabilizados pela lei por má gestão da coisa pública…
Nesse dia não estaremos no fundo de um buraco com políticos a olhar para nós mas no rebordo do buraco a olhar para o fundo.


Até lá, até a democracia estar – de facto – nas mãos do povo, teremos que a tomar nas mãos e pensarmos que leis e decisões que não reflectem a vontade soberana do povo são más leis. E que, como tal, para além de terem que ser alteradas, não lhes devemos obediência.

By me

sábado, 18 de novembro de 2017

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Diz o título da notícia que:
“Situação salarial é ‘insustentável’, insiste Conselho Superior de Magistratura”

Sugeria que recebessem o salário mínimo nacional durante seis meses.
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Atitudes



Quando eu era catraio, ia sozinho de autocarro para o liceu. Dois autocarros para cada lado, com mudança a meio.
Muitas vezes não embarquei no segundo para poupar o dinheiro do bilhete. Quando o tempo o permitia, eu não estava atrasado e tinha algo em mente para comprar, gulosamente cobiçado nalguma montra. O segundo e terceiro factores eram recorrentes, que sempre gostei de chegar a horas e o orçamento familiar era bem apertado.
Os autocarros de Lisboa de então eram bem diferentes dos de hoje. Verdes, alguns de dois pisos, alguns de porta atrás, aberta por onde se podia subir ou descer em andamento se a velocidade e a coragem o permitissem.
E tinham lotação limitada. Ao contrário de hoje, em que se entra nos autocarros urbanos desde que se caiba, na época apenas viajavam se houvesse lugar sentado ou um dos quatro lugares de pé, bem identificados numa placa à entrada do veículo. Fazíamos sempre contas de quantos saíam e de quantos estavam à nossa frente na fila para entrar, tentando saber se a sorte nos batera à porta ou se teríamos que aguardar pelo seguinte.
E eram velhos, os autocarros. Pelo menos nas carreiras que eu frequentava. Conservados na medida do possível, alguns pediam reforma urgente, muito urgente. O fumo que emanava dos seus escapes e as queixas dos seus motores não deixavam azo a dúvidas.
Nesse meu trajecto escolar, os veículos eram sempre os mesmos nas mesmas horas e carreiras. Já os conhecíamos. Não sei se lhes dávamos nomes, mas já lhes conhecíamos as manhas e dificuldades.
Havia um pedaço numa rua íngreme de maior dificuldade na subida. E um dos autocarros, quando com a lotação completa, recusava-se a fazer aqueles talvez vinte metros. O motor esganiçava-se, rugia, mas não havia meio de subir. Mas já o conhecíamos, bem como a solução.
Em o ouvindo assim, saíamos (era um dos de porta atrás, aberta) e o bom do autocarro, aliviado da carga, lá conseguia vencer a ladeira. Parava no cimo, regressávamos ao seu interior e seguiamos viagem.
Interessante factor, quase que impossível nos dias de hoje, é que regressávamos todos aos mesmos lugares que ocupávamos. E quem ia de pé, de pé continuava. Sem protestos e, por vezes, com algum humor entre todos, cobrador incluído.


A imagem? Roubada da net, um desses autocarros de porta atrás, fotografado, suponho, aquando da construção do metropolitano de Lisboa, uns bons anos antes da história contada.

By me

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Liberdade



E porque se aproxima a realização de mais uma “Feira do livro de fotografia”, aqui fica um texto de arquivo sobre o evento, escrito há três anos.

Uma ocasião pediram-me para usarem esta fotografia numa revista electrónica.
Claro que me senti lisonjeado e acedi, com a ressalva que ela tinha sido feita em torno do soneto “Liberdade querida e suspirada”, de Bocage, e que deveria ser publicada junto com ele. Acederam.
Qual não foi o meu espanto quando vejo, tempos depois, o referido soneto escrito sobre o lado esquerdo da fotografia. Letras brancas sobre o fundo escuro.
Não gostei. Nem um nico. Que, ao fazê-lo, todo o jogo claro/escuro que eu tinha criado se perdia com a mancha branca das letras. Não gostei!
Disse-o a quem o havia feito, tive que insistir e ser veemente e, vantagem dos processos digitais e on-line, foi alterado: o soneto escrito ao lado da fotografia, ambos impolutos e originais.
Não aceito que um editor de uma publicação subverta assim o trabalho criativo de um fotógrafo, seja o trabalho bom ou mau.
Sendo dado como pronto pelo autor, qualquer alteração sobre ele é criar nova obra, já não passível de respeitar a ideia original. Não aceito!

De igual modo não aceito que fotografias sejam impressas a duas páginas. Numa revista talvez escape, tal como num jornal. Mas não, de forma alguma, num livro.
A união das folhas, e porque a lombada e espessura do livro assim o obriga, impede o ver-se continuadamente todos os elementos (objectos, formas, cores, luzes, movimentos) que constam na imagem, desvirtuando-a e criando outras formas de leitura.
Uma fotografia impressa a duas páginas não é a fotografia original mas antes uma outra, com outro “ritmo”, gestão de interesses, sentidos de leitura, fraccionando-a mesmo.
E se o fotógrafo que a criou quis colocar algo em determinado ponto do espaço, desvalorizando todos os outros, não faz sentido, melhor, é um aviltar o trabalho original o impedir essa leitura ou importância.
Não gosto, não quero, não consumo!

Vem tudo isto a propósito de ter estado na “Feira do Livro da Fotografia”, em Lisboa. E que ainda decorre hoje, Domingo.
Nesta feira, entre outros aspectos, dá-se ênfase aos trabalhos de autor, às publicações que, mesmo com tiragens reduzidas, representam as abordagens de fotógrafos contemporâneos que usam este meio para divulgar os seus trabalhos. A sua forma de ver e sentir o mundo. Só posso aplaudir.
Acontece que alguns destes trabalhos exibem imagens a duas páginas. Impedindo o acesso integral à fotografia original.
Comentei isso com uma das pessoas que estava numa das bancas e a resposta surpreendeu-me. Ou não.
Perante o meu “Porque é que insistem em publicar fotografias a duas páginas?”, ouvi:
“Ah… e tal… é para dar ritmo ao livro… um livro não é apenas as fotografias exibidas, também tem personalidade própria…”
Ora batatas!
Então quando escolhemos um livro estamos a querer ver as fotografias de um determinado fotógrafo ou estamos a querer ver o trabalho de um determinado editor ou paginador?
Não questiono o trabalho destes. Ao fim e ao cabo, o tamanho das páginas, a ordem pela qual as fotografias são exibidas, se na página esquerda se na direita, se ao alto ou ao baixo, se todas com a mesma orientação ou salteadas… tudo isto faz parte do trabalho criativo de quem concebe e pagina um livro.
Agora, por favor:
Não queiram, com o pretexto da criatividade do paginador ou editor, subverter, adulterar, estragar, o trabalho de quem fotografou e que, no fundo, é a razão de ser do livro em si.

Vim da Feira da Livro da Fotografia com cinco livros. Que me deixaram com a carteira mais leve mas com a alma bem mais alegre. Trabalho de autor, compilações, texto, localização geográfica, históricos.
Mas nenhum com fotografias a duas páginas.



A liberdade criativa de um termina quando começa a liberdade criativa do outro!

By me

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

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Um dos momentos altos na minha carreira profissional, que nunca esquecerei, foi ter tido na minha objectiva e em simultâneo José Saramago, Chico Buarque De Holanda e Sebastião Salgado.
Três “monstros” da cultura e artes. Grandes por aquilo que fazem ou fizeram, muito para além do que dizem deles jornalistas e políticos.

Senti-me esmagado perante tamanha grandeza e agradecido por ter enveredado por este ofício.

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Saiba-se que usamos muito menos músculos faciais para fazer um sorriso que para fazer uma cara de zangado ou triste.

Em tempo de crise, poupe-se energia!
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Maquinetas



E a pergunta é:
Será que em Madrid, Lima ou Buenos Aires aceitariam ter num ministério, numa escola pública ou numa estação de televisão nacional, uma maquineta de café automática com dizeres em Português?
Suponho que levaria uma corrida em regra, recambiada para o distribuidor com uma reclamação pouco simpática.

Então porque nos querem impor tal objecto?

By me