segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

domingo, 21 de janeiro de 2018

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“Onde é que compraste esse livro? Numa livraria?”
“Bem, eu tentei num retroseiro, mas o mais parecido que havia era o catálogo das lãs, linhas e agulhas. E já era do ano passado.”
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Oráculo radical



Vivemos num mundo de imagens. Algumas bem claras e inequívocas, como a fotografia, o cinema e o vídeo. Outras, meros códigos ou convenções, como os sinais de trânsito ou os ícones informáticos. Outras ainda de interpretação nem sempre imediata, como é o caso dos logótipos comerciais.
De uma forma ou de outra, este produzir e consumir imagem tem por objectivo a simplificação da comunicação. Dentro da linha de “uma imagem vale mil palavras!”
E a evolução e a complexidade da tecnologia também assim o impele e obriga. Quem se recorda, no caso dos computadores, das linhas de comando complexas, com palavras, letras e sintaxe rigorosas? Hoje o consumidor banal desconhece-as, usando tão só imagens e códigos visuais coloridos. Tal como noutras máquinas, os painéis de controlo são essencialmente compostos de símbolos e ícones, no lugar de palavras ou letras. Gradual mas firmemente, a imagem vai substituindo a palavra escrita.
E se isto sucede nos comunicadores formais de grande volume (industriais, media, audiovisual), sucede também com os comunicadores de pequeno porte mas a quem se destinam os primeiros: os consumidores individuais.
A tecnologia da imagem (fotografia, vídeo, infografismo) está ao alcance de quase qualquer um nas sociedades ocidentais, sendo que a sua posse e uso se torna quase que um símbolo de posição social, tal como o automóvel ou a marca de roupa que se veste.
A própria comunicação escrita convencional – a palavra – está a sofrer mutações. A técnica vai permitindo substituir as palavras e letras por símbolos gráficos – ícones de emoção, animados ou estáticos. Ou, mais simples ainda e menos tecnológico, a quantidade de letras usada na escrita vai diminuindo, com siglas, contracções e aglutinações.
De uma forma ou outra, a sociedade tecnológica e de consumo em que vivemos nos chamados “países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento”, a palavra escrita vai definhando em favor da imagem ou do grafismo visual.
Indo ainda mais longe e fazendo futurologia radical, estou em crer que dentro de algumas gerações (quatro, cinco, seis?) a escrita como a conhecemos hoje será um atavismo, usada apenas por lentes e estudiosos. Talvez também em documentos formais ou oficiais.
Esta hipotética evolução que antevejo não é nem boa nem má: é evolução. Mudanças nos hábitos e culturas, levadas a cabo pela tecnologia e globalização, tal como os copistas monásticos e o iluministas o foram com o advento da imprensa.

Mas, no meio de tudo isto, nesta sociedade em mutação baseada na imagem e comunicação, falha um aspecto vital: a preparação dos cidadãos.
A formação académica de base, de crianças e jovens, baseia-se nas letras e palavras que ainda são a base actual da comunicação.
Mas não os prepara para saberem produzir ou consumir imagens. Prepara-os para saberem interpretar um texto escrito (por um romancista, jornalista ou um formulário) mas não para saberem ler uma fotografia, interpretarem um filme ou vídeo, descodificarem publicidade. E se não o souberem ler, interpretar, descodificar, serão estes agora jovens, futuros adultos analfabetos. E serão alvos fáceis para os que, em sabendo-o, usem desse conhecimento em favor dos seus interesses económicos, políticos, ideológicos de qualquer género.

A cultura dos códigos iconográficos e da imagem está já aí! Sem que a maioria de nós de tal se aperceba. E um povo ignorante, inculto, desatento, é o sonho de qualquer governante, magnata ou líder religioso: dócil e obediente!


By me

sábado, 20 de janeiro de 2018

Manias



“Olha lá! Porque diabo é que tu nunca usas o canal da direita aqui, ao sair do Metro? Fica mais perto da escada de onde vens e mais perto da escada para onde vais!”
“Sabes, aquele é um canal especial. Certo?”
“Sim, e daí?”
“É um canal mais largo, para dar passagem a quem acompanhe crianças, p’la mão ou num carrinho, ou transporte volumes, ou use cadeira de rodas ou muletas…”
“Sim! E o que é que isso tem a ver com o caso?”
“Repara que só há um canal destes para cada conjunto de escadas. Já dos outros, dos normais e mais estreitos, com a largura que nos chega, há uns quantos.”
“Certo. Mas ainda não percebi.”
“Ora sendo que estes canais possuem partes mecânicas para abrir as portas e partes electrónicas para lerem os cartões ou bilhetes. E qualquer um dos sistemas pode avariar, por muito robusto e bem construído que seja.”
“E em que é que isso te impede de o usar?”

“Acontece que quantas menos vezes for usado menor a probabilidade de avariar. E só há um canal destes. Em avariando, o incómodo para quem dele necessite é enorme. Já os poucos passos extra que dou para usar um dos outros, que são vários, em nada me incomoda. Prefiro o meu incómodo, pequeno que é, que o ver alguém numa cadeira de rodas a não conseguir sair. Manias!”

By me

Two ways of life



Oscar Gustave Rejlander, 1813-1875
De tanto se falar e usar hoje das e nas técnicas fotográficas, esquecemo-nos ou ignoramos o que era fazer fotografia sem o “undo” ou o “delete”. Ou mesmo o trabalhar tranquilo a uma secretária, com a bebida favorita ao lado e ouvindo a música de que gostamos.
Esta fotografia, de forte cariz moralista e de enorme influência da pintura, foi feita em 1857. Intitula-se “Two ways of life”.
Porque as condições técnicas dos suportes e de iluminação não eram o temos hoje, foi realizada com trinta fotografias diferentes, posteriormente juntas em laboratório.
Conseguem imaginar quanto tempo terá demorado a conceber, fotografar e editar esta imagem?
Por algum motivo algumas impressões desta fotografia constam dos acervos de vários museus.

Da próxima vez que pegarem numa câmara fotográfica, mesmo antes de premirem o botão “power”, parem para pensar um nico.

By me

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018



“A Câmara Clara”, por Roland Barhes
“…
Pode acontecer que eu seja olhado sem o saber e disso não posso ainda falar, uma vez que decidi tomar como guia a consciência da minha inquietação. Mas, muitas vezes (demasiadas, quanto a mim), fui fotografado com conhecimento. Ora, a partir do momento em que me sinto olhado pela objectiva, tudo muda: preparo-me para a pose, fabrico instantaneamente um outro corpo, metamorfoseio-me antecipadamente em imagem. Esta transformação é activa: sinto que a Fotografia cria o meu corpo ou o mortifica a seu bel-prazer (apólogo desse poder mortífero: alguns communards pagaram com a vida a sua condescendência em posar nas barricadas; depois de vencidos, foram reconhecidos pelos polícias de Thiers e quase todos fuzilados).
Posando diante da objectiva (quero dizer, sabendo que estou a posar, mesmo fugidiamente), não arrisco tanto (pelo menos por agora). Sem dúvida é metaforicamente que extraio a minha existência de fotógrafo. Mas esta dependência, por muito imaginária que seja (e do mais puro Imaginário), vivo-a na angústia de uma filiação incerta: uma imagem – a minha imagem – vai nascer; irei ser parido como um “tipo fixe”? Se eu pudesse “sair” no papel como numa tela clássica, com um ar nobre, pensativo, inteligente, etc.! Em suma, se eu pudesse ser “pintado” (por Ticiano) ou “desenhado” (por Clouet)! Mas como aquilo que eu gostaria que fosse captado é uma textura moral fina, e não uma mímica, e como a Fotografia é pouco subtil, salvo em muito bons retratistas, eu não sei como agir do interior sobre o meu aspecto. Decido “deixar pairar” nos meus lábios e nos meus olhos um leve sorriso que pretendia “indefinível”, no qual daria a ler, juntamente com as qualidades da minha natureza, a consciência divertida que tenho de todo o cerimonial fotográfico. Presto-me ao jogo social, poso, sei isso muito bem, quero que também o saibam, mas esta mensagem suplementar não deve alterar em nada (no fundo, a quadratura do círculo) a essência preciosa da minha individualidade, aquilo que sou, para além da efígie. Gostaria, afinal, que a minha imagem móvel, atormentada entre mil fotos mutáveis consoante as situações, a idade, coincidisse sempre com o meu “eu” (profundo, como se sabe); mas é o contrário que é preciso dizer: sou “eu” que nunca coincide com a minha imagem, porque é a imagem que é pesada, imóvel, obstinada (aquilo em que a sociedade se apoia), e sou “eu” que sou leve, dividido, disperso e que, como um ludião, não fico quieto agitando-me no meu bocal. Ah, se ao menos a fotografia pudesse dar-me um corpo neutro, anatómico, um corpo que não significa nada! Infelizmente, sou condenado pela Fotografia, que julga fazer bem ter sempre um semblante: o meu corpo não encontra nunca o seu grau zero, ninguém lho dá (talvez só a minha mãe? Porque não é a indiferença que retira o peso da imagem – nada como uma fotografia “objectiva”, do género Photomaton, para fazer de nós um assassino, procurado pela polícia – é o amor, o amor extremo).
Ver-se a si mesmo (sem ser num espelho), à escala da história, é um acto recente. O retrato, pintado, desenhado ou miniaturizado foi, até à difusão da Fotografia, um bem restrito, destinado, aliás, a marcar um estatuto social e financeiro. E, de qualquer modo, um retrato pintado, por muito semelhante que seja, (é o que falta provar), não é uma fotografia. É curioso que não se tenha pensado na perturbação (de civilização) que este acto novo trás. Gostaria que houvesse uma História dos Olhares. Porque a Fotografia é o aparecimento de eu próprio como outro, uma dissociação artificiosa da consciência da identidade. E ainda mais curioso: foi antes da Fotografia que os Homens falaram da visão do duplo. Aproxima-se a heautoscopia de uma alucinose; durante séculos, ela foi um tema mítico. Mas se hoje é como se recalcássemos a loucura da Fotografia: ela só recorda a sua herança mítica por esse leve mal-estar que sinto quando “me” vejo num papel.

…”

Imagem: me by me

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Carne para canhão



Os grandes confrontos entre exércitos faziam-se com linhas de homens que avançavam sobre o oponente, disparando as suas armas.
Acontece que estas eram de pólvora negra, de carregar pela boca, de um único tiro. Depois de disparadas, haveria que deitar pólvora pela abertura frontal do cano, acrescentar o projéctil, calcar tudo com uma vareta e garantir a existência do sistema de ignição na câmara: inicialmente por pederneira, mais tarde por fulminante.
Disparava a primeira linha, avançava a segunda para disparar enquanto a primeira iniciava o remuniciamento, avançava e dispara a terceira enquanto a primeira terminava o carregar da arma, avançava a primeira…
Quando a distância entre as linhas adversárias era muito pequena, passava-se à luta corpo a corpo, de espada ou baioneta, esta colocada na ponta do cano da espingarda ou mosquete.
Mas se este avanço era táctico, para tomar uma posição inimiga, estes estariam equipados com canhões. Que eram municiados também pela boca da arma. Mas que disparavam sobre as linhas inimigas que avançavam, dizimando-as as mais das vezes.
Neste tipo de confronto bélico, a primeira vaga de assalto tinha uma taxa de sobrevivência diminuta, menos de dez por cento, ao que sei.
E era a esta vaga, conjunto de três linhas, que se dava o nome de “carne para canhão”. Que se sabia ser dizimada pelos canhões inimigos e que era o preço para que as linhas seguintes chegassem ao corpo a corpo.

Hoje a pólvora negra é usada apenas em espectáculos pirotécnicos. As armas de carregar pela boca (mosquetes, revolveres de acção simples ou canhões) já não são mais que peças de museu. E a carne para canhão já não se espalha pelos campos de batalha da mesma forma.
Mas continua a existir, a carne para canhão.
Às ordens dos generais dos mercados e dos marechais da política, a carne para canhão somos nós, que vamos tombando nos campos de batalha económicos, vítimas das ofensivas bancárias e geopolíticas.
E com a ilusão da “doce morte do herói” continuamos a marchar armados de notas, moedas, contratos e consumos.
Os generais de hoje já não têm estrelas nos ombros, não vestem de caqui nem possuem cavalos brancos.
Mas nós continuamos a alimentas essas guerras, caindo na frente de combate às ordens desses que não saem dos gabinetes estratégicos.
Continuamos a ser a sua “carne para canhão”.
Até que um dia espetemos no chão as baionetas, deitemos fora as munições e enterremos as carteiras com notas e cartões.



Imagem: “Harvest of death”, de Timothy H. O’Sullivan, 1863, Gettysburg, USA
By me

Sensações



Parece que o sentimento de insegurança diminuiu na população portuguesa.
Dados comparativos entre o ano 2012 e o ano 2017.
Faz sentido!
Pedro Passos Coelho tinha subido ao poder no ano de 2011 e saiu em 2015.



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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Um brinde especial



Aprendi, já nem sei onde nem quando, que a civilização Romana se manteve em tempo e área porque aceitava os usos e costumes dos povos conquistados. Incluindo a religião.
Aliás, parece que adoptava para si os deuses que encontrava entre esses povos, fazendo-os entrar no seu universo mitológico.
E, ao que julgo saber, o seu medo de ofender os deuses era tal que terá construído um templo em honra dos deuses desconhecidos, onde iriam fazer oferendas de tempos a tempos. Só mesmo para garantir que não escapava nenhum.
Por mim, agnóstico que sou, ergo a minha taça em honra de todos os deuses, conhecidos ou não, agradecendo o que me têm proporcionado nos últimos tempos.

E àquele que, um dia, me deu um pontapé fazendo-me sair de casa no lugar de ficar na ronha essa tarde, um agradecimento especial.

By me

Compra de sapatos



Eu sei que sou um chato! Se em alguns aspectos sou condescendente até à estupidez, noutros sou exigente até à última pinguinha!
Em geral, a minha indumentária cabe na primeira categoria. Visto o que visto e que tenho mais à mão, sem me preocupar nada se esta peça, com esta cor, joga ou não com aquela outra. Desde que me sinta confortável…
Mas se na minha indumentária haverá aspecto em que sou exigente é no calçado. Não que o seu aspecto seja importante, mas no seu conforto. Afinal é em cima deles, dos pés e dos sapatos, que estou e muitas horas por dia. Calçado desconfortável é algo que recuso, liminarmente. Devo mesmo dizer que tenho aqui um par que, porque o comprei como confortável e acabei por constatar o contrário, estão ali sem uso.
Pois está na altura de comprar sapatos. Não é pressa, que quando os sinto bem nos pés até me custa trocá-los, mas antes que tenha que ser uma decisão rápida, vou olhando para as montras. E se vir um par que aparente o conforto de que gosto trato de saber o preço e, só depois disso, pondero a eventualidade de os comprar. Experimentando-os muito bem, claro.
Foi o caso um destes dias: vi um par que parecia mesmo ter sido feito para os meus pés. E, estando dentro de valores comportáveis, entrei e pedi para os ver e calçar.
Saiu-me na rifa uma menina que, toda simpática e bonitinha de se ver, tratou de ir lá dentro trazer o tamanho que me servia: o 42. Regressa, minutos depois, com um par reluzente na mão, dizendo-me:
“O 42 já não tenho. Mas trago-lhe aqui o 44, pode ser que lhe sirvam.”
Fiquei a olhar para ela, incrédulo. Foi daquelas situações, raras, em que me faltou de imediato a resposta adequada.
Ainda pensei em perguntar-lhe se ela estaria a fazer alguma comparação entre o tamanho que ela gostaria dos meus pés com qualquer outra parte da minha anatomia. Ou ainda sugerir-lhe que ela poderia dar-me uma eficiente e agradável massagem nos pés até que eles crescessem e se adaptassem àquela medida. Mas qualquer uma destas respostas seria, para além de inconveniente, poucos conforme com o meu próprio comportamento e linguajar.
Acabei por ficar com cara de parvo e limitar-se a responder-lhe que muito obrigado, mas que não costumo usar os dois pés num sapato só. E saí, lamentando de mim para mim que era pena que atrás daquele palmito de cara bonito de ver existissem apenas dois neurónios, e que ambos estivessem de férias hoje.
Vou acabar por continuar a usar por uns tempos estes dois, já velhotes, mas que se me fazem aos pés como se pele se tratasse e em que não penso quando os uso. E que, garantidamente, não deixarei abandonados numa qualquer rua do bairro.



By me