terça-feira, 24 de abril de 2018

Direitos e deveres




Esta fotografia tem já uma dúzia de anos.
Tive que recorrer ao EXIF para obter alguns dados técnicos a seu respeito.
A câmara foi uma DSLR Pentax K100d, com uns hoje considerados pobres 6 megapixel. Com um valor ISO de 800 e um tempo de exposição de 1/90.
Não tenho indicação da abertura, o que me leva a concluir (e pelo que sei da minha prática então e agora) que foi usada uma 400mm com um anel de extensão variável para poder ter foco a curtas distâncias. E com recurso a um mono-pé, para estabilidade adicional.
Isto implicou (e implicaria hoje) o recurso a exposição manual, tal como focagem manual. Mesmo que o despolido não possua “split screen” ou micro-prismas. Já a exposição aconteceu baseada na leitura da câmara e respectiva análise e compensação, considerando as áreas claras e escuras no enquadramento.
Tudo isto são deduções baseadas nas informações técnicas da imagem e na minha prática habitual.

Mas aquilo que sei, sem necessitar de recorrer a nenhum arquivo ou informação escondida, é que foi feita sem afectar de forma alguma o insecto.
Ou uma flor, se fosse esse o caso.
Em nenhuma circunstância me arrojo o direito de matar ou mutilar um ser vivo, animal ou vegetal, para meu deleite fotográfico.
Não preciso de EXIF’s para o saber.
O universo, nas suas diversas formas e aspectos, merece e tem direito ao mesmo respeito e cuidado que exijo para mim. E para mim quero vida e liberdade.

E se melhor eu não for capaz de fazer, isso será problema meu e nunca daquilo que fotografo.

By me

.


Há uns anitos valentes vi-me na contingência de ter que fazer uma sebenta de apoio a um curso que dei.
Textos retirados de uns quantos livros, algumas páginas de web e, suprema arrogância, traduzidos por mim com dois ou três adicionais redigidos por mim.
Foi um trabalho de urgência, coisa que se não se coaduna com o conteúdo que eu pretendia.
No entanto o título de tal colectânea era – e é – a pedra de toque: “Olhar, ver, captar”.
Pouco adianta ter as melhores ferramentas, os tuturials mais recentes e os manuais de tudo quanto se possui, se não se souber o que se quer fazer. Mesmo que com inúmeras tentativas e erros (muitos de preferência), “ver com a alma” é o que melhor podemos fazer.
O resto são “improvisos”, melhor ou pior orquestrados.
Restou-me a consolação de tal fraco trabalho o saber que a maioria dos formandos de há quase vinte anos ainda possuem essa sebenta.
.

Improvisos




Oiço muitas vezes gente a queixar-se que não tem o estúdio ou o equipamento que queria para fotografar.
O que eu diria, na maioria dos casos, é que não possuem a capacidade de improviso para fotografarem.
- Um cabo de vassoira, preso nas costas de uma cadeira, para servir de suporte ao toalhete de pequeno almoço pendurado.
- Duas molas de metal para papel para segurarem o toalhete.
- Um cinzeiro, fora de enquadramento, a servir de suporte à haste da flor de madeira.
- Uma janela aberta à esquerda, por onde entra a luz difusa do céu.
- O interior de uma embalagem tetra pack (leite, sumos, bolos…) aberta e não espalmada a servir de reflector da luz da janela.
- Um tripé.
Todas as variantes são possíveis, desde a orientação à proximidade passando pela zona onde a luz reflectida incide.
A imaginação e a capacidade de improvisar é sua, mesmo que a convalescer de uma intervenção cirúrgica.


By me

Alarm




Há quarenta e quatro anos caiu o regime fascista português.
Terminou a polícia política, terminou a guerra colonial, passámos a ser livres de pensar, de falar, de agir, de reunir…
Atrás do militares, e sobrepondo-se a eles, a população portuguesa com mais ou menos conhecimento do que a atormentava, veio para a rua e tomou conta dos acontecimentos.
Engalanámo-nos com cravos, fomos exemplo para o resto do mundo e tivemos os contendores da guerra-fria de olho em nós, não fora alguma coisa “perigosa” acontecer.

Quarenta e quatro anos passados, esta data de “25 de Abril” mais não é que uma memória e a oportunidade de gozar um feriado, de preferência com uma ponte pelo caminho.
Muitos dos que a viveram perderam ou vão perdendo a energia, que quarenta e tal anos é muito tempo, os que a não viveram nunca sentiram o que ela, a revolução, significou.
É apenas mais um feriado, como o 1º de Dezembro ou o 10 de Junho: uns discursos, uns desfiles pitorescos, uns filmes evocativos e pouco mais.

Em boa verdade, mais não deve ser.
As revoluções têm o seu tempo e os seus revolucionários, há coisas que têm que ser mudadas e evitado o seu retorno. Que raramente volta. Da mesma forma!
Mas o espírito que a alimentou, o que fez milhões de portugueses saírem para as ruas, rindo, batendo palmas e chorando de alegria, esse deve ser mantido vivo!
O desejo de que as “classes sociais”, a terem que existir, não estejam tão separadas, que a fome de barriga, de coração e de cabeça não mais retorne, que a sociedade seja solidária por inteiro… Tudo isto deve continuar vivo em cada um.

Mas não está!
Aqueles que mantêm os cidadãos vivos e produtivos fazem-no, as mais das vezes, para que o resultado dessa produção se reflicta, em primeiro lugar, nas mais valias que esses mesmos desejam. E, para tal, aqueles que para eles trabalham têm que se manter em forma e alimentar a produção e a novel competitividade.
A polícia política, enquanto tal, terminou. Mas temos as novas formas de controlo, com as bases de dados incontroláveis nas mãos não se sabe de quem, as intercepções ao tráfego electrónico, a localização dos cidadãos pelo seu telefone móvel, as câmaras de vigilância, a comunicação social veneranda e obrigada aos interesses dos seus empresários, ignorando a nobre tarefa dos media…
O acesso ao ensino superior é generalizado e incentivado, para depois os seus alunos irem fazer qualquer coisa que nada tem a ver com o que estudaram e aprenderam.
O acesso aos cuidados de saúde é cada vez mais difícil e caro, sendo o próprio estado, pelos seus governantes que supostamente representam a vontade popular, a incentivar o recurso aos meios privados.
Aumenta o número de horas de trabalho, diminuindo, em contrapartida, o valor hora que é pago aos que as trabalham.
Cada vez mais a sociedade está virada sobre o seu próprio umbigo, ignorando ou fazendo por ignorar o que se passa ao lado e o termo “solidariedade”!

Por isso, festejar o 25 de Abril pouco mais será que honrar a memória dos que o fizeram. Porque o seus espírito, está morto e enterrado. Ou, na melhor das hipóteses, moribundo!
Pela parte que me toca ainda não sei se o irei festejar. Não por desprezo aos que o fizeram, mas antes porque talvez esteja bem ocupado a tentar preparar um 26 de Abril, 18 de Maio, 29 de Agosto ou qualquer outra data que mereça ser comemorada por mais uns quarenta e tal anos.

Porque ainda acredito que “O povo é quem mais ordena”! E neste momento não consegue ordenar coisa alguma! Apenas julga que sim!



By me

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Sopa




Quando eu era pequeno não gostava de sopa. Mas não gostava mesmo, à imagem e semelhança de muitas outras crianças de aquém e alem mar.
Fazia fita, argumentava, amuava… E só as fortes ameaças (algumas concretizadas) ou brilhantes engodos me faziam deglutir aquela coisa que não era nem liquida nem sólida, que não se bebia nem mastigava. Ainda hoje é um pouco assim.

Aquele dia não foi diferente dos outros. Não queria mesmo comer a sopa! Mas uma ideia brilhante assolou a mente de quem estava comigo e propôs-me um acordo: eu comeria apenas metade da sopa. A metade do lado direito. Com a colher, traçou um risco a meio do prato da sopa e do seu conteúdo e mostrou-me qual a minha metade e qual a metade a deixar ficar no prato.
Aliciado com esta indulgência súbita, ataquei o prato de sopa. Com todas as cautelas, a colher mergulhava exclusivamente na minha metade, deixando virgem a outra. E rapidamente, não fosse mudarem de ideias.
Claro está que quando rapei a última gota da minha metade a outra fora comida também!
Olhei desconsolado para aquele prato vazio, percebendo que a tinha comido por inteiro. E fiquei furioso!
Furioso por ter sido enganado, por ter acreditado em quem deveria acreditar e que me havia enganado!
Furioso por ter aceite um negócio insuspeito e ter sido levado a fazer o que não queria!
Fiquei tão furioso que ainda hoje, passados que são uns cinquenta anos, me recordo do episódio, das circunstâncias, dos intervenientes, das sensações!

Ficou-me de lição! Talvez tenha sido nesse dia que acordei para a hipocrisia e mentira, para os engodos e aldrabices.
Hoje continuo a desconfiar das ofertas muito generosas. Dos bancos, dos vendedores, dos governos, dos empregadores, por vezes até dos anónimos.
Perante as promessas de “apenas metade” lembro-me sempre das outras metades que haveria que engolir a contra-gosto se nelas acreditasse.

Lá diz o povo e com razão: “Galinha gorda por pouco dinheiro, choca vai ela!”



By me

Prazeres


Tenho que admitir que há muita gente que lamento. Demasiadas.
Trata-se gente que não tem o prazer de ler.
É evidente que não é nem uma obrigação nem uma falha importante nas suas vidas. O prazer de cada um é algo que o próprio tem que descobrir e existem inúmeras formas de ter prazer, qual delas a melhor para cada indivíduo.
Mas a leitura de bons livros (e pode-se sempre discutir o que é um bom livro) leva o leitor a um mundo cúmplice com o autor, imaginando tudo o mais que lá não está descrito, criando um universo muito pessoal composto pelas palavras escritas e as imagens mentais que se criam em torno delas.
E o que aprendemos ou apreendemos com a leitura, quer o explícito, quer o implícito, quer mesmo aquilo que resulta da soma dos dois, torna-nos muitos mais ricos. Ricos nas experiências que outros nos proporcionaram, ricos na nossa capacidade de imaginar.
Esta riqueza, muito pessoal, permite a quem lê e tem prazer nisso construir mundos novos, espalhar felicidade, estar melhor consigo e com os outros.
O conceito de felicidade é particularmente relativo. Seja na mesa, no estádio, na pista ou na cama.
Mas lamento haver tanta gente – tanta mesmo – que não conhece esta felicidade: a leitura.
Eu tenho a sorte de ter livros e gente de que gosto por perto.


.

domingo, 22 de abril de 2018

Só para lembrar




Só para relembrar alguns, esquecidos ou ignorantes do passado, que se não tivesse acontecido uma coisa chamada “Revolução de Abril”, não poderiam estar aqui a expor as suas opiniões.
Que a polícia política do regime não o permitiria e daria triste fim a quem o fizesse.



By me

.


Imagem




No constante fazer de imagens do quotidiano, as que são normais, regulares, habituais, vão-se desvanecendo, como papel fotográfico mal fixado, restando delas contornos vagos e imprecisos.
Do que recordo de há 44 anos, para além da festa da revolução por si mesma (o fim da guerra, da censura, da ditadura, da polícia política) ficam as imagens da festa do quotidiano!
Cada dia era um dia, razoavelmente imprevisível e em que as suas consequências dependiam, em boa parte, do que fizéssemos. Não deixávamos o futuro em mãos alheias e intervínhamos, a cada passo, nos que a nós dizia respeito e no que ao colectivo tocava.
Construíamos! Debatíamos! Sonhávamos! Fazíamos!
É esse espírito de construção permanente, de almejar mais e melhor e de fazermos por isso (sem esperarmos que outros o fizessem por nós nem para eles passemos as responsabilidades de tal) que recordo com mais força. São fotografias perfeitamente impressas e fixadas que jamais se desvanecerão. Apesar dos aspectos negativos (que os houve) que aconteceram então e que ainda hoje marcam parte da nossa vida.
No espelho do tempo vejo aquilo que agora faço porque aconteça: intervir na sociedade, estando lá de corpo e alma, melhorando o que de menos bom vamos tendo e celebrando o que de alegre e positivo existe.
Mas quando olho para trás e para o lado, lamento sinceramente que esta atitude interventiva, que então grassava, se tenha desvanecido, qual imagem velha e mal cuidada.
Quando, daqui por 44 anos, olharmos para as imagens deste tempo que vivemos, o que sobrará serão imagens cinzentas ou amareladas, mal fixadas e amarfanhadas.
Por que nesta sociedade, a alegria de ser passou a alegria de ter. E o consumismo dos tempos que correm transforma de um dia para o outro a novidade em velharia, pouco restando para recordar.As fotografias que então fizemos com a alma repassam no tempo. As que hoje vamos fazendo, porque virtuais e efémeras, não sobreviverão à vertigem das novas novidades para consumir!



By me

sexta-feira, 20 de abril de 2018

.


Há coisas que não se escolhem. Por quem nos apaixonamos também não.
Mas posso garantir que, se escolhesse, não poderia ter escolhido melhor!


.